Textos de Rubens Ewald Filho, Marcelo Janot, Celso Sabadin, Carlos Alberto Mattos...
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O ANO QUE MEUS PAIS SAÍRAM DE FÉRIAS
 
O HOMEM QUE ENGARRAFAVA NUVENS
 
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Meu Nome não é Johnny
"Quando o cinema produz sua própria realidade, filmar deixa de ser um ato irrelevante. Filmar - e principalmente, filmar documentários - modifica o mundo. Sem heroísmo, muito pouquinho, sutilmente, mas modifica".
João Moreira Salles
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INVICTUS: MAIS UM SHOW de CINEMA de CLINT EASTWOOD

* Celso Sabadin

     Na vida real, esporte e política sempre caminharam lado a lado. É só lembrar, por exemplo, dos esforços de Hitler para tentar provar a tal “supremacia ariana”, durante as Olimpíadas pré-Segunda Guerra. Ou da exploração da imagem da seleção brasileira de futebol durante a ditadura Médici em 1970 (idem Argentina em 78), ou ainda do atentado contra atletas judeus nas Olimpíadas de Munique. Isso apenas para citar alguns exemplos. No cinema, porém, talvez nunca o tema tenha sido abordado com tanto talento e emotividade como em “Invictus’, o mais recente trabalho do veterano (e cada vez melhor) Clint Eastwood.

     Não é um filme sobre rúgbi. Não é um filme sobre Nelson Mandela. “Invictus” é sobre a possibilidade da igualdade entre as raças e as condições sociais. Da união entre diferentes. Da tolerância. Enfim, de todas estas maravilhosas utopias que amamos acreditar.

     A partir do livro "Playing the Enemy: Nelson Mandela and the Game that Made a Nation", escrito por John Carlin, o roteiro do sul-africano Anthony Peckhan (também co-roteirista de “Sherlock Holmes”) mostra Nelson Mandela assumindo a presidência da África do Sul, após décadas de cativeiro. O caos domina o país. Violência, desemprego, pobreza, desvalorização da moeda e – pior – um ódio racista que permeia bancos e negros recém-saídos do abominável regime do Apartheid que transformou a África do Sul em vergonha mundial.

     Em meio ao ódio, Mandela (Morgan Freeman, perfeito para o papel) cria uma política do perdão. “O perdão remove o medo, por isso é uma arma tão poderosa”, ele prega. Sua proposta é “supreender o inimigo com tudo o que eles nos negaram”. Mas a maior surpresa dos primeiros dias do novo governo é que, atolado em todos os tipos de problemas, o Presidente prefere dar prioridade à seleção sul-africana de rúgbi, prestes a disputar a Copa do Mundo deste esporte tão estranho aos nossos olhos sul-americanos. A decisão parece absurda, mesmo porque ele sequer é fã do esporte. Mas Mandela tem um plano: ele visualiza naquele jogo o fator que pode integrar a nação desfaçelada, o elo que pode unir bancos e negros… ou a pátria de chuteiras, como disse Nelson Rodrigues.

     Esta história real é dirigida por Clint Eastwood (que completará 80 anos em maio próximo) dentro de seu consagrado e tradicional estilo: narrativa clara, câmera clássica, muita sobriedade, estética limpa e convencional, sempre extraindo o máximo de seu elenco e da história que ele tem para contar. E como conta bem! Os personagens são construídos com veracidade e vigor bem diante dos nossos olhos, em poucos minutos. A empatia criada com a plateia é intensa. A trama flui, sem tempos mortos, mesclando tensões e humor em doses equilibradas.

     Claro, sempre há as armadilhas sentimentais de praxe, como usar e abusar da câmera lenta nos momentos decisivos do jogo, ou compor canções românticas feitas sob medida para serem indicadas ao Oscar. Mas nada que tire os méritos deste grande diretor e deste grande filme: quando chegam as decisivas cenas finais, já estamos todos profundamente imersos na tela. Fomos pegos mais uma vez pelo talento de um excepcional contador de histórias cinematográficas.

     Tem sido cada vez mais prazeroso esperar pelo “novo filme de Clint Eastwood”.

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CARLOS ALBERTO MATTOS INDICA DOCUMENTÁRIO

Aventura destinada a público diversificado... ELE VOA !

     Besouro vem aí. Posso prever que não será unanimidade entre os críticos. Não temos uma cultura de filmes do gênero aventura épico-mítico-histórica. Tendemos a rejeitar espetáculos que se pretendem grandiosos, com técnicas importadas e sem justificativas sociológicas eloquentes. Já ouvi comparações irônicas como “Quilombo 2 – A Missão”.

     Mas Besouro corre em pista bem diferente. É aventura destinada a um público diversificado, que inclui o infanto-juvenil. A formação do mítico capoeirista baiano é contada como uma história de mestre e discípulo na linha Karatê Kid. O surgimento do herói se dá à base de culpa por um descuido na proteção ao mestre. Seus poderes sobrenaturais vêm do encontro com um Exu que reúne traços de guerreiros africanos, orientais e medievais. A rivalidade entre colonizadores brancos e lavradores e serviçais negros tem o sabor um tanto esquecido dos nordesterns. Já as lutas de Besouro ganham o caráter vertiginoso de O Tigre e o Dragão, tendo bananeiras no lugar dos bambuzais de Ang Lee.

     Ungido por Exu, Besouro é capaz de incorporar-se em outras pessoas e transmitir sua força. Mas tem um ponto fraco, a sua kryptonita. Esse talvez seja o primeiro superherói afro-brasileiro explícito do cinema, o oposto da sátira subdesenvolvida encarnada pelo Superoutro de Edgar Navarro. Aqui a técnica aspira o top de linha da aventura contemporânea, com imagens de tirar o fôlego. É admirável como o filme integra a alta tecnologia com elementos da natureza tropical. Basta ver a importância dos rios, ventos, fogo, animais e paisagens brasileiros no protagonismo da trama.

