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| "Quando
o cinema produz sua própria realidade, filmar
deixa de ser um ato irrelevante. Filmar - e principalmente,
filmar documentários - modifica o mundo. Sem
heroísmo, muito pouquinho, sutilmente, mas modifica".
|
João
Moreira Salles |
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Mestre L.G. |
Críticas
de Luiz Geraldo de Miranda Leão: Analisando cinema,
críticas de LG
A
jornalista Neusa Barbosa (SP) é quem faz a apresentação
desta coletânea de alguns dos trabalhos mais importantes
de Luiz Geraldo de Miranda Leão, o mais atuante
crítico de Cinema do Norte e Nordeste e um dos
mais conhecidos fora do eixo Rio-São Paulo. Lançado
pela Coleção Aplauso (coordenada por Rubens
Ewald Filho para a Imprensa Oficial de São Paulo),
o livro foi organizado por sua filha, a jornalista Aurora
Miranda Leão, reunindo textos do extenso acervo
de LG, fixando-se em Grandes Cineastas (Bergman, Fellini,
Orson Welles, Kubrick), Grandes Filmes (A Aventura, de
Antonioni, A Noite Americana, de Truffautt e outros) e
Criadores Brasileiros (como Walter Hugo Khoury, Walter
Salles, Toni Venturi e Lúcia Murat) e a Safra Recente
(Cidade Baixa; Cinema, Aspirinas e Urubus). Nascido em
Fortaleza, professor catedrático da Universidade
Federal do Ceará, Miranda Leão teve seu
interesse despertado pelo cinema assistindo, quando garoto,
às filmagens de It's all true, de Welles, em seu
estado natal. Foi o começo de uma paixão
intensa e persistente, ainda hoje em atividade semanal
como palestrante, debatedor e crítico semanal do
Diário do Nordeste.
Informações
Gerais e Como Comprar.
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Reflexões
indispensáveis
*
Neusa Barbosa
Ao
apresentar o volume de críticas do eminente crítico
e professor cearense L. G. de Miranda Leão, confesso
sentir-me um pouco na posição de quem, sendo
não mais do que aluna, é convidada a apresentar
o mestre. Não pode ser outro meu sentimento do que
orgulho da honraria que me cabe ao lembrar nesta introdução
um pouco da importância desta figura de destaque da
cultura brasileira, que completou 50 anos de crítica
cinematográfica. Um feito que raros profissionais
terão a perseverança e a paixão de
igualar, ainda mais com o extremo cuidado e profissionalismo
que caracterizaram sempre seus textos densos e cristalinos.
É
de admirar que um profissional da crítica mantenha
intocado seu fôlego intelectual tantas décadas
num mister assim polêmico, não raro ingrato
e carregado de incompreensões. Afinal, alguns desavisados
costumam confundir os críticos com infalíveis
juízes do bom gosto e alguns entre estes, os mais
vaidosos, aceitam assim ser considerados. Não é
o caso de Miranda Leão que, embora mestre, ensina
nas entrelinhas de seus iluminados comentários com
a sutileza que cabe aos dotados da melhor sabedoria, amparado
numa pedagogia que vem da enorme intimidade com o assunto
que comenta.
Mestre
em literatura de língua inglesa e portuguesa, Miranda
Leão domina a língua com uma fina expressão,
construindo frases certeiras que, embora se alonguem num
estilo precioso, cultivado em épocas mais eruditas
do que esta apressada nossa, sempre sabem onde querem chegar.
Suas palavras acertam sempre no alvo, construindo análises
e conceitos capazes de enriquecer o universo de seus leitores.
Ler
sua prosa cristalina é quase assistir aos filmes
que ele tão cuidadosamente comenta, com total ausência
de preconceito, não se esquivando de analisar tanto
o último clássico do cinema europeu ou americano
quanto algum exemplar do descartável cinema de terror
adolescente que ultimamente pulula nas telas dos multiplexes.
Para todos os filmes, desenvolve o crítico uma argumentação
serena, fazendo uma progressão segura num mundo de
idéias e erudição ao qual não
faltará, sempre que oportuno, uma pincelada de sua
fina ironia e bom humor.
Lembrando
muito bem que o cinema “não é uma ciência
exata”, aconselha Miranda Leão que se veja
os filmes ao menos duas vezes, ainda que seja para desancá-los
depois. Assim sendo, a eventual crítica será
feita com propriedade. Lembra ele que “as imagens
passam rápido, são efêmeras, cabe ler
os signos e o subtexto”. Cinema é, portanto,
uma arte em que cabe cultivar a paciência no olhar,
sob pena de perder de vista os melhores detalhes.
Esse
olhar cinéfilo foi despertado, inadvertidamente –
ou quem sabe nem tanto – pelo pai do futuro crítico,
o médico João Valente de Miranda Leão.
Poliglota e entusiasta das artes, levou o filho, ainda garoto,
em 1942, para assistir às filmagens de um episódio
de “It´s All True”, o malfadado projeto
brasileiro do genial Orson Welles, que se desenvolvia então
em Mucuripe. Talvez a prova de que pretendia mesmo instalar
no sangue do filho o “micróbio” do cinema,
foi tê-lo presenteado, tempos depois, com um livro
sobre o cineasta americano D. W. Griffith, considerado o
precursor do cinema narrativo e de ação.
O
fato é que a semente germinou e o menino não
abandonou mais o cinema. No Colégio São João,
onde fez seus estudos fundamentais, integrou um grupo de
análise sobre a sétima arte. Uma atividade
que tomou um vulto ainda maior quando conheceu Darcy Xavier
da Costa, o emérito fundador, em 1948, do Clube de
Cinema de Fortaleza (CCF), do qual Miranda Leão brevemente
se tornaria um dos principais entusiastas e, futuramente,
um de seus maiores incentivadores.
A
partir do CCF, Miranda Leão começou a redigir
e divulgar seus primeiros artigos sobre cinema – como
aqueles produzidos sobre os filmes “Pacto de Sangue”,
de Billy Wilder, “O Processo”, de Orson Welles,
e “O Grande Golpe”, de Stanley Kubrick. Iniciando
aí sua prática redacional, aprofundou-se o
crítico na confecção de textos que
eram reproduzidos na imprensa local (como o de “Pacto
de Sangue”, no jornal “O Povo”) e nos
miniprogramas do próprio CCF. Nesses primeiros dias
do cineclube, esses textos eram mimeografados e distribuídos
aos freqüentadores, que assistiam a filmes projetados
pelo próprio Darcy Xavier, seu fundador, a quem cabia
igualmente a missão de rebobiná-los ao final
de cada sessão.
Com
uma fibra forjada nesses tempos heróicos do cineclubismo
em Fortaleza, Miranda Leão aprimorou seu talento
conduzindo ou organizando diversos cursos e seminários
de iniciação à apreciação
cinematográfica que tornaram o CCF um marco na vida
cultural da capital cearense. Os temas: linguagem cinematográfica,
teoria do filme, relação cinema x teatro,
a questão dos signos e do significado do cinema,
como ler um filme, Freud no cinema e tantos outros. Sem
contar a análise de filmes que passaram pelo circuito
comercial ou ciclos, como de cinema holandês ou do
cineasta canadense Norman McLaren. Enfim, seria impossível
listar em tão pouco espaço a gama de atividades
que tornou única a história do CCF de tal
maneira que, mesmo desaparecendo em meados dos anos 80,
deixou indelével sua marca em outras salas de arte
que a partir dali nasceram em Fortaleza.
Colaborador
constante de alguns dos principais órgãos
da imprensa cearense, como o “Diário do Nordeste”,
o crítico alimenta sua notável longevidade
cultural atento à renovação do cinema
brasileiro que já se tornou lugar comum denominar
de “Retomada” mas que Miranda Leão, mais
precisamente, prefere definir como “renovação
qualitativa de nosso cinema”.
Atento
às novidades, não teme, contudo, tomar posições,
recusando por exemplo, entrar no coro quase unânime
dos admiradores da iconoclastia do dinamarquês Lars
von Trier. Defende o cinema americano, tantas vezes objeto
de crítica apressada e leviana, por conta de abrigar
a mais lucrativa e onipresente indústria do mundo.
Para o crítico veterano, que sabiamente não
se deixa levar pelos modismos que ciclicamente infestam
tanto o cinema quanto a crítica, esse cinema yankee
“funciona” e ainda é capaz de produzir
“marcos culturais e artísticos”.
Concorda
Miranda Leão com a posição manifestada
pelo cineasta e crítico americano Peter Bogdanovich
de que todos os grandes filmes já foram feitos e
persevera com ele neste conceito: “Hoje só
podemos aspirar a fazer filmes bons e de alguma forma inesquecíveis”.
Portanto, não descrê do cinema e deve, assim,
por muito tempo, continuar a brindar nossas retinas com
suas reflexões atentas e indispensáveis.
* Neusa
Barbosa é jornalista. Diretora de Conteúdo
do site www.cineweb.com.br.
Crítica de cinema e escritora, autora de diversos
livros sobre Cinema, entre eles a cinebiografia de Wood
Allen. |
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Darcy
Costa e o Legado do CLube de Cinema de Fortaleza
* L.G. de Miranda Leão
Em
1º de agosto de 1986, aos 63 anos, desaparecia do nosso
convívio o abnegado cinéfilo e dirigente cineclubista
Darcy Xavier da Costa, também idealizador e fundador
do Clube de Cinema de Fortaleza (CCF), juntamente com outros
entusiastas da 7ª Arte: Wagner Barreira, Antônio
Girão Barroso, Otacílio Colares e Aderbal
Freire, todos, aliás, já desaparecidos. Para
quem não se recorda, o CCF nasceu oficialmente em
1948, em 28 de dezembro, data emblemática, pois foi
nesse mesmo dia em 1895, no Boulevard des Capucines, no
centro elegante de Paris, subsolo do Grand Café,
Salon Indien, a primeira exibição pública
do cinématographe dos irmãos Lumière,
Auguste e Louis.
Gênese
do CCF
Em
verdade, porém, o CCF nascera antes, fruto das inquietações
de seu primeiro presidente, e ambos estão tão
intrinsecamente ligados a ponto de não podermos dissociar
um do outro. De resto, fã de cinema desde cedo, o
menino Darcy já se valia de uma caixa de sapatos
e carretel e projetava na parede branca uma seqüência
de fotogramas (obtidos com os operadores do velho Majestic)
através de pequena abertura, servindo-lhe de
lente uma lâmpada cheia d'água, enquanto um
espelho aproveitava a réstia de sol como fonte emissora
de luz. O engenho primitivo foi melhorado depois mediante
uso de um jogo de lentes de antiga luneta, doada, se bem
nos lembramos, pelo seu companheiro Rubens de Azevedo. Muitos
garotos também utilizavam conjuntos semelhantes para
brincar de "passar filmes", numa época
ainda sem TV, mas o "projetor" de Darcy era dos
melhores e devia fazer inveja aos colegas "inventores"
lá do quarteirão. Conta isso em crônica
nostálgica, no antigo JD de Dórian Sampaio,
o próprio Rubens.
Darcy,
ocioso assinalar, cresceu vendo e estudando cinema e até
fazendo depois experimentos com filmadora de 8mm. Fascinava-o
essa alternância inteligente de luz e sombra, como
bem o definiu Ingmar Bergman, esse poder das imagens em
movimento com toda sua trama semiológica - elementos
essenciais dessa arte de síntese ou arte impura,
porque condensaria todas as outras, como a denominou propriamente
o crítico Paulo Emílio Salles Gomes. Bem poderia
ter sido Darcy um dos nossos cineastas pioneiros, não
fosse verdadeira temeridade à época largar
tudo para dedicar-se a fazer cinema. Se hoje sabemos das
dificuldades encontradas por profissionais da terra como,
por exemplo, Wolney Oliveira, Rosemberg Cariry ou Firmino
Holanda, visando à obtenção de recursos
financeiros para seus filmes, imagine-se pensar nisso nos
anos 50 !
Atuação
Profissional de Darcy
O
fundador do CCF seguiu outros caminhos na vida adulta, mas
jamais abandonou o cinema. Vinculou-o definitivamente à
sua vida quando procurou Girão Barroso, então
redator dos Diários Associados e critico intermitente
de filmes, para transmitir-lhe a idéia da criação
de um clube de cinema em Fortaleza. Levou-a depois aos fundadores
acima citados e deles recebeu entusiástica acolhida,
da qual resultou a formalização do CCF e o
profícuo trabalho iniciado já em princípios
de 1949. Profissionalmente, Darcy, sempre um bom redator,
tornou-se correspondente de firmas comerciais, professor
de Inglês do IBEU (língua da qual também
foi atento cultor desde cedo) e funcionário da Secretaria
da Fazenda Estadual. Licenciando-se desta, passou a integrar
a organização J. Macedo, da qual foi procurador
e diretor. Esteve igualmente à frente da Gazeta de
Notícias, quando marcou sua passagem como jornalista
em dia com seu tempo e administrador competente, capaz de
dar novas dimensões àquele matutino, até
mesmo no concernente à renovação gráfica
pela qual passou o veículo. Dignos de menção
foram os textos nele publicados sobre Cinema & Arte
na página intitulada Balaio.
Foi ainda diretor do Clube
de Dirigentes Lojistas e atuou efetivamente para o projeto
de melhoria do centro da cidade, antecipando-se no plano
das idéias ao projeto vitorioso da nova Praça
do Ferreira, pois lhe repugnara sempre o monstrengo de então.
Acadêmico de Direito, teve de interromper seu curso
em razão de compromissos profissionais cada vez mais
absorventes. Quando esteve nos EUA, a serviço, não
deixou de inteirar-se de tudo quanto se fazia no Cinema
Sixteen de Nova Iorque e de estabelecer contatos em Greenwich
Village, hoje como ontem ponto de convergência de
artistas de vanguarda. Não admira ter-se interessado
muito em conhecer o trabalho de John Cassavetes por trás
das câmaras, como os inéditos Shadows (1959)
e A Child Is Waiting e Too Late Blues (1962). Na Europa
visitou os circuitos independentes e reviu em versão
original, Confidential Report - Mr. Arkadin, de Orson Welles,
e Le Feu Follet, de Louis Malle.
Os
Primeiros Tempos do CCF
Conhecemo-nos
em 1949 na Alliance Française. Ainda muito jovem,
julgávamos pretensiosamente entender de cinema porque
sabíamos enredos de filmes, títulos originais,
nomes de intérpretes e realizadores, datas de filmagens,
tempo de duração das películas e outras
coisas adjetivas, próprias da idade. Darcy deu um
rumo diferente a este nosso interesse pelo cinema; herdamo-lo,
aliás, do saudoso genitor, Dr. João Valente
de Miranda Leão, médico ilustre, poliglota
e entusiasta da arte das imagens; foi ele quem nos levou,
ainda garoto, para assistir em 1942 às filmagens
de um episódio It’s All True, de Welles, no
Mucuripe, e quem nos presenteou, tempos depois, com um livro
sobre D. W. Griffith (o pai do cinema narrativo, mestre
pioneiro do filme de ação, mentor cinematográfico
de Serguei Eisenstein, a quem o genial cineasta russo sempre
deu crédito). Por causa do Darcy fomos levados a
estudar obras essenciais como EI Lenguaje deI Film, de Renato
May, A Arte do Cinema, de Rudolph Arnheim, e A Grammar of
the Film, de Raymond Spottswood, para só ficarmos
nestes.
Recordamo-nos,
a propósito, de ocorrência banal, responsável
pelo nosso encontro com Darcy. Quando respondemos com
êxito a uma sabatina sobre cinema no antigo grupo
de estudos do Colégio São João, em
fins de 1948, fomos aconselhados pelos colegas Samuel Félix
da Cunha e Luciano Vasconcelos a procurar um tal Darcy Costa,
a quem conheciam, mas de quem jamais ouvíramos falar.
Segundo eles, Darcy era quem mais entendia de cinema em
Fortaleza e bem poderia dar-nos lições úteis
sobre esse veículo de expressão. Decidimos
procurá-lo, mas o encontro só se tomou possível
quando lemos em jornal a notícia da exibição,
pelo recém-fundado CCF, de Silêncio nas Trevas
(The Spiral Staircase), de Robert Siodmak, na Alliance Française.
Fomos até lá. Darcy fez a apresentação
do filme, omitindo naturalmente o plot, mas detendo-se em
aspectos para nós até então desconhecidos
da direção cinematográfica, como o
do raccord ou da utilização do espaço
fora da tela e do contracampo oculto, ou do olhar em off.
Quanta coisa a aprender em matéria de cinema!
Chamou-nos,
porém, mais atenção um pequeno equívoco
na ficha técnica lida pelo apresentador: Milton Krasner
aparecia como diretor de fotografia e Miklos Rozsa (maestro
húngaro, em Hollywood desde 1940) como o autor da
música. Tratava-se, por certo, de um erro de cruzamento
no texto original remetido pela distribuidora, pois Krasner
fotografara alguns dos melhores thrillers da época,
como Almas Perversas (Scarlet Street), de Fritz Lang; Espelhos
D'Alma (The Dark Mirror), de Siodmak; e Punhos de Campeão
(The Set-Up), de Robert Wise, enquanto Rozsa compusera os
temas de Pacto de Sangue (Double Indemnity) e Farrapo Humano
(Lost Weekend), ambos de Billy Wilder; e de Quando Fala
o Coração (Spellbound), de Alfred Hitchcock.
Finda
a exibição, procuramos Darcy, porquanto dispúnhamos
de informação diferente: os nomes corretos
eram, respectivamente, Nicholas Musuraka (fotógrafo
japonês naturalizado americano) e Roy Webb, o músico,
ambos de saudosa memória. Darcy recebeunos com
surpresa mas, apesar de sua aparência pouco risonha,
aceitou de bom grado a corrigenda e na sessão seguinte
do CCF apressou-se em comentar a falha e dar o devido crédito
ao jovem cinéfilo de então. A partir daí
verificamos estar diante de um homem íntegro, leal
e desprovido de fúteis vaidades.
Expansão
das Atividades do CCF
Daí
em diante passamos a encontrar-nos regularmente nas sessões
do CCF e a ouvi-Io com atenção e até,
ousadamente, a participar dos primeiros debates, lance obrigatório
em qualquer atividade cineclubista. Quando começamos
a dar aulas no IBEU, a partir de meados de I952, a amizade
foi crescendo e se tomou fraterna, e a colaboração
se estreitou em razão dos primeiros artigos sobre
cinema por nós redigidos ou traduzidos e revisados
por Darcy, como, por exemplo, o ensaio sobre Pacto de Sangue
transcrito em O Povo, em 1955, O Processo (The Trial),
de Orson Welles, e O Grande Golpe (The Killing), de Stanley
Kubrick, estes vindos a lume em boletim mimeografado. Muitos
desses artigos eram reproduzidos na imprensa locaI e nos
miniprogramas do CCF (Darcy batia os textos em sua máquina
e os rodava em mimeógrafo portátil, muitas
vezes ajudado pelo primogênito Augusto César
Costa, hoje jornalista atuante) e enviados para publicação
pelo CEC de Belo Horizonte, onde pontificavam nomes
como os dos pranteados Cyro Siqueira e Maurício Gomes
Leite, este o realizador de Vida Provisória, aliás
falecido em 1994 na querida França. Com eles privamos
por ocasião da 1ª Jornada de Cineclubes na capital
mineira, onde representamos o CCF, em 1960. O mesmo Mauricio
nos convidou para fazer palestra a alunos do CEC sobre Signos
e Significado em Cinema. Ocorreriam depois outras Jornadas,
uma delas em Fortaleza, com o CCF à frente, dela
participando figuras de relevo vindas de outros Estados,
como Carlos Vieira, hoje já desaparecido, a tanto
nos consome o tempo assassino!
Nos
primeiros anos, Darcy era quem projetava os filmes e os
rebobinava após as sessões, primeiro na Alliance
e em seguida no IBEU, a partir de 1953, e depois na Associação
Cearense de Imprensa (ACI), quando para lá se mudou
o local das exibições. Lembramo-nos da sua
satisfação com a aquisição de
uma Bell & Howell e, mais adiante, com a projetora húngara,
quando já contava com a ajuda de José Gomes,
eficiente operador. Mesmo com Darcy ausente, por motivo
de alguma viagem, não havia quebra na continuidade
das atividades do CCF. Nem sempre era possível oferecer
películas de primeira linha, mas mesmo nos filmes-B
(muitos deles de qualidade, cedidos pelo saudoso Cosme Alves
Neto, Curador do MAM do Rio de Janeiro, onde ambos estagiamos)
havia sempre um tema, um ousado plano-seqüência,
um momento criativo, interpretação condigna
ou trouvaille para discussão.
Minicursos
& Seminários
À
guisa de registro, pois vivemos num país de desmemoriados,
como bem frisou Tristão de Athayde, num dos seus
artigos no JB, e onde tendemos a esquecer ou não
reconhecer o mérito alheio, coube ao CCF a primazia
da realização de alguns seminários
e minicursos de iniciação cinematográfica
para sócios e cinéfilos, de modo geral. Um
deles, por exemplo, trouxe o Prof°. Rafael de Menezes
a Fortaleza, a convite da antiga Faculdade Católica
de Filosofia e do CCF para um ciclo de palestras sobre Elementos
de Cinestética, em 1960. Outro, a nosso cargo, foi
ministrado na UFC, em meados dos anos 60, graças
à interferência de Milton Dias, então
Chefe de Gabinete, e com plena aquiescência do então
Reitor Martins Filho, administrador sensível às
manifestações artísticas.
Houve
outros cursos de certa relevância, um deles com respaldo
da Secretaria de CuItura, em 1974, sobre Linguagem Cinematográfica,
outro sobre Teoria do Filme e Relações Cinema
x Teatro. De resto, quando alguém estranhava essa
correlação, Darcy costumava lembrar Luchino
Visconti, para quem "Há sempre um pouco de cinema
em minhas peças e um pouco de teatro em meus filmes",
pois tinha plena consciência da necessidade de demonstrar
aos cinéfilos as diferenças entre as duas
linguagens, de modo a comprovar a autonomia estética
da 7ª Arte. Em seminário levado a efeito no
IBEU, também se exibiu e discutiu A Rede, de João
Siqueira, um dos pioneiros do cinema no Ceará (com
quem Darcy trabalhou nas filmagens de O Colecionador de
Crepúsculos), paralelamente a uma retrospectiva
do filme nacional.
O
CCF também ministrou um minicurso (cerca de 20h)
sobre a questão dos signos e do significado em cinema,
sobre como LER um filme. Nele foram exibidos documentários
em média metragem conseguidos junto ao USIS sobre
direção cinematográfica, produção,
fotografia, edição, montagem, direção
artística e desenho de produção. Neles
foi possível ver em pleno trabalho mestres de cada
uma dessas especialidades, como John Ford, David O. Selzníck,
Milton Krasner, Jacques Tourneur, Robert Wise, WilIiam Cameron
Menzies e Rudolph Sternad, entre outros. Foi um momento
memorável na vida do CCF. De todo aquele movimento
pioneiro, envolvendo palestras, exposições,
análises críticas e aulas, jamais se cogitou
de qualquer remuneração pelo labor e tempo
despendidos.
Só
havia um interesse: projetar o CCF e divulgar tudo quanto
sabíamos e dispúnhamos em benefício
dos associados e fãs de cinema. Era uma postura idealista,
às vezes quixotesca, mas tínhamos certeza
de estar contribuindo para um maior conhecimento da importância
do cinema em nosso meio e para a formação
de uma consciência crítica, ponto de apoio
de toda cultura cinematográfica. Tarcísio
Tavares, Frota Neto, Tavares da Silva, José Maia,
Carlos Pontes, Frederico Fontenelle Farias, Nirton Venâncio,
Cláudio Sidou, Clinete Sampaio, Calberto Albuquerque,
Inácio de Almeida, Mário Pontes e outros precocemente
falecidos, como Rui Paes de Castro e os Drs. Fahad Otoch
e Germano Carvalho Rocha, são apenas alguns dos nomes
chegados à lembrança, os quais, direta ou
indiretamente, são "filhos" das atividades
desenvolvidas pelo CCF. Muitos deles escreveram e ainda
escrevem sobre cinema, até mesmo cinéfilos
de outros Estados, partícipes desses cursos e seminários
como José Antônio da Silva e Alfredo Barroso,
este, aliás, de muita ajuda no seminário sobre
Freud no Cinema.
Durante
dois anos Darcy ajudou-nos a manter uma página domingueira
em Unitário (1958-1960) e por longo período
nos cedeu material para colaboração diária
àquele matutino, depois semanal, até
encerrar-se em fins dos anos 70. Fazemos esta referência
aqui para mostrar aos leitores como todos quantos se dedicaram
ao cinema entre nós, seja à teoria, à
prática ou à sua divulgação,
são devedores de uma forma ou de outra ao trabalho
pioneiro e persistente de Darcy e ao seu exemplo como dirigente
capaz e dedicado. Não admira a homenagem prestada
a ele pelos seus amigos do CCF, quando foi indicado para
integrar o Conselho Superior de Cultura, no Rio de Janeiro.
Justo reconhecimento vindo de fora; daqui resta dar o nome
de Darcy a uma rua, sala e filmoteca. É muito pouco
um troféu Samburá.
Debates
& Cinema de Arte
Não
é demais lembrar as reuniões do CCF, tanto
no IBEU como na ACI, para análise e debate dos filmes
em exibição nos circuitos comerciais. As mais
proveitosas discussões ocorreram após a projeção
de películas como A Morte do Caixeiro Viajante (Death
of a Salesman) e O Selvagem (The Wild One), de Lazslo Benedek;
Os Inocentes (The Innocents), de Jack Clayton; Glória
Feita de Sangue (Paths of Glory), O Grande Golpe (The Killing),
2001, Uma Odisséia no Espaço (2001, A Space
Odyssey), todos de Stanley Kubrick; “O Segundo Rosto”
(Seconds), de John Frankenheimer, As Adolescentes (Dulci
Inganni), de Alberto Lattuada; A Aventura (L 'Avventura),
A Noite (La Notte) e O Eclipse (L 'Eclisse), a trilogia
de Michelangelo Antonioni, a qual hoje se deve chamar de
tetralogia devido a “O Grito” (Il Grido), segundo
o próprio cineasta; A Doce Vida (La Dolce Vita),
Julieta dos Espíritos (Giulietta degli Spiriti),
Oito e Meio (Otto e Mezzo) e Os Boas Vidas (I Vitelloni),
todos de Federico Fellini; “Fuga do Passado”
(Out of the Past) e “A Noite do Demônio”
(The Curse of the Demon), de Jacques Tourneur; Quando Duas
Mulheres Pecam (Persona), de Ingmar Bergman, e O Processo
(The Trial), de Orson Welles. Lembramo-nos bem do debate
sobre este filme, pois dele participaram advogados, jornalistas
e até um psicanalista. Aliás, os filmes de
Welles até então exibidos foram alvo de ensaios
sintetizados em boletins, e realizações suas
como O Estranho (The Stranger) e Grilhões do Passado
foram igualmente debatidas e revistas proveitosamente.
