Textos de Rubens Ewald Filho, Marcelo Janot, Celso Sabadin, Carlos Alberto Mattos...
O ANO QUE MEUS PAIS SAÍRAM DE FÉRIAS
 
BENJAMIM
 
CITIZEN KANE
 
PRIMO BASÍLIO
"O Cinema cria imediatamente uma direção para a vista, que é um sentido eminentemente abstracionista, e uma fantasia para a imaginação".
Vinícius de Moraes
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Todo Sentimento

* Aurora Miranda Leão

     Um sonho recorrente, a morte anunciada, um acerto de contas com o passado, o mesmo lugar onde morreu, nos braços de outro, a fugidia amada. Uma jovem mulher, enigmática e triste, ingênua e espontânea, exala pueril sensualidade enquanto caminha como se fugisse do próprio destino. Benjamim reencontra nas semelhanças e no mistério da jovem de andar sempre em fuga, a ensolarada e fugaz Castana, a quem sempre devotou amor intenso, não desfeito nem mesmo pelo tempo... Castana Beatriz, a mulher de seus sonhos, perdida pela irracionalidade do pai repressor.

     Assim se engendra a trama de Benjamim, criação de Chico Buarque, trazida às telas pelas mãos, a sensibilidade e a competência de Monique Gardenberg. Filme capaz de marcar fundo a alma, como sói aos grandes Criadores.

    Benjamim é bom desde a abertura com um fundo musical preciso, acurado, saudosista, nos conduzindo a um tempo que não vivemos mas intuímos pelo sentimento coletivo de saudade do que era tão bom e tão cedo se foi. Gosto de tudo no filme. Mas principalmente quando Monique selecionou trecho de uma de minhas preferidas do Poeta Vinícius de Moraes, ela “me ganhou”. É quando o Benjamim de Paulo José diz pra Castana Beatriz: “Eu te peço perdão por te amar de repente, embora o meu amor seja uma velha canção para os teus ouvidos”. Monique soube pinçar em Vinícius a mais perfeita tradução já dada por alguém para esta inquietação afobada/calma, eletrizante/terna, impulsiva/recatada, desvairada/sã que toma conta dos apaixonados.

     É sempre do mesmo jeito. E não morre nunca, mesmo se o objeto amado está longe, não nos quer mais, fugiu ou sumiu no mundo sem nos avisar. O amor permanece em nós, sempre, e quando alguma lanterna mágica clareia a força que o mantém vivo, ele renasce,ressurge, reaparece, se reafirma da forma mais bela com a qual se veste, a forma apaixonada que tanto enlouquece e faz bem. Tudo isso Monique nos parece querer dizer e o diz de forma clara na cena onde há somente esta fala dita por Paulo José, com o tempo, a entonação e o sentimento necessários. Pena não mais estar entre nós nosso querido Vininha. Ele adoraria conhecer CLEO, se encantaria com sua enigmática presença, e se orgulharia de ter seus versos selecionados pela cineasta e ditos por Paulo José. Pois é bem capaz de em algum lugar deste outro mundo para onde vão os bons, Vininha já tenha muitas vezes visto e se emocionado com Benjamim. Ao escolher os versos de nosso maior Poeta do Amor, Monique cravou fundo a alma dos apaixonados ou dos que assim desejam o AMAR.

     Com o lançamento em DVD, corri à locadora mais próxima. Vi e revi várias vezes a obra de Monique e quanto mais vejo mais me encanto com a poesia estampada na tela, a me perguntar constantemente pela mente privilegiada de Chico Buarque – a reluzir onde quer se arvore ele de entrar. De onde Chico consegue inspiração para fazer tanta coisa tão linda, emocionante, irretocável? Que dons de Mestre do Encantamento tem este “nosso guri”, capaz de engendrar Arte do mais rebuscado e fértil sentimento? Será possível existir alguém capaz de estar frente a uma obra de Chico e não se emocionar ?