     Não fosse o roteiro fragmentado demais, eu teria sido mais incisivo na defesa do filme na comissão de seleção do Oscar. João Daniel Tikhomiroff quer dialogar com o cinema de gênero internacional sem deixar de fazer um filme mestiço bem brasileiro. Besouro deve ser prestigiado não apenas por ser nosso, mas por ser um belo e luxuriante espetáculo popular.

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AVATAR USA VIOLÊNCIA para pregar a PAZ
* Celso Sabadin

     A expectativa era grande. Afinal, há 12 anos James Cameron colocou seu “Titanic” no primeiríssimo lugar de bilheteria de todos os tempos, com um faturamento bruto de quase US$ 2 bilhões. Lugar, aliás, onde permanece até hoje. E também fazia 12 anos que Cameron não dirigia um longa para cinema. Assim, não é difícil perceber o quanto os cinéfilos estavam aguardando “Avatar”, a tentativa do diretor em quebrar seu próprio recorde.

     Será que ele conseguirá? Se eu tivesse de apostar, jogaria minhas fichas no “não”. Em primeiro lugar porque “Titanic” foi um destes fenômenos que ninguém explica. Mais que um filme, foi um evento, uma catarse coletiva mundial difícil de ser justificada com argumentos racionais. E em segundo lugar porque “Avatar” não é tão excepcional e/ou catártico como foi “Titanic”. É, sim, um belo entretenimento, mas sem a carga emocional suficiente para chegar ao tão sonhado patamar de US$ 2 bilhões nas bilheterias do planeta. O melhor a fazer, então, é assisti-lo sem tentar traçar comparações.

     A trama é convencional: em algum lugar no futuro, os humanos estão monitorando o planeta Pandora, em cujo subsolo existe uma grande reserva de uma determinada substância muito importante para a nossa Terra. Não fica bem claro o que e por que, mas isso não é importante. Importante mesmo é que em Pandora existe toda uma civilização extremamente desenvolvida mental e energeticamente, ainda que na Idade da Pedra em se tratando de armas de guerra. São seres similares a fadas ou elfos, maiores que os Humanos, quase mágicos, e onde todos os homens têm o nariz parecido com o de Woody Harrelson, e todas as mulheres têm o pescoço da Uma Thurman.

     Para tentar dominá-los, nós, terráqueos, criamos a tecnologia dos Avatares, ou seja, humanos modificados com DNA do pessoal de Pandora, feitos para desembarcar no planeta deles, e estudá-los mais de perto para possamos subjulgá-los da maneira mais eficiente possível. O Avatar seria, então, uma espécie de espião que se infiltra entre os aliens para conhecer seus segredos. Claro que um Humano (Sam Worthinghton) se revolta contra a situação. Como sempre acontece neste tipo de filme.

     “Avatar” demora a engrenar. Uma quantidade muito grande de informações é arremessada sobre o público logo nos primeiros minutos, ao mesmo tempo em que boa parte da plateia tenta se acostumar aos óculos 3D, tecnologia muito boa, sim senhor, mas que rouba uma quantidade absurda de luminosidade da tela, fazendo parecer que “Avatar” se passa quase sempre à noite. Fica até a impressão de que as salas brasileiras não estariam utilizando lâmpadas dentro das especificações exigidas pelo sistema, tamanha é a falta de luz e brilho. Pelo menos foi esta a sensação que tive durante a sessão de imprensa realizada no Shopping Bourbon, em São Paulo.

     O roteiro - também escrito por James Cameron - se utiliza muitas vezes da desagradável muleta da narração em off, onde o protagonista fica explicando verbalmente o que está acontecendo, ao invés de tentar encontrar soluções mais imagéticas e cinematográficas.

     Passados os primeiros esforços - para ouvir os offs, absorver as informações e arrumar os óculos - o filme se desenvolve sem muito ritmo, chegando a se tornar cansativo e sinalizando que talvez não fossem necessários todos os seus 160 minutos para contar a história. No terço final, porém, tudo melhora. Os personagens ganham mais vida, mais dimensão, a ação é mais intensa e a briga entre as civilizações e as culturas literalmente pega fogo.

     É impossível não traçar um paralelo entre a invasão humana predadora em Pandora e a cultura norte-americana de invadir e destruir toda e qualquer civilização que tenha algo que eles precisem. Nem vale a pena falar da finada política Bush, já que “Avatar” está na cabeça de James Cameron já há quase 20 anos. Mas sempre foi assim, seja com Coreia, Vietnã, Afeganistão, Iraque ou coisa que o valha. Tanto que uma das naves de guerra dos Humanos contra Pandora se chama Valquíria, provavelmente uma referência à música que o personagem de Robert Duvall escutava enquanto chacinava vietnamitas em “Apocalypse Now”.

     Como também é típico da cultura de entretenimento norte-americana, “Avatar” prioriza o visual em detrimento da profundidade. Em torno de 40% do que se vê na tela é resultante de ação filmada, e os restantes 60% foram gerados por computador, consumindo um orçamento total estimado em US$ 230 milhões. Como sempre, a trilha sonora é exagerada e incessante, e a mensagem politicamente correta valoriza a natureza, a paz e a tolerância entre os povos culturalmente diferentes.

    A pergunta que fica é sempre a mesma, em se tratando de blockbusters: por que os filmes que trazem mensagens de Paz são tão violentos?

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Matheus Nachtergaele estréia com filme radical e intenso
"O filme e os personagens são uma metáfora de uma experiência vivida por mim, não é minha história, e sim a poesia da minha história"

     Ator consagrado onde quer que atue, Matheus Nachtergaele estreou por detrás das câmeras com A Festa da Menina Morta, roteiro dele que contou com parceria de Hilton Lacerda. O filme teve sua estreia mundial em maio de 2008, dentro da seleção da respeitada mostra Un Certain Regard (Um Certo Olhar) do Festival de Cannes, onde colheu as primeiras comparações com a pegada radical do Cinema Novo.