Ano
Passado em Marienbad (L 'Année Dernière a
Marienbad), obra mestra de Alain Resnais, Leão de
Ouro no Festival de Veneza de 1961, foi, por iniciativa
do CCF, trazido a Fortaleza em 16mm e exibido 4 vezes, uma
delas em sala da UFC, seguindo-se-lhe debate entre docentes
e universitários. Darcy e nós à testa
de uma quase-sabatina, da qual participou o Prof. Jean Philippon,
então diretor da Alliance, o qual nos presenteou
com o original francês do script de Robbe-Grillet,
com generosa dedicatória. Outro momento significativo
na vida do CCF foi a exibição de uma série
de filmes de Norman McLaren, graças ao apoio da Embaixada
do Canadá, e de um ciclo completo do cinema holandês,
por cortesia da Embaixada da Holanda, com as quais Darcy
sempre manteve estreitos contatos. Nesse ciclo ressaltamos
a projeção do antológico A Casa (Das
Haus), de Louis A. van Gasteren, precedida de exposição
e seguida de rico intercâmbio de idéias. Houve
pleno êxito no programa, motivo pelo qual foi possível
conseguir ampla divulgação do filme na imprensa
e sua permanência por mais três dias, para novas
exibições.
Outras
iniciativas foram dignas de nota, mas estas bastam para
dar idéia de como o CCF foi um marco cultural na
vida de Fortaleza. Seu legado em termos de formação
de capital intangível no âmbito do cinema é
dificilmente mensurável, mas pode-se dizer ter sido
o Cinema de Arte do Cine Diogo, o do cine Gazeta e agora
o do Iguatemi; a Casa Amarela, fundada e dirigida por Eusélio
Oliveira durante 20 anos e hoje continuada pelo seu filho
Wolney; as exibições da Crédimus com
Franzé Santos, hoje à frente do Espaço
Unibanco e das sessões das quartas no Ideal Clube,
e o saudoso Espaço Cultural da Teleceará,
à frente Augusto César Costa, uma continuação
ou reflexo direto do CCF e de todo o profícuo trabalho
ali realizado por Darcy Costa. Orgulhamonos de termos
sido seu colaborador direto enquanto o Clube esteve sob
sua esclarecida direção.
Presenças
Ilustres
Uma
palavra final sobre nomes de prestígio trazidos a
Fortaleza pelo CCF, patrocinador da primeira exposição
feita por Nélson Pereira dos Santos, então
elogiado diretor daquele Rio 40 Graus. Aqui também
estiveram o músico, compositor e cineasta Sérgio
Ricardo (recordemos Juliana do Amor Perdido), o ator José
Lewgoy, o crítico Van Jaffa, o já citado Rafael
de Menezes, todos debatendo no CCF temas e assuntos
ligados ao cinema nacional. Darcy tentou sem êxito
trazer o diretor Arne Sucksdorf, o qual como se sabe, formava
com Bergman, Bo Widerberg, Alf Sjoberg e Arne Mattsson a
linha de frente do moderno cinema sueco. Sucksdorf viera
ao Brasil em 1962, a convite do Itamaraty, participar de
um seminário para o qual trouxe equipamentos sofisticados
à época, como uma câmara Arriflex (preferida
de Walter Hugo Khoury), um gravador Nagra (com o qual era
possível filmar em som direto de ótima qualidade)
e uma moviola plana.
Após
o evento, Sucksdorf ministrou um curso de cinema, do qual
foram alunos Gláuber Rocha, Amaldo Jabor, Joaquim
Pedro de Andrade e Eduardo EscoreI, entre outros. O realizador
escandinavo, por quem Darcy tinha admiração,
terminou mudandose de vez para o Brasil em 1967 e dedicou-se
a pesquisas sobre o pantanal e até se casou com uma
brasileira, com quem teve filhos. Sua vida está ligada
à história do Cinema Novo e às lutas
pela preservação dos ecossistemas. Sucksdof
acabou retornando à Suécia por motivos de
saúde. Para Darcy, o não ter conseguido trazê-lo
aqui equivaleu a uma frustração na sua vida
de cinéfilo.
Assim,
durante pouco mais de 30 anos e até sua desativação
nos anos 8O, por vários motivos (elevação
constante nos preços do aluguel dos filmes, a concorrência
da TV e do vídeo, o desinteresse de muitos associados,
por isso ou por aquilo, e para muitos cinéfilos o
fato de não ter surgido outro Darcy com tempo disponível
e condições para conduzir o barco com abnegação,
idealismo e persistência), o CCF plantou sementes
férteis no solo cearense. Quanto ao acervo bibliográfico
do CCF, construído cuidadosamente ao longo do
tempo, foi entregue por Darcy a Eusélio, pois livros,
álbuns, revistas em língua estrangeira, boletins,
folhetos e textos mimeografados tinham ficado na Casa
de Raimundo Cela, e Darcy temia pelo futuro desse acervo,
o qual, ressalte-se, esteve sempre aberto à pesquisa
e à disposição de todos quantos se
interessaram em enriquecer-se culturalmente. Por sua permanência
e maior alcance, com apoio da UFC, a Casa de Eusélio
Oliveira (como deveria chamar-se após o falecimento
do seu fundador) tem tido condições de melhor
servir-se dele.
Estes
os apontamentos, obviamente incompletos, vindos à
memória como registro de um período rico em
nossas vidas, mas já perdido no tempo fugidio, quando
recordamos Darcy Costa e o legado do CCF. Sua morte, sentida
até hoje por familiares, amigos e colaboradores,
abriu lacuna difícil de preencher. Sirva, no entanto,
seu exemplo como fonte de inspiração para
todos quantos quiserem valer-se das lições
por ele deixadas como cineclubista, cultor de cinema, pai,
amigo e cidadão, para tornarem suas vidas mais dignas
de serem vividas. Os ensinamentos ficaram. Cumpre-nos não
deixá-los esquecidos. |
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Para
o crítico e professor Luiz Geraldo de Miranda Leão,
o cinema sempre vive em crise. “A evolução
do cinema pode ser vista como a história de suas
sucessivas crises”, diz. No entanto, desde os anos
30, ainda criança, L. G. Miranda Leão é
um dos maiores estudiosos do cinema do País. Ele
lança, agora, pela Imprensa Oficial, o livro “AnalisandoCinema:
Críticas de LG”. Na obra L.G., colaborador
do “Diário do Nordeste”, aborda três
temas: grandes filmes, grandes diretores e criadores do
cinema brasileiro. Leia a seguir a entrevista de L. G. Miranda
Leão ao jornalista José
Anderson Sandes, editor do Caderno 3 do Diário
do Nordeste.
01.
COMO TUDO COMEÇOU?
Bem, tudo começou em
fins da década de 30, quando meu pai, o Dr. J. V.
de Miranda Leão, clínico de renome, poliglota,
cinéfilo, um dos fundadores da Faculdade de Medicina
da UFC e seu Professor Emérito, me levava regularmente
às “matinées” do velho Cine Majestic.
Foi ele, assim, em parte, o responsável pela minha
entrada no cinema da vida e na vida do cinema. Mormente
quando me pegou, ainda garoto, anos 40, para assistir parte
das filmagens de Orson Welles em Fortaleza, com quem, aliás,
já estivera em almoço no antigo Jangada Clube.
Ver
aquela encenação em pleno dia ensolarado,
Welles com pasta branca nos lábios para proteger-se,
saltando para chamar atenção dos figurantes
do casório na porta da igreja do Mucuripe ou deitando-se
sobre uma esteira no pequeno buraco aberto no chão
para melhor utilizar a câmara baixa, foi meu primeiro
espanto. Presenciar meu Pai conversando com Welles num intervalo
e dele ouvindo explicações sobre aparelho
parecido com o decodificador da TV de hoje (era na realidade
um moderno gravador de som direto) ou vê-lo vadear
na praia do Meireles com câmara de mão, ao
lado de um assistente, para captar umas “prise de
vues” de jangadas e jangadeiros, marcou profundamente
o menino. Tornei-me a partir daí quase um cinemaníaco.
Tempos depois ganhei de meu
Pai um livro sobre o cinema de D. W. Griffith, grande pioneiro
e referência obrigatória quando se fala em
7ª Arte. Esse texto, guardado até hoje, foi
meu segundo espanto. Conhecer cinema não era, como
eu pensava então, decorar nomes de artistas e de
diretores, saber se os filmes eram em p&b ou em cores,
qual o tempo de duração ou gênero aos
quais pertenciam. Era, sim, aprender-lhe a sintaxe cinematográfica,
a “leitura” das imagens, o sentido intrínseco
dos movimentos da câmara, dos cortes e dos liames
entre cenas, afora outras coisas.
02.
QUAL A IMPORTÂNCIA DO CLUBE DE CINEMA DE FORTALEZA
E DE DARCY COSTA NA SUA FORMAÇÃO?
Meu terceiro espanto veio
quando conheci a figura ímpar de Darcy Costa (1926-86),
idealizador e fundador do CCF e sua mola propulsora daí
em diante, não só do Clube mas de todas as
atividades ligadas direta ou indiretamente à arte
fílmica em Fortaleza, como a iniciativa de ministrar
os primeiros cursos de iniciação cinematográfica
com apoio em doumentários vindos do USIS, da Unifrance,
do Canadá e até do Consulado da Holanda. As
quatro exibições de “A Casa”,
obra-prima de Louis A. van Gasteren, por exemplo, foi um
dos pontos altos do esforço de Darcy nesse sentido.
Ainda hoje, junto com Tarcísio Tavares, temos procurado
obter cópia em VHS ou DVD desse filme, não
importa o preço, mas até agora nada. Nem mesmo
uma correspondência ao diretor holandês, até
mesmo respondida por ele, não concretizou a vinda
dessa película antológica. Em artigo publicado
no Informativo nº. 3 (dez 1994/jan 1995) da Casa Amarela
Eusébio Oliveira, da UFC, homenageio Darcy e registro
o quanto se fez enquanto ele viveu. O CCF, nem todos sabem,
foi fundado em 28 de dezembro de 1948, no mesmo dia e mês
do ano de 1895, considerada a data do nascimento do cinema,
quando os irmãos Lumière, Louis e Auguste,
projetaram pela primeira vez seus filmes para um público
pagante, no Boulevard des Capucines em Paris.
O contato com Darcy, já
referido, ocorreu em fevereiro de 1949, quando da exibição
pelo CCF, em sala da “Alliance Française”,
então à Rua Major Facundo, de “Silêncio
nas Trevas” (The Spiral Staircase), clássico
de mistério e crime do diretor teuto-americano Robert
Siodmak (1947). A cópia era em 16mm e Darcy fez a
apresentação do filme, quando ouvi coisas
das quais nunca ouvira falar, como “plongée”,
“plano-ponto-de-vista”, “divisão
áurea do retângulo”, “flashback”,
etc. Seguiu-se-lhe rico debate. A partir daí me tornei
seu admirador e amigo, dele recebendo orientação
e relação de livros (chegou a doar-me dois
deles e algumas revistas) indispensáveis para quem
quer estudar cinema.
Em
1953/54 passei a lecionar no IBEU e lá fui seu colega
durante quase uma década. Solidificou-se então
a amizade e daí passei a colaborar com a direção
do CCF durante muitos anos e naturalmente a aprender com
Darcy a analisar os filmes exibidos no IBEU e, depois, no
prédio da ACI. Os boletins da CCF eram reproduzidos
por ele numa impressora e distribuídos aos sócios
da entidade. Esta dispunha de qualificado acervo de obras
e revistas para leitura e consulta de temas abordados pelos
filmes. Bastante memoráveis foram os debates levados
a efeito pelo CCF sobre películas como “O Processo”,
de Welles, “A Casa”, de Gasteren, “Hiroshima”,
de Resnais e, até em dependências da UFC, sobre
“Ano Passado em Marienbad”, também do
mestre francês.
Em meados de 1956, comecei
a escrever no matutino “Unitário”, dos
“Diários Associados”, graças ao
suporte do Darcy e a boa receptividade de meu nome por parte
do Manuelito Eduardo. Minha primeira crítica foi
sobre “Monsieur Beaucaire”, comédia hilária
com Bob Hope no papel-chave. Não parei de redigi-las,
do “O Povo” ao “Unitário”
e deste ao “Correio do “Ceará”.
No primeiro escrevi sobre grandes diretores começando
com Welles, naturalmente, e mestres da direção
artística, como William Cameron Menzies e Rudolf
Sternad. Atuei na “Gazeta de Notícias”,
então sob a direção de Darcy (“Balaio”)
e voltei a “O Povo”, quando abordei o cinema
argentino e o filme de Fernando Solanas, “Tangos,
Exílios de Gardel”, sob o título “A
Metáfora do Tempo Redescoberto”. Fixei-me no
“Diário do Nordeste”, praticamente desde
seus primeiros tempos, em caráter mensal, no Caderno
de Cultura, e de dois anos para cá, regularmente
aos domingos, no “Zoeira”.
03.
COMO SURGIU A IDÉIA DE REUNIR EM LIVROS SEUS TEXTOS
SOBRE CINEMA?
Longe
estava eu de pensar em publicar esses artigos àquela
época. Mesmo juntando os de 1955-60, eles eram poucos,
faltavam ensaios de maior densidade e amadurecimento. A
idéia de selecionar e publicar artigos surgiu paralelamente
aos primeiros cursos do CCF ou quando escrevi nos seus boletins
comentários sobre dois filmes de Mauro Bolognini
– “Um Dia de Enlouquecer” (La Giornata
Balorda) (1960) e “Desejo que Atormenta” (Senilitá)
(1962). Lembrei-me de como esses poderiam ser um ponto de
referência para amigos leitores e ajudar os iniciandos
a entender a importância do comentário crítico.
Mas minhas atividades profissionais no BNB (1956-1983),
na UFC (1964-66) e na antiga Faculdade de Filosofia do Ceará,
depois UECE (1962-1997), e meus trabalhos de tradução
e revisão não me deixavam tempo para dedicar-me
à questão da publicação. Somente
após as aposentadorias “relativas” (digo-o
desse modo, pois aqui e ali sou convidado para ministrar
aulas em cursos especiais, como na Escola de Administração,
2002-04) a idéia tomou corpo, ainda assim precisei
de minha filha Aurora, jornalista, atriz de teatro e boa
redatora e revisora, para organizar o alentado material
vindo a lume durante 55 anos.
04.
A SELEÇÃO NÃO DEVE TER SIDO FÁCIL,
POIS V. ABORDA FILMES DE VÁRIOS GÊNEROS E AUTORES
DE DIVERSAS ÉPOCAS. COMO FOI O PROCESSO SELETIVO?
Como
disse, não pude acompanhar a passo igual a seleção
feita pela Aurora, daí a omissão de outros
filmes com meus cineastas preferidos (eles voltarão
em publicações posteriores já em elaboração).
Minha filha optou por dividir esse difícil processo
seletivo em Grandes Filmes, Grandes Diretores e Criadores
Brasileiros, sem seguir nenhuma cronologia ou separação
por gêneros. Lamentei a falta de fotos (os livros
da Fundação Cultural do Estado de São
Paulo usam padrão gráfico sem fotografias),
de um índice remissivo e de não ter podido
fazer a revisão final. Há alguns “gatos”
ou “typos”, como chamam os de língua
inglesa, perfeitamente perceptíveis, como na citação
do axioma de Rousseau, “tout passe, tout lasse, tout
casse”, quando o terceiro verbo saiu repetido, ou
quando a palavra francesa “scénario”
não foi impressa em itálico. Não colocaria
eu o filme de Christine Jeffs, “Sílvia, Além
das Palavras”, para abrir o livro, mas minha filha
apreciou bastante a crítica e se esqueceu do fato
de Christine não pertencer ao quadro dos “grandes
diretores”, embora seja dos bons ou ótimos,
assim como outros de sua categoria. A mesma coisa ocorre
em relação à divisão dos “grandes
filmes”: “Adorável Júlia”,
do mestre Szabo, é muito bom, mas não deveria
estar entre os grandes. Há muitos acertos da Aurora
nesse sentido, como a inclusão de Louis Malle e de
seu filme “30 Anos Esta Noite” (Feu Follet)
(1960), obra exemplar, apesar do tema depressivo, e naturalmente,
dos nomes de Welles, Kubrick, Resnais, Truffaut, Bergman,
Scorsese, Allen, Eastwood, obrigatórios em qualquer
seleção da espécie.
05.
ESSES TEXTOS FORAM UTILIZADOS TAMBÉM EM SALAS DE
AULA OU SOMENTE EM JORNAIS?
Os textos com críticas
não foram utilizados em salas de aula e publicados
somente nos matutinos da cidade, como já mencionado.
Para os cursos ministrados por mim no Centro Cultural Banco
do Nordeste, recomendei a leitura do ensaio no Caderno de
Cultura do DN sobre “A Noite Americana”, de
Truffaut, filme com o qual encerrei três dos cursos
ministrados ali. O complemento fundamental foi a cartilha
distribuída nos Cursos de Apreciação
de Arte e inteirada pelos filmes selecionados para esse
fim. Como o texto foi limitado a 40 páginas, tive
de suprir verbalmente as omissões e projetar cenas
escolhidas adrede. Pretendo lançar para o ano uma
edição revista e ampliada dessa cartilha com
vistas a novos cursos em gestação no CCBN,
graças à visão da Diretora Cultural
Carmem Paula.
06.
O CRITICO E ESTUDIOSO DE CINEMA PRETENDE LANÇAR OUTROS
LIVROS COM ÊNFASE NA ARTE FÍLMICA?
Sim, evidentemente. Tenho
em mira apresentar a minha relação dos 100
melhores filmes do século XX e um ensaio sobre os
grandes diretores e as dificuldades de escrever para o cinema
ou de adaptar obras literárias ou peças teatrais,
sobre a questão dos diálogos e do papel do
diretor cinematográfico. Alguns desses itens poderão
até fundir-se e incluir uma visão histórica
do cinema da Alemanha (segundo críticos ingleses
é onde se faz atualmente o cinema de maior qualidade
em escala mundial), da Hungria, França, Polônia,
Argentina, Inglaterra, Suécia e da República
Checa. Se viver mais uns cinco anos com a saúde de
hoje, esses projetos serão concretizados.
07.
POR FALAR EM JORNAL, ATÉ OS ANOS 50 OS JORNAIS ERAM
SUPORTES PARA GRANDES POLÊMICAS INTELECTUAIS: TÍNHAMOS
CRÍTICAS LITERÁRIAS, CINEMATOGRÁFICAS
E TEATRAIS COM GRANDE AMPLITUDE DE CONTEÚDO. NOMES
COMO ANTÔNIO CÂNDIDO, RACHEL DE QUEIROZ, GILBERTO
FREYRE, GLAUBER ROCHA, NÉLSON PEREIRA DOS SANTOS,
JOAQUIM PEDRO DE ANDRADE, WALTER HUGO KHOURY. ENFIM, NOMES
SEMPRE PRESENTES EM JORNAIS. OS ESPAÇOS ERAM GENEROSOS
E HAVIA LEITORES ÁVIDOS POR REFLEXÕES SOBRE
AS ARTES. COMO V. ANALISA O PANORAMA HOJE?
Realmente,
os espaços eram generosos e os jornais constituíam
o ponto de apoio para polêmicas intelectuais acirradas,
envolvendo principalmente literatura, cinema, teatro e artes
plásticas. O panorama hoje é bem diferente,
continua a escassez de espaço, há uma “ditadura
dos caracteres”, excesso de publicidade do interesse
dos jornais, predomínio da TV com suas novelas, convencionais
e intermináveis, da Internet, “sites”,
“blogs”, “e-mails”. Lê-se
menos, vê-se mais. Estamos vivendo época inprevisível
na qual a vida se tornou mais difícil, há
menos períodos de lazer e reflexão, o próprio
tempo corre mais depressa, média de 18h por dia,
(segundo cientistas alemães liderados por Walther
Schumann) e a luta pela sobrevivência avulta. Também
há muito mais filmes em exibição e
mais salas de cinema. Sua pergunta é a mais ampla
de todas, mas creio ter respondido ao principal.
08.
VOLTANDO AO SEU LIVRO, POR QUAL MOTIVO UM LIVRO DE CRÍTICAS?
Foi
o mais fácil de fazer. As críticas já
estavam prontas. O problema foi selecionar quantas deveriam
entrar e quais seriam elas, se pela importância dos
realizadores e se caberia seguir alguma ordem cronológica.
Creio já ter respondido a essa pergunta. Com o crescimento
do interesse pelo cinema, de certo tempo a esta parte, entendi
ser possível contribuir com minhas críticas
(não há nenhuma pretensão de sapiência
nem ares de catedrático nisso) para orientação
dos cinéfilos. De resto, prefiro considerar-me um
mediador entre o público e o filme. A palavra crítico
tem conotação um tanto negativa, sugere um
tipo ranzinza, intolerante ou um cineasta frustrado. Posso
até ser, e como gostaria de ver meu nome como realizador
de um bom filme! Aliás, pouco importa, pois em rigor
todos morreremos frustrados, por termos feito ou deixado
de fazer alguma coisa, por termos seguido este e não
outro caminho na vida. Não nos realizaremos nunca.
O objetivo nosso é viver seguindo padrões
éticos, consciência tranqüila, ajudar
a quem precisa e tornar o mundo menos ruim porque vivemos
nele.
09.
COMO V. VERIA HOJE A CRÍTICA CINEMATOGRÁFICA?
ELA EXISTE MESMO OU TEMOS APENAS RESENHAS?
O
exercício da crítica isenta e competente é
sempre bom numa democracia, não importa se crítica
política, econômica, etc. Se não pudermos
criticar, então estaremos numa ditadura. Não
quer isso dizer oposição sistemática
e radical, mas poder exercer o dissenso, seja sobre qual
assunto for. Temos hoje maior numero de resenhas em razão
do maior volume de filmes em exibição. Há
DVDs em profusão e a TV a cabo lança mensalmente
cada vez mais filmes. Temos muitos redatores, às
vezes nem apreciam tanto o cinema, limitam-se a contar a
história dos filmes apoiando-se nos dados fornecidos
pela internet ou pelas revistas. Acabam fazendo mera sinopse
das fitas em exibição. Só acredito
em opinião abalizada se, além de bons conhecimentos
da arte fílmica e senso crítico, o redator
não assistir a um filme pelo menos duas vezes. As
imagens são efêmeras, passam rápida,
é preciso estar atento aos detalhes, aos elos de
continuidade, à conclusão do elenco, à
competência técnica.
Fazem-nos
falta hoje críticos como Paulo Emílio Salles
Gomes J. L. Grunewald, Cyro Siqueira, Maurício Gomes
Leite, Walter Hugo Khoury (excelente analista de filmes
em boletins paulistas, antes de tornar-se cineasta), Moniz
Vianna, Rubem Biáfora, Caio Scheiby, J. C. Avellar,
Fritz Teixeira Salles, Sérgio Augusto, Ely Azeredo,
Hugo Barcellos e outros nomes, muitos deles já falecidos,
outros ainda vivos porque abandonaram o mister, por isso
ou por aquilo. Mas temos analistas e autores do porte de
Ismail Xavier, Amir Labaki, Luiz Carlos Merten José
Geraldo Couto, Marcelo Janot, Luiz Zanin Oricchio, Rubens
Ewald Filho, sem falar dos críticos das revistas
semanais. Jorge Colli me impressiona bastante pelo método
de análise e concisão em sua seção
“Ponto de Fuga” (no caderno Mais), na qual discorre
também sobre outros assuntos ligados às artes,
assim como o psicanalista Jurandir Pires da Costa, excelente
crítico bissexto. Leio sempre Roger Ebert e Richard
Schickel e me considero um ledor de críticos franceses
e também de “Première” e de “La
Nación”, embora nem sempre concorde com suas
opiniões.
10.
A CRÍTICA PRESSUPÕE UMA QUESTÃO DE
GOSTO. COMO FUGIR DE SUAS PREFERÊNCIAS PESSOAIS PARA
ATINGIR UM DETERMINADO DISTANCIAMENTO CRÍTICO PARA
ANÁLISE DOS FILMES?
Muito difícil fugir
das preferências pessoais. Prefiro as narrativas clássicas
ou neoclássicas, mas estou aberto a experimentos
ou revoluções do tipo “Kane”,
“Hiroshima” ou “Marienbad”. Tenho
grande apreço pelo filme “noir” dos anos
40/50 (aliás, o “noir” se iniciou na
França com “Cais das Sombras”/”Quai
des Brumes”, de Marcel Carné, 1938) e aprecio
filmes de qualquer gênero, desde quando sejam feitos
com competência e tenham valor intrínseco.
Aprecio também os documentários de qualidade,
o Novo e o Moderno Cinema da Alemanha, cineastas húngaros
como Istvan Szabo e Andrzej, Wajda, como Kristof Kieslowsky
da Polônia, os cinemas sueco, francês, inglês,
brasileiro, americano, argentino e de outros países,
desde quando feitos com categoria.
Tenho
louvado em meus artigos o renascimento do nosso cinema e
destacado alguns dos nossos melhores criadores. Abomino
o teatro filmado de Lars von Trier, os filmes mórbidos
como esses detestáveis “Jogos Mortais”
e os de fantasmas ridículos vindos do Japão
e imitados de forma canhestra por realizadores incompetentes.
Abomino também os filmes de torturas, de violência
contra a mulher, de matança de inocentes. Mas se
tiver de escrever sobre eles e neles encontrar méritos,
louvo-lhes as qualidades. Veja, por exemplo. “Réquiem
para um Sonho”, de Darren Aronofsky, aula deprimente
de cinema sobre a falência da condição
humana e, no entanto, com proficiência diretorial,
interpretação soberba, e um conjunto de cenas
do maior impacto. Impossível não elogiá-lo.
11.
QUAIS OS PRINCIPAIS FILMES E DIRETORES FOCADOS POR V. EM
SEU LIVRO?
Foco
cineastas da envergadura de Welles, Kubrick, Resnais, Malle,
Antonioni, Bergman, Bertolucci, Allen, Scorsese, Truffaut,
Polanski, Eastwood, Szabo, Costa-Gavras, Hirschbiegel e
outros. As omissões, como disse antes,serão
corrigidas noutros livros. Isso porque ficaram de fora nomes
como Fellini, Losey, De Sica, Visconti, Ulmer, Richter,
Runze, Godard, Pabst, Lang, Lean, Leone, e tantos outros.
O acúmulo de material para impressão extrapolou
as previsões e ajudou a Fundação a
suprimir muitos artigos, daí as omissões.
12.
POR QUAL MOTIVO EXATAMENTE ESSES FILMES?
Independente
das preferências do crítico por determinados
cineastas reconhecidamente excepcionais, ótimos ou
bons, os filmes constantes do livro são de primeira
linha por tudo quanto pretenderam dizer e pelo modo como
expressaram isso via imagens e qualidade fotográfica,
embora não se deva mais entrar nessa cediça
separação entre conteúdo e forma. Filmes
marcantes também pela atuação dos intérpretes
e pelo grau de realismo fílmico atingido. Vários
exemplos poderiam ilustrar esta resposta, como por exemplo,
no melhor filme do ano passado, “A Queda”, de
Oliver Hirschbiegel, quando foram construídos um
“bunker” idêntico ao de Hitler e exteriores
semelhantes a tudo quanto aconteceu nos últimos dias
do ditador, com um Bruno Ganz capaz de enganar colegas de
trabalho quando saiu tardado da sala de maquiagem e o espectador
parece estar revivendo toda a miséria de um regime
em pedaços (recorde-se a morte “suave”
dos filhos de Goebbels e o caos no hospital improvisado),
tudo isso e mais alguma coisa, como demonstramos em comentários
feitos à época, justificam plenamente a escolha
deste e de outros filmes para figurarem no livro.
