AURORA de Cinema, de Teatro, de Arte...
O ANO QUE MEUS PAIS SAÍRAM DE FÉRIAS
 
BENJAMIM
 
CITIZEN KANE
 
Meu Nome não é Johnny
"O Cinema cria imediatamente uma direção para a vista, que é um sentido eminentemente abstracionista, e uma fantasia para a imaginação".
Vinícius de Moraes
Oboé Card
Equatorial - Casa de Memória
Rádio Universitária
 
 
 
>EQUATORIAL
Lauro Maia, O Acendedor de Lampiões

* Calé Alencar

     Lauro Maia não foi um multimídia, jamais soube o significado real da Internet nem descobriu a era da informática passeando na ponta dos dedos pelas infovias. Mas é universal e eterno. Sua música nos contempla e nos conforta do alto de sua compreensão de ser um criador de pérolas musicais, um universalista olhando o mundo e a música feita no mundo a partir de seu/nosso quintal.

“O trem blim blão, blim blão
Vai saindo da estação
E eu deixo o meu coração
com pouco mais, com pouco mais
Com pouco mais
Lá na gare o meu bem
Acenando com o lenço
Bandeira da saudade
Muito além”.

     A imensa criatividade espelhada na obra musical de Lauro Maia tem berço. Sua morenice cachaça-com-refresco tem berço. O Barão de Camocim, que construiu e nos presenteou o Palacete Guarany, era tio-avô do Lauro. Seu gosto pela música veio nas pontas dos dedos de dona Laura, sua mãe, e as aulas de piano do Boulevard Visconde de Cauipe com o garoto Lauro arredio e indisciplinado, como de resto seria por toda a vida. Depois vieram as aulas com Elvira Pinho.

“Quando estou cansado
Eu invoco uma cachaça
E vou curti-la
Nos bancos da praça”.

     Em pouco tempo o menino Lauro, ainda de calças curtas, estaria tocando piano no Cine Majestic. Foi também ao piano que ele teve registrada em acetato sua interpretação para o choro “Saudades do Cariri”, gravado nos estúdios da rádio PRE-9 com acompanhamento de orquestra e participação especial de Zé Menezes, conhecido no meio artístico da época como Zé Cavaquinho. O acetato pertence hoje em dia ao Arquivo Nirez e foi reproduzido no disco “Lauro Maia – 80 Anos”, lançado em 1993 para comemorar os 80 anos de nascimento do compositor Lauro Maia Teles.

“Eu já cheguei
Vim trazer o samba que eu fiz
Para apresentar
Ao sambista que veio do morro
E que tem valor
Receber a medalha de ouro
E depois voltar”.

     Craque da bola musical, o Laurão, assim chamado pelos amigos mais íntimos, dedicou-se a estudar flauta e acordeon. Hoje se sabe que andou matando o tempo com estudos de piston no pequeno quarto de pensão da Avenida Pasteur, no bairro de Botafogo, Rio de Janeiro, onde morou com a mulher Djanira e os dois filhos. Mas foi tocando acordeon que Lauro Maia integrou a orquestra do Maestro Euclides Silva Novo ainda na PRE-9, onde ocupou o cargo de diretor-artístico.

“Você tem uns olhos que falam de amor
De um amor que não tem par
E você tem no olhar
Um quê de pedir
Um quê de matar”.

     Ainda em Fortaleza, Lauro Maia ocupou cargos públicos, conseguidos através de concurso, e passou pelos bancos do Liceu e da Faculdade de Direito. Para a festa de formatura da sua turma compôs a “Valsa do Ruby”, mas não compareceu ao evento provavelmente por ter esquecido da hora tomando umas e outras com alguns colegas de batente etílico e o compromisso de doutor advogado ficaria mesmo para depois.

“Bati na porta que cansei
Chamei, chamei, chamei
E ela não me atendeu
Mas que mulher
Sabendo que era eu nem respondeu”.