      Se ali não recebeu prêmios, o contrário aconteceu nas demais passagens do filme em outros festivais internacionais, como Chicago, Havana e Los Angeles, e nacionais, como Gramado e Rio de Janeiro.

     A coleção de troféus e elogios certamente pavimentou uma estrada próspera mas não atenua o potencial de risco presente na própria essência desta obra radical, intensa, muitas vezes barroca, ambientada no coração da Amazônia, desdobrando uma história que mistura religião, incesto, exploração e sentimentos profundos.

     Ator de filmes como "Amarelo Manga" e "Baixio das Bestas", ambos do polêmico diretor Cláudio Assis, Nachtergaele envereda pela mesma busca do diretor pernambucano de confrontar padrões. A vantagem é que o diretor estreante atinge uma dramaturgia bem mais ampla e madura no roteiro assinado por ele mesmo e por outro pernambucano, Hilton Lacerda, aliás, colaborador de Assis nos dois filmes citados.

O sagrado e o profano

     A história centra-se no poder do misticismo numa comunidade perdida nos confins da Amazônia - as filmagens foram em Barcelos, a 400 km de Manaus. Ali, praticamente toda a população vive em função da crença nas previsões anuais de Santinho (Daniel de Oliveira, premiado no Rio e em Gramado).

     Espécie de beato com inúmeras características profanas - como o relacionamento dúbio com o próprio pai (Jackson Antunes) -, Santinho ganhou seu status ainda criança, quando recebeu de um cachorro os restos do vestidinho de uma criança desaparecida. Um episódio que foi interpretado como sinal de divindade e que garante ao rapaz o servilismo de mulheres como Tia (Ednelza Sahdo), Das Graças (Conceição Camarotti) e outras, que se ocupam de todo o trabalho, preparando sua comida, sua rotina e agüentando seus freqüentes destemperos histéricos.

     A figura da mãe (Cássia Kiss), dada como morta por suicídio, assombra a casa, ecoando detalhes biográficos da vida do próprio diretor, órfão de mãe ainda bebê - e que, em entrevistas a partir de Cannes, não nega ter colocado no filme o seu "luto". Mesmo que o espectador não conheça este detalhe, salta aos olhos a voltagem emocional das relações entre os personagens, como Santinho, seu pai e também Tadeu (Juliano Cazarré), irmão da menina morta, e um dos poucos a questionar o sentido desse ritual religioso, mantido há 20 anos.

     As cores fortes da fotografia de Lula Carvalho e a câmera na mão associam o filme a Glauber Rocha e ao Cinema Novo, uma ligação que foi identificada por críticos internacionais à época da exibição do filme em Cannes e assumida pelo diretor como uma de suas inspirações.

     A Festa da Menina Morta não aspira a ser um filme simples, muito menos digestivo. O diretor demonstra acreditar na validade do uso de seus excessos como parte indispensável de um projeto que visa a retratar partes de um Brasil ainda arcaico, primitivo e feroz. E o faz com uma segurança que fundamenta a impressão de que aqui está nascendo um diretor sério e comprometido com o cinema. Nada mau para um marinheiro de primeira viagem.

* Neusa Barbosa, do Cineweb

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CARLOS ALBERTO MATTOS INDICA DOCUMENTÁRIO

Fim do Silêncio - Um Filme com todas as palavras

     A partir de hoje, dia 28, Dia da Luta pela Descriminalização do Aborto na América Latina e Caribe, vários canais de TV vão exibir o documentário inédito Fim do Silêncio, de Thereza Jessouroun.

     Este filme bem poderia se chamar “Fim da Hipocrisia”, ou “Fim da Culpa”, ou ainda “Fim do Sensacionalismo”. Porque ele se opõe a toda uma gama de tratamentos que o tema do aborto tem recebido no cinema. Usualmente, o assunto se presta a melodramas ou a documentários que, sob a capa da denúncia, reforçam o estigma do ‘proibido’ e do ‘clandestino’. Algumas vezes, a necessidade de proteger a identidade de suas protagonistas dá margem a recursos artificiosos que só enfatizam o medo e, em última instância, o espectro da criminalização.

     Ao contrário disso tudo, Thereza Jessouroun optou pela simplicidade de uma câmera atenta diante de rostos descobertos e consciências apaziguadas. As mulheres que concordaram em expor suas razões para terem interrompido a gravidez se aliaram à coragem da realizadora para falar com franqueza de um tabu que ainda impera em grande parte da sociedade brasileira.

     Fim do Silêncio não é um panfleto a favor da descriminalização do aborto, mas um libelo tranquilo contra o fundamentalismo que teima em se opor à natureza e à ciência. Os relatos e argumentações dessas mulheres, colhidos nos estados de Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo, são pontuados por pílulas de informação sobre saúde pública e impasses legislativos. Nada mais que isso. Palavras faladas ou escritas que descortinam um quadro assustador de desrespeito e violência contra a individualidade feminina.


     A evolução do projeto de Thereza é um exemplo eloquente da dinâmica de produção dos documentários. Ela pretendia, inicialmente, tecer uma trama de opiniões que dessem conta do debate em torno do assunto, envolvendo praticantes do aborto, cientistas e políticos. Na montagem, porém, verificou que esse formato enfraquecia o filme. Tal era a força dos depoimentos das mulheres que ela optou por ficar exclusivamente com eles. E é justamente a agudez e a inteireza dessas falas que dão ao filme o seu caráter irrefutável, a sua eficácia cabal.