13.
O SEU LIVRO ESTÁ DIVIDIDO EM TRÊS PARTES: GRANDES
FILMES. GRANDES DIRETORES E CRIADORES BRASILEIROS. SERIA
UM ESPÉCIE DE CÂNONE DO CINEMA MUNDIAL?
Não
discordei da divisão do livro em três partes.
Como lhe respondi antes, só lamentei a omissão
de alguns nomes facilmente reparáveis e a inclusão
deles como grandes, quando são apenas bons e vice-versa.
Essa divisão poderia ser uma espécie de cânone
para trabalhos semelhantes, feitos aqui ou no exterior,
nos quais filmes excepcionais e grandes cineastas fossem
alvo de análise. Quanto a incluir criadores brasileiros,
é uma exigência natural decorrente do avanço
qualitativo dos nossos filmes e da atuação
no exterior de cineastas patrícios como Walter Salles
e Fernando Meirelles.
14.
QUAIS OS FILMES QUE JAMAIS DEVERIAM SAIR DE CARTAZ E POR
QUÊ?
Boa
pergunta, pois contém a sugestão de permanência
da arte cinematográfica. Na prática, isso
seria inexeqüível. Considerando, no entanto,
o crescente interesse dos jovens pelo cinema, seria bom,
se possível fosse, manter uma programação
anual (pelo menos uma semana por semestre) na qual filmes
de ótima qualidade seriam exibidos durante um ano,
precedidos de apresentação instrutiva e seguidos
de debate. No ano seguinte, seriam outras as fitas selecionadas
para essa programação inédita. Depois,
alguns dos filmes já projetados poderiam voltar,
por dois ou três dias, e assim manteríamos
uma mostra quase permanente de clássicos e formaríamos
uma cultura cinematográfica em nossos espectadores.
De certa forma, o Cinema de Arte, à frente do qual
se encontra o cinéfilo e jornalista Pedro Martins
Freire, já faz isso quando traz mostras especiais
como agora, com sete filmes do novo cinema francês
ou de cinematografias em pleno crescimento qualitativo como
Austrália, Índia e África do Sul.
15.
V. INCLUI ALGUNS FILMES BRASILEIROS E OS ELOGIA. COMO V.
ANALISARIA, EM TERMOS GERAIS, O CINEMA BRASILEIRO DO SÉCULO
PASSADO?
Nosso
cinema nasceu pobre, em razão mesmo do nosso subdesenvolvimento
de então. Sua figura mais importante do século
passado é Humberto Mauro. (1897-1983). Coube-lhe,
como pioneiro, elevar o paupérrimo nível da
produção nacional com “Ganga Bruta”
(1933). Antes, aliás, esteve em Cataguazes, onde
fez experimentos com filmes de 9,5mm, estreando com o curta
“Valadião, o Cratera” (1925). Alguns
filmes rodados por ele como “Tesouro Perdido”
(1927), “Brasa Dormida” (1928) e “Sangue
Mineiro” (1929) acabariam por levá-lo ao Rio
de Janeiro.
Convidado
por Roquette Pinto para trabalhar no INCE, Humberto realizou
mais de 300 documentários. Fez filmes como “Favela
dos Meus Amores” (1935), “Cidade Mulher”
(1936), “Argila” (1940), e “O Canto da
Saudade” (1952). Houve algumas tentativas antes, não-originais,
de fazer filmes “avant-garde” como “São
Paulo: Sinfonia de uma Metrópole” (1929), de
Adalberto Kememy(?), na esteira da obra-mestra de Walther
Ruttmann, “Berlim, Sinfonia de uma Metrópole”
(1927). Mário Peixoto (1910-92), autor de um filme
só, “Limite” (1930), pois deixou inacabados
“Onde a Terra Acaba” e “Maré Baixa”,
manteve-o escondido durante décadas, daí o
caráter um tanto lendário dessa obra da qual
pouco sabemos, Peixoto tomou emprestado, generosamente,
dos cineastas russos Eisenstein e Pudovkin.
Em 1940 a média da
produção anual brasileira era insignificante;
Em 1942, após a vinda de Orson Welles ao Brasil,
para filmar seu “It’s All True”, nele
incluído o “raid” dos jangadeiros, houve
pequena reversão de expectativas e já se tinha
uma média de 10 a 15 filmes por ano. A partir de
1949, com a criação da Vera Cruz, à
frente da qual estava o cineasta Alberto Cavalcanti, (1897-1982),
mestre do documentário com muitos anos de vivência
na Europa, particularmente no cinema inglês, veio
a lume “O Cangaceiro” (1953), de Lima Barreto
(1906-82). Após isso, Cavalcanti, desgostoso com
os rumos da companhia, renunciou a sua posição
e retornou desiludido para a Europa. Nosso passado cinematográfico
fez muitas chanchadas, pornochanchadas, filmes carnavalescos,
abominações como os filmes de Mojica Marins
e algumas tentativas sérias, as quais culminaram
com “O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte
(1920- ), premiado em Cannes (1962).
16.
COMO V. ANALISA HOJE O CINEMA NOVO? TEM ELE REALMENTE IMPORTÂNCIA
ESTÉTICA E RENOVADORA NO CONTEXTO DO CINEMA NACIONAL?
O
Cinema Novo teve realmente importância estética
e renovadora, mas talvez tenha havido uma certa incapacidade
de comunicação com o grande público
e seus autores-diretores sofrido restrições
de caráter político e financeiro, daí
haver perdido o seu “momentum” em dado instante.
Nasceu ele, como sabemos, da efervescência de jovens
cinéfilos talentosos como Glauber Rocha, Cacá
Diegues, Ruy Guerra, Nélson Pereira dos Santos e
tantos outros influenciados pela “Nouvelle Vague”
e pelo neo-realismo italiano. Sempre ficou alguma coisa
do Cinema Novo. Hoje vemos crescer significativamente o
cinema nacional, embora o grande potencial da nossa indústria
cinematográfica ainda não tenha podido realizar-se
plenamente. A produção dos filmes não
pôde acompanhar o crescimento vertiginoso da população
pagante e ampliar as salas de exibição em
todo o Pais, enquanto os exibidores estrangeiros têm
sido os principais beneficiários do crescente interesse
do público brasileiro no cinema. Discorrer sobre
o cinema brasileiro de ontem e de hoje dá quase um
livro. As respostas dadas são apenas uma tentativa
de sintetizar o polêmico assunto, no qual se inclui
a estagnação dos anos 70 e 80 devido a fatores
de ordem vária.
17.
SEU LIVRO É PARA INICIADOS?
Pergunta
oportuna. Não se trata de livro para iniciados, se
bem possam eles aproveitar-se dos comentários feitos.
Mas servirá sem dúvida para todos quantos
se interessam em conhecer algo mais sobre cinema e suas
leis reguladoras. Quase todos os filmes analisados no livro
podem ser vistos e revistos em DVD e mesmo em VHS, e os
cinéfilos poderão confrontar as observações
feitas ao longo das críticas. Como já ministrei
vários cursos desde os tempos do CCF, como referido,
e aqui no antigo Instituto Dragão do Mar e no Centro
Cultural Banco do Nordeste, e como levei a cabo o ciclo
Orson Welles na Casa Amarela da UFC, creio possa o livro
trazer subsídios para quem estuda cinema.
18.
FALA-SE MUITO EM CASABLANCA. V. O COLOCARIA COMO OBRA-PRIMA
DO CINEMA MUNDIAL?
De modo algum. Trata-se apenas
de um bom filme, nota 7 no máximo 8, numa escala
de zero a dez. O fato de ter ganho um Oscar não eleva
seu nível de criatividade ou competência técnica.
Michael Curtiz (1888-1962), seu diretor, era apenas um bom
artesão e profissional de comportamento autocrático
e grosseiro. Em “A Carga da Brigada Ligeira”
(The Charge of the Light Brigade)” (1936) cometeu
erros na montagem da carga final do 7º de Lanceiros
por pura teimosia, pois os cavalos não pareciam chegar
nunca, apesar da velocidade com o qual eram captados pelas
câmaras. (“Casablanca” valeu pela presença
da bela Ingrid Bergman, pela coincidência do seu lançamento
com a conferência de Casablanca (Roosevelt e Churchill)
em plena 2ª Guerra para decidir o futuro da Alemanha,
após o término da hecatombe, pela fotografia
em p/b e pelo tema musical. O filme combina sentimento humano
e “pathos” com o melodrama, e a imagem de um
Paul Henreid, mostrado como líder da resistência
ao nazismo, todo bem vestido e incólume, após
ter fugido da prisão e conseguido chegar em Casablanca,
não convence.
Igualmente,
quando Ilse (Ingrid Bergman) vai arrancar de Rick (Humphrey
Bogart) os providenciais salvo-condutos (para duas pessoas)
e lhe aponta o revólver e logo se reconciliam, depois
de Bogart culpá-la por tudo quanto lhe aconteceu.
Um roteiro coeso e a direção firme teriam
sugerido uma noite juntos, tudo levaria a isso, mas não,
sequer se sugere uma troca de roupa, um momento erótico
entre eles. Oficiais nazistas fardados em Casablanca à
época, em pleno cassino-restaurante, é altamente
improvável, assim como a ida do Major Strasse (Conrad
Veidt) ao aeroporto sozinho para deter os dois fugitivos.
Curtiz, Koch e o filme foram salvos graças a Don
Siegel. Como o terço final não engatava, os
produtores chamaram Siegel, então chefe do departamento
de montagem da WB, para editar o quebra-cabeças final,
pois de propósito os três atores, interpretando
marido, mulher e ex-amante, não sabiam quem ia terminar
com quem. Siegel remontou tudo com muita competência,
agilizando o ritmo externo, mormente as imagens das últimas
cenas, quando Rick, depois de matar o major nazista, convence
Ilse a ficar com o marido.
A “Film Encyclopedia”
de F.Klein e R. D Nolen (1998) registra isso no verbete
referente ao pranteado Siegel. Deve-se-lhe também,
conforme a “Encyclopedia of Hollywood”, de Scott
& Barbara Siegel (1991), a expressiva seqüência
de abertura, quando a narração em “off”
mostra a apreensão de todos em busca de um salvo-conduto
para sair de Casablanca. O semiólogo italiano Umberto
Eco foi quem fez a crítica mais contundente sobre
o filme. Para ele, “Casablanca” é um
pastiche de tudo quanto foi escrito em literatura romântica.
Não vale a pena transcrever seu comentário
sobre um dos falsos brilhantes dos anos 40. Curtiz ainda
cometeu erros ao insistir num modelo de avião bimotor
e ao deixar Bogart no trem sob a chuva, mas na mesma cena
a capa já está enxuta. Há outros pequenos
“gatos” a comentar, mas paramos aqui.
Quanto a “Citizen Kane”,
há uma unanimidade entre especialistas de toda parte,
segundo os quais Welles fez a primeira grande revolução
no cinema com esse filme. Discorro sobre Welles no livro,
mas quanto mais vejo e revejo “Kane”, quanto
mais leio sobre eles e sua realização, mais
me sinto humilde diante da proximidade do seu gênio,
do qual brotaram filmes como “Soberba” (apesar
de mutilado em 48/58min), “Grilhões do Passado”,
“Othello”, “A Marca da Maldade”,
“O Processo” e “Verdades e Mentiras”.
Mesmo trabalhando em situações financeiras
precárias, como em “Macbeth” (feito em
21 dias) ou com roteiros de segunda linha, como em “O
Estranho” e “A Dama de Xangai”, deixou
marcos de sua genialidade. Neste, a seqüência
da fuga no teatro chinês e o tiroteio na sala dos
espelhos, sempre imitado mas jamais igualado, permanecem
como o acme da construção cinematográfica.
19.
OS ITALIANOS DERAM UM NOVO SOPRO NO CINEMA MUNDIAL COM FILMES
INFLUENCIADOS PELAS TEORIAS FREUDIANAS E O SURREALISMO.
QUAIS FORAM REALMENTE OS GRANDES MESTRES DO CINEMA PENINSULAR?
Discorrer
sobre o cinema italiano implicaria acrescentar mais páginas
a esta entrevista, já de si bastante longa. Diz muito
o fato de a Itália já estar equipada para
começar sua indústria cinematográfica
em novembro de 1895, quando Filotro Alberini patenteou seu
“Kinetograf”, um aparelho para filmar e projetar
filmes, embora só em 1905 tenha realmente começado
a história do “eterno e grande cinema italiano”,
segundo W.H. Khoury. Deixo de lado o passado distante e
respondo-lhe de forma sucinta: dos mortos, Vittorio De Sica,
Federico Fellini, Luchino Visconti, Sergio Leone, Mario
Soldati, Roberto Rosselini, Valério Zurlini, Elio
Petri, Píer Paolo Pasolini, Dino Risi, Franco Rossi,
Mauro Bolognini, Pietro Germi; dos vivos, Michelangelo Antonioni,
Bernard Bertolucci, Giuseppe Tornatore, Florestano Vancini
e alguns novos recém-chegados à liça.
Devo ter cometido omissões, mas são estes
os nomes vindos à lembrança.
20.
DE HOLLYWOOD, QUEM V. CITARIA? WOODY, POR EXEMPLO?
Não
se pode excluir a contribuição de cineastas
estrangeiros da categoria de Max Ophuls, Edgar G.Ulmer,
William Dieterle, Fritz Lang, Karl Freund, Ernst Lubitsch,
Roberto Siodmak, Joseph von Sternberg, Erich von Stroheim
(todos alemães, alguns deles fugitivos do nazismo).
O Tampouco o alsaciano William Wyler, do francês Jacques
Tourneur, do húngaro André De Toth, do inglês
Edmund Goulding, dos austríacos Otto Preminger, Billy
Wilder e Fred Zinnemann. Dos vivos americanos, claro, estão
Woody Allen, Sidney Lumet, Sydney Pollack, Clint Eastwood,
Martin Scorsese, Steven Sipelberg, Michael Mann. Lawrence
Kasdan, Spike Lee, Alexander Singer, Robert Benton, Francis
Coppola, Philip Kaufman, William Friedkin. Os mortos (Alan
J. Pakula, Joseph Losey, Robert Altman, entre outros) são
muitos e não há necessidade de citá-los
todos.
21.
V. JÁ MINISTROU CURSOS FORA DO ESTADO OU PARTICIPOU
DE EVENTOS FORA DO PAÍS?
Participei
de jornadas de Cineclubes em várias capitais Representei
o CCF na 2ª Jornada de Belo Horizonte (1960), quando
foi lançado pela primeira vez no País. “Os
Incompreendidos”, de Truffaut, no 23º andar do
Banco da Lavoura. Convidado pelo amigo Maurício Gomes
Leite, crítico da Revista de Cinema e depois diretor
de “Vida Provisória” (1968), fiz palestra
para alunos do Centro de Estudos Cinematográficos
(CEC) de BH. Participei do Seminário “4 Tempos
de Cinema” (1970) no MAM do Rio de Janeiro, quando
tive ensejo de debater “Grilhões do Passado”
(1955), de Welles, por insistência do amigo Cosme
Alves Neto, então Curador do Museu, a quem reencontrei
durante o FestRio em Fortaleza (1989). Assisti em Buenos
Aires a uma Mostra com os filmes de Fernando Solanas, cineasta
de “Tangos, Exílios de Gardel” e de “Sur,
Amor e Liberdade”, respectivamente de 1985 e 1987.
Quando estive nos EUA (1984), fazendo uma reciclagem em
Literatura, assisti a algumas palestras no Deptº. de
Cinema do MoMA de Nova Iorque, onde conheci o cineasta negro
Ernest R.Dickerson, então fotógrafo de Spike
Lee, hoje também cineasta de filmes como “Bastidores
da Justiça” (1999), “Nossa América”
(2002) e “Nunca Morra Sozinho” (2004), bem assim
Alexander Singer, diretor do intrigante “Rajadas de
Paixão” (A Cold Wind in August) (1961), ex-fotografo,
amigo e assistente de Kubrick. Aqui ministrei aulas sobre
História do Cinema no antigo Instituto Dragão
do Mar (1999) e História do Cinema Americano e A
Arte do Filme (2001-2003) no Centro Cultural Banco do Nordeste.
Participei da Bienal de 2004, quando discorri sobre literatura
e cinema, tendo como base “O Grande Golpe”,
de Kubrick, calcado no romance “Clean Break”,
de Lionel White, e fui um dos debatedores do filme de Walter
Salles, “Abril Despedaçado”, adaptado
do livro de escritor romeno.
22.
OUÇO FALAR EM CRISE DO CINEMA. HÁ FUNDAMENTO
NISSO?
O
cinema vive em crise desde quando se quis saber quem inventou
esse poderosíssimo veículo de expressão
e comunicação. A crise ganhou corpo quando
alemães (os irmãos Max e Emil Skladanovsky),
ingleses (William Fritz Greene) e franceses (Louis Aimé/Auguste
Le Prince) reivindicaram a invenção do cinema.
Thomas Edson também recebeu com freqüência
o crédito pela invenção porque o seu
laboratório técnico utilizava o filme de celulóide
de George Eastman nos seus experimentos com a fotografia
em movimento. Mas a reivindicação de Edson
é bem confusa, segundo o Prof. G. Mast, da Universidade
de Chicago, um dos pesquisadores de renome no tocante ao
tema, porque Edson não inventou nenhuma maquina de
projetar filmes, embora tenha recebido crédito pelas
invenções de outros, como o Kinetograph de
1888, criação do inglês William Kennedy
Laurie Dickson... Para Mast, a evolução do
cinema pode ser vista como a história de suas sucessivas
crises, como o advento do filme sonoro, a intromissão
do Código de Produção (leia-se o Código
Hays de censura), a introdução da cor, a concorrência
da TV, o “star system”, os custos crescentes
da produção, o surgimento de novos equipamentos,
o cinerama, a 3ª dimensão, a concorrência
do cinema europeu, o surgimento dos cinema independente,
as novas cinematografias, as imagens geradas por computador,
a videoclipagem. O futuro é sempre imprevisível,
sabemos, mas segundo especialistas dificilmente o cinema
sobreviverá tal como o conhecemos hoje. Haverá
sem dúvida o aperfeiçoamento do “laser
disk CD-Rom”, do “home theater” (cinema
doméstico),enquanto a projeção em tela
grande sobreviveria apenas para uma minoria de iniciados
sem expressão econômica. Até mesmo as
imagens geradas por computador podem ser substituídas
por câmaras dotadas de “microzoom” óptico
capazes de aumentar gotas d’água umas 500 mil
vezes, como foi feito no recente “The Fountain”,
do cineasta Darren Aronofsky. As próprias lentes
“zoom”, do inventor alemão Erich Zoomar
(utilizadas de forma pioneira por Kubrick em “Glória
Feita e Sangue”) ou lentes de satélites acopladas
às câmaras Mitchel, (como fez SK em “Barry
Lyndon”) para filmagem à luz de velas e a “steadicam”
de Garret Brown (1977) foram avanços significativos,
cada um deles de deflagrando novas exigências. A produção
de DVDs, obras audiovisuais, telefilmes, disquetes eletrônicos,
videofilmes e minisséries deverá crescer de
modo assustador nos próximos anos.
Como
aponta o crítico José Geraldo Couto em bem
fundamentado texto, os produtos audiovisuais destinados
a fazer face à demanda devem crescer vertiginosamente
e usar cada vez menos a película de celulóide
como suporte propriamente cinematográfico e cada
vez mais suportes como o vídeo, o disquete eletrônico,
etc. Enquanto o custo de uma produção cinematográfica
cresce cerca de 20 a 22% ao ano, a imagem eletrônica
é cada vez mais barata graças aos rápidos
avanços propiciados pela tecnologia.
A saída para impedir
a evasão do público pagante jaz em maciços
investimentos nos grandes espetáculos e na profusão
de cores e de efeitos especiais. Há também
quem veja a saída para o cinema na oferta de um produto
mais inteligente e mais “autoral”. O número
de cineastas independentes cresce por igual tanto no mercado
americano como na Europa, apesar da tendência geral
da concentração da atividade cinematográfica
em grandes blocos socioeconômicos multimídia,
como SONY, Time/Warner, Miramax, Matsushita, Dreamworks,
etc.
Em suma, concentração
econômica e segmentação do mercado são
as duas tendências opostas capazes de permitir, pelo
menos nos próximos anos, a continuidade do cinema
como indústria de múltiplas facetas, com brechas
para o surgimento, aqui e ali, de lampejos da grande arte,
como pensa Geraldo Couto. A pergunta nº 22 implicaria
outros desdobramentos, mas creio ter respondido a ela.
José
Anderson Sandes
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"
Um grande cineasta pode transformar uma subliteratura
em filme de primeira linha"
LG de Miranda Leão,
mais conhecido como LG - Cidadão de Cinema
(como destaca o documentário do capixaba Gui Castor)
em nova entrevista exclusiva.
1 - Fale um pouco de sua trajetória
no BNB e o início da carreira como Crítico
de Cinema.
LG - Entrei
no BNB como secretário-tradutor, lotado no então
Departamento da Assessoria Geral. Na década de
70, fui efetivado como Técnico Bancário.
Ao todo, trabalhei 27 anos no BNB. Em 1962, comecei a
lecionar na antiga Faculdade de Filosofia do Ceará
e em 1964 obtive o 1º lugar no Concurso Público
de Títulos e Provas para o magistério estadual,
tendo sido efetivado como Professor Titular quando da
criação da UECE. Fiz estágio na antiga
Escola Brasileira de Tradutores no Rio de Janeiro e aposentei-me
em 1997, após 35 anos de atividade magisterial
ininterrupta. Em 1984 cumpri reciclagem em Literatura
Americana em cursos de verão promovidos pela Universidade
de Nova Iorque.
Fã de cinema desde
garoto, quando acompanhava meu pai (ele também
veterano cinéfilo desde tempos do cinema mudo,
quando cursava medicina na Universidade Federal do Rio
de Janeiro), apaixonei-me pela arte fílmica
quando assisti às filmagens de Orson Welles em
Fortaleza e vi o grande cineasta em ação,
tanto na seqüência do “casamento”
do pescador na igrejinha do Mucuripe, como nas tomadas
de vistas feitas por ele na praia do Meireles.
Comecei a estudar
cinema quando em 1949 conheci Darcy Costa, idealizador
e fundador do Clube de Cinema de Fortaleza, por
ocasião da exibição de “Silêncio
nas Trevas” (The Spiral Staircase), de Robert Siodmak
(1947), nas dependências da “Alliance Française”.
Idealizador e fundador do CCF, coube a Darcy fazer a apresentação
do filme (como o faria dezenas de vezes até seu
desaparecimento em 1986) e debatê-lo ao final da
projeção. Iniciamos boa amizade a partir
daí e me tornei, com o passar do tempo, seu colaborador
direto durante muitos anos. Graças a uma sugestão
dele, comecei a redigir textos de informação
e crítica nos boletins do CCF e depois escrevi
artigos para “O Povo” (1954/55). Em 1956,
comecei a atuar como crítico no antigo “Unitário”
dos “Diários Associados”, depois na
“Gazeta de Notícias” e mais adiante
no “Diário do Nordeste”, onde me encontro
até hoje, semanalmente no Zoeira e mensalmente
aos domingos, no Caderno de Cultura.
2. Recentemente, você completou 50 anos de crítica
cinematográfica. O que mudou no cinema de lá
para cá?
LG - Muita
coisa mudou, não só com a queda do famigerado
Código Hays, nos anos 60, como na revolução
das comunicações na aldeia global da qual
falava McLuhan, com repercussões nos costumes,
na descoberta da pílula, na liberação
da mulher (“woman’s lib”) e também
no aperfeiçoamento dos equipamentos, novas lentes,
3-D, “cinemascope”, som estereofônico
e, mais recentemente, na tecnologia dos computadores e
dos efeitos especiais. Mas nada disso pôde
destruir os alicerces do filme em preto & branco,
tampouco o retângulo tradicional no qual
ainda podemos apreciar filmes como “Kane”
e “Soberba” (Welles), “Hiroshima”,
“Marienbad” e “Muriel” (Resnais),
“Glória Feita de Sangue”, “O
Grande Golpe”, “Dr. Fantástico”
(Kubrick), “O Criado” (Losey), “Os Incompreendidos”
(Truffaut), “Acossado” (Godard), “Persona”
(Bergman), “A Aventura” (Antonioni), “O
Segundo Rosto” e “Sob o Domínio do
Mal” (Frankenheimer), “Oito e Meio”
e “Os Boas Vidas” (Fellini), “Zelig”
e “Manhattan” (Allen), “O 3ª Homem”
e “O Outro Homem” (Reed), “Vampiros
de Almas” e “Os Impiedosos” (Siegel),
“A Morte num Beijo” (Aldrich), “A Carta”
(Wyler), “Pacto de Sangue” (Wilder), “A
Embriaguez do Sucesso” (Mackendrick), “Vontade
Indômita” (Vidor), “Matar ou Morrer”
e “A Um Passo da Eternidade” (Zinnemann),
“Os Inocentes” (Clayton), “O Último
Ato” (Pabst), “A Última Sessão
de Cinema” (Bogdanovich), para ficar apenas em alguns
títulos de vários países vindos à
lembrança.
3. Quais os segredos para permanecer
por tanto tempo numa atividade tão polêmica
quanto a crítica?
LG - Em
rigor, não há segredos. É preciso
saber comunicar-se com o grande público, não
apenas expressar-se ou informar, mas fazê-lo entender
a proposta do filme como receptor do tema ou da mensagem.
Antes de tudo, o crítico deve agir como
mediador entre o filme e o espectador, em linguagem simples,
sem didatismos ou abuso de termos técnicos, notadamente
quando faltam à platéia noções
básicas de cinema.
4 - Quais os cuidados que os críticos devem tomar
para não serem confundidos com juízes do
bom gosto?
LG -
De certa forma, a resposta nº 3 atende à
sua indagação. Podemos até não
apreciar o filme porque queríamos outro final ou
porque nele se fala demais ou porque para nós os
atores não estão bem à vontade ou,
ainda, porque as cenas de sexo ou violência são
apelativas ou sadomasoquistas. Como há muita subjetividade
no julgamento de um filme, o crítico não
pode ser confundido como guia do bom gosto, jamais impor
suas preferências pessoais ou de estilo. Apenas
mostrar os motivos pelos quais apreciou ou não
a película.
5 - Além de crítico
de cinema, você é Mestre em literatura de
Língua Inglesa e Portuguesa. Quais as correlações
entre as duas artes: Cinema e Literatura?