     As historinhas sobre Lauro Maia vão chegando sem muito esforço. Tem o livro do Nirez, “O Balanceio de Lauro Maia”, e as pessoas conhecedoras do meu interesse por este nosso notável compositor e pelo imenso respeito que tenho por sua música, me revelam coisas e causos, memórias, fatos e histórias do tempo em que era super normal um artista ser endeusado, respeitado por seu talento e querido por todos, ídolo em sua própria terra, ter o seu nome em escola de samba e quando botar um piano em cima de um caminhão só pra fazer uma serenata não era assim uma grande ousadia mas sim uma farra bem resolvida e naturalmente alegre e só acabada na manhã do dia seguinte. É coisa de cinema.

“Sambei num samba dos bons
Sambei até o sol raiar
Sambei não me sinto cansado
Sambei um bocado
Sambei de rachar”.

     Dia de sol meio parecido com o sol de Fortaleza e eu andando pelas ruas do Rio e fascinado com a idéia de descobrir coisas novas e novas músicas e documentos de Lauro Maia nos arquivos do Museu da Imagem e do Som. Existem registros dos elogios feitos à música de Lauro Maia por Villa-Lobos e Tom Jobim e também de uma certa inveja que o poeta Manuel Bandeira nutria por não ter ele mesmo escrito os versos onde Lauro Maia compara o lenço com a bandeira da saudade (escutem o Trem de Ferro).     

     Na entrada do MIS, numa caixa de vidro, está o clarinete de Abel Ferreira. Pode ser deste instrumento o som que se escuta na gravação do “Samba de Roça”, de Lauro Maia e Humberto Teixeira, magistralmente interpretado por Orlando Silva em gravação de 1943.

     Durante o tempo em que esperava os funcionários do MIS voltarem do almoço deu pra sentir como é tratada a memória dos nossos artistas. Neste museu que conheço agora está um respeitável acervo da cultura musical brasileira em condições de precariedade absoluta. A senhora do arquivo é muito gentil e a pasta com recortes, cartas, documentos e letras de músicas, nunca solicitada, está pela primeira vez fora das gavetas. Lauro Maia Teles, nascido aos seis dias de novembro de mil novecentos e treze, em Fortaleza, e falecido no dia cinco de janeiro de mil novecentos e cinqüenta na cidade do Rio de Janeiro, vítima de tuberculose. Tinha 36 anos e o amor da gente de sua terra.

“Não se meta em arruaça
Que o resultado é apanhar
Na nossa roda não tem um caboclo
Que deixe a peteca cair”.

     Em seus papéis a gente percebe o método empregado nas composições, quase todas com anotações de sons onomatopáicos, entradas de instrumentos, apitos, vozes de solistas e coro, manuscritos, escalas musicais, que ele era também um grande arranjador. Escutem “Terra da Luz”, composição de Humberto Teixeira, onde Lauro Maia criou o arranjo e dirigiu a orquestra para a gravação do cantor Déo e o Coro dos Apiacás. Além de ser uma das primeiras oportunidades de trabalho que o Lauro teve no Rio auxiliado pelo cunhado Humberto, é um trabalho primoroso, revelador de seus amplos conhecimentos musicais.

     Uma grande surpresa no meio da papelada é o tratado sobre a cura da tuberculose, escrito a lápis em papel almaço, caligrafia firme e precisa, não demonstra nenhuma revolta por sua condição de paciente terminal, ao contrário, atira na direção da possibilidade de cura.

“A linda serrana
Foi o meu primeiro amor
Foi ela quem me conquistou
Foi quem primeiro me beijou
E quando eu comecei a querer bem
A linda serrana me abandonou”.

     Lauro andou por uns tempos pesquisando e fazendo anotações sobre a música folclórica do Cariri e de outras cidades do interior cearense, escutando de tudo e somando ao seu talento urbano e jazzístico as coisas da preta Maria Catolé, do Crato, e os ritmos e tradições vindas lá do fundo da alma da gente do Ceará. É interessante observar que ao mesmo tempo em que compunha sambas de harmonias pré-bosanovistas de fazer inveja a Noel Rosa e Assis Valente, Lauro Maia mostrou ao Brasil os ritmos extraídos da base folclórica e popular e principalmente, sob a direção de Paurillo Barroso, tornou o Balanceio um ritmo consagrado em apresentações dos Vocalistas Tropicais e corpo de baile em memoráveis noites no Cassino Atlântico, onde Lauro Maia também fazia apresentações ao piano.

