Escrever
é como brincar de Deus: criar o que não existia
antes
AML
- Como foi mais ou menos o início desta
trajetória ?
DO
- Quando menino, já gostava de escrever.
Aliás, costumo dizer que sou mesmo é escritor.
Ou melhor, antes disso, sou um homem que pensa. Um pensador.
E basicamente sou um escritor. Só dirijo
para não dirigirem mal o que escrevo. E só
represento para não ver outro ator fazendo besteira.
Com dez anos de idade eu fazia um caderninho onde
escrevia as críticas dos filmes que eu via. O
cinema sempre foi minha paixão. Vi muito
Tom Mix no Crispim, depois Cine Nacional. Entrei pelos fundos
em muito filme proibido para a minha idade...
AML
- Você se considera um grande leitor ?
DO
- Li bastante. Sou filósofo amador. Tenho
até um livro sobre isso: “Duas ou Três
coisas que eu sei dela, a Vida”. Filosofia é
meu hobby e é muito divertido. Me orgulho de uma
frase minha: “A verdadeira função
da Filosofia não é descobrir a verdade mas
divertir o filósofo”.
AML
- É verdade que você chegou a cursar
Engenharia ?
DO
- Uma pressão enorme! Meus pais morreriam
se eu não fizesse Engenharia. Para eles, um homem
tinha que ter diploma para pelo menos ter prisão
especial. Quando cheguei ao quarto ano, era preciso escolher
uma especialização e tudo me parecia nojento.
Me lembrei que na primeira vez em que fui à faculdade
eu tinha reparado, escrito num livro, na especialidade Eletricidade
Teórica. Como eu era interessado em Física,
escolhi este, mas a secretaria disse que não havia
este curso, que só existia no papel, porque ninguém
tinha feito. Fui o primeiro e único aluno nesta especialidade.
Mas não sei ligar nem uma tomada...
AML
-
Você é mais um tímido que também
resolveu fazer teatro...
DO
- Todo ator é tímido. A primeira
coisa na vida que fiz no campo artístico prático
foi um curso de ator stanislavskiano com Jack Brown, que
veio direto do Actors Studio para morar no Rio, e que me
marcou para o resto da vida. Stanislavski está
para o Teatro como Newton para a Física.
AML
- Nos anos 60, eclodiu o Cinema Novo, e nessa época
você dirigiu o grande sucesso Todas as Mulheres do
Mundo, num viés bem diferente dos filmes do movimento.
Como era sua relação com o pessoal do Cinema
Novo ?
DO
- Eu, como muita gente, sou muito eu. Nunca fui
realmente de nenhum grupo, nem à minha família
jamais pertenci. O grupo é o caminho pelo qual um
homem tem de passar, na medida em que se individualiza.
Toda a turma do Cinema Novo era de amigos, mas me antagonizavam
muito porque eu era o único que não
achava que a política é o assunto mais importante
do mundo. A política é uma coisa
curiosa, terrível, vital. Porém são
as relações humanas o que mais importa.A Arte
é, a despeito de si mesmo, política. Não
é preciso ir tão direto ao pote. É
a ação pessoal que move o mundo.
São os homens que fazem a História. Se todo
mundo for justo, bom, generoso, criativo, não deixar
passar sacanagens na sua vida pessoal, o mundo fica uma
maravilha! A coisa começa e acaba em você.
Se cuidar do mundo ao seu redor se transformar numa mania
social...
AML
-
Talvez o traço mais forte em você é
esta incrível capacidade de transformar sua vida
em Arte. Como consegue essa proeza ?
DO
- Eu não poderia ter outra vida. Tenho certeza
que me suicidaria se não pudesse transformá-la
em arte. Rilke disse ao Jovem Poeta: “Se puder ser
outra coisa, vá ser. Só vá ser artista
quando não puder ser outra coisa”. Tchecov
estava certo quando afirmava: Se quiser ser universal fale
de sua aldeia. O mundo é igual em todos os lugares.
E não tenho problemas em me expor porque tudo em
mim é humano. Toda arte é auto-biográfica.
A Arte é a atividade mais importante do homem.
