Textos de Rubens Ewald Filho, Marcelo Janot, Celso Sabadin, Carlos Alberto Mattos...
O ANO QUE MEUS PAIS SAÍRAM DE FÉRIAS
 
BENJAMIM
 
CITIZEN KANE
 
Meu Nome não é Johnny
"O Cinema cria imediatamente uma direção para a vista, que é um sentido eminentemente abstracionista, e uma fantasia para a imaginação".
Vinícius de Moraes
Oboé Card
Equatorial - Casa de Memória
Rádio Universitária
 
 
 
>> Panorâmica - Domingos Oliveira
    Escrever é como brincar de Deus: criar o que não existia antes

AML - Como foi mais ou menos o início desta trajetória ?

DO - Quando menino, já gostava de escrever. Aliás, costumo dizer que sou mesmo é escritor. Ou melhor, antes disso, sou um homem que pensa. Um pensador. E basicamente sou um escritor. Só dirijo para não dirigirem mal o que escrevo. E só represento para não ver outro ator fazendo besteira. Com dez anos de idade eu fazia um caderninho onde escrevia as críticas dos filmes que eu via. O cinema sempre foi minha paixão. Vi muito Tom Mix no Crispim, depois Cine Nacional. Entrei pelos fundos em muito filme proibido para a minha idade...

AML - Você se considera um grande leitor ?

DO - Li bastante. Sou filósofo amador. Tenho até um livro sobre isso: “Duas ou Três coisas que eu sei dela, a Vida”. Filosofia é meu hobby e é muito divertido. Me orgulho de uma frase minha: “A verdadeira função da Filosofia não é descobrir a verdade mas divertir o filósofo”.

AML - É verdade que você chegou a cursar Engenharia ?

DO - Uma pressão enorme! Meus pais morreriam se eu não fizesse Engenharia. Para eles, um homem tinha que ter diploma para pelo menos ter prisão especial. Quando cheguei ao quarto ano, era preciso escolher uma especialização e tudo me parecia nojento. Me lembrei que na primeira vez em que fui à faculdade eu tinha reparado, escrito num livro, na especialidade Eletricidade Teórica. Como eu era interessado em Física, escolhi este, mas a secretaria disse que não havia este curso, que só existia no papel, porque ninguém tinha feito. Fui o primeiro e único aluno nesta especialidade. Mas não sei ligar nem uma tomada...

AML - Você é mais um tímido que também resolveu fazer teatro...

DO - Todo ator é tímido. A primeira coisa na vida que fiz no campo artístico prático foi um curso de ator stanislavskiano com Jack Brown, que veio direto do Actors Studio para morar no Rio, e que me marcou para o resto da vida. Stanislavski está para o Teatro como Newton para a Física.

AML - Nos anos 60, eclodiu o Cinema Novo, e nessa época você dirigiu o grande sucesso Todas as Mulheres do Mundo, num viés bem diferente dos filmes do movimento. Como era sua relação com o pessoal do Cinema Novo ?

DO - Eu, como muita gente, sou muito eu. Nunca fui realmente de nenhum grupo, nem à minha família jamais pertenci. O grupo é o caminho pelo qual um homem tem de passar, na medida em que se individualiza. Toda a turma do Cinema Novo era de amigos, mas me antagonizavam muito porque eu era o único que não achava que a política é o assunto mais importante do mundo. A política é uma coisa curiosa, terrível, vital. Porém são as relações humanas o que mais importa.A Arte é, a despeito de si mesmo, política. Não é preciso ir tão direto ao pote. É a ação pessoal que move o mundo. São os homens que fazem a História. Se todo mundo for justo, bom, generoso, criativo, não deixar passar sacanagens na sua vida pessoal, o mundo fica uma maravilha! A coisa começa e acaba em você. Se cuidar do mundo ao seu redor se transformar numa mania social...

AML - Talvez o traço mais forte em você é esta incrível capacidade de transformar sua vida em Arte. Como consegue essa proeza ?

