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| "O
Cinema cria imediatamente uma direção
para a vista, que é um sentido eminentemente
abstracionista, e uma fantasia para a imaginação".
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Vinícius
de Moraes |
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Mestre L.G. |
Críticas
de Luiz Geraldo de Miranda Leão: Analisando cinema,
críticas de LG
A
jornalista Neusa Barbosa (SP) é quem faz a apresentação
desta coletânea de alguns dos trabalhos mais importantes
de Luiz Geraldo de Miranda Leão, o mais atuante
crítico de Cinema do Norte e Nordeste e um dos
mais conhecidos fora do eixo Rio-São Paulo. Lançado
pela Coleção Aplauso (coordenada por Rubens
Ewald Filho para a Imprensa Oficial de São Paulo),
o livro foi organizado por sua filha, a jornalista Aurora
Miranda Leão, reunindo textos do extenso acervo
de LG, fixando-se em Grandes Cineastas (Bergman, Fellini,
Orson Welles, Kubrick), Grandes Filmes (A Aventura, de
Antonioni, A Noite Americana, de Truffautt e outros) e
Criadores Brasileiros (como Walter Hugo Khoury, Walter
Salles, Toni Venturi e Lúcia Murat) e a Safra Recente
(Cidade Baixa; Cinema, Aspirinas e Urubus). Nascido em
Fortaleza, professor catedrático da Universidade
Federal do Ceará, Miranda Leão teve seu
interesse despertado pelo cinema assistindo, quando garoto,
às filmagens de It's all true, de Welles, em seu
estado natal. Foi o começo de uma paixão
intensa e persistente, ainda hoje em atividade semanal
como palestrante, debatedor e crítico semanal do
Diário do Nordeste.
Informações
Gerais e Como Comprar.
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Reflexões
indispensáveis
*
Neusa Barbosa
Ao
apresentar o volume de críticas do eminente crítico
e professor cearense L. G. de Miranda Leão, confesso
sentir-me um pouco na posição de quem, sendo
não mais do que aluna, é convidada a apresentar
o mestre. Não pode ser outro meu sentimento do que
orgulho da honraria que me cabe ao lembrar nesta introdução
um pouco da importância desta figura de destaque da
cultura brasileira, que completou 50 anos de crítica
cinematográfica. Um feito que raros profissionais
terão a perseverança e a paixão de
igualar, ainda mais com o extremo cuidado e profissionalismo
que caracterizaram sempre seus textos densos e cristalinos.
É
de admirar que um profissional da crítica mantenha
intocado seu fôlego intelectual tantas décadas
num mister assim polêmico, não raro ingrato
e carregado de incompreensões. Afinal, alguns desavisados
costumam confundir os críticos com infalíveis
juízes do bom gosto e alguns entre estes, os mais
vaidosos, aceitam assim ser considerados. Não é
o caso de Miranda Leão que, embora mestre, ensina
nas entrelinhas de seus iluminados comentários com
a sutileza que cabe aos dotados da melhor sabedoria, amparado
numa pedagogia que vem da enorme intimidade com o assunto
que comenta.
Mestre
em literatura de língua inglesa e portuguesa, Miranda
Leão domina a língua com uma fina expressão,
construindo frases certeiras que, embora se alonguem num
estilo precioso, cultivado em épocas mais eruditas
do que esta apressada nossa, sempre sabem onde querem chegar.
Suas palavras acertam sempre no alvo, construindo análises
e conceitos capazes de enriquecer o universo de seus leitores.
Ler
sua prosa cristalina é quase assistir aos filmes
que ele tão cuidadosamente comenta, com total ausência
de preconceito, não se esquivando de analisar tanto
o último clássico do cinema europeu ou americano
quanto algum exemplar do descartável cinema de terror
adolescente que ultimamente pulula nas telas dos multiplexes.
Para todos os filmes, desenvolve o crítico uma argumentação
serena, fazendo uma progressão segura num mundo de
idéias e erudição ao qual não
faltará, sempre que oportuno, uma pincelada de sua
fina ironia e bom humor.
Lembrando
muito bem que o cinema “não é uma ciência
exata”, aconselha Miranda Leão que se veja
os filmes ao menos duas vezes, ainda que seja para desancá-los
depois. Assim sendo, a eventual crítica será
feita com propriedade. Lembra ele que “as imagens
passam rápido, são efêmeras, cabe ler
os signos e o subtexto”. Cinema é, portanto,
uma arte em que cabe cultivar a paciência no olhar,
sob pena de perder de vista os melhores detalhes.
Esse
olhar cinéfilo foi despertado, inadvertidamente –
ou quem sabe nem tanto – pelo pai do futuro crítico,
o médico João Valente de Miranda Leão.
Poliglota e entusiasta das artes, levou o filho, ainda garoto,
em 1942, para assistir às filmagens de um episódio
de “It´s All True”, o malfadado projeto
brasileiro do genial Orson Welles, que se desenvolvia então
em Mucuripe. Talvez a prova de que pretendia mesmo instalar
no sangue do filho o “micróbio” do cinema,
foi tê-lo presenteado, tempos depois, com um livro
sobre o cineasta americano D. W. Griffith, considerado o
precursor do cinema narrativo e de ação.
O
fato é que a semente germinou e o menino não
abandonou mais o cinema. No Colégio São João,
onde fez seus estudos fundamentais, integrou um grupo de
análise sobre a sétima arte. Uma atividade
que tomou um vulto ainda maior quando conheceu Darcy Xavier
da Costa, o emérito fundador, em 1948, do Clube de
Cinema de Fortaleza (CCF), do qual Miranda Leão brevemente
se tornaria um dos principais entusiastas e, futuramente,
um de seus maiores incentivadores.
A
partir do CCF, Miranda Leão começou a redigir
e divulgar seus primeiros artigos sobre cinema – como
aqueles produzidos sobre os filmes “Pacto de Sangue”,
de Billy Wilder, “O Processo”, de Orson Welles,
e “O Grande Golpe”, de Stanley Kubrick. Iniciando
aí sua prática redacional, aprofundou-se o
crítico na confecção de textos que
eram reproduzidos na imprensa local (como o de “Pacto
de Sangue”, no jornal “O Povo”) e nos
miniprogramas do próprio CCF. Nesses primeiros dias
do cineclube, esses textos eram mimeografados e distribuídos
aos freqüentadores, que assistiam a filmes projetados
pelo próprio Darcy Xavier, seu fundador, a quem cabia
igualmente a missão de rebobiná-los ao final
de cada sessão.
Com
uma fibra forjada nesses tempos heróicos do cineclubismo
em Fortaleza, Miranda Leão aprimorou seu talento
conduzindo ou organizando diversos cursos e seminários
de iniciação à apreciação
cinematográfica que tornaram o CCF um marco na vida
cultural da capital cearense. Os temas: linguagem cinematográfica,
teoria do filme, relação cinema x teatro,
a questão dos signos e do significado do cinema,
como ler um filme, Freud no cinema e tantos outros. Sem
contar a análise de filmes que passaram pelo circuito
comercial ou ciclos, como de cinema holandês ou do
cineasta canadense Norman McLaren. Enfim, seria impossível
listar em tão pouco espaço a gama de atividades
que tornou única a história do CCF de tal
maneira que, mesmo desaparecendo em meados dos anos 80,
deixou indelével sua marca em outras salas de arte
que a partir dali nasceram em Fortaleza.
Colaborador
constante de alguns dos principais órgãos
da imprensa cearense, como o “Diário do Nordeste”,
o crítico alimenta sua notável longevidade
cultural atento à renovação do cinema
brasileiro que já se tornou lugar comum denominar
de “Retomada” mas que Miranda Leão, mais
precisamente, prefere definir como “renovação
qualitativa de nosso cinema”.
Atento
às novidades, não teme, contudo, tomar posições,
recusando por exemplo, entrar no coro quase unânime
dos admiradores da iconoclastia do dinamarquês Lars
von Trier. Defende o cinema americano, tantas vezes objeto
de crítica apressada e leviana, por conta de abrigar
a mais lucrativa e onipresente indústria do mundo.
Para o crítico veterano, que sabiamente não
se deixa levar pelos modismos que ciclicamente infestam
tanto o cinema quanto a crítica, esse cinema yankee
“funciona” e ainda é capaz de produzir
“marcos culturais e artísticos”.
Concorda
Miranda Leão com a posição manifestada
pelo cineasta e crítico americano Peter Bogdanovich
de que todos os grandes filmes já foram feitos e
persevera com ele neste conceito: “Hoje só
podemos aspirar a fazer filmes bons e de alguma forma inesquecíveis”.
Portanto, não descrê do cinema e deve, assim,
por muito tempo, continuar a brindar nossas retinas com
suas reflexões atentas e indispensáveis.
* Neusa
Barbosa é jornalista. Diretora de Conteúdo
do site www.cineweb.com.br.