“Ô balancê, balançá
Balança pra lá e pra cá
Eu vou até de manhã
Só nesse balanceá”.

     Lauro divulgou ainda os ritmos miudinho, ligeira, batuque-catolé, samba-batucada, remelexo, tudo isso com um jeitinho bem cearense de fazer música brasileira da melhor qualidade.

“Roda o vento e roda a lua
Roda a terra e roda o mar
A orquestra agora roda
Pra você rodopiar”.

     A música é o maior alento para o gênio inventivo e generoso.

     Quem como eu pôs os olhos no prédio da Fênix Caixeiral percebe a beleza de uma Fortaleza agora sobrevivente apenas em fotografias vez por outra publicadas nos jornais da cidade equatorial abençoada pelo mar verde-luz e por Nossa Senhora da Assunção, o nome português do Forte Schoonenborch fundado em 1649 por Matias Beck às margens do Marajaig, o riacho Pajeú.

     Quem viveu como Lauro Maia em Fortaleza a partir da segunda década do século vinte, iluminada a gás carbônico e popularizando a figura do acendedor de lampiões, só podia criar, a partir deste cenário, uma obra de peso e medida, legado de seu talento à história da Música Popular Brasileira, como é e será sempre a que se escuta,
vê,
degusta,
cheira e
apalpa
no convívio com a sua música.

Publicado na Revista de Literatura Espiral, Fortaleza, Ceará, edição nº. 3, 1997.

-----------------------------------------------------------------------------------------
7 Cantos Pra Gente Miúda e Gente Crescida
* Calé Alencar

Canto Primeiro.
Para Assis Valente, Boas Festas.
Por tudo o que pode representar uma canção de Natal criada em 1932 pelo talento de um compositor brasileiro.
”Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel”.

Canto Segundo.
Para Pixinguinha e Braguinha, Carinhoso.
Pelo que tem de voz nacional, por ter sido canção de abertura nas apresentações de Orlando Silva, por ser uma canção entoada pelo Brasil inteiro, do primeiro ao último verso. Porque “meu coração, não sei porque, bate feliz quando te vê e os meus olhos ficam sorrindo”.

Canto Terceiro.
Para Moraes Moreira e Fausto Nilo, Meninas do Brasil.
Por ser um dos mais perfeitos casamentos de letra e melodia da música brasileirinha e “Deus me faça brasileiro, criador e criatura, um documento da raça pela graça da mistura”.

Canto Quarto.
Para Caetano Veloso, Uns.
Porque para Caetano todos ainda é muito pouco e “uns vão, uns tão, uns são, uns dão, uns não e uns hão de. Uns pés, uns mãos, uns cabeça, uns só coração”.

Canto Quinto.
Para Gilberto Gil, O Compositor Me Disse.
Porque ele disse que eu continuasse no caminho da Música, que “todas as vezes que eu canto é amor transfigurado em luz”, que os meus olhos têm muito brilho e eu disse a ele que Humberto Teixeira, o Doutor do Baião, nasceu no Ceará.

Canto Sexto.
Para Lauro Maia, Trem de Ferro.
Porque na década de 1940, ainda morando no Ceará, este belo moreno já tinha suas canções gravadas e divulgadas em discos e programas de rádio feitos no sudeste. Porque batucou seu molengo tengo no carnaval da Fortaleza velha. “Lá na curva o trem apita, desce a serra e a saudade aumenta”.

Canto Sétimo.
Para Ednardo, Terral.
Porque “eu venho das dunas brancas, de onde eu queria ficar”. Porque ser do Ceará é ser moleque, mamulengo, da terra do Conselheiro, ser do coco, do batuque, do forrock, do pandeiro. Corpo e embalagem todo gasto na viagem, a viola na mão e um punhal entre os dentes. “Porque cantar parece com não morrer, é igual a não se esquecer que a vida é que tem razão”.