Nós sabemos o que é Arte, sabemos da importância
da Arte, mas é muito difícil de explicar para
quem não sabe.A Arte é o maior anti-depressivo.
Se alguém estiver muito deprimido, toque para ele
um bom Mozart ou mostre “Amarcord”, do Fellini...
Arte não é Cultura... mas isso é outro
assunto.
AML
- Mas é bem intrigante isso... você
pode jogar alguma luz ?
DO
- A Arte é mais ligada à educação
e à informação. A Cultura trata do
passado, do patrimônio da humanidade. Quero inclusive
um Ministério da Arte desvinculado da Cultura. Se
não tivesse existido “Deus e o Diabo na Terra
do Sol”, o Cinema Novo teria tido um quinto da sua
importância? Se não tivesse havido “Central
do Brasil” e “Cidade de Deus” aconteceria
essa retomada do cinema brasileiro? A Arte é a locomotiva
que puxa o resto. A Arte foi feita para ajudar os homens
a viver e portanto é extremamente útil socialmente.
SEM ARTE É A BÁRBARIE.
AML
- Hoje você diria que a Arte lhe deu muito
dinheiro ou prejuízo ?
DO
- Tenho uma poupança no banco, graças
a meu trabalho, e que faz com que eu não me preocupe
com gastos. Como não me preocupo, sou um
milionário. Passei um bom tempo completamente
sem dinheiro, sem poder pagar o colégio da filha...
“Todas as Mulheres do Mundo” foi um sucesso
surpreendente e ganhei bastante dinheiro, mas nem tanto,
porque como não tinha dinheiro para fazer o filme
associei muita coisa. Os atores todos entraram de sócio.
Com seus 40% deste filme, Leon Hirschman conseguiu terminar
“Garota de Ipanema”. Mesmo assim, deu onze vezes
o que custou. Mas os filmes subseqüentes... “Edu,
Coração de Ouro” se pagou. “As
Duas Faces da Moeda” deu um bruta prejuízo.
AML
-
Em termos financeiros, pode-se dizer que fazer Cinema dá
retorno ?
DO
- Cinema é um negócio muito caro,
você fica muito tempo esperando patrocínios.
Aí, quando finalmente vem, já perdeu a vontade
de fazer o filme. Talvez seja esse o motivo pelo qual o
cinema brasileiro não é dos melhores. Não
é uma vocação nacional como o futebol
e a música. As leis de incentivo fiscal são
uma irresponsabilidade e deveriam ser proibidas. O Governo
não pode colocar as decisões sobre o cinema
nacional nas mãos de empresários. Tenho uma
história que define isso. Fui convidado por uma amiga
rica para participar de um almoço para empresários
seletos. Chegou o mais rico de todos, dono de uma cadeia
de supermercados, desembarcou de helicóptero, todos
correram para recebê-lo. Sentou ao meu lado e perguntou:
(botando a mão no ombro) “Domingos, o que está
dando dinheiro em cinema”?
AML
-
Como você definiria o seu cinema ?
DO
- O mote do meu cinema é minha visão
de mundo. Minha obra é muitas vezes medíocre,
porém minha visão de mundo é genial.
Toda vez que em momentos de lucidez pude ver o mundo, caí
de joelhos chorando diante de tanta beleza. Penso que somos
pêndulos com alma, oscilando entre o Terror e a Glória.
Esse é meu mote.
AML
-
Você acredita que possa haver alguma ligação
saudável entre as drogas e a criação
artística ?
DO
- Nenhuma droga é boa para a criação
artística. A lucidez é mais enlouquecedora
do que outra coisa qualquer.
AML
- E o cinema de Baixo Orçamento e Alto Astral
- BOAA -, como é mesmo isso ?
DO
- A idéia de fazer filmes de baixo orçamento
agride e ameaça a muitas pessoas. Minha implicância
com a legislação cinematográfica é
que ela trabalha no topo, financiando grandes filmes, e
não na infra-estrutura que seria a obrigação
do dinheiro público. Não adianta fazer
maus filmes para ampliar a indústria. O que dá
público é filme bom. Ao invés
de dar quatro milhões para um cineasta, por que o
Governo não faz um estudo sério, verifica
quais os 40 talentos mais promissores do Brasil, em diversos
estados, e dá cem mil para cada um? Serão
feitos 40 filmes. Dezesseis não serão completados
porque não tiveram competência. Doze serão
lançados e morrerão logo. Três passarão
somente na TV. Agora, quatro serão bons. E muito
provavelmente um será ótimo. O investimento
então terá valido largamente a pena. Mas não,
só os filmes grandes têm prestígio.