Crítica de cinema e escritora, autora de diversos
livros sobre Cinema, entre eles a cinebiografia de Wood
Allen. |
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Darcy
Costa e o Legado do CLube de Cinema de Fortaleza
* L.G. de Miranda Leão
Em
1º de agosto de 1986, aos 63 anos, desaparecia do nosso
convívio o abnegado cinéfilo e dirigente cineclubista
Darcy Xavier da Costa, também idealizador e fundador
do Clube de Cinema de Fortaleza (CCF), juntamente com outros
entusiastas da 7ª Arte: Wagner Barreira, Antônio
Girão Barroso, Otacílio Colares e Aderbal
Freire, todos, aliás, já desaparecidos. Para
quem não se recorda, o CCF nasceu oficialmente em
1948, em 28 de dezembro, data emblemática, pois foi
nesse mesmo dia em 1895, no Boulevard des Capucines, no
centro elegante de Paris, subsolo do Grand Café,
Salon Indien, a primeira exibição pública
do cinématographe dos irmãos Lumière,
Auguste e Louis.
Gênese
do CCF
Em
verdade, porém, o CCF nascera antes, fruto das inquietações
de seu primeiro presidente, e ambos estão tão
intrinsecamente ligados a ponto de não podermos dissociar
um do outro. De resto, fã de cinema desde cedo, o
menino Darcy já se valia de uma caixa de sapatos
e carretel e projetava na parede branca uma seqüência
de fotogramas (obtidos com os operadores do velho Majestic)
através de pequena abertura, servindo-lhe de
lente uma lâmpada cheia d'água, enquanto um
espelho aproveitava a réstia de sol como fonte emissora
de luz. O engenho primitivo foi melhorado depois mediante
uso de um jogo de lentes de antiga luneta, doada, se bem
nos lembramos, pelo seu companheiro Rubens de Azevedo. Muitos
garotos também utilizavam conjuntos semelhantes para
brincar de "passar filmes", numa época
ainda sem TV, mas o "projetor" de Darcy era dos
melhores e devia fazer inveja aos colegas "inventores"
lá do quarteirão. Conta isso em crônica
nostálgica, no antigo JD de Dórian Sampaio,
o próprio Rubens.
Darcy,
ocioso assinalar, cresceu vendo e estudando cinema e até
fazendo depois experimentos com filmadora de 8mm. Fascinava-o
essa alternância inteligente de luz e sombra, como
bem o definiu Ingmar Bergman, esse poder das imagens em
movimento com toda sua trama semiológica - elementos
essenciais dessa arte de síntese ou arte impura,
porque condensaria todas as outras, como a denominou propriamente
o crítico Paulo Emílio Salles Gomes. Bem poderia
ter sido Darcy um dos nossos cineastas pioneiros, não
fosse verdadeira temeridade à época largar
tudo para dedicar-se a fazer cinema. Se hoje sabemos das
dificuldades encontradas por profissionais da terra como,
por exemplo, Wolney Oliveira, Rosemberg Cariry ou Firmino
Holanda, visando à obtenção de recursos
financeiros para seus filmes, imagine-se pensar nisso nos
anos 50 !
Atuação
Profissional de Darcy
O
fundador do CCF seguiu outros caminhos na vida adulta, mas
jamais abandonou o cinema. Vinculou-o definitivamente à
sua vida quando procurou Girão Barroso, então
redator dos Diários Associados e critico intermitente
de filmes, para transmitir-lhe a idéia da criação
de um clube de cinema em Fortaleza. Levou-a depois aos fundadores
acima citados e deles recebeu entusiástica acolhida,
da qual resultou a formalização do CCF e o
profícuo trabalho iniciado já em princípios
de 1949. Profissionalmente, Darcy, sempre um bom redator,
tornou-se correspondente de firmas comerciais, professor
de Inglês do IBEU (língua da qual também
foi atento cultor desde cedo) e funcionário da Secretaria
da Fazenda Estadual. Licenciando-se desta, passou a integrar
a organização J. Macedo, da qual foi procurador
e diretor. Esteve igualmente à frente da Gazeta de
Notícias, quando marcou sua passagem como jornalista
em dia com seu tempo e administrador competente, capaz de
dar novas dimensões àquele matutino, até
mesmo no concernente à renovação gráfica
pela qual passou o veículo. Dignos de menção
foram os textos nele publicados sobre Cinema & Arte
na página intitulada Balaio.
Foi ainda diretor do Clube
de Dirigentes Lojistas e atuou efetivamente para o projeto
de melhoria do centro da cidade, antecipando-se no plano
das idéias ao projeto vitorioso da nova Praça
do Ferreira, pois lhe repugnara sempre o monstrengo de então.
Acadêmico de Direito, teve de interromper seu curso
em razão de compromissos profissionais cada vez mais
absorventes. Quando esteve nos EUA, a serviço, não
deixou de inteirar-se de tudo quanto se fazia no Cinema
Sixteen de Nova Iorque e de estabelecer contatos em Greenwich
Village, hoje como ontem ponto de convergência de
artistas de vanguarda. Não admira ter-se interessado
muito em conhecer o trabalho de John Cassavetes por trás
das câmaras, como os inéditos Shadows (1959)
e A Child Is Waiting e Too Late Blues (1962). Na Europa
visitou os circuitos independentes e reviu em versão
original, Confidential Report - Mr. Arkadin, de Orson Welles,
e Le Feu Follet, de Louis Malle.
Os
Primeiros Tempos do CCF
Conhecemo-nos
em 1949 na Alliance Française. Ainda muito jovem,
julgávamos pretensiosamente entender de cinema porque
sabíamos enredos de filmes, títulos originais,
nomes de intérpretes e realizadores, datas de filmagens,
tempo de duração das películas e outras
coisas adjetivas, próprias da idade. Darcy deu um
rumo diferente a este nosso interesse pelo cinema; herdamo-lo,
aliás, do saudoso genitor, Dr. João Valente
de Miranda Leão, médico ilustre, poliglota
e entusiasta da arte das imagens; foi ele quem nos levou,
ainda garoto, para assistir em 1942 às filmagens
de um episódio It’s All True, de Welles, no
Mucuripe, e quem nos presenteou, tempos depois, com um livro
sobre D. W. Griffith (o pai do cinema narrativo, mestre
pioneiro do filme de ação, mentor cinematográfico
de Serguei Eisenstein, a quem o genial cineasta russo sempre
deu crédito). Por causa do Darcy fomos levados a
estudar obras essenciais como EI Lenguaje deI Film, de Renato
May, A Arte do Cinema, de Rudolph Arnheim, e A Grammar of
the Film, de Raymond Spottswood, para só ficarmos
nestes.
Recordamo-nos,
a propósito, de ocorrência banal, responsável
pelo nosso encontro com Darcy. Quando respondemos com
êxito a uma sabatina sobre cinema no antigo grupo
de estudos do Colégio São João, em
fins de 1948, fomos aconselhados pelos colegas Samuel Félix
da Cunha e Luciano Vasconcelos a procurar um tal Darcy Costa,
a quem conheciam, mas de quem jamais ouvíramos falar.
Segundo eles, Darcy era quem mais entendia de cinema em
Fortaleza e bem poderia dar-nos lições úteis
sobre esse veículo de expressão. Decidimos
procurá-lo, mas o encontro só se tomou possível
quando lemos em jornal a notícia da exibição,
pelo recém-fundado CCF, de Silêncio nas Trevas
(The Spiral Staircase), de Robert Siodmak, na Alliance Française.
Fomos até lá. Darcy fez a apresentação
do filme, omitindo naturalmente o plot, mas detendo-se em
aspectos para nós até então desconhecidos
da direção cinematográfica, como o
do raccord ou da utilização do espaço
fora da tela e do contracampo oculto, ou do olhar em off.
Quanta coisa a aprender em matéria de cinema!
Chamou-nos,
porém, mais atenção um pequeno equívoco
na ficha técnica lida pelo apresentador: Milton Krasner
aparecia como diretor de fotografia e Miklos Rozsa (maestro
húngaro, em Hollywood desde 1940) como o autor da
música. Tratava-se, por certo, de um erro de cruzamento
no texto original remetido pela distribuidora, pois Krasner
fotografara alguns dos melhores thrillers da época,
como Almas Perversas (Scarlet Street), de Fritz Lang; Espelhos
D'Alma (The Dark Mirror), de Siodmak; e Punhos de Campeão
(The Set-Up), de Robert Wise, enquanto Rozsa compusera os
temas de Pacto de Sangue (Double Indemnity) e Farrapo Humano
(Lost Weekend), ambos de Billy Wilder; e de Quando Fala
o Coração (Spellbound), de Alfred Hitchcock.
Finda
a exibição, procuramos Darcy, porquanto dispúnhamos
de informação diferente: os nomes corretos
eram, respectivamente, Nicholas Musuraka (fotógrafo
japonês naturalizado americano) e Roy Webb, o músico,
ambos de saudosa memória. Darcy recebeunos com
surpresa mas, apesar de sua aparência pouco risonha,
aceitou de bom grado a corrigenda e na sessão seguinte
do CCF apressou-se em comentar a falha e dar o devido crédito
ao jovem cinéfilo de então. A partir daí
verificamos estar diante de um homem íntegro, leal
e desprovido de fúteis vaidades.