LG - As
correlações entre cinema e literatura já
me custaram horas de estudo, de revisão de vários
filmes e de leitura de textos pertinentes para transmitir
aos leitores as diferenças essenciais entre as
duas artes. Ainda o ano passado fiz a apresentação
de um livro (até hoje não vindo a lume)
do qual participaram críticos e cinéfilos
como Firmino Holanda e outros analistas. Naquela oportunidade,
abordei exatamente o polêmico tema. Ocuparia muito
espaço se fosse prolongar esta resposta. Essencialmente,
a literatura é a arte da palavra, o cinema, a das
imagens em movimento. Não quer isso colocar
uma arte como superior à outra. Mas um filme, mesmo
tendo como ponto de partida um livro, não pode
ser completamente reproduzido por palavras.
O professor Ismail
Xavier, Mestre em Cinema, elaborou um ensaio
dos melhores sobre essa questão. Dele tomo a liberdade
de pinçar este trecho esclarecedor: “Nas
últimas décadas, a cobrança de fidelidade
na transposição do livro perdeu terreno
e passou-se a privilegiar a idéia do ‘diálogo’
para pensar a criação das obras, adaptações
ou não. O livro e o filme nele baseado são
vistos como dois extremos de um processo que comporta
alterações de sentido em função
do fator tempo, a par de tudo o mais que, em princípio,
distingue as imagens, as trilhas sonoras e as encenações
da palavra escrita e do silêncio da leitura. A interação
entre as mídias tornou mais difícil recusar
o direito do cineasta à interpretação
livre do romance ou peça de teatro, e admite-se
até que ele pode inverter determinados efeitos,
propor outra forma de entender certas passagens, alterar
a hierarquia dos valores e redefinir o sentido da experiência
dos personagens. Ou seja, a fidelidade ao original deixa
de ser o critério maior de juízo crítico,
valendo mais a apreciação do filme como
nova experiência que deve ter a sua forma e os sentidos
nela implicados julgados em seu próprio direito.
Afinal, livro e filme estão distanciados no tempo,
escritor e cineasta não têm exatamente a
mesma sensibilidade e perspectiva, sendo, portanto, de
esperar que a alteração dialogue não
só com o texto de origem, mas com o seu próprio
contexto”. Em suma, poder-se-ia acrescentar o velho
lema: “ao cineasta o que é do cineasta, ao
escritor o que é do escritor”...
6 - Quando você ainda era
garoto, seu pai o levou para assistir às filmagens
de um episódio de IT’s
All True, de Orson Welles, e o presenteou
com um livro sobre o cineasta americano Grifitt. Qual
a importância destes dois fatos no desenvolvimento
de sua paixão pelo cinema?
LG
-
Respondi em parte, na pergunta 01, à sua indagação.
Quanto à presença de Welles, creio desnecessário
qualificar-lhe a importância e o impacto. Tinha
eu dez anos. Foi o máximo possível de ser
visto por um garoto em formação, mormente
quando o observei deitado num buraco para enquadrar os
personagens em “contre-plongée” (câmara
baixa), ou quando gesticulava e pulava de tal modo os
“atores” olhassem só para ele e não
para a câmara, ou quando perguntei ao meu pai o
porquê daquela pasta branca sobre os lábios
de Welles e ele me respondeu ser um protetor contra o
sol. Quando indaguei sobre uma caixa preta parecida com
o decodificador dos modernos aparelhos de TV, papai foi
até ele e lhe perguntou isso em inglês, naturalmente:
o objeto era um gravador moderno de som direto... Quanto
ao livro do D. W. Griffith, hoje considerado como
o verdadeiro pai do cinema, foi um senhor presente do
velho. Pois foi DWG quem criou a sintaxe cinematográfica,
quem primeiro tirou a câmara fixa no tripé
e a levou para captar outros ângulos ou, ainda,
quem criou o primeiro plano e outros planos aproximados,
etc.
7 - Qual a importância de sua atuação
no Clube de Cinema de Fortaleza para sua formação
de Crítico Cinematográfico?
LG - A resposta
à sua pergunta nº 01 esclarece bem, creio,
minhas ligações com o Darcy e o CCF. Como
fomos colegas de magistério no IBEU, aquela instituição
foi um dos lugares onde exibíamos os filmes com
apresentações feitas principalmente pelo
Darcy e debates dos quais participávamos no final
da projeção. Orgulho-me de tê-lo
ajudado no mister e de jamais ter cogitado de qualquer
cargo na diretoria, nem mesmo a presidência, aliás
oferecida a mim por ele mesmo. Em 1955, comecei
a colaborar com o Darcy nos primeiros cursos de iniciação
ao cinema, com apoio em cinco filmes de 60 min cada sobre
direção cinematográfica, direção
artística, direção fotográfica,
preparação do elenco e edição.
Esses filmes foram conseguidos junto à Embaixada
Americana no Rio de Janeiro pela ação dele
e as películas francesas obtidas graças
ao diretor da UNIFRANCE, Sr. Amy Courvoisier, com quem
Darcy estabelecera laços de amizade.
8 - Por que você define a
nova fase do cinema brasileiro como“renovação
qualitativa do nosso cinema” ao invés de
retomada?
LG - Parece-me
melhor a idéia de “renovação
qualitativa do nosso cinema”, pois o termo
“retomada” pode sugerir, como ponto de partida,
um retorno ao tempo das chanchadas e pornô-chanchadas
e de filmes tecnicamente pobres ou abaixo da crítica.
“Renovar” tem conotação mais
abrangente e positiva. Como poderiam ser “retomados”
filmes de categoria inferior? Importa partir do bom para
atingir grau de excelência.
9 - Se você acredita que todos
os grandes filmes já foram feitos, o que esperar
do cinema na atualidade?
LG - Resta
esperar o nascimento de outros gênios da literatura
(Joyce, Proust, Kafka e o maior deles, Shakespeare) ou
do cinema (Welles, Kubrick, Resnais. Robbe-Grillet, Fassbinder),
capazes de criar algo novo e de nível superior.
Mas isso é apenas mera conjectura, porque as obras
literárias dos citados autores poderiam ser recriadas
para o ecrã, e porque pode haver ainda
muito a descobrir em matéria de imagem-movimento,
impacto e imaginação. Com o predomínio
de computadores e das novas tecnologias fica difícil
saber se haverá um futuro lisonjeiro para a arte
fílmica, tal como a conhecemos e desejamos, ou
se haverá futuro para nosso mundo caótico
e imprevisível...
10 - Em sua crítica do filme
Lolita,
você faz paralelos entre a literatura e o cinema,
e lembra da máxima “uma imagem vale mil palavras”.
Um escritor brasileiro desafiou: Diga isso só com
imagens. Como você responderia para ele?
LG - A máxima
“uma imagem vale mil palavras” parece mais
uma hipérbole ou força de expressão
atribuída ao mestre germânico Joseph von
Sternberg (“O Anjo Azul”) e tornada popular
com o correr do tempo. Poder-se-ia até dizer “vale
200, 700 ou no máximo 3.000 palavras”, pouco
importa. A imagem, por exemplo, de uma mulher de preto
entrando num velório, acompanhada de duas crianças
e sentando-se ao lado da outra viúva próximo
ao caixão, diz muito mais em relação
a quaisquer palavras explicativas. Ao escritor brasileiro
desafiante (“Diga isso com imagens...”), responderia
o seguinte: o cinema jamais quis eliminar as palavras
ou os diálogos veiculados pelos intérpretes,
tampouco o narrador externo ou interno dos filmes. Lembro-me
da “revolução” causada pelo
surgimento do som, o qual veio a enriquecer o cinema e
colocar o filme mudo no seu devido lugar.
Não esqueçamos:
o som nos filmes valorizou o silêncio e
criou os chamados “tempos mortos”, as denominadas
pausas, conforme utilizadas com precisão
e “timing” por Welles em sua transmissão
radiofônica da “Guerra dos Mundos”,
em 1938. Essas pausas, segundo testemunhos da época,
causavam mais medo em relação às
falas seguintes do locutor... O cinema quer apenas
privilegiar as imagens em movimento. Ou seja, quando as
imagens por si sós podem transmitir significados
ou sugerir algo mais, as palavras se tornam supérfluas,
são uma excrescência.
De minha parte, como crítico,
jamais quis a eliminação das palavras
em um filme ou propugnei por isso. Nas películas
do francês Erich Rohmer, por exemplo, os diálogos
se sobrepõem às imagens, fala-se pelos cotovelos
e as suas narrativas, sempre interessantes, só
se desenvolvem assim, na base das palavras. Cansam, entediam.
Já em “O Ladrão Silencioso”
(The Thief), de Russell Rouse (1952), não se diz
uma só palavra em todos os seus 100min, mas todos
os sons-ambiente (buzinas, transmissões radiofônicas,
sirenes de polícia, música vinda dos bares,
todo tipo de barulho) foram mantidos.
Em “O Silêncio
do Mar” (Le Silence de la Mer), de Pierre Brouton
(2004), praticamente não se diz nada. O oficial
alemão, não-nazista, fala bem o francês
e é admirador da cultura francesa, mas na casa
confiscada por ele, como residência oficial do comando
militar, nem a jovem nem o avô respondem ao mero
cumprimento de “boa noite” ou “bom dia”.
Ela não aceita sequer a carona oferecida por ele
quando fica sem bicicleta. Boutron cria uma tensão
exasperante até culminar num final inesperado.
O silêncio entre eles acaba aproximando-os de alguma
forma, mas o romance entre os dois é impossível.
Eles nunca se falaram.
Em “A Casa (Das Haus),
do mestre holandês Louis A. Van Gasteren (1962),
obra-prima em 32 min, também não se diz
nada, nem um diálogo, nenhuma palavra, mas se narra
um drama de forma criativa, desde sua construção
até o início da II Guerra. São 50
anos de existência, num primor de síntese
raras vezes visto no cinema: a única palavra ouvida
surge no final, quando o oficial germânico vem comunicar
o confisco da casa à proprietária e lhe
diz: “Das Haus!” Os três casos aqui
são extremos, mas servem para esclarecer pontos-chave
da questão abordada pela entrevistadora.
Entendo sejam necessários os diálogos
no cinema por quatro razões:
(1) porque identificam os personagens para o espectador;
as primeiras e poucas observações feitas
por um personagem – ou por alguém mais falando
para ele ou sobre ele – lhe dão indícios
sobre o caráter desse personagem;
(2) porque esse relacionamento geralmente revela a situação-problema
na qual se apoia o filme. Os personagens querem algo ou
temem qualquer coisa, ou de algum modo estão em
confronto uns com os outros. Seja qual for a natureza
exata da situação, o espectador sente uma
certa tensão: resultante de conflito e ele deve
ser resolvido antes do término do filme;
(3) porque uma terceira função do diálogo
é conduzir a história: serve como rodas
sobre as quais se move a película. Com maior freqüência
o espectador não terá dificuldades em seguir
o curso das ações, mas, se tiver, pode parar
um momento e perguntar a si mesmo: qual é o propósito
de tudo isso? quem está tentando obter um propósito
definido; qual é esse propósito? qual a
oposição a ser enfrentada por ele, quais
os desejos de outros personagens em conflito com o seu
desejo? Se o espectador estiver disposto a responder ele
mesmo a essas perguntas, estará preparado para
momentos decisivos. Mais importante de tudo é partilhar
as emoções dos personagens à medida
do seu êxito ou de quando enfrentam a derrota;
(4) porque tudo isso traz à tona uma quarta e especial
função dos diálogos – estimular
a platéia no tocante às suas emoções
e idéias. O diálogo de um filme ajuda a
estabelecer-lhe o “tom”, seja ele humorístico
ou sombrio, feliz ou trágico. Como o dramaturgo
e o cineasta não podem dirigir-se diretamente à
platéia, seus personagens devem expressar por ele
quaisquer sentimentos ou idéias pelos quais o realizador
tem interesse em transmitir. Verifique então o
cinéfilo os discursos capazes de estabelecer o
tom da peça e expressar o tema principal.
Para compreender
melhor os quatro usos dos diálogos, o aficionado
de cinema pode ver o filme de novo e verificar como, em
qualquer linha dos diálogos ou frase, ele perceberá
o motivo pelo qual eles estão no “script”.
E fique certo o cinéfilo do seguinte:
no espaço limitado de um filme ou peça,
todo discurso precisa servir a um ou mais desses quatro
propósitos.
O caso “Lolita”
é mais complicado. Permita-me alguns esclarecimentos.
De início, o autor do romance, Vladimir Nobokov,
redigiu o primeiro roteiro – material para quase
4 horas de projeção. Inaceitável.
Kubrick e o produtor James Harris se reuniram com Nabokov
e depois de discussões quase acaloradas conseguiram
convencê-lo da necessidade de cortar as gorduras
do roteiro. Kubrick mostrou-lhe como a narrativa cinematográfica
difere da narrativa literária, como o olho e olhar
do cineasta se distinguem da visão do escritor.
O autor russo acabou levando seu roteiro para casa, devolvendo-o
depois com 180min de projeção... Mas ainda
havia cenas dispensáveis, motivo pelo qual, para
levar à frente o conturbado projeto, Kubrick e
Harris fingiram concordar com a versão de Nabokov,
e o cineasta decidiu fazer os necessários reajustes
e optar pelo retrospecto inicial.
Assim, o filme começou
com o Prof. Humbert invadindo a casa de Clair Quilty,
ex-amante de Lolita, para matá-lo a tiros. Toda
a seqüência inicial tem o toque do grande mestre
e toda sua planificação e os movimentos
de câmara decorreram da concepção
visual de Kubrick. “Lolita” ficou com 152min
e os créditos do roteiro saíram com o nome
de Nabokov para evitar novos problemas, além daqueles
havidos com os censores vesgos. A idade da ninfeta foi
reduzida para 14 anos e chegou-se ao cúmulo de
proibir Sue Lyon, a intérprete de “Lolita”,
de assistir à pré-estréia do filme
em Nova Iorque ao lado do casal Kubrick. Quanta incoerência
de censores na contra-mão da História!
Não foi possível saber a reação
de Nabokov quando assistiu à “Lolita”,
seu nome como roteirista, e viu cenas não escritas
ou pensadas por ele. Pelo sim pelo não, só
lhe restou elogiar o filme e faturar com seu percentual
nas bilheterias e vender milhares de livros... Depois
de todas as dificuldades havidas com o projeto, SK resolveu
arrumar as malas e ir residir na Inglaterra, nos arredores
de Londres, onde os censores são menos intolerantes
e os britânicos acolheram de braços abertos
o renomado cineasta nova-iorquino. E ele lá ficou
até ser vítima de ataque cardíaco
aos 70 anos em março de 1999...
11 - Por que bons livros muitas vezes dão maus
filmes, e maus livros às vezes resultam em filmes
de primeira linha?
LG
- A
pergunta é complexa e remete V. à minha
breve resposta sobre literatura e cinema e ao trecho pertinente
do ensaio do Prof. Xavier. Ousaria dizer apenas o seguinte:
um grande cineasta pode transformar uma subliteratura
em filme de primeira linha. Vem-me logo à
mente o caso de “A Morte num Beijo” (Kiss
Me Deadly), de Robert Aldrich (1955), baseado no livro
de Mickey Spillane. Há nesse filme uma integração
perfeita entre o diretor e o roteirista A. I. Bezzerides
(para Villegas Lopez o verdadeiro autor de um filme é
essa simbiose) e dela resultou um filme B da maior envergadura
cinematográfica. O mau filme de boa literatura
pode decorrer de incompetência ou de incompreensão
da proposta ou de dificuldades intrínsecas de adaptação.
O bom filme de literatura “pulp” é
exatamente o contrário: houve uma recriação
fílmica capaz de superar as deficiências
do texto original. Quanto a quem diz preferir o livro
e não o filme, ou então “achei melhor
o filme e não o livro”, caímos no
subjetivo. Os dois veículos têm linguagens
diferentes, como já se disse tantas vezes.
12 - Numa de suas críticas, você fala porque
não admirou o filme Dogville.Não seria porque
este filme tentou incorporar linguagens de várias
artes dentro do cinema? Isto não seria incoerente
com a linguagem cinematográfica?
LG
-
Lars von Trier é um farsante. Pode até
ter algumas idéias válidas na cabeça.
Tenho dúvidas. Para mim, ele não
diz nada de novo. Seu ridículo Dogma,
como procurei demonstrar em meu primeiro livro, nem ele
o seguiu. Formalmente, “Dogville” é
teatro filmado intercalado por letreiros explicativos
típicos do cinema mudo, além de desnecessariamente
longo e maçante. Falta-lhe poder de síntese
visual e seu intento parece ser o de vomitar seu ódio
gratuito contra as mazelas dos EUA. Todos os países,
sem exceção, têm motivos de sobra
para envergonhar-se de seus erros, principalmente as ditaduras
tipo Hitler, Stalin, Mão-Tse Tung, etc., mas o
próprio cinema americano é quem melhor denuncia
e condena os males do “American way of life”,
não só o capitalismo dito selvagem, mas
outros arremedos de civilização como a matança
de índios, o racismo, a intervenção
militar (ou por outro meios) em países onde interesses
estratégicos americanos estão ameaçados
e o apoio a ditaduras miseráveis como a de Pinochet,
etc. “Dançando no Escuro”
é um subdrama melodramático, misto de fantasia
e realismo ou desavergonhada manipulação
com a cantora Bjork, a qual se lança no papel de
mãe capaz de auto-sacrificar-se. O julgamento final
tangencia o ridículo. Pouco importa tenha esse
filme medíocre ganho o prêmio maior em Cannes.
Todos sabemos como funcionam as coisas nos bastidores
de algumas dessas premiações mundo afora.
Quanto a “Manderlay”, está ao nível
de “Dogville” e não preciso acrescentar
mais nada. Para mim, até agora, sempre um mau cinema
esse de von Trier.
13 - Quais os projetos futuros? Novos livros?
LG
- Tenho projetos futuros, apesar de já
entrado na sétima década. Estou preparando
o livro nº 2 com críticas e já pondo
no papel idéias para o nº 3, quando pretendo
abordar temas típicos do cinema, como
a questão da narrativa cinematográfica,
a gênese do filme de horror ou de guerra, a visão
histórica dos cinemas alemão e francês,
a análise sobre tudo quanto ocorre depois de terminada
a filmagem, o cinema de Alain Robbe-Grillet, etc.
*
Entrevista concedida pelo Mestre L.G. DE MIRANDA LEÃO
à jornalista Kércia Renata, publicada na
revista bimestral Conterrâneos número 6 (mai/jun
2007), cujo editor é o jornalista Maurício
Lima, responsável pelo Ambiente de Comunicação
Social do Banco do Nordeste do Brasil.
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OSCAR
2007 – 78 ou 80 Anos ?
Como
não desconhecem os cinéfilos, o Oscar foi
instituído em 1929, dois anos após a criação
da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas
(Academy of Motion Picture Arts & Sciences), para,
entre outros destaques, premiar as melhores produções
a partir dos anos 1927/28. Assim tanto podemos estar comemorando
78 como 80 anos da cobiçada estatueta. Espécie
de ´Abre-te sésamo´ para atores, técnicos,
produtores e cineastas, o Oscar e a solenidade anual também
são ricos de aspectos político-sociais,
econômico-financeiros e propagandísticos.
Não adianta questionar a cerimônia e criticar
as premiações. Aqui e ali os votantes da
Academia acertam. Afinal, trata-se de uma festa americana
acompanhada anualmente por milhões de telespectadores.
Todos a vêem e dela participam (seja-nos permitida
a hipérbole), torcem, fazem suas escolhas, apontam
favoritos. O evento Oscar é uma festa do Cinema
para o cinema.
Desenhada
por Cedric Gibbons, diretor artístico da MGM, e executada
pelo escultor George Stanley, a figura de 13 ½ polegadas
de altura é feita de metal e chapeada de ouro e traz
um homem segurando uma espada e apoiado num carretel de
filme. Até 1931 não se havia dado um nome
à estatueta, quando, de acordo com lenda hollywoodiana,
Margaret Herick, secretária posteriormente guindada
à diretoria executiva da Academia, olhou para a figura
e exclamou: ´Poxa, ele lembra meu tio Oscar Pierce´.
Um colunista de fofocas sociais, segundo lemos, ouviu a
observação, imprimiu-a em seu jornal e logo
o dissílabo colou. Com o tempo veio a substituir
´Academy Award´ na usança popular.
´Crash´,
o azarão de 2005
Os
candidatos de 2005 enfrentaram um azarão quando da
distribuição dos prêmios o ano passado:
´Crash´ não merecia a estatueta e...
ganhou. Conforme alguns analistas, por quatro razões:
´Boa Noite, Boa Sorte´, de George Clooney, criticava
o sistema e a mancha indelével do macarthysmo, tabus
hollywoodianos, e defendia a liberdade de imprensa como
apanágio da democracia; ´Syriana´, de
Stephen Gaghan, drama intrigante, complexo, com múltiplos
´plots´, denunciava interesses petrolíferos
de americanos e da corrupção dos governos
no Oriente Médio...; ´Capote´, de Bennett
Miller, prestigiaria um escritor gay e daria força
e voz ao sindicato dos homoeróticos...; pelas mesmas
razões, ´O Segredo de Brokeback Mountain´,
de Ang Lee, filme rechaçado em Estados conservadores
e alvo da censura caolha. Assim, ´Crash´, de
Paul Haggis, emergiu de sua aparência de ousado e
criativo e levou o Oscar. Coisas de Hollywood...
Qual
a importância do Oscar ?
Salta
aos olhos: recompensa mediata e imediata para os vencedores
ou indicados pelos seus efeitos propagandísticos
em cascata; popularidade e projeção com efeitos
positivos sobre as carreiras dos premiados; reconhecimento
dos colegas e dimensão internacional com oferta para
trabalharem vantajosamente com produtores europeus. Conquistado
o Oscar, as portas parecem abrir-se como a senha de Ali-Babá
para quem concorreu e venceu. Nem sempre, é claro.
Efeitos
negativos
Muitos
atores, produtores e cineastas têm-se manifestado
sobre isso. Para eles, os vencedores do Oscar não
podem cometer erros ou ser insucessos de bilheterias ou
apresentar-se de forma medíocre em filmes subseqüentes.
Muitos se desgastaram. Luise Rainer, vencedora de dois Oscar
consecutivos (´The Great Ziegfeld´ [1936]
e ´The Good Earth´ [1937]),
viu evaporar-se sua carreira em menos de três anos.
Broderick Crawford, vencedor do Oscar pela sua atuação
magistral em ´A Grande Ilusão´ (All the
King´s Men), de Robert Rossen (1949) e depois em ´A
Trapaça´ (Il Bidone), de Fellini (1955), passou
muitos anos na Itália e na Espanha atuando em filmes
de segunda. Cada vez mais amargo e desiludido, Brod terminou
como bebarrão encrenqueiro vítima do alcoolismo.
Susan Hayward, Oscar por ´Quero Viver´ (I Want
to Live), de Robert Wise (1958), no papel de Barbara Graham
(assassina condenada à cadeira elétrica, mas
sempre se dizendo inocente), atuou depois em alguns saca-lágrimas
e tentou o suicídio em 1955, após lutar pela
custódia dos dois filhos gêmeos. Abandonou
o cinema (ou foi por ele abandonada) e faleceu em 1975,
aos 56 anos, de um tumor cerebral. Os três casos são
pequena amostra de como o Oscar trata mal muitos dos seus
vencedores. Tudo passa, tudo cansa, tudo quebra... É
sempre bom lembrar o axioma atribuído a Rousseau.
Os
injustiçados ou... esquecidos
 |
Filmes
excepcionais ou muito bons têm sido preteridos em
favor de películas de nível inferior. Às
vezes, como dissemos, a Academia acerta, mas no conjunto
das suas escolhas de 1927-28 até hoje, por tudo quanto
temos lido e pesquisado, há mais erros em relação
aos acertos. Dois dos maiores cineastas do século
XX, Orson Welles e Stanley Kubrick, foram injustiçados,
seja pela sua ousadia temática, pelo seu posicionamento
político, pelo teor de entrevistas polêmicas,
por sua cosmovisão, independência seja por
não estenderem tapetes para produtores e chefes de
estúdios, pela inveja causada em razão da
sua genialidade ou, ainda, por não fazerem parte
da confraria hollywoodiana (por isso talvez Scorsese, amante
de Nova Iorque, não tenha ganho um Oscar de Melhor
Filme até hoje). Senão vejamos: ´Cidadão
Kane´, de Orson Welles (1941), foi indicado para Melhor
Filme, Melhor Diretor, Melhor Fotografia, Melhor Música,
Melhor Ator (Welles), Melhor Direção Artística,
Melhor Edição... O Oscar só foi para
o ´script´ de Welles e Herman Mankiewcz. O cineasta
não compareceu à cerimônia. Ocorreu
o mesmo com ´Soberba´ (The Magnificent Ambersons)
(1942). Apesar de mutilado em 58min, ´Soberba´
recebeu indicações para Melhor Filme, Melhor
Fotografia e Melhor Atriz Coadjuvante. Não recebeu
nenhuma estatueta. A superexigente crítica Pauline
Kael escreveu nos anos 70: ´Uma lástima ´Soberba´
não ter feito jus ao Oscar. Mesmo na sua forma truncada,
o filme de Welles é surpreendente e memorável´.
Orson
Wells diretor de Cidadão Kane, foi um dos maiores
injustiçados do Oscar, ganhando apenas o de melhor
roteiro.
Disputa
Acirrada
 |
Martin
Scorsese e DiCaprio durante filmagens de “Os Infiltrados”:
provavelmente o filme mais próximo do Oscar na categoria
de melhor diretor. Quanto às nossas expectativas
para o Oscar, não diferem muito das de quem acompanha
sempre a grande festa do cinema. Assim, dos cinco candidatos
a Melhor Filme - ´Os Infiltrados´, de Martin
Scorsese, ´Cartas de Iwo Jima´, de Clint Eastwood,
´Babel´, de Alejandro Iñarritu, ´A
Rainha´, de Stephen Frears, e ´Pequena Miss
Sunshine´, de Jonathan Dayton - acreditamos na vitória
de Clint Eastwood com seu épico filmado do ponto-de-vista
dos defensores e falado em japonês, com interpretação
meritória de Ken Watanabe como o comandante da defesa
daquela ilha da guerra do Pacífico. Scorsese é
novaiorquino e produtor independente. Eastwood nasceu em
San Francisco. Além dos seus méritos próprios,
desenvolvidos a partir de anos de experiência com
Sergio Leone e Don Siegel, ex-prefeito vitorioso de uma
cidade californiana, já venceu nessa categoria com
´Entre Meninos e Lobos´. Menção
Honrosa, se houvesse, deveria ser dada para o cineasta inglês
Paul Greengrass por seu ´Vôo United 93´.
