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Críticas de Luiz Geraldo de Miranda Leão: Analisando cinema, críticas de LG      

     A jornalista Neusa Barbosa (SP) é quem faz a apresentação desta coletânea de alguns dos trabalhos mais importantes de Luiz Geraldo de Miranda Leão, o mais atuante crítico de Cinema do Norte e Nordeste e um dos mais conhecidos fora do eixo Rio-São Paulo. Lançado pela Coleção Aplauso (coordenada por Rubens Ewald Filho para a Imprensa Oficial de São Paulo), o livro foi organizado por sua filha, a jornalista Aurora Miranda Leão, reunindo textos do extenso acervo de LG, fixando-se em Grandes Cineastas (Bergman, Fellini, Orson Welles, Kubrick), Grandes Filmes (A Aventura, de Antonioni, A Noite Americana, de Truffautt e outros) e Criadores Brasileiros (como Walter Hugo Khoury, Walter Salles, Toni Venturi e Lúcia Murat) e a Safra Recente (Cidade Baixa; Cinema, Aspirinas e Urubus). Nascido em Fortaleza, professor catedrático da Universidade Federal do Ceará, Miranda Leão teve seu interesse despertado pelo cinema assistindo, quando garoto, às filmagens de It's all true, de Welles, em seu estado natal. Foi o começo de uma paixão intensa e persistente, ainda hoje em atividade semanal como palestrante, debatedor e crítico semanal do Diário do Nordeste.
Informações Gerais e Como Comprar.

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Reflexões indispensáveis

* Neusa Barbosa

     Ao apresentar o volume de críticas do eminente crítico e professor cearense L. G. de Miranda Leão, confesso sentir-me um pouco na posição de quem, sendo não mais do que aluna, é convidada a apresentar o mestre. Não pode ser outro meu sentimento do que orgulho da honraria que me cabe ao lembrar nesta introdução um pouco da importância desta figura de destaque da cultura brasileira, que completou 50 anos de crítica cinematográfica. Um feito que raros profissionais terão a perseverança e a paixão de igualar, ainda mais com o extremo cuidado e profissionalismo que caracterizaram sempre seus textos densos e cristalinos.

     É de admirar que um profissional da crítica mantenha intocado seu fôlego intelectual tantas décadas num mister assim polêmico, não raro ingrato e carregado de incompreensões. Afinal, alguns desavisados costumam confundir os críticos com infalíveis juízes do bom gosto e alguns entre estes, os mais vaidosos, aceitam assim ser considerados. Não é o caso de Miranda Leão que, embora mestre, ensina nas entrelinhas de seus iluminados comentários com a sutileza que cabe aos dotados da melhor sabedoria, amparado numa pedagogia que vem da enorme intimidade com o assunto que comenta.

     Mestre em literatura de língua inglesa e portuguesa, Miranda Leão domina a língua com uma fina expressão, construindo frases certeiras que, embora se alonguem num estilo precioso, cultivado em épocas mais eruditas do que esta apressada nossa, sempre sabem onde querem chegar. Suas palavras acertam sempre no alvo, construindo análises e conceitos capazes de enriquecer o universo de seus leitores.

     Ler sua prosa cristalina é quase assistir aos filmes que ele tão cuidadosamente comenta, com total ausência de preconceito, não se esquivando de analisar tanto o último clássico do cinema europeu ou americano quanto algum exemplar do descartável cinema de terror adolescente que ultimamente pulula nas telas dos multiplexes. Para todos os filmes, desenvolve o crítico uma argumentação serena, fazendo uma progressão segura num mundo de idéias e erudição ao qual não faltará, sempre que oportuno, uma pincelada de sua fina ironia e bom humor.

     Lembrando muito bem que o cinema “não é uma ciência exata”, aconselha Miranda Leão que se veja os filmes ao menos duas vezes, ainda que seja para desancá-los depois. Assim sendo, a eventual crítica será feita com propriedade. Lembra ele que “as imagens passam rápido, são efêmeras, cabe ler os signos e o subtexto”. Cinema é, portanto, uma arte em que cabe cultivar a paciência no olhar, sob pena de perder de vista os melhores detalhes.

     Esse olhar cinéfilo foi despertado, inadvertidamente – ou quem sabe nem tanto – pelo pai do futuro crítico, o médico João Valente de Miranda Leão. Poliglota e entusiasta das artes, levou o filho, ainda garoto, em 1942, para assistir às filmagens de um episódio de “It´s All True”, o malfadado projeto brasileiro do genial Orson Welles, que se desenvolvia então em Mucuripe. Talvez a prova de que pretendia mesmo instalar no sangue do filho o “micróbio” do cinema, foi tê-lo presenteado, tempos depois, com um livro sobre o cineasta americano D. W. Griffith, considerado o precursor do cinema narrativo e de ação.

     O fato é que a semente germinou e o menino não abandonou mais o cinema. No Colégio São João, onde fez seus estudos fundamentais, integrou um grupo de análise sobre a sétima arte. Uma atividade que tomou um vulto ainda maior quando conheceu Darcy Xavier da Costa, o emérito fundador, em 1948, do Clube de Cinema de Fortaleza (CCF), do qual Miranda Leão brevemente se tornaria um dos principais entusiastas e, futuramente, um de seus maiores incentivadores.

     A partir do CCF, Miranda Leão começou a redigir e divulgar seus primeiros artigos sobre cinema – como aqueles produzidos sobre os filmes “Pacto de Sangue”, de Billy Wilder, “O Processo”, de Orson Welles, e “O Grande Golpe”, de Stanley Kubrick. Iniciando aí sua prática redacional, aprofundou-se o crítico na confecção de textos que eram reproduzidos na imprensa local (como o de “Pacto de Sangue”, no jornal “O Povo”) e nos miniprogramas do próprio CCF. Nesses primeiros dias do cineclube, esses textos eram mimeografados e distribuídos aos freqüentadores, que assistiam a filmes projetados pelo próprio Darcy Xavier, seu fundador, a quem cabia igualmente a missão de rebobiná-los ao final de cada sessão.

     Com uma fibra forjada nesses tempos heróicos do cineclubismo em Fortaleza, Miranda Leão aprimorou seu talento conduzindo ou organizando diversos cursos e seminários de iniciação à apreciação cinematográfica que tornaram o CCF um marco na vida cultural da capital cearense. Os temas: linguagem cinematográfica, teoria do filme, relação cinema x teatro, a questão dos signos e do significado do cinema, como ler um filme, Freud no cinema e tantos outros. Sem contar a análise de filmes que passaram pelo circuito comercial ou ciclos, como de cinema holandês ou do cineasta canadense Norman McLaren. Enfim, seria impossível listar em tão pouco espaço a gama de atividades que tornou única a história do CCF de tal maneira que, mesmo desaparecendo em meados dos anos 80, deixou indelével sua marca em outras salas de arte que a partir dali nasceram em Fortaleza.

     Colaborador constante de alguns dos principais órgãos da imprensa cearense, como o “Diário do Nordeste”, o crítico alimenta sua notável longevidade cultural atento à renovação do cinema brasileiro que já se tornou lugar comum denominar de “Retomada” mas que Miranda Leão, mais precisamente, prefere definir como “renovação qualitativa de nosso cinema”.

     Atento às novidades, não teme, contudo, tomar posições, recusando por exemplo, entrar no coro quase unânime dos admiradores da iconoclastia do dinamarquês Lars von Trier. Defende o cinema americano, tantas vezes objeto de crítica apressada e leviana, por conta de abrigar a mais lucrativa e onipresente indústria do mundo. Para o crítico veterano, que sabiamente não se deixa levar pelos modismos que ciclicamente infestam tanto o cinema quanto a crítica, esse cinema yankee “funciona” e ainda é capaz de produzir “marcos culturais e artísticos”.

     Concorda Miranda Leão com a posição manifestada pelo cineasta e crítico americano Peter Bogdanovich de que todos os grandes filmes já foram feitos e persevera com ele neste conceito: “Hoje só podemos aspirar a fazer filmes bons e de alguma forma inesquecíveis”. Portanto, não descrê do cinema e deve, assim, por muito tempo, continuar a brindar nossas retinas com suas reflexões atentas e indispensáveis.

* Neusa Barbosa é jornalista. Diretora de Conteúdo do site www.cineweb.com.br. Crítica de cinema e escritora, autora de diversos livros sobre Cinema, entre eles a cinebiografia de Wood Allen.