Expansão
das Atividades do CCF
Daí
em diante passamos a encontrar-nos regularmente nas sessões
do CCF e a ouvi-Io com atenção e até,
ousadamente, a participar dos primeiros debates, lance obrigatório
em qualquer atividade cineclubista. Quando começamos
a dar aulas no IBEU, a partir de meados de I952, a amizade
foi crescendo e se tomou fraterna, e a colaboração
se estreitou em razão dos primeiros artigos sobre
cinema por nós redigidos ou traduzidos e revisados
por Darcy, como, por exemplo, o ensaio sobre Pacto de Sangue
transcrito em O Povo, em 1955, O Processo (The Trial),
de Orson Welles, e O Grande Golpe (The Killing), de Stanley
Kubrick, estes vindos a lume em boletim mimeografado. Muitos
desses artigos eram reproduzidos na imprensa locaI e nos
miniprogramas do CCF (Darcy batia os textos em sua máquina
e os rodava em mimeógrafo portátil, muitas
vezes ajudado pelo primogênito Augusto César
Costa, hoje jornalista atuante) e enviados para publicação
pelo CEC de Belo Horizonte, onde pontificavam nomes
como os dos pranteados Cyro Siqueira e Maurício Gomes
Leite, este o realizador de Vida Provisória, aliás
falecido em 1994 na querida França. Com eles privamos
por ocasião da 1ª Jornada de Cineclubes na capital
mineira, onde representamos o CCF, em 1960. O mesmo Mauricio
nos convidou para fazer palestra a alunos do CEC sobre Signos
e Significado em Cinema. Ocorreriam depois outras Jornadas,
uma delas em Fortaleza, com o CCF à frente, dela
participando figuras de relevo vindas de outros Estados,
como Carlos Vieira, hoje já desaparecido, a tanto
nos consome o tempo assassino!
Nos
primeiros anos, Darcy era quem projetava os filmes e os
rebobinava após as sessões, primeiro na Alliance
e em seguida no IBEU, a partir de 1953, e depois na Associação
Cearense de Imprensa (ACI), quando para lá se mudou
o local das exibições. Lembramo-nos da sua
satisfação com a aquisição de
uma Bell & Howell e, mais adiante, com a projetora húngara,
quando já contava com a ajuda de José Gomes,
eficiente operador. Mesmo com Darcy ausente, por motivo
de alguma viagem, não havia quebra na continuidade
das atividades do CCF. Nem sempre era possível oferecer
películas de primeira linha, mas mesmo nos filmes-B
(muitos deles de qualidade, cedidos pelo saudoso Cosme Alves
Neto, Curador do MAM do Rio de Janeiro, onde ambos estagiamos)
havia sempre um tema, um ousado plano-seqüência,
um momento criativo, interpretação condigna
ou trouvaille para discussão.
Minicursos
& Seminários
À
guisa de registro, pois vivemos num país de desmemoriados,
como bem frisou Tristão de Athayde, num dos seus
artigos no JB, e onde tendemos a esquecer ou não
reconhecer o mérito alheio, coube ao CCF a primazia
da realização de alguns seminários
e minicursos de iniciação cinematográfica
para sócios e cinéfilos, de modo geral. Um
deles, por exemplo, trouxe o Prof°. Rafael de Menezes
a Fortaleza, a convite da antiga Faculdade Católica
de Filosofia e do CCF para um ciclo de palestras sobre Elementos
de Cinestética, em 1960. Outro, a nosso cargo, foi
ministrado na UFC, em meados dos anos 60, graças
à interferência de Milton Dias, então
Chefe de Gabinete, e com plena aquiescência do então
Reitor Martins Filho, administrador sensível às
manifestações artísticas.
Houve
outros cursos de certa relevância, um deles com respaldo
da Secretaria de CuItura, em 1974, sobre Linguagem Cinematográfica,
outro sobre Teoria do Filme e Relações Cinema
x Teatro. De resto, quando alguém estranhava essa
correlação, Darcy costumava lembrar Luchino
Visconti, para quem "Há sempre um pouco de cinema
em minhas peças e um pouco de teatro em meus filmes",
pois tinha plena consciência da necessidade de demonstrar
aos cinéfilos as diferenças entre as duas
linguagens, de modo a comprovar a autonomia estética
da 7ª Arte. Em seminário levado a efeito no
IBEU, também se exibiu e discutiu A Rede, de João
Siqueira, um dos pioneiros do cinema no Ceará (com
quem Darcy trabalhou nas filmagens de O Colecionador de
Crepúsculos), paralelamente a uma retrospectiva
do filme nacional.
O
CCF também ministrou um minicurso (cerca de 20h)
sobre a questão dos signos e do significado em cinema,
sobre como LER um filme. Nele foram exibidos documentários
em média metragem conseguidos junto ao USIS sobre
direção cinematográfica, produção,
fotografia, edição, montagem, direção
artística e desenho de produção. Neles
foi possível ver em pleno trabalho mestres de cada
uma dessas especialidades, como John Ford, David O. Selzníck,
Milton Krasner, Jacques Tourneur, Robert Wise, WilIiam Cameron
Menzies e Rudolph Sternad, entre outros. Foi um momento
memorável na vida do CCF. De todo aquele movimento
pioneiro, envolvendo palestras, exposições,
análises críticas e aulas, jamais se cogitou
de qualquer remuneração pelo labor e tempo
despendidos.
Só
havia um interesse: projetar o CCF e divulgar tudo quanto
sabíamos e dispúnhamos em benefício
dos associados e fãs de cinema. Era uma postura idealista,
às vezes quixotesca, mas tínhamos certeza
de estar contribuindo para um maior conhecimento da importância
do cinema em nosso meio e para a formação
de uma consciência crítica, ponto de apoio
de toda cultura cinematográfica. Tarcísio
Tavares, Frota Neto, Tavares da Silva, José Maia,
Carlos Pontes, Frederico Fontenelle Farias, Nirton Venâncio,
Cláudio Sidou, Clinete Sampaio, Calberto Albuquerque,
Inácio de Almeida, Mário Pontes e outros precocemente
falecidos, como Rui Paes de Castro e os Drs. Fahad Otoch
e Germano Carvalho Rocha, são apenas alguns dos nomes
chegados à lembrança, os quais, direta ou
indiretamente, são "filhos" das atividades
desenvolvidas pelo CCF. Muitos deles escreveram e ainda
escrevem sobre cinema, até mesmo cinéfilos
de outros Estados, partícipes desses cursos e seminários
como José Antônio da Silva e Alfredo Barroso,
este, aliás, de muita ajuda no seminário sobre
Freud no Cinema.
Durante
dois anos Darcy ajudou-nos a manter uma página domingueira
em Unitário (1958-1960) e por longo período
nos cedeu material para colaboração diária
àquele matutino, depois semanal, até
encerrar-se em fins dos anos 70. Fazemos esta referência
aqui para mostrar aos leitores como todos quantos se dedicaram
ao cinema entre nós, seja à teoria, à
prática ou à sua divulgação,
são devedores de uma forma ou de outra ao trabalho
pioneiro e persistente de Darcy e ao seu exemplo como dirigente
capaz e dedicado. Não admira a homenagem prestada
a ele pelos seus amigos do CCF, quando foi indicado para
integrar o Conselho Superior de Cultura, no Rio de Janeiro.
Justo reconhecimento vindo de fora; daqui resta dar o nome
de Darcy a uma rua, sala e filmoteca. É muito pouco
um troféu Samburá.
Debates
& Cinema de Arte
Não
é demais lembrar as reuniões do CCF, tanto
no IBEU como na ACI, para análise e debate dos filmes
em exibição nos circuitos comerciais. As mais
proveitosas discussões ocorreram após a projeção
de películas como A Morte do Caixeiro Viajante (Death
of a Salesman) e O Selvagem (The Wild One), de Lazslo Benedek;
Os Inocentes (The Innocents), de Jack Clayton; Glória
Feita de Sangue (Paths of Glory), O Grande Golpe (The Killing),
2001, Uma Odisséia no Espaço (2001, A Space
Odyssey), todos de Stanley Kubrick; “O Segundo Rosto”
(Seconds), de John Frankenheimer, As Adolescentes (Dulci
Inganni), de Alberto Lattuada; A Aventura (L 'Avventura),
A Noite (La Notte) e O Eclipse (L 'Eclisse), a trilogia
de Michelangelo Antonioni, a qual hoje se deve chamar de
tetralogia devido a “O Grito” (Il Grido), segundo
o próprio cineasta; A Doce Vida (La Dolce Vita),
Julieta dos Espíritos (Giulietta degli Spiriti),
Oito e Meio (Otto e Mezzo) e Os Boas Vidas (I Vitelloni),
todos de Federico Fellini; “Fuga do Passado”
(Out of the Past) e “A Noite do Demônio”
(The Curse of the Demon), de Jacques Tourneur; Quando Duas
Mulheres Pecam (Persona), de Ingmar Bergman, e O Processo
(The Trial), de Orson Welles. Lembramo-nos bem do debate
sobre este filme, pois dele participaram advogados, jornalistas
e até um psicanalista. Aliás, os filmes de
Welles até então exibidos foram alvo de ensaios
sintetizados em boletins, e realizações suas
como O Estranho (The Stranger) e Grilhões do Passado
foram igualmente debatidas e revistas proveitosamente.
