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"O Cinema cria imediatamente uma direção para a vista, que é um sentido eminentemente abstracionista, e uma fantasia para a imaginação".
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Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal

* Rubens Ewald Filho

     Não gosto de ler nada sobre a história dos filmes antes de assisti-los, e abomino a prática dos blogs e sites de insistirem em contar detalhes do enredo, antes dele estrear. É puro estraga-prazer, por vezes atrapalhando, e até destruindo, a graça de se descobrir, na sala escura do cinema, as surpresas e reviravoltas das tramas dos filmes. Portanto, se você pretende ver o novo (e quarto) “Indiana Jones”, já vou informando que o filme é ótimo, divertido, movimentado, cheio de ação, auto-referente (lembra todos os anteriores e abre caminho para futuras continuações), e toma todas as decisões corretas.
     Embarquei de cabeça e me diverti completamente, como os autores pretendiam, como se estivesse numa matiné dos meus tempos de criança (a diferença era o saco de pipoca, que naquele tempo era proibido!).
     Spoilers - Deixe o resto para ler depois de ver o filme, já que não posso deixar de comentar alguns detalhes.
     Não é nada constrangedor ver Harrison Ford, aos 65 anos, voltar a fazer um filme de ação. Embora tudo seja levado com bastante humor, ele luta, briga, apanha, dá socos, sem nunca parecer ridículo ou obsoleto (nem mesmo a ocasional substituição por um dublê, em cenas mais perigosas, chega a atrapalhar). Defende com galhardia o personagem de Indiana Jones, agora em 1957, nos EUA de Eisenhower, onde a ameaça dos comunistas soviéticos está deixando todo mundo paranóico, chegando a lhe custar o emprego de professor universitário.
     O filme começa com uma citação de “American Graffiti”, com um racha no deserto, e uma surpresa, quando ele se vê no meio de uma explosão nuclear (depois disso, já se sabe que ele é capaz de sobreviver a tudo!).
     Os inimigos logo se revelam: a vilã é uma russa ucraniana que, deseja ter poderes paranormais e lembra as bandidas de antigamente, quando elas não tinham qualquer sentimento redentor.
     Irina Spalko é pérfida assumida e, em momento algum cai na caricatura, graças à presença carismática de Cate Blanchett. Ela quer algo de Indiana e fará tudo para conseguir, inclusive subornar um antigo amigo que virou traidor (Ray Winstone, como Mac). E começam as referências: ao Caso Roswell, ao próprio “Caçadores da Arca Perdida”, a aqueles antigos filmes de testes da bomba atômica e, mais tarde, de “Contatos Imediatos”, “ET”, “Tarzan”, “O Selvagem da Motocicleta”, de Marlon Brando (Shia é motoqueiro), musicais de Elvis Presley e, naturalmente, aos antigos seriados dos anos 30 e 40.
     Sabe-se que custaram a fazer essa continuação (dá para acreditar que já se passaram 19 anos desde o ultimo episódio! Foi em 1989. Credo, como o tempo passa...) porque não gostaram - melhor dizendo, o produtor George Lucas não gostou - dos roteiros escritos por M.Night Shyamalan, Tom Stoppard e Frank Darabont (que diziam ser muito bom). Quem acabou acertando foi David Koepp (“Zathura”, “Guerra dos Mundos”, “Homem-Aranha”, “Quarto do Pânico”). Sua solução foi contar com a cumplicidade da platéia, que percebe e entende as referências (o medo de cobras, Indiana tentando usar o revólver, como no primeiro filme, e assim por diante).
     Infelizmente, a própria escalação do elenco já revela uma novidade, nada surpreendente.
     Retorna Karen Allen, que foi a namorada de Indiana - Marion Ravewood -, no primeiro filme. E como ela tem um filho jovem/adulto (Shia) não é difícil matar a charada. De qualquer forma, esse relacionamento acaba dando charme e humor ao filme, e parece ser a base de uma futura continuação (ao que parece, Indiana ainda não está disposto a passar o chapéu).
     Não espere muita verossimilhança na aventura. Pelo filme, as cataratas do Iguaçu (nunca mencionadas, mas parte importante na história) ficam no meio da selva amazônica. Mas, para que serve um velho túmulo, cheio de riquezas, a não ser para desmoronar, provocando uma fuga desesperada? Todos os clichês - ou momentos clássicos, se preferirem - estão presentes e ainda funcionam. Porque a gente já entra no cinema disposto a curtir, torcer e vibrar com as façanhas rocambolescas do velho herói.
     Alguns reclamaram do filme invocar temas que parecem saídos de “Eram os Deuses Astronautas?”. Mas achei muito lógico porque, afinal de contas, é um filme de Spielberg, o cara que praticamente inventou o gênero de fantasia com “ET” e, antes dele, “Contatos Imediatos”.
     Sabe-se também que Sean Connery se recusou a sair da aposentadoria, para reviver o personagem do pai de Indiana, que no filme é dado como morto, assim como o Dr. Marcus Brody - embora, nesse caso, Denholm Elliott, o ator que o interpretou, tenha realmente falecido. De qualquer forma, é uma homenagem adequada. Como o fotógrafo dos três filmes anteriores, Douglas Slocombe, já faleceu também, o sucessor, Janus Kaminzki, que tem feito os filmes recentes de Spielberg, procurou imitar seu estilo de iluminação, que lembra as antigas histórias em quadrinhos. Por isso não quis usar a técnica digital, profetizada pelo produtor Lucas.
     São detalhes que ajudam a apreciar melhor o filme - que continua contando com a trilha musical de John Williams - que não fica nada a dever aos anteriores. Divirtam-se!

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal
(“Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull” - EUA - 2008 - 124 min.) Direção: Steven Spielberg Produção: George Lucas Com: Harrison Ford, Karen Allen, Ray Winstone, Cate Blanchett, Shia LaBeouf, John Hurt e Jim Broadbent
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Charlton Heston

Morre o ator dos papéis memoráveis

* Rubens Ewald Filho

     A morte de Charlton Heston, sábado 5 de abril, aos 84 anos, foi o fim melancólico daquele que foi um dos maiores astros de cinema de nossa época. Seu nome era Charlton (Mr. Heston), mas podem chamá-lo de Moises, Ben Hur, ou João Batista que também dá certo.

     Seu rosto parecia ter sido feito especialmente para interpretar papéis de personagens clássicos ou heróicos; foi um dos poucos atores de cinema que parecia convincente usando uma tanga ou uma saia curta, ou qualquer roupa de época. Ninguém duvidava de sua macheza, ninguém questionava sua identidade. Não é à toa que seu descobridor, Cecil B. De Mille, dizia no trailer de “Os Dez Mandamentos” que tinha achado Charlton parecido com a estátua que Michelangelo havia feito de Moisés e, por isso, o havia escolhido.

     Numa longa carreira, de mais de 50 anos e cem filmes, Charlton foi um dos poucos atores de sua geração que continuaram atuando, sendo conhecido até pelos jovens. Até numa recente festa do Oscar, ele estava na platéia sendo homenageado, porque o vencedor era “Gladiador”, parecido com o tipo de filme que ele costumava fazer.

     Também foi muito criticado porque, durante muito tempo, Charlton foi porta-voz da associação que defende o direito dos norte-americanos portarem armas, o que foi muito contestado diante dos excessos dq violência nos EUA, ainda mais entre jovens.

     Nunca perfeito, Charlton Heston continuou a ser uma lenda, mesmo que nos últimos anos; nos últimos anos tinha graves problemas para andar, caminhava mancando e com dificuldade.

     Para mim, a imagem que fica é a de quando o entrevistei na praia, em Cannes, durante o lançamento de “Hamlet”, de Kenneth Branagh, e ele começou me recitar trechos de Shakespeare, ainda majestoso, com sua voz ressonante. Impressionante; ele era grande conhecedor de Shakespeare, ainda mais para alguém que já estava doente (e não sabia).