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Darcy Costa e o Legado do CLube de Cinema de Fortaleza

* L.G. de Miranda Leão

     Em 1º de agosto de 1986, aos 63 anos, desaparecia do nosso convívio o abnegado cinéfilo e dirigente cineclubista Darcy Xavier da Costa, também idealizador e fundador do Clube de Cinema de Fortaleza (CCF), juntamente com outros entusiastas da 7ª Arte: Wag­ner Barreira, Antônio Girão Barroso, Otacílio Colares e Aderbal Freire, todos, aliás, já desaparecidos. Para quem não se recorda, o CCF nasceu oficialmente em 1948, em 28 de dezembro, data emblemática, pois foi nesse mesmo dia em 1895, no Boulevard des Capucines, no centro elegante de Paris, subsolo do Grand Café, Salon Indien, a primeira exibição pública do cinématographe dos irmãos Lumière, Auguste e Louis.

Gênese do CCF

     Em verdade, porém, o CCF nascera antes, fruto das inquietações de seu primeiro presidente, e ambos estão tão intrinsecamente ligados a ponto de não podermos dissociar um do outro. De resto, fã de cinema desde cedo, o menino Darcy já se valia de uma caixa de sapatos e carretel e projetava na parede branca uma seqüência de fotogramas (obtidos com os operadores do velho Majestic) através de pequena aber­tura, servindo-lhe de lente uma lâmpada cheia d'água, enquanto um espelho aproveitava a réstia de sol como fonte emissora de luz. O engenho primitivo foi melhorado depois mediante uso de um jogo de lentes de antiga luneta, doada, se bem nos lembramos, pelo seu companheiro Rubens de Azevedo. Muitos garotos também utilizavam conjuntos semelhantes para brincar de "passar filmes", numa época ainda sem TV, mas o "projetor" de Darcy era dos melhores e devia fazer inveja aos colegas "inventores" lá do quarteirão. Conta isso em crônica nostálgica, no antigo JD de Dórian Sampaio, o próprio Rubens.

     Darcy, ocioso assinalar, cresceu vendo e estudando cinema e até fazendo depois experimentos com filmadora de 8mm. Fascinava-o essa alternância inteligente de luz e sombra, como bem o definiu Ingmar Bergman, esse poder das imagens em movimento com toda sua trama semiológica - elementos essenciais dessa arte de síntese ou arte impura, porque condensaria todas as outras, como a denominou propriamente o crítico Paulo Emílio Salles Gomes. Bem poderia ter sido Darcy um dos nossos cineastas pioneiros, não fosse verdadeira temeridade à época largar tudo para dedicar-se a fazer cinema. Se hoje sabemos das dificuldades encontradas por profissionais da terra como, por exemplo, Wolney Oliveira, Rosemberg Cariry ou Firmino Holanda, visando à obtenção de recursos financeiros para seus filmes, imagine-se pensar nisso nos anos 50 !

Atuação Profissional de Darcy

     O fundador do CCF seguiu outros caminhos na vida adulta, mas jamais abandonou o cinema. Vinculou-o definitivamente à sua vida quando procurou Girão Barroso, então redator dos Diários Associados e critico intermitente de filmes, para transmitir-lhe a idéia da criação de um clube de cinema em Fortaleza. Levou-a depois aos fundadores acima citados e deles recebeu entusiástica acolhida, da qual resultou a formalização do CCF e o profícuo trabalho iniciado já em princípios de 1949. Profissionalmente, Darcy, sempre um bom redator, tornou-se correspondente de firmas comerciais, professor de Inglês do IBEU (língua da qual também foi atento cultor desde cedo) e funcionário da Secretaria da Fazenda Estadual. Licenciando-se desta, passou a integrar a organização J. Macedo, da qual foi procurador e diretor. Esteve igualmente à frente da Gazeta de Notícias, quando marcou sua passagem como jornalista em dia com seu tempo e administrador competente, capaz de dar novas dimensões àquele matutino, até mesmo no concernente à renovação gráfica pela qual passou o veículo. Dignos de menção foram os textos nele publicados sobre Cinema & Arte na página intitulada Balaio.

     Foi ainda diretor do Clube de Dirigentes Lojistas e atuou efetivamente para o projeto de melhoria do centro da cidade, antecipando-se no plano das idéias ao projeto vitorioso da nova Praça do Ferreira, pois lhe repugnara sempre o monstrengo de então. Acadêmico de Direito, teve de interromper seu curso em razão de compromissos profissionais cada vez mais absorventes. Quando esteve nos EUA, a serviço, não deixou de inteirar-se de tudo quanto se fazia no Cinema Sixteen de Nova Iorque e de estabelecer contatos em Greenwich Village, hoje como ontem ponto de convergência de artistas de vanguarda. Não admira ter-se interessado muito em conhecer o trabalho de John Cassavetes por trás das câmaras, como os inéditos Shadows (1959) e A Child Is Waiting e Too Late Blues (1962). Na Europa visitou os circuitos independentes e reviu em versão original, Confidential Report - Mr. Arkadin, de Orson Welles, e Le Feu Follet, de Louis Malle.

Os Primeiros Tempos do CCF

     Conhecemo-nos em 1949 na Alliance Française. Ainda muito jovem, julgávamos pretensiosamente entender de cinema porque sabíamos enredos de filmes, títulos originais, nomes de intérpretes e realizadores, datas de filmagens, tempo de duração das películas e outras coisas adjetivas, próprias da idade. Darcy deu um rumo diferente a este nosso interesse pelo cinema; herdamo-lo, aliás, do saudoso genitor, Dr. João Valente de Miranda Leão, médico ilustre, poliglota e entusiasta da arte das imagens; foi ele quem nos levou, ainda garoto, para assistir em 1942 às filmagens de um episódio It’s All True, de Welles, no Mucuripe, e quem nos presenteou, tempos depois, com um livro sobre D. W. Griffith (o pai do cinema narrativo, mestre pioneiro do filme de ação, mentor cinematográfico de Serguei Eisenstein, a quem o genial cineasta russo sempre deu crédito). Por causa do Darcy fomos levados a estudar obras essenciais como EI Lenguaje deI Film, de Renato May, A Arte do Cinema, de Rudolph Arnheim, e A Grammar of the Film, de Raymond Spottswood, para só ficarmos nestes.

     Recordamo-nos, a propósito, de ocorrência banal, responsável pelo nosso encontro com Darcy. Quando responde­mos com êxito a uma sabatina sobre cinema no antigo grupo de estudos do Colégio São João, em fins de 1948, fomos aconselhados pelos colegas Samuel Félix da Cunha e Luciano Vasconcelos a procurar um tal Darcy Costa, a quem conheciam, mas de quem jamais ouvíramos falar. Segundo eles, Darcy era quem mais entendia de cinema em Fortaleza e bem poderia dar-nos lições úteis sobre esse veículo de expressão. Decidimos procurá-lo, mas o encontro só se tomou possível quando lemos em jornal a notícia da exibição, pelo recém-fundado CCF, de Silêncio nas Trevas (The Spiral Staircase), de Robert Siodmak, na Alliance Française. Fomos até lá. Darcy fez a apresentação do filme, omitindo naturalmente o plot, mas detendo-se em aspectos para nós até então desconhecidos da direção cinematográfica, como o do raccord ou da utilização do espaço fora da tela e do contracampo oculto, ou do olhar em off. Quanta coisa a aprender em matéria de cinema!

     Chamou-nos, porém, mais atenção um pequeno equívoco na ficha técnica lida pelo apresentador: Milton Krasner aparecia como diretor de fotografia e Miklos Rozsa (maestro húngaro, em Hollywood desde 1940) como o autor da música. Tratava-se, por certo, de um erro de cruzamento no texto original remetido pela distribuidora, pois Krasner fotografara alguns dos melhores thrillers da época, como Almas Perversas (Scarlet Street), de Fritz Lang; Espe­lhos D'Alma (The Dark Mirror), de Siodmak; e Punhos de Campeão (The Set-Up), de Robert Wise, enquanto Rozsa compusera os temas de Pacto de Sangue (Double Indemnity) e Farrapo Humano (Lost Weekend), ambos de Billy Wilder; e de Quando Fala o Coração (Spellbound), de Alfred Hitchcock.

     Finda a exibição, procuramos Darcy, porquanto dispúnhamos de inf­ormação diferente: os nomes corretos eram, respectivamente, Nicholas Musur­aka (fotógrafo japonês naturalizado americano) e Roy Webb, o músico, ambos de saudosa memória. Darcy recebeu­nos com surpresa mas, apesar de sua aparência pouco risonha, aceitou de bom grado a corrigenda e na sessão seguinte do CCF apressou-se em comentar a falha e dar o devido crédito ao jovem cinéfilo de então. A partir daí verificamos estar diante de um homem íntegro, leal e desprovido de fúteis vaidades.

