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| "Quando
o cinema produz sua própria realidade, filmar
deixa de ser um ato irrelevante. Filmar - e principalmente,
filmar documentários - modifica o mundo. Sem
heroísmo, muito pouquinho, sutilmente, mas modifica".
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João
Moreira Salles |
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Moviola |
INVICTUS: MAIS
UM SHOW de CINEMA de CLINT EASTWOOD
*
Celso Sabadin
Na
vida real, esporte e política sempre caminharam lado
a lado. É só lembrar, por exemplo, dos esforços
de Hitler para tentar provar a tal “supremacia ariana”,
durante as Olimpíadas pré-Segunda Guerra. Ou
da exploração da imagem da seleção
brasileira de futebol durante a ditadura Médici em
1970 (idem Argentina em 78), ou ainda do atentado contra atletas
judeus nas Olimpíadas de Munique. Isso apenas para
citar alguns exemplos. No cinema, porém, talvez nunca
o tema tenha sido abordado com tanto talento e emotividade
como em “Invictus’, o mais recente trabalho do
veterano (e cada vez melhor) Clint Eastwood.
Não
é um filme sobre rúgbi. Não é
um filme sobre Nelson Mandela. “Invictus” é
sobre a possibilidade da igualdade entre as raças e
as condições sociais. Da união entre
diferentes. Da tolerância. Enfim, de todas estas maravilhosas
utopias que amamos acreditar.
A
partir do livro "Playing the Enemy: Nelson Mandela and
the Game that Made a Nation", escrito por John Carlin,
o roteiro do sul-africano Anthony Peckhan (também co-roteirista
de “Sherlock Holmes”) mostra Nelson Mandela assumindo
a presidência da África do Sul, após décadas
de cativeiro. O caos domina o país. Violência,
desemprego, pobreza, desvalorização da moeda
e – pior – um ódio racista que permeia
bancos e negros recém-saídos do abominável
regime do Apartheid que transformou a África do Sul
em vergonha mundial.
Em
meio ao ódio, Mandela (Morgan Freeman, perfeito para
o papel) cria uma política do perdão. “O
perdão remove o medo, por isso é uma arma tão
poderosa”, ele prega. Sua proposta é “supreender
o inimigo com tudo o que eles nos negaram”. Mas a maior
surpresa dos primeiros dias do novo governo é que,
atolado em todos os tipos de problemas, o Presidente prefere
dar prioridade à seleção sul-africana
de rúgbi, prestes a disputar a Copa do Mundo deste
esporte tão estranho aos nossos olhos sul-americanos.
A decisão parece absurda, mesmo porque ele sequer é
fã do esporte. Mas Mandela tem um plano: ele visualiza
naquele jogo o fator que pode integrar a nação
desfaçelada, o elo que pode unir bancos e negros…
ou a pátria de chuteiras, como disse Nelson Rodrigues.
Esta
história real é dirigida por Clint Eastwood
(que completará 80 anos em maio próximo) dentro
de seu consagrado e tradicional estilo: narrativa clara, câmera
clássica, muita sobriedade, estética limpa e
convencional, sempre extraindo o máximo de seu elenco
e da história que ele tem para contar. E como conta
bem! Os personagens são construídos com veracidade
e vigor bem diante dos nossos olhos, em poucos minutos. A
empatia criada com a plateia é intensa. A trama flui,
sem tempos mortos, mesclando tensões e humor em doses
equilibradas.
Claro,
sempre há as armadilhas sentimentais de praxe, como
usar e abusar da câmera lenta nos momentos decisivos
do jogo, ou compor canções românticas
feitas sob medida para serem indicadas ao Oscar. Mas nada
que tire os méritos deste grande diretor e deste grande
filme: quando chegam as decisivas cenas finais, já
estamos todos profundamente imersos na tela. Fomos pegos mais
uma vez pelo talento de um excepcional contador de histórias
cinematográficas.
Tem
sido cada vez mais prazeroso esperar pelo “novo filme
de Clint Eastwood”. |
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CARLOS
ALBERTO MATTOS INDICA DOCUMENTÁRIO
Aventura destinada a público
diversificado... ELE VOA !
Besouro vem aí. Posso
prever que não será unanimidade entre os críticos.
Não temos uma cultura de filmes do gênero aventura
épico-mítico-histórica. Tendemos a rejeitar
espetáculos que se pretendem grandiosos, com técnicas
importadas e sem justificativas sociológicas eloquentes.
Já ouvi comparações irônicas como
“Quilombo 2 – A Missão”.
Mas Besouro corre em pista bem
diferente. É aventura destinada a um público
diversificado, que inclui o infanto-juvenil. A formação
do mítico capoeirista baiano é contada como
uma história de mestre e discípulo na linha
Karatê Kid. O surgimento do herói se dá
à base de culpa por um descuido na proteção
ao mestre. Seus poderes sobrenaturais vêm do encontro
com um Exu que reúne traços de guerreiros africanos,
orientais e medievais. A rivalidade entre colonizadores brancos
e lavradores e serviçais negros tem o sabor um tanto
esquecido dos nordesterns. Já as lutas de Besouro ganham
o caráter vertiginoso de O Tigre e o Dragão,
tendo bananeiras no lugar dos bambuzais de Ang Lee.
Ungido por Exu, Besouro é
capaz de incorporar-se em outras pessoas e transmitir sua
força. Mas tem um ponto fraco, a sua kryptonita. Esse
talvez seja o primeiro superherói afro-brasileiro explícito
do cinema, o oposto da sátira subdesenvolvida encarnada
pelo Superoutro de Edgar Navarro. Aqui a técnica aspira
o top de linha da aventura contemporânea, com imagens
de tirar o fôlego. É admirável como o
filme integra a alta tecnologia com elementos da natureza
tropical. Basta ver a importância dos rios, ventos,
fogo, animais e paisagens brasileiros no protagonismo da trama.
Não fosse o roteiro fragmentado
demais, eu teria sido mais incisivo na defesa do filme na
comissão de seleção do Oscar. João
Daniel Tikhomiroff quer dialogar com o cinema de gênero
internacional sem deixar de fazer um filme mestiço
bem brasileiro. Besouro deve ser prestigiado não apenas
por ser nosso, mas por ser um belo e luxuriante espetáculo
popular. |
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AVATAR
USA VIOLÊNCIA para pregar a PAZ
* Celso Sabadin
A
expectativa era grande. Afinal, há 12 anos James
Cameron colocou seu “Titanic” no primeiríssimo
lugar de bilheteria de todos os tempos, com um faturamento
bruto de quase US$ 2 bilhões. Lugar, aliás,
onde permanece até hoje. E também fazia 12
anos que Cameron não dirigia um longa para cinema.
Assim, não é difícil perceber o quanto
os cinéfilos estavam aguardando “Avatar”,
a tentativa do diretor em quebrar seu próprio recorde.
Será
que ele conseguirá? Se eu tivesse de apostar, jogaria
minhas fichas no “não”. Em primeiro lugar
porque “Titanic” foi um destes fenômenos
que ninguém explica. Mais que um filme, foi um evento,
uma catarse coletiva mundial difícil de ser justificada
com argumentos racionais. E em segundo lugar porque “Avatar”
não é tão excepcional e/ou catártico
como foi “Titanic”. É, sim, um belo entretenimento,
mas sem a carga emocional suficiente para chegar ao tão
sonhado patamar de US$ 2 bilhões nas bilheterias do
planeta. O melhor a fazer, então, é assisti-lo
sem tentar traçar comparações.
A
trama é convencional: em algum lugar no futuro, os
humanos estão monitorando o planeta Pandora, em cujo
subsolo existe uma grande reserva de uma determinada substância
muito importante para a nossa Terra. Não fica bem claro
o que e por que, mas isso não é importante.
Importante mesmo é que em Pandora existe toda uma civilização
extremamente desenvolvida mental e energeticamente, ainda
que na Idade da Pedra em se tratando de armas de guerra. São
seres similares a fadas ou elfos, maiores que os Humanos,
quase mágicos, e onde todos os homens têm o nariz
parecido com o de Woody Harrelson, e todas as mulheres têm
o pescoço da Uma Thurman.
Para
tentar dominá-los, nós, terráqueos, criamos
a tecnologia dos Avatares, ou seja, humanos modificados com
DNA do pessoal de Pandora, feitos para desembarcar no planeta
deles, e estudá-los mais de perto para possamos subjulgá-los
da maneira mais eficiente possível. O Avatar seria,
então, uma espécie de espião que se infiltra
entre os aliens para conhecer seus segredos. Claro que um
Humano (Sam Worthinghton) se revolta contra a situação.
Como sempre acontece neste tipo de filme.
“Avatar”
demora a engrenar. Uma quantidade muito grande de informações
é arremessada sobre o público logo nos primeiros
minutos, ao mesmo tempo em que boa parte da plateia tenta
se acostumar aos óculos 3D, tecnologia muito boa, sim
senhor, mas que rouba uma quantidade absurda de luminosidade
da tela, fazendo parecer que “Avatar” se passa
quase sempre à noite. Fica até a impressão
de que as salas brasileiras não estariam utilizando
lâmpadas dentro das especificações exigidas
pelo sistema, tamanha é a falta de luz e brilho. Pelo
menos foi esta a sensação que tive durante a
sessão de imprensa realizada no Shopping Bourbon, em
São Paulo.
O
roteiro - também escrito por James Cameron - se utiliza
muitas vezes da desagradável muleta da narração
em off, onde o protagonista fica explicando verbalmente o
que está acontecendo, ao invés de tentar encontrar
soluções mais imagéticas e cinematográficas.
Passados
os primeiros esforços - para ouvir os offs, absorver
as informações e arrumar os óculos -
o filme se desenvolve sem muito ritmo, chegando a se tornar
cansativo e sinalizando que talvez não fossem necessários
todos os seus 160 minutos para contar a história. No
terço final, porém, tudo melhora. Os personagens
ganham mais vida, mais dimensão, a ação
é mais intensa e a briga entre as civilizações
e as culturas literalmente pega fogo.