     Nascido John Charles Carter em Evanston, Illinois em 4 de outubro de 1924, tornou-se Heston por causa do sobrenome de seu padrasto. Foi cursando a Universidade Northwestern que ele descobriu a vocação para ator e, ainda na escola, conheceu sua mulher, também atriz e com quem viveu até morrer, Lydia Clarke. Depois de servir três anos o serviço militar, começou fazendo televisão e dois filmes semi-amadores, “Peer Gynt” (1941) e uma versão de Julio César (1950), quando foi descoberto pelo produtor Hal Wallis, que o amarrou a um contrato exclusivo e o levou para a Paramount, onde estreou em “Cidade Negra” (‘Dark City‘), em 1950, já num papel central - o de um cínico veterano de guerra, envolvido num complicado esquema de traições e vigarices.

     Foi fazendo esse filme que Heston foi descoberto no estúdio por De Mille, que o colocou num papel central de sua superprodução “O Maior Espetáculo da Terra” (‘The Greatest Show on Earth‘ -1952). Ele fazia o gerente do circo, que controla todos os números e conquista o amor da mocinha, Betty Hutton. A fita deu a De Mille o único Oscar que ele ganhou em sua vida, e transformou Heston num nome famoso.

     Ainda que tenha passado a maior parte de seu contrato com a Paramount fazendo filmes de ação, foi novamente De Mille quem veio em seu socorro em 1956, quando o transformou em Moisés no célebre “Os Dez Mandamentos”, devidamente maquiado, com barba e cabelo grisalho, porque o personagem começava jovem e terminava maduro.

     Na verdade, a história começa com Moisés menino, e quem fez o papel do bebê foi justamente Fraser, o filho de Charlton, que mais tarde se tornaria competente diretor de cinema. Mas era um papel difícil; era preciso tornar convincente um diálogo cheio de frases grandiosas e, ainda por cima, não ser superado pelos efeitos especiais. Outro marco de sua carreira viria logo depois, em 1958, quando o próprio Heston sugeriu à Universal que desse uma chance para Orson Welles dirigir “A Marca da Maldade”, um filme policial, noir mesmo, que ele realizou dentro do orçamento e de forma brilhante, mesmo que o estúdio tenha mexido um pouco no filme, e só recentemente pudemos ver a versão restaurada. Heston faz o papel de um mexicano, Mike Vargas, que se casa com a americana Janet Leigh, e tem que enfrentar um corrupto policial americano. Mas é a maneira com a qual o filme é encenado que o torna tão excepcional.

     No ano seguinte, depois de fazer uma aparição amigável em “Corsário sem Pátria” (‘The Buccaneer’ - 1958) - canto de cisne de De Mille como produtor -, Heston conseguiu o papel de sua vida. Dizem que o diretor William Wyler tinha pensado antes em Rock Hudson, e chegou a fazer outro filme com Heston, antes de se decidir. Mas ele foi o “Ben-Hur“(1959) perfeito.

     É verdade que podia não parecer judeu como o personagem exigia, mas sua presença tinha uma força, uma bravura, uma decência, e também uma figura atlética que tornou o herói convincente, e ajudou o filme a se tornar campeão em número de Oscars - 11 no total - um recorde apenas igualado por “Titanic” (1997).

     E não podemos esquecer a fantástica corrida de bigas, uma das cenas mais espetaculares do cinema, onde Heston realmente chegou a arriscar a vida em momentos inigualáveis.

     Dali em diante, bem que ele tentou diversificar. O Telecine Classic exibiu uma de suas experiências em comédia, a divertida “O Pombo que Conquistou Roma” (‘The Pigeon That Took Rome‘), com Elsa Martinelli, de 1962. Mas eram meros intervalos entre outros filmes e papéis espetaculares, como o lendário Rodrigo Díaz de Vivar, “El Cid” (EUA - 1961), no filme de Anthony Mann, onde realizava a proeza de ser herói mesmo depois de morto. O filme, só hoje em dia, foi reavaliado como um dos maiores épicos já feitos pelo cinema, inclusive com cenas de amor líricas, ao lado de Sophia Loren.

     Para o diretor George Stevens ele foi São João Batista, em “A Maior História de Todos os Tempos” (‘The Greatest Story Ever Told’ - 1965), uma participação relativamente pequena, mas que deu prestígio a outro épico religioso.

     Para muita gente, entretanto, Heston será lembrado por “Planeta dos Macacos” (‘Planet of the Apes’), na primeira e ainda melhor versão, de 1968, um dos grandes clássicos do cinema de ficção científica. Na recente versão ele chegou a fazer uma ponta, como o pai do vilão.

     O fato é que, depois de 50 anos de papéis memoráveis, Heston acabou vindo filmar em Manaus e, vejam a ironia, seu último filme foi rodado no Brasil e continua inédito aqui (porque, aparentemente, é ruim): “My Father, Rua Alguém 5555” (2003), onde ele fazia o nazista Josef Mengele.

     Foram cinqüenta anos de imagens inesquecíveis, em alguns dos filmes mais populares de todos os tempos, e tudo isso estragado por seu conservadorismo, e por uma aparição desastrosa em “Tiros em Colombine” (2002), onde revelava suas idéias reacionárias. Mas, certamente, naquela ocasião ele já estava afligido pela doença, ou seja, não raciocinava mais direito (pouco tempo depois, a família anunciou sua aposentadoria, e ele nunca mais apareceu em público).

     Uma lástima que esse deslize final obscureça uma carreira notável.

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A difícil vida a dois…

* LG de Miranda Leão

     Com O Passado, o cineasta argentino Hector Babenco brinda-nos com aula de bom cinema e também de competência na adaptação para a tela do romance hormônimo de Alan Pauls, há pouco lançado no País. Trata-se de co-produção Argentina - Brasil com suporte da HB Filmes, WB, K&S, Santander, Ancine e Petrobras. Filme para ver e refletir

     Babenco lida agora com tema polêmico roteirizado por ele mesmo: aquele segundo o qual o casamento monogâmico inibe a liberdade e a sensualidade da vida a dois. Ou seja, a união de duas pessoas de sexo diferente para a posse recíproca de suas faculdades sexuais durante toda a vida é uma impossibilidade. Para Freud, colocar homem e mulher, duas matrizes neuróticas, sob o mesmo teto, cada qual com formação e visão de mundo diferentes, enfrentando o desgaste do dia-a-dia, é destiná-los a uma falência na adaptação, a um fracasso na sua realização como indivíduos. Além disso, uma leitura dos diálogos e dos eventos ocorrentes e a das imagens–significantes demonstram como não conseguimos desligar-nos do passado, como somos o resultado direto de tudo quanto fomos e assimilamos ao longo dos anos. Por isso, pouquíssimos casais resistem ao poder avassalador do tempo assassino, quando não vivem de aparências para alimentar as colunas sociais…

Sinopse

     O enredo se concentra nos encontros e desencontros afetivos do jovem tradutor Rimini (Gael Garcia Bernal) com três mulheres de sua vida: Sofia (Ana Couceyro), namorada dos tempos de colégio e sua mulher durante doze anos; Nancy (Mimi Ardu), modelo sensual, e Carmem (Ana Celentano), colega tradutora e a única a gerar-lhe um filho. O início é com minisseqüência inteligente: amigos e conhecidos se reúnem no apartamento de velha terapeuta para comemorar os muitos anos de convivência de Sofia/Rimini, aparentemente bem casados mas desgastados pelo tédio conjugal. O toque irônico surge quando, ao invés de anunciarem uma gravidez há muito esperada, comunicam à dona da festa sua separação. Sofia parece enfrentar bem o fim do matrimônio, mas aos poucos se vai revelando sexualmente carente, possessiva e odienta. Nancy tem o mais exacerbado sentimento de posse; Carmem, também ousada na alcova, aceita com certa maturidade os desvios de Rimini. A soma dos personagens principais serve como metonímia visual para Babenco: os quatro representam um universo de pessoas casadas e desajustadas, as quais vivem um jogo de falsas aparências.