Expansão das Atividades do CCF

     Daí em diante passamos a encontrar-nos regularmente nas sessões do CCF e a ouvi-Io com atenção e até, ousadamente, a participar dos primeiros debates, lance obrigatório em qualquer atividade cineclubista. Quando começamos a dar aulas no IBEU, a partir de meados de I952, a amizade foi crescendo e se tomou fraterna, e a colaboração se estreitou em razão dos primeiros artigos sobre cinema por nós redigidos ou traduzidos e revisa­dos por Darcy, como, por exemplo, o ensaio sobre Pacto de Sangue transcri­to em O Povo, em 1955, O Processo (The Trial), de Orson Welles, e O Grande Golpe (The Killing), de Stanley Kubrick, estes vindos a lume em boletim mimeografado. Muitos desses artigos eram reproduzidos na imprensa locaI e nos miniprogramas do CCF (Darcy batia os textos em sua máquina e os rodava em mimeógrafo portátil, muitas vezes ajudado pelo primogênito Augusto César Costa, hoje jornalista atuante) e enviados para publicação pelo CEC de Belo Horizonte, onde pon­tificavam nomes como os dos pranteados Cyro Siqueira e Maurício Gomes Leite, este o realizador de Vida Provisória, aliás falecido em 1994 na querida França. Com eles privamos por ocasião da 1ª Jornada de Cineclubes na capital mineira, onde representamos o CCF, em 1960. O mesmo Mauricio nos convidou para fazer palestra a alunos do CEC sobre Signos e Significado em Cinema. Ocorreriam depois outras Jornadas, uma delas em Fortaleza, com o CCF à frente, dela participando figuras de relevo vindas de outros Estados, como Carlos Vieira, hoje já desaparecido, a tanto nos consome o tempo assassino!

     Nos primeiros anos, Darcy era quem projetava os filmes e os rebobinava após as sessões, primeiro na Alliance e em seguida no IBEU, a partir de 1953, e depois na Associação Cearense de Imprensa (ACI), quando para lá se mudou o local das exibições. Lembramo-nos da sua satisfação com a aquisição de uma Bell & Howell e, mais adiante, com a projetora húngara, quando já contava com a ajuda de José Gomes, eficiente operador. Mesmo com Darcy ausente, por motivo de alguma viagem, não havia quebra na continuidade das atividades do CCF. Nem sempre era possível oferecer películas de primeira linha, mas mesmo nos filmes-B (muitos deles de qualidade, cedidos pelo saudoso Cosme Alves Neto, Curador do MAM do Rio de Janeiro, onde ambos estagiamos) havia sempre um tema, um ousado plano-seqüência, um momento criativo, interpretação condigna ou trouvaille para discussão.

Minicursos & Seminários

     À guisa de registro, pois vivemos num país de desmemoriados, como bem frisou Tristão de Athayde, num dos seus artigos no JB, e onde tendemos a esquecer ou não reconhecer o mérito alheio, coube ao CCF a primazia da realização de alguns seminários e minicursos de iniciação cinematográfi­ca para sócios e cinéfilos, de modo geral. Um deles, por exemplo, trouxe o Prof°. Rafael de Menezes a Fortaleza, a convite da antiga Faculdade Católica de Filosofia e do CCF para um ciclo de palestras sobre Elementos de Cinestética, em 1960. Outro, a nosso cargo, foi ministrado na UFC, em meados dos anos 60, graças à interferência de Milton Dias, então Chefe de Gabinete, e com plena aquiescência do então Reitor Martins Filho, administrador sensível às manifestações artísticas.

     Houve outros cursos de certa relevância, um deles com respaldo da Secretaria de CuItura, em 1974, sobre Linguagem Cinematográfica, outro sobre Teoria do Filme e Relações Cinema x Teatro. De resto, quando alguém estranhava essa correlação, Darcy costumava lembrar Luchino Visconti, para quem "Há sempre um pouco de cinema em minhas peças e um pouco de teatro em meus filmes", pois tinha plena consciência da necessidade de demonstrar aos cinéfilos as diferenças entre as duas linguagens, de modo a comprovar a autonomia estética da 7ª Arte. Em seminário levado a efeito no IBEU, também se exibiu e discutiu A Rede, de João Siqueira, um dos pioneiros do cinema no Ceará (com quem Darcy trabalhou nas filmagens de O Colecionador de Crepúsculos), paralelamente a uma retros­pectiva do filme nacional.

     O CCF também ministrou um minicurso (cerca de 20h) sobre a questão dos signos e do significado em cinema, sobre como LER um filme. Nele foram exibidos documentários em média metragem conseguidos junto ao USIS sobre direção cinematográfica, produção, fotografia, edição, montagem, direção artística e desenho de produção. Neles foi possível ver em pleno trabalho mestres de cada uma dessas especialidades, como John Ford, David O. Selzníck, Milton Krasner, Jacques Tourneur, Robert Wise, WilIiam Cameron Menzies e Rudolph Sternad, entre outros. Foi um momento memorável na vida do CCF. De todo aquele movi­mento pioneiro, envolvendo palestras, exposições, análises críticas e aulas, jamais se cogitou de qualquer remuneração pelo labor e tempo despendidos.

     Só havia um interesse: projetar o CCF e divulgar tudo quanto sabíamos e dispú­nhamos em benefício dos associados e fãs de cinema. Era uma postura idealista, às vezes quixotesca, mas tínhamos certeza de estar contribuindo para um maior conhecimento da importância do cinema em nosso meio e para a formação de uma consciência crítica, ponto de apoio de toda cultura cinematográfica. Tarcísio Tavares, Frota Neto, Tavares da Silva, José Maia, Carlos Pontes, Frederico Fontenelle Farias, Nirton Venâncio, Cláudio Sidou, Clinete Sampaio, Calberto Albuquerque, Inácio de Almeida, Mário Pontes e outros precocemente falecidos, como Rui Paes de Castro e os Drs. Fahad Otoch e Germano Carvalho Rocha, são apenas alguns dos nomes chegados à lembrança, os quais, direta ou indiretamente, são "filhos" das atividades desenvolvidas pelo CCF. Muitos deles escreveram e ainda escrevem sobre cinema, até mesmo cinéfilos de outros Estados, partícipes desses cursos e seminários como José An­tônio da Silva e Alfredo Barroso, este, aliás, de muita ajuda no seminário sobre Freud no Cinema.

     Durante dois anos Darcy ajudou-nos a manter uma página domingueira em Unitário (1958-1960) e por longo período nos cedeu material para colaboração diária àquele matu­tino, depois semanal, até encerrar-se em fins dos anos 70. Fazemos esta referência aqui para mostrar aos leitores como todos quantos se dedicaram ao cinema entre nós, seja à teoria, à prática ou à sua divulgação, são devedores de uma forma ou de outra ao trabalho pioneiro e persistente de Darcy e ao seu exemplo como dirigente capaz e dedicado. Não admira a homenagem prestada a ele pelos seus amigos do CCF, quando foi indicado para integrar o Conselho Superior de Cultura, no Rio de Janeiro. Justo reconhecimento vindo de fora; daqui resta dar o nome de Darcy a uma rua, sala e filmoteca. É muito pouco um troféu Samburá.

Debates & Cinema de Arte

     Não é demais lembrar as reuniões do CCF, tanto no IBEU como na ACI, para análise e debate dos filmes em exibição nos circuitos comerciais. As mais proveitosas discussões ocorreram após a projeção de películas como A Morte do Caixeiro Viajante (Death of a Salesman) e O Selvagem (The Wild One), de Lazslo Benedek; Os Inocentes (The Innocents), de Jack Clayton; Glória Feita de Sangue (Paths of Glory), O Grande Golpe (The Killing), 2001, Uma Odisséia no Espaço (2001, A Space Odyssey), todos de Stanley Kubrick; “O Segundo Rosto” (Seconds), de John Frankenheimer, As Adolescentes (Dulci Inganni), de Alberto Lattuada; A Aventura (L 'Avventura), A Noite (La Notte) e O Eclipse (L 'Eclisse), a trilogia de Michelangelo Antonioni, a qual hoje se deve chamar de tetralogia devido a “O Grito” (Il Grido), segundo o próprio cineasta; A Doce Vida (La Dolce Vita), Julieta dos Espíritos (Giulietta degli Spiriti), Oito e Meio (Otto e Mezzo) e Os Boas Vidas (I Vitelloni), todos de Federico Fellini; “Fuga do Passado” (Out of the Past) e “A Noite do Demônio” (The Curse of the Demon), de Jacques Tourneur; Quando Duas Mulheres Pecam (Persona), de Ingmar Bergman, e O Processo (The Trial), de Orson Welles. Lembramo-nos bem do debate sobre este filme, pois dele participaram advogados, jornalistas e até um psicanalista. Aliás, os filmes de Welles até então exibidos foram alvo de ensaios sintetizados em boletins, e realizações suas como O Estranho (The Stranger) e Grilhões do Passado foram igual­mente debatidas e revistas proveitosamente.

