O
ano em que nossos pais precisam ir ao Cinema
* Aurora Miranda Leão
Impressiona
a qualidade técnica e artística do novo longa
de Cao Hamburguer, O Ano em que meus pai saíram
de férias.
Um
roteiro de excelente qualidade, assinado a oito mãos,
conduz o espectador. Pouco a pouco, e com singular sensibilidade,
somos enredados numa trama intensa, psicologicamente forte
e claramente inspirada em fatos reais. Quase sem se dar
conta, de repente estamos completamente envolvidos pela
história do pequeno e lindo Mauro (que misto de doçura,
empatia e graça tem este menino, grande descoberta
da equipe de realização !).
Estamos
nos anos 70. Um casal se vê obrigado a sair de BH
e segue pra deixar o filho aos cuidados do avô. Chegam
a São Paulo, bairro do Bom Retiro. Ano de Copa do
Mundo e o maior sonho do garoto é ver o Brasil tri-campeão.
Os pais precisam "tirar umas férias", mas
vão embora sem saber da morte do avô naquele
mesmo dia, sem sequer ver o neto. Daí em diante,
Mauro vê-se forçado a morar de favor com um
vizinho. Os hábitos estranhos daquele senhor judeu
contribuem para aumentar o sofrimento silencioso e intenso
de Mauro, culminando com um tapa no rosto quando brincava
de bola com um "talit" (xale de reza), sinal de
"desrespeito" a um ícone religioso. Cada
vez mais esmagado, o garoto vai arranjando formas de minorar
suas dores (a falta de comida ou comida ruim, a ausência
e nenhuma comunicação com os pais, a distância
dos amigos, a falta de companhia pra brincar e jogar futebol
de botão, a aridez dos moradores, etc) e termina
por conseguir a chave do apartamento do avô. Lá
refugia-se, passa dias e noites, durante muitos meses, esperando
um telefonema dos pais... Enquanto o personagem vai driblando
suas incertezas e perplexidades, os espectadores já
estamos completamente envolvidos e solidários.
Uma
das cenas mais fortes é quando, desesperado pela
ausência e falta de comunicação dos
pais, resolve jogar o telefone no chão e sai quebrando
tudo... Outro momento de arrepiar: Mauro na varanda à
espera dos pais a repetir "fusca azul, fusca azul,
fusca azul" como a implorar pela aparição
do carro dos pais - no vidro da varanda, o reflexo das pessoas
na rua, alheias à dor de Mauro. O olhar cabisbaixo,
o semblante angustiado, a intuição latente
de algo muito ruim acontecendo são facetas a perpassar
a incrível atuação deste garoto Michel
(que diz almejar ser Diretor de Fotografia, e por certo
este filme muito vai ajudar a conduzi-lo neste viés),
ganhando a emoção e a sensibilidade de quem
assiste a tudo com o maior interesse. Assim fiquei na platéia
o tempo inteiro. E foram muitas as vezes nas quais as lágrimas
quiseram me entregar... Porque tudo no filme contribui para
essa atmosfera sombria de crueldade subjacente, dor inaceitável
e consciência das injustiças evitáveis:
desde a atuação de Michel à criação
do espaço fílmico, o roteiro bem amarrado,
a condução supimpa da câmara, os matizes
da fotografia (nunca transmitindo alegria, nem mesmo nas
cenas de futebol e da "brecha" dos garotos nas
clientes da loja da mãe de Hanna), o figurino, a
cenografia, a dramaturgia bem construída e interpretada
com naturalidade. Ao garoto Mauro, Michel Joelsas empresta
seu talento e compõe nuances sentimentais multifárias:
o resultado é a completa sintonia do ator com o público.
Michel aparece sempre psicologicamente abalado mas tenta
superar a dilacerante situação com o jogo
de futebol que adora, a tevê, novos colegas do bairro,
um certo encantamento pela balconista da lanchonete e alguns
primeiros sintomas do encontro amoroso futuro com o outro
sexo através de sua amiguinha de prédio, a
esperta Hanna. Michel é tão cativante
que dá vontade de botá-lo nos braços
e levar pra casa...
Vale
ressaltar: a segurança interpretativa de Michel se
apóia num elenco de benfazejas presenças:
o ator pernambucano Germano Haiut (de Baile Perfumado,
agora redescoberto por Cao), intérprete de Schlomo
(zelador da sinagoga), é um grande trunfo. Idem a
garota Daniela Piepszyk, compondo uma Hanna cheia de bossa
e malícias aceitáveis. A mãe de Simone
Spoladore reafirma matizes interpretativos já conhecidos
dos cinéfilos; idem Caio Blat, jovem revolucionário
admirador do pai de Mauro; Paulo Autran faz pequena participação
como o avô; Eduardo Moreira (grupo Galpão)
é Daniel Stein, o pai; Liliana Castro e Rodrigo dos
Santos completam o time de atores onde todos estão
muito bem.
Parabéns
aos irmãos Gullane, Caio e Fabiano, por mais esta
aposta, cuja produção conta ainda com Daniel
Filho e Fernando Meirelles e apoio da Globo Filmes na divulgação.
A fotografia de Adriano Goldman e a eficiente direção
de arte de Cássio Amarante se destacam. O
que é aquela irretocável reconstituição
de época ? Tudo bem pensado, tudo presente,
detalhado, aparecendo nas horas certas - cineasta e criador
da atmosfera fílmica em fina sintonia, como espelha
a tela. Desde o jogo de botão (saudades dos meus
irmãos colecionando tantos times...) aos carros tão
marcantes como o Gordini, o Decavê e o Sinca, as roupas
e objetos da época, até o edifício
onde morava o avô, tudo foi engendrado para transportar
a platéia aos anos 70. E para lá vamos quase
sem sentir numa carona tranqüila, oportuna, a reavivar
na memória fatos dolorosos dos quais nunca devemos
nem podemos olvidar. Cláudio Galperin e Cao Hamburguer,
de cujas mentes nasceu a história original, se aliaram
a Bráulio Mantovani e Anna Muylaert (contando ainda
com o auxílio luxuoso de Adriana Falcão) e
criaram um dos mais contundentes roteiros da história
de nosso cinema, sobretudo na abordagem delicada, afetiva
e competente dessa determinada época da História
Brasileira. É a primeira vez na qual vejo um filme
abordar com tanta proficiência as ligações
entre a fluência do futebol brasileiro na Copa de
70 e a morte brutal e sem sentido de centenas de idealistas
em luta por um país onde a democracia pudesse ser
parâmetro de civilidade. Saí do cinema com
os olhos marejados...
Cao
Hamburguer e sua competente produção foram
muito além do esperado, a par de se cercarem
de craques, como é o caso também de Daniel
Rezende na montagem e Beto Villares na trilha (de primeira
linha). É preciso ainda citar o trabalho supimpa
de Patrícia Faria na produção de elenco
e o cuidado de Laís Correa na preparação
dos atores, a cenografia de Fábio Goldfarb e os figurinos
de Cristina Camargo, todos contribuindo de forma decisiva
para a beleza exibida na tela.
O
Ano em que meus pais saíram de férias
são 103 minutos de pura emoção. Se
você ainda não viu, vá ao cinema correndo!
Sem dúvida, o filme de Cao Hamburguer é
um dos melhores do ano.