Todo
Sentimento
* Aurora Miranda Leão
Um
sonho recorrente, a morte anunciada, um acerto de contas
com o passado, o mesmo lugar onde morreu, nos braços
de outro, a fugidia amada. Uma jovem mulher, enigmática
e triste, ingênua e espontânea, exala pueril
sensualidade enquanto caminha como se fugisse do próprio
destino. Benjamim reencontra nas semelhanças e no
mistério da jovem de andar sempre em fuga, a ensolarada
e fugaz Castana, a quem sempre devotou amor intenso, não
desfeito nem mesmo pelo tempo... Castana Beatriz, a mulher
de seus sonhos, perdida pela irracionalidade do pai repressor.
Assim
se engendra a trama de Benjamim, criação de
Chico Buarque, trazida às telas pelas mãos,
a sensibilidade e a competência de Monique Gardenberg.
Filme capaz de marcar fundo a alma,
como sói aos grandes Criadores.
Benjamim
é bom desde a abertura com um fundo musical preciso,
acurado, saudosista, nos conduzindo a um tempo que não
vivemos mas intuímos pelo sentimento coletivo de
saudade do que era tão bom e tão cedo se foi.
Gosto de tudo no filme. Mas principalmente quando Monique
selecionou trecho de uma de minhas preferidas do Poeta Vinícius
de Moraes, ela “me ganhou”. É
quando o Benjamim de Paulo José diz pra Castana Beatriz:
“Eu te peço perdão
por te amar de repente, embora o meu amor seja uma velha
canção para os teus ouvidos”.
Monique soube pinçar em Vinícius a mais perfeita
tradução já dada por alguém
para esta inquietação afobada/calma, eletrizante/terna,
impulsiva/recatada, desvairada/sã que toma conta
dos apaixonados.
É
sempre do mesmo jeito. E não morre nunca, mesmo se
o objeto amado está longe, não nos quer mais,
fugiu ou sumiu no mundo sem nos avisar. O amor permanece
em nós, sempre, e quando alguma lanterna mágica
clareia a força que o mantém vivo, ele renasce,ressurge,
reaparece, se reafirma da forma mais bela com a qual se
veste, a forma apaixonada que tanto enlouquece e faz bem.
Tudo isso Monique nos parece querer dizer e o
diz de forma clara na cena onde há somente esta fala
dita por Paulo José, com o tempo, a entonação
e o sentimento necessários. Pena não
mais estar entre nós nosso querido Vininha.
Ele adoraria conhecer CLEO, se encantaria com sua enigmática
presença, e se orgulharia de ter seus versos selecionados
pela cineasta e ditos por Paulo José. Pois é
bem capaz de em algum lugar deste outro mundo para onde
vão os bons, Vininha já tenha muitas vezes
visto e se emocionado com Benjamim.
Ao escolher os versos de nosso maior Poeta
do Amor, Monique cravou fundo a alma dos apaixonados
ou dos que assim desejam o AMAR.
Com
o lançamento em DVD, corri à locadora mais
próxima. Vi e revi várias vezes a obra de
Monique e quanto mais vejo mais me encanto com a poesia
estampada na tela, a me perguntar constantemente pela mente
privilegiada de Chico Buarque – a reluzir
onde quer se arvore ele de entrar. De onde Chico
consegue inspiração para fazer tanta coisa
tão linda, emocionante, irretocável? Que
dons de Mestre do Encantamento tem este “nosso guri”,
capaz de engendrar Arte do mais rebuscado e fértil
sentimento? Será possível
existir alguém capaz de estar frente a uma obra de
Chico e não se emocionar ?
Talvez
você seja um dos tantos que perdeu Benjamim na telona.
Mas se marcou bobeira, não precisa chorar a projeção
perdida. Vá até a locadora mais próxima
e leve o DVD pra casa. Com certeza, você vai concordar
comigo e também vai se encantar. Pode ser também
que discorde. Tudo bem ! Adoro opiniões divergentes,
desde que bem argumentadas. Mas creio ser difícil
você não gostar. Aliás, perdão
se ao final da exibição, você não
se considerar diante de uma obra magnífica. Talvez
você não tenha sensibilidade suficiente. Ou
tenha buracos demais na alma. Por isso está impedido
de enxergar esta Pérola Cinematográfica por
nome BENJAMIM
- como se fora a tradução fílmica
da letra de Chico:
Pretendo
descobrir/ No último momento/
Um tempo
que refaz o que desfez/ Que recolhe todo sentimento
E bota no
corpo uma outra vez...