     Talvez você seja um dos tantos que perdeu Benjamim na telona. Mas se marcou bobeira, não precisa chorar a projeção perdida. Vá até a locadora mais próxima e leve o DVD pra casa. Com certeza, você vai concordar comigo e também vai se encantar. Pode ser também que discorde. Tudo bem ! Adoro opiniões divergentes, desde que bem argumentadas. Mas creio ser difícil você não gostar. Aliás, perdão se ao final da exibição, você não se considerar diante de uma obra magnífica. Talvez você não tenha sensibilidade suficiente. Ou tenha buracos demais na alma. Por isso está impedido de enxergar esta Pérola Cinematográfica por nome BENJAMIM - como se fora a tradução fílmica da letra de Chico:

Pretendo descobrir/ No último momento/

Um tempo que refaz o que desfez/ Que recolhe todo sentimento

E bota no corpo uma outra vez...

Depois de te perder

Te encontro com certeza

Talvez num tempo da delicadeza

Onde não diremos nada

Nada aconteceu

Apenas seguirei

Como encantado ao lado teu.

     Então vamos lá ! Com esforço, vou tentar inserir você, leitor amigo, no trajeto desta obra de Chico Buarque, transcrita para o cinema por Monique Gardenberg. Benjamim é desses filmes com os quais você não sente o tempo passar. Um colosso para os olhos e a alma. São duas horas de projeção, e quando você se dá conta disso, até leva um susto, tal o caminhar quase estático do relógio. Ficaria mais tempo me deliciando com a instigante trama onde pontificam Ariela Masé, Benjamim Zambraia e Castana Beatriz – atente para a sonoridade dos nomes.

     Quando Benjamim resolve sair à procura de Ariela, depois de encontrada a foto antiga de Castana, e pergunta a um e outros na rua se alguém viu uma garota parecida com aquela e ninguém viu... a câmara afasta-se e joga na tela a constatação do quanto o personagem está perdido num emaranhado de emoções aflitivas. A solidão caótica de Benjamim, escancarada pela tomada do alto do edifício, emudece e solidariza o espectador com a dor do amor perdido. E a partir daí, cada take é um convite ao embarque sobressaltado de Benjamim, o personagem criado por Chico, recriado por Monique e revelado por Paulo José, cuja atuação comove e conquista na medida certa.

     Monique foi tinhosa e sábia em sua decisão de querer o ator para este personagem. A partir de seu filme, Benjamim Zambraia passa a ser um ícone no histórico dos grandes personagens brasileiros apaixonados/apaixonantes, do qual já fazem parte Orpheu, Vadinho, Macunaíma, Policarpo Quaresma, O Grande Mentecapto, O Homem Nu, ...

     Bom rever Ana Kutner e Ernesto Piccolo, ator de qualidade e pouco “explorado” pela tevê e pelo cinema. É preciso também tirar o chapéu para Guilherme Leme, extremamente convincente como o policial paraplégico. Nélson Xavier e Chico Diaz, dois de nossos maiores na arte de interpretar, dispensam comentários adicionais. Engrandecem qualquer arena onde tomem parte. Rodolfo Bottino compõe com carisma e espontaneidade o publicitário sempre em busca da boa campanha. Mauro Mendonça tem atuação marcante. Ivone Hoffmann, em breve aparição, Micaela Góes e Dada Maia completam o afinado elenco.

     A montagem de João Paulo Carvalho é qualquer coisa além da conta. Com uma trama cheia de idas e vindas, mesclando passado e presente de vários personagens, o montador deve ter tido trabalho redobrado. E o resultado é espetacular ! Digno de todos os Prêmios. Os recursos de passar para outra cena, e permanecer com as falas da cena recém-finda, em off, ratificam o labirinto fílmico, emoldurado por uma trilha sonora do mais alto quilate. Cleo Pires impressiona pelo carisma, beleza e sensualidade. Não à toa, venceu o Festival do Rio 2003 como Melhor Atriz, confirmando a velha máxima: “Filha de peixe, peixinha é”. Afinal, Glória Pires é de nossas poucas atrizes não egressas do Teatro, e ainda assim, de talento irrefutável, sempre citada por sua invejável capacidade interpretativa. A reconstituição de época é outro ponto positivo. Uma delícia rever/conhecer o Rio de Janeiro de outrora. A direção de arte de Marcos Flaksmann é supimpa ! Enfim, Monique fez um Benjamim de arrasar quarteirão. A fotografia mais escura nas cenas mais fortes, os grandes espaços vazios dos apartamentos procurados, a sessão de fotos de Castana e Benjamim à beira-mar, revelando uma Cleo alourada, fina, elegante, uma quase deusa daqueles dourados (?) anos de paixões, liberdade feminina, música de bom gosto nas rádios... e repressão a caminho. Momento inusitado: a cena fotográfica dos modelos na praia... Um luxo ! Como aliás é ótima toda a fotografia de Marcelo Durst. O roteiro, assinado por Monique, Jorge Furtado e Glênio Povoas é outro ponto a merecer destaque. E dando suporte a tudo isso a competente produção executiva de Elisa Tolomelli com auxílio luxuoso de Thaís Mello.

