Duas
Décadas sem Welles: Kane e Soberba continuam atuais
* LG de Miranda Leão
Falemos
de Orson Welles para lembrar às
novas gerações de cinéfilos a relevância
do grande cineasta para a evolução da arte
fílmica, a propósito do seu desaparecimento
em 10 de outubro de 1985, vítima de colapso cardíaco.
Embora aparentando boa saúde, disposição
e lucidez de raciocínio aos 70 anos, Welles estava
obeso, tinha diabetes e pressão sob controle, mas
não largava o charuto. Saiu de cena discretamente
em sua casa perto de Los Angeles, em pleno outono. Seu mordomo
o encontrou pela manhã e logo pensou em sono profundo
do patrão amigo. Não era: para sua tristeza
se calara a voz do Sombra, série de sua preferência
no rádio. O Sombra era Welles...
Nos
últimos anos Welles trabalhava ocasionalmente emprestando
sua imagem de bom vivant e gourmet para entrevistas e sua
voz, de bom timbre e dicção, para dublagens.
Na TV comentava os males do mundo e criticava as utopias
e a intolerância; em casa, lia e esquematizava roteiros
para um projeto qualquer, visitava ou recebia amigos, ouvia
música. Conforme declarou Gary Graver, seu diretor
de fotografia durante 15 anos, “Welles não
se considerava gênio, mas tinha uma visão fora
do comum no tocante ao uso da câmara, era terrivelmente
criativo, tanto para o cinema como para outros veículos
de comunicação, e era um mágico de
primeira. ‘Mr. Arkadin’, livro de sua autoria,
serviu de roteiro para ‘Confidential Report’,
enquanto outros textos cenarizados mostravam também
seu domínio do idioma. Welles fará muita falta,
pois ainda poderia produzir muita coisa”.
Voltamos
também a Welles para saldar dívida com cinéfilos
leitores, pois havíamos ficado em débito naquela
citada homenagem: não tínhamos comentado Soberba,
há tempos disponível em DVD. Revimo-lo algumas
vezes para revisão de suas qualidades artísticas,
comparáveis a Kane. Não fossem
as mutilações sofridas, talvez superasse por
pouco sua estréia magistral no cinema.
Soberba
(The Magnificent Ambersons), tal como Kane,
pertence a um chamado ciclo de realismo psicossocial ou
testemunhos críticos da sociedade americana, diferente
do ciclo shakesperiano de “Macbeth”, “Othello”
e “Falstaff” e o das “diversões
éticas”, como quer André Bazin, de “A
Dama de Xangai” e “Grilhões do Passado”,
e do ciclo de denúncia da corrupção
de todo poder, seja policial, político, do estado
totalitário, ou da Justiça, “muitas
vezes com equívocos irreparáveis, morosa,
inoperante e também corrupta”, no qual se incluem
“A Marca da Maldade” e “O Processo”;
naquele há o poder de polícia, neste a tentativa
de sair dos labirintos kafkianos do Poder Judiciário.
Quanto
a O Estranho, no qual um criminoso nazista se esconde
em cidadezinha dos EUA sob falsa identidade, é fita
estranha ao universo wellesiano e foi por ele repudiado
pelos cortes havidos, reduzindo-se-lhe a metragem para 95min,
com omissão das cenas indicativas dos anos passados
pelo fugitivo numa universidade inglesa antes da II Guerra
(daí falar bem o inglês e poder enganar no
início o seu perseguidor), ou de suas andanças
pela América do Sul em busca de refúgio.
Soberba
tem afinidades com Kane no tema da obsessão
da infância e de sua importância na vida das
pessoas, mas dele se distingue pelo foco no universo de
família rica e depois decadente, ceifada pela morte,
enquanto nova classe de prósperos industriais se
projeta. O contexto psicossocial, o momento histórico
dentro do qual os personagens atuam, as condições
vividas pelo único herdeiro dos Ambersons, o jovem
George Minafer, menino a quem faziam todas as vontades,
sua fixação edipiana, o complexo de superioridade,
arrogância, soberba, preconceitos e intolerância
iluminam, na síntese magistral só possível
no cinema, o drama pessoal de George e trazem luz à
sua oposição a Eugene Morgan (Joseph Cotten),
o industrial inventor, agora rico, ex-namorado de Isabel
Amberson, quando ambos eram solteiros. Mas Eugene era pobre
e numa serenata bebe um pouco mais e cai no jardim da casa
de Isabel. O pequeno incidente vai separá-los e ela
acaba se casando com outro.
No
caso de George, é bem significativa a cena de quando
ainda garoto, vestido de Luis XIV, se recusa a pedir desculpas
pelo seu comportamento agressivo. Até seu amor por
Lucy (Anne Baxter) na vida adulta soa artificial, impositiva;
sua decisão de levar a mãe, agora viúva,
para longa temporada na Europa a fim de afastá-la
de Eugene é sintoma de um complexo de Édipo
não resolvido e essa condição explicará
outros desdobramentos do drama.
Welles
é o narrador externo (voz off), e abre seu filme
com uma panorâmica da vida da cidadezinha dominada
pela riqueza dos Ambersons, proprietários de mansão
de três andares. O transporte é o bonde puxado
a cavalo, e os invejosos vingam-se com fofocas e críticas.
