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Meu Nome não é Johnny
"O Cinema cria imediatamente uma direção para a vista, que é um sentido eminentemente abstracionista, e uma fantasia para a imaginação".
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De Novo, Drogas & Cia...

* LG de Miranda Leão

     'Meu Nome não é Johnny', dirigido por Mauro Lima, tenta igualar-se ao cinema brasileiro de bom nível, na linha de filmes assinados pro cineastas como Walter Salles, Bruno Barreto, Cacá Diegues, José Joffily, Monique Gardenberg, Eliane Caffé, Aluizio Abranches, Fernando Meireles, José Padilha, Lúcia Murat, Toni Venturi, Domingos Oliveira e Ugo Giorgetti, e os estrangeiros abrasileirados Hector Babenco e Jorge Duran, para só citarmos estes nomes vindos à lembrança.

     Após uns dez minutos de propaganda de guaraná, avisos de uma voz de falsete e de 'trailers' mal montados (quem os viu não precisa mais assistir aos próximos lançamentos pois incluem cenas do começo, meio e fim), todos com trilha em volume neurotizante da Dolby Digital, eis-nos diante deste segundo longa de Mauro Lima, cujo tema central e seus desdobramentos não se contrapõem a Tropa de Elite ou mesmo a Cidade de Deus, antes lhes serve de complemento, pois o problema do tráfico de drogas e da violência é inerente aos três.

Sinopse

     O roteiro, do diretor e da também produtora Mariza Leão, se inspira em obra homônima escrita pelo jornalista Guilherme Fiúza em 2004, baseada na história real de João Guilherme Estrela (atualmente compositor e produtor musical), traficante de cocaína nos anos 90, quando, segundo ele mesmo, 'todo mundo cheirava, desde ministros, políticos e cantores do pop nacional'. Como o livro é uma narrativa só, os diálogos foram naturalmente recriados pela dupla, ouvindo-se muitas vezes o próprio João Guilherme. O filme abre com as palavras da juíza e a prisão do traficante veiculada em manchetes de jornais e nos noticiários de rádio e tevê. A mãe (Júlia Lemmertz), entre surpresa e horrorizada, contempla o retrato do filho. Daí em diante, o foco se concentra, em retrospecto, na vida de João Guilherme, indo da infância à pré-adolescência, problemas no colégio, traquinadas, até ao jovem adulto viciado e depois traficante na zona sul carioca, maximé na classe média alta à qual ele pertencia. Como chegou até aí ? O filme não responde a todas as indagações. Nem poderia. As imagens falam, os hiatos podem ser supridos não só pela obra citada como pela longa entrevista de JGE transcrita na imprensa. No subtexto ficam a advertência em relação ao perigo das drogas e a denúncia da corrupção e violência policial, enquanto as imagens- significantes nos remetem à vida de presídios miseráveis, onde criminosos irrecuperáveis convivem com delinqüentes e ratazanas, promiscuidade e imundície até mesmo no inferno dos manicômios judiciais. O realismo possível, captado pelas imagens-movimento, pode ser visto e ouvido nesse submundo de marginais, no linguajar giriesco, na entonação, nos palavrões, na prostituição, num quadro desanimador sugestivo da falência do sistema penal.

Direção fílmica

     A direção de Mauro Lima é expedita, diligente, busca transmitir a impressão de realidade, como no espancamento de um delator por integrantes do Comando Vermelho. O 'telefone' e o soco nos rins de João, durante o interrogatório, dão bem idéia de como um preso está desamparado. Mas o resultado de conjunto poderia ter sido outro. Faltou-lhe dar maior densidade ao personagem central. Embora Selton tenha querido, como afirmou, distanciar-se do JGE para criar seu próprio personagem, este se revela incapaz de perceber a proximidade perigosa das drogas, como se todo seu comportamento fosse mera brincadeira de jovens adultos irresponsáveis. Como bem lembra o crítico Jerônimo Teixeira, o João do filme parece não entender a gravidade de seus atos, tampouco sabe como preservar a riqueza adquirida com o tráfico da coca. Com grande fortuna em mãos, queima todo o acumulado em orgias ao lado da amante. Certas cenas até tangenciam o humorístico... ML também carece de maior experiência pois o treme-treme da steadicam sugere desconhecimento desse equipamento, enquanto a viodeoclipagem contribui para o excesso de cortes.

Foto, elenco, música

     A fotografia de Uli Burtin capta com precisão o clima nascido da violência dos acontecimentos e provê instantes bucólicos em Barcelona e na gôndola de Veneza. Muito bom se revela mais uma vez Selton Mello, jovem ator capaz de dizer suas falas com incrível rapidez e espontaneidade. Cleo Pires veste boas máscaras nos seus acertos e desacertos com o amante e os usuários da fauna de viciados. Júlia Lemmertz encarna a mãe sofredora e talvez omissa. Cássia Kiss, Eva Todor e André de Biase são destaque entre os coadjuvantes.

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