Depois de
te perder
Te encontro
com certeza
Talvez num
tempo da delicadeza
Onde não
diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei
Como encantado
ao lado teu.
Então
vamos lá ! Com esforço, vou tentar inserir
você, leitor amigo, no trajeto desta obra de Chico
Buarque, transcrita para o cinema por Monique Gardenberg.
Benjamim é desses filmes com os quais você
não sente o tempo passar. Um colosso para
os olhos e a alma. São duas horas de projeção,
e quando você se dá conta disso, até
leva um susto, tal o caminhar quase estático do relógio.
Ficaria mais tempo me deliciando com a instigante trama
onde pontificam Ariela Masé, Benjamim Zambraia e
Castana Beatriz – atente para a sonoridade dos nomes.
Quando
Benjamim resolve sair à procura de Ariela, depois
de encontrada a foto antiga de Castana, e pergunta a um
e outros na rua se alguém viu uma garota parecida
com aquela e ninguém viu... a câmara afasta-se
e joga na tela a constatação do quanto o personagem
está perdido num emaranhado de emoções
aflitivas. A solidão caótica de Benjamim,
escancarada pela tomada do alto do edifício, emudece
e solidariza o espectador com a dor do amor perdido. E a
partir daí, cada take é um convite ao embarque
sobressaltado de Benjamim, o personagem criado por
Chico, recriado por Monique e revelado por Paulo José,
cuja atuação comove e conquista na medida
certa.
Monique
foi tinhosa e sábia em sua decisão de querer
o ator para este personagem. A partir de seu filme, Benjamim
Zambraia passa a ser um ícone no histórico
dos grandes personagens brasileiros apaixonados/apaixonantes,
do qual já fazem parte Orpheu, Vadinho, Macunaíma,
Policarpo Quaresma, O Grande Mentecapto, O Homem Nu, ...
Bom
rever Ana Kutner e Ernesto Piccolo, ator de qualidade e
pouco “explorado” pela tevê e pelo cinema.
É preciso também tirar o chapéu para
Guilherme Leme, extremamente convincente como o policial
paraplégico. Nélson Xavier e Chico Diaz, dois
de nossos maiores na arte de interpretar, dispensam comentários
adicionais. Engrandecem qualquer arena onde tomem parte.
Rodolfo Bottino compõe com carisma e espontaneidade
o publicitário sempre em busca da boa campanha. Mauro
Mendonça tem atuação marcante. Ivone
Hoffmann, em breve aparição, Micaela Góes
e Dada Maia completam o afinado elenco.
A
montagem de João Paulo Carvalho é qualquer
coisa além da conta. Com uma trama cheia de idas
e vindas, mesclando passado e presente de vários
personagens, o montador deve ter tido trabalho redobrado.
E o resultado é espetacular ! Digno de todos os Prêmios.
Os recursos de passar para outra cena, e permanecer com
as falas da cena recém-finda, em off, ratificam o
labirinto fílmico, emoldurado por uma trilha sonora
do mais alto quilate. Cleo Pires impressiona pelo
carisma, beleza e sensualidade. Não à
toa, venceu o Festival do Rio 2003 como Melhor Atriz, confirmando
a velha máxima: “Filha de peixe, peixinha é”.
Afinal, Glória Pires é de nossas poucas atrizes
não egressas do Teatro, e ainda assim, de talento
irrefutável, sempre citada por sua invejável
capacidade interpretativa. A reconstituição
de época é outro ponto positivo. Uma
delícia rever/conhecer o Rio de Janeiro de outrora.
A direção de arte de Marcos Flaksmann é
supimpa ! Enfim, Monique fez um Benjamim
de arrasar quarteirão. A fotografia mais escura
nas cenas mais fortes, os grandes espaços vazios
dos apartamentos procurados, a sessão de fotos de
Castana e Benjamim à beira-mar, revelando uma Cleo
alourada, fina, elegante, uma quase deusa daqueles dourados
(?) anos de paixões, liberdade feminina, música
de bom gosto nas rádios... e repressão a caminho.