É
impossível não traçar um paralelo entre
a invasão humana predadora em Pandora e a cultura norte-americana
de invadir e destruir toda e qualquer civilização
que tenha algo que eles precisem. Nem vale a pena falar da
finada política Bush, já que “Avatar”
está na cabeça de James Cameron já há
quase 20 anos. Mas sempre foi assim, seja com Coreia, Vietnã,
Afeganistão, Iraque ou coisa que o valha. Tanto que
uma das naves de guerra dos Humanos contra Pandora se chama
Valquíria, provavelmente uma referência à
música que o personagem de Robert Duvall escutava enquanto
chacinava vietnamitas em “Apocalypse Now”.
Como
também é típico da cultura de entretenimento
norte-americana, “Avatar” prioriza o visual em
detrimento da profundidade. Em torno de 40% do que se vê
na tela é resultante de ação filmada,
e os restantes 60% foram gerados por computador, consumindo
um orçamento total estimado em US$ 230 milhões.
Como sempre, a trilha sonora é exagerada e incessante,
e a mensagem politicamente correta valoriza a natureza, a
paz e a tolerância entre os povos culturalmente diferentes.
A
pergunta que fica é sempre a mesma, em se tratando
de blockbusters: por
que os filmes que trazem mensagens de Paz são tão
violentos? |
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Matheus
Nachtergaele estréia com filme radical e intenso
"O filme e os personagens são uma
metáfora de uma experiência vivida por mim, não
é minha história, e sim a poesia da minha história"
Ator
consagrado onde quer que atue, Matheus Nachtergaele
estreou por detrás das câmeras com A
Festa da Menina Morta, roteiro dele que contou
com parceria de Hilton Lacerda. O filme teve sua estreia mundial
em maio de 2008, dentro da seleção da respeitada
mostra Un Certain Regard (Um Certo Olhar) do Festival de Cannes,
onde colheu as primeiras comparações com a pegada
radical do Cinema Novo.
Se ali não recebeu prêmios,
o contrário aconteceu nas demais passagens do filme
em outros festivais internacionais, como Chicago, Havana e
Los Angeles, e nacionais, como Gramado e Rio de Janeiro.
A
coleção de troféus e elogios certamente
pavimentou uma estrada próspera mas não atenua
o potencial de risco presente na própria essência
desta obra radical, intensa, muitas vezes barroca, ambientada
no coração da Amazônia, desdobrando uma
história que mistura religião, incesto, exploração
e sentimentos profundos.
Ator
de filmes como "Amarelo Manga" e "Baixio das
Bestas", ambos do polêmico diretor Cláudio
Assis, Nachtergaele envereda pela mesma busca do diretor pernambucano
de confrontar padrões. A vantagem é que o diretor
estreante atinge uma dramaturgia bem mais ampla e madura no
roteiro assinado por ele mesmo e por outro pernambucano, Hilton
Lacerda, aliás, colaborador de Assis nos dois filmes
citados.
O
sagrado e o profano
A história centra-se
no poder do misticismo numa comunidade perdida nos confins
da Amazônia - as filmagens foram em Barcelos, a 400
km de Manaus. Ali, praticamente toda a população
vive em função da crença nas previsões
anuais de Santinho (Daniel de Oliveira, premiado no Rio e
em Gramado).
Espécie
de beato com inúmeras características profanas
- como o relacionamento dúbio com o próprio
pai (Jackson Antunes) -, Santinho ganhou seu status ainda
criança, quando recebeu de um cachorro os restos do
vestidinho de uma criança desaparecida. Um episódio
que foi interpretado como sinal de divindade e que garante
ao rapaz o servilismo de mulheres como Tia (Ednelza Sahdo),
Das Graças (Conceição Camarotti) e outras,
que se ocupam de todo o trabalho, preparando sua comida, sua
rotina e agüentando seus freqüentes destemperos
histéricos.
A
figura da mãe (Cássia Kiss), dada como morta
por suicídio, assombra a casa, ecoando detalhes biográficos
da vida do próprio diretor, órfão de
mãe ainda bebê - e que, em entrevistas a partir
de Cannes, não nega ter colocado no filme o seu "luto".
Mesmo que o espectador não conheça este detalhe,
salta aos olhos a voltagem emocional das relações
entre os personagens, como Santinho, seu pai e também
Tadeu (Juliano Cazarré), irmão da menina morta,
e um dos poucos a questionar o sentido desse ritual religioso,
mantido há 20 anos.
As
cores fortes da fotografia de Lula Carvalho e a câmera
na mão associam o filme a Glauber Rocha e ao Cinema
Novo, uma ligação que foi identificada por críticos
internacionais à época da exibição
do filme em Cannes e assumida pelo diretor como uma de suas
inspirações.
A
Festa da Menina Morta não aspira a
ser um filme simples, muito menos digestivo. O diretor demonstra
acreditar na validade do uso de seus excessos como parte indispensável
de um projeto que visa a retratar partes de um Brasil ainda
arcaico, primitivo e feroz. E o faz com uma segurança
que fundamenta a impressão de que aqui está
nascendo um diretor sério e comprometido com o cinema.
Nada mau para um marinheiro de primeira viagem.
*
Neusa Barbosa, do Cineweb
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CARLOS
ALBERTO MATTOS INDICA DOCUMENTÁRIO
Fim do Silêncio - Um Filme com todas as palavras
A
partir de hoje, dia 28, Dia da Luta pela Descriminalização
do Aborto na América Latina e Caribe, vários
canais de TV vão exibir o documentário inédito
Fim do Silêncio, de Thereza Jessouroun.
Este
filme bem poderia se chamar “Fim da
Hipocrisia”, ou “Fim da Culpa”,
ou ainda “Fim do Sensacionalismo”.
Porque ele se opõe a toda uma gama de tratamentos que
o tema do aborto tem recebido no cinema.
Usualmente, o assunto se presta a melodramas ou a documentários
que, sob a capa da denúncia, reforçam o estigma
do ‘proibido’ e do ‘clandestino’.
Algumas vezes, a necessidade de proteger a identidade de suas
protagonistas dá margem a recursos artificiosos que
só enfatizam o medo e, em última instância,
o espectro da criminalização.
Ao
contrário disso tudo, Thereza Jessouroun optou
pela simplicidade de uma câmera atenta diante de rostos
descobertos e consciências apaziguadas. As mulheres
que concordaram em expor suas razões para terem interrompido
a gravidez se aliaram à coragem da realizadora para
falar com franqueza de um tabu que ainda impera em grande
parte da sociedade brasileira.
Fim
do Silêncio não é um panfleto
a favor da descriminalização do aborto, mas
um libelo tranquilo contra o fundamentalismo que teima em
se opor à natureza e à ciência. Os relatos
e argumentações dessas mulheres, colhidos nos
estados de Pernambuco, Rio de Janeiro e São
Paulo, são pontuados por pílulas de
informação sobre saúde pública
e impasses legislativos. Nada mais que isso. Palavras faladas
ou escritas que descortinam um quadro assustador de desrespeito
e violência contra a individualidade feminina.
A evolução
do projeto de Thereza é um exemplo eloquente
da dinâmica de produção dos documentários.
Ela pretendia, inicialmente, tecer uma trama de opiniões
que dessem conta do debate em torno do assunto, envolvendo
praticantes do aborto, cientistas e políticos. Na montagem,
porém, verificou que esse formato enfraquecia o filme.
Tal era a força dos depoimentos das mulheres que ela
optou por ficar exclusivamente com eles. E é justamente
a agudez e a inteireza dessas falas que dão ao filme
o seu caráter irrefutável, a sua eficácia
cabal.
A
discussão, portanto, fica no extra-quadro,
a partir das questões colocadas pelas protagonistas.
Ali a opção pela não-gestação
se justifica por razões afetivas, econômicas,
de poder familiar ou simplesmente de estilo de vida. Assim,
o filme cumpre sua função de provocar o debate
sobre a escolha da mulher do que fazer com seu corpo e com
sua responsabilidade social. Não há apologia
do aborto, mas tão-somente a defesa do direito de escolher,
para além de dogmas religiosos e convicções
obscurantistas.
Em
suas primeiras exibições - e mesmo
antes delas -, Fim do Silêncio já
demonstrou sua capacidade de mobilização, contra
e a favor. O fato de ter sido viabilizado por um edital público
gerou protestos entre os que veem o estado como um ente amorfo
que deve se manter à margem das grandes indagações
da sociedade. Felizmente, não é esse o país
em que vivemos hoje. O entendimento do aborto como uma questão
de saúde pública é um progresso que independe
de paixões e doutrinas. Este documentário, embora
nascido de um desejo autoral, acaba sendo um dos produtos
mais visíveis dessa nova concepção.
Para
Thereza Jessouroun, é uma confirmação
de talento, sensibilidade e adequação entre
ideias e formulação audiovisual. Em alguns de
seus trabalhos, a realizadora já abordou o mundo dos
travestis (“Alma de Mulher”), dos
famintos (“Vida Severina”, ainda inédito),
dos descendentes de quilombolas
(“Os Arturos”) e dos portadores
de Alzheimer (“Clarita”).
Com
Fim do Silêncio ela dá um passo
à frente - e também à frente de uma polêmica
que precisa ser vivida dessa maneira: aberta, direta
e com todas as palavras.
Fim
do Silêncio (Brasil - 2009 - 52’)
Direção:
Thereza Jessouroun Distribuição:
Fiocruz Vídeo
Onde:
Canal
Futura: hoje, dia 28, às 23h30; reprise
amanhã, dia 29, às 22h30 / TV
Cultura: dia 1º/10, às 23h10 /
TV Câmara:
dia 29, às 22h30, reprise no dia 3/10, às 16h/
SESC TV: dia
28, às 19h30/ TV Educativa
da Bahia: dia 30, às 22h . |
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RUBENS
EWALD FILHO COMENTA VERONIKA DECIDE
MORRER
Previsto para estrear
nos EUA apenas em novembro, esta
é a primeira adaptação de uma obra de
Paulo Coelho para o cinema. Não de um texto
muito fácil e consumível, já que conta
a história de uma garota que, infeliz e entediada,
resolve se matar. E faz isso exatamente no começo do
filme. Ou seja, é basicamente um drama sério,
sobre o que leva uma uma pessoa ao suicídio, e o que
pode impedir o ato.