     Ano Passado em Marienbad (L 'Année Dernière a Marienbad), obra mestra de Alain Resnais, Leão de Ouro no Festival de Veneza de 1961, foi, por iniciativa do CCF, trazido a Fortaleza em 16mm e exibido 4 vezes, uma delas em sala da UFC, seguindo-se-lhe debate entre docentes e universitários. Darcy e nós à testa de uma quase-sabatina, da qual participou o Prof. Jean Philippon, então diretor da Alliance, o qual nos presenteou com o original francês do script de Robbe-Grillet, com generosa dedicatória. Outro momento significativo na vida do CCF foi a exibição de uma série de filmes de Norman McLaren, graças ao apoio da Embaixada do Canadá, e de um ciclo completo do cinema holandês, por cortesia da Embaixada da Holanda, com as quais Darcy sempre manteve estreitos contatos. Nesse ciclo ressaltamos a projeção do antológico A Casa (Das Haus), de Louis A. van Gasteren, precedida de exposição e seguida de rico intercâmbio de idéias. Houve pleno êxito no programa, motivo pelo qual foi possível conseguir ampla divulgação do filme na imprensa e sua permanência por mais três dias, para novas exibições.

     Outras iniciativas foram dignas de nota, mas estas bastam para dar idéia de como o CCF foi um marco cultural na vida de Fortaleza. Seu legado em termos de formação de capital intangível no âmbito do cinema é dificilmente mensurável, mas pode-se dizer ter sido o Cinema de Arte do Cine Diogo, o do cine Gazeta e agora o do Iguatemi; a Casa Amarela, fundada e dirigida por Eusélio Oliveira durante 20 anos e hoje continuada pelo seu filho Wolney; as exibições da Crédimus com Franzé Santos, hoje à frente do Espaço Unibanco e das sessões das quartas no Ideal Clube, e o saudoso Espaço Cultural da Telece­ará, à frente Augusto César Costa, uma continuação ou reflexo direto do CCF e de todo o profícuo trabalho ali realizado por Darcy Costa. Orgulhamo­nos de termos sido seu colaborador direto enquanto o Clube esteve sob sua esclarecida direção.

Presenças Ilustres

     Uma palavra final sobre nomes de prestígio trazidos a Fortaleza pelo CCF, patrocinador da primeira exposição feita por Nélson Pereira dos Santos, então elogiado diretor daquele Rio 40 Graus. Aqui também estiveram o músico, com­positor e cineasta Sérgio Ricardo (recordemos Juliana do Amor Perdido), o ator José Lewgoy, o crítico Van Jaffa, o já citado Rafael de Menezes, todos de­batendo no CCF temas e assuntos ligados ao cinema nacional. Darcy tentou sem êxito trazer o diretor Arne Sucksdorf, o qual como se sabe, formava com Bergman, Bo Widerberg, Alf Sjoberg e Arne Mattsson a linha de frente do moderno cinema sueco. Sucksdorf viera ao Brasil em 1962, a convite do Itamaraty, participar de um seminário para o qual trouxe equipamentos sofisticados à época, como uma câmara Arriflex (preferida de Walter Hugo Khoury), um gravador Nagra (com o qual era possível filmar em som direto de ótima qualidade) e uma moviola plana.

     Após o evento, Sucksdorf ministrou um curso de cinema, do qual foram alunos Gláuber Rocha, Amaldo Jabor, Joaquim Pedro de Andrade e Eduardo EscoreI, entre outros. O realizador escandinavo, por quem Darcy tinha admiração, terminou mudando­se de vez para o Brasil em 1967 e dedicou-se a pesquisas sobre o pantanal e até se casou com uma brasileira, com quem teve filhos. Sua vida está ligada à história do Cinema Novo e às lutas pela preservação dos ecossistemas. Sucksdof acabou retornando à Suécia por motivos de saúde. Para Darcy, o não ter conseguido trazê-lo aqui equivaleu a uma frustração na sua vida de cinéfilo.

     Assim, durante pouco mais de 30 anos e até sua desativação nos anos 8O, por vários motivos (elevação constante nos preços do aluguel dos filmes, a concorrência da TV e do vídeo, o desinteresse de muitos associados, por isso ou por aquilo, e para muitos cinéfilos o fato de não ter surgido outro Darcy com tempo disponível e condições para conduzir o barco com abnegação, idealismo e persistência), o CCF plantou sementes férteis no solo cearense. Quanto ao acervo bibliográfico do CCF, cons­truído cuidadosamente ao longo do tempo, foi entregue por Darcy a Eusélio, pois livros, álbuns, revistas em língua estrangeira, boletins, folhetos e textos mi­meografados tinham ficado na Casa de Raimundo Cela, e Darcy temia pelo futuro desse acervo, o qual, ressalte-se, esteve sempre aberto à pesquisa e à disposição de todos quantos se interessaram em enriquecer-se culturalmente. Por sua permanência e maior alcance, com apoio da UFC, a Casa de Eusélio Oliveira (como deveria chamar-se após o falecimento do seu fundador) tem tido condições de melhor servir-se dele.

     Estes os apontamentos, obviamente incompletos, vindos à memória como registro de um período rico em nossas vidas, mas já perdido no tempo fugidio, quando recordamos Darcy Costa e o legado do CCF. Sua morte, sentida até hoje por familiares, amigos e cola­boradores, abriu lacuna difícil de preencher. Sirva, no entanto, seu exemplo como fonte de inspiração para todos quantos quiserem valer-se das lições por ele deixadas como cineclubista, cultor de cinema, pai, amigo e cidadão, para tornarem suas vidas mais dignas de serem vividas. Os ensinamentos ficaram. Cumpre-nos não deixá-los esquecidos.

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Cinema e reflexão

     Para o crítico e professor Luiz Geraldo de Miranda Leão, o cinema sempre vive em crise. “A evolução do cinema pode ser vista como a história de suas sucessivas crises”, diz. No entanto, desde os anos 30, ainda criança, L. G. Miranda Leão é um dos maiores estudiosos do cinema do País. Ele lança, agora, pela Imprensa Oficial, o livro “AnalisandoCinema: Críticas de LG”. Na obra L.G., colaborador do “Diário do Nordeste”, aborda três temas: grandes filmes, grandes diretores e criadores do cinema brasileiro. Leia a seguir a entrevista de L. G. Miranda Leão ao jornalista José Anderson Sandes, editor do Caderno 3 do Diário do Nordeste.

01. COMO TUDO COMEÇOU?

     Bem, tudo começou em fins da década de 30, quando meu pai, o Dr. J. V. de Miranda Leão, clínico de renome, poliglota, cinéfilo, um dos fundadores da Faculdade de Medicina da UFC e seu Professor Emérito, me levava regularmente às “matinées” do velho Cine Majestic. Foi ele, assim, em parte, o responsável pela minha entrada no cinema da vida e na vida do cinema. Mormente quando me pegou, ainda garoto, anos 40, para assistir parte das filmagens de Orson Welles em Fortaleza, com quem, aliás, já estivera em almoço no antigo Jangada Clube.

     Ver aquela encenação em pleno dia ensolarado, Welles com pasta branca nos lábios para proteger-se, saltando para chamar atenção dos figurantes do casório na porta da igreja do Mucuripe ou deitando-se sobre uma esteira no pequeno buraco aberto no chão para melhor utilizar a câmara baixa, foi meu primeiro espanto. Presenciar meu Pai conversando com Welles num intervalo e dele ouvindo explicações sobre aparelho parecido com o decodificador da TV de hoje (era na realidade um moderno gravador de som direto) ou vê-lo vadear na praia do Meireles com câmara de mão, ao lado de um assistente, para captar umas “prise de vues” de jangadas e jangadeiros, marcou profundamente o menino. Tornei-me a partir daí quase um cinemaníaco.

     Tempos depois ganhei de meu Pai um livro sobre o cinema de D. W. Griffith, grande pioneiro e referência obrigatória quando se fala em 7ª Arte. Esse texto, guardado até hoje, foi meu segundo espanto. Conhecer cinema não era, como eu pensava então, decorar nomes de artistas e de diretores, saber se os filmes eram em p&b ou em cores, qual o tempo de duração ou gênero aos quais pertenciam. Era, sim, aprender-lhe a sintaxe cinematográfica, a “leitura” das imagens, o sentido intrínseco dos movimentos da câmara, dos cortes e dos liames entre cenas, afora outras coisas.