Ano
Passado em Marienbad (L 'Année Dernière a
Marienbad), obra mestra de Alain Resnais, Leão de
Ouro no Festival de Veneza de 1961, foi, por iniciativa
do CCF, trazido a Fortaleza em 16mm e exibido 4 vezes, uma
delas em sala da UFC, seguindo-se-lhe debate entre docentes
e universitários. Darcy e nós à testa
de uma quase-sabatina, da qual participou o Prof. Jean Philippon,
então diretor da Alliance, o qual nos presenteou
com o original francês do script de Robbe-Grillet,
com generosa dedicatória. Outro momento significativo
na vida do CCF foi a exibição de uma série
de filmes de Norman McLaren, graças ao apoio da Embaixada
do Canadá, e de um ciclo completo do cinema holandês,
por cortesia da Embaixada da Holanda, com as quais Darcy
sempre manteve estreitos contatos. Nesse ciclo ressaltamos
a projeção do antológico A Casa (Das
Haus), de Louis A. van Gasteren, precedida de exposição
e seguida de rico intercâmbio de idéias. Houve
pleno êxito no programa, motivo pelo qual foi possível
conseguir ampla divulgação do filme na imprensa
e sua permanência por mais três dias, para novas
exibições.
Outras
iniciativas foram dignas de nota, mas estas bastam para
dar idéia de como o CCF foi um marco cultural na
vida de Fortaleza. Seu legado em termos de formação
de capital intangível no âmbito do cinema é
dificilmente mensurável, mas pode-se dizer ter sido
o Cinema de Arte do Cine Diogo, o do cine Gazeta e agora
o do Iguatemi; a Casa Amarela, fundada e dirigida por Eusélio
Oliveira durante 20 anos e hoje continuada pelo seu filho
Wolney; as exibições da Crédimus com
Franzé Santos, hoje à frente do Espaço
Unibanco e das sessões das quartas no Ideal Clube,
e o saudoso Espaço Cultural da Teleceará,
à frente Augusto César Costa, uma continuação
ou reflexo direto do CCF e de todo o profícuo trabalho
ali realizado por Darcy Costa. Orgulhamonos de termos
sido seu colaborador direto enquanto o Clube esteve sob
sua esclarecida direção.
Presenças
Ilustres
Uma
palavra final sobre nomes de prestígio trazidos a
Fortaleza pelo CCF, patrocinador da primeira exposição
feita por Nélson Pereira dos Santos, então
elogiado diretor daquele Rio 40 Graus. Aqui também
estiveram o músico, compositor e cineasta Sérgio
Ricardo (recordemos Juliana do Amor Perdido), o ator José
Lewgoy, o crítico Van Jaffa, o já citado Rafael
de Menezes, todos debatendo no CCF temas e assuntos
ligados ao cinema nacional. Darcy tentou sem êxito
trazer o diretor Arne Sucksdorf, o qual como se sabe, formava
com Bergman, Bo Widerberg, Alf Sjoberg e Arne Mattsson a
linha de frente do moderno cinema sueco. Sucksdorf viera
ao Brasil em 1962, a convite do Itamaraty, participar de
um seminário para o qual trouxe equipamentos sofisticados
à época, como uma câmara Arriflex (preferida
de Walter Hugo Khoury), um gravador Nagra (com o qual era
possível filmar em som direto de ótima qualidade)
e uma moviola plana.
Após
o evento, Sucksdorf ministrou um curso de cinema, do qual
foram alunos Gláuber Rocha, Amaldo Jabor, Joaquim
Pedro de Andrade e Eduardo EscoreI, entre outros. O realizador
escandinavo, por quem Darcy tinha admiração,
terminou mudandose de vez para o Brasil em 1967 e dedicou-se
a pesquisas sobre o pantanal e até se casou com uma
brasileira, com quem teve filhos. Sua vida está ligada
à história do Cinema Novo e às lutas
pela preservação dos ecossistemas. Sucksdof
acabou retornando à Suécia por motivos de
saúde. Para Darcy, o não ter conseguido trazê-lo
aqui equivaleu a uma frustração na sua vida
de cinéfilo.
Assim,
durante pouco mais de 30 anos e até sua desativação
nos anos 8O, por vários motivos (elevação
constante nos preços do aluguel dos filmes, a concorrência
da TV e do vídeo, o desinteresse de muitos associados,
por isso ou por aquilo, e para muitos cinéfilos o
fato de não ter surgido outro Darcy com tempo disponível
e condições para conduzir o barco com abnegação,
idealismo e persistência), o CCF plantou sementes
férteis no solo cearense. Quanto ao acervo bibliográfico
do CCF, construído cuidadosamente ao longo do
tempo, foi entregue por Darcy a Eusélio, pois livros,
álbuns, revistas em língua estrangeira, boletins,
folhetos e textos mimeografados tinham ficado na Casa
de Raimundo Cela, e Darcy temia pelo futuro desse acervo,
o qual, ressalte-se, esteve sempre aberto à pesquisa
e à disposição de todos quantos se
interessaram em enriquecer-se culturalmente. Por sua permanência
e maior alcance, com apoio da UFC, a Casa de Eusélio
Oliveira (como deveria chamar-se após o falecimento
do seu fundador) tem tido condições de melhor
servir-se dele.
Estes
os apontamentos, obviamente incompletos, vindos à
memória como registro de um período rico em
nossas vidas, mas já perdido no tempo fugidio, quando
recordamos Darcy Costa e o legado do CCF. Sua morte, sentida
até hoje por familiares, amigos e colaboradores,
abriu lacuna difícil de preencher. Sirva, no entanto,
seu exemplo como fonte de inspiração para
todos quantos quiserem valer-se das lições
por ele deixadas como cineclubista, cultor de cinema, pai,
amigo e cidadão, para tornarem suas vidas mais dignas
de serem vividas. Os ensinamentos ficaram. Cumpre-nos não
deixá-los esquecidos. |
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Para
o crítico e professor Luiz Geraldo de Miranda Leão,
o cinema sempre vive em crise. “A evolução
do cinema pode ser vista como a história de suas
sucessivas crises”, diz. No entanto, desde os anos
30, ainda criança, L. G. Miranda Leão é
um dos maiores estudiosos do cinema do País. Ele
lança, agora, pela Imprensa Oficial, o livro “AnalisandoCinema:
Críticas de LG”. Na obra L.G., colaborador
do “Diário do Nordeste”, aborda três
temas: grandes filmes, grandes diretores e criadores do
cinema brasileiro. Leia a seguir a entrevista de L. G. Miranda
Leão ao jornalista José
Anderson Sandes, editor do Caderno 3 do Diário
do Nordeste.
01.
COMO TUDO COMEÇOU?
Bem, tudo começou em
fins da década de 30, quando meu pai, o Dr. J. V.
de Miranda Leão, clínico de renome, poliglota,
cinéfilo, um dos fundadores da Faculdade de Medicina
da UFC e seu Professor Emérito, me levava regularmente
às “matinées” do velho Cine Majestic.
Foi ele, assim, em parte, o responsável pela minha
entrada no cinema da vida e na vida do cinema. Mormente
quando me pegou, ainda garoto, anos 40, para assistir parte
das filmagens de Orson Welles em Fortaleza, com quem, aliás,
já estivera em almoço no antigo Jangada Clube.
Ver
aquela encenação em pleno dia ensolarado,
Welles com pasta branca nos lábios para proteger-se,
saltando para chamar atenção dos figurantes
do casório na porta da igreja do Mucuripe ou deitando-se
sobre uma esteira no pequeno buraco aberto no chão
para melhor utilizar a câmara baixa, foi meu primeiro
espanto. Presenciar meu Pai conversando com Welles num intervalo
e dele ouvindo explicações sobre aparelho
parecido com o decodificador da TV de hoje (era na realidade
um moderno gravador de som direto) ou vê-lo vadear
na praia do Meireles com câmara de mão, ao
lado de um assistente, para captar umas “prise de
vues” de jangadas e jangadeiros, marcou profundamente
o menino. Tornei-me a partir daí quase um cinemaníaco.
Tempos depois ganhei de meu
Pai um livro sobre o cinema de D. W. Griffith, grande pioneiro
e referência obrigatória quando se fala em
7ª Arte. Esse texto, guardado até hoje, foi
meu segundo espanto. Conhecer cinema não era, como
eu pensava então, decorar nomes de artistas e de
diretores, saber se os filmes eram em p&b ou em cores,
qual o tempo de duração ou gênero aos
quais pertenciam. Era, sim, aprender-lhe a sintaxe cinematográfica,
a “leitura” das imagens, o sentido intrínseco
dos movimentos da câmara, dos cortes e dos liames
entre cenas, afora outras coisas.
02.
QUAL A IMPORTÂNCIA DO CLUBE DE CINEMA DE FORTALEZA
E DE DARCY COSTA NA SUA FORMAÇÃO?