Como
sempre, a imprensa brasileira faz restrições
ao trabalho de Paulo, demonstrando que ainda
não conseguiu se conformar com o fato de que ele é
nosso único autor de sucesso mundial (sou testemunha
do êxito dele inclusive no Festival de Cannes, onde
todos o tratam com o maior respeito e admiração).
Um best-seller absoluto. Mas, como sempre, ninguém
é profeta em sua própria terra, ou santo de
casa não faz milagres. Na sessão de imprensa
o filme foi recebido com frieza
Confesso
que penso diferente. Eu gosto de Paulo Coelho,
nos poucos contatos que tive com ele (sua biografia está
na minha cabeceira, mas tenho o hábito de ler vários
livros ao mesmo tempo!), o achei inteligente, educado e sabendo
do que fala, é do ramo. Mas deixei de acompanhar seu
trabalho, em parte porque tenho resistência a ler ficção,
me fixando mais em biografias e não-ficção.
Ganhei o livro na pré-estréia e, folheando,
me pareceu que a adaptação é bastante
fiel, ainda que com orçamento pequeno e rodado em Yonkers
e arredores de Nova York (em vez
da Eslovênia, como no livro, onde ela mora numa espécie
de pensionato; aqui não se mostra muito onde vive).
Sarah Michelle Gellar, a Buffy da
TV, substituiu Kate Bosworth, e
tem o trabalho mais sério e competente de sua carreira.
A diretora inglesa fez antes um desconhecido “Kiss
of Life” (2003), com Peter Mullan e
não aparenta ter nenhum estilo particular
Também
o roteiro me pareceu engenhoso, seguindo a indicação
do livro. Veronika já começa
determinada a morrer, tomando pílulas. Mas é
socorrida a tempo e levada para uma clínica alternativa,
dirigida por um médico misterioso (o inglês David
Thewlis, de “Naked“ e “Harry Potter”),
onde lhe dizem logo ao recobrar os sentidos de que, infelizmente,
foi afetada por um aneurisma no coração, e que
pode morrer a qualquer momento. Isso, aos poucos, vai lhe
devolvendo o interesse em viver intensamente cada momento,
lhe dando vontade de viver, de tocar piano como quando criança,
e se relacionando com um rapaz que, até então,
se mantinha calado (Jonathan Tucker). É verdade que
a história pode ser previsível, e os mais experimentados
matarão a charada. Mas também sinto que, muitas
vezes, é o cinismo da imprensa que faz com que se rejeite
filmes que tenham alguma lição de vida, ou procurem
dar exemplos positivos. Ou seja, simplesmente mais humanos.
E louvem a baixaria, o grosso, o vulgar.
E
no fundo é a isso que se propõe a história
que, antes de tudo, é muito bem interpretada (inclusive
por atrizes que, até agora, ainda não tinha
convencido, como Erika Christensen, que faz uma das pacientes).
Não sei se vai fazer sucesso, até pela aridez
do tema, e a fala de glamourização da empreitada.
Não é um filme obviamente comercial. Esperemos
que o público do autor o aprove. |
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RUBENS
EWALD FILHO COMENTA INIMIGOS PÚBLICOS
Há alguns anos não
se tinha um novo filme sobre o chamado ‘Inimigo Público
Nº 1’ da América, John Dillinger (1903/34),
mas ele já foi objeto de 18 filmes, começando
com o clássico “Dillinger” com Laurence
Tierney, de 1945, até “Dillinger” de John
Milius, em 1973, com Warren Oates. Isso sem contar as biografias
disfarçadas contemporâneas ou que fizeram parte
da série de TV “Os Intocáveis”.
Mas há alguma razão para realizá-lo?
A única coisa nova que eu percebi é que agora
mostram os homens do governo, os G-Men liderados pelo fundador
do FBI, J.Edgar Hoover (condenado abertamente no filme como
demagógico, ambicioso, controlador e fora-da-lei).
Para combater o crime, eles
usavam não apenas métodos científicos
(escutas telefônicas, pesquisas, coisas que na época
eram novidade), mas também a violência, a tortura,
até mesmo contra mulheres. Ou seja, ficamos sabendo
que as forças do governo não tinham as mãos
limpas; ao contrário, eram iguais aos torturadores
de Guantanamo e Iraque. A impressão é que, para
criticar isso, o roteiro acaba pintando um retrato
opaco, sem profundidade do gangster que, por vezes,
parece ser uma figura gentil, que se recusa a realizar sequestros,
porque o público não gosta disso, que adora
seus fãs e o status de super bandido. Fiel a seus amigos,
não é especialmente violento, mas também
não demonstra maior ambição ou inteligência.
Ou seja, fazem mais um retrato superficial do protagonista.
Não mostra nem mesmo o momento em que a mocinha Billie
se apaixonou por ele, o que era essencial para sua atitude
fazer sentido.
Por outro lado, eu gosto muito
de mostrar em detalhe o último filme que “Dillinger”
assistiu, que foi “Manhattan Melodrama” (“Vencido
pela Lei”), estrelado por Clark Gable (fato histórico)
e que, curiosamente, tem muito a ver com sua própria
história e vida. Também se detém na figura
da estrela da fita, Myrna Loy, o que acaba explicando porque
escolheram a francesa, vencedora do Oscar, Marion Cottillard
como Billie, já que ela faz lembrar a estrela (que,
por sinal, foi votada a Rainha de Hollywood na época;
Clark era o Rei).
Não sou fã
do diretor Michael Mann, que considero superestimado
(quem gosta dele é o amigo Luiz Carlos Merten), e que
até agora não fez um grande filme embora tenha
tido alguns acertos (como “O Informante”, “Fogo
contra Fogo” com De Niro, que é um dos co-produtores,
e “Colateral”). Mas errou feio recentemente, com
“Miami Vice”. Ele fez aqui uma escolha polêmica,
resolvendo rodar em HD Digital, passando depois para película.
Isso explica muita coisa. A maior parte do filme é
em câmera na mão, acompanhando os personagens,
e sem situar direito a ação num determinado
ambiente.
De tal forma que o ótimo
elenco de apoio mal pode ser identificado; por isso,
acaba não tendo nem um close revelador e, ainda por
cima, fica quase sempre no escuro. O uso da textura do vídeo
também provoca a lembrança de séries
de televisão e telenovelas; havia, inclusive, momentos
onde achei que estava vendo a série reality “Cops”.
É uma pena também que, com a câmera sempre
no vai e vem, não se consiga ver uma das melhores coisas
do filme, a excelente escolha de locações de
época, em Chicago, Flórida ou Winconsin. Ele
bem que podia ter aprendido muita coisa, se visse de novo
o melhor filme de gangster recente, que é o “Bonnie
e Clyde”, de Arthur Penn, que retrata a mesma época
de forma bem mais memorável.
Aqui a ação se
passa em 1933, e retrata basicamente o último ano de
vida do gangster e assaltante de bancos, seu último
romance, fuga e feitos. Tive um problema com Christian Bale,
fazendo Melvin Purvis porque, especialmente de chapéu,
ele fica por demais parecido com o ex-presidente Collor, nos
trazendo más lembranças. De qualquer forma,
é sua interpretação mais inexpressiva,
junto com o elenco que, coitado, não tem a menor chance
de brilhar. Isso quando são reconhecidos.
A cópia não
tem o brilho do digital, mas tem sua nitidez (por exemplo,
vemos todos os poros da dupla central). Acerta por
outro lado na trilha musical, com aparição rápida
de Diana Krall cantando a música tema (‘Bye Bye,
Blackbird’), e várias intervenções
sonoras de Billie Holliday. Desta vez Johnny Depp não
tem maiores chances de criar um tipo bizarro. Não entendi
porque aparece mais velho; já está com 46 e
pela primeira vez aparenta (quando devia justamente ter feito
o oposto). Também não é um personagem
que lhe dê maiores oportunidades. Recebido com críticas
divididas e bilheteria mediana nos EUA, Inimigos Públicos
é um daqueles possíveis candidatos ao Oscar
que decepciona.
Não é
ruim, dá para ver. Mas nada acrescenta. |
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Vitória
vista pelas margens
* CARLOS ALBERTO MATTOS
Depois de retratar o sambista
Edson Rodrigues do Nascimento no longa Anjo Preto,
o jovem documentarista Guilherme Castor continua
– segundo ele, involuntariamente – a divulgar
aspectos da comunidade afro-capixaba. No FIC-Brasília
ele estreou o longa Harmonia
do Inferno (foto), exibido no Vitória
Cine-Vídeo neste novembro. Já na Mostra Internacional
do Filme Etnográfico, no Rio, ele mostrou o média-metragem
A Iniciação.
Este último foi inteiramente
filmado em terreiros de candomblé de Vitória.
O personagem central, o babalorixá Robson Cuzzuol,
assim como a maioria dos que aparecem no vídeo, é
branco, mas a consciência que reina por ali é
inconfundivelmente africana. O filme ganharia muito se não
se submetesse tanto às explanações (muito
cultas e claras, por sinal) de Robson, o que o torna pouco
mais que uma palestra ilustrada. Mas há pelo menos
dois momentos que se destacam por razões diferentes:
a cena de dois meninos cantando pontos de umbanda para a câmera,
demonstração de que o ritual também pode
ter uma feição lúdica e inocente; e o
“banho” de iniciação de uma jovem
no terreiro, cena forte e rara, mesmo em filmes etnográficos.
Harmonia do Inferno
é um trabalho mais ambicioso e revelador do potencial
criativo de Gui Castor. Passa uma visão
nada piedosa de uma mulher que vive de/num depósito
de lixo da capital capixaba. Dona Elvira Pereira da Boa Morte
cria os netos que os muitos filhos abandonaram. Na linha de
Estamira, o diretor se interessa pela fala singular da mulher
e procura criar uma audio-visualidade poética do seu
entorno. Esse propósito, porém, se choca com
um enfoque um tanto miserabilista, que se demora sobre aspectos
abjetos e patológicos. Ao sublinhar o excessivo e o
deficiente, o filme contraria a sua própria retórica
social, expressa no contraste entre o mundo sujo e doente
de Elvira e a cidade branca e moderna.