AML
-
Se fosse preciso optar, Cinema ou Teatro ?
DO
- Para começo de conversa, o Cinema
cabe no Teatro. Já encenei roteiros de filmes
como sendo peças e deu certo. O Teatro não
cabe no Cinema. Todos os esforços do cinema
moderno são para fazer caber. O Teatro tem quatro
mil anos e o Cinema vem há cem anos, não se
pode exigir muito dele, que por enquanto tem um pé
pesado na lata de cimento do realismo. O Teatro é
só o homem e mais nada. No Cinema você conta
com a paisagem, tem a colaboração na criação,
mas como vivência para o ator o Teatro é
maior. Não é à toa que Camus
dizia que o ator é
o mais absurdo dos homens. O ator começa
a estudar o personagem, vive aquilo, chora, com o máximo
de intensidade que pode. Me lembro quando fiz “Luzes
do Paraíso”, baseado em Dostoievski: nos primeiros
quinze dias eu nem conseguia ler o texto porque chorava
o tempo inteiro. Você precisa parar de chorar, conscientizar-se
daquela emoção, fazer essa emoção
chegar à razão, para depois repetí-la
todas as noites às quinze para as nove. É
preciso um absoluto controle. O ator aí não
chora, faz os outros chorar. O Teatro exige a delícia
de sua imaginação.
AML
- Onde o cinema é melhor que o teatro?
DO
- O que o Cinema faz com o tempo. Torna corriqueiras
operações com o tempo que a cabeça
humana não faria. Corta para o dia seguinte. Deixa
o quadro parado, o que é o Instante Eterno presente
em todas as filosofias. A câmera lenta – que
chamo de Tensão dos Deuses – onde você
vê coisas que não veria. E muitas outras coisas...
AML
- Mas a paixão é o Teatro ou o Cinema?
DO
- Se eu pudesse faria Cinema direto e Teatro de
vez em quando. A vida ideal é a do Bergman: um filme
por ano e uma peça eventualmente. E daria preferência
ao Teatro como ator, que faz muito bem à saúde.
AML
-
Quais os diretores que mais lhe influenciaram e por que
?
DO
- Godard me ensinou que pode tudo, tudo monta.
Truffaut me ensinou que é possível botar música
clássica na vida cotidiana. Woody Allen é
quem melhor reflete o mundo moderno, sabendo que o
humor é o único modo contemporâneo de
falar sério. Chaplin foi o que mais amou.
E Fellini é o maior deles todos, porque, com o auxílio
de Nino Rota, filmou o Mistério.
PS:
A propósito, transcrevemos trecho de artigo escrito
pelo Dramaturgo/Cineasta quando da partida de Ingmar
Bergman :
" Bergman
trouxe a alma para o cinema. Aquilo que é
mais complexo no homem. O mais complexo da sua consciência.
E descobriu, segundo declarou, a cor da alma: é vermelha...
O verdadeiro artista, como um Cristo, não
vem ao mundo para julgá-lo e, sim, para salvá-lo.
A luz que Bergman lançou sobre a cultura ocidental.
A alegria e a beleza que fez chegar até nós,
somente poderão ser justamente avaliadas nos confins
da eternidade. Filmes como "Vergonha", "Sorrisos
de uma Noite de Verão", "Gritos e Sussurros"
e, particularmente, "Fanny e Alexander" não
são simplesmente filmes. São "a coisa"
em si. Quando morre um artista assim, perde-se um amigo,
sem dúvida. Mas não se deve lamentar
a morte de gente gloriosa. O inocente Ingmar, tão
preocupado com as besteiras daquele pastor que o criou,
morreu em idade aceitável. Fez os mais belos filmes,
comeu as mais belas mulheres. Ou seja, realizou
a maior das façanhas, que é fazer a vida valer".