DO - Eu não poderia ter outra vida. Tenho certeza que me suicidaria se não pudesse transformá-la em arte. Rilke disse ao Jovem Poeta: “Se puder ser outra coisa, vá ser. Só vá ser artista quando não puder ser outra coisa”. Tchecov estava certo quando afirmava: Se quiser ser universal fale de sua aldeia. O mundo é igual em todos os lugares. E não tenho problemas em me expor porque tudo em mim é humano. Toda arte é auto-biográfica. A Arte é a atividade mais importante do homem. Nós sabemos o que é Arte, sabemos da importância da Arte, mas é muito difícil de explicar para quem não sabe.A Arte é o maior anti-depressivo. Se alguém estiver muito deprimido, toque para ele um bom Mozart ou mostre “Amarcord”, do Fellini... Arte não é Cultura... mas isso é outro assunto.

AML - Mas é bem intrigante isso... você pode jogar alguma luz ?

DO - A Arte é mais ligada à educação e à informação. A Cultura trata do passado, do patrimônio da humanidade. Quero inclusive um Ministério da Arte desvinculado da Cultura. Se não tivesse existido “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, o Cinema Novo teria tido um quinto da sua importância? Se não tivesse havido “Central do Brasil” e “Cidade de Deus” aconteceria essa retomada do cinema brasileiro? A Arte é a locomotiva que puxa o resto. A Arte foi feita para ajudar os homens a viver e portanto é extremamente útil socialmente. SEM ARTE É A BÁRBARIE.

AML - Hoje você diria que a Arte lhe deu muito dinheiro ou prejuízo ?

DO - Tenho uma poupança no banco, graças a meu trabalho, e que faz com que eu não me preocupe com gastos. Como não me preocupo, sou um milionário. Passei um bom tempo completamente sem dinheiro, sem poder pagar o colégio da filha... “Todas as Mulheres do Mundo” foi um sucesso surpreendente e ganhei bastante dinheiro, mas nem tanto, porque como não tinha dinheiro para fazer o filme associei muita coisa. Os atores todos entraram de sócio. Com seus 40% deste filme, Leon Hirschman conseguiu terminar “Garota de Ipanema”. Mesmo assim, deu onze vezes o que custou. Mas os filmes subseqüentes... “Edu, Coração de Ouro” se pagou. “As Duas Faces da Moeda” deu um bruta prejuízo.

AML - Em termos financeiros, pode-se dizer que fazer Cinema dá retorno ?

DO - Cinema é um negócio muito caro, você fica muito tempo esperando patrocínios. Aí, quando finalmente vem, já perdeu a vontade de fazer o filme. Talvez seja esse o motivo pelo qual o cinema brasileiro não é dos melhores. Não é uma vocação nacional como o futebol e a música. As leis de incentivo fiscal são uma irresponsabilidade e deveriam ser proibidas. O Governo não pode colocar as decisões sobre o cinema nacional nas mãos de empresários. Tenho uma história que define isso. Fui convidado por uma amiga rica para participar de um almoço para empresários seletos. Chegou o mais rico de todos, dono de uma cadeia de supermercados, desembarcou de helicóptero, todos correram para recebê-lo. Sentou ao meu lado e perguntou: (botando a mão no ombro) “Domingos, o que está dando dinheiro em cinema”?

AML - Como você definiria o seu cinema ?

DO - O mote do meu cinema é minha visão de mundo. Minha obra é muitas vezes medíocre, porém minha visão de mundo é genial. Toda vez que em momentos de lucidez pude ver o mundo, caí de joelhos chorando diante de tanta beleza. Penso que somos pêndulos com alma, oscilando entre o Terror e a Glória. Esse é meu mote.

AML - Você acredita que possa haver alguma ligação saudável entre as drogas e a criação artística ?

DO - Nenhuma droga é boa para a criação artística. A lucidez é mais enlouquecedora do que outra coisa qualquer.

AML - E o cinema de Baixo Orçamento e Alto Astral - BOAA -, como é mesmo isso ?

DO - A idéia de fazer filmes de baixo orçamento agride e ameaça a muitas pessoas. Minha implicância com a legislação cinematográfica é que ela trabalha no topo, financiando grandes filmes, e não na infra-estrutura que seria a obrigação do dinheiro público. Não adianta fazer maus filmes para ampliar a indústria. O que dá público é filme bom. Ao invés de dar quatro milhões para um cineasta, por que o Governo não faz um estudo sério, verifica quais os 40 talentos mais promissores do Brasil, em diversos estados, e dá cem mil para cada um? Serão feitos 40 filmes. Dezesseis não serão completados porque não tiveram competência. Doze serão lançados e morrerão logo. Três passarão somente na TV. Agora, quatro serão bons. E muito provavelmente um será ótimo. O investimento então terá valido largamente a pena. Mas não, só os filmes grandes têm prestígio.