Direção filmica

     Babenco domina o ritmo decorrente das imagens-movimento, revela bom entrosamento com o montador Gustavo Giani e alimenta o interesse do espectador na confluência dos eventos em marcha inexorável rumo ao final. Dirige com segurança os atores, todos a cavaleiro, até mesmo o recém-falecido Paulo Autran numa ponta, e faz da música de Ivan Wyszogrod um aliado de primeira, máxime na melodia inspirada para acompanhar os créditos. Louve-se, no início, a exibição de curtas-metragens da vida de Sofia/Rimini, ambos felizes, noutros tempos, e eles mesmo assistem às cenas entre surpresos e inquietos. Há diálogos expressivos como quando Sofia diz a Rimini: “As pessoas não se separam, elas se abandonam, como v. me abandonou”. Acertou na escolha do cinecolor do laboratório argentino, uma quase-fusão do p&b com cores esmaecidas do seu patrício Ricardo Della Rosa. Babenco conhece e sabe fazer cinema. Só lhe falta às vezes aquele poder de síntese visual tão típico de cineastas como Truffaut, capazes de distinguir com acerto o essencial do não-essencial e eliminar o supérfluo. Dez minutos a menos elevariam a qualidade da realização, assim como tornariam menos explícitas as fortes cenas de sexo e o palavreado chulo, substituindo-os por algo mais sutil e sugestivo. Sabemos estar o mundo em plena revolução sexual a partir da qual o cinema poderá vir a mostrar tudo (a cocaína, aliás, já corre solta), mas um toque de classe é sempre preferível. Assim pensavam Truffaut, Melville, Mackendrick, Losey, e pensam Kluge, Singer, Bogdanovich, entre outros. Também poderiam ter sido reduzidas as cenas da cesariana e a seqüência da academia de ginástica, bem assim a cópula com a aluna quarentona no automóvel - recurso apelativo, desnecessário.

Sobre Hector Babenco

     Buenosairense de 61 anos, filho de imigrantes judeus vindo da Polônia e da Rússia, Babenco viajou extensivamente pela Europa antes de voltar-se para o cinema. Foi pintor, vendedor, escritor freelance e extra em spaghetti westerns de Sergio Corbucci e Mario Camus. Antes de adotar o Brasil como segunda pátria, HB começou sua carreira com documentários tipo “O Fabuloso Fitipaldi” (1973) e estreou no longa com “O Rei da Noite” (1975), seguindo-se-lhe “Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia” (1977). Chamou atenção com seu “Pixote” (1981), quando partilhou o Grand Prix no Festival de Biarritz e ganhou o Leopardo de Prata em Locarno. Foi indicado ao Oscar de Melhor Diretor pelo insólito “O Beijo da Mulher Aranha” (1985), após o qual foi convidado para filmar “Ironweed” nos EUA, com Meryl Streep e Jack Nicholson. Seus filmes mais recentes incluem “Brincando nos Campos do Senhor” (1992), o quase autobiográfico “Coração Iluminado” (1998) e “Carandiru” (2002).

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África, tão perto, tão longe

* Paulo Betti

     Imagine um festival de cinema cuja abertura e encerramento com entrega de prêmios acontecem num estádio de futebol diante de um público de 30 mil pessoas.

     Assim foi a vigésima edição do Fespaco, evento bienal que se realiza em Ouagadougou, capital de Burkina Faso, localizada no coração da África do oeste com fronteiras com o Mali, Benin, Togo, Gana e Costa do Marfim. Confesso, que, como a maioria dos brasileiros, a única coisa que sei a respeito desses países é que eram times de futebol no álbum de figurinhas que colecionei com meu filho na última copa do mundo.

     A língua oficial de Burkina é o francês, mas fala-se também o Moore, Dioula e o Fulfude. A altitude é de 500 mts e o clima é tropical, sem chuvas, seco.Quente, muito quente. A população está em torno de 12 milhões de habitantes.

     Por que sabemos tão pouco sobre a África ? Porque não sabemos nada sobre esse festival no Brasil? Certo, só concorrem a prêmio os filmes africanos, mas isso não é razão para não mandarmos nossos filmes pra lá. Mostras paralelas excitantes exibem filmes de todo mundo para uma platéia ávida e as salas estão sempre lotadas.Mais de 150 filmes e também uma grande quantidade de sitcons e seriados de tv. Esse é um dos mais importantes festivais de cinema do mundo. Até mesmo a bíblia do cinema, o Cahier du Cinema, dedicou um suplemento inteiro a esse acontecimento.

     Nosso governo tenta incrementar as relações com o continente africano, mas nossa agência de cinema, a Ancine, não tem o Fespaco no seu ranking de festivais que merecem passagens e incentivos para que os nossos cineastas se disponham a ir para lá. Isso precisa ser corrigido.

     O fato é que estamos muito mais distantes da África do que supomos.Se olharmos o mapa, veremos que numa viagem de 6 horas estaríamos em Ouagadougou. Mas somos obrigados a ir a Paris. Pronto. A viagem passa a ser de dois dias.

     No carnaval de 2007, cinco escolas de samba do primeiro grupo no Rio de Janeiro tiveram a África como tema de seus enredos, inclusive a ganhadora, a Beija Flor. Somos um País com metade da população de negros e pardos. Não é o que diz o IBGE ? Apesar disso, o último filme brasileiro que eles lembram ter participado do Fespaco foi o maravilhoso documentário “Orí”, de Raquel Berger em 1989.

     Imagine uma cidade que tem como principal monumento uma homenagem aos cineastas. Um enorme e curioso obelisco em cimento imitando latas e carretéis de película. A Praça dos Cineastas. Essa é Ouagadougou. Um único brasileiro no festival. Pelo menos não encontrei outro entre os quatro mil participantes das festividades. Falando língua portuguesa, somente o pessoal da televisão Angolana, o Pedro Pimenta que organiza um festival de documentário em Maputo e ninguém mais.Uma pena, pois a África tem tudo a ver conosco. É um clichê, mas é a verdade. É só ver como nos encaixamos no mapa da África. Parecem duas peças de um quebra-cabeças a provar que tudo era uma só extensão continental.

     Mas não nos enganemos. As diferenças são enormes. Andando pelas ruas, os muçulmanos prostrados no chão fazendo suas orações nos mostram claramente que estamos numa outra parte do mundo.

     Os filmes favoritos eram “Tsotsi”, Sul Africano que ganhou o Oscar de 2005 de melhor filme estrangeiro, baseado na obra do grande dramaturgo Athol Fugard e “Daratt”, do Tchad (é o nome do país) que ganhou o Leão de Prata no festival de Veneza. Mas quem acabou vencendo o “Étalan d’or de Yennenga” foi o filme “Ezra” de Newton Aduaka, da Nigéria, sobre um jovem ex- combatente da guerra civil que tenta se readaptar a vida normal.

     O filme que mais me impressionou, vi num telão de alta definição na periferia mais distante. A lua cheia brilhava no céu e as crianças se juntavam aos velhos sentados no chão de terra, misturados com os europeus de boa vontade que ainda pensam ser possível resolver os problemas do mundo com o cinema. Na tela passava “L’or bleu, ressource ou marchandise”, do francês Didier Bergounhoux, um filme sobre a falta de água na Nigéria e em Burkina. Um problema que em breve vai ameaçar o mundo todo. Para quem gosta de teatro, Didier fez aquela célebre foto da montagem da peça “Tempestade” com direção de Peter Brook. Aquela em que o grande ator Sotigui Kouyaté aparece com Próspero, com a miniatura de um navio sobre a cabeça. Aliás, Sotigui é o maior ator dessas paragens, um “griot”, que tem o dom de contar histórias, tradição oral, aspecto importantíssimo da cultura de um povo onde apenas 5% da população sabe ler.

