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O ANO QUE MEUS PAIS SAÍRAM DE FÉRIAS
 
O HOMEM QUE ENGARRAFAVA NUVENS
 
 
Meu Nome não é Johnny
"Quando o cinema produz sua própria realidade, filmar deixa de ser um ato irrelevante. Filmar - e principalmente, filmar documentários - modifica o mundo. Sem heroísmo, muito pouquinho, sutilmente, mas modifica".
João Moreira Salles
Oboé Card
EXPRESSO GUANABARA
 Equatorial - Casa de Memória
Rádio Universitária
 
 
 
Música Conduz Reflexão Afetiva sobre Tempo de Carências, Impasses e Temores

* Aurora Miranda Leão

     Acabo de assistir a Contratempo, filme de estréia na direção da atriz Malu Mader, ao lado de Mini Kerti (produtora do belo Socorro Nobre, de Walter Salles).

     Impossível não se comover diante de Contratempo. O filme é uma apaixonada declaração de amor: à Música, ao Rio de Janeiro, aos ilustres compositores brasileiros. E quase um alerta, comovido e comovente: olhem para uma parte enorme da juventude deste país.

     Contratempo é, sobretudo, uma enorme lição de solidariedade, momento de comunhão absoluta entre jovens aprendizes da música, as diretoras do filme e seus produtores, João Moreira Salles e Maurício Andrade Ramos. Para quem está por dentro dos “bastidores” do nosso Cinema, basta destacar a fotografia de Flávio Zangrandi e a montagem de Sérgio Mekler, dois bambas em seus ofícios. Feito este necessário “prólogo”, vamos à obra.

     Desde a escolha do título, passando pela seleção das locações, enquadramentos, músicas, tudo em Contratempo é de uma delicadeza cativante. Há depoimentos tão verdadeiros quanto chocantes, como o de Leandro Serizac (jovem adotado por família estrangeira, cujo pai muito o maltratou), revelando umas tantas vezes nas quais os jovens amantes da música precisaram optar entre sua vocação, o desamor e a violência rondando tão perto – a maioria vive em morros cariocas... Bastas vezes, as lágrimas chegam aos olhos mas não há pieguismo nas cenas. No mais das vezes, é possível observar, por quase todos os lugares onde trafegam os jovens, a presença constante de uma televisão e marcas de cartões de crédito e de outras iguarias da indústria do consumo. A ambiência favorece a visão desse contraste, sempre injusto, onde tantos têm tanto e muitos (mesmo com merecimento natural e talento visível) têm pouco. Ao mesmo tempo, é lindo ouvir as notas de Garota de Ipanema ecoando num bairro da periferia – nada mais carioca que ouvir Tom e Vinícius de Moraes num filme ambientado no Rio - ou o magistral Corcovado de Tom. Uma glória a inclusão dessas duas pérolas de nosso cancioneiro no filme ! Aliás, todo o repertório revela fina sensibilidade, onde destacamos a delícia de conhecer grupos como o Grota do Surucucu, de Niterói, e o Filhos da Marta, do morro entre Botafogo/Humaitá, além da beleza da romântica música A Gente, do jovem Pedro Nascimento...

     Essas nuances contribuem para tornar Contratempo uma obra para ser vista e apreciada não apenas por músicos e/ou amantes da boa música mas por quem quer tenha interesse por qualidade de vida, fraternidade, dias melhores para quem vive/sobrevive fazendo Arte mesmo em condições tão precárias e adversas.

     Malu Mader e Mini Kerti estão de parabéns por terem conseguido fazer um filme de rara beleza, amplo alcance e longevidade atemporal. As duas conseguiram fazer de um tema simples e hoje corriqueiro nas grandes cidades do mundo – os projetos sociais – um manancial relevante e pertinente sobre a vida a se erguer carente, injusta e deficitária, cotidianamente, ao nosso redor, pelos muitos subúrbios e periferias abandonadas do país. Ao terminar o filme, o espectador entende o verdadeiro sentido do título. E, mais uma vez, a emoção domina. Malu e Mini propiciam, através de belas imagens e depoimentos simples e tocantes, uma reflexão involuntária sobre o país que estamos (?) deixando que se erga em volta de nós.

     Vendo aqueles jovens transportei-me a algumas sábias palavras do saudoso e querido cronista Artur da Távola, a quem por certo pareceria, esses jovens estarem descobrindo que compartilhar é a mais feliz experiência e que o mundo só será possível se os homens tornarem a vida uma tarefa de todos. [...] os sons daqueles jovens trouxeram, sobretudo, uma fé que surge como pacificadora e não como justiceira. Como igualitária e não como massificadora. Como certeza de que a vida tem um fluxo, um sentido e uma direção e só quem a descobre, sente ou percebe, consegue transformar-se em consonante com o que é cósmico e universal”, como ele sintetizou em Ainda Existem Crianças Cantando (livro Alguém que já não fui, ed. Salamandra).

