Textos de Rubens Ewald Filho, Marcelo Janot, Celso Sabadin, Carlos Alberto Mattos...
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"O Cinema cria imediatamente uma direção para a vista, que é um sentido eminentemente abstracionista, e uma fantasia para a imaginação".
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Duas Décadas sem Welles: Kane e Soberba continuam atuais

* LG de Miranda Leão

     Falemos de Orson Welles para lembrar às novas gerações de cinéfilos a relevância do grande cineasta para a evolução da arte fílmica, a propósito do seu desaparecimento em 10 de outubro de 1985, vítima de colapso cardíaco. Embora aparentando boa saúde, disposição e lucidez de raciocínio aos 70 anos, Welles estava obeso, tinha diabetes e pressão sob controle, mas não largava o charuto. Saiu de cena discretamente em sua casa perto de Los Angeles, em pleno outono. Seu mordomo o encontrou pela manhã e logo pensou em sono profundo do patrão amigo. Não era: para sua tristeza se calara a voz do Sombra, série de sua preferência no rádio. O Sombra era Welles...

     Nos últimos anos Welles trabalhava ocasionalmente emprestando sua imagem de bom vivant e gourmet para entrevistas e sua voz, de bom timbre e dicção, para dublagens. Na TV comentava os males do mundo e criticava as utopias e a intolerância; em casa, lia e esquematizava roteiros para um projeto qualquer, visitava ou recebia amigos, ouvia música. Conforme declarou Gary Graver, seu diretor de fotografia durante 15 anos, “Welles não se considerava gênio, mas tinha uma visão fora do comum no tocante ao uso da câmara, era terrivelmente criativo, tanto para o cinema como para outros veículos de comunicação, e era um mágico de primeira. ‘Mr. Arkadin’, livro de sua autoria, serviu de roteiro para ‘Confidential Report’, enquanto outros textos cenarizados mostravam também seu domínio do idioma. Welles fará muita falta, pois ainda poderia produzir muita coisa”.

     Voltamos também a Welles para saldar dívida com cinéfilos leitores, pois havíamos ficado em débito naquela citada homenagem: não tínhamos comentado Soberba, há tempos disponível em DVD. Revimo-lo algumas vezes para revisão de suas qualidades artísticas, comparáveis a Kane. Não fossem as mutilações sofridas, talvez superasse por pouco sua estréia magistral no cinema.

     Soberba (The Magnificent Ambersons), tal como Kane, pertence a um chamado ciclo de realismo psicossocial ou testemunhos críticos da sociedade americana, diferente do ciclo shakesperiano de “Macbeth”, “Othello” e “Falstaff” e o das “diversões éticas”, como quer André Bazin, de “A Dama de Xangai” e “Grilhões do Passado”, e do ciclo de denúncia da corrupção de todo poder, seja policial, político, do estado totalitário, ou da Justiça, “muitas vezes com equívocos irreparáveis, morosa, inoperante e também corrupta”, no qual se incluem “A Marca da Maldade” e “O Processo”; naquele há o poder de polícia, neste a tentativa de sair dos labirintos kafkianos do Poder Judiciário.

     Quanto a O Estranho, no qual um criminoso nazista se esconde em cidadezinha dos EUA sob falsa identidade, é fita estranha ao universo wellesiano e foi por ele repudiado pelos cortes havidos, reduzindo-se-lhe a metragem para 95min, com omissão das cenas indicativas dos anos passados pelo fugitivo numa universidade inglesa antes da II Guerra (daí falar bem o inglês e poder enganar no início o seu perseguidor), ou de suas andanças pela América do Sul em busca de refúgio.

     Soberba tem afinidades com Kane no tema da obsessão da infância e de sua importância na vida das pessoas, mas dele se distingue pelo foco no universo de família rica e depois decadente, ceifada pela morte, enquanto nova classe de prósperos industriais se projeta. O contexto psicossocial, o momento histórico dentro do qual os personagens atuam, as condições vividas pelo único herdeiro dos Ambersons, o jovem George Minafer, menino a quem faziam todas as vontades, sua fixação edipiana, o complexo de superioridade, arrogância, soberba, preconceitos e intolerância iluminam, na síntese magistral só possível no cinema, o drama pessoal de George e trazem luz à sua oposição a Eugene Morgan (Joseph Cotten), o industrial inventor, agora rico, ex-namorado de Isabel Amberson, quando ambos eram solteiros. Mas Eugene era pobre e numa serenata bebe um pouco mais e cai no jardim da casa de Isabel. O pequeno incidente vai separá-los e ela acaba se casando com outro.

     No caso de George, é bem significativa a cena de quando ainda garoto, vestido de Luis XIV, se recusa a pedir desculpas pelo seu comportamento agressivo. Até seu amor por Lucy (Anne Baxter) na vida adulta soa artificial, impositiva; sua decisão de levar a mãe, agora viúva, para longa temporada na Europa a fim de afastá-la de Eugene é sintoma de um complexo de Édipo não resolvido e essa condição explicará outros desdobramentos do drama.