Meu terceiro espanto veio
quando conheci a figura ímpar de Darcy Costa (1926-86),
idealizador e fundador do CCF e sua mola propulsora daí
em diante, não só do Clube mas de todas as
atividades ligadas direta ou indiretamente à arte
fílmica em Fortaleza, como a iniciativa de ministrar
os primeiros cursos de iniciação cinematográfica
com apoio em doumentários vindos do USIS, da Unifrance,
do Canadá e até do Consulado da Holanda. As
quatro exibições de “A Casa”,
obra-prima de Louis A. van Gasteren, por exemplo, foi um
dos pontos altos do esforço de Darcy nesse sentido.
Ainda hoje, junto com Tarcísio Tavares, temos procurado
obter cópia em VHS ou DVD desse filme, não
importa o preço, mas até agora nada. Nem mesmo
uma correspondência ao diretor holandês, até
mesmo respondida por ele, não concretizou a vinda
dessa película antológica. Em artigo publicado
no Informativo nº. 3 (dez 1994/jan 1995) da Casa Amarela
Eusébio Oliveira, da UFC, homenageio Darcy e registro
o quanto se fez enquanto ele viveu. O CCF, nem todos sabem,
foi fundado em 28 de dezembro de 1948, no mesmo dia e mês
do ano de 1895, considerada a data do nascimento do cinema,
quando os irmãos Lumière, Louis e Auguste,
projetaram pela primeira vez seus filmes para um público
pagante, no Boulevard des Capucines em Paris.
O contato com Darcy, já
referido, ocorreu em fevereiro de 1949, quando da exibição
pelo CCF, em sala da “Alliance Française”,
então à Rua Major Facundo, de “Silêncio
nas Trevas” (The Spiral Staircase), clássico
de mistério e crime do diretor teuto-americano Robert
Siodmak (1947). A cópia era em 16mm e Darcy fez a
apresentação do filme, quando ouvi coisas
das quais nunca ouvira falar, como “plongée”,
“plano-ponto-de-vista”, “divisão
áurea do retângulo”, “flashback”,
etc. Seguiu-se-lhe rico debate. A partir daí me tornei
seu admirador e amigo, dele recebendo orientação
e relação de livros (chegou a doar-me dois
deles e algumas revistas) indispensáveis para quem
quer estudar cinema.
Em
1953/54 passei a lecionar no IBEU e lá fui seu colega
durante quase uma década. Solidificou-se então
a amizade e daí passei a colaborar com a direção
do CCF durante muitos anos e naturalmente a aprender com
Darcy a analisar os filmes exibidos no IBEU e, depois, no
prédio da ACI. Os boletins da CCF eram reproduzidos
por ele numa impressora e distribuídos aos sócios
da entidade. Esta dispunha de qualificado acervo de obras
e revistas para leitura e consulta de temas abordados pelos
filmes. Bastante memoráveis foram os debates levados
a efeito pelo CCF sobre películas como “O Processo”,
de Welles, “A Casa”, de Gasteren, “Hiroshima”,
de Resnais e, até em dependências da UFC, sobre
“Ano Passado em Marienbad”, também do
mestre francês.
Em meados de 1956, comecei
a escrever no matutino “Unitário”, dos
“Diários Associados”, graças ao
suporte do Darcy e a boa receptividade de meu nome por parte
do Manuelito Eduardo. Minha primeira crítica foi
sobre “Monsieur Beaucaire”, comédia hilária
com Bob Hope no papel-chave. Não parei de redigi-las,
do “O Povo” ao “Unitário”
e deste ao “Correio do “Ceará”.
No primeiro escrevi sobre grandes diretores começando
com Welles, naturalmente, e mestres da direção
artística, como William Cameron Menzies e Rudolf
Sternad. Atuei na “Gazeta de Notícias”,
então sob a direção de Darcy (“Balaio”)
e voltei a “O Povo”, quando abordei o cinema
argentino e o filme de Fernando Solanas, “Tangos,
Exílios de Gardel”, sob o título “A
Metáfora do Tempo Redescoberto”. Fixei-me no
“Diário do Nordeste”, praticamente desde
seus primeiros tempos, em caráter mensal, no Caderno
de Cultura, e de dois anos para cá, regularmente
aos domingos, no “Zoeira”.
03.
COMO SURGIU A IDÉIA DE REUNIR EM LIVROS SEUS TEXTOS
SOBRE CINEMA?
Longe
estava eu de pensar em publicar esses artigos àquela
época. Mesmo juntando os de 1955-60, eles eram poucos,
faltavam ensaios de maior densidade e amadurecimento. A
idéia de selecionar e publicar artigos surgiu paralelamente
aos primeiros cursos do CCF ou quando escrevi nos seus boletins
comentários sobre dois filmes de Mauro Bolognini
– “Um Dia de Enlouquecer” (La Giornata
Balorda) (1960) e “Desejo que Atormenta” (Senilitá)
(1962). Lembrei-me de como esses poderiam ser um ponto de
referência para amigos leitores e ajudar os iniciandos
a entender a importância do comentário crítico.
Mas minhas atividades profissionais no BNB (1956-1983),
na UFC (1964-66) e na antiga Faculdade de Filosofia do Ceará,
depois UECE (1962-1997), e meus trabalhos de tradução
e revisão não me deixavam tempo para dedicar-me
à questão da publicação. Somente
após as aposentadorias “relativas” (digo-o
desse modo, pois aqui e ali sou convidado para ministrar
aulas em cursos especiais, como na Escola de Administração,
2002-04) a idéia tomou corpo, ainda assim precisei
de minha filha Aurora, jornalista, atriz de teatro e boa
redatora e revisora, para organizar o alentado material
vindo a lume durante 55 anos.
04.
A SELEÇÃO NÃO DEVE TER SIDO FÁCIL,
POIS V. ABORDA FILMES DE VÁRIOS GÊNEROS E AUTORES
DE DIVERSAS ÉPOCAS. COMO FOI O PROCESSO SELETIVO?
Como
disse, não pude acompanhar a passo igual a seleção
feita pela Aurora, daí a omissão de outros
filmes com meus cineastas preferidos (eles voltarão
em publicações posteriores já em elaboração).
Minha filha optou por dividir esse difícil processo
seletivo em Grandes Filmes, Grandes Diretores e Criadores
Brasileiros, sem seguir nenhuma cronologia ou separação
por gêneros. Lamentei a falta de fotos (os livros
da Fundação Cultural do Estado de São
Paulo usam padrão gráfico sem fotografias),
de um índice remissivo e de não ter podido
fazer a revisão final. Há alguns “gatos”
ou “typos”, como chamam os de língua
inglesa, perfeitamente perceptíveis, como na citação
do axioma de Rousseau, “tout passe, tout lasse, tout
casse”, quando o terceiro verbo saiu repetido, ou
quando a palavra francesa “scénario”
não foi impressa em itálico. Não colocaria
eu o filme de Christine Jeffs, “Sílvia, Além
das Palavras”, para abrir o livro, mas minha filha
apreciou bastante a crítica e se esqueceu do fato
de Christine não pertencer ao quadro dos “grandes
diretores”, embora seja dos bons ou ótimos,
assim como outros de sua categoria. A mesma coisa ocorre
em relação à divisão dos “grandes
filmes”: “Adorável Júlia”,
do mestre Szabo, é muito bom, mas não deveria
estar entre os grandes. Há muitos acertos da Aurora
nesse sentido, como a inclusão de Louis Malle e de
seu filme “30 Anos Esta Noite” (Feu Follet)
(1960), obra exemplar, apesar do tema depressivo, e naturalmente,
dos nomes de Welles, Kubrick, Resnais, Truffaut, Bergman,
Scorsese, Allen, Eastwood, obrigatórios em qualquer
seleção da espécie.
05.
ESSES TEXTOS FORAM UTILIZADOS TAMBÉM EM SALAS DE
AULA OU SOMENTE EM JORNAIS?
Os textos com críticas
não foram utilizados em salas de aula e publicados
somente nos matutinos da cidade, como já mencionado.
Para os cursos ministrados por mim no Centro Cultural Banco
do Nordeste, recomendei a leitura do ensaio no Caderno de
Cultura do DN sobre “A Noite Americana”, de
Truffaut, filme com o qual encerrei três dos cursos
ministrados ali. O complemento fundamental foi a cartilha
distribuída nos Cursos de Apreciação
de Arte e inteirada pelos filmes selecionados para esse
fim. Como o texto foi limitado a 40 páginas, tive
de suprir verbalmente as omissões e projetar cenas
escolhidas adrede. Pretendo lançar para o ano uma
edição revista e ampliada dessa cartilha com
vistas a novos cursos em gestação no CCBN,
graças à visão da Diretora Cultural
Carmem Paula.
06.
O CRITICO E ESTUDIOSO DE CINEMA PRETENDE LANÇAR OUTROS
LIVROS COM ÊNFASE NA ARTE FÍLMICA?