     Ao mesmo tempo é possível sintonizar a influência direta, decisiva e benéfica de João Moreira Salles na direção. Quem viu Nélson Freire e Noticias de uma Guerra Particular, dois documentários antológicos de Joãozin, sabe do que estou falando. É como se Malu/Mini estivessem a trilhar, naturalmente, com seu olhar e atitude femininos, caminho análogo ao de João - como se Malu fosse o João de ontem ou como se o João de hoje fosse a Malu de amanhã.

     Oxalá esteja eu certa e as belas sementes espalhadas por João Moreira Salles frutifiquem cada vez mais, disseminando para o cinema documental um viés rico, poderoso, afetivo e necessário, como necessária é a existência da VideoFilmes (instigadora, propulsora e fomentadora) no hoje tão diverso e rico panorama do Cinema Brasileiro.

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HUMBERTO MAURO Visto pelo poeta Ronaldo Werneck

      História, crítica, diálogo, Kiryrí Rendáua Toribóca Opé é um ensaio do poeta e jornalista Ronaldo Werneck sobre o cineasta Humberto Mauro (1897-1983), considerado o “pai do cinema brasileiro”. Diz Werneck, que conviveu durante certo tempo com Mauro: “O livro é uma forma de juntar num só volume tudo o que escrevi (e falei) sobre Humberto Mauro. E ainda abrir um diálogo com os livros de Alex Viany, André Andries, Glauber Rocha, Paulo Emílio Salles Gomes e Sheila Schvarzman, fundamentais para a compreensão da obra do cineasta mineiro. Mais uma tentativa de dar um plano geral sobre o seu mundo – aqueles long-shots de que Mauro tanto gostava”.

     O livro de Werneck abre também espaço para o rico acervo iconográfico existente sobre Mauro e suas ligações com o cinema brasileiro, com registros de grandes fotógrafos como seu filho Zequinha Mauro, além de Edgar Brasil, Paula Gaitán, Ronaldo Theobald, Walter Carvalho e muitos outros. E foca ainda a estrelinha de Cataguases, Eva Nil, sob as lentes de seu pai, o fotógrafo Pedro Comello, além de dedicar duas de suas seqüências para a produtora e estrelíssima Carmen Santos.

     Kiryrí Rendáua Toribóca Opé, “lugar de calma e sossego no Rancho Alegre” é o que dizia a placa em frente à casa do cineasta mineiro Humberto Mauro. A placa, em tupi-guarani, encontra-se também estampada na capa do livro, que fala sobre seu mundo e sua trajetória. Editado pela Arte Paubrasil, a obra é fruto de belo projeto aprovado pelo Programa “Filme em Minas” e tem patrocínio da Cemig, sob auspícios da Lei de Mecenato do Ministério da Cultura - MinC.

     Vale ressaltar a bela "orelha" da obra, assinada pelo respeitado crítico Carlos Alberto Mattos:

     "Ronaldo domina em detalhes a produção e a estética maurianas mas não faz disso um cavalo de batalha. Culto, carinho e conhecimento são aqui indissociáveis. [...] Este livro nada mais faz que partilhar conosco o rico "acervo pessoal" que Ronaldo constituiu a respeito do "pai do cinema brasileiro" e de seu entorno".

     O livro de Ronaldo Werneck sobre Humberto Mauro é, portanto, uma preciosidade, que o Aurora de Cinema recomenda com satisfação.

Saiba mais: www.artepaubrasil.com.br

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INVICTUS: MAIS UM SHOW de CINEMA de CLINT EASTWOOD

* Celso Sabadin

     Na vida real, esporte e política sempre caminharam lado a lado. É só lembrar, por exemplo, dos esforços de Hitler para tentar provar a tal “supremacia ariana”, durante as Olimpíadas pré-Segunda Guerra. Ou da exploração da imagem da seleção brasileira de futebol durante a ditadura Médici em 1970 (idem Argentina em 78), ou ainda do atentado contra atletas judeus nas Olimpíadas de Munique. Isso apenas para citar alguns exemplos. No cinema, porém, talvez nunca o tema tenha sido abordado com tanto talento e emotividade como em “Invictus’, o mais recente trabalho do veterano (e cada vez melhor) Clint Eastwood.

     Não é um filme sobre rúgbi. Não é um filme sobre Nelson Mandela. “Invictus” é sobre a possibilidade da igualdade entre as raças e as condições sociais. Da união entre diferentes. Da tolerância. Enfim, de todas estas maravilhosas utopias que amamos acreditar.

     A partir do livro "Playing the Enemy: Nelson Mandela and the Game that Made a Nation", escrito por John Carlin, o roteiro do sul-africano Anthony Peckhan (também co-roteirista de “Sherlock Holmes”) mostra Nelson Mandela assumindo a presidência da África do Sul, após décadas de cativeiro. O caos domina o país. Violência, desemprego, pobreza, desvalorização da moeda e – pior – um ódio racista que permeia bancos e negros recém-saídos do abominável regime do Apartheid que transformou a África do Sul em vergonha mundial.