     A discussão, portanto, fica no extra-quadro, a partir das questões colocadas pelas protagonistas. Ali a opção pela não-gestação se justifica por razões afetivas, econômicas, de poder familiar ou simplesmente de estilo de vida. Assim, o filme cumpre sua função de provocar o debate sobre a escolha da mulher do que fazer com seu corpo e com sua responsabilidade social. Não há apologia do aborto, mas tão-somente a defesa do direito de escolher, para além de dogmas religiosos e convicções obscurantistas.

     Em suas primeiras exibições - e mesmo antes delas -, Fim do Silêncio já demonstrou sua capacidade de mobilização, contra e a favor. O fato de ter sido viabilizado por um edital público gerou protestos entre os que veem o estado como um ente amorfo que deve se manter à margem das grandes indagações da sociedade. Felizmente, não é esse o país em que vivemos hoje. O entendimento do aborto como uma questão de saúde pública é um progresso que independe de paixões e doutrinas. Este documentário, embora nascido de um desejo autoral, acaba sendo um dos produtos mais visíveis dessa nova concepção.

     Para Thereza Jessouroun, é uma confirmação de talento, sensibilidade e adequação entre ideias e formulação audiovisual. Em alguns de seus trabalhos, a realizadora já abordou o mundo dos travestis (“Alma de Mulher”), dos famintos (“Vida Severina”, ainda inédito), dos descendentes de quilombolas (“Os Arturos”) e dos portadores de Alzheimer (“Clarita”).

     Com Fim do Silêncio ela dá um passo à frente - e também à frente de uma polêmica que precisa ser vivida dessa maneira: aberta, direta e com todas as palavras.

     Fim do Silêncio (Brasil - 2009 - 52’) Direção: Thereza Jessouroun Distribuição: Fiocruz Vídeo

     Onde:

Canal Futura: hoje, dia 28, às 23h30; reprise amanhã, dia 29, às 22h30 / TV Cultura: dia 1º/10, às 23h10 / TV Câmara: dia 29, às 22h30, reprise no dia 3/10, às 16h/ SESC TV: dia 28, às 19h30/ TV Educativa da Bahia: dia 30, às 22h .

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RUBENS EWALD FILHO COMENTA VERONIKA DECIDE MORRER

     Previsto para estrear nos EUA apenas em novembro, esta é a primeira adaptação de uma obra de Paulo Coelho para o cinema. Não de um texto muito fácil e consumível, já que conta a história de uma garota que, infeliz e entediada, resolve se matar. E faz isso exatamente no começo do filme. Ou seja, é basicamente um drama sério, sobre o que leva uma uma pessoa ao suicídio, e o que pode impedir o ato.

     Como sempre, a imprensa brasileira faz restrições ao trabalho de Paulo, demonstrando que ainda não conseguiu se conformar com o fato de que ele é nosso único autor de sucesso mundial (sou testemunha do êxito dele inclusive no Festival de Cannes, onde todos o tratam com o maior respeito e admiração). Um best-seller absoluto. Mas, como sempre, ninguém é profeta em sua própria terra, ou santo de casa não faz milagres. Na sessão de imprensa o filme foi recebido com frieza

     Confesso que penso diferente. Eu gosto de Paulo Coelho, nos poucos contatos que tive com ele (sua biografia está na minha cabeceira, mas tenho o hábito de ler vários livros ao mesmo tempo!), o achei inteligente, educado e sabendo do que fala, é do ramo. Mas deixei de acompanhar seu trabalho, em parte porque tenho resistência a ler ficção, me fixando mais em biografias e não-ficção. Ganhei o livro na pré-estréia e, folheando, me pareceu que a adaptação é bastante fiel, ainda que com orçamento pequeno e rodado em Yonkers e arredores de Nova York (em vez da Eslovênia, como no livro, onde ela mora numa espécie de pensionato; aqui não se mostra muito onde vive). Sarah Michelle Gellar, a Buffy da TV, substituiu Kate Bosworth, e tem o trabalho mais sério e competente de sua carreira. A diretora inglesa fez antes um desconhecido “Kiss of Life” (2003), com Peter Mullan e não aparenta ter nenhum estilo particular

     Também o roteiro me pareceu engenhoso, seguindo a indicação do livro. Veronika já começa determinada a morrer, tomando pílulas. Mas é socorrida a tempo e levada para uma clínica alternativa, dirigida por um médico misterioso (o inglês David Thewlis, de “Naked“ e “Harry Potter”), onde lhe dizem logo ao recobrar os sentidos de que, infelizmente, foi afetada por um aneurisma no coração, e que pode morrer a qualquer momento. Isso, aos poucos, vai lhe devolvendo o interesse em viver intensamente cada momento, lhe dando vontade de viver, de tocar piano como quando criança, e se relacionando com um rapaz que, até então, se mantinha calado (Jonathan Tucker). É verdade que a história pode ser previsível, e os mais experimentados matarão a charada. Mas também sinto que, muitas vezes, é o cinismo da imprensa que faz com que se rejeite filmes que tenham alguma lição de vida, ou procurem dar exemplos positivos. Ou seja, simplesmente mais humanos. E louvem a baixaria, o grosso, o vulgar.

     E no fundo é a isso que se propõe a história que, antes de tudo, é muito bem interpretada (inclusive por atrizes que, até agora, ainda não tinha convencido, como Erika Christensen, que faz uma das pacientes). Não sei se vai fazer sucesso, até pela aridez do tema, e a fala de glamourização da empreitada. Não é um filme obviamente comercial. Esperemos que o público do autor o aprove.