Quanto
ao Melhor Diretor, cremos na vitória de Scorsese:
não há trabalho de direção cinematográfica
em 2006 igual a ´Os Infiltrados´. O filme, um
portento do começo ao fim, termina deixando-nos com
um olhar desalentado para as instituições
dos EUA. Ninguém é confiável, os conflitos
sociorraciais não têm solução
num país de imigrantes de todo tipo. O poder das
máfias e da corrupção cresce cada vez
mais e Scorsese parece sugerir um país em desagregação,
consumido por uma guerra sem fim contra o terrorismo, bilhões
de dólares gastos mensalmente para manter tropas
de ocupação no Iraque. Enfim, um beco sem
saída, pior em relação à estúpida
aventura do Vietnã. Calha bem a imagem de um rato
em movimento por trás do vidro de uma janela e captado
pela câmara de Scorsese no sobreenquadramento do final,
vendo-se ao fundo a cúpula dourada do poder público.
No
tocante ao melhor Ator, premiaríamos Leonardo Di
Caprio em ´Os Infiltrados´. Sua representação
de uma representação confirma o talento do
jovem intérprete demonstrado desde ´Aprendiz
de Sonhador´ (1994), ´Titanic´ (1997),
´Celebridades´ (1998), ´O Aviador´
(2004) e ´Diamantes de Sangue´ (2006). Quanto
à Melhor Atriz, votaríamos na premiada Kate
Winslet. Intérprete sensível, dá-nos
aula de como personificar uma mulher desajustada em seu
casamento, num dos melhores filmes do ano, ´Pecados
Íntimos´ (Little Children), fruto da competência
de Todd Field, também diretor de ´Entre 4 Paredes´,
concorrente ao Oscar em 2001 e ganhador do Prêmio
Franklin Schaffner do ´American Film Institute´.
Um cineasta para ser acompanhado de perto, daqui em diante.
Quanto
aos coadjuvantes masculinos, ficaríamos com Jackie
Earle Haley, o pedófilo exibicionista de ´Pecados
Íntimos´, muito embora Alan Arkin (recorde-se
´Ardil 22´, entre outros) tenha maior lastro
e também merecesse esse prêmio. Das atrizes
coadjuvantes escolheríamos Adriana Barraza, de ´Babel´.
A inclusão da japonesa Rinko Kikuchi, também
de ´Babel´, é um lamentável equívoco.
KUBRICK INJUSTIÇADO
´2001,
uma Odisséia no Espaço´, de Stanley
Kubrick (1968), foi indicado para Melhor Direção
e Melhor ´Script´. Só ganhou o Oscar
de efeitos especiais. O épico ´Spartacus´
(1960) recebeu apenas o Oscar de Melhor Fotografia, Melhor
Ator Coadjuvante e Melhor Direção Artística.
´Laranja Mecânica (1971) foi indicado para Melhor
Filme, Melhor Direção e Melhor Roteiro. Não
ganhou Oscar algum... ´Dr. Fantástico´
(Dr. Strangelove) (1963), indicações para
Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro, Melhor Ator.
Nenhum Oscar... ´Nascido para Matar´ (Full Metal
Jacket) (1987), indicações para Melhor Filme,
Melhor Roteiro, Melhor Diretor. Nenhum Oscar... Para o BAFTA
inglês, ´Nascido para Matar´ foi o melhor
filme do ano e um dos melhores de todos os tempos contra
a guerra e a estupidez humana.
Alfred
Hitchcock, mestre do suspense, cineasta de méritos,
embora no conjunto de sua obra se possam apontar deslizes
e filmes menores, assinou películas de primeira linha
como ´Correspondente Estrangeiro´, ´Pacto
Sinistro´, ´O Homem Errado´, ´A
Sombra de uma Dúvida´, ´O Sabotador´
e ´Um Corpo que Cai´. ´Rebecca´
(mesmo com alteração do final) foi considerado
o melhor filme de 1940, mas Hitch não ganhou o Oscar
pela direção... Em compensação,
todos os referidos injustiçados (ou esquecidos...)
receberam prêmios das associações de
Críticos de Nova Iorque, de Londres, e de outras
capitais da Europa, afora críticas altamente favoráveis
com as quais foram saudados, notadamente Welles e Kubrick,
como dois grandes luminares da arte fílmica.
Kubrick
dirigindo o “Dr. Fantástico”, nos anos
60: filme indicado para as categorias de melhor filme, diretor,
roteiro e ator, não levou nenhuma estatueta para
casa.
A
difícil vida a dois…
* LG de Miranda Leão
Com
O Passado, o cineasta argentino Hector
Babenco brinda-nos com aula de bom cinema e também
de competência na adaptação para a tela
do romance hormônimo de Alan Pauls, há pouco
lançado no País. Trata-se de co-produção
Argentina - Brasil com suporte da HB Filmes, WB, K&S,
Santander, Ancine e Petrobras. Filme para ver e refletir
Babenco
lida agora com tema polêmico roteirizado por ele mesmo:
aquele segundo o qual o casamento monogâmico inibe
a liberdade e a sensualidade da vida a dois. Ou seja, a
união de duas pessoas de sexo diferente para a posse
recíproca de suas faculdades sexuais durante toda
a vida é uma impossibilidade. Para Freud, colocar
homem e mulher, duas matrizes neuróticas, sob o mesmo
teto, cada qual com formação e visão
de mundo diferentes, enfrentando o desgaste do dia-a-dia,
é destiná-los a uma falência na adaptação,
a um fracasso na sua realização como indivíduos.
Além disso, uma leitura dos diálogos e dos
eventos ocorrentes e a das imagens–significantes demonstram
como não conseguimos desligar-nos do passado, como
somos o resultado direto de tudo quanto fomos e assimilamos
ao longo dos anos. Por isso, pouquíssimos casais
resistem ao poder avassalador do tempo assassino, quando
não vivem de aparências para alimentar as colunas
sociais…
Sinopse
O
enredo se concentra nos encontros e desencontros afetivos
do jovem tradutor Rimini (Gael Garcia Bernal) com três
mulheres de sua vida: Sofia (Ana Couceyro), namorada dos
tempos de colégio e sua mulher durante doze anos;
Nancy (Mimi Ardu), modelo sensual, e Carmem (Ana Celentano),
colega tradutora e a única a gerar-lhe um filho.
O início é com minisseqüência inteligente:
amigos e conhecidos se reúnem no apartamento de velha
terapeuta para comemorar os muitos anos de convivência
de Sofia/Rimini, aparentemente bem casados mas desgastados
pelo tédio conjugal. O toque irônico surge
quando, ao invés de anunciarem uma gravidez há
muito esperada, comunicam à dona da festa sua separação.
Sofia parece enfrentar bem o fim do matrimônio, mas
aos poucos se vai revelando sexualmente carente, possessiva
e odienta. Nancy tem o mais exacerbado sentimento de posse;
Carmem, também ousada na alcova, aceita com certa
maturidade os desvios de Rimini. A soma dos personagens
principais serve como metonímia visual para Babenco:
os quatro representam um universo de pessoas casadas e desajustadas,
as quais vivem um jogo de falsas aparências.
Direção
filmica
Babenco
domina o ritmo decorrente das imagens-movimento, revela
bom entrosamento com o montador Gustavo Giani e alimenta
o interesse do espectador na confluência dos eventos
em marcha inexorável rumo ao final. Dirige com segurança
os atores, todos a cavaleiro, até mesmo o recém-falecido
Paulo Autran numa ponta, e faz da música de Ivan
Wyszogrod um aliado de primeira, máxime na melodia
inspirada para acompanhar os créditos. Louve-se,
no início, a exibição de curtas-metragens
da vida de Sofia/Rimini, ambos felizes, noutros tempos,
e eles mesmo assistem às cenas entre surpresos e
inquietos. Há diálogos expressivos como quando
Sofia diz a Rimini: “As pessoas não se separam,
elas se abandonam, como v. me abandonou”. Acertou
na escolha do cinecolor do laboratório argentino,
uma quase-fusão do p&b com cores esmaecidas do
seu patrício Ricardo Della Rosa. Babenco
conhece e sabe fazer cinema. Só lhe falta
às vezes aquele poder de síntese visual tão
típico de cineastas como Truffaut, capazes de distinguir
com acerto o essencial do não-essencial e eliminar
o supérfluo. Dez minutos a menos elevariam a qualidade
da realização, assim como tornariam menos
explícitas as fortes cenas de sexo e o palavreado
chulo, substituindo-os por algo mais sutil e sugestivo.
Sabemos estar o mundo em plena revolução sexual
a partir da qual o cinema poderá vir a mostrar tudo
(a cocaína, aliás, já corre solta),
mas um toque de classe é sempre preferível.
Assim pensavam Truffaut, Melville, Mackendrick, Losey, e
pensam Kluge, Singer, Bogdanovich, entre outros. Também
poderiam ter sido reduzidas as cenas da cesariana e a seqüência
da academia de ginástica, bem assim a cópula
com a aluna quarentona no automóvel - recurso apelativo,
desnecessário.
Sobre
Hector Babenco
Buenosairense
de 61 anos, filho de imigrantes judeus vindo da Polônia
e da Rússia, Babenco viajou extensivamente pela Europa
antes de voltar-se para o cinema. Foi pintor, vendedor,
escritor freelance e extra em spaghetti westerns de Sergio
Corbucci e Mario Camus. Antes de adotar o Brasil como segunda
pátria, HB começou sua carreira com documentários
tipo “O Fabuloso Fitipaldi” (1973) e estreou
no longa com “O Rei da Noite” (1975), seguindo-se-lhe
“Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia”
(1977). Chamou atenção com seu “Pixote”
(1981), quando partilhou o Grand Prix no Festival de Biarritz
e ganhou o Leopardo de Prata em Locarno. Foi indicado ao
Oscar de Melhor Diretor pelo insólito “O Beijo
da Mulher Aranha” (1985), após o qual foi convidado
para filmar “Ironweed” nos EUA, com Meryl Streep
e Jack Nicholson. Seus filmes mais recentes incluem “Brincando
nos Campos do Senhor” (1992), o quase autobiográfico
“Coração Iluminado” (1998) e “Carandiru”
(2002).
Dores
do Amor a Três...
* LG de Miranda Leão
Com Primo Basílio,
Daniel Filho marca um tento em sua carreira de cineasta,
já despido das técnicas de televisão
e agora com olhos voltados para fazer cinema, mesmo se ainda
não chegou ao ótimo.
Primo Basílio
nos parece seu melhor filme, tanto pelos roteiristas e técnicos
escolhidos como pelo elenco. Em apenas 100min, DF não
poderia reeditar a abrangência e as virtudes de sua
homônima minissérie, de 88. Nesta versão,
buscou expressar-se e comunicar-se com o público
adulto, sem fazer concessões mas dotando-a de nível
qualitativo capaz de obter retornos pelos investimentos
feitos na produção.
Roteiro
Nada de novo no triângulo
amoroso (marido, mulher e seu amante), tanto faz recriado
por Eça de Queiroz no século XIX ou por Shak
no XVII ou em nosso tempo por Sidney Sheldon, Robbe-Grillet
ou W. Somerset Maugham. O triângulo continuará
existindo na literatura, no teatro, no cinema e na vida,
enquanto homens e mulheres buscarem romper a monogamia em
busca do novo (?) ou porque estejam sexualmente insatisfeitos
ou por qualquer outro motivo. No caso desta versão,
temos a paixão de Luíza pelo primo recém-chegado
de Paris, paixão de tempos mais jovens e menos compromissados.
O marido está ausente, atuante na Brasília
de JK, quando muitos achavam tudo aquilo loucura por não
perceberem o alcance da meta de interiorização
do desenvolvimento buscada pelo grande presidente.
Não vemos mal nenhum
em situar o drama de Luíza naqueles tempos de crença
no Brasil. "Eu sou eu e minhas circunstâncias",
doutrinava Ortega & Gasset, por isso não cabe
ao analista condenar o comportamento de Luíza. O
conflito surge quando a empregada faz chantagem com os bilhetes
e cartões da patroa para Basílio. A carta
remetida por ele e lida pelo marido conduzirá ao
desfecho trágico. No filme, isso não se faz
como no original. A inclusão do bárbaro assassinato
de Juliana, espécie de queima de arquivo, não
nos pareceu o melhor caminho para resolvê-lo. A exclusão
de Conselheiro Acácio (interpretado então
pelo grande Sérgio Viotti) e do Sebastião
de Pedro Paulo Rangel (outro senhor ator), personagens da
minissperie, pode ser atribuída à necessidade
de síntese, pois seriam personagens mais essenciais
no texto literário. Incluí-los por uns dez
minutos não prolongaria cansativamente a versão
fílmica.
Filme x Livro
Voltamos
sem querer à cediça questão da transposição
de obra literária para o ecrã. A propósito,
o crítico e professor Ismail Xavier escreveu magistral
ensaio no qual afirma: "A interação entre
as mídias tem tornado mais difícil recusar
o direito do cineasta à interpretação
do romance ou peça teatral, admitindo-se até
que ele pode inverter determinados efeitos, propor outra
forma de entender certas percepções, alterar
a hierarquia de valores e redefinir o sentido da experiência
dos personagens". Noutras palavras, a fidelidade ao
original, ensina Ismail, deixa de ser o critério
maior de juízo crítico, valendo mais a apreciação
do filme como nova experiência, a qual deve ter a
sua forma, e os sentidos nela implícitos julgados
em seu próprio direito. "Afinal, livro e filme
estão distanciados no tempo; escritor e cineasta
não têm exatamente a mesma sensibilidade e
perspectiva, sendo portanto de esperar que a adaptação
dialogue não só com o texto de origem mas
com o seu próprio contexto". Palavras sábias
do mestre Ismail Xavier.
Direção fílmica
Daniel Filho parece ter eliminado
o ranço da linguagem televisiva, como as cenas meio
teatrais e o abuso dos primeiros planos para preencher o
espaço reduzido da telinha. Não há
descompasso no ritmo e os cortes em excesso foram substituídos
por liames precisos entre cenas ou pelo falso raccord: uma
continuidade mínima da narrativa sem impedir a compreensão
exata do drama em andamento. Os cortes de um plano a outro,
como se sabe, ocorrem basicamente quando se deseja mostrar
uma ação paralela, uma ruptura do espaço,
um recuo ou avanço no tempo. Aqui os cortes atendem
apenas às necessidades da história e à
síntese procurada e obtida. O uso tantas vezes aproveitado
da voz em off, por exemplo, quando Basílio caminha
sem falar e o ouvimos, tem a ver com a aceleração
necessária às imagens-tempo ou da inquietação,
das quais nos fala Truffaut, quando as cenas parecem correr
no terço final. O fecho com a residência do
casal já com novos inquilinos, anos depois, torna-se
inesquecível com a escolha de Apelo de
Baden-Vinícius. Belo tema melódico marca o
início de certas cenas, assim também o Clair
de Lune de Debussy, enquanto Teus Olhos, de Garoto, intensifica
o conúbio entre os dois amantes, lembrando-lhes os
versos do compositor. Nada de apelativo no brevíssimo
nu frontal de Luíza nem se poderia esperar outro
comportamento íntimo no "enfim sós";
não mostrá-lo seria omissão sem justificativa.
Fotografia e elenco
A cinegrafia em tons esmaecidos,
às vezes apreendendo a semi-obscuridade dos interiores,
traz a assinatura do piauiense Nonato Estrela, competente
fotógrafo de tantos filmes, como Achados e Perdidos
(José Joffily). No elenco, a bela Débora
Falabella se destaca dos demais com muita classe,
tal como já revelara em sua carreira televisiva e
em Dois Perdidos numa Noite Suja, quando
atua ora como prostituta ora como boiete. Um dos melhores
momentos da atriz é quando rasga e queima desesperada
os bilhetes comprometedores, enquanto o reflexo das pequenas
chamas ajuda a compor um quadro expressivo do seu drama
interior e a transformação da sua fácies
quando tranqüila se deita então com o marido.
Débora mostra também segurança e espontaneidade
nas cenas de sexo, na fuga de casa, na recusa em dormir
com o sórdido Castro e na sua máscara agônica.
Reynaldo Gianecchini tem altos e baixos
(soa falso quando ameaça Juliana por causa de punhos
e colarinhos mal passados), assim como Glória
Pires (aquém da interpretação
magistral de Marília Pera na minissérie),
às vezes exagerada quando ameaça a patroa.
Fábio Assunção está
bem como primo canalha e Guilherme Fontes parece solto no
drama, como no almoço com Luíza. Simone
Spoladore como Leonor Maçaneta destaca-se
por seu potencial de sensualidade. Anselmo Vasconcellos
faz uma ponta mas sua máscara apavorante é
sugestiva da ação de torturadores das ditaduras
de toda espécie. Da trilha musical de Guto Graça
Mello já falamos. Apreciamo-la bastante.
Enfim,
recomendamos Primo Basílio pela convicção
de estarmos aprimorando cada vez mais a qualidade de nossos
filmes.
A
ver, decididamente.
Em
Busca de Dias Melhores
*
LG de Miranda Leão
Segundo longa de Jorge Durán
(1942- ), Proibido Proibir marca o retorno
auspicioso do cineasta chileno à direção,
após vinte anos de intervalo, desta feita para enfocar
o microcosmo de três jovens universitários
e as vicissitudes de quem vive na urbe em busca de dias
melhores
Rodado
na Zona Norte e nos subúrbios do Rio de Janeiro,
bem como em dependências da UFRJ, É Proibido
Proibir não tem nada a ver com os dizeres nas paredes
de Paris por ocasião dos acontecimentos de maio de
1968. De qualquer forma, a frase é sugestiva de como
os caminhos dos jovens devem ficar por conta de suas próprias
opções. As proibições não
levam a nada, os frutos proibidos são os mais cobiçados.
Co-produção Brasil-Chile levada a efeito via
programa Ibermédia, Proibido Proibir
teve suporte financeiro dos Estúdios El Desierto
Filmes Ltda / Ceneca Produciones e da Petrobrás e
da Ancine. Fez jus a vários prêmios de Melhor
Filme e Melhor Diretor em festivais internacionais (Biarritz,
Havana, Viña del Mar, Valdivia) e sua finalização
se fez na Espanha por ter ganho o Prêmio Signis 2005
e o Prêmio Cine em Construcción. Tudo isso
é muito positivo para o reconhecimento além-mar
da renovação do cinema brasileiro.
"Script"
O
argumento original é do próprio Jorge Durán
e o roteiro contou com a colaboração de Dani
Patarra, Gustavo Bohrer e Eduardo Durán. Três
jovens, Paulo (Caio Blat), León (Alexandre Rodrigues)
e sua namorada Letícia (Maria Flor) dividem modesto
apartamento num subúrbio. Para chegar lá é
preciso subir por uma escada de mão. Paulo estuda
medicina, Alexandre, ciências sociais e Letícia,
arquitetura, e os três tentam ajudar Rosalina (Edyr
Duqui), doente terminal, a rever os filhos há tempos
ausentes. Um deles, Cacauzinho (Adriano de Jesus), testemunha
de crimes da polícia, tenta fugir após tiroteio
do qual sai ferido León, e Paulo decide fazer a cirurgia
para extrair-lhe a bala do tórax, mesmo sem assistência
de um colega da área. Enquanto isso, a aproximação
entre Paulo e Letícia cria um impasse e Duran encontra
a melhor solução para resolvê-lo.
Realização
Cineasta
e professor de cinema, larga experiência no metiê,
Durán conhece bem as lições dos mestres:
o bom filme oscila entre o contínuo e o descontínuo,
entre a continuidade e o intervalo. Por isso mesmo sabe
como conduzir os ritmos interno e externo, enquanto ganham
força suas imagens-significantes: o personagem Paulo,
por exemplo, sempre barbudo, desalinhado, enquanto Leon
é o jovem negro organizado, bem arrumado. Recorde-se
quando Paulo tira da sacola do amigo os livros de sociologia
e não lhes dá importância diante dos
CDs ou quando escreve Che num abaixo-assinado... Letícia
não esquece seu guarda-roupa e se revela um signo
da frágil estabilidade entre os dois homens, todos
eles saudáveis. Aqui e ali ingerem drogas estimulantes
ou fumam algum baseado, mas desinteressados em política,
talvez por não mais acreditarem na resolução
dos problemas mais prementes do País, como a corrupção
e a impunidade em todos os níveis, a guerrilha urbana,
as balas perdidas, os seqüestros, a violência
policial.
Durán
evita mostrar intimidades apelativas e executa bem a seqüência
da armação do tiroteio em plena rua, quando
a polícia resolve eliminar Cacauzinho, testemunha
incômoda de alguma chacina da qual é pródiga
a outrora Cidade Maravilhosa. Essas mazelas, sugestivas
de grave patologia social, já emigram para outras
regiões, enquanto novos escândalos jogam pás
de cal nos políticos inoperantes, cujas regalias
absurdas disputam lugar com a incompetência e a sempre
propalada reforma política... Durán também
contorna, sempre quando possível, o uso do campo
e contracampo nos diálogos, duma feita quando os
personagens conversam no automóvel, doutra quando
dois deles caminham de costas, enquanto ouvimos suas falas.
Fotografia,
elenco, música
Luis
Abramo cuida bem da fotografia e ajuda bastante na criação
do clima buscado por Durán. Está bem todo
o pequeno ´cast´até mesmo Adriano de
Jesus em pequena ponta, quando, aos prantos de ódio
e medo, grita alto e bom som: ´Se for preso vão-me
estuprar na prisão; se for à justiça
testemunhar a polícia me mata...´ Caio Blat
(o Frei Tito de Batismo de Sangue, de Helvécio Rattón)
deixa transparecer sua avidez óptica por Maria Flor,
enquanto a sensualidade desta sugere sutilmente como a proximidade
do outro acabou erodindo o seu romance com León.
A cena de suas reticências quando não diz nada
para o companheiro, e ao mesmo tempo diz tudo, foi um feliz
achado de Durán. A música de Mauro Senise
e outros fica quase em segundo plano no contexto. Quanto
ao mais, ainda não conseguimos resolver em definitivo,
salvo raríssimas exceções, a questão
da gravação de som direto, motivo pelo qual
aqui e ali perdemos algumas palavras dos diálogos,
notadamente quando os jovens falam rápido com seu
linguajar típico.
Quem
é Jorge Durán
Jorge
Durán nasceu no Chile há 65 anos, mas reside
no Brasil desde o golpe militar do abominável Pinochet
(1973), do qual conseguiu escapar graças a um acaso
favorável narrado por ele em entrevista recente.
Seu primeiro longa foi ´A Cor do seu Destino´
(1986), premiado no país e no estrangeiro. Durán
foi roteirista de vários filmes, como ´O Passageiro
da Agonia´ (1977), ´Pixote´ (1981), ´O
Beijo da Mulher Aranha´ (1984), todos de Hector Babenco,
e também de ´Gaijin´, de Tizuka Yamasaki
(1979). Fonte rica para sua formação como
diretor foi atuar como assistente de Costa-Gravas em ´Estado
de Sítio´ (1972). Segundo suas próprias
palavras, ´lá aprendi a trabalhar de forma
organizada, metódica, numa produção
com mais de quatro mil figurantes, equipe de mais de cem
pessoas, uns cinqüenta atores. Me dei muito bem como
assistente dele´.
 |
Homenagem
ao Multifacético Ingmar Bergman
*
LG. Miranda Leão
Ingmar Bergman, genial cineasta
escandinavo, um dos dez grandes diretores-autores cinematográficos
do século XX, diríamos mesmo de todos os tempos,
enquanto os elementos essenciais da arte fílmica
no futuro forem os mesmos de hoje.
Nascido em 14 de julho, data
simbólica, na cidade de Uppsala, e batizado Ernest
Ingmar Bergman, segundo registram seus biográficos,
o jovem Ingmar trouxe das experiências traumáticas
de sua infância, sob o tacão de pai puritano
e sádico, a geratriz de muitas inquietações
de sua vida adulta como profissional do teatro (por quem
se apaixonou desde os cinco anos) e do cinema (arte com
a qual se identificou plenamente na década de 40).
Acasos favoráveis levaram-no a um contato com a ´Svenskifilmindustri´:
a resenha de uma de suas peças em exibição
na cidade caiu nas mãos de mulher influente na indústria
cinematográfica: ela foi ao teatro, assistiu ao drama,
conheceu o jovem autor e contratou-o de imediato, recomendando-o
ao diretor Alf Sjoberg (1903-80). Este decidiu dar a Bergman
o ensejo de escrever o roteiro de ´Tortura de um Desejo´
(Hets). Corria o ano de 1944, Bergman completara 26 anos...
Sjoberg se surpreende.
Influências e obsessões
Bergman foi bastante influenciado
nos seus primeiros anos de atividade como roteirista pelas
idéias e lições de cinema recebidas
de dois dos nomes mais credenciados do cinema escandinavo:
Victor Sjostrom (1879-1960) e Gustav Mollander (1988-1973),
´meus mestres´, como costumava dizer. Por outro
lado, Bergman influenciou direta ou indiretamente realizadores
de toda parte, não apenas da Suécia mas de
outros países, não só na sua temática
mas também no seu estilo: Krzysztof Kieslowski (Polônia),
Istvan Szabo (Hungria), Carlos Saura (Espanha), Michael
Anderson (Inglaterra), Leopoldo Torre-Nilson (Argentina),
Walter Hugo Khouri (Brasil) e (quem não se lembra
de ´Setembro´ e ´Interiores´?) até
Woody Allen (EUA)...
Já tivemos ensejo de
escrever vários artigos sobre Bergman. O mais recente
deles, de 24 jun 2004, quando dos seus 85 anos, figura também
em nosso livro de críticas, lançamento da
Coleção Aplauso (Imprensa Oficial de São
Paulo) com aval de Rubens Ewald Filho. No curta-metragem
do cineasta Gui Castor, focalizando este crítico,
foi igualmente incluída a cena-chave de ´O
Sétimo Selo´, com imagens-significantes da
partida de xadrez jogada entre o cavalheiro egresso das
Cruzadas (Max von Sydow) e a Morte (Bengt Ekerot). Nem mesmo
a Morte sabe se há algo depois dela... Resta-nos
agora prestar breve homenagem póstuma a essa figura
ímpar, multifacética, de nove filhos de cinco
mulheres, e de quem somos admiradores há muitas décadas.
Bergman sai de cena ainda lúcido, quando poderia
legar-nos algo mais de sua arte. Perda irreparável
para o cinema e o teatro.
De sua infância perturbada
por um pai neurótico e na contramão do bom
senso e da realidade de todo dia, e para quem o sexo era
pecado, a não ser entre casados e para fins de procriação
(?), Bergman trouxe algumas obsessões, sobretudo
o ponto crítico da angústia existencial. Há
algo além da morte? Deus existe? Poderá ele
ser a causa de sua causa? Qual a natureza intrínseca
de Deus? Para Bergman, admitir o homem como imagem e semelhança
de Deus é rematada tolice. Essa inquietação
metafísica prepondera aliás em ´O Sétimo
Selo´, um dos seus melhores filmes, e noutros mais.
Escusado lembrar as cenas iniciais do sonho do Dr. Borg,
quando ele olha para o relógio sem ponteiros em plena
rua em ´Morangos Silvestres´ e depois ver cair
do coche fúnebre um cadáver: é ele
mesmo. Tudo quanto Bergman pretendeu dizer está
nas suas imagens-significantes.