02. QUAL A IMPORTÂNCIA DO CLUBE DE CINEMA DE FORTALEZA E DE DARCY COSTA NA SUA FORMAÇÃO?

     Meu terceiro espanto veio quando conheci a figura ímpar de Darcy Costa (1926-86), idealizador e fundador do CCF e sua mola propulsora daí em diante, não só do Clube mas de todas as atividades ligadas direta ou indiretamente à arte fílmica em Fortaleza, como a iniciativa de ministrar os primeiros cursos de iniciação cinematográfica com apoio em doumentários vindos do USIS, da Unifrance, do Canadá e até do Consulado da Holanda. As quatro exibições de “A Casa”, obra-prima de Louis A. van Gasteren, por exemplo, foi um dos pontos altos do esforço de Darcy nesse sentido. Ainda hoje, junto com Tarcísio Tavares, temos procurado obter cópia em VHS ou DVD desse filme, não importa o preço, mas até agora nada. Nem mesmo uma correspondência ao diretor holandês, até mesmo respondida por ele, não concretizou a vinda dessa película antológica. Em artigo publicado no Informativo nº. 3 (dez 1994/jan 1995) da Casa Amarela Eusébio Oliveira, da UFC, homenageio Darcy e registro o quanto se fez enquanto ele viveu. O CCF, nem todos sabem, foi fundado em 28 de dezembro de 1948, no mesmo dia e mês do ano de 1895, considerada a data do nascimento do cinema, quando os irmãos Lumière, Louis e Auguste, projetaram pela primeira vez seus filmes para um público pagante, no Boulevard des Capucines em Paris.

     O contato com Darcy, já referido, ocorreu em fevereiro de 1949, quando da exibição pelo CCF, em sala da “Alliance Française”, então à Rua Major Facundo, de “Silêncio nas Trevas” (The Spiral Staircase), clássico de mistério e crime do diretor teuto-americano Robert Siodmak (1947). A cópia era em 16mm e Darcy fez a apresentação do filme, quando ouvi coisas das quais nunca ouvira falar, como “plongée”, “plano-ponto-de-vista”, “divisão áurea do retângulo”, “flashback”, etc. Seguiu-se-lhe rico debate. A partir daí me tornei seu admirador e amigo, dele recebendo orientação e relação de livros (chegou a doar-me dois deles e algumas revistas) indispensáveis para quem quer estudar cinema.

     Em 1953/54 passei a lecionar no IBEU e lá fui seu colega durante quase uma década. Solidificou-se então a amizade e daí passei a colaborar com a direção do CCF durante muitos anos e naturalmente a aprender com Darcy a analisar os filmes exibidos no IBEU e, depois, no prédio da ACI. Os boletins da CCF eram reproduzidos por ele numa impressora e distribuídos aos sócios da entidade. Esta dispunha de qualificado acervo de obras e revistas para leitura e consulta de temas abordados pelos filmes. Bastante memoráveis foram os debates levados a efeito pelo CCF sobre películas como “O Processo”, de Welles, “A Casa”, de Gasteren, “Hiroshima”, de Resnais e, até em dependências da UFC, sobre “Ano Passado em Marienbad”, também do mestre francês.

     Em meados de 1956, comecei a escrever no matutino “Unitário”, dos “Diários Associados”, graças ao suporte do Darcy e a boa receptividade de meu nome por parte do Manuelito Eduardo. Minha primeira crítica foi sobre “Monsieur Beaucaire”, comédia hilária com Bob Hope no papel-chave. Não parei de redigi-las, do “O Povo” ao “Unitário” e deste ao “Correio do “Ceará”. No primeiro escrevi sobre grandes diretores começando com Welles, naturalmente, e mestres da direção artística, como William Cameron Menzies e Rudolf Sternad. Atuei na “Gazeta de Notícias”, então sob a direção de Darcy (“Balaio”) e voltei a “O Povo”, quando abordei o cinema argentino e o filme de Fernando Solanas, “Tangos, Exílios de Gardel”, sob o título “A Metáfora do Tempo Redescoberto”. Fixei-me no “Diário do Nordeste”, praticamente desde seus primeiros tempos, em caráter mensal, no Caderno de Cultura, e de dois anos para cá, regularmente aos domingos, no “Zoeira”.

03. COMO SURGIU A IDÉIA DE REUNIR EM LIVROS SEUS TEXTOS SOBRE CINEMA?

     Longe estava eu de pensar em publicar esses artigos àquela época. Mesmo juntando os de 1955-60, eles eram poucos, faltavam ensaios de maior densidade e amadurecimento. A idéia de selecionar e publicar artigos surgiu paralelamente aos primeiros cursos do CCF ou quando escrevi nos seus boletins comentários sobre dois filmes de Mauro Bolognini – “Um Dia de Enlouquecer” (La Giornata Balorda) (1960) e “Desejo que Atormenta” (Senilitá) (1962). Lembrei-me de como esses poderiam ser um ponto de referência para amigos leitores e ajudar os iniciandos a entender a importância do comentário crítico. Mas minhas atividades profissionais no BNB (1956-1983), na UFC (1964-66) e na antiga Faculdade de Filosofia do Ceará, depois UECE (1962-1997), e meus trabalhos de tradução e revisão não me deixavam tempo para dedicar-me à questão da publicação. Somente após as aposentadorias “relativas” (digo-o desse modo, pois aqui e ali sou convidado para ministrar aulas em cursos especiais, como na Escola de Administração, 2002-04) a idéia tomou corpo, ainda assim precisei de minha filha Aurora, jornalista, atriz de teatro e boa redatora e revisora, para organizar o alentado material vindo a lume durante 55 anos.

04. A SELEÇÃO NÃO DEVE TER SIDO FÁCIL, POIS V. ABORDA FILMES DE VÁRIOS GÊNEROS E AUTORES DE DIVERSAS ÉPOCAS. COMO FOI O PROCESSO SELETIVO?

     Como disse, não pude acompanhar a passo igual a seleção feita pela Aurora, daí a omissão de outros filmes com meus cineastas preferidos (eles voltarão em publicações posteriores já em elaboração). Minha filha optou por dividir esse difícil processo seletivo em Grandes Filmes, Grandes Diretores e Criadores Brasileiros, sem seguir nenhuma cronologia ou separação por gêneros. Lamentei a falta de fotos (os livros da Fundação Cultural do Estado de São Paulo usam padrão gráfico sem fotografias), de um índice remissivo e de não ter podido fazer a revisão final. Há alguns “gatos” ou “typos”, como chamam os de língua inglesa, perfeitamente perceptíveis, como na citação do axioma de Rousseau, “tout passe, tout lasse, tout casse”, quando o terceiro verbo saiu repetido, ou quando a palavra francesa “scénario” não foi impressa em itálico. Não colocaria eu o filme de Christine Jeffs, “Sílvia, Além das Palavras”, para abrir o livro, mas minha filha apreciou bastante a crítica e se esqueceu do fato de Christine não pertencer ao quadro dos “grandes diretores”, embora seja dos bons ou ótimos, assim como outros de sua categoria. A mesma coisa ocorre em relação à divisão dos “grandes filmes”: “Adorável Júlia”, do mestre Szabo, é muito bom, mas não deveria estar entre os grandes. Há muitos acertos da Aurora nesse sentido, como a inclusão de Louis Malle e de seu filme “30 Anos Esta Noite” (Feu Follet) (1960), obra exemplar, apesar do tema depressivo, e naturalmente, dos nomes de Welles, Kubrick, Resnais, Truffaut, Bergman, Scorsese, Allen, Eastwood, obrigatórios em qualquer seleção da espécie.

05. ESSES TEXTOS FORAM UTILIZADOS TAMBÉM EM SALAS DE AULA OU SOMENTE EM JORNAIS?

     Os textos com críticas não foram utilizados em salas de aula e publicados somente nos matutinos da cidade, como já mencionado. Para os cursos ministrados por mim no Centro Cultural Banco do Nordeste, recomendei a leitura do ensaio no Caderno de Cultura do DN sobre “A Noite Americana”, de Truffaut, filme com o qual encerrei três dos cursos ministrados ali. O complemento fundamental foi a cartilha distribuída nos Cursos de Apreciação de Arte e inteirada pelos filmes selecionados para esse fim. Como o texto foi limitado a 40 páginas, tive de suprir verbalmente as omissões e projetar cenas escolhidas adrede. Pretendo lançar para o ano uma edição revista e ampliada dessa cartilha com vistas a novos cursos em gestação no CCBN, graças à visão da Diretora Cultural Carmem Paula.

06. O CRITICO E ESTUDIOSO DE CINEMA PRETENDE LANÇAR OUTROS LIVROS COM ÊNFASE NA ARTE FÍLMICA?

     Sim, evidentemente. Tenho em mira apresentar a minha relação dos 100 melhores filmes do século XX e um ensaio sobre os grandes diretores e as dificuldades de escrever para o cinema ou de adaptar obras literárias ou peças teatrais, sobre a questão dos diálogos e do papel do diretor cinematográfico. Alguns desses itens poderão até fundir-se e incluir uma visão histórica do cinema da Alemanha (segundo críticos ingleses é onde se faz atualmente o cinema de maior qualidade em escala mundial), da Hungria, França, Polônia, Argentina, Inglaterra, Suécia e da República Checa. Se viver mais uns cinco anos com a saúde de hoje, esses projetos serão concretizados.