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RUBENS EWALD FILHO COMENTA INIMIGOS PÚBLICOS


     Há alguns anos não se tinha um novo filme sobre o chamado ‘Inimigo Público Nº 1’ da América, John Dillinger (1903/34), mas ele já foi objeto de 18 filmes, começando com o clássico “Dillinger” com Laurence Tierney, de 1945, até “Dillinger” de John Milius, em 1973, com Warren Oates. Isso sem contar as biografias disfarçadas contemporâneas ou que fizeram parte da série de TV “Os Intocáveis”. Mas há alguma razão para realizá-lo? A única coisa nova que eu percebi é que agora mostram os homens do governo, os G-Men liderados pelo fundador do FBI, J.Edgar Hoover (condenado abertamente no filme como demagógico, ambicioso, controlador e fora-da-lei).

     Para combater o crime, eles usavam não apenas métodos científicos (escutas telefônicas, pesquisas, coisas que na época eram novidade), mas também a violência, a tortura, até mesmo contra mulheres. Ou seja, ficamos sabendo que as forças do governo não tinham as mãos limpas; ao contrário, eram iguais aos torturadores de Guantanamo e Iraque. A impressão é que, para criticar isso, o roteiro acaba pintando um retrato opaco, sem profundidade do gangster que, por vezes, parece ser uma figura gentil, que se recusa a realizar sequestros, porque o público não gosta disso, que adora seus fãs e o status de super bandido. Fiel a seus amigos, não é especialmente violento, mas também não demonstra maior ambição ou inteligência. Ou seja, fazem mais um retrato superficial do protagonista. Não mostra nem mesmo o momento em que a mocinha Billie se apaixonou por ele, o que era essencial para sua atitude fazer sentido.

     Por outro lado, eu gosto muito de mostrar em detalhe o último filme que “Dillinger” assistiu, que foi “Manhattan Melodrama” (“Vencido pela Lei”), estrelado por Clark Gable (fato histórico) e que, curiosamente, tem muito a ver com sua própria história e vida. Também se detém na figura da estrela da fita, Myrna Loy, o que acaba explicando porque escolheram a francesa, vencedora do Oscar, Marion Cottillard como Billie, já que ela faz lembrar a estrela (que, por sinal, foi votada a Rainha de Hollywood na época; Clark era o Rei).

     Não sou fã do diretor Michael Mann, que considero superestimado (quem gosta dele é o amigo Luiz Carlos Merten), e que até agora não fez um grande filme embora tenha tido alguns acertos (como “O Informante”, “Fogo contra Fogo” com De Niro, que é um dos co-produtores, e “Colateral”). Mas errou feio recentemente, com “Miami Vice”. Ele fez aqui uma escolha polêmica, resolvendo rodar em HD Digital, passando depois para película. Isso explica muita coisa. A maior parte do filme é em câmera na mão, acompanhando os personagens, e sem situar direito a ação num determinado ambiente.

     De tal forma que o ótimo elenco de apoio mal pode ser identificado; por isso, acaba não tendo nem um close revelador e, ainda por cima, fica quase sempre no escuro. O uso da textura do vídeo também provoca a lembrança de séries de televisão e telenovelas; havia, inclusive, momentos onde achei que estava vendo a série reality “Cops”. É uma pena também que, com a câmera sempre no vai e vem, não se consiga ver uma das melhores coisas do filme, a excelente escolha de locações de época, em Chicago, Flórida ou Winconsin. Ele bem que podia ter aprendido muita coisa, se visse de novo o melhor filme de gangster recente, que é o “Bonnie e Clyde”, de Arthur Penn, que retrata a mesma época de forma bem mais memorável.

     Aqui a ação se passa em 1933, e retrata basicamente o último ano de vida do gangster e assaltante de bancos, seu último romance, fuga e feitos. Tive um problema com Christian Bale, fazendo Melvin Purvis porque, especialmente de chapéu, ele fica por demais parecido com o ex-presidente Collor, nos trazendo más lembranças. De qualquer forma, é sua interpretação mais inexpressiva, junto com o elenco que, coitado, não tem a menor chance de brilhar. Isso quando são reconhecidos.

     A cópia não tem o brilho do digital, mas tem sua nitidez (por exemplo, vemos todos os poros da dupla central). Acerta por outro lado na trilha musical, com aparição rápida de Diana Krall cantando a música tema (‘Bye Bye, Blackbird’), e várias intervenções sonoras de Billie Holliday. Desta vez Johnny Depp não tem maiores chances de criar um tipo bizarro. Não entendi porque aparece mais velho; já está com 46 e pela primeira vez aparenta (quando devia justamente ter feito o oposto). Também não é um personagem que lhe dê maiores oportunidades. Recebido com críticas divididas e bilheteria mediana nos EUA, Inimigos Públicos é um daqueles possíveis candidatos ao Oscar que decepciona.

     Não é ruim, dá para ver. Mas nada acrescenta.

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Vitória vista pelas margens

* CARLOS ALBERTO MATTOS


     Depois de retratar o sambista Edson Rodrigues do Nascimento no longa Anjo Preto, o jovem documentarista Guilherme Castor continua – segundo ele, involuntariamente – a divulgar aspectos da comunidade afro-capixaba. No FIC-Brasília ele estreou o longa Harmonia do Inferno (foto), exibido no Vitória Cine-Vídeo neste novembro. Já na Mostra Internacional do Filme Etnográfico, no Rio, ele mostrou o média-metragem A Iniciação.

     Este último foi inteiramente filmado em terreiros de candomblé de Vitória. O personagem central, o babalorixá Robson Cuzzuol, assim como a maioria dos que aparecem no vídeo, é branco, mas a consciência que reina por ali é inconfundivelmente africana. O filme ganharia muito se não se submetesse tanto às explanações (muito cultas e claras, por sinal) de Robson, o que o torna pouco mais que uma palestra ilustrada. Mas há pelo menos dois momentos que se destacam por razões diferentes: a cena de dois meninos cantando pontos de umbanda para a câmera, demonstração de que o ritual também pode ter uma feição lúdica e inocente; e o “banho” de iniciação de uma jovem no terreiro, cena forte e rara, mesmo em filmes etnográficos.