Outra obsessão
bergmaniana herdada da educação religiosa
neurotizante reside na importância do elemento erótico
freudiano em vários dos seus filmes como,
por exemplo, em ´Mônica e o Desejo´ (Sommaren
und Monika) (1952) e ´Sorrisos de uma Noite de Verão´
(Sommarnatens Leende) (1954). O primeiro filme fala por
si só, e o segundo faz aflorar a libido num fim-de-semana
de um pequeno grupo de casais. Já o estupro vai aparecer
via imagens de impacto em ´A Fonte da Donzela´
(Jung Frukällan) (1959), o incesto em ´Através
de um Espelho´ (Saasom I en Spegel) (1961), a masturbação
feminina em ´O Silêncio´ (Tysnaden), os
pesadelos e fantasmas de um passado adúltero em ´A
Hora do Lobo´ (Vartimnen) (1968), o tédio conjugal
em ´Cenas de um Casamento´ (Soecer ur ett Aktenskap)
(1974), a insatisfação sexual e a frigidez
em ´Face a Face´ (Ansiktet mot Ansiktet) (1976).
Há outras imagens e sugestões eróticas
na vasta obra de Bergman. Afinal, como dizia Freud: o sexo
não é tudo mas está em tudo... Bastam
esses exemplos, ao invés de incluirmos uma filmografia
completa, já vista e revista ´ad nauseam´
nos jornais.
Ruptura com o sistema
A ousada e inteligente ruptura
de Bergman no campo da liberação do sexo no
cinema, desnecessário dizê-lo, causou-lhe problemas
de ordem vária com censores zoilos e mal orientados,
pois a sensualidade de Bergman nada tem a ver com o ´soft
porno´ ou o ´kitsch´. Por vezes o erotismo
pode nascer de uma confissão intima feita por Bibi
Andersson (grande paixão do cineasta) a Liv Ullman
(outra de seus amores de longa duração), personagens
do antológico ´Persona´ (1966), traduzido
por ´Quando as Mulheres Pecam´, título
imbecil e apelativo, duplo erro, pois não há
lesbianismo no filme e, se houvesse, não haveria
pecado algum no amor entre duas mulheres...
Em 1976 Bergman afirmou lá
pelas tantas, numa de suas entrevistas polêmicas:
´Deus e eu nos separamos há já alguns
anos. Nós humanos, neste mundo insano e profundamente
injusto, não sabemos onde ele está, nem o
que faz ou se sabe da existência do mal. Só
sei ser esta a nossa única vida. Não há
outra.´ Essas declarações provocaram
irritação nos setores religiosos e até
na esquerda democrática sueca, para quem Bergman
se mostrara indiferente ou esquivo às injustiças
sociais e a opressão política. Respondeu-lhes
Bergman, textualmente: ´Não é
verdade; tenho combatido a repressão religiosa ao
sexo, a opressão política, as injustiças
sociais, onde quer que se apresentem. Talvez meus críticos
não saibam ler minhas imagens ou o subtexto e me
acusem de omisso, hermético e difícil. Tudo
quanto digo e penso está lá e bem entendido
por muitos outros canais de expressão´.
'De resto, é atribuição
do criador cinematográfico operar suas próprias
escolhas, mas sempre tive compromisso com a ética
e a liberdade e me tenho servido do teatro, da TV e do cinema
para denunciar a injustiça, a barbárie, os
regimes ditatoriais de qualquer tipo e até para alertar
as platéias quanto à gestação
de regimes abomináveis como o nazismo, na metáfora
de ´O Ovo da Serpente´ (Das Schlangenei) (1980),
sugestivo de como ele ainda existe no mundo sob outros disfarces,
na intolerância, nas prisões superlotadas e
desumanas, nas torturas de prisioneiros, no trabalho escravo
de menores, ou em culturas bárbaras e atrasadas,
a ponto de castrarem suas filhas ainda meninas... Poder-se-ia
ter matado a serpente no ovo, mas a covardia ou a omissão
de muitos nos levou ao morticínio de inocentes, de
judeus, ciganos, homossexuais, deficientes físicos
ou mentais ´... Os filmes de Bergman, vale insistir,
contêm verdadeiras lições de cinema
e de vida, conforme vistos por renomados críticos
e filmólogos. Basta acompanhar a trajetória
dos festivais internacionais, ensaios, reportagens, entrevistas
do grande mestre, prêmios recebidos e suas influências
deixadas no mundo do cinema. Bergman parece estar
em tudo e em todos.
Opinião valiosa
Não é demais
reproduzir aqui as palavras pronunciadas pelo autor e filmólogo
espanhol Román Gubern por ocasião dos 60 anos
(1978) de Bergman: ´Poucos cineastas tiveram impacto
tão grande sobre a cultura contemporânea como
o sueco Ingman Bergman. De fato, unindo a angústia
existencial implícita notadamente em Kierkegaard,
Heidegger, Sartre e Camus a um puro estilo neo-expressionista,
Bergman trouxe ao cinema uma dimensão filosófica
com nenhum outro cineasta o fez. Seu legado cinematográfico
até hoje é realmente uma meditação
profunda de caráter metafísico sobre a solidão
e a angústia do ser alimentada por uma sede do Absoluto´.
Fontes e proficiência
técnica
As leituras preferenciais
de Bergman antes, durante e depois de sua formação
universitária se encontram em Epicuro, Heráclito,
Shakespeare, Darwin, Freud, Spencer, Feuerbach, Kafka, Proust,
Joyce, Borges e em dois compatriotas seus da península:
os dramaturgos Strindberg (´A Dança Macabra´,
´Senhorita Júlia´, ´O Quarto Vermelho´,
´A Sonata dos Espectros´) e Ibsen (´A
Casa de Bonecas´, ´Peter Gynt´, ´Hedda
Gabler´). Para o crítico Paulo Perdigão,
em percuciente ensaio já referido (v. DN, em 24 jun
2004), ´a obra de Bergman são os gritos e sussurros
de um cineasta revoltado com o silêncio de Deus. Se
o cinema não existisse, John Ford seria um vaqueiro,
Fellini um poeta, Buñuel um vagabundo de estrada,
Welles um mágico, Kubrick um fotógrafo, Truffaut
um romântico, e Bergman seria um filósofo como
Kierkegaard e Heidegger, voltado para os grandes mistérios
e o sofrimento da aventura humana. Seus filmes testemunham
o desespero de um mundo demoníaco. Ele transformou
o cinema num ato de reflexão´.
BABEL
- Jogo dos acasos retorna em dramas paralelos
* L.G. de Miranda Leão
O
acaso tem sido definido pelos lexicógrafos como o
conjunto de causas imprevisíveis e independentes
entre si, as quais não se prendem a um encadeamento
lógico e racional e determinam um acontecimento qualquer.
Já o Capitão E.A. Murphy, engenheiro da Força
Aérea dos EUA, a quem se atribui a curiosa Lei de
Murphy, define-o como a resultante da imprevisibilidade
dos eventos futuros, conectados ou não, favoráveis
ou desfavoráveis. O tema é fascinante e quem
se interessar pelo assunto deverá ler a tese de pós-doutorado
do cientista francês Jacques Monod, diretor do Instituto
Pasteur, Prêmio Nobel de Medicina, intitulada “O
Acaso e a Necessidade” (Le Hasard et la Nécessité).
O
minipreâmbulo vem a propósito deste louvado
Babel, assinado pelo diretor mexicano Alejandro
Iñarritu (1963- ), prêmio de direção
em Cannes (2006) e Globo de Ouro de melhor filme dramático
do ano. Iñarritu retorna ao seu tema predileto, dramas
paralelos gerados pelos acasos e capazes de interligar personagens
díspares em estruturas diferenciadas de tempo e espaço,
desta feita falando línguas distintas e incapazes
de uma comunicação elementar entre si. Daí
seus dois filmes anteriores, “Amores Brutos”
(Amores Perros, 2000), visão impressionante de vidas
divergentes conectadas por um desastre de automóvel,
na qual uma briga de cachorros se torna brutalmente realística,
e “21 Gramas” (21 Grams, 2003), quando três
pessoas (um ex-convicto tornado religioso, uma mulher abalada
pela perda da família e um professor a quem deram
uma segunda chance para sobreviver) são reunidas
por acasos incríveis.
Quanto
ao paralelismo desenvolvido por Iñarritu, não
há nada de original. Tramas também se entrelaçam,
em “Cenas da Vida” (Short Cuts), de Robert Altman
(1993), “Antes da Chuva” (Before the Rain),
de Milcho Manchevski (1994) e “Traffic” (Traffic),
de Steven Soderbergh (2000), os quais nos parecem superiores
ao filme sob comentário. O roteiro, dele mesmo e
de Guillermo Arriaga (juntos nos dois primeiros filmes,
mas hoje em franco desentendimento, segundo lemos), reúne
três dramas em quatro cenários distintos (EUA,
México, África e Ásia) e, como se para
enfatizar a idéia de uma babel, especula com vários
idiomas : inglês, japonês, francês, espanhol
e até, como nos dizem os registros, o berbere, língua
pertencente ao ramo camito-semita falada na Argélia
e no Marrocos.
Assim,
um viúvo japonês dá um rifle de presente
a um marroquino por havê-lo tratado bem numa excursão.
A arma é trocada por uma cabra e vai parar nas mãos
de dois garotos. Estes vão testá-la nas montanhas
e um deles mira um ônibus de turistas a uma distância
considerável e atira de brincadeira, atingindo uma
americana. A luta desesperada do marido para conseguir uma
ambulância ou um helicóptero para salvar a
mulher, enfrentando óbices de todo tipo, alimentam
o primeiro drama.
No
Japão, jovem surdo-muda desejosa de chamar atenção
e comunicar-se com o mundo, depois do suicídio da
mãe, extravasa isso e sua carência sexual num
comportamento exibicionista (não usa calcinha, despe-se
lá pelas tantas, oferece-se a um dentista em pleno
tratamento). Na fronteira mexicana, duas crianças
louras, americanas, são levadas por sua ama (Adriana
Barraza) para uma festa de casamento do outro lado pelo
seu sobrinho Santiago (Garcia Bernal), mas os obstáculos
para o retorno são quase intransponíveis.
O motorista deixa os três no deserto enquanto tenta
despistar os policiais. As três histórias se
enlaçam, mas o episódio passado no Japão
é prolixo e Iñarritu não soube pinçar
o essencial e controlar o tempo de permanência das
imagens na tela (precisa ler e rever Truffaut). Os diálogos
são ocos, um rock barulhento marca a tentativa da
jovem de aproximação entre moças e
rapazes. Um episódio destoante do conjunto.
O
diretor tem pulso firme na condução do ritmo
das duas histórias, bem assim no destaque à
brutalidade policial – de resto, a polícia
parece ser a mesma em toda parte – mormente diante
de fracos ou desvalidos e de pessoas sem padrinhos fortes.
Há momentos significativos quando o casal de americanos
dá a impressão de reconciliar-se: a mulher
ferida sente necessidade de esvaziar a bexiga e o marido
acaba conseguindo uma minibacia e dela se aproxima para
envolvê-la nos braços, algo jamais pensado
por eles, ao serem acolhidos numa aldeia miserável
em meio ao deserto. Iñarritu expressa bem o sentimento
mexicano em relação à fronteira entre
os dois países, onde o percurso entre Tijuana e Los
Angeles, pleno de entraves e violência latente, parece
metaforizar a distância psicológica e política
a separar EUA e México. Só não consegue
estabelecer com firmeza os elos entre as três narrativas,
ao contrário do conseguido pelos citados predecessores
de Babel.
O
trabalho fotográfico de Rodrigo Pietro é expressivo
tanto na captação da luz dos exteriores como
no plongée do microônibus em pleno deserto
e nas nuanças no interior do espaço onde se
encontra mulher ferida. Igualmente, nas imagens de uma Tóquio
noturna ou da jovem quando revê o pai desafortunado.
A direção de arte e os figurinos contribuem
para o resultado de conjunto buscado pela dupla Inarritu-Arriaga,
ambos sabedores das dificuldades inerentes a uma filmagem
de três histórias interligadas pelo jogo de
acasos.
O
cast principal não traz estrelas na interpretação,
Brad Pitt e Kate Blanchett têm poucas possibilidades
de distinguir-se, ao contrário de Bernal e Adriana.
Quanto aos atores japoneses, sua máscara facial é
quase sempre a mesma em situações tensas ou
aflitivas, a ponto de levar um crítico a dizer: o
rosto do oriental é quase impenetrável, tipo
poker-faced player dos cassinos, e para muitos cineastas
uma muralha difícil de transpor. Veja-se quando o
policial nipônico se encontra com o pai da jovem e
o espectador não consegue “ler” sua expressão,
nem mesmo quando o viúvo lhe diz: “Minha mulher
se matou com uma bala na cabeça; fineza não
mais me incomodar com isso”. O reencontro dele com
a filha nua, os dois sozinhos, ressalta a ambigüidade
das imagens na arte fílmica, bem como as dificuldades
de a câmara apreender em sua totalidade as perplexidades
da condição humana.
Babel
vale, sem dúvida, por sugerir no subtexto não
apenas os males gerados pelos preconceitos, barreiras lingüísticas,
raciais ou religiosas pelas quais se digladiam brancos civilizados
e árabes ditos subdesenvolvidos, mas barreiras ainda
mais abstratas capazes de separar os seres humanos. Ou seja,
“as fronteiras individuais”, como quer o próprio
Iñarritu “são tão ou mais problemáticas
em relação às geográficas”.
Não entendemos tantas indicações recebidas
por Babel, apenas um bom filme no tocante
a dois dos episódios. Preterir Scorsese ou Eastwood
em favor de Iñarritu, tanto na seleção
de Melhor Filme como na de Melhor Direção,
nos pareceu um sério equívoco.
De
qualquer modo, a ver.
Marienbad,
a obra-prima de Resnais
* L.G. de Miranda Leão
Ano
Passado em Marienbad, obra revolucionaria de Alain
Resnais e Robbe-Grillet, Leão
de Ouro em Veneza, 1961, está entre os filmes
exponenciais do Século XX
Para
Jacques Brunius, crítico e realizador, autor de substancial
ensaio em Sight & Sound (n° 4, maio 1962) “é
o maior filme já feito e lamento quem não
possa ver isso”. Louve-se pois a oportunidade deste
presente régio para cinéfilos e estudiosos
da arte cinematográfica.
Muito
já se escreveu sobre Marienbad desde
sua estréia pelas telas do mundo. Neste filme ao
mesmo tempo aberto e enigmático na sua forma, Resnais
mergulha nos labirintos da memória e do esquecimento
(voltaria a fazê-lo depois em Muriel, 1963) sugerindo
muito e dizendo pouco, “raramente olhando para ver
se a platéia está entendendo o filme, como
certamente muitos espectadores não estão”.
Analistas
de vários países acreditam tenha Marienbad
aberto um caminho totalmente novo para a arte fílmica.
Alguns, perplexos, perguntam se isso ainda é cinema
ou a tentativa de criar uma arte total, capaz de abranger
todas as outras. Outros chegam a ver em Marienbad uma ousada
e inventiva incursão no mundo dos sonhos e dos sonhos
dentro do sonho e mesmo dos sonhos recorrentes (vejam-se
os mecanismos oníricos de Freud: mascaramento, disfarce,
condensação e deslocamento), ou até
mesmo na teoria da relatividade de Einstein...
Filme
de tão elevada hierarquia cinematográfica
comportaria naturalmente análise mais extensa. Como
o espaço é limitado, só nos resta breve
registro, para não deixar passar despercebida a obra-mestra
e propiciar aos cinéfilos da nova geração
um ponto de partida para sua orientação.
Quando
se assiste a Marienbad logo se verifica
a pouca importância dada pelos seus realizadores à
história, pois não há enredo resumível.
Há evidente interpenetração de quatro
tempos: o presente, o passado, o futuro imaginado e o poderia-ter-sido,
ou seja, um futuro do pretérito composto, à
moda dos gramáticos. O filme abre com um recitativo
do narrador em off, personagens anônimos surgem em
atitudes congeladas, como fotos de um álbum de recordações.
Esses personagens poderiam ser tomados pela realidade presente,
emoldurando por assim dizer uma recordação
onírica, mas parecem cenas de sonho revividas.
Num
castelo transformado em hotel de luxo um homem (Giorgio
Albertazzi) encontra - ou reencontra - uma mulher (Delphine
Seyrig) a quem teria amado num spa em Marienbad (ou será
Friedrichbad?). Mas agora há outro (Sacha Pitoeff),
figura misteriosa (marido, irmão a sugerir incesto,
guardião?) na vida dessa mulher esquiva e ela parece
não poder largá-lo, apesar da insistência
persuasiva de quem se diz apaixonado por ela. O narrador
pode estar fantasiando os eventos narrados por ele, pois
não está seguro dos detalhes. A única
ordem é a ordem na qual os eventos reais ou imaginários,
lembrados, inventados ou sonhados, vêm à sua
mente.
Não
se pode eliminar a possibilidade de esse sonho não
ser dele e sim da mulher, pois algumas seqüências
seguem seus processos mentais e mostram eventos como ela
os imagina, alguns deles podem estar ocorrendo no futuro.
A situação conflitiva do triângulo não
evolui dramaticamente e termina em aberto. O “kim”,
os jogos de cartas e dominós não só
ecoam a situação triangular (como as árvores
e alamedas do parque) mas também são paralelos
à posição do marido(?). Ele sempre
ganha mas ao mesmo tempo perde e o jogo expressa um pressentimento:
o perdedor fica com o último palito do “kim”
e leva a mulher consigo.
O
valor do filme é essencialmente estético,
como bem escreveu P.E. Salles Gomes, mas também é
a junção de tudo quanto há de mais
avançado em cinema e literatura, pois o autor é
Robbe-Grillet, papa do nouveau roman francês. Se,
como frisa Villegas López, o criador cinematográfico
é a simbiose diretor-autor, temos aqui exemplo magistral
da perfeita identidade entre os dois, conforme entrevistas
dadas por ambos aos jornais e revistas da época:
“O que eu escrevia era exatamente a mesma coisa que
Resnais havia pensado; o que ele acrescentava durante a
filmagem era a mesma coisa que eu poderia ter inventado”
(Robbe-Grillet).
Robbe-Grillet
rebate críticas feitas tanto ao nouveau roman como
à nouvelle vague. “Não são movimentos
preocupados unicamente com a forma relegando o conteúdo
a segundo plano. O conteúdo de um filme ou de um
romance é a sua própria forma.” E textualmente:
“Se c´est pas l´art pour l´art,
alors c´est pour quoi?”. Para Resnais, o conteúdo
só pode ser descoberto pela análise da estrutura
do filme. Marienbad, segundo ele, é
o primeiro filme no qual, numa extensão bastante
considerável, o conteúdo é a forma
e não existiria fora dela...
A
direção cinematográfica é impecável
e projeta Resnais e toda sua obra como um dos pilares da
arte do filme. J.L. Grunewald louva a dialética motovisual
dos travelings, os quais “cortam e penetram inaugurando
um espaço permanentemente definido e redefinido pela
duração das imagens (os movimentos de Delphine
no branco é a mais pura sensação de
estesia em toda a história do cinema); agora, antes
de estar sob Eisenstein, Resnais está sob Einstein
e o cinema do futuro se encontra sob o signo ´Marienbad´.”
Louve-se
igualmente o uso instigante da super-exposição
(numa delas há sugestão de orgasmo feminino),
dos cortes secos e do two-frames out para romper a ordem
espácio-temporal e justapor cenas e fatos relacionados,
pois a memória vai mais além do armazenar:
ela também cria e a narrativa de Resnais segue a
recriação altamente subjetiva do passado na
mente de Giorgio: o tempo destrói mas a memória
preserva. Resnais é o cineasta da memória,
da imaginação, do esquecimento e do efêmero
e estes lhe fornecem os dados experimentais para a construção
de um cinema próprio, “um universo fechado
e introspectivo cujas chaves ele mesmo as perde na cronologia
desordenada e proposital com a qual molda sua obra”
(B.J. Duarte).
Os
elementos constitutivos de Marienbad estão
todos inter-relacionados: os intérpretes Delphine
Seyrig (recordem-se seus movimentos corporais, gestos e
diálogos propositadamente afetados), Giorgio Albertazzi
e Sacha Pitoeff, plenamente afinados com as exigências
da dupla Resnais-Grillet. A fotografia de Sacha Vierny (de
Hiroshima) é um primor, bem como a montagem a cargo
de Henri Colpi e Jasmine Chasney (técnico da confiança
de Resnais). A música de Francis Seirig, idéia
do diretor, funciona de modo quase ininterrupto e o órgão
é ouvido de permeio entre a melodia orquestral e
a recorrência de alguns temas, contribuindo para o
efeito emocional buscado pelos realizadores, podendo-se
louvar o silêncio quebrado subitamente pelos sons
ruidosos do ambiente, ou o detalhe sonoro do corte para
a queda do copo de cristal em pleno salão.
Jacques
Brunius conclui seu longo ensaio indagando: “Precisamos
mesmo de interpretações simbólicas?
Ainda tenho prazer em ser arrastado para este filme como
não fui para nenhum outro; ainda espero revê-lo
muitas vezes e preservar suas ambigüidades polivalentes.
São as ambigüidades da própria vida.”
Um
filme para ver e rever, decididamente.
Representação
da Realidade via Filme Exponencial
* L.G. de Miranda Leão
Documentário-ficção
ou semidocumentário, não importa. A
Queda (Der untergang - Hitler und das ende des III
Reich, de Oliver Hirschbiegel, atinge o acme em matéria
de arte fílmica, digno da tradição
de seriedade e proficiência técnica do cinema
alemão. Condensam-se em 2h30m os últimos dias
do ditador nazista através de um realismo cinematográfico
da melhor qualidade. Foram dois anos de preparação,
pesquisa e busca de fontes confiáveis para a reconstituição
dos eventos e a criação da ambiência
física da queda de Berlim. Não entendemos
a crítica de Wim Wenders para quem o filme humanizou
a figura de Hitler, ao mostrá-lo simpático
com as crianças e as secretárias ou alimentando
a sua cadela alsaciana. A entrevista de Hirschbiegel a Stephen
Applebaum rebate a idéia de humanização
de Hitler: como? se não hesita em mandar fuzilar
o coronel Fegelein, apesar do pedido de Eva Braun para poupar
seu concunhado?
Pouco
importa se o intérprete de Goebbels não se
parece com ele, tampouco o de Goering etc. Em A
Queda estamos assistindo a uma representação,
ou melhor, a uma reinterpretação de uma dada
realidade cinematográfica. Bruno Gaz, nascido em
Zurich, na Suíça alemã, não
é Hitler; Thomas Kretschmann (o capitão do
exército alemão a quem o pianista do filme
de Polanski deve a vida) não é Fegelein, Alexandra
Lara não é a secretária do Führer,
e assim por diante. Todos são intérpretes
vistos sempre de forma bidimensional, alterados pela fotogenia,
numa percepção diferente da realidade, pois
o verossímil no cinema concerne à representação
e à narração, como ensinam os filmólogos.
A Queda comportaria por certo
um ensaio sobre a paranóia de Hitler e sobre o mal
inerente ao ser humano, dos quais decorreu o sacrifício
de milhões de vidas.
Este
espaço não permite maiores considerações
sobre o fenômeno do nazismo. Este, como sabemos, não
se restringe a uma nacionalidade: subsiste sob outras formas
mesmo nas democracias, na violência, nos crimes cometidos
pela Polícia, na intolerância e principalmente
nas ditaduras de todos os matizes, hostis ou disfarçadas.
A responsabilidade do povo alemão em relação
à ascensão do nazismo e aos crimes contra
a humanidade cometidos é outra questão complexa
na qual o fator Tratado de Versalhes é apenas
um dado a ser considerado. Para Joachim Fest, no entanto,
“o fato de Hitler ter encontrado milhões de
seguidores será sempre uma vergonha para o povo alemão,
pois o país estava em guerra criminosa contra a paz
e a humanidade”. O extermínio de judeus, opositores,
ciganos, deficientes mentais e homossexuais, com o sacrifício
de inocentes, é qualquer coisa só concebível
num mundo à deriva, no qual o livre-arbítrio
só existe para os torturadores, não para os
torturados.
Difícil
destacar as cenas de maior impacto. Desde a abertura, já
sentimos estar diante de um mestre: o caminhar à
noite das cinco mulheres pelos jardins de árvores
copadas em direção à chancelaria: são
as candidatas a secretária de Hitler. O domínio
do ritmo externo pela montagem também é ponto
alto. Todos sabemos ser a montagem o fator de maior relevância,
pois propicia, como lembra Spiñal, a ambientação
efetiva da imagem, enquanto o tempo de intelecção
expressa o tom psicológico e estimula o subconsciente
do espectador. Daí as crises histérico-paranóicas
de Hitler tentando salvar Berlim a todo custo, quando já
não dispõe de reservas para tal fim, a imagem
do garoto salvo da morte à última hora, a
festa alienante organizada por Eva Braun, a frieza com a
qual a mulher de Goebbels envenena seus filhos para não
vê-los viver sob outro regime.
O
tema do nazismo, envolvendo não só os atentados
fracassados para eliminar Hitler, como Aconteceu a 20
de Julho, ou sua agonia final, O Último
Ato, ambos de G.W.Pabst (1955), mas também a
resistência ao regime, recebeu todo apoio dos realizadores
alemães e muitos deles, de ontem e de hoje, não
hesitaram em revisitar os tempos hitleristas. Basta citar
“Os Assassinos Estão entre Nós”,
de Wolfgang Staudte (1946), “Almirante Canaris”
(1954), “O General do Diabo”, de Helmut Kautner
(1955), “A Ponte da Desilusão”, de Bernhardt
Wicki (1959), “O Tambor”, de Volker Schlondorff
(1979), “Ein Tag” e “Os Irmãos
Oppermann”, de Egon Monk, ambos de 1980.
A
fotografia refinada de Rainer Klausmann parece fundir cores
esmaecidas com o p & b e transportar-nos para o cenário
real das explosões da artilharia russa e do avanço
das tropas, cada vez mais próximas. Um toque dantesco
é o da cena da obtenção, quase na marra,
dos 200 litros de gasolina para incinerar os corpos de Hitler
e Eva. A música incidental acompanha a câmara
quando penetra no bunker claustrofóbico.
Os
atores têm atuações memoráveis.
Bruno Ganz é um capítulo à parte. Outros
nomes se impõem: Juliana Kohler (do excelente Aimée
& Jaguar, de Max Farberbock), Alexandra Mara, Heino
Ferch como Albert Speer (recorde-se O Túnel,
de Roland S. Richter), Ulrich Mathes, como Goebbels (o algoz
em “Aimée...”) e Christian Berkel, como
o Dr. Schenk.
Um
filme para ver e rever, decididamente.
A
Última Sessão de Cinema
*
L.G. de Miranda Leão
Nas
distribuidoras, A Última Sessão de
Cinema (The Last Picture Show), jóia preciosa
de Peter Bogdanovich em seu segundo longa em p&b (118
min). De caráter nostálgico, penetrante, o
filme toca fundo no complexo emocional do espectador atento
e sensível. A recriação cinematográfica
da ambiência psicofísica de uma cidadezinha
do interior dos EUA próxima à fronteira mexicana
é simplesmente magistral. Nela ganham corpo os problemas
de adolescentes sem maiores perspectivas e cuja maior diversão
(afora as preliminares do sexo sem culpa num calhambeque,
no escuro do cinema ou em festinhas noturnas) consiste em
jogar sinuca num modesto snack-bar e assistir aos filmes
na única casa exibidora localizada na minipraça
central - filmes às vezes até repetidos, pois
lançamentos mais recentes nem sempre chegam rápido.