-----------------------------------------------------------------------------------------
VENTRE
* Calé Alencar

(Para Canô Veloso)

Ventre
Mãe do mundo
No mais profundo
Dom
Que gera o artista
Sempre a mão do mundo
Abençoe a alma
O gen
A gente
A luz do ventre
Que deu à luz
A alma do artista
Muito sentimento
Tal e qual
O maior amor do mundo
Beije o ventre
E a luz do artista
Terra
Inunde em água
A vastidão dos mares
Para eu ver
A tez, o giz
A luz
Ventre onde estanco
Índio, preto e branco.

-----------------------------------------------------------------------------------------

     Aqui é o espaço da Arte, da Cultura, do Respeito e Reverência à História das pessoas e manifestações responsáveis pela riqueza e diversidade do Patrimônio Imaterial do Brasil.

     A Casa da Memória Equatorial é a mais expressiva e relevante contribuição do músico, cantor, compositor e pesquisador Calé Alencar para a preservação da história Artística, Cultural e Humana do Ceará no cenário poético, musical, imagético e sensorial do país.

     Cantor, compositor e produtor dos mais profícuos no cenário artístico do Ceará, Calé Alencar vem cativando platéias ao longo de sua trajetória marcada por um trabalho de fortes referências rurais e urbanas. Autor de algumas das mais belas músicas já criadas por aqui, dedicado analista da vida cotidiana da amada Fortaleza, com vários discos individuais e produtor de diversos e importantes álbuns coletivos (como as homenagens a Lauro Maia e Patativa do Assaré, e o registro em CD da Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto), além de premiações em festivais e eventos musicais realizados em diferentes regiões do Brasil e do exterior, Calé é atuante defensor da Cultura AfroDescendente e há 3 anos comanda o Maracatu Nação Fortaleza (ao qual imprimiu novas e instigantes leituras musicais acrescentando ao tradicional ritmo influências sonoras diversas), Associação Cultural com a qual realiza constantes apresentações e para a qual compõe Loas e cânticos de grande empatia, aclamados nos carnavais de rua da capital cearense.

     Aqui você encontrará preciosos textos de Calé versando sobre temas variados. E se quiser entrar em contato com o Artista, acesse nossa página de CRÉDITOS. Sua visita e sua opinião são muito importantes para nós.


Um abraço e Viva a Memória Equatorial !
Preserve e Prestigie a Cultura Brasileira !

-----------------------------------------------------------------------------------------

Como É Bom Poder Tocar Um Instrumento
                                       Calé Alencar

Música, linguagem do som e do sentimento.

Antídoto para qualquer dor, amiga a nos trazer alento.

Viva a música que existe dentro de você, de seu prazer, de seu delírio, de sua fadiga ou de seu tormento.

Música que inebria, entorpece o corpo, a mente, a alma, traz lembranças boas e o pior momento.

Que alegra a casa, ganha as ruas, cola na planta do pé e sobe ao firmamento.

Música que acompanha a prece, o transe, o gesto, a missa, os rituais, range na roda do carro de boi e roda na pá do catavento.

Se toca a flauta, é música o que vem do vento.

Tambores batem e é música o que soa forte feito a queda de um pavimento.

Onde está a música vê-se a beleza de um monumento.

Guardas noturnos e seus apitos musicais dentro da noite carregam por certo algum pressentimento.

Vem o silêncio e a pausa é música e é movimento.

Poesia é música e é encantamento.

Música é o nascer do sol, alumbramento.

Um brinquedo, um sonho, um divertimento.

Aura e luz, dia amanhecendo, aurora do pensamento.

Entardecer lilás, noite azul, estrelas do céu, buracos negros, o universo e seu itinerário lento.

Música é remédio pra memória, pra não esquecer de lembrar e curar o esquecimento.

Música é o cantor e sua voz, é o músico e seu equipamento.

Música é lenitivo, cânfora, ungüento.

Bola na rede, explosão na hora do tento.

Bela imagem de cinema, tela pintada pelo artista atento.

Música é feito til, circunflexo, é acento.

É a hora do almoço, é o Mucuripe, a Beira Mar, descanso, dormir depois do almoço, é assento.

Música é carnaval, troar de metais, estrondo de bateria, é nenhuma zoada, o som dos corredores de um convento.

Música é tristezalegria, é noite e dia, é assim e assado, é tudo que eu queria e por isso tento.