     O Fespaco é um festival diferente. A poeira e a pobreza a todos irmana . Sobra pouco espaço para vaidade e o cinema é uma arma contra a miséria. Resolvi documentar a experiência. Passei 5 dias com uma câmera que parecia uma metralhadora na garupa de uma moto. O piloto, Dreudouné Adouabou, um estagiário de 30 anos que fala inglês, francês e três línguas locais, ganha 38 dólares por mês e me ensinou, delicadamente, o tempo todo, a distância que existe entre nós. Ele me dizia: “Uncle (tio) Paulo, o senhor não deve dizer “Eu” e “Você”. E sim “Você” e “Eu”. Não deve dizer “Brasil” e “África”, e sim “África” e “Brasil”. Estou tentando, humildemente, aprender.

     Ah! Ele dizia também: “To be or not to be, that’s the question, but, uncle Paulo, everyone wants to be”. (“Ser ou não ser, eis a questão, mas, tio Paulo, todo mundo quer ser”.)

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Vladimir Carvalho, Menino de Engenho

* Carlos Alberto Mattos

     Quando era garoto em Itabaiana, interior da Paraíba, Vladimir Carvalho gostava de maneira especial da hora do jantar. Não pela culinária, mas pela sonoplastia. Era a hora de seu pai, Lula Martins, contar histórias para a família. Muitas delas tinham a ver com José Lins do Rêgo. O escritor já famoso, que havia estudado no mesmo colégio de Itabaiana, era uma espécie de ídolo, a ponto de o menino Vladimir demorar-se no espelho arrumando o cabelo à semelhança de Zé Lins.

     Essa devoção é em parte responsável pelo projeto que o cineasta desenvolveu, ao longo dos últimos cinco anos, com recursos mínimos e determinação máxima. No início, era para ser um híbrido de biografia e autobiografia. "Achava que deveria voltar ao meu próprio passado através dessa viagem em busca de Zé Lins, mas acabei deixando a idéia de lado", conta Carvalho. Deixou em parte. O Engenho de Zé Lins é, de muitas maneiras, o engenho de Vladimir. Engenho tomado aqui como lugar de origem e como talento criador.

     O filme está repleto de imagens recorrentes na obra deste que é um dos mais fecundos e ousados documentaristas modernos brasileiros. Lá estão os canaviais paraibanos, as bolandeiras de moer cana, a figura de São Miguel Arcanjo (o santo com a balança da justiça). Lá está a idéia – comum ao escritor e ao cineasta – de um mundo que o tempo transforma em ruína.

     Vladimir Carvalho está longe de ser aquele tipo de documentarista que observa "cientificamente" a realidade. Seu cinema é de compromisso e envolvimento. Se os clássicos O País de São Saruê (disponível em DVD) e Conterrâneos Velhos de Guerra eram movidos pela indignação contra as injustiças sociais, O Homem de Areia (sobre José Américo de Almeida), O Evangelho Segundo Teotônio e agora O Engenho de Zé Lins caminham pela senda da admiração. Mas o que distingue de fato o seu cinema é que não é panfletário na indignação, nem laudatório na admiração.

     De José Lins do Rêgo ele faz uma espécie de psicanálise selvagem, investigando as áreas de sombra que desenhavam o homem e se projetavam em sua obra. "Se não fosse escritor, Zé Lins seria um grande personagem de romance", diz a certa altura Carlos Heitor Cony, que funciona no filme como um corifeu, comentando e arrematando sentidos. Desde as imagens de abertura, com a reencenação de uma primeira e traumática visão da morte, a ênfase recai no temperamento ciclotímico do escritor, pontuado por picos de euforia e melancolia. O tiro acidental que causou a morte de um colega de infância, a "amizade amorosa"com o mentor Gilberto Freyre, a paixão exacerbada pelo Flamengo – é confrontando esses traços de complexidade biográfica que Carvalho vai jogar novas luzes sobre um autor injustamente relegado a segundo plano na literatura brasileira.

     Ariano Suassuna é quem reflete, no próprio filme, o seu efeito. Em depoimento precedido de uma de suas típicas e hilariantes digressões, Suassuna afirma que, diante das informações recolhidas por Vladimir, ele consegue enfim decifrar o enigma Zé Lins.

     O humor, o interesse e a emoção contidos nas entrevistas refletem o carisma do personagem, mas também a postura curiosa e apaixonada do diretor. Vladimir Carvalho não costuma se prender a regras puristas para fazer seus documentários. Eles têm música, ficção, poesia. Em uma palavra: liberdade.

     Prova disso é o diálogo que O Engenho de Zé Lins estabelece com o ficcional Menino de Engenho, que Walter Lima Jr. rodou na Paraíba em 1965. Aqui um filme de ficção vira "material de arquivo" para um documentário. Muitas referências à infância de José Lins do Rêgo são "ilustradas" por cenas do filme de Walter. Inclusive aquela em que o próprio Vladimir dublou uma voz fora do quadro ("Papa-rabo!") lá nos anos 60. Esse procedimento tem seu ápice quando Vladimir leva o ex-ator-mirim Sávio Rolim ao mesmo cenário do engenho Itapuá, quarenta anos depois. O frágil estado físico e mental de Sávio acaba se transformando numa metáfora para a angústia, o pensamento obsessivo e o efeito do tempo na obra e na figura de Zé Lins. O Itapuá, no entanto, arruinado e ocupado por famílias do MST, parece confirmar um destino previsto pelo escritor no romance Moleque Ricardo, parte de seu ciclo da cana-de-açúcar.

     Poucos documentários biográficos recentes têm temperado a afetividade com a mesma disposição investigativa desse filme. Custa crer que um mestre como Vladimir Carvalho continue a depender de favores, sacrifícios financeiros e da providencial parceria com os jovens produtores da Urca Filmes para concluir um trabalho dessa importância.

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Dores do Amor a Três...

* LG de Miranda Leão

     Com Primo Basílio, Daniel Filho marca um tento em sua carreira de cineasta, já despido das técnicas de televisão e agora com olhos voltados para fazer cinema, mesmo se ainda não chegou ao ótimo.

     Primo Basílio nos parece seu melhor filme, tanto pelos roteiristas e técnicos escolhidos como pelo elenco. Em apenas 100min, DF não poderia reeditar a abrangência e as virtudes de sua homônima minissérie, de 88. Nesta versão, buscou expressar-se e comunicar-se com o público adulto, sem fazer concessões mas dotando-a de nível qualitativo capaz de obter retornos pelos investimentos feitos na produção.

Roteiro

     Nada de novo no triângulo amoroso (marido, mulher e seu amante), tanto faz recriado por Eça de Queiroz no século XIX ou por Shak no XVII ou em nosso tempo por Sidney Sheldon, Robbe-Grillet ou W. Somerset Maugham. O triângulo continuará existindo na literatura, no teatro, no cinema e na vida, enquanto homens e mulheres buscarem romper a monogamia em busca do novo (?) ou porque estejam sexualmente insatisfeitos ou por qualquer outro motivo. No caso desta versão, temos a paixão de Luíza pelo primo recém-chegado de Paris, paixão de tempos mais jovens e menos compromissados. O marido está ausente, atuante na Brasília de JK, quando muitos achavam tudo aquilo loucura por não perceberem o alcance da meta de interiorização do desenvolvimento buscada pelo grande presidente.