Ainda assim, ninguém perde as projeções,
tampouco o encontro com as namoradas, o papo com os amigos,
uma bebida aqui e ali, desencadeando desentendimentos e
brigas, geralmente por ciúmes, ou porque alguém
tomou a garota do outro ou ela largou seu boyfriend ou não
se decidiu com quem ficar. Depois tudo volta à rotina.
Pela manhã, os jovens freqüentam as aulas ministradas
na high school e à tarde treinam basquete na quadra
e torcem nos domingos pelo time da casa nos campeonatos
de rugby. Esta obra-mestra do cinema norte-americano é
a inspiradora do comentário a seguir.
Romance de Larry McMurtry,
adaptado ao ecrã pelo próprio autor e por
Bogdanovich, o filme segue a narrativa clássica linear,
abrindo com visão panorâmica do lugar. Nele
se vêem pequenas lojas e casas de comércio,
estradas vicinais desertas e poeirentas, velhas camionetes,
bares desolados, espaços vazios preenchidos pelos
poucos transeuntes, enquanto o vento sibila, como se estivéssemos
diante de uma cidade-fantasma ou lugarejo estagnado no tempo.
Do geral para o particular, passa-se rápido para
o plano de detalhe do afogador de um carro, este teima em
não pegar, enquanto seu guiador, o jovem Sony (Timothy
Bottoms), tem de atender a um compromisso qualquer. O motor
reage e o veículo sai em meio à poeira lá
fora e o garoto Billy (Sam Bottoms), indiferente a tudo,
varre a rua central da cidadezinha.
Começam a entrar em
cena outros personagens cujas vidas se entrelaçam:
os namorados Duane (Jeff Bridges) e Jacy (Cybill Shepherd),
Sam, o leão (Ben Johnson), proprietário do
cinema, Abilene (Clu Galager), capataz de um poço
de petróleo pertencente ao marido complacente de
Lois (Ellen Burstyn), amante de Abilene e mãe de
Jacy. Depois entra em cena Ruth (Cloris Leacham), mulher
do treinador de basquete e insatisfeita com a vida. Também
não faltam discussões sobre vitória
e derrota no futebol. ´O time da cidade está
uma porcaria´, diz Duane, alto e bom som. Estabelecidos
assim a ordem da narrativa e o foco sobre muitos personagens,
a tensão irá resultar dos conflitos maiores
ou menores de cada um deles e alimentar os ritmos interno
e externo do filme, enquanto os raccords mantêm a
continuidade entre as várias ações
incidentes e o espectador não perde os fios com os
quais cenas e seqüências se interligam até
o final inteligente e não-convencional. Nesse específico
fílmico, Bogdanovich nos transmite valiosas lições
de cinema.
Corte para Sonny e sua entrada
na sala de projeção com o filme já
começado. Senta-se ao lado de sua garota. O namoro
dos dois faz um ano nessa data. Na tela está sendo
exibido ´O Papai da Noiva´, com Spencer Tracy
e Lizzie Taylor. Os preparativos para o casamento dos noivos
contrastam com a situação indefinida entre
Sonny e a namorada. Saem do cinema e entram no carro. Lá,
afastados, num gesto ousado à época, ela tira
a blusa e o sutiã e lhe mostra os seios. A mão
boba vai além, a jovem o rejeita. Não gosta
da precipitação. Desfaz-se o par.
Numa sala de aula, entediado
professor discorre sobre célebre poema de John Keats
e tenta motivar o grupo de alunos desinteressados ou faltos
de sensibilidade para a arte literária. Explica-lhes
o significado mais profundo da Ode to a Nightingale, mas
não vê retorno por parte dos discentes. Corte
para o treino de basquete, após o qual o técnico
dispensa Sonny e lhe pede para levar sua mulher ao médico.
Esse encontro será decisivo para a vida afetiva de
Sonny. Novo corte leva o espectador a uma das festinhas
típicas de fim-de-semana. Abilene chega com a namorada,
mas Lois lhe toma a dança depois de beijá-lo,
à vista de todos, sob protestos da outra. Na saída,
a câmara enquadra Abilene na porta, de óculos
escuros, e Lois, do carro, lhe faz um gesto obsceno, o bastante
para percebermos o caso entre eles.
No drive-in, álcool
e extravasão da libido. O ´não haver
pecado de sexo entre adultos consentintes´, como se
dizia à época em razão da revolução
sexual já em marcha, parecia ser o lema daquela comunidade
de jovens ávidos de conhecer os prazeres do proibido,
de seguir na esteira de ´o que tem de ser que seja
logo/ antes que a nuvem passe e o vento viaje / o que tem
de ser que seja logo/ antes que a areia branda cubra meus
olhos´, como nos versos do saudoso poeta bissexto
Jairo Martins Bastos, traduzidos aliás para o inglês
como Elegy of the Insomniac.
Conflito
de gerações
Inserção aparentemente
banal mostra o encontro fugaz e de certa forma constrangedor
entre Sonny e seu pai. Não há nenhum ´Merry
Xmas´, nada têm a dizer um ao outro. O enredo
não precisa explicar os motivos desse distanciamento.
Sabe-se apenas como é difícil a convivência
entre as gerações, subtema caro a Bernardo
Bertolucci em, por exemplo, O Último Tango em Paris
(1972).
Sonny vai buscar Ruth para
levá-la ao clínico. Ela o convida para tomar
um refrigerante. Logo depois chora e diz ficar feliz com
o término da temporada esportiva. Sente-se muito
só. ´Você não sabe de nada´,
afirma. Há sutil aproximação ente os
dois, apesar da diferença de idades. O tempo corre
inexorável. A chegada do Natal é logo percebida
pelo cartaz de um risonho Papai Noel na porta da modesta
casa noturna. Lester (Randy Quaid), colega de Jacy, convida-a
para uma noite de arromba na piscina. Os donos da casa saíram
e todo o pessoal jovem se despe para o mergulho. Jacy aceita
o desafio e engana Duane. Em lá chegando, é
recebida por casal inteiramente nu. Tem de cumprir o ritual
e mesmo indecisa, encabulada, começa a tirar o sutiã
e, antes de completar a nudez, finge escorregar para cair
na água e esconder-se da avidez óptica dos
rapazes.
Jacy e Duane estão
a sós no carro. Duane lhe dá um presente.
Beijam-se. Toma a iniciativa, mas ela se livra dele. Não
está a fim. Noutro segmento vemos a tentativa dos
rapazes de fazerem Billy perder a virgindade ao colocá-lo
no banco de trás do veículo com Jimmy Sue,
obesa prostituta de muitos invernos. O garoto se fere na
saída, mas o incidente é ao mesmo tempo hilário
e patético. Nenhum garoto teria êxito na sua
´primeira vez´ naquelas condições.
Quando Sam vê o nariz de Billy sangrando, pensa terem-lhe
colocado para brigar. Praticamente rompe com os amigos dele.
Novo encontro entre Ruth e Sonny, o silêncio dos dois
diz tudo. Acabam deitando-se semidespidos, mas o ruído
das molas da cama é desestimulador e risível.
Ela chora. Medo, pela traição. ´Não
fui criada para largar o marido´. Dois ângulos
de câmara captam Sonny dentro do carro, efeitos de
luz lhe batem no rosto. Ao longe se vêem as luzes
da cidadezinha. ´É apenas uma cidade pequena
demais´...
Novo mergulho nesse microcosmo
via plano de conjunto, onde vê o rio tranqüilo
em campo aberto. Sonny e Billy são levados por Sam.
´Trouxe-os aqui porque sou um sentimental. Há
mais de 20 anos trazia para cá uma jovem mulher.
Vínhamos a cavalo e nadávamos sem roupas.
Amei-a como nunca. Dei-lhe um dólar de prata e ela
ainda o tem, pois perdi a aposta da travessia das águas.
Meu cavalo empacou e o dela foi adiante´. ´Por
qual motivo não casou com ela?´, perguntam-lhe.
´Ela era casada. Se voltasse pra mim, eu enlouqueceria´.
Na cena seguinte Sonny e Duane decidem ir ao México,
a passeio. Sam lhes dá dinheiro para despesas.
O retorno dos dois é
marcado por estranho silêncio e paralisação
na cidade. Logo vêm a saber da morte súbita
de Sam. No testamento ele deixou o cinema para sua gerente
de tantos anos, mas ela não tem condições
de prosseguir com as exibições costumeiras.
Simplesmente irá desfazer-se do prédio. Numa
semana fará a última sessão. Corte
para o enterro. A câmara acompanha a lenta descida
do caixão. Lois chora ´et pour cause´...
fora ela a amante de Sam noutros tempos!
Duane entra num quarto de
motel. Jacy decidiu entregar-se e se deita. Mas Duane fracassa,
inibição do momento devido ao sexo há
tanto tempo desejado e buscado. Toda a cena é feita
de cortes precisos, atmosfera de sensualidade. Faltaram
as preliminares, nenhum congresso sexual deve começar
assim, mormente o primeiro de uma jovem virgem. Vê-se
a resultante de experiências com prostitutas. O diálogo
é livre: ´Que há Duane? Assim não
dá, você só me faz cócegas, V.
sabe como odeio cócegas´. ´Não
sei Jacy, nunca me aconteceu isso e logo com você!´
A cena de formatura dos humanistas,
sugestiva da passagem inexorável do tempo, foi concepção
original do próprio Bogdanovich: enquanto cantam
o hino a câmara desliza na horizontal para captar
aquele ar de dever cumprido a duras penas ou de satisfação
pelo término de mais uma etapa em suas vidas. Noutra
cena, Sonny e Ruth se beijam. Seu presente de formatura
é uma bela carteira de cédulas. No bar, Duane
entra enfezado e atira duas bolas de sinuca na parede. Olham-no
espantados os habitués da casa.
Plano aproximado de Jacy:
ela assiste entediada a um programa de TV. Está só
em casa. Entra Abilene e a contempla. A cena é trabalhada
com extrema habilidade. ´Que faz aqui, sozinha?´
Os olhos falam e as frases de ocasião sugerem algo
mais. Abilene termina por levá-la ao bar escuro do
qual tem a chave. Jacy se aproxima. Ele a prende com o taco,
esse símbolo fálico, enquanto se beijam. As
imagens parecem congelar-se. Jacy deita-se na mesa de sinuca.
Olhos nos olhos. Abilene despe-a. Talvez antes de 1971 nunca
se tenha visto em filmes dessa categoria uma cena de sexo
levada à frente com um misto ao mesmo tempo de ousadia
e sutileza. O plano de detalhe apreende as mãos de
Jacy segurando com força os arcos da caçapa.
O amor carnal se consuma. A virgindade até então
preservada se vai.
Corte para Lois já
em casa. ´Que noite. Nunca pensei que isso acontecesse.
Abilene foi o primeiro homem de minha vida!´. Assim
não há diálogo entre mãe e filha.
´Ele é horrível. Nenhum momento agradável
depois´. Sexo pelo sexo e nada mais. Isto se vê
na despedida dela antes de descer do carro de Abilene. Este
não lhe dá sequer um beijo de despedida, trata-a
com indiferença. O prazer morre pela conquista, dizem,
mas o amante mesmo jamais esqueceria isso. ´Não,
você não agiria assim se gostasse mesmo de
mim´.
As cenas da busca em plena
estrada deserta servem para boa composição
dos personagens no quadro e os movimentos de câmara
em campo aberto contribuem para a recriação
do clima buscado desde a abertura. Noutro espaço
Ruth aguarda Sonny. Ele chega mas vai embora. O carro do
marido está na garagem. Jacy agora espera Sonny em
momento propício. ´E Duane?´ pergunta
ele. Um que-me-importa é desnecessário. Encontro
amoroso previsível. Beijam-se e os dois seguem para
locais afastados, perto do rio. ´Não preciso
transar em carros. Vamos a um motel em Wichita´.
A elipse temporal nos conduz
a um reencontro entre Duane e Sonny. Discutem e brigam,
porque Duane soubera estar Sonny de caso com sua ex-namorada.
No confronto, Duane fere o amigo no olho, quando deslealmente
quebra a garrafa no rosto dele. Jacy visita Sonny no hospital.
Ele está com tapa-olho e parece ter perdido uma vista.
Acabam casando-se, mas os pais dela não vêem
nele condições para sustentar a filha. Lois
conversa com Sonny e conta-lhe seu caso com Sam e justifica
a alcunha de ´leão´ . ´Tinha eu
apenas 22 anos... É uma pena. Conhecer apenas um
homem que te deu valor.´ Olham-se e saem de cena.
Projeta-se ´Red River´,
de Howard Hawks (1948). O filme termina com o grito dos
caubóis para irem avante. A vida continua, apesar
de tudo. Com o cinema fechado, não há realmente
muito a fazer ali depois da morte de Sam. Duane retorna
fardado à cidade, com seu automóvel. Irá
para a Coréia, guerra em curso. Reencontra-se com
Sonny. Pergunta-lhe: ´Vocês estiveram num motel?´
Sonny desconversa. ´A única vez na qual brigamos´.
Reconciliam-se e se despedem. Não mais irá
ver Duane nem tudo quanto amou da cidade, Jacy, Ruth, namoradas,
amigos, colegas, todos sumiram. Onde andará Jacy?
Fica no subtexto o pensamento de Epicuro (341-270 a.C.),
segundo o qual estamos condenados a desaparecer e ninguém
se lembrará de termos existido.
Sonny volta à casa
de Ruth. Bate na porta, ela reaparece mais envelhecida.
Deixa-o entrar, faz-lhe café, depois derrama tudo,
joga a xícara para o alto. ´V. me fez perder
a vontade de tudo. Pensou que estivesse velha´. V.
não devia ter vindo aqui. Já estou longe de
tudo´. Sonny põe a mão na mão
dela. Entrelaçam-se os dedos. Sonny se apieda, tem
cara de arrependido. Ela também chora. Reconciliam-se.
Imagens sem palavras, nada a dizer. A câmara recua
e funde a cidade com a imagem do casal impossível.
De repente passa um carro
veloz na rua principal. Alguém está no chão,
morto. É Billy, o garoto habituado a varrer a rua.
Como é frágil e passageira a vida! ´Não
era um menino esperto´, diz testemunha ocular ao contemplar
o cadáver. ´Esses motoristas são todos
uns f. da p.´, reage Sonny enraivecido. Funde-se a
saudade de Billy com a nostalgia de tempos mais felizes.
Sonny carrega o morto e o leva para a sacada do bar. Os
demais se aproximam. Sonny cobre-o com sua capa. ´Esta
cidade tem uns garotos estranhos´, ouve-se de um transeunte.
Silêncio. Poeira e vento se misturam enquanto os primeiros
flocos de neve cobrem a pequena urbe. Um fecho raro.
A fotografia em p&b do
veterano Robert Surtees (1906-85), ganhador de três
Oscar, adensa a atmosfera do filme pela iluminação
dos interiores e pelos contrastes de sombras. A música
de gravações originais valoriza o crescendo
de momentos íntimos sem sobrepor-se a eles. Bogdanovich
conduz exemplarmente o elenco, na maioria de jovens, à
frente Timothy Bottoms, Jeff Bridges, Cybill Shepherd, Ben
Johnson e Cloris Leacham. Estes dois ganharam os Oscar de
Melhores Coadjuvantes e a película recebeu indicações
aos Oscar de Melhor Filme, Roteiro, Direção,
Fotografia e Atores para Jeff e Ellen. O Bafta inglês
também premiou o script e Johnson e Cloris. Em
DVD, presente áureo para colecionadores.
Saiba mais sobre o Diretor
Quem
é Peter Bogdanovich
Analista de filmes com apurado
senso crítico, autor de várias monografias,
ator, depois produtor, roteirista e diretor, Peter Bognanovich
nasceu em Kingston, Nova Iorque, em julho de 1939. Estudou
arte cênica com a renomada Stella Adler e se revelou
como um dos melhores alunos, tendo atuado ainda bem jovem
nos festivais shakesperianos de Manhattam. Já aos
20 anos dirigiu peças off Broadway, ou seja, aquelas
produzidas em pequenos teatros fora da Times Square, e em
razão do seu talento passou a integrar os quadros
de companhia teatral novaiorquina atuante. Interessado em
cinema, passou a estudar as obras de vários cineastas
para o Museu de Arte Moderna (MoMA) e a escrever ensaios
sobre filmes para a prestigiosa ´Esquire´. O
primeiro livro de sua lavra, publicado em 1961, foi sobre
Orson Welles, de quem se tornou biógrafo, admirador
e amigo mesmo, mormente nos instante difíceis na
vida do grande cineasta.
Em meados de 1960, Bogdanovich
atuou no cinema como assistente de direção,
depois diretor de segunda unidade e roteirista de Anjos
Selvagens (´The Wild Angels´), de Roger Corman
(1966). Em 1968 pilotou seu primeiro filme, Na Mira da Morte
(´Targets´), um dos melhores e mais sinceros
trabalhos de sua filmografia, com o qual homenageou o veterano
ator inglês Boris Karloff (1887-1969), intercalando
com inteligência, na montagem, seqüências
do filme O Terror (´The Terror´), do mesmo Corman
(1963). Criou, assim, um final empolgante, inventivo, de
caçador X caçado, mediante a inserção
de primeiros planos de Karloff, espécie de ratoeira
para prender o serial killer com lances de metacinema.
Seu próximo projeto
foi o documentário Dirigido por John Ford (1971),
representante dos EUA no Festival de Veneza daquele ano.
Em 1972, Bogdanovich co-roteirizou e dirigiu A Última
Sessão de Cinema, sua obra-prima. Êxito
sem precedentes junto ao grande público e à
crítica, o filme consiste numa nostálgica
recriação da vida de uma pequena comunidade
de cidadezinha americana nos anos 1950. Imperturbável
sentimentalista das coisas do passado e um apaixonado por
cinema, em quem alguns encontram semelhanças com
o pensamento e a criatividade de François Truffaut,
Bogdanovich se vê como mantenedor da flama acesa por
veteranos como Howard Hawks e John Ford, segundo registram
os enciclopedistas F. Klein & R. D. Nolen, pois no início
de sua carreira Bogdanovich sentia pouca afinidade com a
nova geração de diretores americanos. Para
eles, os realizadores daqueles anos davam importância
exagerada às técnicas de utilização
da câmara e às formas motovisuais em detrimento
do tema proposto e da criação do clima ou
atmosfera para o pleno envolvimento do espectador.
Em Esta Pequena É uma
Parada (´What´s Up Doc?´) (1972), Bogdanovich
tentou captar a vitalidade das comédias desmioladas
(´madcap comedies´) do Hawks dos anos 1930,
e Lua de Papel (´Paper Moon´) (1973) foi de
certo modo uma visão revivedora da América
rural de Ford, como a ela se referiram alguns críticos
americanos. A frase de Bogdanovich: ´Todos
os grandes filmes já foram feitos´, parece
aplicar-se, conforme nosso Rubens Ewald Filho, à
sua carreira depois de Lua de Papel e A Última Sessão
de Cinema. Se procede a afirmativa de Bogdanovich,
com a qual concordavam Truffaut, Claude Sautet, Alexander
Singer, Jack Clayton e o nosso Maurício Gomes Leite,
entre outros, doravante os cineastas somente podem aspirar
a fazer bons ou no máximo ótimos filmes, pois
o legado desta e de outras décadas se impõe.
Bogdanovich não teve
êxito com ´Daisy Miller´ (1974), difícil
adaptação do romance de Henry James para a
tela, nem com Amor Eterno Amor (´At Long Last Love´)
(1975), ambos feitos para promoção de Cybill
Shepherd (1949-), jovem sedutora por quem ele se apaixonou
e passou a viver, após divorciar-se de Polly Platt
(desenhista de produção, roteirista e produtora,
até então sua assistente). Aqui um parêntese
sobre Cybill, ex-aluna da Universidade de Nova Iorque, onde
se diplomou e depois venceu o concurso de ´a mais
bela adolescente de Memphis, Tenn´, e por pouco não
ganhou o título nacional.
Com carreira bem sucedida
como modelo, foi descoberta por Bogdanovich, responsável
pela sua escolha perfeita para o papel de teenager em A
Última Sessão de Cinema, e fez vários
filmes com ele, mas a fascinação do cineasta
por sua protegé provou ser desvantajosa para as carreiras
de ambos. O desgaste levou-os a uma separação
amigável. Cybill ainda atuou em Taxi Driver, de Scorsese
(1976) e retornou auspiciosamente à TV nos anos 1980
como estrela da série Moonlighting e à tela
depois de longa ausência, em 1989. No ano seguinte
atuou em Texasville, ousada seqüência de A
Última Sessão..., filme exageradamente
malhado por críticos intransigentes.
Bogdanovich desfrutou de um
retorno razoável com O Tatuado (´Saint Jack´,
1979), estudo absorvente de um proxeneta de Singapura. Voltou
a sofrer novo baque com Muito Riso e Muita Alegria (´They
All Laughed´) (1981), pois foi forçado a distribuir
o filme pela sua própria companhia e isso teve conseqüências
comerciais desastrosas. A débâcle financeira
foi acompanhada pela tragédia pessoal, quando sua
amante Dorothy Stratten, ex-garota do ano da Playboy, foi
assassinada estupidamente pelo marido ciumento e louco,
com quem ela já não vivia, após completar
sua participação no citado They All Laughed.
Para muitos dos seus amigos, Bogdanovich nunca se recuperou
inteiramente da perda de Dorothy. Restou-lhe prestar homenagem
póstuma amorosa em seu livro The Killing of the Unicorn:
Dorothy Stratten 1960-80 (1984). Acabou casando-se tempos
depois com Louise, meio-irmã mais nova de Dorothy.
Durante esse tempo Bogdanovich
preparou uma monografia sobre D. W. Griffith. Ainda abatido
pela perda de Dorothy e em situação financeira
pouco invejável, apesar do bom retorno dos seus livros,
só voltou a dirigir filmes anos depois, um deles
Marcas do Destino (Mask,1985), com o qual tentou comprovar
sua reputação como diretor do primeiro time.
Retrato comovente de um jovem desfigurado, o filme propiciou
a Cher, no papel de mãe, a oportunidade de ganhar
o prêmio de Melhor Atriz em Cannes. A partir de 1984,
Bogdanovich foi diretor-produtor-roteirista ou produtor-executivo
de vários filmes, como The City Girl, e em 1986 conseguiu
reorganizar sua companhia como a Crescent Moon Productions,
mas não marcou pontos com o roteiro de Ilegalmente
Tua (Illegally Yours, 1988). Seu Texasville decepcionou
a maioria dos críticos, mas aqui e ali, conseguiu
criar duas ou três seqüências dignas de
´quem foi rei será sempre majestade´,
como escreveu o cinéfilo Manuel Villela.
Daí em diante Bogdanovich
aceitou fazer filmes para a TV e impor-se pelo seu completo
domínio das potencialidades do veículo. Louvados
foram Fallen Angels (1993), Crimes Silenciosos (Perfect
Crimes,1995), Ao Mestre com Carinho 2 (To Sir with Love
2, 1996), Histórias de Coragem (Rescuers: Stories
of Courage), A Vida Imita a Arte (Picture Windows), The
Prince of Heaven, Cidade Nua, Natal Assassino (Naked City
& A Killer for Xmas,1998), todos de 1997, A Saintly
With (1999), e The Cat´s Meow (2002), entre outros
títulos. Como autor, Bogdanovich escreveu O Cinema
de Orson Weles (1961); O Cinema de Howard Hawks (1962);
O Cinema de Hitchcock (1963); Fritz Lang na América
(1967); John Ford (1968); Allan Dwan: O Último Pioneiro
(1971); Nacos de Tempo (1973) e Este é Orson Weles
(1992). Estas obras de Bogdanovich poderão enriquecer
o acervo dos cinéfilos interessados em iniciar-se
no estudo da Sétima Arte.
A
morte da princesa e a solidão da rainha
* LG de Miranda Leão
A idéia de filmar os
bastidores do Palácio de Buckingham, residência
dos soberanos ingleses desde 1837, após a tragédia
de Diana e a ascensão do trabalhista Tony Blair a
Primeiro Ministro, depois de quase vinte anos de governos
conservadores na Inglaterra, nasceu do próprio Stephen
Frears (1941- ), também trabalhista de longa data,
em conversas com o dramaturgo Peter Morgan, igualmente crítico
de Margaret Thatcher, a chamada Dama de Ferro. O roteiro
original a quatro mãos teve como ponto de partida
os registros de noticiários, revistas, artigos, reportagens
televisivas e até mesmo tudo quanto Frears e Morgan
puderam filtrar daqueles dias seguintes ao acidente fatal
em Paris, tanto da mídia britânica como de
países estrangeiros. De tudo isso resultou The
Queen, um bom filme, não uma preciosidade
cinematográfica, como o entenderam alguns críticos.
O
Diretor
Nascido
em Leicester na Inglaterra central, Frears não foi
cinéfilo em sua adolescência (aqui entendido
o termo como um fã de cinema bem informado), ao contrário
de muitos cineastas como Truffaut, Godard, Scorsese, Sautet,
Singer. Estudou Direito em Cambridge e logo encontrou afinidades
com o teatro. Consta ter-se interessado pela arte fílmica
depois de assistir a uma retrospectiva dos filmes de Carol
Reed, provavelmente de “O Condenado” (Odd Man
Out,1947), “O Ídolo Caído” (The
Fallen Idol, 1948), “O 3º Homem” (The Third
Man,1949) e “O Outro Homem” (The Other Man,1953),
todos eles jóias de cinema – “Veículo
por excelência da ilusão”, como Orson
Welles costumava lembrar.
Acaso favorável levou
Frears ao encontro com Karel Reisz (1926-), cineasta checoslovaco
fugitivo do nazismo e também crítico de cinema,
professor e autor de um dos livros mais importantes sobre
a montagem (The Technique of Film Editing, de 1953), leitura
obrigatória em qualquer curso de cinematografia ministrado
no estrangeiro. Reisz teve influência no free cinema
inglês, na esteira da nouvelle vague, do qual ele,
Lindsay Anderson, Albert Finney e Tony Richardson foram
seus principais pilotos. Influenciado por Reisz, Frears
terminou como assistente dele em “Morgan” (1966)
e do ator e diretor bissexto Albert Finney em “Charlie
Bubbles” (1967). Graças a Finney, Frears teve
êxito com seu “Detetive Particular” (Gumshoe,1971)
e aí não largou mais o cinema.
Durante quinze anos atuou
intensamente na TV britânica e vários desses
filmes, a exemplo das produções do mestre
alemão Egon Monk, foram exibidos em cinemas da Europa.