     Harmonia do Inferno é um trabalho mais ambicioso e revelador do potencial criativo de Gui Castor. Passa uma visão nada piedosa de uma mulher que vive de/num depósito de lixo da capital capixaba. Dona Elvira Pereira da Boa Morte cria os netos que os muitos filhos abandonaram. Na linha de Estamira, o diretor se interessa pela fala singular da mulher e procura criar uma audio-visualidade poética do seu entorno. Esse propósito, porém, se choca com um enfoque um tanto miserabilista, que se demora sobre aspectos abjetos e patológicos. Ao sublinhar o excessivo e o deficiente, o filme contraria a sua própria retórica social, expressa no contraste entre o mundo sujo e doente de Elvira e a cidade branca e moderna.

     Essas contradições, porém, não empanam o talento cinematográfico de Gui Castor, mais aparente a cada novo filme. Harmonia do Inferno (título retirado de uma frase de Glauber Rocha) tem um excelente trabalho de câmera e uma edição de som e imagem que nos põem na ponta da cadeira. Um olhar afiado de documentarista em pleno desenvolvimento.

* Leia outros textos de Carlos Alberto Mattos acessando http://oglobo.globo.com/blogs/docblog

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RUBENS EWALD FILHO COMENTA DIVÃ

     Dar um papel à altura do talento de Lilia Cabral é o maior mérito desta produção Globo Filmes, realizada pelo experiente José Alvarenga Jr. (“Os Normais”), transpondo para a tela a peça com a qual ela fez muito sucesso no Rio e em São Paulo, por sua vez uma adaptação do livro best-seller de Martha Medeiros. Lilia é uma excelente atriz, carismática, engraçada, mas também boa no drama, capaz de fazer personagens mesquinhos, maus, ou aparentar bondade e franqueza. Versátil e querida, ela foi bem aproveitada em “A Partilha” (2001), filme de Daniel Filho, e em todos os momentos, aqui, justifica o estrelato. Ela domina o filme, comove, diverte, interessa. Não é culpa dela que tenham feito uma opção errada. No palco, o espetáculo era basicamente uma comédia assumida, sem culpa. No filme, por algum motivo, Deus vá entender porque, preferiram optar pelo drama, às vezes até chegando ao exagero. Pelo realismo. Tudo é contado em tom meio “Malu Mulher”: a história de uma mulher de meia-idade, cujo casamento (com José Mayer, bem eficiente e tranquilo) está esgotado, os filhos são opacos (talvez, por isso, escolheram atores de que a gente esquece a cara e o nome) e, de concreto, tem apenas a amizade de uma melhor amiga perua (a talentosa Alexandra Richter, que também vem da montagem teatral - talento que ela comprovou ao viver Lucille Ball na cena carioca, e que foi expandido aqui para uma situação que não existia anteriormente, e que acaba servindo de resolução ao roteiro).

     Por que tinha que ser comédia? Porque assim seria mais fácil acreditar em algumas reviravoltas do filme, em particular o romance que Lilia, uma mulher de cinqüenta anos, tem com dois gatos: um gatão (Reynaldo Giannechini), e outro gatinho (Cauã Raymond), os dois levando-a a sério, ao menos enquanto dura a relação (os momentos na boate já são mais leves mas, ainda assim, não consegui me refazer do mau-estar do filme estar levando tudo como drama, em particular por Lilia ser tão boa na comédia).

     Não sei dizer se isso vai atrapalhar o sucesso do filme, porque ela continua a segurar a peteca; o resultado é muito feminino, muito para mulheres de mais de trinta anos, filme de menina mesmo. E atrapalham também o pôster horrível, o trailer duvidoso, o nome que não quer dizer muita coisa (engraçado que o marketing de cinema é diferente do teatro). Mas sou fã de Lília, acho o filme divertido, e me diverti antes no teatro e agora no cinema, ainda que com visões diferentes.

     Divã” (Brasil - 2009 - 90 min.) Direção: José Alvarenga Jr. Com: Lilia Cabral, José Mayer, Reynaldo Giannechini, Cauã Raymond e Alexandra Richter

Distribuição: Disney

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Jornalista CELSO SABADIN comenta BELA NOITE PARA VOAR

Filme não é ruim... Mas JK merecia mais

     O período JK é um dos mais empolgantes da História do Brasil. ‘Crescer 50 anos em 5’, como queria o então presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira (1902/1976), levou o país a uma onda de otimismo, inovações técnicas, apogeu artístico... e dívidas, muitas dívidas.

     Mas o filme Bela Noite para Voar não se propõe a ser uma radiografia do governo Juscelino. Sobre isso, é melhor procurar o ótimo documentário “Os Anos JK” (1980), de Silvio Tendler. Seguindo por outro rumo, o filme de Zelito Vianna (que já havia anos antes se debruçado sobre outra interessante personalidade histórica brasileira, Heitor Villa-Lobos), prefere enfocar um período de apenas 24 horas na vida do Presidente. Mas 24 horas das mais intensas. Nelas, JK (a sempre forte presença de José de Abreu) cruza os céus do Brasil, tem um encontro secreto com o então governador paulista Jânio Quadros, resolve rapidamente questões de fundamental importância nacional, dorme pouco, fala muito, age rápido e - sem saber - quase morre vítima de um atentado armado pela própria Aeronáutica brasileira. Guardadas as devidas proporções, uma ‘Operação Valquíria’ tupiniquim. A motivação maior do Presidente? Uma bela amante que atende pelo apelido de ‘Princesa’.

     O filme tem o ritmo de JK. É ágil e vibrante. Mas se ressente da falta das verbas que seriam necessárias para tocar um projeto deste porte. Opta então por trabalhar por planos fechados que não revelem, por exemplo, a carência de figurantes. Ou as dificuldades inerentes de toda produção que requeira reconstituição de época. Como quase tudo se passa à noite, fica mais fácil. Por vezes, provavelmente para suprir deficiências orçamentárias, torna-se verbal demais naquilo que não consegue mostrar com imagens. E cai no velho erro das minisséries de TV: muitas vezes, explica demais, desnecessariamente, com receio de que o público não compreenda a trama.