Naqueles tempos havia tempo para tudo, piqueniques, serenatas,
passeios na neve. Vêem-se as mudanças operadas
nas roupas dos homens, no uso do chapéu. O baile
na mansão dos Ambersons é um primor de cinema
(e como não seria, se dele não tivessem cortado
pelo menos uns quinze minutos), ilustrativo de quase toda
uma época. Eugene se reencontra com Isabel, já
casada, e faz-lhe discreta corte, dança com ela por
muito tempo e desperta a mal disfarçada indignação
de George. Cenas depois, a silhueta negra de Eugene à
porta da mansão sugere de pronto o funeral de Wilbert,
marido de Isabel. Tudo parece encaminhar-se para o pedido
de casamento à viúva a quem Eugene sempre
amara, mas as coisas seguem outros rumos até o final
não previsto pelo roteiro escrito por Welles.
Significativos
também são os diálogos e discussões
de George com a tia solteirona Fanny, mormente quando lhe
pergunta se sua mãe estava apaixonada por Eugene
quando o pai ainda vivia e vai perquirir a vizinha. Igualmente,
a dissimulada agressividade de George, ao contestar a utilidade
dos automóveis, para ele coisas inúteis. A
resposta de Eugene é uma bofetada com luva de pelica,
como se dizia, mas aprofunda o fosso entre eles. Apesar
da carta enviada a Isabel, a cena provocada por George leva-a
a adiar a resposta para Eugene. Este não poderá
mais visitar a viúva, fica proibido de fazê-lo,
o amor é impossível. Isabel é fraca,
ao dizer-lhe: “Não me faça sofrer pela
segunda vez, pois não mereço isso”.
O romance de George e Lucy, filha de Eugene, também
não prospera e ela sofre a partida dele com a mãe
para a Europa, mas as diferenças entre os dois se
tornam irreconciliáveis.
As
escadarias da mansão, com personagens falando de
um andar para o outro propiciam a Welles composições
visualmente ricas, movimentação de câmara
adequada a cada momento, ocupação cinematográfica
dos espaços vazios. O uso do deep focus, ou profundidade
de campo, traz efeitos surpreendentes, assim como a iluminação
do rosto do Major Amberson vinda do fogo da lareira, enquanto
ele fala coisas sem nexo diante da débâcle
financeira. A vida é como o vento, nunca se sabe
para onde nos levam, dirá depois. Morta Isabel, Fanny
e George estão falidos e ela tem crise histérica
porque sempre desejou Eugene secretamente. George levou
seu troco, como muitos o desejaram e a dolly recuando no
final é outro lance criativo.
Retorna
o narrador e a câmara vai mostrando as ruas e sugerindo
a passagem inexorável do tempo assassino. Vale traduzir
as palavras proferidas por Welles: “E agora o Major
Amberson se engajou no mais profundo pensamento de sua existência
e compreendeu que tudo quanto o preocupara ou deliciara
durante a vida – todas as suas aquisições
imobiliárias, construções, negócios
e operações bancárias – tudo
eram ninharias e uma cesta de papéis inúteis,
sua preocupação agora, pois ele sabia naquele
instante que tinha de planejar como entrar naquele país
desconhecido, onde não estava sequer seguro de ser
reconhecido como um Amberson”...
A
refinada fotografia em p&b de Stanley Cortez é
outro ponto alto de Soberba. Como ele mesmo
declarou ao “Los Angeles Times” em 1942, “deve-se
a Welles a concepção visual do espaço
cinematográfico em ‘Soberba’, a precisão
do contre-plongée e do tempo de permanência
de cada imagem na tela, a luminosidade deslumbrante de certas
cenas e os bruscos contrastes de claro-escuro diligentemente
buscados por ele. Sua intuição para a força
da imagem muito ajudou a equipe de operadores a superar
momentos de dúvida”. Cortez foi indicado para
o Oscar daquele ano.
A
partitura composta por Bernard Herrmann é bela e
adequada aos momentos nas quais predomina, contraponteia
os momentos de tensão e a frieza dos ambientes, a
recusa da entrada de Eugene na mansão, e às
vezes se distancia nos tempos mortos. Os atores, todos afinados
com os demais intérpretes, compõem um quadro
homogêneo de fazer inveja a certos diretores de hoje,
incapazes de arrancar desses profissionais o seu melhor,
isso quando não os deixam inteiramente soltos, por
preguiça ou incompetência. Agnes Moorehead,
do Teatro Mercury, também foi indicada para o Oscar,
assim como o próprio Soberba. Sua crise de choro,
quando se vê só e falida, é um dos grandes
momentos da arte cênica.
Embora
tenha estreado no cinema aos 18 anos em “A História
Começa à Noite” (History is Made at
Night), de Frank Borzzage (1937), a projeção
de Tim Holt se deve a Soberba, onde contracena
muito bem com Joseph Cotten e coadjuvantes como a citada
Agnes e Ray Collins. Dolores Costello é uma Isabel
discreta mas eficiente. Anne Baxter não compromete
como Lucy.
Alterando
a ordem tradicional e incluindo técnicas inovadoras,
como a decomposição do tempo e a multiplicidade
de pontos-de-vista, Welles fez seu filme extravagante antes
de sua obra neoclássica. Para Bazin, “as invenções
estilísticas de ‘Kane’ se encontram,
em sua essência, mais bem dominadas e mais inteligentemente
utilizadas em ‘Soberba’, com freqüência
até levadas mais além, pois a força
socioeconômica do tema se encontra, talvez com mais
sutileza e simplicidade, nessa evocação ao
mesmo tempo realista e crítica dos EUA do final do
século XIX e princípios do XX”.
Mesmo
mutilada Soberba é ainda uma realização
ímpar da arte cinematográfica. Comparar Kane
com Soberba? Tarefa complexa, sujeita a
escolhos. Como distinguir o ótimo do ótimo?
De qualquer modo, continua sendo uma lástima não
se ter podido ver a segunda obra de Welles em toda sua completude.
Em
suma, filme para ver, rever e adquirir.