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> Panorâmica -Calé Alencar

Um Cortejo para Louvar a Negritude

AML - Calé, eu quero que você explique de forma bem básica o que é o Maracatu e qual a origem do folguedo, tendo em vista que são muitos os estudantes e até turistas que nos procuram pra saber mais sobre esta manifestação tão presente em Fortaleza.

CA - Bem, o maracatu é uma expressão cultural do Nordeste do Brasil que tem uma relação cultural com a nossa afrodescendência e, depois de passar um período dentro das festas do ciclo do Natal, migrou para o carnaval, sendo hoje uma das expressões mais importantes do ciclo carnavalesco no Nordeste. Podemos dizer que a origem são as coroações de Reis do Congo que aconteciam nas igrejas de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Então, havia em vários lugares do Brasil, não só no Nordeste, as coroações que já aconteciam em Portugal no século XVI. Os negros trouxeram esse costume para o Brasil e os povos africanos aqui deram seqüência às coroações de reis do congo, que eram momentos de confraternização e de convivência social, cultural, musical, no dia da eleição da diretoria das irmandades de Nossa Senhora do Rosário. E aí havia uma grande festa: a coroação do Rei e da Rainha... Como havia um cortejo pelas ruas, isso acabou originando tanto o reisado, como a gente conhece o reisado de Congo, como também os maracatus que desfilam no carnaval. Por exemplo, o afoxé baiano, que tem essa relação muito estreita com o cortejo, tem a mesma origem. E podemos dizer que existem pelo menos três tipos: o maracatu em Pernambucano com dois tipos: a versão urbana, com uma música de sotaque de baque virado, e o maracatu rural, com uma característica mais indígena, de baque solto. E tem o maracatu cearense, uma expressão cultural muito própria do povo do Ceará, sobretudo da cidade de Fortaleza, e daqui ele influenciou algumas cidades do interior como Itapipoca, Uruburetama, Aquiraz... mas como expressão cultural cearense, ele é baseado na capital. A partir de 1937, com o maracatu Áz de Ouro, nós verificamos a introdução no desfile carnavalesco e até hoje vamos completar 71 anos no carnaval de rua. Antes disso, os grupos desfilavam de forma espontânea pelas ruas da cidade durante o carnaval. E, mais atrás, tínhamos o maracatu no ciclo das festas natalinas, como eu falei, de onde foram excluídos, e foram encontrar abrigo no carnaval.

AML - Como se deu a inclusão feminina no cortejo ?
CA - Inicialmente, temos como uma dança tradicionalmente ligada aos homens. Na década de 1960, aparece a dona Bida, a primeira mulher a participar de um desfile de carnaval. Na verdade, se formos olhar com atenção, as mulheres não participavam das danças de rua, elas apenas acompanhavam os maridos, iam ali ao lado levando um cantil, apoiando, levando água, etc, mas depois elas passaram a brincar, e isso veio também na medida em que a mulher foi tomando espaço na sociedade, foi participando mais e equiparando seus direitos de participação social, cultural e política aos dos homens... e a partir da década de 60 elas passaram efetivamente a desfilar. E a primeira Rainha mulher foi na década de 70. Hoje é comum as mulheres participarem - crianças, adolescentes, adultas - em todas as etapas, e em alguns maracatus, como Nação Fortaleza e Áz de Ouro, as rainhas são mulheres.

AML - E qual seriam as principais diferenças observadas nos maracatus antigos e nos atuais ?
CA - Bom, em primeiro lugar, é preciso dizer: o maracatu atual em Fortaleza, nenhum deles conserva uma tradição musical idêntica ao do outro. Temos 10 grupos e cada um tem uma característica diferente, própria... Cada um toca dum jeito, embora tenhamos uma matriz onde se percebe ali uma identificação de um maracatu genuinamente cearense que toca com determinados instrumentos, que são chocalho, ferro, caixa sem esteira, contra-surdos, bumbos, zabumbas... são poucos instrumentos que fazem essa orquestração ritmica do maracatu. Mas o ritmo, o andamento, em todos os maracatus se coloca de forma diferenciada. Os maracatus cearenses são extremamente diferentes dos maracatus pernambucanos, por exemplo. E nós temos ainda no Nordeste manifestações como as Taieiras no Rio Grande do Norte, os Ticumbis na Paraíba, que são também maracatus, só que com outro nome, né, mas é o mesmo cortejo, a mesma configuração, é sempre um cortejo que vai homenagear uma rainha negra, que é a essência do maracatu.

AML - Eu queria que você falasse também sobre a configuração do cortejo...
CA - Bom, houve um período no qual os maracatus foram equiparados às escolas de samba... eles apresentavam enredo, era uma coisa que não contribuía para a evolução cultural da manifestação. Na verdade, era um desrespeito ao cortejo como ele deve ser desenhado porque era uma desconfiguração muito grande, praticamente não guardava relação com a essência do cortejo... então houve esse período nos anos 60, 70, que perdurou até o final dos anos 80, e hoje temos o cortejo como deve ser, com o seguinte figural: um balisa, o porta-estandarte, os lampiões que abrem o desfile, o cordão de índios, o cordão de negras - onde temos as baianas, a negra da calunga, a negra do incenso, que vai defumando o caminho por onde o cortejo vai passar -; depois tem o casal de pretos-velhos, o balaieiro, o batuque, o macumbeiro ou tirador de loas, que é quem canta a loa(que é a toada, a música do maracatu), aí tem a Corte, onde tem o príncipe, as princesas, o rei, a rainha... no caso do trabalho específico que eu faço, o Nação Fortaleza traz sempre uma réplica infantil dos personagens principais. Procuramos fazer sempre essa configuração com a presença das crianças para estimular a continuação do maracatu como expressão cultural do fortalezense... e nós tínhamos essa configuração deturpada até final dos anos 80, um pouco da década de 90; depois disso, os maracatus voltaram a se apresentar mostrando temas, escolhidos livremente, os quais geralmente falam da história ou de alguma entidade da religiosidade afrodescendente, ou de alguma relação cultural com o povo africano ou com alguma coisa acontecida no Brasil, sempre relacionados à história do povo negro, à origem da cultura afrobrasileira. Hoje nós já temos, depois de um período em que os maracatus desfilaram sem muito apoio, 10 grupos no carnaval de Fortaleza. É a categoria que apresenta o maior número de agremiações, depois de um trabalho de fortalecimento que muita gente se propôs a fazer a partir do ano 2000, e hoje sem dúvida o maracatu é a maior expressão cultural do povo de Fortaleza dentro do carnaval de rua, ocupando não só esse espaço mas também o espaço do cotidiano da cidade, é um grupo cultural que se apresenta em vários lugares e datas distintas, participando também de eventos pelo interior do estado... os maracatus hoje já têm todo este trabalho e estão incorporados à vida cultural, não só de Fortaleza mas do povo cearense. Enfim, o importante é que hoje o maracatu está incluído na vida cultural do povo cearense, ele existe novamente como grande força de expressão cultural.

AML - E no Nação Fortaleza...
CA - Bem, nós dizemos que dentre os brincantes que participam hoje efetivamente temos crianças, adolescentes, adultos e também o pessoal da Melhor Idade. Eu costumo dizer: Crianças de 5 a 105 anos, todos são bem vindos ! Eu agradeço e desejo bom carnaval a todos !

 
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