     As cenas com aviões são claramente digitais, mas pode-se atribuir o fato a um ‘estilo’, e não necessariamente a uma falha.

     De qualquer maneira, é um trabalho que pode atrair um público que se interessa pela história recente do Brasil. Mas que no desenrolar da trama se torna refém de suas próprias limitações.

     Não é brilhante, tampouco desastroso. Mas Juscelino merecia um pouco mais. Visite: www.planetatela.com.br

     Bela Noite para Voar (Brasil - 2005 - 87 min.) Direção: Zelito Vianna Com: José de Abreu, Mariana Ximenes, Caca Amaral, Edgar Amorin, André Barros e Marcos Palmeira

Distribuição: Universal Pictures

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GARAPA Mostra FOME como Problema Mundial

     "Esta é uma noite especial, porque estamos recebendo o vencedor do Urso de Ouro do ano passado, com um documentário impressionante", disse Wieland Speck, diretor da mostra Panorama, realizada em Berlim, a uma platéia espalhada até pelas escadas do cinema.

     Speck recomendou ao público não esquecer de depositar o voto com a avaliação do filme, ao final, e lembrou que por três vezes um documentário venceu o Panorama.

     Duas horas mais tarde, um pesado silêncio acompanhou o fim da projeção do filme, o qual apresenta três famílias sujeitas à fome no Nordeste brasileiro e se encerra com a estimativa de que, durante o tempo da sessão, "1.400 crianças morreram de causas relacionadas à fome ao redor do mundo".

     "Vamos dar ao público um tempo para lidar com o que acaba de ver", sugeriu o mediador do encontro de Padilha com os espectadores. José Padilha salientou que "'Garapa' não é um filme local", já que situações semelhantes se repetem "na China, na Índia, na África", onde o problema da fome atinge parcela da população.

     Quando questionado sobre por que filmou Garapa em preto e branco, afirmou: "Decidimos tirar do filme tudo que não fosse fundamental".

     Padilha avalia: "A fome é o mais grave problema social da atualidade" e repisa cifras citadas no filme: "A solução do problema da fome exigiria um investimento de US$ 30 bilhões por ano; em 2008 o mundo gastou US$ 1,5 trilhão em armas. Acho que isso diz muito sobre a raça humana".

     A platéia aplaudiu quando o diretor disse julgar que "esse problema só será resolvido quando os políticos forem colocados numa situação de não mais se elegerem se não derem uma solução para ele".

     Antes da exibição de Garapa, Padilha apontou a empatia do público com os personagens como o pilar do poder de comunicação do cinema. "Você pode usar isso em filmes para entreter e pode também usar para dar [ao público] consciência de problemas sociais." A intenção de Garapa, explicou, "é ver a fome não por uma perspectiva intelectual, mas do ponto de vista dos que têm que viver com ela".

     Ao recuperar a palavra, o público deixou a sala repetindo adjetivos como "triste" e "forte". Com todo o interesse despertado por seu novo filme na mostra alemã, o cineasta brasileiro afirma: "Esse não é um filme com o qual eu possa ficar feliz".

* Com informações da jornalista Silvana Arantes, direto de Berlim.

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Jornalista CELSO SABADIN COMENTA AUSTRÁLIA

     Virou chavão, para muitos saudosistas, dizer que ‘já não se fazem mais filmes como antigamente’. Para eles, uma boa notícia: sim, ainda se fazem filmes como antigamente. Pelo menos o australiano Baz Luhrmann (de “Moulin Rouge”) acabou de fazer um. Ele se chama “Austrália”, traz roteiro e estética abertamente retrôs, e não tem nenhum problema em se assumir como rasgadamente melodramático.

     A má notícia é que o público (pelo menos o norte-americano) não gostou, e o filme está se encaminhando a passos largos para o fracasso financeiro.

     Vale esclarecer. Para apreciar “Austrália” é preciso vestir a camisa de sua proposta. Trata-se de um épico histórico claramente calcado no estilo cinematográfico histriônico popularizado por “...E o Vento Levou”, de 1939. Talvez não por acaso, grande parte da ação de “Austrália” seja ambientada exatamente neste ano. Todos os clichês do gênero estão presentes, e isso não é necessariamente um defeito, mas sim uma opção estilística. Sim, o filme é feito para chorar, cheio de histórias de dor, exemplos edificantes de superação, trilha sonora exuberante, gruas, tomadas de helicópteros, intolerância racial, paixões, largas paisagens e uma guerra como pano de fundo. Até o poster de divulgação parece de filme antigo.

     O espectador que não entrar no espírito da época fatalmente tenderá a crucificar “Austrália” como exagerado e ultrapassado. Mas quem aceitar o jogo de Luhrmann será brindado com um - literalmente - grande filme. Tanto em sua duração (165 minutos) como em sua caprichadíssima produção, meticulosa reconstituição de época e - claro - gigantescas locações, já que a Austrália é um continente famoso pelos seus larguíssimos horizontes.

     Quanto ao fato dele soar falso e exagerado em determinados momentos (incluindo algumas tomadas, digamos ‘virtuais demais’ ), vale esclarecer que toda a sua história é narrada por um garoto aborígene que se julga dotado de poderes mágicos, ou seja, o ponto de vista do narrador infantil justifica e explica muita coisa.