Seria a música o melhor invento?

‘Como é bom poder tocar um instrumento’.

----------------------------------------------------------------------------------------- 

Humberto Teixeira na Ponta do Lápis

                                              Calé Alencar

     No início de 1994, alguns meses após haver concluído as gravações do disco em homenagem aos 80 anos do compositor cearense Lauro Maia, projeto para o qual contei com a valiosa parceria do pesquisador Nirez, tomei conhecimento de um depoimento de Humberto Teixeira, gravado em fitas de rolo, no qual Nirez inquiria o nosso Doutor do Baião, guardado desde 1977 na casa situada às margens da linha férrea, entre as estações do Otávio Bonfim e do Km 8, na qual está preservada boa parte da memória musical brasileira.

     Ao tempo do Projeto Lauro Maia, em sua primeira etapa, lançamos um álbum duplo em vinil e o livro O Balanceio de Lauro Maia, escrito por Nirez, fazendo as vezes de encarte. O papel utilizado para a impressão do livro havia sido doado pela Universidade Estadual do Ceará, sendo reitor o professor Paulo Petrola. Concluída a publicação, constatei haver sobrado alguns pacotes de papel e me veio a idéia de aproveitar aquele material na reprodução do depoimento. O primeiro passo foi solicitar cópias em fita cassete. Depois, pacientemente, transcrever tudo para o papel, utilizando lápis e um bloco de papel com 60 páginas, tarefa desempenhada com um imensurável prazer pelo fato de ouvir as histórias de Humberto Teixeira contadas por ele mesmo repetidas vezes, até copiar na íntegra o depoimento. O terceiro passo foi datilografar tudo, revisar, junto com Aurora Miranda Leão, levar à gráfica e aí começar o processo de composição, arte final, fotolitos, chapas e, finalmente, a impressão. Lembro de haver utilizado algumas imagens do compositor em várias épocas de sua carreira, a começar pela foto clássica da capa, retirada de um folheto, o qual ganhei de presente da diva Ayla Maria, com letras de várias canções de Humberto Teixeira e distribuído como material de sua campanha para deputado federal. Outra imagem trazia Humberto aos 16 anos, na sua primeira incursão em um concurso de músicas carnavalescas, do qual participou com a marcha Meu Pedacinho, concorrendo com autores do quilate de Ari Barroso, Ari Kerner, Índio das Neves e José Maria de Abreu. Antes de iniciar o depoimento, reproduzimos o registro fotográfico da conversa entre Nirez e Humberto e, nas páginas centrais do livreto, ao lado das letras de Asa Branca e Baião, uma foto de Luiz Gonzaga e a caricatura de Humberto Teixeira assinada por Clayton.

     O poeta Ricardo Alcântara havia lançado, em 1992, o belo livro de poemas Você Faz Isso Melhor Que Ninguém. Quando pensei em editar o depoimento de Humberto Teixeira, me veio à idéia aquele livro e seu formato, o qual tomei como referência. Em janeiro de 1995 Eu Sou Apenas Humberto Teixeira estava pronto, com uma tiragem de 3.000 exemplares, sendo distribuído primeiramente em Fortaleza e depois em várias capitais brasileiras, onde estive levado pela música, mostrando as histórias da minha vida e da minha terra pelo meio do mundo. O lançamento da publicação foi planejado para coincidir com os 80 anos de Humberto Teixeira, nascido no dia 5 de janeiro de 1915, em Iguatu, também merecedor de outras iniciativas, à mesma época, a exemplo da instituição do Ano Humberto Teixeira e da denominação do trecho da rodovia CE-060, entre Quixadá e Iguatu, de Rodovia Humberto Teixeira, idéias levadas por mim ao então deputado estadual Inácio Arruda, aprovadas pela Assembléia Legislativa e sancionadas pelo governador do Ceará na época, Ciro Gomes.

     Outro projeto ao qual me dediquei, tocado com o claro objetivo de realçar a trajetória brilhante de Humberto Teixeira e sua contribuição fabulosa à história da música popular em nosso país, foi a reedição em CD do Long-Play Ceará, Terra da Luz, produzido por Gerardo Barbosa em 1965, com direção musical de seu irmão, Danúbio Barbosa Lima. Desse álbum antológico constam duas obras-primas de Humberto Teixeira, o samba-canção Terra da Luz, com arranjo de Lauro Maia e magistralmente cantado por Gilberto Milfont, e Eu Vou Pro Ceará, na segura interpretação de Epaminondas.