AML - Se fosse preciso optar, Cinema ou Teatro ?

DO - Para começo de conversa, o Cinema cabe no Teatro. Já encenei roteiros de filmes como sendo peças e deu certo. O Teatro não cabe no Cinema. Todos os esforços do cinema moderno são para fazer caber. O Teatro tem quatro mil anos e o Cinema vem há cem anos, não se pode exigir muito dele, que por enquanto tem um pé pesado na lata de cimento do realismo. O Teatro é só o homem e mais nada. No Cinema você conta com a paisagem, tem a colaboração na criação, mas como vivência para o ator o Teatro é maior. Não é à toa que Camus dizia que o ator é o mais absurdo dos homens. O ator começa a estudar o personagem, vive aquilo, chora, com o máximo de intensidade que pode. Me lembro quando fiz “Luzes do Paraíso”, baseado em Dostoievski: nos primeiros quinze dias eu nem conseguia ler o texto porque chorava o tempo inteiro. Você precisa parar de chorar, conscientizar-se daquela emoção, fazer essa emoção chegar à razão, para depois repetí-la todas as noites às quinze para as nove. É preciso um absoluto controle. O ator aí não chora, faz os outros chorar. O Teatro exige a delícia de sua imaginação.

AML - Onde o cinema é melhor que o teatro?

DO - O que o Cinema faz com o tempo. Torna corriqueiras operações com o tempo que a cabeça humana não faria. Corta para o dia seguinte. Deixa o quadro parado, o que é o Instante Eterno presente em todas as filosofias. A câmera lenta – que chamo de Tensão dos Deuses – onde você vê coisas que não veria. E muitas outras coisas...

AML - Mas a paixão é o Teatro ou o Cinema?

DO - Se eu pudesse faria Cinema direto e Teatro de vez em quando. A vida ideal é a do Bergman: um filme por ano e uma peça eventualmente. E daria preferência ao Teatro como ator, que faz muito bem à saúde.

AML - Quais os diretores que mais lhe influenciaram e por que ?

DO - Godard me ensinou que pode tudo, tudo monta. Truffaut me ensinou que é possível botar música clássica na vida cotidiana. Woody Allen é quem melhor reflete o mundo moderno, sabendo que o humor é o único modo contemporâneo de falar sério. Chaplin foi o que mais amou. E Fellini é o maior deles todos, porque, com o auxílio de Nino Rota, filmou o Mistério.

PS: A propósito, transcrevemos trecho de artigo escrito pelo Dramaturgo/Cineasta quando da partida de Ingmar Bergman :

" Bergman trouxe a alma para o cinema. Aquilo que é mais complexo no homem. O mais complexo da sua consciência. E descobriu, segundo declarou, a cor da alma: é vermelha... O verdadeiro artista, como um Cristo, não vem ao mundo para julgá-lo e, sim, para salvá-lo. A luz que Bergman lançou sobre a cultura ocidental. A alegria e a beleza que fez chegar até nós, somente poderão ser justamente avaliadas nos confins da eternidade. Filmes como "Vergonha", "Sorrisos de uma Noite de Verão", "Gritos e Sussurros" e, particularmente, "Fanny e Alexander" não são simplesmente filmes. São "a coisa" em si. Quando morre um artista assim, perde-se um amigo, sem dúvida. Mas não se deve lamentar a morte de gente gloriosa. O inocente Ingmar, tão preocupado com as besteiras daquele pastor que o criou, morreu em idade aceitável. Fez os mais belos filmes, comeu as mais belas mulheres. Ou seja, realizou a maior das façanhas, que é fazer a vida valer".

Para saber mais sobre a Aurora de Cinema AURORA de Cinema, de Teatro, de Arte... Textos de Rubens Ewald Filho, Marcelo Janot, Celso Sabadin, Carlos Alberto Mattos... Para saber mais sobre eventos culturais e lugares de CINEMA Uma estante virtual para produções audiovisuais de todos os gêneros, matizes e intenções Um espaço para você saber mais sobre este grande Mestre da Crítica Cinematográfica Notícias do nosso Audiovisual Aqui você pode conversar conosco