Sim, evidentemente. Tenho
em mira apresentar a minha relação dos 100
melhores filmes do século XX e um ensaio sobre os
grandes diretores e as dificuldades de escrever para o cinema
ou de adaptar obras literárias ou peças teatrais,
sobre a questão dos diálogos e do papel do
diretor cinematográfico. Alguns desses itens poderão
até fundir-se e incluir uma visão histórica
do cinema da Alemanha (segundo críticos ingleses
é onde se faz atualmente o cinema de maior qualidade
em escala mundial), da Hungria, França, Polônia,
Argentina, Inglaterra, Suécia e da República
Checa. Se viver mais uns cinco anos com a saúde de
hoje, esses projetos serão concretizados.
07.
POR FALAR EM JORNAL, ATÉ OS ANOS 50 OS JORNAIS ERAM
SUPORTES PARA GRANDES POLÊMICAS INTELECTUAIS: TÍNHAMOS
CRÍTICAS LITERÁRIAS, CINEMATOGRÁFICAS
E TEATRAIS COM GRANDE AMPLITUDE DE CONTEÚDO. NOMES
COMO ANTÔNIO CÂNDIDO, RACHEL DE QUEIROZ, GILBERTO
FREYRE, GLAUBER ROCHA, NÉLSON PEREIRA DOS SANTOS,
JOAQUIM PEDRO DE ANDRADE, WALTER HUGO KHOURY. ENFIM, NOMES
SEMPRE PRESENTES EM JORNAIS. OS ESPAÇOS ERAM GENEROSOS
E HAVIA LEITORES ÁVIDOS POR REFLEXÕES SOBRE
AS ARTES. COMO V. ANALISA O PANORAMA HOJE?
Realmente,
os espaços eram generosos e os jornais constituíam
o ponto de apoio para polêmicas intelectuais acirradas,
envolvendo principalmente literatura, cinema, teatro e artes
plásticas. O panorama hoje é bem diferente,
continua a escassez de espaço, há uma “ditadura
dos caracteres”, excesso de publicidade do interesse
dos jornais, predomínio da TV com suas novelas, convencionais
e intermináveis, da Internet, “sites”,
“blogs”, “e-mails”. Lê-se
menos, vê-se mais. Estamos vivendo época inprevisível
na qual a vida se tornou mais difícil, há
menos períodos de lazer e reflexão, o próprio
tempo corre mais depressa, média de 18h por dia,
(segundo cientistas alemães liderados por Walther
Schumann) e a luta pela sobrevivência avulta. Também
há muito mais filmes em exibição e
mais salas de cinema. Sua pergunta é a mais ampla
de todas, mas creio ter respondido ao principal.
08.
VOLTANDO AO SEU LIVRO, POR QUAL MOTIVO UM LIVRO DE CRÍTICAS?
Foi
o mais fácil de fazer. As críticas já
estavam prontas. O problema foi selecionar quantas deveriam
entrar e quais seriam elas, se pela importância dos
realizadores e se caberia seguir alguma ordem cronológica.
Creio já ter respondido a essa pergunta. Com o crescimento
do interesse pelo cinema, de certo tempo a esta parte, entendi
ser possível contribuir com minhas críticas
(não há nenhuma pretensão de sapiência
nem ares de catedrático nisso) para orientação
dos cinéfilos. De resto, prefiro considerar-me um
mediador entre o público e o filme. A palavra crítico
tem conotação um tanto negativa, sugere um
tipo ranzinza, intolerante ou um cineasta frustrado. Posso
até ser, e como gostaria de ver meu nome como realizador
de um bom filme! Aliás, pouco importa, pois em rigor
todos morreremos frustrados, por termos feito ou deixado
de fazer alguma coisa, por termos seguido este e não
outro caminho na vida. Não nos realizaremos nunca.
O objetivo nosso é viver seguindo padrões
éticos, consciência tranqüila, ajudar
a quem precisa e tornar o mundo menos ruim porque vivemos
nele.
09.
COMO V. VERIA HOJE A CRÍTICA CINEMATOGRÁFICA?
ELA EXISTE MESMO OU TEMOS APENAS RESENHAS?
O
exercício da crítica isenta e competente é
sempre bom numa democracia, não importa se crítica
política, econômica, etc. Se não pudermos
criticar, então estaremos numa ditadura. Não
quer isso dizer oposição sistemática
e radical, mas poder exercer o dissenso, seja sobre qual
assunto for. Temos hoje maior numero de resenhas em razão
do maior volume de filmes em exibição. Há
DVDs em profusão e a TV a cabo lança mensalmente
cada vez mais filmes. Temos muitos redatores, às
vezes nem apreciam tanto o cinema, limitam-se a contar a
história dos filmes apoiando-se nos dados fornecidos
pela internet ou pelas revistas. Acabam fazendo mera sinopse
das fitas em exibição. Só acredito
em opinião abalizada se, além de bons conhecimentos
da arte fílmica e senso crítico, o redator
não assistir a um filme pelo menos duas vezes. As
imagens são efêmeras, passam rápida,
é preciso estar atento aos detalhes, aos elos de
continuidade, à conclusão do elenco, à
competência técnica.
Fazem-nos
falta hoje críticos como Paulo Emílio Salles
Gomes J. L. Grunewald, Cyro Siqueira, Maurício Gomes
Leite, Walter Hugo Khoury (excelente analista de filmes
em boletins paulistas, antes de tornar-se cineasta), Moniz
Vianna, Rubem Biáfora, Caio Scheiby, J. C. Avellar,
Fritz Teixeira Salles, Sérgio Augusto, Ely Azeredo,
Hugo Barcellos e outros nomes, muitos deles já falecidos,
outros ainda vivos porque abandonaram o mister, por isso
ou por aquilo. Mas temos analistas e autores do porte de
Ismail Xavier, Amir Labaki, Luiz Carlos Merten José
Geraldo Couto, Marcelo Janot, Luiz Zanin Oricchio, Rubens
Ewald Filho, sem falar dos críticos das revistas
semanais. Jorge Colli me impressiona bastante pelo método
de análise e concisão em sua seção
“Ponto de Fuga” (no caderno Mais), na qual discorre
também sobre outros assuntos ligados às artes,
assim como o psicanalista Jurandir Pires da Costa, excelente
crítico bissexto. Leio sempre Roger Ebert e Richard
Schickel e me considero um ledor de críticos franceses
e também de “Première” e de “La
Nación”, embora nem sempre concorde com suas
opiniões.
10.
A CRÍTICA PRESSUPÕE UMA QUESTÃO DE
GOSTO. COMO FUGIR DE SUAS PREFERÊNCIAS PESSOAIS PARA
ATINGIR UM DETERMINADO DISTANCIAMENTO CRÍTICO PARA
ANÁLISE DOS FILMES?
Muito difícil fugir
das preferências pessoais. Prefiro as narrativas clássicas
ou neoclássicas, mas estou aberto a experimentos
ou revoluções do tipo “Kane”,
“Hiroshima” ou “Marienbad”. Tenho
grande apreço pelo filme “noir” dos anos
40/50 (aliás, o “noir” se iniciou na
França com “Cais das Sombras”/”Quai
des Brumes”, de Marcel Carné, 1938) e aprecio
filmes de qualquer gênero, desde quando sejam feitos
com competência e tenham valor intrínseco.
Aprecio também os documentários de qualidade,
o Novo e o Moderno Cinema da Alemanha, cineastas húngaros
como Istvan Szabo e Andrzej, Wajda, como Kristof Kieslowsky
da Polônia, os cinemas sueco, francês, inglês,
brasileiro, americano, argentino e de outros países,
desde quando feitos com categoria.
Tenho
louvado em meus artigos o renascimento do nosso cinema e
destacado alguns dos nossos melhores criadores. Abomino
o teatro filmado de Lars von Trier, os filmes mórbidos
como esses detestáveis “Jogos Mortais”
e os de fantasmas ridículos vindos do Japão
e imitados de forma canhestra por realizadores incompetentes.
Abomino também os filmes de torturas, de violência
contra a mulher, de matança de inocentes. Mas se
tiver de escrever sobre eles e neles encontrar méritos,
louvo-lhes as qualidades. Veja, por exemplo. “Réquiem
para um Sonho”, de Darren Aronofsky, aula deprimente
de cinema sobre a falência da condição
humana e, no entanto, com proficiência diretorial,
interpretação soberba, e um conjunto de cenas
do maior impacto. Impossível não elogiá-lo.
11.
QUAIS OS PRINCIPAIS FILMES E DIRETORES FOCADOS POR V. EM
SEU LIVRO?
Foco
cineastas da envergadura de Welles, Kubrick, Resnais, Malle,
Antonioni, Bergman, Bertolucci, Allen, Scorsese, Truffaut,
Polanski, Eastwood, Szabo, Costa-Gavras, Hirschbiegel e
outros. As omissões, como disse antes,serão
corrigidas noutros livros. Isso porque ficaram de fora nomes
como Fellini, Losey, De Sica, Visconti, Ulmer, Richter,
Runze, Godard, Pabst, Lang, Lean, Leone, e tantos outros.
O acúmulo de material para impressão extrapolou
as previsões e ajudou a Fundação a
suprimir muitos artigos, daí as omissões.
12.
POR QUAL MOTIVO EXATAMENTE ESSES FILMES?