     Welles é o narrador externo (voz off), e abre seu filme com uma panorâmica da vida da cidadezinha dominada pela riqueza dos Ambersons, proprietários de mansão de três andares. O transporte é o bonde puxado a cavalo, e os invejosos vingam-se com fofocas e críticas. Naqueles tempos havia tempo para tudo, piqueniques, serenatas, passeios na neve. Vêem-se as mudanças operadas nas roupas dos homens, no uso do chapéu. O baile na mansão dos Ambersons é um primor de cinema (e como não seria, se dele não tivessem cortado pelo menos uns quinze minutos), ilustrativo de quase toda uma época. Eugene se reencontra com Isabel, já casada, e faz-lhe discreta corte, dança com ela por muito tempo e desperta a mal disfarçada indignação de George. Cenas depois, a silhueta negra de Eugene à porta da mansão sugere de pronto o funeral de Wilbert, marido de Isabel. Tudo parece encaminhar-se para o pedido de casamento à viúva a quem Eugene sempre amara, mas as coisas seguem outros rumos até o final não previsto pelo roteiro escrito por Welles.

     Significativos também são os diálogos e discussões de George com a tia solteirona Fanny, mormente quando lhe pergunta se sua mãe estava apaixonada por Eugene quando o pai ainda vivia e vai perquirir a vizinha. Igualmente, a dissimulada agressividade de George, ao contestar a utilidade dos automóveis, para ele coisas inúteis. A resposta de Eugene é uma bofetada com luva de pelica, como se dizia, mas aprofunda o fosso entre eles. Apesar da carta enviada a Isabel, a cena provocada por George leva-a a adiar a resposta para Eugene. Este não poderá mais visitar a viúva, fica proibido de fazê-lo, o amor é impossível. Isabel é fraca, ao dizer-lhe: “Não me faça sofrer pela segunda vez, pois não mereço isso”. O romance de George e Lucy, filha de Eugene, também não prospera e ela sofre a partida dele com a mãe para a Europa, mas as diferenças entre os dois se tornam irreconciliáveis.

     As escadarias da mansão, com personagens falando de um andar para o outro propiciam a Welles composições visualmente ricas, movimentação de câmara adequada a cada momento, ocupação cinematográfica dos espaços vazios. O uso do deep focus, ou profundidade de campo, traz efeitos surpreendentes, assim como a iluminação do rosto do Major Amberson vinda do fogo da lareira, enquanto ele fala coisas sem nexo diante da débâcle financeira. A vida é como o vento, nunca se sabe para onde nos levam, dirá depois. Morta Isabel, Fanny e George estão falidos e ela tem crise histérica porque sempre desejou Eugene secretamente. George levou seu troco, como muitos o desejaram e a dolly recuando no final é outro lance criativo.

     Retorna o narrador e a câmara vai mostrando as ruas e sugerindo a passagem inexorável do tempo assassino. Vale traduzir as palavras proferidas por Welles: “E agora o Major Amberson se engajou no mais profundo pensamento de sua existência e compreendeu que tudo quanto o preocupara ou deliciara durante a vida – todas as suas aquisições imobiliárias, construções, negócios e operações bancárias – tudo eram ninharias e uma cesta de papéis inúteis, sua preocupação agora, pois ele sabia naquele instante que tinha de planejar como entrar naquele país desconhecido, onde não estava sequer seguro de ser reconhecido como um Amberson”...

     A refinada fotografia em p&b de Stanley Cortez é outro ponto alto de Soberba. Como ele mesmo declarou ao “Los Angeles Times” em 1942, “deve-se a Welles a concepção visual do espaço cinematográfico em ‘Soberba’, a precisão do contre-plongée e do tempo de permanência de cada imagem na tela, a luminosidade deslumbrante de certas cenas e os bruscos contrastes de claro-escuro diligentemente buscados por ele. Sua intuição para a força da imagem muito ajudou a equipe de operadores a superar momentos de dúvida”. Cortez foi indicado para o Oscar daquele ano.

     A partitura composta por Bernard Herrmann é bela e adequada aos momentos nas quais predomina, contraponteia os momentos de tensão e a frieza dos ambientes, a recusa da entrada de Eugene na mansão, e às vezes se distancia nos tempos mortos. Os atores, todos afinados com os demais intérpretes, compõem um quadro homogêneo de fazer inveja a certos diretores de hoje, incapazes de arrancar desses profissionais o seu melhor, isso quando não os deixam inteiramente soltos, por preguiça ou incompetência. Agnes Moorehead, do Teatro Mercury, também foi indicada para o Oscar, assim como o próprio Soberba. Sua crise de choro, quando se vê só e falida, é um dos grandes momentos da arte cênica.

     Embora tenha estreado no cinema aos 18 anos em “A História Começa à Noite” (History is Made at Night), de Frank Borzzage (1937), a projeção de Tim Holt se deve a Soberba, onde contracena muito bem com Joseph Cotten e coadjuvantes como a citada Agnes e Ray Collins. Dolores Costello é uma Isabel discreta mas eficiente. Anne Baxter não compromete como Lucy.

     Alterando a ordem tradicional e incluindo técnicas inovadoras, como a decomposição do tempo e a multiplicidade de pontos-de-vista, Welles fez seu filme extravagante antes de sua obra neoclássica. Para Bazin, “as invenções estilísticas de ‘Kane’ se encontram, em sua essência, mais bem dominadas e mais inteligentemente utilizadas em ‘Soberba’, com freqüência até levadas mais além, pois a força socioeconômica do tema se encontra, talvez com mais sutileza e simplicidade, nessa evocação ao mesmo tempo realista e crítica dos EUA do final do século XIX e princípios do XX”.

     Mesmo mutilada Soberba é ainda uma realização ímpar da arte cinematográfica. Comparar Kane com Soberba? Tarefa complexa, sujeita a escolhos. Como distinguir o ótimo do ótimo? De qualquer modo, continua sendo uma lástima não se ter podido ver a segunda obra de Welles em toda sua completude.

     Em suma, filme para ver, rever e adquirir.

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