07. POR FALAR EM JORNAL, ATÉ OS ANOS 50 OS JORNAIS ERAM SUPORTES PARA GRANDES POLÊMICAS INTELECTUAIS: TÍNHAMOS CRÍTICAS LITERÁRIAS, CINEMATOGRÁFICAS E TEATRAIS COM GRANDE AMPLITUDE DE CONTEÚDO. NOMES COMO ANTÔNIO CÂNDIDO, RACHEL DE QUEIROZ, GILBERTO FREYRE, GLAUBER ROCHA, NÉLSON PEREIRA DOS SANTOS, JOAQUIM PEDRO DE ANDRADE, WALTER HUGO KHOURY. ENFIM, NOMES SEMPRE PRESENTES EM JORNAIS. OS ESPAÇOS ERAM GENEROSOS E HAVIA LEITORES ÁVIDOS POR REFLEXÕES SOBRE AS ARTES. COMO V. ANALISA O PANORAMA HOJE?

     Realmente, os espaços eram generosos e os jornais constituíam o ponto de apoio para polêmicas intelectuais acirradas, envolvendo principalmente literatura, cinema, teatro e artes plásticas. O panorama hoje é bem diferente, continua a escassez de espaço, há uma “ditadura dos caracteres”, excesso de publicidade do interesse dos jornais, predomínio da TV com suas novelas, convencionais e intermináveis, da Internet, “sites”, “blogs”, “e-mails”. Lê-se menos, vê-se mais. Estamos vivendo época inprevisível na qual a vida se tornou mais difícil, há menos períodos de lazer e reflexão, o próprio tempo corre mais depressa, média de 18h por dia, (segundo cientistas alemães liderados por Walther Schumann) e a luta pela sobrevivência avulta. Também há muito mais filmes em exibição e mais salas de cinema. Sua pergunta é a mais ampla de todas, mas creio ter respondido ao principal.

08. VOLTANDO AO SEU LIVRO, POR QUAL MOTIVO UM LIVRO DE CRÍTICAS?

     Foi o mais fácil de fazer. As críticas já estavam prontas. O problema foi selecionar quantas deveriam entrar e quais seriam elas, se pela importância dos realizadores e se caberia seguir alguma ordem cronológica. Creio já ter respondido a essa pergunta. Com o crescimento do interesse pelo cinema, de certo tempo a esta parte, entendi ser possível contribuir com minhas críticas (não há nenhuma pretensão de sapiência nem ares de catedrático nisso) para orientação dos cinéfilos. De resto, prefiro considerar-me um mediador entre o público e o filme. A palavra crítico tem conotação um tanto negativa, sugere um tipo ranzinza, intolerante ou um cineasta frustrado. Posso até ser, e como gostaria de ver meu nome como realizador de um bom filme! Aliás, pouco importa, pois em rigor todos morreremos frustrados, por termos feito ou deixado de fazer alguma coisa, por termos seguido este e não outro caminho na vida. Não nos realizaremos nunca. O objetivo nosso é viver seguindo padrões éticos, consciência tranqüila, ajudar a quem precisa e tornar o mundo menos ruim porque vivemos nele.

09. COMO V. VERIA HOJE A CRÍTICA CINEMATOGRÁFICA? ELA EXISTE MESMO OU TEMOS APENAS RESENHAS?

     O exercício da crítica isenta e competente é sempre bom numa democracia, não importa se crítica política, econômica, etc. Se não pudermos criticar, então estaremos numa ditadura. Não quer isso dizer oposição sistemática e radical, mas poder exercer o dissenso, seja sobre qual assunto for. Temos hoje maior numero de resenhas em razão do maior volume de filmes em exibição. Há DVDs em profusão e a TV a cabo lança mensalmente cada vez mais filmes. Temos muitos redatores, às vezes nem apreciam tanto o cinema, limitam-se a contar a história dos filmes apoiando-se nos dados fornecidos pela internet ou pelas revistas. Acabam fazendo mera sinopse das fitas em exibição. Só acredito em opinião abalizada se, além de bons conhecimentos da arte fílmica e senso crítico, o redator não assistir a um filme pelo menos duas vezes. As imagens são efêmeras, passam rápida, é preciso estar atento aos detalhes, aos elos de continuidade, à conclusão do elenco, à competência técnica.

      Fazem-nos falta hoje críticos como Paulo Emílio Salles Gomes J. L. Grunewald, Cyro Siqueira, Maurício Gomes Leite, Walter Hugo Khoury (excelente analista de filmes em boletins paulistas, antes de tornar-se cineasta), Moniz Vianna, Rubem Biáfora, Caio Scheiby, J. C. Avellar, Fritz Teixeira Salles, Sérgio Augusto, Ely Azeredo, Hugo Barcellos e outros nomes, muitos deles já falecidos, outros ainda vivos porque abandonaram o mister, por isso ou por aquilo. Mas temos analistas e autores do porte de Ismail Xavier, Amir Labaki, Luiz Carlos Merten José Geraldo Couto, Marcelo Janot, Luiz Zanin Oricchio, Rubens Ewald Filho, sem falar dos críticos das revistas semanais. Jorge Colli me impressiona bastante pelo método de análise e concisão em sua seção “Ponto de Fuga” (no caderno Mais), na qual discorre também sobre outros assuntos ligados às artes, assim como o psicanalista Jurandir Pires da Costa, excelente crítico bissexto. Leio sempre Roger Ebert e Richard Schickel e me considero um ledor de críticos franceses e também de “Première” e de “La Nación”, embora nem sempre concorde com suas opiniões.

10. A CRÍTICA PRESSUPÕE UMA QUESTÃO DE GOSTO. COMO FUGIR DE SUAS PREFERÊNCIAS PESSOAIS PARA ATINGIR UM DETERMINADO DISTANCIAMENTO CRÍTICO PARA ANÁLISE DOS FILMES?

     Muito difícil fugir das preferências pessoais. Prefiro as narrativas clássicas ou neoclássicas, mas estou aberto a experimentos ou revoluções do tipo “Kane”, “Hiroshima” ou “Marienbad”. Tenho grande apreço pelo filme “noir” dos anos 40/50 (aliás, o “noir” se iniciou na França com “Cais das Sombras”/”Quai des Brumes”, de Marcel Carné, 1938) e aprecio filmes de qualquer gênero, desde quando sejam feitos com competência e tenham valor intrínseco. Aprecio também os documentários de qualidade, o Novo e o Moderno Cinema da Alemanha, cineastas húngaros como Istvan Szabo e Andrzej, Wajda, como Kristof Kieslowsky da Polônia, os cinemas sueco, francês, inglês, brasileiro, americano, argentino e de outros países, desde quando feitos com categoria.

     Tenho louvado em meus artigos o renascimento do nosso cinema e destacado alguns dos nossos melhores criadores. Abomino o teatro filmado de Lars von Trier, os filmes mórbidos como esses detestáveis “Jogos Mortais” e os de fantasmas ridículos vindos do Japão e imitados de forma canhestra por realizadores incompetentes. Abomino também os filmes de torturas, de violência contra a mulher, de matança de inocentes. Mas se tiver de escrever sobre eles e neles encontrar méritos, louvo-lhes as qualidades. Veja, por exemplo. “Réquiem para um Sonho”, de Darren Aronofsky, aula deprimente de cinema sobre a falência da condição humana e, no entanto, com proficiência diretorial, interpretação soberba, e um conjunto de cenas do maior impacto. Impossível não elogiá-lo.

11. QUAIS OS PRINCIPAIS FILMES E DIRETORES FOCADOS POR V. EM SEU LIVRO?

     Foco cineastas da envergadura de Welles, Kubrick, Resnais, Malle, Antonioni, Bergman, Bertolucci, Allen, Scorsese, Truffaut, Polanski, Eastwood, Szabo, Costa-Gavras, Hirschbiegel e outros. As omissões, como disse antes,serão corrigidas noutros livros. Isso porque ficaram de fora nomes como Fellini, Losey, De Sica, Visconti, Ulmer, Richter, Runze, Godard, Pabst, Lang, Lean, Leone, e tantos outros. O acúmulo de material para impressão extrapolou as previsões e ajudou a Fundação a suprimir muitos artigos, daí as omissões.