     Uma das cenas mais lindas do filme é quando Benjamim aparece feliz da vida, depois de almoçar com Ariela, ao som de Alegria (composição de Chico Neves e Arnaldo Antunes, composta especialmente para o filme) e distribui com mendigos da noite carioca os antigos figurinos com os quais posava de modelo, caindo no mar da enseada de Botafogo e a letra a dizer “A tristeza é uma forma de egoísmo...” Há também um momento cheio de graça, cuja leveza quebra por instantes o clima de suspense: o das jovens levando Benjamim à gincana. Lá uma delas inventa ser ele um famoso ator “de uma tragédia grega que está há três anos em cartaz...”

     Interessante notar: apesar dos mimos que vai ganhando dos homens encantados com sua beleza exótica, Ariela é triste e essa tristeza só se revela por instantes, como nas vezes nas quais se debruça a escrever pra mãe ou o marido, ou quando senta pensativa junto ao fogão, como a dizer: “Pra onde vai me levar essa vida tão cheia de disfarces e de compromissos que assumo pelos outros? ”

     No calidoscópio amoroso-aflitivo de Chico, mais um dado instigante: a observação de Castana em conversa com Benjamim, os dois adolescentes, ela folheando imagens de santos. Ela diz: “Nobres e santos estão sempre de boca fechada”. Ao que Benjamim, concordando, rememora: “Nunca vi Nossa Senhora de boca aberta”. Em seguida, um corte evidencia os lábios vermelho-sensuais de Ariela... Ela sempre a rir, de boca escancarada, nas cenas com Benjamim. Mas a infelicidade de Ariela está logo adiante e perpassa o filme como um tango de Piazzolla, o mesmo a emoldurar alguns dos momentos mais tocantes da obra de Monique. A relação dos dois algozes de Ariela – o marido Giovan e o patrão Cantagalo, integrantes de um mesmo misterioso clube, como lembra Cantagalo (Nélson Xavier). E o clube é justamente aquele dos homens de vida sem sexo, cujo prazer nasce de imaginar o objeto amado (?) sendo usufruído por outrem, para logo depois se consumar na morte desse outro. E nesse emaranhado de perversão e “justiçamento”, a menina vinda do interior, ingênua e bem intencionada, órfã ainda garota, crente de ter encontrado o grande amor, vai vendo seus dias e seus sonhos se esvaírem como água correndo entre os dedos ao tempo em que atende as demandas do patrão e satisfaz o desejo mórbido do marido. Esses seus mesmos algozes refazem o percurso sangrento onde tombou vítima a mãe dela e, como se fazendo justiça ao status quo - “vítima da rebeldia” -, utilizam a mesma casinha pequenina, outrora refúgio contra a repressão, para castigar com a morte os muitos, tal como a aguerrida Castana, em busca apenas de prazer e amor, liberdade e companheirismo. Por isso, se vai Benjamim. Um reencontro drástico e inesperado com o “ninho” que abrigou Castana e viu nascer Ariela.

     Fique certo de uma coisa: ainda que você consiga não gostar desta história inspirada/inspiradora, romântica, às vezes sórdida mas muito apaixonada e cinematograficamente competente, você pelo menos terá um, ou mais um, filme brasileiro para figurar no seu cardápio crítico de cinéfilo e poderá, mais tarde, contribuir com debates sobre a Sétima Arte Brasileira, onde quer eles aconteçam.

     Monique dedica esta sua obra-prima à irmã querida, não mais entre nós. E a cineasta fez à irmã, e a Chico Buarque, a melhor homenagem que poderia ter feito com esta jóia de filme chamado Benjamim. Um DEZ emocionado e feliz para Monique Gardenberg e a toda a equipe que tornou possível esta belíssima criação do genial Chico Buarque no Cinema.

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