     Através de um convite da produção musical do Projeto Bec Seis e Meia, realizado no anexo do Theatro José de Alencar, ainda em 1995, tive a oportunidade e o prazer de dedicar um espetáculo inteiro ao repertório de Humberto Teixeira, abraçando a chance de celebrar sua música com a liberdade de poder criar novos arranjos e revisitar o repertório quase todo aprendido quando, ainda menino, ia ao Crato e, na casa de meu tio Zé Neto, botava os discos de Luiz Gonzaga pra tocar e me deitava embaixo de uma radiola ABC, A Voz de Ouro.

     Por meio dessas modestas iniciativas, creio haver contribuído para despertar um olhar mais permanente na direção da música de Humberto Teixeira, grande divulgador da música do Nordeste em todo o mundo, defensor e pioneiro na luta pelos direitos autorais, responsável pela inclusão da nossa região no mapa musical brasileiro.

-----------------------------------------------------------------------------------------
Tom, Esta Flor Brasil

                     Calé Alencar

Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1994.

     E então ele me ensinava palavras novas e de uma sonoridade só alcançada pelos gênios de alma musical. Borzeguim é uma delas, aprendendo a entrar de sola e calçar as botas no momento certo. Depois vieram inúmeros pássaros e seus nomes e os nomes das árvores, flora e fauna desta paisagem brasileira, atlântica mata saltando para dentro de seus olhos e espetando seu coração, a cada pau e pedra no fim do caminho sem volta dos homens sem música e sem afeto pela Vida.

     Na manhã cinzenta do Rio de Janeiro eu já saí de casa com um nó na garganta, depois de ouvir meio sem acreditar as notícias do rádio sobre o falecimento desta flor Brasil que é Tom Jobim.

     Quase ao final de duas semanas no Rio eu precisava ir à Copacabana pois havia encontrado dois disquinhos digitais do Gilberto Gil, tão ambicionados para minha coleção, numa loja de lá.

     Desci a Negreiros Lobato em direção à Lagoa Rodrigo de Freitas lembrando de todas as vezes em que chegando à Cidade Maravilhosa de avião, com exceção da primeira vez, num Itapemirim que demorou três dias para chegar, eu ficava cantando baixinho a música do Cristo Redentor, braços abertos sobre a Guanabara e esse samba é só porque e o Rio e eu gosto de você e sentia vontade de ter feito mesmo aquele música e vamos nós e eu algumas vezes segurando a mão de Aurora. A terra.

     Lá pelas nove da manhã eu esperava um táxi, um buzú, um disco-voador, qualquer coisa ou transporte que me levasse até Copa e encontrei mesmo foi um engarrafamento desses colossais que acontecem na cidade do Rio, na avenida que beira a Lagoa e aí eu resolvi ir andando pra ganhar tempo pois às treze e trinta tinha que dar uma entrevista para a Rádio Nacional. Entre árvores e pássaros e remadores e joggers e madames empoadas e seus cachorrinhos de louça fui andando e olhando o vazio da Lagoa sem a estrela de Tomie Ohtake, da Fonte da Saudade até o Parque da Catacumba, uma caminhada e tanto e nada de táxi, nem ônibus, muito menos disco-voador.

     Quando cheguei ao parque não demonstrava cansaço nem nada mas sentia o tempo passar avexado e eu com o compromisso da Rádio Nacional. Afinal ia conhecer o templo da música brasileira em seu período de ouro.

     Peguei o 157 pro Leblon e só Deus sabe (?) explicar (quando encontrá-Lo vou perguntar, ora se não vou – isso se conseguir falar em Sua presença) como é que eu indo pra Copacabana fui descer meio perdido em Ipanema, atravessei a pista dupla, peguei a rua perpendicular à avenida e saí exatamente na rua Nascimento e Silva, aquela do famoso número 107.