     Não vemos mal nenhum em situar o drama de Luíza naqueles tempos de crença no Brasil. "Eu sou eu e minhas circunstâncias", doutrinava Ortega & Gasset, por isso não cabe ao analista condenar o comportamento de Luíza. O conflito surge quando a empregada faz chantagem com os bilhetes e cartões da patroa para Basílio. A carta remetida por ele e lida pelo marido conduzirá ao desfecho trágico. No filme, isso não se faz como no original. A inclusão do bárbaro assassinato de Juliana, espécie de queima de arquivo, não nos pareceu o melhor caminho para resolvê-lo. A exclusão de Conselheiro Acácio (interpretado então pelo grande Sérgio Viotti) e do Sebastião de Pedro Paulo Rangel (outro senhor ator), personagens da minissperie, pode ser atribuída à necessidade de síntese, pois seriam personagens mais essenciais no texto literário. Incluí-los por uns dez minutos não prolongaria cansativamente a versão fílmica.

Filme x Livro

     Voltamos sem querer à cediça questão da transposição de obra literária para o ecrã. A propósito, o crítico e professor Ismail Xavier escreveu magistral ensaio no qual afirma: "A interação entre as mídias tem tornado mais difícil recusar o direito do cineasta à interpretação do romance ou peça teatral, admitindo-se até que ele pode inverter determinados efeitos, propor outra forma de entender certas percepções, alterar a hierarquia de valores e redefinir o sentido da experiência dos personagens". Noutras palavras, a fidelidade ao original, ensina Ismail, deixa de ser o critério maior de juízo crítico, valendo mais a apreciação do filme como nova experiência, a qual deve ter a sua forma, e os sentidos nela implícitos julgados em seu próprio direito. "Afinal, livro e filme estão distanciados no tempo; escritor e cineasta não têm exatamente a mesma sensibilidade e perspectiva, sendo portanto de esperar que a adaptação dialogue não só com o texto de origem mas com o seu próprio contexto". Palavras sábias do mestre Ismail Xavier.

Direção fílmica

     Daniel Filho parece ter eliminado o ranço da linguagem televisiva, como as cenas meio teatrais e o abuso dos primeiros planos para preencher o espaço reduzido da telinha. Não há descompasso no ritmo e os cortes em excesso foram substituídos por liames precisos entre cenas ou pelo falso raccord: uma continuidade mínima da narrativa sem impedir a compreensão exata do drama em andamento. Os cortes de um plano a outro, como se sabe, ocorrem basicamente quando se deseja mostrar uma ação paralela, uma ruptura do espaço, um recuo ou avanço no tempo. Aqui os cortes atendem apenas às necessidades da história e à síntese procurada e obtida. O uso tantas vezes aproveitado da voz em off, por exemplo, quando Basílio caminha sem falar e o ouvimos, tem a ver com a aceleração necessária às imagens-tempo ou da inquietação, das quais nos fala Truffaut, quando as cenas parecem correr no terço final. O fecho com a residência do casal já com novos inquilinos, anos depois, torna-se inesquecível com a escolha de Apelo de Baden-Vinícius. Belo tema melódico marca o início de certas cenas, assim também o Clair de Lune de Debussy, enquanto Teus Olhos, de Garoto, intensifica o conúbio entre os dois amantes, lembrando-lhes os versos do compositor. Nada de apelativo no brevíssimo nu frontal de Luíza nem se poderia esperar outro comportamento íntimo no "enfim sós"; não mostrá-lo seria omissão sem justificativa.

Fotografia e elenco

     A cinegrafia em tons esmaecidos, às vezes apreendendo a semi-obscuridade dos interiores, traz a assinatura do piauiense Nonato Estrela, competente fotógrafo de tantos filmes, como Achados e Perdidos (José Joffily). No elenco, a bela Débora Falabella se destaca dos demais com muita classe, tal como já revelara em sua carreira televisiva e em Dois Perdidos numa Noite Suja, quando atua ora como prostituta ora como boiete. Um dos melhores momentos da atriz é quando rasga e queima desesperada os bilhetes comprometedores, enquanto o reflexo das pequenas chamas ajuda a compor um quadro expressivo do seu drama interior e a transformação da sua fácies quando tranqüila se deita então com o marido. Débora mostra também segurança e espontaneidade nas cenas de sexo, na fuga de casa, na recusa em dormir com o sórdido Castro e na sua máscara agônica. Reynaldo Gianecchini tem altos e baixos (soa falso quando ameaça Juliana por causa de punhos e colarinhos mal passados), assim como Glória Pires (aquém da interpretação magistral de Marília Pera na minissérie), às vezes exagerada quando ameaça a patroa. Fábio Assunção está bem como primo canalha e Guilherme Fontes parece solto no drama, como no almoço com Luíza. Simone Spoladore como Leonor Maçaneta destaca-se por seu potencial de sensualidade. Anselmo Vasconcellos faz uma ponta mas sua máscara apavorante é sugestiva da ação de torturadores das ditaduras de toda espécie. Da trilha musical de Guto Graça Mello já falamos. Apreciamo-la bastante.

     Enfim, recomendamos Primo Basílio pela convicção de estarmos aprimorando cada vez mais a qualidade de nossos filmes.

     A ver, decididamente.

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Em Busca de Dias Melhores

                                            * LG de Miranda Leão

     Segundo longa de Jorge Durán (1942- ), Proibido Proibir marca o retorno auspicioso do cineasta chileno à direção, após vinte anos de intervalo, desta feita para enfocar o microcosmo de três jovens universitários e as vicissitudes de quem vive na urbe em busca de dias melhores

     Rodado na Zona Norte e nos subúrbios do Rio de Janeiro, bem como em dependências da UFRJ, É Proibido Proibir não tem nada a ver com os dizeres nas paredes de Paris por ocasião dos acontecimentos de maio de 1968. De qualquer forma, a frase é sugestiva de como os caminhos dos jovens devem ficar por conta de suas próprias opções. As proibições não levam a nada, os frutos proibidos são os mais cobiçados. Co-produção Brasil-Chile levada a efeito via programa Ibermédia, Proibido Proibir teve suporte financeiro dos Estúdios El Desierto Filmes Ltda / Ceneca Produciones e da Petrobrás e da Ancine. Fez jus a vários prêmios de Melhor Filme e Melhor Diretor em festivais internacionais (Biarritz, Havana, Viña del Mar, Valdivia) e sua finalização se fez na Espanha por ter ganho o Prêmio Signis 2005 e o Prêmio Cine em Construcción. Tudo isso é muito positivo para o reconhecimento além-mar da renovação do cinema brasileiro.

"Script"

     O argumento original é do próprio Jorge Durán e o roteiro contou com a colaboração de Dani Patarra, Gustavo Bohrer e Eduardo Durán. Três jovens, Paulo (Caio Blat), León (Alexandre Rodrigues) e sua namorada Letícia (Maria Flor) dividem modesto apartamento num subúrbio. Para chegar lá é preciso subir por uma escada de mão. Paulo estuda medicina, Alexandre, ciências sociais e Letícia, arquitetura, e os três tentam ajudar Rosalina (Edyr Duqui), doente terminal, a rever os filhos há tempos ausentes. Um deles, Cacauzinho (Adriano de Jesus), testemunha de crimes da polícia, tenta fugir após tiroteio do qual sai ferido León, e Paulo decide fazer a cirurgia para extrair-lhe a bala do tórax, mesmo sem assistência de um colega da área. Enquanto isso, a aproximação entre Paulo e Letícia cria um impasse e Duran encontra a melhor solução para resolvê-lo.

Realização

     Cineasta e professor de cinema, larga experiência no metiê, Durán conhece bem as lições dos mestres: o bom filme oscila entre o contínuo e o descontínuo, entre a continuidade e o intervalo. Por isso mesmo sabe como conduzir os ritmos interno e externo, enquanto ganham força suas imagens-significantes: o personagem Paulo, por exemplo, sempre barbudo, desalinhado, enquanto Leon é o jovem negro organizado, bem arrumado. Recorde-se quando Paulo tira da sacola do amigo os livros de sociologia e não lhes dá importância diante dos CDs ou quando escreve Che num abaixo-assinado... Letícia não esquece seu guarda-roupa e se revela um signo da frágil estabilidade entre os dois homens, todos eles saudáveis. Aqui e ali ingerem drogas estimulantes ou fumam algum baseado, mas desinteressados em política, talvez por não mais acreditarem na resolução dos problemas mais prementes do País, como a corrupção e a impunidade em todos os níveis, a guerrilha urbana, as balas perdidas, os seqüestros, a violência policial.