12. POR QUAL MOTIVO EXATAMENTE ESSES FILMES?

     Independente das preferências do crítico por determinados cineastas reconhecidamente excepcionais, ótimos ou bons, os filmes constantes do livro são de primeira linha por tudo quanto pretenderam dizer e pelo modo como expressaram isso via imagens e qualidade fotográfica, embora não se deva mais entrar nessa cediça separação entre conteúdo e forma. Filmes marcantes também pela atuação dos intérpretes e pelo grau de realismo fílmico atingido. Vários exemplos poderiam ilustrar esta resposta, como por exemplo, no melhor filme do ano passado, “A Queda”, de Oliver Hirschbiegel, quando foram construídos um “bunker” idêntico ao de Hitler e exteriores semelhantes a tudo quanto aconteceu nos últimos dias do ditador, com um Bruno Ganz capaz de enganar colegas de trabalho quando saiu tardado da sala de maquiagem e o espectador parece estar revivendo toda a miséria de um regime em pedaços (recorde-se a morte “suave” dos filhos de Goebbels e o caos no hospital improvisado), tudo isso e mais alguma coisa, como demonstramos em comentários feitos à época, justificam plenamente a escolha deste e de outros filmes para figurarem no livro.

13. O SEU LIVRO ESTÁ DIVIDIDO EM TRÊS PARTES: GRANDES FILMES. GRANDES DIRETORES E CRIADORES BRASILEIROS. SERIA UM ESPÉCIE DE CÂNONE DO CINEMA MUNDIAL?

     Não discordei da divisão do livro em três partes. Como lhe respondi antes, só lamentei a omissão de alguns nomes facilmente reparáveis e a inclusão deles como grandes, quando são apenas bons e vice-versa. Essa divisão poderia ser uma espécie de cânone para trabalhos semelhantes, feitos aqui ou no exterior, nos quais filmes excepcionais e grandes cineastas fossem alvo de análise. Quanto a incluir criadores brasileiros, é uma exigência natural decorrente do avanço qualitativo dos nossos filmes e da atuação no exterior de cineastas patrícios como Walter Salles e Fernando Meirelles.

14. QUAIS OS FILMES QUE JAMAIS DEVERIAM SAIR DE CARTAZ E POR QUÊ?

     Boa pergunta, pois contém a sugestão de permanência da arte cinematográfica. Na prática, isso seria inexeqüível. Considerando, no entanto, o crescente interesse dos jovens pelo cinema, seria bom, se possível fosse, manter uma programação anual (pelo menos uma semana por semestre) na qual filmes de ótima qualidade seriam exibidos durante um ano, precedidos de apresentação instrutiva e seguidos de debate. No ano seguinte, seriam outras as fitas selecionadas para essa programação inédita. Depois, alguns dos filmes já projetados poderiam voltar, por dois ou três dias, e assim manteríamos uma mostra quase permanente de clássicos e formaríamos uma cultura cinematográfica em nossos espectadores. De certa forma, o Cinema de Arte, à frente do qual se encontra o cinéfilo e jornalista Pedro Martins Freire, já faz isso quando traz mostras especiais como agora, com sete filmes do novo cinema francês ou de cinematografias em pleno crescimento qualitativo como Austrália, Índia e África do Sul.

15. V. INCLUI ALGUNS FILMES BRASILEIROS E OS ELOGIA. COMO V. ANALISARIA, EM TERMOS GERAIS, O CINEMA BRASILEIRO DO SÉCULO PASSADO?

     Nosso cinema nasceu pobre, em razão mesmo do nosso subdesenvolvimento de então. Sua figura mais importante do século passado é Humberto Mauro. (1897-1983). Coube-lhe, como pioneiro, elevar o paupérrimo nível da produção nacional com “Ganga Bruta” (1933). Antes, aliás, esteve em Cataguazes, onde fez experimentos com filmes de 9,5mm, estreando com o curta “Valadião, o Cratera” (1925). Alguns filmes rodados por ele como “Tesouro Perdido” (1927), “Brasa Dormida” (1928) e “Sangue Mineiro” (1929) acabariam por levá-lo ao Rio de Janeiro.

     Convidado por Roquette Pinto para trabalhar no INCE, Humberto realizou mais de 300 documentários. Fez filmes como “Favela dos Meus Amores” (1935), “Cidade Mulher” (1936), “Argila” (1940), e “O Canto da Saudade” (1952). Houve algumas tentativas antes, não-originais, de fazer filmes “avant-garde” como “São Paulo: Sinfonia de uma Metrópole” (1929), de Adalberto Kememy(?), na esteira da obra-mestra de Walther Ruttmann, “Berlim, Sinfonia de uma Metrópole” (1927). Mário Peixoto (1910-92), autor de um filme só, “Limite” (1930), pois deixou inacabados “Onde a Terra Acaba” e “Maré Baixa”, manteve-o escondido durante décadas, daí o caráter um tanto lendário dessa obra da qual pouco sabemos, Peixoto tomou emprestado, generosamente, dos cineastas russos Eisenstein e Pudovkin.

     Em 1940 a média da produção anual brasileira era insignificante; Em 1942, após a vinda de Orson Welles ao Brasil, para filmar seu “It’s All True”, nele incluído o “raid” dos jangadeiros, houve pequena reversão de expectativas e já se tinha uma média de 10 a 15 filmes por ano. A partir de 1949, com a criação da Vera Cruz, à frente da qual estava o cineasta Alberto Cavalcanti, (1897-1982), mestre do documentário com muitos anos de vivência na Europa, particularmente no cinema inglês, veio a lume “O Cangaceiro” (1953), de Lima Barreto (1906-82). Após isso, Cavalcanti, desgostoso com os rumos da companhia, renunciou a sua posição e retornou desiludido para a Europa. Nosso passado cinematográfico fez muitas chanchadas, pornochanchadas, filmes carnavalescos, abominações como os filmes de Mojica Marins e algumas tentativas sérias, as quais culminaram com “O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte (1920- ), premiado em Cannes (1962).

16. COMO V. ANALISA HOJE O CINEMA NOVO? TEM ELE REALMENTE IMPORTÂNCIA ESTÉTICA E RENOVADORA NO CONTEXTO DO CINEMA NACIONAL?

     O Cinema Novo teve realmente importância estética e renovadora, mas talvez tenha havido uma certa incapacidade de comunicação com o grande público e seus autores-diretores sofrido restrições de caráter político e financeiro, daí haver perdido o seu “momentum” em dado instante. Nasceu ele, como sabemos, da efervescência de jovens cinéfilos talentosos como Glauber Rocha, Cacá Diegues, Ruy Guerra, Nélson Pereira dos Santos e tantos outros influenciados pela “Nouvelle Vague” e pelo neo-realismo italiano. Sempre ficou alguma coisa do Cinema Novo. Hoje vemos crescer significativamente o cinema nacional, embora o grande potencial da nossa indústria cinematográfica ainda não tenha podido realizar-se plenamente. A produção dos filmes não pôde acompanhar o crescimento vertiginoso da população pagante e ampliar as salas de exibição em todo o Pais, enquanto os exibidores estrangeiros têm sido os principais beneficiários do crescente interesse do público brasileiro no cinema. Discorrer sobre o cinema brasileiro de ontem e de hoje dá quase um livro. As respostas dadas são apenas uma tentativa de sintetizar o polêmico assunto, no qual se inclui a estagnação dos anos 70 e 80 devido a fatores de ordem vária.

17. SEU LIVRO É PARA INICIADOS?

      Pergunta oportuna. Não se trata de livro para iniciados, se bem possam eles aproveitar-se dos comentários feitos. Mas servirá sem dúvida para todos quantos se interessam em conhecer algo mais sobre cinema e suas leis reguladoras. Quase todos os filmes analisados no livro podem ser vistos e revistos em DVD e mesmo em VHS, e os cinéfilos poderão confrontar as observações feitas ao longo das críticas. Como já ministrei vários cursos desde os tempos do CCF, como referido, e aqui no antigo Instituto Dragão do Mar e no Centro Cultural Banco do Nordeste, e como levei a cabo o ciclo Orson Welles na Casa Amarela da UFC, creio possa o livro trazer subsídios para quem estuda cinema.

18. FALA-SE MUITO EM CASABLANCA. V. O COLOCARIA COMO OBRA-PRIMA DO CINEMA MUNDIAL?

     De modo algum. Trata-se apenas de um bom filme, nota 7 no máximo 8, numa escala de zero a dez. O fato de ter ganho um Oscar não eleva seu nível de criatividade ou competência técnica. Michael Curtiz (1888-1962), seu diretor, era apenas um bom artesão e profissional de comportamento autocrático e grosseiro. Em “A Carga da Brigada Ligeira” (The Charge of the Light Brigade)” (1936) cometeu erros na montagem da carga final do 7º de Lanceiros por pura teimosia, pois os cavalos não pareciam chegar nunca, apesar da velocidade com o qual eram captados pelas câmaras. (“Casablanca” valeu pela presença da bela Ingrid Bergman, pela coincidência do seu lançamento com a conferência de Casablanca (Roosevelt e Churchill) em plena 2ª Guerra para decidir o futuro da Alemanha, após o término da hecatombe, pela fotografia em p/b e pelo tema musical. O filme combina sentimento humano e “pathos” com o melodrama, e a imagem de um Paul Henreid, mostrado como líder da resistência ao nazismo, todo bem vestido e incólume, após ter fugido da prisão e conseguido chegar em Casablanca, não convence.