Essas
contradições, porém, não empanam
o talento cinematográfico de Gui Castor,
mais aparente a cada novo filme. Harmonia do Inferno
(título retirado de uma frase de Glauber Rocha) tem
um excelente trabalho de câmera e uma edição
de som e imagem que nos põem na ponta da cadeira. Um
olhar afiado de documentarista em pleno desenvolvimento.
*
Leia outros textos de Carlos Alberto Mattos acessando http://oglobo.globo.com/blogs/docblog |
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RUBENS
EWALD FILHO COMENTA DIVÃ
Dar
um papel à altura do talento de Lilia Cabral
é o maior mérito desta produção
Globo Filmes, realizada pelo experiente José
Alvarenga Jr. (“Os Normais”), transpondo
para a tela a peça com a qual ela fez muito sucesso
no Rio e em São Paulo,
por sua vez uma adaptação do
livro best-seller de Martha Medeiros. Lilia
é uma excelente atriz, carismática, engraçada,
mas também boa no drama, capaz de fazer personagens
mesquinhos, maus, ou aparentar bondade e franqueza. Versátil
e querida, ela foi bem aproveitada em “A Partilha”
(2001), filme de Daniel Filho, e em todos
os momentos, aqui, justifica o estrelato. Ela domina o filme,
comove, diverte, interessa. Não é culpa dela
que tenham feito uma opção errada. No palco,
o espetáculo era basicamente uma comédia assumida,
sem culpa. No filme, por algum motivo, Deus vá entender
porque, preferiram optar pelo drama, às vezes até
chegando ao exagero. Pelo realismo. Tudo é contado
em tom meio “Malu Mulher”: a
história de uma mulher de meia-idade, cujo casamento
(com José Mayer, bem eficiente e tranquilo) está
esgotado, os filhos são opacos (talvez, por isso, escolheram
atores de que a gente esquece a cara e o nome) e, de concreto,
tem apenas a amizade de uma melhor amiga perua (a talentosa
Alexandra Richter, que também vem da montagem teatral
- talento que ela comprovou ao viver Lucille Ball na cena
carioca, e que foi expandido aqui para uma situação
que não existia anteriormente, e que acaba servindo
de resolução ao roteiro).
Por
que tinha que ser comédia? Porque assim seria mais
fácil acreditar em algumas reviravoltas do filme, em
particular o romance que Lilia, uma mulher
de cinqüenta anos, tem com dois gatos: um gatão
(Reynaldo Giannechini), e outro gatinho (Cauã Raymond),
os dois levando-a a sério, ao menos enquanto dura a
relação (os momentos na boate já são
mais leves mas, ainda assim, não consegui me refazer
do mau-estar do filme estar levando tudo como drama, em particular
por Lilia ser tão boa na comédia).
Não
sei dizer se isso vai atrapalhar o sucesso do filme, porque
ela continua a segurar a peteca; o resultado é muito
feminino, muito para mulheres de mais de trinta anos, filme
de menina mesmo. E atrapalham também o pôster
horrível, o trailer duvidoso, o nome que não
quer dizer muita coisa (engraçado que o marketing de
cinema é diferente do teatro). Mas sou fã de
Lília, acho o filme divertido, e me
diverti antes no teatro e agora no cinema, ainda que com visões
diferentes.
“Divã”
(Brasil - 2009 - 90 min.) Direção:
José Alvarenga Jr. Com:
Lilia Cabral, José Mayer, Reynaldo Giannechini,
Cauã Raymond e Alexandra Richter
Distribuição:
Disney |
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Jornalista
CELSO SABADIN
comenta BELA NOITE PARA VOAR
Filme
não é ruim... Mas JK merecia mais
O
período JK é um dos mais empolgantes da História
do Brasil. ‘Crescer 50 anos em 5’, como queria
o então presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira
(1902/1976), levou o país a uma onda de otimismo, inovações
técnicas, apogeu artístico... e dívidas,
muitas dívidas.
Mas
o filme Bela Noite para Voar não se
propõe a ser uma radiografia do governo Juscelino.
Sobre isso, é melhor procurar o ótimo documentário
“Os Anos JK” (1980), de Silvio Tendler. Seguindo
por outro rumo, o filme de Zelito Vianna (que já havia
anos antes se debruçado sobre outra interessante personalidade
histórica brasileira, Heitor Villa-Lobos), prefere
enfocar um período de apenas 24 horas na vida do Presidente.
Mas 24 horas das mais intensas. Nelas, JK (a sempre forte
presença de José de Abreu) cruza os céus
do Brasil, tem um encontro secreto com o então governador
paulista Jânio Quadros, resolve rapidamente questões
de fundamental importância nacional, dorme pouco, fala
muito, age rápido e - sem saber - quase morre vítima
de um atentado armado pela própria Aeronáutica
brasileira. Guardadas as devidas proporções,
uma ‘Operação Valquíria’
tupiniquim. A motivação maior do Presidente?
Uma bela amante que atende pelo apelido de ‘Princesa’.
O
filme tem o ritmo de JK. É ágil e vibrante.
Mas se ressente da falta das verbas que seriam necessárias
para tocar um projeto deste porte. Opta então por trabalhar
por planos fechados que não revelem, por exemplo, a
carência de figurantes. Ou as dificuldades inerentes
de toda produção que requeira reconstituição
de época. Como quase tudo se passa à noite,
fica mais fácil. Por vezes, provavelmente para suprir
deficiências orçamentárias, torna-se verbal
demais naquilo que não consegue mostrar com imagens.
E cai no velho erro das minisséries de TV: muitas vezes,
explica demais, desnecessariamente, com receio de que o público
não compreenda a trama.
As
cenas com aviões são claramente digitais, mas
pode-se atribuir o fato a um ‘estilo’, e não
necessariamente a uma falha.
De
qualquer maneira, é um trabalho que pode atrair um
público que se interessa pela história recente
do Brasil. Mas que no desenrolar da trama se torna refém
de suas próprias limitações.
Não
é brilhante, tampouco desastroso. Mas Juscelino merecia
um pouco mais. Visite: www.planetatela.com.br
Bela
Noite para Voar (Brasil - 2005 - 87 min.) Direção:
Zelito Vianna Com: José de Abreu, Mariana Ximenes,
Caca Amaral, Edgar Amorin, André Barros e Marcos Palmeira
Distribuição:
Universal Pictures
Veja
outros comentários acessando MOVIOLA... |
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GARAPA
Mostra FOME como Problema Mundial
"Esta é
uma noite especial, porque estamos recebendo o vencedor do
Urso de Ouro do ano passado, com um documentário impressionante",
disse Wieland Speck, diretor da mostra Panorama, realizada
em Berlim, a uma platéia espalhada até pelas
escadas do cinema.
Speck recomendou ao público
não esquecer de depositar o voto com a avaliação
do filme, ao final, e lembrou que por três vezes um
documentário venceu o Panorama.
Duas horas mais tarde, um pesado
silêncio acompanhou o fim da projeção
do filme, o qual apresenta três famílias sujeitas
à fome no Nordeste brasileiro e se encerra com a estimativa
de que, durante o tempo da sessão, "1.400 crianças
morreram de causas relacionadas à fome ao redor do
mundo".
"Vamos dar ao público
um tempo para lidar com o que acaba de ver", sugeriu
o mediador do encontro de Padilha com os espectadores. José
Padilha salientou que "'Garapa' não é um
filme local", já que situações semelhantes
se repetem "na China, na Índia, na África",
onde o problema da fome atinge parcela da população.
Quando questionado sobre por
que filmou Garapa
em preto e branco, afirmou: "Decidimos tirar do filme
tudo que não fosse fundamental".
Padilha
avalia: "A fome é o mais grave problema
social da atualidade" e repisa cifras citadas
no filme: "A solução
do problema da fome exigiria um investimento de US$ 30 bilhões
por ano; em 2008 o mundo gastou US$ 1,5 trilhão em
armas. Acho que isso diz muito sobre a raça humana".
A
platéia aplaudiu quando o diretor disse julgar que
"esse problema só será resolvido
quando os políticos forem colocados numa situação
de não mais se elegerem se não derem uma solução
para ele".
Antes
da exibição de Garapa,
Padilha apontou a empatia do público com os personagens
como o pilar do poder de comunicação do cinema.
"Você pode usar isso em filmes para entreter e
pode também usar para dar [ao público] consciência
de problemas sociais." A intenção de Garapa,
explicou, "é ver a fome não por uma perspectiva
intelectual, mas do ponto de vista dos que têm que viver
com ela".
Ao recuperar a palavra, o público
deixou a sala repetindo adjetivos como "triste"
e "forte". Com todo o interesse despertado por seu
novo filme na mostra alemã, o cineasta brasileiro afirma:
"Esse não é um filme com o qual
eu possa ficar feliz".
* Com informações da jornalista Silvana Arantes,
direto de Berlim. |
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Jornalista
CELSO SABADIN COMENTA AUSTRÁLIA
Virou
chavão, para muitos saudosistas, dizer que ‘já
não se fazem mais filmes como antigamente’. Para
eles, uma boa notícia: sim, ainda se fazem filmes como
antigamente. Pelo menos o australiano Baz Luhrmann (de “Moulin
Rouge”) acabou de fazer um. Ele se chama “Austrália”,
traz roteiro e estética abertamente retrôs, e
não tem nenhum problema em se assumir como rasgadamente
melodramático.
A
má notícia é que o público (pelo
menos o norte-americano) não gostou, e o filme está
se encaminhando a passos largos para o fracasso financeiro.