     Durán evita mostrar intimidades apelativas e executa bem a seqüência da armação do tiroteio em plena rua, quando a polícia resolve eliminar Cacauzinho, testemunha incômoda de alguma chacina da qual é pródiga a outrora Cidade Maravilhosa. Essas mazelas, sugestivas de grave patologia social, já emigram para outras regiões, enquanto novos escândalos jogam pás de cal nos políticos inoperantes, cujas regalias absurdas disputam lugar com a incompetência e a sempre propalada reforma política... Durán também contorna, sempre quando possível, o uso do campo e contracampo nos diálogos, duma feita quando os personagens conversam no automóvel, doutra quando dois deles caminham de costas, enquanto ouvimos suas falas.

Fotografia, elenco, música

     Luis Abramo cuida bem da fotografia e ajuda bastante na criação do clima buscado por Durán. Está bem todo o pequeno ´cast´até mesmo Adriano de Jesus em pequena ponta, quando, aos prantos de ódio e medo, grita alto e bom som: ´Se for preso vão-me estuprar na prisão; se for à justiça testemunhar a polícia me mata...´ Caio Blat (o Frei Tito de Batismo de Sangue, de Helvécio Rattón) deixa transparecer sua avidez óptica por Maria Flor, enquanto a sensualidade desta sugere sutilmente como a proximidade do outro acabou erodindo o seu romance com León. A cena de suas reticências quando não diz nada para o companheiro, e ao mesmo tempo diz tudo, foi um feliz achado de Durán. A música de Mauro Senise e outros fica quase em segundo plano no contexto. Quanto ao mais, ainda não conseguimos resolver em definitivo, salvo raríssimas exceções, a questão da gravação de som direto, motivo pelo qual aqui e ali perdemos algumas palavras dos diálogos, notadamente quando os jovens falam rápido com seu linguajar típico.

Quem é Jorge Durán

     Jorge Durán nasceu no Chile há 65 anos, mas reside no Brasil desde o golpe militar do abominável Pinochet (1973), do qual conseguiu escapar graças a um acaso favorável narrado por ele em entrevista recente. Seu primeiro longa foi ´A Cor do seu Destino´ (1986), premiado no país e no estrangeiro. Durán foi roteirista de vários filmes, como ´O Passageiro da Agonia´ (1977), ´Pixote´ (1981), ´O Beijo da Mulher Aranha´ (1984), todos de Hector Babenco, e também de ´Gaijin´, de Tizuka Yamasaki (1979). Fonte rica para sua formação como diretor foi atuar como assistente de Costa-Gravas em ´Estado de Sítio´ (1972). Segundo suas próprias palavras, ´lá aprendi a trabalhar de forma organizada, metódica, numa produção com mais de quatro mil figurantes, equipe de mais de cem pessoas, uns cinqüenta atores. Me dei muito bem como assistente dele´.

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Homenagem ao Multifacético Ingmar Bergman
                                                                              * LG. Miranda Leão

     Ingmar Bergman, genial cineasta escandinavo, um dos dez grandes diretores-autores cinematográficos do século XX, diríamos mesmo de todos os tempos, enquanto os elementos essenciais da arte fílmica no futuro forem os mesmos de hoje.

     Nascido em 14 de julho, data simbólica, na cidade de Uppsala, e batizado Ernest Ingmar Bergman, segundo registram seus biográficos, o jovem Ingmar trouxe das experiências traumáticas de sua infância, sob o tacão de pai puritano e sádico, a geratriz de muitas inquietações de sua vida adulta como profissional do teatro (por quem se apaixonou desde os cinco anos) e do cinema (arte com a qual se identificou plenamente na década de 40). Acasos favoráveis levaram-no a um contato com a ´Svenskifilmindustri´: a resenha de uma de suas peças em exibição na cidade caiu nas mãos de mulher influente na indústria cinematográfica: ela foi ao teatro, assistiu ao drama, conheceu o jovem autor e contratou-o de imediato, recomendando-o ao diretor Alf Sjoberg (1903-80). Este decidiu dar a Bergman o ensejo de escrever o roteiro de ´Tortura de um Desejo´ (Hets). Corria o ano de 1944, Bergman completara 26 anos... Sjoberg se surpreende.

Influências e obsessões


     Bergman foi bastante influenciado nos seus primeiros anos de atividade como roteirista pelas idéias e lições de cinema recebidas de dois dos nomes mais credenciados do cinema escandinavo: Victor Sjostrom (1879-1960) e Gustav Mollander (1988-1973), ´meus mestres´, como costumava dizer. Por outro lado, Bergman influenciou direta ou indiretamente realizadores de toda parte, não apenas da Suécia mas de outros países, não só na sua temática mas também no seu estilo: Krzysztof Kieslowski (Polônia), Istvan Szabo (Hungria), Carlos Saura (Espanha), Michael Anderson (Inglaterra), Leopoldo Torre-Nilson (Argentina), Walter Hugo Khouri (Brasil) e (quem não se lembra de ´Setembro´ e ´Interiores´?) até Woody Allen (EUA)...

     Já tivemos ensejo de escrever vários artigos sobre Bergman. O mais recente deles, de 24 jun 2004, quando dos seus 85 anos, figura também em nosso livro de críticas, lançamento da Coleção Aplauso (Imprensa Oficial de São Paulo) com aval de Rubens Ewald Filho. No curta-metragem do cineasta Gui Castor, focalizando este crítico, foi igualmente incluída a cena-chave de ´O Sétimo Selo´, com imagens-significantes da partida de xadrez jogada entre o cavalheiro egresso das Cruzadas (Max von Sydow) e a Morte (Bengt Ekerot). Nem mesmo a Morte sabe se há algo depois dela... Resta-nos agora prestar breve homenagem póstuma a essa figura ímpar, multifacética, de nove filhos de cinco mulheres, e de quem somos admiradores há muitas décadas. Bergman sai de cena ainda lúcido, quando poderia legar-nos algo mais de sua arte. Perda irreparável para o cinema e o teatro.

     De sua infância perturbada por um pai neurótico e na contramão do bom senso e da realidade de todo dia, e para quem o sexo era pecado, a não ser entre casados e para fins de procriação (?), Bergman trouxe algumas obsessões, sobretudo o ponto crítico da angústia existencial. Há algo além da morte? Deus existe? Poderá ele ser a causa de sua causa? Qual a natureza intrínseca de Deus? Para Bergman, admitir o homem como imagem e semelhança de Deus é rematada tolice. Essa inquietação metafísica prepondera aliás em ´O Sétimo Selo´, um dos seus melhores filmes, e noutros mais. Escusado lembrar as cenas iniciais do sonho do Dr. Borg, quando ele olha para o relógio sem ponteiros em plena rua em ´Morangos Silvestres´ e depois ver cair do coche fúnebre um cadáver: é ele mesmo. Tudo quanto Bergman pretendeu dizer está nas suas imagens-significantes.