Frears recebeu elogios por “Adorável Lavanderias”
(My Beautiful Laundrette) (1985), quando abordou o ousado
tema do homoerotismo. Seu maior êxito até agora
foi a refilmagem de “Ligações Perigosas”
(Dangerous Liaisons) (1988), não necessariamente
superior à versão de Roger Vadim (1956), com
magistral p&b de Marcel Grignon. Seguiram-se-lhe os
razoáveis “Os Imorais” (The Grifters)
(1990), “Herói por Acidente” (Hero,1992)
e “Coisas Pequenas e Sujas” (Dirty Pretty Things,
2002).
A
Direção Cinematográfica
O
trabalho de Frears por trás das câmaras e junto
a Lucia Zuchetti, sua montadora, é dos bons, correto,
não escorrega no ritmo e na contextura e apreende
bem o clima psicológico das emoções
recônditas dos personagens centrais de Buckingham,
mas não há nenhum brilho criativo seu em matéria
de narrativa. No conjunto das imagens, sobressai a sensação
do déjà vu, tantas foram vistas à época:
os interiores do palácio, o assédio dos paparazzi
a Diana, sua visita ao Brasil, seu banho na piscina do Copacabana
Palace, sua bulimia, suas andanças pelo mundo, o
túnel do desastre em Paris, o documentário
sobre a cerimônia fúnebre, flashes, enfim,
de seu casamento frustrado com Charles e dos desentendimentos
sutis entre ela e a sogra a partir do divórcio. Igualmente,
as divergências entre os monarquistas e Tony Blair,
apenas esboçadas ou sugeridas pela mídia.
Frears preenche algumas lacunas, mas omite pontos controversos.
Assim, para quem acompanhou lances da vida de Diana, a fria
vivência com o marido, a paixão do príncipe
Charles por Camilla Parker-Bowles, e para quem leu o livro
do caso amoroso da princesa ou assistiu pela TV a cabo aos
noticiários nossos e às TV européias,
A Rainha trouxe pouca coisa de novo.
Frears deixa claro, no entanto,
o respeito de Elizabeth II a Blair, no tocante às
reformas por ele preconizadas no campo da educação
e nos projetos de caráter político e à
sua vitória estratégica por haver conseguido
sustar o declínio da monarquia, esta sempre alvo
das críticas de opositores quanto aos privilégios
dos soberanos e às despesas provenientes da Casa
Real e do imponente castelo de Balmoral na Escócia.
Blair também logrou neutralizar a má-vontade
dos súditos e o seu posicionamento hostil à
Rainha e francamente favorável à benquista
Diana, de grande empatia popular. Nesse sentido, louvem-se
os diálogos precisos caracterizados por sua incisividade
e a apreensão da ambiência psicofísica
dentro da qual viviam e conviviam todos quantos faziam o
Palácio, sua organização formal, os
aposentos silenciosos e assépticos e o seu protocolo,
aliás indispensável, mas para muitos a própria
personificação do ridículo. O posicionamento
de Frears claramente favorável à monarquia,
contrariando seu passado trabalhista, valeram-lhe muitas
críticas de republicanos.
Ressalte-se o plano de grande
conjunto (PGC) do ponto-de-vista do helicóptero em
vôo (o som dos rotores, é claro, fica desligado
durante a filmagem) sobre a cadeia verdejante de montanhas,
como se fosse um plano-seqüência, a lembrar-nos
dos mesmos movimentos das tomadas aéreas de John
Alcott na chegada do casal ao hotel mal-assombrado de O
Iluminado, de Stanley Kubrick (1980). Também
os lentos movimentos de câmara ao passar pela multidão
lá fora e captar a máscara da Rainha diante
das críticas deixadas nos cartões de condolências,
lágrimas contidas quando a garotinha lhe oferece
o buquê de flores. As imagens de Elizabeth II, quando
ela quebra peça importante da caminhonete, ao passar
pelas águas rasas do rio, parecem transmitir aquele
vazio ou sentimento indescritível de quem perdeu
alguma coisa muito cara e essa não voltará
jamais.
Fotografia,
Música e Elenco
Quanto
ao cinematographer brasileiro Affonso Beato (BSC), de prestígio
internacional, bastará ver seus exteriores do verão
inglês (quando a Rainha observa o cervo galheiro,
pois animais ainda são alvo de caçadores,
e depois quando o contempla morto, separado dos galhos)
e a iluminação noturna do seu quarto de dormir,
nem sempre ao lado do marido. A música de Alexander
Desplat é sempre oportuna e num volume por demais
consentâneo com o sentimento de tristeza daquele período
de luto. No concernente à condução
do elenco, Frears tem experiência para levá-la
a bom termo. Destacaríamos a própria Helen
Mirren (ganhou dois BAFTA, o Goya, o Volpi Cup e 1 Globo
de Ouro), atriz veterana e de participação
excepcional em As Loucuras do Rei Jorge, de Nicholas Hytner
(1994), Calígula, de Tinto Brass (1979) e Assassinato
em Gosford Park, de Robert Altman (2001), excluídas
aqui suas atuações meritórias na série
de TV “Prime Suspect”. O Oscar está em
boas mãos, embora tenhamos preferido Kate Winslet,
por entendermos um pouco mais difícil seu papel em
Pecados Íntimos. Mas ganhamos duplamente
com Martin Scorsese. Paul Barret atua como o fiel secretário
da Rainha e John Cromwell como o marido. Alex Jennings é
Charles, Sylvia Sims, a Rainha Mãe, Helen McCrory,
Cherie Blair. Só Michael Sheen nos pareceu um tanto
exagerado como Primeiro Ministro.
A ver decididamente.
Field
brilha no tema das emoções recônditas
*
LG de Miranda Leão
Talento
precoce para o teatro, a música e o cinema, Todd
Field (1964- ) começou sua carreira na arte fílmica
realizando vários curtas de qualidade (1992-95),
um dos quais, “Nonnie & Alex” (1993), fez
jus ao prêmio de Melhor Filme no Festival de Aspen
e o do júri no Sundance e ao Prêmio Franklin
Schaffner do “American Film Institute”. Também
logrou êxito nas bilheterias e junto à crítica
com seu longa de estréia, “Entre Quatro Paredes”
(In The Bedroom) (2001), concorrente aos Oscar de Melhor
Filme, Melhor Roteiro (dele mesmo e de Robert Festinger),
Melhor Atriz, Melhor Ator e Melhor Coadjuvante. Só
faltou a Field a indicação para Melhor Diretor.
Não levou prêmio algum.
Californiano,
pois nasceu na pequena Pomona, hoje cidade de porte médio,
tão logo terminou a High School, Field já
atuava em peças colegiais. Desistiu da universidade,
pois já participava de recitais e consertos como
músico, fã de um excelente clarinetista das
noites off Broadway chamado Woody Allen e de outros cobras
do jazz cool. Não admira tenha ele ido para Nova
Iorque trabalhar com o “ensemble” do Ark Theater,
daí sua ponta em “A Era do Rádio”
(Radio Days), do mesmo Allen (1987), a quem também
admirava como cineasta, e em papéis menores em “O
Sol do Paraíso” (Ruby in Paradise), de Victor
Nuñez (1993), “Twister” (1996) e “A
Casa Amaldiçoada” (The Haunting) (1999), ambos
do holandês Jan De Bont. Field apareceu ainda em “De
Olhos Bem Fechados” (Eyes Wide Shut), de Stanley Kubrick
(1999). Uma experiência enriquecedora, segundo ele
mesmo, foi ver como um mestre da estirpe de SK trabalhava
a direção de atores e orientava o cameraman
Larry Smith e equipe.
Pecados
Íntimos (Little Children) já
chama atenção pelo título original
(criancinhas), sugestivo de como somos todos, de certa forma,
crianças, incompetentes, contraditórios, pródigos
e avaros. O erro e a falha são o pão
diário do ser humano, já afirmava
o filósofo e matemático Emmanuel Lasker (1868-1941),
também ex-campeão mundial de xadrez. Já
desde a abertura do filme se percebe estar diante de quem
sabe e conhece o ofício: a câmara enquadra,
numa sala de estar, bibelôs nas estantes, figuras
de anjinhos barrocos, signos talvez de desejos infantis
não-realizados ou de algo recalcado ou reprimido,
e relógios de vários tipos e tamanhos, os
quais irão marcar de modo indelével as horas
de desespero e solidão de um dos personagens do drama
amargo e provocante, levado à tela por quem tem a
percepção das entranhas do “American
way of life”.
O
plot (ou enredo, numa tradução aproximada
referente ao arranjo dos eventos, conforme dispostos pelo
autor do livro, Tom Perrota, com roteiro dele mesmo e de
Field) se desenvolve em torno de um grupo de pessoas no
subúrbio residencial de cidade americana da classe
média, onde o tédio conjugal parece decorrer
da mesmice da vida de jovens e balzaquianas de uma comunidade
de fofocas, inveja e formas de afirmação ou
de passar o tempo. O maior divertimento é levar os
filhos menores para desfrutar a grande piscina municipal,
reunir-se com as companheiras do clube de leitura e às
vezes ir ao cinema. O foco de atenção das
esposas é o bonitão Brad (Patrick Wilson),
casado com Kathy (Jennifer Connelly) e por ela sustentado.
Embora
formado em Direito, Brad precisa passar nos exames anuais
da Ordem dos Advogados para poder exercer sua profissão.
Já fracassou duas vezes e agora se contenta em cuidar
do filho menor como se fosse uma babá e em levá-lo
para a piscina, quando o pai se torna alvo da avidez óptica
das mulheres casadas, pelo visto insatisfeitas sexualmente.
De fato, uma delas se queixa porque o marido não
notou como ela já estava dormindo durante uma relação;
uma outra determina a intimidade sexual num dia de semana,
a horas tais, etc. Kathy não quer acordar o filho
e tirá-lo da cama do casal criando com isso um elemento
inibidor na alcova. Sarah (Kate Winslet) surpreende o marido
Richard (Gregg Edelman) se excitando diante de um filme
pornográfico via computador...
A
vida dos casais entediados e dos amigos, a quem às
vezes visitam para uma troca de jantares, cruza-se com a
de um pedófilo (Jackie Earle Haley) liberado pela
justiça e arrimo de mãe idosa, doente e superprotetora.
A cena de sua entrada na piscina e sua expulsão é
uma construção de primeira. Aos homens restam
as provas de skate e o jogo de rugby com amigos à
noite, um dos quais, o ex-policial Larry (Noah Emmerich),
personificação da paranóia e da intolerância,
foi reformado por crime culposo. Há cenas de sexo
de forte impacto, com o casal despido visto de costas em
pé, quando a lavanderia vira alcova, e noutra posição
ousada, e depois quando Sarah pede uma “reprise”.
Mas nada causa mais espanto nessa matéria depois
daquele abominável 9 Canções, assinado
em má hora por Michael Winterbottom (cf. Código
46), o qual se resume a um casal jovem trancado num apartamento
a intercalar sexo quase explícito com maçante
concerto de rock. Kitsch da pior espécie.
Há
também ousadias nos diálogos, como no encontro
com as senhoras do grupo de leituras, quando até
uma sugestão de sodomia foi encontrada nas entrelinhas
de Madame Bovary, obra clássica de Gustave Flaubert.
A opinião de Sarah é contundente e irrespondível,
feminista e libertadora. O jogo dos acasos vai decidir o
surpreendente fecho desta comédia dramática,
tornada marcante pela frase do narrador em off, aparentemente
banal: “O passado não pode ser modificado,
mas o futuro pode ser escolhido”. De fato,
não medimos bem as conseqüências dos nossos
atos e, quando o fazemos, incidimos em equívocos
ou esquecemos o acaso imprevisível capaz de pôr
tudo a perder. Como lembra o Cap. Murphy, “se algo
puder dar errado, fique certo de que dará”.
A carta de Brad não será lida e a preocupação
de Sarah ao colocar o cinto de segurança na filha
diz muito em apenas poucas imagens.
Louvem-se
os méritos de Field, um diretor a quem doravante
cabe acompanhar a carreira. Admirador de Truffaut, donde
a oportuna narração em off, revela competência
não só na planificação e na
contextura, mas também na integração
das quatro características do veículo: a luminosidade
(para transformar o elemento mais banal do quotidiano mediante
a eficácia da linguagem na luz), o realismo (a impressão
de realidade da qual resulta a verossimilhança, até
de detalhes aparentemente sem valor), o movimento (andamento
rápido das ações, timing nas elipses,
corte de tudo quanto não for essencial, precisão
no tempo de permanência das imagens na tela) e finalmente
a montagem (ou edição, termo mais abrangente),
com a qual se combinam elementos díspares de espaço
e tempo para formar um todo unificado.
A
fotografia em cores de Antonio Calvache nos exteriores diurnos
ou noturnos, dentro e fora de quartos e salas, no uso da
câmara semilenta na disputa do rugby, eleva o nível
técnico do filme. Alguns close-ups nos pareceram
desnecessários, assim como a divisão da tela
em duas para vermos mãe e filha falando ao fone ao
mesmo tempo. Mas o manejo perfeito da steadicam, a cargo
de Michael Caraciolo, quando Sarah e sua amiga caminham
apressadas subindo a rampa e são vistas de costas,
lembra a recusa de Resnais em Hiroshima Mon Amour,
em seguir o tradicional plano/contraplano, daí colocar
os falantes sempre um ao lado do outro, os dois em cada
ponta ou ambos de costas. Field aproveita a lição
aqui. A música do Thomas Newman complementa momentos-chave
com muita sensibilidade.
Elenco
impecável, com Kate Winslet cada vez melhor
(teria sido nossa premiada com o Oscar). Jenniger Connelly
tem momento inspirado quando percebe algo entre o marido
e Sarah e deixa cair o garfo no chão para ver como
anda o jogo de pernas sob a mesa. Indicado por Kate, Brad
Wilson é agradável surpresa como o marido
desempregado, dependente e vulnerável, capaz de extasiar-se
diante dos skates dos garotos, como se fosse um deles, a
ponto de esquecer sua decisão mais importante. Igualmente,
Noah Emmerich no seu encontro, ele o acusador histérico
e preconceituoso, com o pedófilo no final, momento
tocante e dos mais significativos de todo o filme. Jackie
Earle Haley (a quem premiaríamos como ator coadjuvante)
faz um pedófilo à perfeição,
ora transmite repulsa, ora pena e compreensão. Exemplar
é o desfecho de sua cena no carro com a solteirona
neurótica, ela também vitima de abuso sexual
na infância. Palmas para o casal de pirralhos, Lucy
(Sadie Goldstein), a filha de Sarah, e Aaron (Ty Simpkins),
o filho de Brad. Raras vezes se vê tanta espontaneidade
de dois pequeninos como agora, naturalmente decorrência
de um diretor paciente e do uso de câmaras ocultas.
Para
nós, até o momento, Pecados Íntimos
é o melhor filme da recém-iniciada temporada
de 2007. Recebeu 3 indicações ao Oscar, outras
3 ao Globo de Ouro e o BAFTA de Melhor Atriz para Kate Winslet.
A
ver e rever, decididamente.
Olhar
de Monique Reforça Qualidade do Cinema Nacional
*
LG de Miranda Leão
Monique
Gardenberg, baiana de nascimento, e com muito orgulho,
é uma das nossas competentes mulheres cineastas,
tendo chamado atenção para seu talento em
medrança nos seus dois primeiros filmes, Jenipapo
(1996) e Benjamin (2002), películas
sobre as quais não tivemos oportunidade de comentar.
Neste seu 3º longa, produção da Dueto
Filmes/Europa Filmes/Globo/Filmes/ Paula Lavigne e patrocínio
da ANCINE e da PETROBRÁS, com roteiro baseado em
peça de Márcio Meirelles e por ela mesma adaptado
para o cinema, a cineasta enfoca em 98 min os três
dias de carnaval na Bahia e traça um painel sobre
o bairro do Barroquinho, logo abaixo do Pelourinho, ponto
de atração turística em Salvador.
Nesse painel multifocal, pobres,
negros, mulatos e até mesmo brancos, alegres ou tristes,
divertidos ou brigões e fofoqueiros, mas antes de
tudo seres humanos, vivem suas vidas ou simplesmente existem.
Enfrentam todos o dia-a-dia das classes menos privilegiadas,
e um grupo deles está às voltas, naquele período
ficcional, com falta d'água porque a dona do modesto
prédio, D. Joana (Luciana de Souza), fechou o registro
devido ao atraso no pagamento das contas do mês pelos
moradores.
Monique capta bem essa tipicidade
do local, sua tradições, rituais carnavalescos,
comida, sincretismo religioso, construções
de tempos idos ainda de pé, suas baianas e até
o misticismo de falsos pastores e curandeiros exorcistas
de demônios... Nesse quadro geral da vida baiana não
há naturalmente história ou enredo clássico,
mas, sim, imagens de incidentes na existência de várias
pessoas e estas se entrelaçam no linguajar giriesco
e desbocado, na entoação, no ritmo dialetal
e nas suas grandezas e misérias.
Destacam-se desse painel quatro
personagens: Roque (Lázaro Ramos), Boca (Wagner Moura),
Psilene (Dira Paes) e "seu" Jerônimo (Stênio
Garcia). Todos batalham pela sobrevivência de qualquer
maneira, enquanto "seu" Jerônimo tem seu
próprio negócio de antigüidades e até
age discretamente como agiota (veja-se quando aceita a proteção
do cabo da polícia em troca da vigilância preventiva
em suas portas).
Psilene havia regressado de
sua estada na França e prefere falar de Paris, euros
e das refeições nas quais o caviar é
boa pedida. Só não se sabe até onde
mente, embora possa deixar nas entrelinhas a impressão
de ter sido mais uma dessas brasileiras iludidas em busca
de melhores dias fora do País. Umas terminam como
amas ou serviçais de cozinha, outras como prostitutas
ou amantes passageiras de velhos obcecados por mulheres
brasileiras sexualmente liberadas.
Monique demonstra domínio da linguagem na abertura
do filme, quando Rosa (Emanuelle Araújo), insinuante,
esbelta, vai-se chegando ao Roque, vinda da rua, e lhe mostra
os seios para uma pintura de carnaval. O trabalho do pintor,
instrumento à mão, e a expressão da
moça enriquecem o erotismo subjacente da cena.
Há momentos criativos
quando Monique silencia as falas de Boca e Roque, ambos
se comunicando por sinais em plena rua, o primeiro de dentro
de um carro já bem batido, e deixa o espectador atento
a imaginar sobre qual será a viração
deles para comprar, vender ou pagar alguma coisa. A discussão
ou quase briga entre os "irmãos" Roque
e Boca mais adiante, término da conversa anterior,
está bem encenada, máxime quando o estigma
de ser negro encontra a resposta cabal do agredido. O palavrão
de Boca é quase um arremate desse entrechoque entre
eles.
Pequenas
falhas, ou escolhas a nosso ver inadequadas, como os desfocamentos
de imagens e o abuso de primeiros planos, recurso típico
da linguagem televisiva, não arranham as qualidades
de conjunto de mais um bom filme desta renovação
qualitativa do nosso cinema, como já nos referimos
em relação a "Cabra Cega", de Toni
Venturi, "Quase Dois Irmãos", de Lúcia
Murat, "Zuzu Angel", de Sérgio Rezende,
e "Abril Despedaçado", de Wálter
Salles, entre outros êxitos.
O
desfecho via plongées sobre o bairro para fixar-se
nos dois garotos mortos em plena rua, quando as imagens
mostram praticamente em silêncio todos os amigos e
conhecidos ou meros transeuntes irmanados na dor, é
um achado de Monique para concluir seu meritório
labor.
Elenco, luz e música
Os atores estão bem
afinados. Lázaro Ramos cita até um verso de
Fernando Pessoa e procura não ser o mesmo de outros
filmes, enquanto Wagner Moura usa máscaras e falas
coloquiais dignas de encômios, parecendo mesmo outra
pessoa - um senhor Ator de Cinema.
Emanuelle Araújo no
papel de Rosa transmite bem a sensualidade da mulher brasileira
em seu requebro e nas expressões do olhar, capazes
de dizer quase tudo e mais alguma coisa. Não esteve
à vontade o veterano e bom intérprete Stênio
Garcia (recorde-se sua "performance" extraordinária
como o Aleijadinho na série de TV), em participação
menor. Dira Paes exagera nas falas, entoação,
risos e volume da voz, como a calçar suas conversas
sobre a proveitosa estada na Europa. Quando tudo termina,
há uma deixa para seu retorno, só não
se sabe em qual situação...
Monique trabalha com o humor
mas também com as ironias de situação
e o subtema político-social. A direção
fotográfica a cargo de Eduardo Miranda atende bem
às necessidades da luz tanto nos interiores noturnos
como no aproveitamento de cenas documentais do carnaval
(aparece até mesmo Daniela Mercury num palanque)
e aí a resolução não é
mais a mesma. A música de Caetano Veloso entra bem
nos momentos apropriados.
Entrevista da cineasta
Não poderíamos
deixar de resumir o pensamento de Monique Gardenberg
em recente entrevista. Para ela, em cinema, não basta
ter talento ou sensibilidade. Também não é
preciso fazer propaganda para chegar ao grande público,
chamar atenção para seu filme diante de tantas
produções americanas e de espectadores viciados
na produção hollywoodiana. Importa saber comunicar-se
com as platéias e induzi-las a prestigiar o nosso
bom cinema.
Estamos aprimorando cada nova
realização. Um dia chegaremos lá. Monique
ainda bate na tecla do preconceito injustificável
por parte de muitas pessoas, ligadas ou não ao cinema:
preconceito contra a Globo Filmes e à produção
substancial de Paula Lavigne. De fato esse posicionamento
não se justifica nem ajuda o cinema brasileiro nesta
redescoberta de novos caminhos. Tampouco se entende a crítica
ao sotaque ouvido durante o filme. Já fazemos um
cinema sério para ser prestigiado pelo espectador
da casa, acrescentamos nós a título de fecho.
Por isso mesmo, não hesitamos em recomendar o filme
de Monique à atenção dos cinéfilos.
 |
Sementes
da nossa violência
* LG de Miranda Leão
Produção
da Moonshot Pictures/Movie & Art/Mact Productions/Globe
Films/Paramount Pictures, com distribuição
desta, Última Parada 174, dirigida
por Bruno Barreto, reconstitui ficcionalmente os trágicos
eventos tratados no documentário Ônibus 174,
de José Padilha (2002), e sai-se bem da difícil
empreitada.
Lamente-se
apenas o fato de Barreto e o roteirista Bráulio Mantovani
(de “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite”)
terem ignorado o estúpido assassinato da professora
cearense Geísa Gonçalves, usada como escudo
pelo seqüestrador e morta apenas por estar dentro do
ônibus fatídico, um desses acasos desfavoráveis
da vida de todo dia. Não é possível
crer em predestinação, quando nos lembramos
dos fornos crematórios, das experiências diabólicas
de um monstro como o Dr. Mengele, dos milhões de
vítimas de outros regimes sanguinários, como
o de Stalin, ou do massacre da Armênia Ocidental pela
política de extermínio dos turcos (1895-96,
1915-16), isso para só ficarmos nestes registros
de um mundo à deriva.
Sinopse
Lançado
primeiramente no Festival de Toronto, Última
Parada 174 tem qualidades e dispensa maiores comentários
sobre o roteiro consentâneo com a realidade do quotidiano
de nossas metrópoles e até mesmo com a de
cidades menores. Como bem afirmou o próprio Bruno
Barreto, os conflitos aqui são clássicos (relações
entre mãe em busca do filho e entre os nascidos na
miséria, vítimas da injustiça social
e sem perspectivas). Claro, nem todos quantos vivem à
margem da sociedade ou da lei, como mendigos, viciados,
ou desempregados, se tornam delinqüentes, assaltantes
e assassinos, mas o caldo de cultura esta lá e dele
nascem as sementes da violência e do crime.
O
roteiro enfoca os descaminhos de Sandro (Michel Gomes) e
Alê Monstro (Marcelo Melo Jr.) em luta pela sobrevivência
no mundo marginal, e a tentativa da mãe do garoto
(ela é personagem criada por Mantovani) de encontrar
seu filho, um dos sobreviventes do massacre da Candelária
em 1993 por policiais militares. Mundo cão! Nele
se desenrolam os eventos desse drama familiar e urbano até
o final sem solução à vista.
Direção
fílmica
Não
há dúvida: a violência e a miséria
exercem um certo fascínio sobre nossos cineastas,
mas isso não constitui demérito, contanto
não se prendam a fórmulas gastas ou personagens
estereotipados. Não é o caso desta feita.
No
plano do conteúdo, Barreto e seu roteirista parecem
querer relativizar ou contextualizar os valores de uma urbe
caótica na qual todos somos de alguma forma vítimas.
No plano da expressão, o cineasta controla bem as
imagens-movimento, a tensão resultante dos conflitos
e o ritmo com qual os acidentes avançam até
o desfecho. Alguns reparos podem ser feitos no tocante aos
palavrões e expressões chulas, típicas
do meio retratado, mas repetidas “ad nauseam”
sem necessidade.
Cenas
fortes de sexo e de violência poderiam ter sido encurtadas
e os dois operadores da “steadicam” reduzido
o treme-treme para não dar a impressão de
pressa para terminar... Por outro lado, são expressivas
as cenas com as imagens-rosto de mãe e filho, ambos
em silêncio sugestivo de muita coisa. Barreto evita
o excesso de cortes e encontra soluções inteligentes
nos movimentos de câmara e em angulações
capazes de redimensionar seus enquadramentos.
Foto,
elenco, música
A
fotografia do mestre francês Antoine Héberlé
nos parece irretocável. O elenco está bem
conduzido, sobretudo os dois protagonistas, bem assim Chris
Vianna (Marisa) e o garoto Sandro (Vitor Carvalho).
As
figuras do pastor demagogo e da funcionária da ONG
têm expressão ambígua, mas não
chegam a comprometer. A trilha sonora de Marcelo Zarvos
contribui para emoldurar instantes significativos.
Quem
é Bruno Barreto
Carioca
nascido há 53 anos, BB é visto como o mais
bem sucedido cineasta brasileiro no exterior. Sofreu desde
cedo a influência de seu pai, Luiz Carlos Barreto,
fotógrafo de méritos da revista “O Cruzeiro”
(seu álbum de recordações consegue
captar JK numa tarde fria em Paris) e “cinematographer”
de “Vidas Secas”, de Nélson Pereira dos
Santos (1964) e de “Terra em Transe”, de Glauber
Rocha (1967). BB começou rodando curtas em 16 mm
e aos 17 anos já tinha feito “Tati, a Garota”
(1972). Vieram depois “A Estrela Sobe” (1974),
o sucesso bilhetérico de “D. Flor” (1976),
“Amor Bandido” (1978), “O Beijo no Asfalto”
(1980), “Gabriela” (1982), “Além
da Paixão” (1984), “Atos de Amor”
(Carried Away) (1995), seu melhor filme a nosso ver, com
atuação primorosa de sua ex-mulher, Amy Irving
(chegamos a cumprimentá-lo por isso pessoalmente
aqui mesmo, em Fortaleza), o polêmico “O Que
É Isso Companheiro” (ou “Four Days in
September”) (1997), finalista na disputa pelo Oscar,
“Bossa Nova” (2000) (seu filme mais fraco) e
“Voando para o Alto” (A View from the Top) (2002).
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