Vale
esclarecer. Para apreciar “Austrália” é
preciso vestir a camisa de sua proposta. Trata-se de um épico
histórico claramente calcado no estilo cinematográfico
histriônico popularizado por “...E o Vento Levou”,
de 1939. Talvez não por acaso, grande parte da ação
de “Austrália” seja ambientada exatamente
neste ano. Todos os clichês do gênero estão
presentes, e isso não é necessariamente um defeito,
mas sim uma opção estilística. Sim, o
filme é feito para chorar, cheio de histórias
de dor, exemplos edificantes de superação, trilha
sonora exuberante, gruas, tomadas de helicópteros,
intolerância racial, paixões, largas paisagens
e uma guerra como pano de fundo. Até o poster de divulgação
parece de filme antigo.
O
espectador que não entrar no espírito da época
fatalmente tenderá a crucificar “Austrália”
como exagerado e ultrapassado. Mas quem aceitar o jogo de
Luhrmann será brindado com um - literalmente - grande
filme. Tanto em sua duração (165 minutos) como
em sua caprichadíssima produção, meticulosa
reconstituição de época e - claro - gigantescas
locações, já que a Austrália é
um continente famoso pelos seus larguíssimos horizontes.
Quanto
ao fato dele soar falso e exagerado em determinados momentos
(incluindo algumas tomadas, digamos ‘virtuais demais’
), vale esclarecer que toda a sua história é
narrada por um garoto aborígene que se julga dotado
de poderes mágicos, ou seja, o ponto de vista do narrador
infantil justifica e explica muita coisa.
Ah,
sim, a história. Foram necessários custosos
e extenuantes nove meses de filmagem (geralmente a média
é de dois meses) para Luhrmann contar a saga da Sra.
Ashley (Nicole Kidman), uma fina aristocrata inglesa que herda
uma gigantesca fazenda falida na Austrália, e acaba
se envolvendo num mundo totalmente diferente do seu, onde
proliferam a corrupção, o roubo de gado e a
intolerância. Claro que pelo caminho ela vai se apaixonar
por um rude peão boiadeiro (Hugh Jackman) que nem nome
tem. Ele é apenas o “Capataz".
E
por aí vai...
Ajuste
sua máquina do tempo para 1939 e curta sem culpa de
ser melodramático.
AUSTRÁLIA
(“Austrália” - EUA - 2008 - 165 min.) Direção:
Baz Luhrmann Com: Nicole Kidman, Hugh Jackman e Bryan Brown
. |
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A Documentarista
da Espontaneidade
*
Wagner Donato
Vi
o primeiro curta desta jovem realizadora cearense. É
o Coração Raiz, ambientado no município
capixaba de Patrimônio da Penha, na região
do Caparaó. Depois vi um outro trabalho de Aurora
Miranda Leão, desta vez o curta Adorável Rosa,
belo registro de seus muitos anos de amizade com a atriz
Rosamaria Murtinho. Aurora é uma jornalista cearense,
também atriz (atua no curta Doce Amargo Infinito,
que vi no Curta Santos do ano passado), e pelo que soube
por colegas do meio, agita em mil direções
- do texto à produção, sempre com um
sorriso nos lábios e amealhando amigos por onde passa.
Pois
eis que agora vem com novo trabalho, o documentário
de sugestivo título A Casca Avoa e o Miolo Fica,
no qual seus personagens principais são o músico
Calé Alencar e a tradicional Banda Cabaçal
dos Irmãos Aniceto. Aqui o foco da cineasta são
declaradamente amigos que ela fez ao longo da caminhada
profissional. E tudo é registrado de forma absolutamente
espontânea, sem rebuscamentos de falas ou cenários
especialmente preparados para as filmagens. O resultado
é um curta assumidamente autoral, onde a empatia
toma conta da cena e a simplicidade do registro cativa até
quem não é versado em cultura popular. Tudo
com a maior singeleza e naturalidade, num clima tão
ameno que convida o espectador a adentrar o ambiente dos
artistas como se nos convidasse a todos para uma audição
de música brasileira captada ali mesmo na sala de
jantar da nossa casa. Chama a atenção também
o fato de aqui os artistas da cultura popular serem dimensionados
no mesmo patamar em que estão uma orquestra ou a
música de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, com o
arremate da afirmação de Uibitú Smetak
de que todos "fazem parte de uma mesma família
musical”. Se outros méritos não houvesse,
só esta cena já valeria o registro de Aurora.
Mas há ainda o lance final com a preciosa definição
do mestre Raimundo Aniceto para o que seja Folclore. Aí
só vendo pra captar na dimensão correta. Um
feche genial provando que não é preciso ser
complexo para ser intenso. Para alcançar-se a essência,
basta a alma. E isso Aurora tem. Por isso, pode ser considerada
a Documentarista da Espontaneidade. Assim sendo, o filme
ter sido lançado inaugurando projeto chamado Cinema
no Terreiro e que pretende levar a diversos artistas/mestres
da cultura popular seu próprio arsenal cultural,
merece de nós os melhores aplausos.
* O autor
reside na Paraíba e é formado em Artes Visuais
pela Universidade Federal de Goiás
Saiba
mais acessando o link Casa da Memória Equatorial... |
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O
Dia em que a Terra Parou - Abordagens Diferentes
*
Lenildo Gomes
Em 1951, o diretor Robert Wise
ainda era bem mais conhecido pela indicação
ao Oscar de montagem por “Cidadão Kane”.
Nos Estados Unidos, o democrata Harry Truman cumpria seu segundo
mandato como o 33º presidente da nação
norte-americana. O quadro político mundial apontava
claramente para a bipolarização do mundo entre
o capitalismo e o socialismo russo. A doutrina Truman encontrava-se
a pleno vapor e o cinema havia se solidificado como um dos
principais (senão o principal) meio de propagação
do “american way of life”, ou seja, o estilo de
vida americano.Nesse período, a produção
cinematográfica já conhecia as primeiras experiências
no campo da ficção científica, partindo
do revolucionário Méliès com o seu “Viagem
à Lua” (1902), passando por Fritz Lang (“Metrópolis”,
1927),“ O Homem Invisível” (de James Whale,
lançado em 1933), indo de encontro aos efeitos especiais
em “King Kong” (de Merian C. Cooper, 1933), “A
Ilha do Dr. Moreau” (Erle C. Kenton, 1933), “Daqui
a Cem Anos” (William Cameron Menzies, 1936), “O
Médico e o Monstro” (Victor Fleming, 1941), dentre
outros.ContextoA tecnologia e seus artefatos colocados a serviço
da Sétima Arte chegavam ao ápice da ausência
de limites que poderiam ser colocados à serviço
da criatividade, ou, segundo os teóricos da Escola
de Frankfurt, essa mesma tecnologia significaria o fim da
arte. Com o cinema, arte por excelência reprodutiva
e tecnológica, não seria diferente. Evidentemente,
o contexto político da Guerra Fria e o medo do extermínio
completo da humanidade por conta de um possível conflito
nuclear entre as duas maiores potências mundiais completava
a atmosfera ideal para o clima que o filme de Wise pretendia
criar. Com tudo isso, “O Dia Em Que a Terra Parou”
estreou provocando a seguinte reflexão: afinal, a vida
humana valeria a pena ser preservada?No filme de Wise, a chegada
da Klaatu e seu robô Gort é cercada de apreensão,
medo e perplexidade. O suspense criado pela música,
as imagens do sistema solar e o aparecimento do objeto redondo
e claro sobrevoando o planeta nos fazem, mesmo vendo o filme
agora, esperar pela aparição dos seres que descem
triunfantes a rampa que sai do disco voador.A mídia
dá ampla cobertura ao acontecimento. As pessoas vão
às ruas e cercam o objeto que aterrizou em um parque
da cidade. A curiosidade, o porquê da vinda daqueles
seres ao nosso planeta é aguçada pela negativa
de Klaatu em revelar seus motivos. Para ele, tal informação
só seria possível mediante a presença
de todos os líderes mundiais. Por todos os lugares,
permanece a perplexidade, e as inúmeras teorias sobre
a forma e os motivos ganham enorme diversidade. Em determinado
momento, uma família diante da TV comenta: “Gente
o que? Eles são democratas!”. A Indústria
Cultural teorizada pelos frankfurtianos encontrava-se no seu
apogeu.Clichê2009. O mundo comemora com euforia a volta
de um presidente democrata ao comando de sua maior nação.
Obama representa, para alguns, a redenção e
a esperança de que dias melhores virão. Scott
Derrikson, que dirigira anteriormente “O Exorcismo de
Emily Rose” (2005), apresenta ao mundo sua releitura
do clássico de Robert Wise.Se no filme de 1951 as fragilidades
humanas são expostas na forma da ambição,
do egoísmo e da intransigência, na refilmagem
de Derrikson, as preocupações ambientais tornaram-se
o mote principal da ameaça à vida no planeta.
A releitura, nesse caso, remete igualmente aos principais
problemas do mundo atual.A onda democrata - impossível
não lembrar aqui do documentário “Uma
Verdade Inconveniente”(2006) - por um lado, é
a principal marca do contexto político dos tempos atuais,
por outro, reafirma a pauta do meio ambiente e da responsabilidade
social como das mais importantes para a própria sobrevivência
dos movimentos políticos. Keanu Reeves, que interpreta
Klaatu nesse remake, chega ao planeta para tentar salvar a
humanidade de uma tragédia ecológica que colocaria
fim à vida como hoje é conhecida.A mensagem
final do filme de Wise remete ao questionamento sobre a possibilidade
humana de administrar de forma racional seus problemas. As
divergências políticas que levariam ao conflito
nuclear poderiam ser evitadas se nós, humanos, desenvolvêssemos
a capacidade de sermos senhores de nosso próprio destino.Derrickson
e seu Klaatu vivido por Reeves talvez não tenham, a
seu favor, um contexto tão favorável ao clima
que seu filme poderia criar. Óbvio que a degradação
ambiental poderá levar ao caos completo da vida no
planeta. Entretanto, um roteiro que por diversas vezes não
esclarece muito alguns fatos da presença de Klaatu
e Gort contribui para tal enfraquecimento. No mais, uma atuação
razoável de Reeves, associada ao fato do filme proporcionar
a lembrança do clássico de Wise, acabam mesmo
sendo o que de melhor a refilmagem possa oferecer. No fim,
é quase inevitável para a indústria cinematográfica
não construir mais um clichê: a humanidade, violenta,
também ama e por isso merece uma segunda chance. *
Sociólogo, pesquisador e realizador em audiovisual.