     Outra obsessão bergmaniana herdada da educação religiosa neurotizante reside na importância do elemento erótico freudiano em vários dos seus filmes como, por exemplo, em ´Mônica e o Desejo´ (Sommaren und Monika) (1952) e ´Sorrisos de uma Noite de Verão´ (Sommarnatens Leende) (1954). O primeiro filme fala por si só, e o segundo faz aflorar a libido num fim-de-semana de um pequeno grupo de casais. Já o estupro vai aparecer via imagens de impacto em ´A Fonte da Donzela´ (Jung Frukällan) (1959), o incesto em ´Através de um Espelho´ (Saasom I en Spegel) (1961), a masturbação feminina em ´O Silêncio´ (Tysnaden), os pesadelos e fantasmas de um passado adúltero em ´A Hora do Lobo´ (Vartimnen) (1968), o tédio conjugal em ´Cenas de um Casamento´ (Soecer ur ett Aktenskap) (1974), a insatisfação sexual e a frigidez em ´Face a Face´ (Ansiktet mot Ansiktet) (1976). Há outras imagens e sugestões eróticas na vasta obra de Bergman. Afinal, como dizia Freud: o sexo não é tudo mas está em tudo... Bastam esses exemplos, ao invés de incluirmos uma filmografia completa, já vista e revista ´ad nauseam´ nos jornais.

Ruptura com o sistema

     A ousada e inteligente ruptura de Bergman no campo da liberação do sexo no cinema, desnecessário dizê-lo, causou-lhe problemas de ordem vária com censores zoilos e mal orientados, pois a sensualidade de Bergman nada tem a ver com o ´soft porno´ ou o ´kitsch´. Por vezes o erotismo pode nascer de uma confissão intima feita por Bibi Andersson (grande paixão do cineasta) a Liv Ullman (outra de seus amores de longa duração), personagens do antológico ´Persona´ (1966), traduzido por ´Quando as Mulheres Pecam´, título imbecil e apelativo, duplo erro, pois não há lesbianismo no filme e, se houvesse, não haveria pecado algum no amor entre duas mulheres...

     Em 1976 Bergman afirmou lá pelas tantas, numa de suas entrevistas polêmicas: ´Deus e eu nos separamos há já alguns anos. Nós humanos, neste mundo insano e profundamente injusto, não sabemos onde ele está, nem o que faz ou se sabe da existência do mal. Só sei ser esta a nossa única vida. Não há outra.´ Essas declarações provocaram irritação nos setores religiosos e até na esquerda democrática sueca, para quem Bergman se mostrara indiferente ou esquivo às injustiças sociais e a opressão política. Respondeu-lhes Bergman, textualmente: ´Não é verdade; tenho combatido a repressão religiosa ao sexo, a opressão política, as injustiças sociais, onde quer que se apresentem. Talvez meus críticos não saibam ler minhas imagens ou o subtexto e me acusem de omisso, hermético e difícil. Tudo quanto digo e penso está lá e bem entendido por muitos outros canais de expressão´.

     'De resto, é atribuição do criador cinematográfico operar suas próprias escolhas, mas sempre tive compromisso com a ética e a liberdade e me tenho servido do teatro, da TV e do cinema para denunciar a injustiça, a barbárie, os regimes ditatoriais de qualquer tipo e até para alertar as platéias quanto à gestação de regimes abomináveis como o nazismo, na metáfora de ´O Ovo da Serpente´ (Das Schlangenei) (1980), sugestivo de como ele ainda existe no mundo sob outros disfarces, na intolerância, nas prisões superlotadas e desumanas, nas torturas de prisioneiros, no trabalho escravo de menores, ou em culturas bárbaras e atrasadas, a ponto de castrarem suas filhas ainda meninas... Poder-se-ia ter matado a serpente no ovo, mas a covardia ou a omissão de muitos nos levou ao morticínio de inocentes, de judeus, ciganos, homossexuais, deficientes físicos ou mentais ´... Os filmes de Bergman, vale insistir, contêm verdadeiras lições de cinema e de vida, conforme vistos por renomados críticos e filmólogos. Basta acompanhar a trajetória dos festivais internacionais, ensaios, reportagens, entrevistas do grande mestre, prêmios recebidos e suas influências deixadas no mundo do cinema. Bergman parece estar em tudo e em todos.

Opinião valiosa

     Não é demais reproduzir aqui as palavras pronunciadas pelo autor e filmólogo espanhol Román Gubern por ocasião dos 60 anos (1978) de Bergman: ´Poucos cineastas tiveram impacto tão grande sobre a cultura contemporânea como o sueco Ingman Bergman. De fato, unindo a angústia existencial implícita notadamente em Kierkegaard, Heidegger, Sartre e Camus a um puro estilo neo-expressionista, Bergman trouxe ao cinema uma dimensão filosófica com nenhum outro cineasta o fez. Seu legado cinematográfico até hoje é realmente uma meditação profunda de caráter metafísico sobre a solidão e a angústia do ser alimentada por uma sede do Absoluto´.

Fontes e proficiência técnica

     As leituras preferenciais de Bergman antes, durante e depois de sua formação universitária se encontram em Epicuro, Heráclito, Shakespeare, Darwin, Freud, Spencer, Feuerbach, Kafka, Proust, Joyce, Borges e em dois compatriotas seus da península: os dramaturgos Strindberg (´A Dança Macabra´, ´Senhorita Júlia´, ´O Quarto Vermelho´, ´A Sonata dos Espectros´) e Ibsen (´A Casa de Bonecas´, ´Peter Gynt´, ´Hedda Gabler´). Para o crítico Paulo Perdigão, em percuciente ensaio já referido (v. DN, em 24 jun 2004), ´a obra de Bergman são os gritos e sussurros de um cineasta revoltado com o silêncio de Deus. Se o cinema não existisse, John Ford seria um vaqueiro, Fellini um poeta, Buñuel um vagabundo de estrada, Welles um mágico, Kubrick um fotógrafo, Truffaut um romântico, e Bergman seria um filósofo como Kierkegaard e Heidegger, voltado para os grandes mistérios e o sofrimento da aventura humana. Seus filmes testemunham o desespero de um mundo demoníaco. Ele transformou o cinema num ato de reflexão´.
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Sangue em Batismo Magistral de Cinema

* Aurora Miranda Leão

     O confronto entre o sonho e a realidade poucas vezes foi tão forte no país como no assombroso tempo da ditadura. Por isso, muitos preferem ignorá-lo e as novas gerações, quando pensam saber alguma coisa sobre essa época sombria, acreditam-na quase branda - "Duro foi no Chile e na Argentina..."

     Para compreender bem a realidade, melhor um mergulhar profundo na história. E se a história nos chega através de uma grande obra literária, tanto melhor. Ademais, quando esta obra é apresentada pelo viés cinematográfico, aí o mergulho torna-se ainda mais forte, intenso, incisivo. É assim com este Batismo de Sangue, filme do corajoso cineasta mineiro Helvécio Ratton, baseado no contundente livro homônimo de Frei Betto.

     A história enfoca a participação de frades dominicanos na luta clandestina contra a ditadura militar, é baseada em fatos reais e passada no Brasil e na França. De um lado, jovens idealistas sonhando mudar o mundo. Do outro, militares e policiais agindo sem limites. Em salas de todo o país, o filme teve pré-estréia nacional em Fortaleza (com precioso apoio do Instituto Frei Tito de Alencar e do Banco do Nordeste do Brasil), terra natal do protagonista, o dominicano Frei Tito de Alencar Lima, vivido na tela pelo ator Caio Blat, o qual empresta ao personagem invejável carga emocional, alternando momentos de dor lancinante com passagens de extrema sutileza de sentimentos, gestos, expressões e matizes psicológicas. Caio tem atuação digna de qualquer prêmio para um Grande Ator, seja de que nacionalidade for.

     No elenco, em nível interpretativo tão contundente quanto o de Caio, estão Daniel de Oliveira, Cássio Gabus Mendes, o músico Marku Ribas, Ângelo Antônio, Murilo Grossi, Renato Parara, Jorge Emil, a querida Marcélia Cartaxo (atriz paraibana notabilizada desde sua excelente atuação em A Hora da Estrela, de Suzana Amaral), e os estreantes Leo Quintão e Odilon Esteves.