Momento inusitado: a cena fotográfica dos modelos
na praia... Um luxo ! Como aliás é ótima
toda a fotografia de Marcelo Durst. O roteiro, assinado
por Monique, Jorge Furtado e Glênio Povoas é
outro ponto a merecer destaque. E dando suporte a tudo isso
a competente produção executiva de Elisa Tolomelli
com auxílio luxuoso de Thaís Mello.
Uma
das cenas mais lindas do filme é quando Benjamim
aparece feliz da vida, depois de almoçar com Ariela,
ao som de Alegria (composição
de Chico Neves e Arnaldo Antunes, composta especialmente
para o filme) e distribui com mendigos da noite carioca
os antigos figurinos com os quais posava de modelo, caindo
no mar da enseada de Botafogo e a letra a dizer “A
tristeza é uma forma de egoísmo...”
Há também um momento cheio de graça,
cuja leveza quebra por instantes o clima de suspense: o
das jovens levando Benjamim à gincana. Lá
uma delas inventa ser ele um famoso ator “de uma tragédia
grega que está há três anos em cartaz...”
Interessante
notar: apesar dos mimos que vai ganhando dos homens encantados
com sua beleza exótica, Ariela é triste e
essa tristeza só se revela por instantes, como nas
vezes nas quais se debruça a escrever pra mãe
ou o marido, ou quando senta pensativa junto ao fogão,
como a dizer: “Pra onde vai me levar essa vida tão
cheia de disfarces e de compromissos que assumo pelos outros?
”
No
calidoscópio amoroso-aflitivo de Chico, mais um dado
instigante: a observação de Castana em conversa
com Benjamim, os dois adolescentes,
ela folheando imagens de santos. Ela diz: “Nobres
e santos estão sempre de boca fechada”. Ao
que Benjamim, concordando, rememora: “Nunca vi Nossa
Senhora de boca aberta”. Em seguida, um corte evidencia
os lábios vermelho-sensuais de Ariela... Ela sempre
a rir, de boca escancarada, nas cenas com Benjamim. Mas
a infelicidade de Ariela está logo adiante e perpassa
o filme como um tango de Piazzolla, o mesmo a emoldurar
alguns dos momentos mais tocantes da obra de Monique.
A relação dos dois algozes de Ariela –
o marido Giovan e o patrão Cantagalo, integrantes
de um mesmo misterioso clube, como lembra Cantagalo (Nélson
Xavier). E o clube é justamente aquele dos homens
de vida sem sexo, cujo prazer nasce de imaginar o objeto
amado (?) sendo usufruído por outrem, para logo depois
se consumar na morte desse outro. E nesse emaranhado de
perversão e “justiçamento”, a
menina vinda do interior, ingênua e bem intencionada,
órfã ainda garota, crente de ter encontrado
o grande amor, vai vendo seus dias e seus sonhos se esvaírem
como água correndo entre os dedos ao tempo em que
atende as demandas do patrão e satisfaz
o desejo mórbido do marido. Esses seus mesmos algozes
refazem o percurso sangrento onde tombou vítima a
mãe dela e, como se fazendo justiça ao status
quo - “vítima da rebeldia” -, utilizam
a mesma casinha pequenina, outrora refúgio contra
a repressão, para castigar com a morte os muitos,
tal como a aguerrida Castana, em busca apenas de prazer
e amor, liberdade e companheirismo. Por isso, se vai Benjamim.
Um reencontro drástico e inesperado com o “ninho”
que abrigou Castana e viu nascer Ariela.
Fique
certo de uma coisa: ainda que você consiga não
gostar desta história inspirada/inspiradora, romântica,
às vezes sórdida mas muito apaixonada e cinematograficamente
competente, você pelo menos terá um, ou mais
um, filme brasileiro para figurar no seu cardápio
crítico de cinéfilo e poderá, mais
tarde, contribuir com debates sobre a Sétima Arte
Brasileira, onde quer eles aconteçam.
Monique
dedica esta sua obra-prima à irmã querida,
não mais entre nós. E a cineasta fez à
irmã, e a Chico Buarque, a melhor homenagem que poderia
ter feito com esta jóia de filme chamado Benjamim.
Um DEZ emocionado e feliz para Monique Gardenberg
e a toda a equipe que tornou possível esta belíssima
criação do genial Chico Buarque no Cinema.