Coordena a Escola Pública de Audiovisual de Fortaleza
e leciona no curso de Comunicação Social da
Faculdade Evolutivo.
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Filme
Levanta Bola do Diálogo Doc-Fic
* Carlos Alberto Mattos
Linha
de Passe relançou debate que tem sido freqüente
no cinema brasileiro recente: como a ficção
se inspira nos documentários?
Os irmãos Salles são
um exemplo vivo e sonante desse trânsito. O doc “Socorro
Nobre”, de Walter, inspirou o seu “Central do
Brasil”. “Notícias de uma Guerra Particular”,
de João, apontou caminhos para filmes como “Cidade
de Deus” e “Tropa de Elite”. Mas é
o próprio Walter quem reconhece que não basta
a um filme inspirar-se num doc para ficar próximo do
doc. Ele trocou e-mails com o docblogueiro:
–
“Central do Brasil” não tem linguagem documental,
à exceção dos depoimentos do início
do filme. Em “Central”, tudo era questão
de precisão. O filme foi projetado numa espécie
de cinema interior antes de ser filmado’.
No
caso de “Linha de Passe”, Walter tem frisado em
entrevistas que ele e Daniela Thomas procuraram filmar na
fronteira entre a fic e o doc. Mas o que isso exatamente quer
dizer?
Houve,
primeiro, a inspiração em dois docs de João:
“Futebol”, co-dirigido por Arthur Fontes, que,
entre outras coisas, descrevia a máquina de moer sonhos
pela qual costumam passar os jovens aspirantes ao estrelato
no futebol; e “Santa Cruz”, co-dirigido por Marcos
Sá Corrêa, acompanhamento da criação
de uma pequena igreja evangélica no subúrbio
carioca.
Futebol
e religião são dois eixos importantes na construção
dramática de “Linha de Passe”, muito ligados
às questões da fraternidade e da busca do pai.
Na conversa com Walter, confirmei que também “Motoboy
- Vida Louca”, de Caíto Ortiz, teve grande importância
no processo.
–
Gosto muito do documentário, a ponto de ter escrito
um artigo para a Folha sobre o filme. Já tinha desenvolvido
um personagem de motoboy num roteiro escrito dois anos antes
de “Linha de Passe”, mas “Motoboy - Vida
Louca” nos ajudou a entender o quão complexa
era aquela realidade.
Para
além das eventuais influências, existem diálogos
possíveis, não intencionais, com docs (posteriores
à concepção do projeto) como “Em
Trânsito”, de Henri Gervaiseau, e mesmo “33”,
de Kiko Goifman, sobre a procura da mãe biológica.
Essas,
contudo, são semelhanças temáticas, menos
importantes para determinar o teor documental de um filme.
“Linha de Passe” liga seu fio-terra em diversos
acontecimentos reais da cidade de São Paulo. Entre
eles, o menino que roubava ônibus e procurava seu pai
entre os motoristas (já retratado no curta “O
Menino e o Bumba”, de Patrícia Cornils), a onda
de roubos com motocicletas, os incêndios de ônibus.
Mas isso tampouco seria suficiente para caracterizar um trabalho
de fronteira.
O
mais importante de tudo estava na linguagem, como explica
Walter: – Estar no limite entre ficção
e documentário é estar aberto à idéia
de que a narrativa deve ser constantemente transformada pelo
imprevisível, pelos acidentes que só a realidade
traz. Em outras palavras, é necessário que o
roteiro original seja desestabilizado constantemente ao longo
da filmagem. Foi o que buscamos em “Linha de Passe”.
Como optamos por não ter figurantes no filme e sim
pessoas que vinham realmente dos universos que estávamos
retratando, éramos constantemente surpreendidos por
coisas que não esperávamos. Para capturar aquilo
que não estava no roteiro, era necessário trabalhar
com equipamento leve, como num documentário. Essas
novas cenas foram transformando pouco a pouco a matéria
fílmica, de tal maneira que o filme final é
muito diferente do filme que existia no papel.
Ele
prossegue: – A gramática cinematográfica
foi na mesma direção: como a maioria dos atores
estava fazendo seu primeiro filme, procuramos não marcar
as cenas como faríamos com atores profissionais. Ao
contrário, a câmera tenta acompanhar os movimentos
de personagens que evoluem livremente em quadro. É
por isso, aliás, que o foco chega algumas vezes atrasado
- como num documentário. Por fim, gruas, steadicams
ou outras parafernálias eletrônicas não
fazem parte dessa linguagem. Filmes que utilizam esses instrumentos
ou o cinemascope podem dificilmente ser caracterizados como
próximos do documentário...
O
interessante, em “Linha de Passe”, é que
as improvisações e recriações
da filmagem soam tão orgânicas que parecem rigorosamente
planejadas. O filme tem um roteiro muito bem amarrado, que
evolui das histórias atomizadas dos quatro irmãos
para uma crescente interpenetração, culminando
com um belíssimo conjunto de clímax paralelos.
Talvez
a semelhança mais curiosa com a linguagem documental
esteja no uso de um procedimento formal fixo, coisa típica
dos chamados “documentários de dispositivo”
contemporâneos.
A
estrutura do filme inteiro obedece ao padrão das linhas
de passe futebolísticas, aquela brincadeira coletiva
em que cada jogador só pode dar um toque na bola, passando
adiante a um companheiro.
As
seqüências são curtas, sem continuidade
direta, passando de um a outro personagem como a bola da linha
de passe.
Depois
dos documentários, teremos agora a ficção
de dispositivo?
Visite: www.criticos.com.br
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Indiana
Jones e o Reino da Caveira de Cristal
* Rubens Ewald Filho
Não gosto de ler nada
sobre a história dos filmes antes de assisti-los, e
abomino a prática dos blogs e sites de insistirem em
contar detalhes do enredo, antes dele estrear. É puro
estraga-prazer, por vezes atrapalhando, e até destruindo,
a graça de se descobrir, na sala escura do cinema,
as surpresas e reviravoltas das tramas dos filmes. Portanto,
se você pretende ver o novo (e quarto) “Indiana
Jones”, já vou informando que o filme é
ótimo, divertido, movimentado, cheio de ação,
auto-referente (lembra todos os anteriores e abre caminho
para futuras continuações), e toma todas as
decisões corretas.
Embarquei de cabeça e
me diverti completamente, como os autores pretendiam, como
se estivesse numa matiné dos meus tempos de criança
(a diferença era o saco de pipoca, que naquele tempo
era proibido!).
Spoilers - Deixe o resto para
ler depois de ver o filme, já que não posso
deixar de comentar alguns detalhes.
Não é nada constrangedor
ver Harrison Ford, aos 65 anos, voltar a fazer um filme de
ação. Embora tudo seja levado com bastante humor,
ele luta, briga, apanha, dá socos, sem nunca parecer
ridículo ou obsoleto (nem mesmo a ocasional substituição
por um dublê, em cenas mais perigosas, chega a atrapalhar).
Defende com galhardia o personagem de Indiana Jones, agora
em 1957, nos EUA de Eisenhower, onde a ameaça dos comunistas
soviéticos está deixando todo mundo paranóico,
chegando a lhe custar o emprego de professor universitário.
O filme começa com uma
citação de “American Graffiti”,
com um racha no deserto, e uma surpresa, quando ele se vê
no meio de uma explosão nuclear (depois disso, já
se sabe que ele é capaz de sobreviver a tudo!).
Os inimigos logo se revelam:
a vilã é uma russa ucraniana que, deseja ter
poderes paranormais e lembra as bandidas de antigamente, quando
elas não tinham qualquer sentimento redentor.
Irina Spalko é pérfida
assumida e, em momento algum cai na caricatura, graças
à presença carismática de Cate Blanchett.
Ela quer algo de Indiana e fará tudo para conseguir,
inclusive subornar um antigo amigo que virou traidor (Ray
Winstone, como Mac). E começam as referências:
ao Caso Roswell, ao próprio “Caçadores
da Arca Perdida”, a aqueles antigos filmes de testes
da bomba atômica e, mais tarde, de “Contatos Imediatos”,
“ET”, “Tarzan”, “O Selvagem
da Motocicleta”, de Marlon Brando (Shia é motoqueiro),
musicais de Elvis Presley e, naturalmente, aos antigos seriados
dos anos 30 e 40.
Sabe-se que custaram a fazer
essa continuação (dá para acreditar que
já se passaram 19 anos desde o ultimo episódio!
Foi em 1989. Credo, como o tempo passa...) porque não
gostaram - melhor dizendo, o produtor George Lucas não
gostou - dos roteiros escritos por M.Night Shyamalan, Tom
Stoppard e Frank Darabont (que diziam ser muito bom). Quem
acabou acertando foi David Koepp (“Zathura”, “Guerra
dos Mundos”, “Homem-Aranha”, “Quarto
do Pânico”). Sua solução foi contar
com a cumplicidade da platéia, que percebe e entende
as referências (o medo de cobras, Indiana tentando usar
o revólver, como no primeiro filme, e assim por diante).
Infelizmente, a própria
escalação do elenco já revela uma novidade,
nada surpreendente.
Retorna Karen Allen, que foi
a namorada de Indiana - Marion Ravewood -, no primeiro filme.
E como ela tem um filho jovem/adulto (Shia) não é
difícil matar a charada. De qualquer forma, esse relacionamento
acaba dando charme e humor ao filme, e parece ser a base de
uma futura continuação (ao que parece, Indiana
ainda não está disposto a passar o chapéu).
Não espere muita verossimilhança
na aventura. Pelo filme, as cataratas do Iguaçu (nunca
mencionadas, mas parte importante na história) ficam
no meio da selva amazônica. Mas, para que serve um velho
túmulo, cheio de riquezas, a não ser para desmoronar,
provocando uma fuga desesperada? Todos os clichês -
ou momentos clássicos, se preferirem - estão
presentes e ainda funcionam. Porque a gente já entra
no cinema disposto a curtir, torcer e vibrar com as façanhas
rocambolescas do velho herói.