Independente
das preferências do crítico por determinados
cineastas reconhecidamente excepcionais, ótimos ou
bons, os filmes constantes do livro são de primeira
linha por tudo quanto pretenderam dizer e pelo modo como
expressaram isso via imagens e qualidade fotográfica,
embora não se deva mais entrar nessa cediça
separação entre conteúdo e forma. Filmes
marcantes também pela atuação dos intérpretes
e pelo grau de realismo fílmico atingido. Vários
exemplos poderiam ilustrar esta resposta, como por exemplo,
no melhor filme do ano passado, “A Queda”, de
Oliver Hirschbiegel, quando foram construídos um
“bunker” idêntico ao de Hitler e exteriores
semelhantes a tudo quanto aconteceu nos últimos dias
do ditador, com um Bruno Ganz capaz de enganar colegas de
trabalho quando saiu tardado da sala de maquiagem e o espectador
parece estar revivendo toda a miséria de um regime
em pedaços (recorde-se a morte “suave”
dos filhos de Goebbels e o caos no hospital improvisado),
tudo isso e mais alguma coisa, como demonstramos em comentários
feitos à época, justificam plenamente a escolha
deste e de outros filmes para figurarem no livro.
13.
O SEU LIVRO ESTÁ DIVIDIDO EM TRÊS PARTES: GRANDES
FILMES. GRANDES DIRETORES E CRIADORES BRASILEIROS. SERIA
UM ESPÉCIE DE CÂNONE DO CINEMA MUNDIAL?
Não
discordei da divisão do livro em três partes.
Como lhe respondi antes, só lamentei a omissão
de alguns nomes facilmente reparáveis e a inclusão
deles como grandes, quando são apenas bons e vice-versa.
Essa divisão poderia ser uma espécie de cânone
para trabalhos semelhantes, feitos aqui ou no exterior,
nos quais filmes excepcionais e grandes cineastas fossem
alvo de análise. Quanto a incluir criadores brasileiros,
é uma exigência natural decorrente do avanço
qualitativo dos nossos filmes e da atuação
no exterior de cineastas patrícios como Walter Salles
e Fernando Meirelles.
14.
QUAIS OS FILMES QUE JAMAIS DEVERIAM SAIR DE CARTAZ E POR
QUÊ?
Boa
pergunta, pois contém a sugestão de permanência
da arte cinematográfica. Na prática, isso
seria inexeqüível. Considerando, no entanto,
o crescente interesse dos jovens pelo cinema, seria bom,
se possível fosse, manter uma programação
anual (pelo menos uma semana por semestre) na qual filmes
de ótima qualidade seriam exibidos durante um ano,
precedidos de apresentação instrutiva e seguidos
de debate. No ano seguinte, seriam outras as fitas selecionadas
para essa programação inédita. Depois,
alguns dos filmes já projetados poderiam voltar,
por dois ou três dias, e assim manteríamos
uma mostra quase permanente de clássicos e formaríamos
uma cultura cinematográfica em nossos espectadores.
De certa forma, o Cinema de Arte, à frente do qual
se encontra o cinéfilo e jornalista Pedro Martins
Freire, já faz isso quando traz mostras especiais
como agora, com sete filmes do novo cinema francês
ou de cinematografias em pleno crescimento qualitativo como
Austrália, Índia e África do Sul.
15.
V. INCLUI ALGUNS FILMES BRASILEIROS E OS ELOGIA. COMO V.
ANALISARIA, EM TERMOS GERAIS, O CINEMA BRASILEIRO DO SÉCULO
PASSADO?
Nosso
cinema nasceu pobre, em razão mesmo do nosso subdesenvolvimento
de então. Sua figura mais importante do século
passado é Humberto Mauro. (1897-1983). Coube-lhe,
como pioneiro, elevar o paupérrimo nível da
produção nacional com “Ganga Bruta”
(1933). Antes, aliás, esteve em Cataguazes, onde
fez experimentos com filmes de 9,5mm, estreando com o curta
“Valadião, o Cratera” (1925). Alguns
filmes rodados por ele como “Tesouro Perdido”
(1927), “Brasa Dormida” (1928) e “Sangue
Mineiro” (1929) acabariam por levá-lo ao Rio
de Janeiro.
Convidado
por Roquette Pinto para trabalhar no INCE, Humberto realizou
mais de 300 documentários. Fez filmes como “Favela
dos Meus Amores” (1935), “Cidade Mulher”
(1936), “Argila” (1940), e “O Canto da
Saudade” (1952). Houve algumas tentativas antes, não-originais,
de fazer filmes “avant-garde” como “São
Paulo: Sinfonia de uma Metrópole” (1929), de
Adalberto Kememy(?), na esteira da obra-mestra de Walther
Ruttmann, “Berlim, Sinfonia de uma Metrópole”
(1927). Mário Peixoto (1910-92), autor de um filme
só, “Limite” (1930), pois deixou inacabados
“Onde a Terra Acaba” e “Maré Baixa”,
manteve-o escondido durante décadas, daí o
caráter um tanto lendário dessa obra da qual
pouco sabemos, Peixoto tomou emprestado, generosamente,
dos cineastas russos Eisenstein e Pudovkin.
Em 1940 a média da
produção anual brasileira era insignificante;
Em 1942, após a vinda de Orson Welles ao Brasil,
para filmar seu “It’s All True”, nele
incluído o “raid” dos jangadeiros, houve
pequena reversão de expectativas e já se tinha
uma média de 10 a 15 filmes por ano. A partir de
1949, com a criação da Vera Cruz, à
frente da qual estava o cineasta Alberto Cavalcanti, (1897-1982),
mestre do documentário com muitos anos de vivência
na Europa, particularmente no cinema inglês, veio
a lume “O Cangaceiro” (1953), de Lima Barreto
(1906-82). Após isso, Cavalcanti, desgostoso com
os rumos da companhia, renunciou a sua posição
e retornou desiludido para a Europa. Nosso passado cinematográfico
fez muitas chanchadas, pornochanchadas, filmes carnavalescos,
abominações como os filmes de Mojica Marins
e algumas tentativas sérias, as quais culminaram
com “O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte
(1920- ), premiado em Cannes (1962).
16.
COMO V. ANALISA HOJE O CINEMA NOVO? TEM ELE REALMENTE IMPORTÂNCIA
ESTÉTICA E RENOVADORA NO CONTEXTO DO CINEMA NACIONAL?
O
Cinema Novo teve realmente importância estética
e renovadora, mas talvez tenha havido uma certa incapacidade
de comunicação com o grande público
e seus autores-diretores sofrido restrições
de caráter político e financeiro, daí
haver perdido o seu “momentum” em dado instante.
Nasceu ele, como sabemos, da efervescência de jovens
cinéfilos talentosos como Glauber Rocha, Cacá
Diegues, Ruy Guerra, Nélson Pereira dos Santos e
tantos outros influenciados pela “Nouvelle Vague”
e pelo neo-realismo italiano. Sempre ficou alguma coisa
do Cinema Novo. Hoje vemos crescer significativamente o
cinema nacional, embora o grande potencial da nossa indústria
cinematográfica ainda não tenha podido realizar-se
plenamente. A produção dos filmes não
pôde acompanhar o crescimento vertiginoso da população
pagante e ampliar as salas de exibição em
todo o Pais, enquanto os exibidores estrangeiros têm
sido os principais beneficiários do crescente interesse
do público brasileiro no cinema. Discorrer sobre
o cinema brasileiro de ontem e de hoje dá quase um
livro. As respostas dadas são apenas uma tentativa
de sintetizar o polêmico assunto, no qual se inclui
a estagnação dos anos 70 e 80 devido a fatores
de ordem vária.
17.
SEU LIVRO É PARA INICIADOS?
Pergunta
oportuna. Não se trata de livro para iniciados, se
bem possam eles aproveitar-se dos comentários feitos.
Mas servirá sem dúvida para todos quantos
se interessam em conhecer algo mais sobre cinema e suas
leis reguladoras. Quase todos os filmes analisados no livro
podem ser vistos e revistos em DVD e mesmo em VHS, e os
cinéfilos poderão confrontar as observações
feitas ao longo das críticas. Como já ministrei
vários cursos desde os tempos do CCF, como referido,
e aqui no antigo Instituto Dragão do Mar e no Centro
Cultural Banco do Nordeste, e como levei a cabo o ciclo
Orson Welles na Casa Amarela da UFC, creio possa o livro
trazer subsídios para quem estuda cinema.
18.
FALA-SE MUITO EM CASABLANCA. V. O COLOCARIA COMO OBRA-PRIMA
DO CINEMA MUNDIAL?
De modo algum. Trata-se apenas
de um bom filme, nota 7 no máximo 8, numa escala
de zero a dez. O fato de ter ganho um Oscar não eleva
seu nível de criatividade ou competência técnica.