     Igualmente, quando Ilse (Ingrid Bergman) vai arrancar de Rick (Humphrey Bogart) os providenciais salvo-condutos (para duas pessoas) e lhe aponta o revólver e logo se reconciliam, depois de Bogart culpá-la por tudo quanto lhe aconteceu. Um roteiro coeso e a direção firme teriam sugerido uma noite juntos, tudo levaria a isso, mas não, sequer se sugere uma troca de roupa, um momento erótico entre eles. Oficiais nazistas fardados em Casablanca à época, em pleno cassino-restaurante, é altamente improvável, assim como a ida do Major Strasse (Conrad Veidt) ao aeroporto sozinho para deter os dois fugitivos. Curtiz, Koch e o filme foram salvos graças a Don Siegel. Como o terço final não engatava, os produtores chamaram Siegel, então chefe do departamento de montagem da WB, para editar o quebra-cabeças final, pois de propósito os três atores, interpretando marido, mulher e ex-amante, não sabiam quem ia terminar com quem. Siegel remontou tudo com muita competência, agilizando o ritmo externo, mormente as imagens das últimas cenas, quando Rick, depois de matar o major nazista, convence Ilse a ficar com o marido.

     A “Film Encyclopedia” de F.Klein e R. D Nolen (1998) registra isso no verbete referente ao pranteado Siegel. Deve-se-lhe também, conforme a “Encyclopedia of Hollywood”, de Scott & Barbara Siegel (1991), a expressiva seqüência de abertura, quando a narração em “off” mostra a apreensão de todos em busca de um salvo-conduto para sair de Casablanca. O semiólogo italiano Umberto Eco foi quem fez a crítica mais contundente sobre o filme. Para ele, “Casablanca” é um pastiche de tudo quanto foi escrito em literatura romântica. Não vale a pena transcrever seu comentário sobre um dos falsos brilhantes dos anos 40. Curtiz ainda cometeu erros ao insistir num modelo de avião bimotor e ao deixar Bogart no trem sob a chuva, mas na mesma cena a capa já está enxuta. Há outros pequenos “gatos” a comentar, mas paramos aqui.

     Quanto a “Citizen Kane”, há uma unanimidade entre especialistas de toda parte, segundo os quais Welles fez a primeira grande revolução no cinema com esse filme. Discorro sobre Welles no livro, mas quanto mais vejo e revejo “Kane”, quanto mais leio sobre eles e sua realização, mais me sinto humilde diante da proximidade do seu gênio, do qual brotaram filmes como “Soberba” (apesar de mutilado em 48/58min), “Grilhões do Passado”, “Othello”, “A Marca da Maldade”, “O Processo” e “Verdades e Mentiras”. Mesmo trabalhando em situações financeiras precárias, como em “Macbeth” (feito em 21 dias) ou com roteiros de segunda linha, como em “O Estranho” e “A Dama de Xangai”, deixou marcos de sua genialidade. Neste, a seqüência da fuga no teatro chinês e o tiroteio na sala dos espelhos, sempre imitado mas jamais igualado, permanecem como o acme da construção cinematográfica.

19. OS ITALIANOS DERAM UM NOVO SOPRO NO CINEMA MUNDIAL COM FILMES INFLUENCIADOS PELAS TEORIAS FREUDIANAS E O SURREALISMO. QUAIS FORAM REALMENTE OS GRANDES MESTRES DO CINEMA PENINSULAR?

     Discorrer sobre o cinema italiano implicaria acrescentar mais páginas a esta entrevista, já de si bastante longa. Diz muito o fato de a Itália já estar equipada para começar sua indústria cinematográfica em novembro de 1895, quando Filotro Alberini patenteou seu “Kinetograf”, um aparelho para filmar e projetar filmes, embora só em 1905 tenha realmente começado a história do “eterno e grande cinema italiano”, segundo W.H. Khoury. Deixo de lado o passado distante e respondo-lhe de forma sucinta: dos mortos, Vittorio De Sica, Federico Fellini, Luchino Visconti, Sergio Leone, Mario Soldati, Roberto Rosselini, Valério Zurlini, Elio Petri, Píer Paolo Pasolini, Dino Risi, Franco Rossi, Mauro Bolognini, Pietro Germi; dos vivos, Michelangelo Antonioni, Bernard Bertolucci, Giuseppe Tornatore, Florestano Vancini e alguns novos recém-chegados à liça. Devo ter cometido omissões, mas são estes os nomes vindos à lembrança.

20. DE HOLLYWOOD, QUEM V. CITARIA? WOODY, POR EXEMPLO?

     Não se pode excluir a contribuição de cineastas estrangeiros da categoria de Max Ophuls, Edgar G.Ulmer, William Dieterle, Fritz Lang, Karl Freund, Ernst Lubitsch, Roberto Siodmak, Joseph von Sternberg, Erich von Stroheim (todos alemães, alguns deles fugitivos do nazismo). O Tampouco o alsaciano William Wyler, do francês Jacques Tourneur, do húngaro André De Toth, do inglês Edmund Goulding, dos austríacos Otto Preminger, Billy Wilder e Fred Zinnemann. Dos vivos americanos, claro, estão Woody Allen, Sidney Lumet, Sydney Pollack, Clint Eastwood, Martin Scorsese, Steven Sipelberg, Michael Mann. Lawrence Kasdan, Spike Lee, Alexander Singer, Robert Benton, Francis Coppola, Philip Kaufman, William Friedkin. Os mortos (Alan J. Pakula, Joseph Losey, Robert Altman, entre outros) são muitos e não há necessidade de citá-los todos.

21. V. JÁ MINISTROU CURSOS FORA DO ESTADO OU PARTICIPOU DE EVENTOS FORA DO PAÍS?

     Participei de jornadas de Cineclubes em várias capitais Representei o CCF na 2ª Jornada de Belo Horizonte (1960), quando foi lançado pela primeira vez no País. “Os Incompreendidos”, de Truffaut, no 23º andar do Banco da Lavoura. Convidado pelo amigo Maurício Gomes Leite, crítico da Revista de Cinema e depois diretor de “Vida Provisória” (1968), fiz palestra para alunos do Centro de Estudos Cinematográficos (CEC) de BH. Participei do Seminário “4 Tempos de Cinema” (1970) no MAM do Rio de Janeiro, quando tive ensejo de debater “Grilhões do Passado” (1955), de Welles, por insistência do amigo Cosme Alves Neto, então Curador do Museu, a quem reencontrei durante o FestRio em Fortaleza (1989). Assisti em Buenos Aires a uma Mostra com os filmes de Fernando Solanas, cineasta de “Tangos, Exílios de Gardel” e de “Sur, Amor e Liberdade”, respectivamente de 1985 e 1987. Quando estive nos EUA (1984), fazendo uma reciclagem em Literatura, assisti a algumas palestras no Deptº. de Cinema do MoMA de Nova Iorque, onde conheci o cineasta negro Ernest R.Dickerson, então fotógrafo de Spike Lee, hoje também cineasta de filmes como “Bastidores da Justiça” (1999), “Nossa América” (2002) e “Nunca Morra Sozinho” (2004), bem assim Alexander Singer, diretor do intrigante “Rajadas de Paixão” (A Cold Wind in August) (1961), ex-fotografo, amigo e assistente de Kubrick. Aqui ministrei aulas sobre História do Cinema no antigo Instituto Dragão do Mar (1999) e História do Cinema Americano e A Arte do Filme (2001-2003) no Centro Cultural Banco do Nordeste. Participei da Bienal de 2004, quando discorri sobre literatura e cinema, tendo como base “O Grande Golpe”, de Kubrick, calcado no romance “Clean Break”, de Lionel White, e fui um dos debatedores do filme de Walter Salles, “Abril Despedaçado”, adaptado do livro de escritor romeno.

22. OUÇO FALAR EM CRISE DO CINEMA. HÁ FUNDAMENTO NISSO?

     O cinema vive em crise desde quando se quis saber quem inventou esse poderosíssimo veículo de expressão e comunicação. A crise ganhou corpo quando alemães (os irmãos Max e Emil Skladanovsky), ingleses (William Fritz Greene) e franceses (Louis Aimé/Auguste Le Prince) reivindicaram a invenção do cinema. Thomas Edson também recebeu com freqüência o crédito p