Alguns reclamaram do filme invocar
temas que parecem saídos de “Eram os Deuses Astronautas?”.
Mas achei muito lógico porque, afinal de contas, é
um filme de Spielberg, o cara que praticamente inventou o
gênero de fantasia com “ET” e, antes dele,
“Contatos Imediatos”.
Sabe-se também que Sean
Connery se recusou a sair da aposentadoria, para reviver o
personagem do pai de Indiana, que no filme é dado como
morto, assim como o Dr. Marcus Brody - embora, nesse caso,
Denholm Elliott, o ator que o interpretou, tenha realmente
falecido. De qualquer forma, é uma homenagem adequada.
Como o fotógrafo dos três filmes anteriores,
Douglas Slocombe, já faleceu também, o sucessor,
Janus Kaminzki, que tem feito os filmes recentes de Spielberg,
procurou imitar seu estilo de iluminação, que
lembra as antigas histórias em quadrinhos. Por isso
não quis usar a técnica digital, profetizada
pelo produtor Lucas.
São detalhes que ajudam
a apreciar melhor o filme - que continua contando com a trilha
musical de John Williams - que não fica nada a dever
aos anteriores. Divirtam-se!
Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal
(“Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull”
- EUA - 2008 - 124 min.) Direção: Steven Spielberg
Produção: George Lucas Com: Harrison Ford, Karen
Allen, Ray Winstone, Cate Blanchett, Shia LaBeouf, John Hurt
e Jim Broadbent |
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Morre
o ator dos papéis memoráveis
* Rubens Ewald Filho
A
morte de Charlton Heston, sábado 5 de abril,
aos 84 anos, foi o fim melancólico
daquele que foi um dos maiores astros de cinema de nossa época.
Seu nome era Charlton (Mr. Heston), mas podem
chamá-lo de Moises, Ben Hur,
ou João Batista que também
dá certo.
Seu
rosto parecia ter sido feito especialmente para interpretar
papéis de personagens clássicos ou heróicos;
foi um dos poucos atores de cinema que parecia convincente
usando uma tanga ou uma saia curta, ou qualquer roupa de época.
Ninguém duvidava de sua macheza, ninguém questionava
sua identidade. Não é à toa que seu descobridor,
Cecil B. De Mille, dizia no trailer de “Os
Dez Mandamentos” que tinha achado Charlton
parecido com a estátua que
Michelangelo havia feito de Moisés
e, por isso, o havia escolhido.
Numa
longa carreira, de mais de 50 anos
e cem filmes, Charlton foi
um dos poucos atores de sua geração que continuaram
atuando, sendo conhecido até pelos jovens. Até
numa recente festa do Oscar, ele estava na
platéia sendo homenageado, porque o vencedor era “Gladiador”,
parecido com o tipo de filme que ele costumava fazer.
Também
foi muito criticado porque, durante muito tempo, Charlton
foi porta-voz da associação
que defende o direito dos norte-americanos portarem armas,
o que foi muito contestado diante dos excessos dq violência
nos EUA, ainda mais entre jovens.
Nunca
perfeito, Charlton Heston continuou a ser
uma lenda, mesmo que nos últimos anos; nos últimos
anos tinha graves problemas para andar, caminhava mancando
e com dificuldade.
Para
mim, a imagem que fica é a de quando o entrevistei
na praia, em Cannes, durante o lançamento
de “Hamlet”, de Kenneth
Branagh, e ele começou me recitar trechos
de Shakespeare, ainda majestoso, com sua
voz ressonante. Impressionante; ele era grande conhecedor
de Shakespeare, ainda mais para alguém
que já estava doente (e não sabia).
Nascido
John Charles Carter em Evanston, Illinois
em 4 de outubro de 1924, tornou-se Heston
por causa do sobrenome de seu padrasto. Foi cursando a
Universidade Northwestern que ele descobriu a vocação
para ator e, ainda na escola, conheceu sua mulher, também
atriz e com quem viveu até morrer, Lydia Clarke.
Depois de servir três anos o serviço militar,
começou fazendo televisão e dois filmes
semi-amadores, “Peer Gynt” (1941) e uma
versão de Julio César (1950), quando
foi descoberto pelo produtor Hal Wallis,
que o amarrou a um contrato exclusivo e o levou para a Paramount,
onde estreou em “Cidade Negra”
(‘Dark City‘), em 1950, já
num papel central - o de um cínico veterano de guerra,
envolvido num complicado esquema de traições
e vigarices.
Foi
fazendo esse filme que Heston foi descoberto
no estúdio por De Mille, que o colocou
num papel central de sua superprodução “O
Maior Espetáculo da Terra” (‘The
Greatest Show on Earth‘ -1952). Ele fazia o gerente
do circo, que controla todos os números e conquista
o amor da mocinha, Betty Hutton. A fita deu
a De Mille o único Oscar
que ele ganhou em sua vida, e transformou Heston
num nome famoso.
Ainda
que tenha passado a maior parte de seu contrato
com a Paramount fazendo filmes de
ação, foi novamente De Mille
quem veio em seu socorro em 1956, quando
o transformou em Moisés no célebre
“Os Dez Mandamentos”, devidamente maquiado,
com barba e cabelo grisalho, porque o personagem começava
jovem e terminava maduro.
Na
verdade, a história começa com Moisés
menino, e quem fez o papel do bebê foi justamente Fraser,
o filho de Charlton, que mais tarde se tornaria
competente diretor de cinema. Mas era um papel difícil;
era preciso tornar convincente um diálogo cheio de
frases grandiosas e, ainda por cima, não ser superado
pelos efeitos especiais. Outro marco de sua carreira viria
logo depois, em 1958, quando o próprio
Heston sugeriu à Universal
que desse uma chance para Orson Welles dirigir
“A Marca da Maldade”, um filme
policial, noir mesmo, que ele realizou dentro do orçamento
e de forma brilhante, mesmo que o estúdio tenha mexido
um pouco no filme, e só recentemente pudemos ver a
versão restaurada. Heston faz o papel
de um mexicano, Mike Vargas, que se casa
com a americana Janet Leigh, e tem que enfrentar
um corrupto policial americano. Mas é a maneira com
a qual o filme é encenado que o torna tão excepcional.
No
ano seguinte, depois de fazer uma aparição amigável
em “Corsário sem Pátria”
(‘The Buccaneer’ - 1958) - canto de cisne de
De Mille como produtor -, Heston
conseguiu o papel de sua vida. Dizem que o diretor William
Wyler tinha pensado antes em Rock Hudson,
e chegou a fazer outro filme com Heston,
antes de se decidir. Mas ele foi o “Ben-Hur“(1959)
perfeito.
É
verdade que podia não parecer judeu como o personagem
exigia, mas sua presença tinha uma força, uma
bravura, uma decência, e também uma figura atlética
que tornou o herói convincente, e ajudou o filme a
se tornar campeão em número de Oscars
- 11 no total - um recorde apenas igualado por “Titanic”
(1997).
E
não podemos esquecer a fantástica corrida
de bigas, uma das cenas mais espetaculares do cinema,
onde Heston realmente chegou a arriscar a
vida em momentos inigualáveis.
Dali
em diante, bem que ele tentou diversificar. O Telecine
Classic exibiu uma de suas experiências em
comédia, a divertida “O Pombo que Conquistou
Roma” (‘The Pigeon That Took Rome‘),
com Elsa Martinelli, de 1962. Mas eram meros
intervalos entre outros filmes e papéis espetaculares,
como o lendário Rodrigo Díaz de Vivar,
“El Cid” (EUA - 1961), no filme de
Anthony Mann, onde realizava a proeza de ser herói
mesmo depois de morto. O filme, só hoje em dia, foi
reavaliado como um dos maiores épicos já feitos
pelo cinema, inclusive com cenas de amor líricas, ao
lado de Sophia Loren.
Para
o diretor George Stevens ele foi São
João Batista, em “A Maior História
de Todos os Tempos” (‘The Greatest Story
Ever Told’ - 1965), uma participação relativamente
pequena, mas que deu prestígio a outro épico
religioso.
Para
muita gente, entretanto, Heston será
lembrado por “Planeta dos Macacos”
(‘Planet of the Apes’), na primeira e ainda melhor
versão, de 1968, um dos grandes clássicos
do cinema de ficção científica. Na recente
versão ele chegou a fazer uma ponta, como o pai do
vilão.
O
fato é que, depois de 50 anos de papéis
memoráveis, Heston acabou
vindo filmar em Manaus e, vejam a ironia,
seu último filme foi rodado no Brasil
e continua inédito aqui (porque, aparentemente, é
ruim): “My Father, Rua Alguém 5555”
(2003), onde ele fazia o nazista Josef Mengele.
Foram
cinqüenta anos de imagens inesquecíveis,
em alguns dos filmes mais populares de todos os tempos, e
tudo isso estragado por seu conservadorismo, e por uma aparição
desastrosa em “Tiros em Colombine”
(2002), onde revelava suas idéias reacionárias.
Mas, certamente, naquela ocasião ele já estava
afligido pela doença, ou seja, não raciocinava
mais direito (pouco tempo depois, a família anunciou
sua aposentadoria, e ele nunca mais apareceu em público).
Uma
lástima que esse deslize final obscureça uma
carreira notável. |
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África,
tão perto, tão longe
* Paulo Betti
Imagine um festival de cinema
cuja abertura e encerramento com entrega de prêmios
acontecem num estádio de futebol diante de um público
de 30 mil pessoas.
Assim foi a vigésima
edição do Fespaco, evento bienal
que se realiza em Ouagadougou, capital de Burkina Faso, localizada
no coração da África do oeste com fronteiras
com o Mali, Benin, Togo, Gana e Costa do Marfim. Confesso,
que, como a maioria dos brasileiros, a única coisa
que sei a respeito desses países é que eram
times de futebol no álbum de figurinhas que colecionei
com meu filho na última copa do mundo.
A língua oficial de Burkina
é o francês, mas fala-se também o Moore,
Dioula e o Fulfude. A altitude é de 500 mts e o clima
é tropical, sem chuvas, seco.Quente, muito quente.