Michael Curtiz (1888-1962), seu diretor, era apenas um bom
artesão e profissional de comportamento autocrático
e grosseiro. Em “A Carga da Brigada Ligeira”
(The Charge of the Light Brigade)” (1936) cometeu
erros na montagem da carga final do 7º de Lanceiros
por pura teimosia, pois os cavalos não pareciam chegar
nunca, apesar da velocidade com o qual eram captados pelas
câmaras. (“Casablanca” valeu pela presença
da bela Ingrid Bergman, pela coincidência do seu lançamento
com a conferência de Casablanca (Roosevelt e Churchill)
em plena 2ª Guerra para decidir o futuro da Alemanha,
após o término da hecatombe, pela fotografia
em p/b e pelo tema musical. O filme combina sentimento humano
e “pathos” com o melodrama, e a imagem de um
Paul Henreid, mostrado como líder da resistência
ao nazismo, todo bem vestido e incólume, após
ter fugido da prisão e conseguido chegar em Casablanca,
não convence.
Igualmente,
quando Ilse (Ingrid Bergman) vai arrancar de Rick (Humphrey
Bogart) os providenciais salvo-condutos (para duas pessoas)
e lhe aponta o revólver e logo se reconciliam, depois
de Bogart culpá-la por tudo quanto lhe aconteceu.
Um roteiro coeso e a direção firme teriam
sugerido uma noite juntos, tudo levaria a isso, mas não,
sequer se sugere uma troca de roupa, um momento erótico
entre eles. Oficiais nazistas fardados em Casablanca à
época, em pleno cassino-restaurante, é altamente
improvável, assim como a ida do Major Strasse (Conrad
Veidt) ao aeroporto sozinho para deter os dois fugitivos.
Curtiz, Koch e o filme foram salvos graças a Don
Siegel. Como o terço final não engatava, os
produtores chamaram Siegel, então chefe do departamento
de montagem da WB, para editar o quebra-cabeças final,
pois de propósito os três atores, interpretando
marido, mulher e ex-amante, não sabiam quem ia terminar
com quem. Siegel remontou tudo com muita competência,
agilizando o ritmo externo, mormente as imagens das últimas
cenas, quando Rick, depois de matar o major nazista, convence
Ilse a ficar com o marido.
A “Film Encyclopedia”
de F.Klein e R. D Nolen (1998) registra isso no verbete
referente ao pranteado Siegel. Deve-se-lhe também,
conforme a “Encyclopedia of Hollywood”, de Scott
& Barbara Siegel (1991), a expressiva seqüência
de abertura, quando a narração em “off”
mostra a apreensão de todos em busca de um salvo-conduto
para sair de Casablanca. O semiólogo italiano Umberto
Eco foi quem fez a crítica mais contundente sobre
o filme. Para ele, “Casablanca” é um
pastiche de tudo quanto foi escrito em literatura romântica.
Não vale a pena transcrever seu comentário
sobre um dos falsos brilhantes dos anos 40. Curtiz ainda
cometeu erros ao insistir num modelo de avião bimotor
e ao deixar Bogart no trem sob a chuva, mas na mesma cena
a capa já está enxuta. Há outros pequenos
“gatos” a comentar, mas paramos aqui.
Quanto a “Citizen Kane”,
há uma unanimidade entre especialistas de toda parte,
segundo os quais Welles fez a primeira grande revolução
no cinema com esse filme. Discorro sobre Welles no livro,
mas quanto mais vejo e revejo “Kane”, quanto
mais leio sobre eles e sua realização, mais
me sinto humilde diante da proximidade do seu gênio,
do qual brotaram filmes como “Soberba” (apesar
de mutilado em 48/58min), “Grilhões do Passado”,
“Othello”, “A Marca da Maldade”,
“O Processo” e “Verdades e Mentiras”.
Mesmo trabalhando em situações financeiras
precárias, como em “Macbeth” (feito em
21 dias) ou com roteiros de segunda linha, como em “O
Estranho” e “A Dama de Xangai”, deixou
marcos de sua genialidade. Neste, a seqüência
da fuga no teatro chinês e o tiroteio na sala dos
espelhos, sempre imitado mas jamais igualado, permanecem
como o acme da construção cinematográfica.
19.
OS ITALIANOS DERAM UM NOVO SOPRO NO CINEMA MUNDIAL COM FILMES
INFLUENCIADOS PELAS TEORIAS FREUDIANAS E O SURREALISMO.
QUAIS FORAM REALMENTE OS GRANDES MESTRES DO CINEMA PENINSULAR?
Discorrer
sobre o cinema italiano implicaria acrescentar mais páginas
a esta entrevista, já de si bastante longa. Diz muito
o fato de a Itália já estar equipada para
começar sua indústria cinematográfica
em novembro de 1895, quando Filotro Alberini patenteou seu
“Kinetograf”, um aparelho para filmar e projetar
filmes, embora só em 1905 tenha realmente começado
a história do “eterno e grande cinema italiano”,
segundo W.H. Khoury. Deixo de lado o passado distante e
respondo-lhe de forma sucinta: dos mortos, Vittorio De Sica,
Federico Fellini, Luchino Visconti, Sergio Leone, Mario
Soldati, Roberto Rosselini, Valério Zurlini, Elio
Petri, Píer Paolo Pasolini, Dino Risi, Franco Rossi,
Mauro Bolognini, Pietro Germi; dos vivos, Michelangelo Antonioni,
Bernard Bertolucci, Giuseppe Tornatore, Florestano Vancini
e alguns novos recém-chegados à liça.
Devo ter cometido omissões, mas são estes
os nomes vindos à lembrança.
20.
DE HOLLYWOOD, QUEM V. CITARIA? WOODY, POR EXEMPLO?
Não
se pode excluir a contribuição de cineastas
estrangeiros da categoria de Max Ophuls, Edgar G.Ulmer,
William Dieterle, Fritz Lang, Karl Freund, Ernst Lubitsch,
Roberto Siodmak, Joseph von Sternberg, Erich von Stroheim
(todos alemães, alguns deles fugitivos do nazismo).
O Tampouco o alsaciano William Wyler, do francês Jacques
Tourneur, do húngaro André De Toth, do inglês
Edmund Goulding, dos austríacos Otto Preminger, Billy
Wilder e Fred Zinnemann. Dos vivos americanos, claro, estão
Woody Allen, Sidney Lumet, Sydney Pollack, Clint Eastwood,
Martin Scorsese, Steven Sipelberg, Michael Mann. Lawrence
Kasdan, Spike Lee, Alexander Singer, Robert Benton, Francis
Coppola, Philip Kaufman, William Friedkin. Os mortos (Alan
J. Pakula, Joseph Losey, Robert Altman, entre outros) são
muitos e não há necessidade de citá-los
todos.
21.
V. JÁ MINISTROU CURSOS FORA DO ESTADO OU PARTICIPOU
DE EVENTOS FORA DO PAÍS?
Participei
de jornadas de Cineclubes em várias capitais Representei
o CCF na 2ª Jornada de Belo Horizonte (1960), quando
foi lançado pela primeira vez no País. “Os
Incompreendidos”, de Truffaut, no 23º andar do
Banco da Lavoura. Convidado pelo amigo Maurício Gomes
Leite, crítico da Revista de Cinema e depois diretor
de “Vida Provisória” (1968), fiz palestra
para alunos do Centro de Estudos Cinematográficos
(CEC) de BH. Participei do Seminário “4 Tempos
de Cinema” (1970) no MAM do Rio de Janeiro, quando
tive ensejo de debater “Grilhões do Passado”
(1955), de Welles, por insistência do amigo Cosme
Alves Neto, então Curador do Museu, a quem reencontrei
durante o FestRio em Fortaleza (1989). Assisti em Buenos
Aires a uma Mostra com os filmes de Fernando Solanas, cineasta
de “Tangos, Exílios de Gardel” e de “Sur,
Amor e Liberdade”, respectivamente de 1985 e 1987.
Quando estive nos EUA (1984), fazendo uma reciclagem em
Literatura, assisti a algumas palestras no Deptº. de
Cinema do MoMA de Nova Iorque, onde conheci o cineasta negro
Ernest R.Dickerson, então fotógrafo de Spike
Lee, hoje também cineasta de filmes como “Bastidores
da Justiça” (1999), “Nossa América”
(2002) e “Nunca Morra Sozinho” (2004), bem assim
Alexander Singer, diretor do intrigante “Rajadas de
Paixão” (A Cold Wind in August) (1961), ex-fotografo,
amigo e assistente de Kubrick. Aqui ministrei aulas sobre
História do Cinema no antigo Instituto Dragão
do Mar (1999) e História do Cinema Americano e A
Arte do Filme (2001-2003) no Centro Cultural Banco do Nordeste.
Participei da Bienal de 2004, quando discorri sobre literatura
e cinema, tendo como base “O Grande Golpe”,
de Kubrick, calcado no romance “Clean Break”,
de Lionel White, e fui um dos debatedores do filme de Walter
Salles, “Abril Despedaçado”, adaptado
do livro de escritor romeno.
22.
OUÇO FALAR EM CRISE DO CINEMA. HÁ FUNDAMENTO
NISSO?
O
cinema vive em crise desde quando se quis saber quem inventou
esse poderosíssimo veículo de expressão
e comunicação. A crise ganhou corpo quando
alemães (os irmãos Max e Emil Skladanovsky),
ingleses (William Fritz Greene) e franceses (Louis Aimé/Auguste
Le Prince) reivindicaram a invenção do cinema.
Thomas Edson também recebeu com freqüência
o crédito p | |