     Enquanto tudo isso ia acontecendo, eu continuava andando e com os sons e os tons jobinianos na memória cantarolava e assobiava várias canções em tom mais que brasileiro e universal.

     O tempo voa e eu estou indo até Copacabana que hoje me engana, esconde o espinafre e o biotônico.

     Antes de seguir o meu destino passei no Vinícius, o bar, passei na rua Vinícius de Moraes, e aí é que doeu danado pois então eu lembrava que eu sem você não sei nem porquê.

     Visto assim ainda de manhã e com aquelas nuvens cor de chumbo sobre as cabeças, parecia que o Rio de Janeiro estava sufocando, se preparando para desaguar um choro desenfreado de menino e eu pedindo ao bom Deus que fosse um choro de Pixinguinha, de Noel, de Jacob, de Abel Ferreira ou ainda de Altamiro ou Paulo Moura, choro de música.

     Eu, cumprindo o que me cabe sentir, lembrava de minha mãe achar parecida a voz de Tom Jobim com a minha, chorava pelas ruas de Ipanema, ruas do Rio, esquinas do Brasil, vias da Via Láctea.

     Já em Copacabana encontrei a tal loja com os discos do Gil, um ao vivo e o outro gravado em Londres, e como tenho acentuada paixão por discos de vinil resolvi dar uma olhadinha num bocado de elepês em promoção assim em um canto encostado.

     Adivinha qual o primeiro disco em repouso na prateleira? Era.

     Arquitetura de Morar é como eu chamo o disco Urubu, lançado pela Warner em 1989. Ali estava eu de frente pro disco do Tom que eu mais gosto e que me faz lembrar bastante de minha vida em casa na companhia de minha mãe e de meus irmãos ao tempo em que morávamos no Porangabassu. O fato é que retirei o disco da prateleira, li o ótimo texto sobre os urubus, escrito pelo maestro soberano, pedi para ouvir a sinfônica Saudades do Brasil e coloquei o disco de volta (eu mesmo tenho um exemplar antigo cheio de músicas cada vez mais novas). Com todo o respeito, deixei-o lá.

     Hoje sei que falta o nome de Dori Caymmi nos créditos de arranjos e direção musical. Amanhã eu vou novamente à Copacabana procurar o Tom, o Urubu, mas receio que ele não esteja mais por lá.

     Quando já era quase meio-dia resolvi voltar pra casa onde era esperado por Aurora, Joyce, Júlia, Manoel, Valda e Fifa para o almoço e depois Rádio Nacional.

     Por um erro de coordenada ou esperteza carioca, o motorista do táxi, o velho chofer de praça, deu uma volta por Ipanema e, para chegar na Fonte da Saudade, passamos em frente ao Jardim Botânico onde, à tardinha daquele mesmo dia, seria velado o corpo do Maestro Soberano Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim. Entre homenagens e música e vai minha tristeza e diz-lhe numa prece e a melancolia que não sai de mim não sai.

     Eu estou ainda agora sem entender direito porque é que meus passos me colocaram nesse roteiro, nesses caminhos de tantas lembranças e de tanta presença do maior compositor da história da música popular brasileira e na minha ótica de cidadão comum me sinto confortado de ter traçado essa rota, mesmo que por pura coincidência, e ter assim vivido este momento histórico e poder contá-lo como eu só eu vi.

     Os acontecimentos estão em nossa vida para serem vividos com aquele prazer de instante único.

     É, eu acho que vou mesmo amanhã procurar aquele Tom, o Urubu, que eu deixei numa loja de discos em Copacabana.

     O meu receio é que ele não esteja mais por lá.

* Publicado no jornal Tribuna do Ceará, Fortaleza, Ceará, caderno Idéias, edição de 10 de setembro de 1995

 
Para saber mais sobre a Aurora de Cinema AURORA de Cinema, de Teatro, de Arte... A opinião especial de amigos da Aurora Para saber mais sobre eventos culturais e lugares de CINEMA Uma estante virtual para produções audiovisuais de todos os gêneros, matizes e intenções Um espaço para você saber mais sobre este grande Mestre da Crítica Cinematográfica Notícias do nosso Audiovisual Aqui você pode conversar conosco