A população está em torno de 12 milhões
de habitantes.
Por que sabemos tão
pouco sobre a África ? Porque não sabemos nada
sobre esse festival no Brasil? Certo, só concorrem
a prêmio os filmes africanos, mas isso não é
razão para não mandarmos nossos filmes pra lá.
Mostras paralelas excitantes exibem filmes de todo mundo para
uma platéia ávida e as salas estão sempre
lotadas.Mais de 150 filmes e também uma grande quantidade
de sitcons e seriados de tv. Esse é um dos
mais importantes festivais de cinema do mundo. Até
mesmo a bíblia do cinema, o Cahier du Cinema, dedicou
um suplemento inteiro a esse acontecimento.
Nosso governo tenta incrementar
as relações com o continente africano, mas nossa
agência de cinema, a Ancine, não tem o Fespaco
no seu ranking de festivais que merecem passagens e incentivos
para que os nossos cineastas se disponham a ir para lá.
Isso precisa ser corrigido.
O
fato é que estamos muito mais distantes da África
do que supomos.Se olharmos o mapa, veremos que numa viagem
de 6 horas estaríamos em Ouagadougou. Mas somos obrigados
a ir a Paris. Pronto. A viagem passa a ser de dois dias.
No carnaval de 2007, cinco escolas
de samba do primeiro grupo no Rio de Janeiro tiveram a África
como tema de seus enredos, inclusive a ganhadora, a Beija
Flor. Somos um País com metade da população
de negros e pardos. Não é o que diz o IBGE ?
Apesar disso, o último filme brasileiro que eles lembram
ter participado do Fespaco foi o maravilhoso documentário
“Orí”, de Raquel Berger em 1989.
Imagine uma cidade que
tem como principal monumento uma homenagem aos cineastas.
Um enorme e curioso obelisco em cimento imitando latas e carretéis
de película. A Praça
dos Cineastas. Essa é Ouagadougou.
Um único brasileiro no festival. Pelo menos não
encontrei outro entre os quatro mil participantes das festividades.
Falando língua portuguesa, somente o pessoal da televisão
Angolana, o Pedro Pimenta que organiza um festival de documentário
em Maputo e ninguém mais.Uma pena, pois a África
tem tudo a ver conosco. É um clichê, mas é
a verdade. É só ver como nos encaixamos
no mapa da África. Parecem duas peças
de um quebra-cabeças a provar que tudo era uma só
extensão continental.
Mas
não nos enganemos. As diferenças são
enormes. Andando pelas ruas, os muçulmanos prostrados
no chão fazendo suas orações nos mostram
claramente que estamos numa outra parte do mundo.
Os filmes favoritos eram “Tsotsi”,
Sul Africano que ganhou o Oscar de 2005 de melhor filme estrangeiro,
baseado na obra do grande dramaturgo Athol Fugard e “Daratt”,
do Tchad (é o nome do país) que ganhou o Leão
de Prata no festival de Veneza. Mas quem acabou vencendo o
“Étalan d’or de Yennenga” foi o filme
“Ezra” de Newton Aduaka, da Nigéria, sobre
um jovem ex- combatente da guerra civil que tenta se readaptar
a vida normal.
O filme que mais me impressionou,
vi num telão de alta definição na periferia
mais distante. A lua cheia brilhava no céu e as crianças
se juntavam aos velhos sentados no chão de terra, misturados
com os europeus de boa vontade que ainda pensam ser possível
resolver os problemas do mundo com o cinema. Na tela passava
“L’or bleu, ressource ou marchandise”, do
francês Didier Bergounhoux, um filme sobre a falta de
água na Nigéria e em Burkina. Um problema que
em breve vai ameaçar o mundo todo. Para quem gosta
de teatro, Didier fez aquela célebre foto da montagem
da peça “Tempestade” com direção
de Peter Brook. Aquela em que o grande ator Sotigui Kouyaté
aparece com Próspero, com a miniatura de um navio sobre
a cabeça. Aliás, Sotigui é o maior ator
dessas paragens, um “griot”, que tem o dom de
contar histórias, tradição oral, aspecto
importantíssimo da cultura de um povo onde apenas 5%
da população sabe ler.
O Fespaco é
um festival diferente. A poeira e a pobreza a todos irmana
. Sobra pouco espaço para vaidade e o cinema
é uma arma contra a miséria. Resolvi
documentar a experiência. Passei 5 dias com uma câmera
que parecia uma metralhadora na garupa de uma moto. O piloto,
Dreudouné Adouabou, um estagiário de 30 anos
que fala inglês, francês e três línguas
locais, ganha 38 dólares por mês e me ensinou,
delicadamente, o tempo todo, a distância que existe
entre nós. Ele me dizia: “Uncle (tio) Paulo,
o senhor não deve dizer “Eu” e “Você”.
E sim “Você” e “Eu”. Não
deve dizer “Brasil” e “África”,
e sim “África” e “Brasil”.
Estou tentando, humildemente, aprender.
Ah! Ele dizia também:
“To be or not to be, that’s the question, but,
uncle Paulo, everyone wants to be”. (“Ser ou não
ser, eis a questão, mas, tio Paulo, todo mundo quer
ser”.) |
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Vladimir
Carvalho, Menino de Engenho
* Carlos Alberto Mattos
Quando
era garoto em Itabaiana, interior da Paraíba, Vladimir
Carvalho gostava de maneira especial da hora do jantar. Não
pela culinária, mas pela sonoplastia. Era a hora de
seu pai, Lula Martins, contar histórias para a família.
Muitas delas tinham a ver com José Lins do Rêgo.
O escritor já famoso, que havia estudado no mesmo colégio
de Itabaiana, era uma espécie de ídolo, a ponto
de o menino Vladimir demorar-se no espelho arrumando o cabelo
à semelhança de Zé Lins.
Essa devoção é
em parte responsável pelo projeto que o cineasta desenvolveu,
ao longo dos últimos cinco anos, com recursos mínimos
e determinação máxima. No início,
era para ser um híbrido de biografia e autobiografia.
"Achava que deveria voltar ao meu próprio passado
através dessa viagem em busca de Zé Lins, mas
acabei deixando a idéia de lado", conta Carvalho.
Deixou em parte. O Engenho de Zé Lins é, de
muitas maneiras, o engenho de Vladimir. Engenho tomado aqui
como lugar de origem e como talento criador.
O filme está repleto
de imagens recorrentes na obra deste que é um dos mais
fecundos e ousados documentaristas modernos brasileiros. Lá
estão os canaviais paraibanos, as bolandeiras de moer
cana, a figura de São Miguel Arcanjo (o santo com a
balança da justiça). Lá está a
idéia – comum ao escritor e ao cineasta –
de um mundo que o tempo transforma em ruína.
Vladimir Carvalho está
longe de ser aquele tipo de documentarista que observa "cientificamente"
a realidade. Seu cinema é de compromisso e envolvimento.
Se os clássicos O País de São Saruê
(disponível em DVD) e Conterrâneos Velhos de
Guerra eram movidos pela indignação contra as
injustiças sociais, O Homem de Areia (sobre José
Américo de Almeida), O Evangelho Segundo Teotônio
e agora O Engenho de Zé Lins caminham pela senda da
admiração. Mas o que distingue de fato o seu
cinema é que não é panfletário
na indignação, nem laudatório na admiração.
De José Lins do Rêgo
ele faz uma espécie de psicanálise selvagem,
investigando as áreas de sombra que desenhavam o homem
e se projetavam em sua obra. "Se não fosse escritor,
Zé Lins seria um grande personagem de romance",
diz a certa altura Carlos Heitor Cony, que funciona no filme
como um corifeu, comentando e arrematando sentidos. Desde
as imagens de abertura, com a reencenação de
uma primeira e traumática visão da morte, a
ênfase recai no temperamento ciclotímico do escritor,
pontuado por picos de euforia e melancolia. O tiro acidental
que causou a morte de um colega de infância, a "amizade
amorosa"com o mentor Gilberto Freyre, a paixão
exacerbada pelo Flamengo – é confrontando esses
traços de complexidade biográfica que Carvalho
vai jogar novas luzes sobre um autor injustamente relegado
a segundo plano na literatura brasileira.
Ariano Suassuna é quem
reflete, no próprio filme, o seu efeito. Em depoimento
precedido de uma de suas típicas e hilariantes digressões,
Suassuna afirma que, diante das informações
recolhidas por Vladimir, ele consegue enfim decifrar o enigma
Zé Lins.
O humor, o interesse e a emoção
contidos nas entrevistas refletem o carisma do personagem,
mas também a postura curiosa e apaixonada do diretor.
Vladimir Carvalho não costuma se prender a regras puristas
para fazer seus documentários. Eles têm música,
ficção, poesia. Em uma palavra: liberdade.
Prova disso é o diálogo
que O Engenho de Zé Lins estabelece com o ficcional
Menino de Engenho, que Walter Lima Jr. rodou na Paraíba
em 1965. Aqui um filme de ficção vira "material
de arquivo" para um documentário. Muitas referências
à infância de José Lins do Rêgo
são "ilustradas" por cenas do filme de Walter.
Inclusive aquela em que o próprio Vladimir dublou uma
voz fora do quadro ("Papa-rabo!") lá nos
anos 60. Esse procedimento tem seu ápice quando Vladimir
leva o ex-ator-mirim Sávio Rolim ao mesmo cenário
do engenho Itapuá, quarenta anos depois. O frágil
estado físico e mental de Sávio acaba se transformando
numa metáfora para a angústia, o pensamento
obsessivo e o efeito do tempo na obra e na figura de Zé
Lins. O Itapuá, no entanto, arruinado e ocupado por
famílias do MST, parece confirmar um destino previsto
pelo escritor no romance Moleque Ricardo, parte de seu ciclo
da cana-de-açúcar.
Poucos documentários
biográficos recentes têm temperado a afetividade
com a mesma disposição investigativa desse filme.
Custa crer que um mestre como Vladimir Carvalho continue a
depender de favores, sacrifícios financeiros e da providencial
parceria com os jovens produtores da Urca Filmes para concluir
um trabalho dessa importância. |
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