     No roteiro (um dos pontos altos do filme), Helvécio contou com a preciosa colaboração de Dani Patarra (sobrinha de um ex-editor da revista Realidade, publicação emblemática daquela época). Na fotografia e câmara, o mestre Lauro Escorel. O inglês Adrian Cooper na Direção de Arte faz miséria - quase um filme dentro do filme consegue alcançar este craque com seu meticuloso trabalho, sobre o qual diz: "A integração da equipe, a compreensão da importância do filme, o entusiasmo e a disposição de superar as dificuldades, apesar dos obstáculos, transformaram um trabalho de difícil realização em um prazer. O resultado disso está na tela. O prazer está guardado no coração". O time vai-se completando com Sérgio Penna (preparador de elenco), Mair Tavares (montagem), Marjorie Gueller e Joana Porto nos figurinos, Vavá Torres na maquilagem, Marco Antônio Guimarães na música, José Moreau Louzeiro e David Miranda no som, produção executiva da Quimera (Guilherme Fiúza e Tininho Fonseca) e distribuição da Downtown Filmes. Após juntar nomes tão expressivos e de reconhecido valor em áreas tão vitais à Sétima Arte, difícil não tecer uma série de rasgados elogios ao filme-denúncia de Helvécio Ratton. Um filme necessário, fundamental, um documento histórico da maior relevância, feito com apurado senso de qualidade e com profundo respeito ao depoimento autobiográfico tão bem redigido pelo intrépido Frei Betto.

     Batismo de Sangue causa impacto desde sua abertura. Daí por diante, cena a cena, é só soco no estômago, atuações primorosas, excelência na maquilagem e na direção de arte. Tudo concorre para prender o espectador, conduzido por um roteiro desenhado de forma gráfica para melhor retratar a violência (aviltante e imperdoável) daqueles tempos nem tão distantes. Segundo Ratton, desde o início sua intenção foi mostrar "com clareza absoluta como a tortura foi pesada no Brasil. Era nosso dever mostrar como um fato histórico dos mais importantes (a morte de Marighella) foi pesado para os frades envolvidos". É a primeira vez na qual o Cinema Brasileiro mostra de forma tão pertinaz a Fé como instrumento ativo de mobilização em defesa da Liberdade, da Justiça Social e do Direito de Expressão. E uma das mais belas e expressivas cenas é justamente a da missa nas celas do Dops - biscoito e refresco de morango simbolizando a hóstia e o vinho sagrados, uma eucaristia celebrada do início ao fim, juntando frades dominicanos, carcereiros e comunistas (supostamente ateus). Tocante demais, sobretudo pela naturalidade com que acontece, a simplicidade dos oficiantes e a adesão silenciosa e contrita de todas as celas, ácme da superioridade da Fé sobre qualquer outra força, ainda seja em ambiente anódino, fétido, execrável.

     Para conferir maior realismo ao filme (sem dúvida, o melhor de sua carreira até aqui), Helvécio fez questão de contar com uma invejável preparação técnica por parte de sua equipe de maquiladores (a quem ofertamos todos os maiores aplausos), realizando estudos detalhados na Medicina Legal sobre a evolução de feridas provocadas por vários tipos de instrumento ao longo do tempo. Antes do início das filmagens, os testes de maquilagem foram submetidos à avaliação desses médicos, os quais os aprovaram enfaticamente. Nesse viés, é claro, todos os cuidados também foram tomados para evitar aos atores ferimentos durante as intensas cenas de violência. O dublê mexicano Javier Lambert ensinou como "apanhar" enquanto havia um stand-in para cada ator. Mesmo assim, Caio Blat acabou sendo golpeado de verdade em várias ocasiões.

     Na tela, percebe-se sincera autocrítica às estratégias adotadas pelas lideranças na luta contra a repressão, conforme avalia o diretor: "Acho que através do filme, apresentamos um olhar autocrítico, uma crítica ao nosso sentimento de onipotência da época, mas sem jamais renegarmos tudo aquilo que fizemos e conquistamos com nossa luta". Para melhor inspirar-se, Helvécio revisitou o cinema político daqueles tempos e enfatiza: "Batismo é um filme do século XXI, mesmo narrando incidentes de 30 anos atrás. Fiz este filme para os jovens de hoje com todas as evoluções narrativas e estéticas que o Cinema alcançou nestas últimas décadas".

     A grandeza do filme expressa-se por um somatório de agudas potencialidades: roteiro preciso, maestria da Direção de Arte, competência do elenco, maquilagem irretocável, e, sobretudo, pela ousadia de expor tema tão pungente da vida nacional numa orquestração de qualidades capaz de extrapolar sua própria concepção ao propor também uma discussão correlata, e muitas vezes calorosa, sobre o engajamento social na sociedade contemporânea: "Se o filme servir para chamar a atenção das gerações mais novas para a importância da mobilização coletiva por um ideal, já ficarei satisfeito", afirma o diretor.

     E nós fechamos: Batismo de Sangue é um filme obrigatório para estudantes de todas as idades, cinéfilos, jornalistas, historiadores, sociólogos, humanistas, cidadãos enfim. Uma aula de Ótimo Cinema, uma revisão contundente do passado nacional e uma preciosa lição de Ética, Fé e amor à Vida.

Frei Betto - No livro e na Tela

     "Se hoje vivemos em um país democrático - mesmo que esta democracia precise ser aperfeiçoada -, é justamente em função da semente que plantamos naquele período e se deve ao sangue derramado pro vários companheiros e companheiras que morreram, foram assassinados, exilados ou desaparecidos pela repressão".

      Dominicano, jornalista, filósofo, antropólogo e teólogo mineiro, Frei Betto é o autor de Batismo de Sangue, livro lançado em 82 e premiado em 85 com o respeitado prêmio Jabuti como Melhor Livro de Memórias, no qual se baseia o filme de Helvécio Ratton. O livro, hoje em sua 18a edição, tem traduções para o francês e o italiano e é considerado um dos clássicos da literatura brasileira do século XX. Por conta do filme, Batismo de Sangue está sendo lançado em nova edição pela Rocco, agora trazendo fatos e nomes antes omitidos por conta da repressão.

     Frei Betto escreve semanalmente para jornais e revistas de todo o país e tem 54 livros publicados. Escritor por vocação, convicção e extrema competência, Frei Betto transmite uma invejável paz de espírito e contagia com seu jeito simples, sereno e espontâneo de conversar com quem quer que seja. Não à toa, é festejado por onde passa.

     Com relação ao livro, diz não ter se preocupado como ficaria sua obra na tela, até porque sabe das diferenças de linguagem conforme cada veículo de expressão. E confessa-se completamente encantado com o filme: "Helvécio Ratton foi além do meu livro. O resgate que fez daquela época, dos nossos ideais, das nossas utopias, da nossa luta e do nosso sofrimento é algo que me toca profundamente. Quando ele me convidou para acompanhar o desenvolvimento do projeto e do roteiro, respondi: 'Filme é filme, livro é livro. Quero que faça uma recriação, não pretendo interferir'. E de fato procurei ficar o mais distante possível. Pois agora que vi o filme diversas vezes, estou certo de que Helvécio fez uma grande obra de arte e fico extremamente emocionado ao ver aquela história na tela. Diria que o filme reproduz a violência da repressão como nenhum outro - e se nosso governo não abre os arquivos da ditadura, a arte brasileira o faz. Nesse sentido, o filme de Helvécio é primoroso, escancarando os crimes da repressão ao mesmo tempo em que os contrapõe à nossa utopia e à nossa Fé. Este é um filme impregnado de espiritualidade, de religiosidade demonstrando que a Fé é plenamente compatível com a luta pela justiça - até porque nós, cristãos, somos discípulos de um preso político: Jesus foi preso, torturado, condenado à pena de morte e crucificado. E o fato de ter ressuscitado é a garantia de que, no fim das contas, a vida prevalece sobre a morte".

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Céu de Evidência Solar Denuncia Desamor

* Aurora Miranda Le&atil