     Em meio ao ódio, Mandela (Morgan Freeman, perfeito para o papel) cria uma política do perdão. “O perdão remove o medo, por isso é uma arma tão poderosa”, ele prega. Sua proposta é “supreender o inimigo com tudo o que eles nos negaram”. Mas a maior surpresa dos primeiros dias do novo governo é que, atolado em todos os tipos de problemas, o Presidente prefere dar prioridade à seleção sul-africana de rúgbi, prestes a disputar a Copa do Mundo deste esporte tão estranho aos nossos olhos sul-americanos. A decisão parece absurda, mesmo porque ele sequer é fã do esporte. Mas Mandela tem um plano: ele visualiza naquele jogo o fator que pode integrar a nação desfaçelada, o elo que pode unir bancos e negros… ou a pátria de chuteiras, como disse Nelson Rodrigues.

     Esta história real é dirigida por Clint Eastwood (que completará 80 anos em maio próximo) dentro de seu consagrado e tradicional estilo: narrativa clara, câmera clássica, muita sobriedade, estética limpa e convencional, sempre extraindo o máximo de seu elenco e da história que ele tem para contar. E como conta bem! Os personagens são construídos com veracidade e vigor bem diante dos nossos olhos, em poucos minutos. A empatia criada com a plateia é intensa. A trama flui, sem tempos mortos, mesclando tensões e humor em doses equilibradas.

     Claro, sempre há as armadilhas sentimentais de praxe, como usar e abusar da câmera lenta nos momentos decisivos do jogo, ou compor canções românticas feitas sob medida para serem indicadas ao Oscar. Mas nada que tire os méritos deste grande diretor e deste grande filme: quando chegam as decisivas cenas finais, já estamos todos profundamente imersos na tela. Fomos pegos mais uma vez pelo talento de um excepcional contador de histórias cinematográficas.

     Tem sido cada vez mais prazeroso esperar pelo “novo filme de Clint Eastwood”.

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CORAÇÃO VAGABUNDO Documenta Caetano

Leia comentário de Marcelo Janot

     Coração Vagabundo é o melhor filme da recente safra de documentários sobre personalidades da música brasileira, que inclui os bons Simonal, Loki e Um Homem de Moral. Surgiu despretensiosamente, quando o novato Fernando Grostein Andrade registrava os bastidores da turnê estrangeira do disco A Foreign Sound, de Caetano Veloso, entre 2003 e 2005, para entrar como extra de um DVD que nunca saiu. Ganhou vida própria, mas a despretensão foi mantida e virou o grande trunfo do filme.

*  Leia outras críticas de Janot em www.criticos.com.br e outros comentários sobre filmes no link Objetiva...

 
 

Júlia Lemmertz vai receber Calunga de Ouro

     A quinta edição da TRASH - Mostra Goiana de Filmes Independentes, vai acontecer na capital goiana de 10 a 14 de março e as inscrições prosseguem até o próximo dia 9. www.mostratrash.com.br

     Até dia 20 de fevereiro, abertas inscrições ao V Festival Cine Favela de Curta-Metragem, o qual será realizado entre 2 de abril a 8 de maio. Além da Mostra Competitiva, haverá outras atrações: Mostra Itinerante (exibição ao ar livre em três pontos da Comunidade), Cine Recreio (exibição de uma grade infantil em 12 escolas públicas), debates e oficina para 30 jovens. Todas as atividades serão gratuitas. Outra novidade é uma Mostra de Filmes Periféricos, que percorrerá 30 unidades do SESC SP, permitindo que o Festival rompa as fronteiras das comunidades carentes.

     Até o próximo dia 27, inscrições abertas à terceira edição do IGUACINE, que será realizado de 24 a 28 de março em Nova Iguaçu (RJ).

     Já a XIV edição do CinePE Festival do Audiovisual de Recife – será realizada de 27 de abril a 3 de maio no Centro de Convenções de Olinda e homenageará com o troféu CALUNGA de OURO a atriz JÚLIA LEMMERTZ. Em seguida, teremos a sétima edição do CINE DOCUMENTA – Mostra de Cinema Documentário de Ipatinga (MG), de 12 a 16 de maio. Inscrições abertas até 2 de abril. www.cinedocumenta.com.br

Saiba mais: http://auroramiranda.blog.uol.com.br

    José Miguel Wisnik é uma das maiores autoridades em Literatura e Música do país. Conversar com ele é uma honra e um grande aprendizado. Professor de Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo (USP), compositor, escritor, músico, pesquisador e produtor cultural, o pianista Zé Miguel Wisnik possui em seu currículo trilha para filmes e espetáculos emblemáticos (como Terra Estrangeira, de Walter Salles). São 3 CDs: José Miguel Wisnik (Cameratti - 1992), São Paulo Rio (Independente – 2000) e Pérola aos Poucos (Trama – 2003) - um dos mais belos discos do país. Músicas dele foram gravadas por cantoras do nível de Ná Ozzetti, Vânia Bastos, Elza Soares, Virgínia Rosa, Zélia Duncan. Encontrá-lo é tão raro quanto agradável. E assim foi nosso bate-papo numa Copacabana iluminada e efervescente, moldura especial a enaltecer ainda mais a bagagem poética, universal e singular da Bossa Nova, da qual Wisnik nos fala com invejável retórica. Confira
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