     Ah, sim, a história. Foram necessários custosos e extenuantes nove meses de filmagem (geralmente a média é de dois meses) para Luhrmann contar a saga da Sra. Ashley (Nicole Kidman), uma fina aristocrata inglesa que herda uma gigantesca fazenda falida na Austrália, e acaba se envolvendo num mundo totalmente diferente do seu, onde proliferam a corrupção, o roubo de gado e a intolerância. Claro que pelo caminho ela vai se apaixonar por um rude peão boiadeiro (Hugh Jackman) que nem nome tem. Ele é apenas o “Capataz".

     E por aí vai...

     Ajuste sua máquina do tempo para 1939 e curta sem culpa de ser melodramático.

AUSTRÁLIA (“Austrália” - EUA - 2008 - 165 min.) Direção: Baz Luhrmann Com: Nicole Kidman, Hugh Jackman e Bryan Brown .

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A Documentarista da Espontaneidade

* Wagner Donato

     Vi o primeiro curta desta jovem realizadora cearense. É o Coração Raiz, ambientado no município capixaba de Patrimônio da Penha, na região do Caparaó. Depois vi um outro trabalho de Aurora Miranda Leão, desta vez o curta Adorável Rosa, belo registro de seus muitos anos de amizade com a atriz Rosamaria Murtinho. Aurora é uma jornalista cearense, também atriz (atua no curta Doce Amargo Infinito, que vi no Curta Santos do ano passado), e pelo que soube por colegas do meio, agita em mil direções - do texto à produção, sempre com um sorriso nos lábios e amealhando amigos por onde passa.

     Pois eis que agora vem com novo trabalho, o documentário de sugestivo título A Casca Avoa e o Miolo Fica, no qual seus personagens principais são o músico Calé Alencar e a tradicional Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto. Aqui o foco da cineasta são declaradamente amigos que ela fez ao longo da caminhada profissional. E tudo é registrado de forma absolutamente espontânea, sem rebuscamentos de falas ou cenários especialmente preparados para as filmagens. O resultado é um curta assumidamente autoral, onde a empatia toma conta da cena e a simplicidade do registro cativa até quem não é versado em cultura popular. Tudo com a maior singeleza e naturalidade, num clima tão ameno que convida o espectador a adentrar o ambiente dos artistas como se nos convidasse a todos para uma audição de música brasileira captada ali mesmo na sala de jantar da nossa casa. Chama a atenção também o fato de aqui os artistas da cultura popular serem dimensionados no mesmo patamar em que estão uma orquestra ou a música de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, com o arremate da afirmação de Uibitú Smetak de que todos "fazem parte de uma mesma família musical”. Se outros méritos não houvesse, só esta cena já valeria o registro de Aurora. Mas há ainda o lance final com a preciosa definição do mestre Raimundo Aniceto para o que seja Folclore. Aí só vendo pra captar na dimensão correta. Um feche genial provando que não é preciso ser complexo para ser intenso. Para alcançar-se a essência, basta a alma. E isso Aurora tem. Por isso, pode ser considerada a Documentarista da Espontaneidade. Assim sendo, o filme ter sido lançado inaugurando projeto chamado Cinema no Terreiro e que pretende levar a diversos artistas/mestres da cultura popular seu próprio arsenal cultural, merece de nós os melhores aplausos.

* O autor reside na Paraíba e é formado em Artes Visuais pela Universidade Federal de Goiás

     Saiba mais acessando o link Casa da Memória Equatorial...

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O Dia em que a Terra Parou - Abordagens Diferentes
                                                                      

                                                                                                             * Lenildo Gomes


     Em 1951, o diretor Robert Wise ainda era bem mais conhecido pela indicação ao Oscar de montagem por “Cidadão Kane”. Nos Estados Unidos, o democrata Harry Truman cumpria seu segundo mandato como o 33º presidente da nação norte-americana. O quadro político mundial apontava claramente para a bipolarização do mundo entre o capitalismo e o socialismo russo. A doutrina Truman encontrava-se a pleno vapor e o cinema havia se solidificado como um dos principais (senão o principal) meio de propagação do “american way of life”, ou seja, o estilo de vida americano.Nesse período, a produção cinematográfica já conhecia as primeiras experiências no campo da ficção científica, partindo do revolucionário Méliès com o seu “Viagem à Lua” (1902), passando por Fritz Lang (“Metrópolis”, 1927),“ O Homem Invisível” (de James Whale, lançado em 1933), indo de encontro aos efeitos especiais em “King Kong” (de Merian C. Cooper, 1933), “A Ilha do Dr. Moreau” (Erle C. Kenton, 1933), “Daqui a Cem Anos” (William Cameron Menzies, 1936), “O Médico e o Monstro” (Victor Fleming, 1941), dentre outros.ContextoA tecnologia e seus artefatos colocados a serviço da Sétima Arte chegavam ao ápice da ausência de limites que poderiam ser colocados à serviço da criatividade, ou, segundo os teóricos da Escola de Frankfurt, essa mesma tecnologia significaria o fim da arte. Com o cinema, arte por excelência reprodutiva e tecnológica, não seria diferente. Evidentemente, o contexto político da Guerra Fria e o medo do extermínio completo da humanidade por conta de um possível conflito nuclear entre as duas maiores potências mundiais completava a atmosfera ideal para o clima que o filme de Wise pretendia criar. Com tudo isso, “O Dia Em Que a Terra Parou” estreou provocando a seguinte reflexão: afinal, a vida humana valeria a pena ser preservada?No filme de Wise, a chegada da Klaatu e seu robô Gort é cercada de apreensão, medo e perplexidade. O suspense criado pela música, as imagens do sistema solar e o aparecimento do objeto redondo e claro sobrevoando o planeta nos fazem, mesmo vendo o filme agora, esperar pela aparição dos seres que descem triunfantes a rampa que sai do disco voador.A mídia dá ampla cobertura ao acontecimento. As pessoas vão às ruas e cercam o objeto que aterrizou em um parque da cidade. A curiosidade, o porquê da vinda daqueles seres ao nosso planeta é aguçada pela negativa de Klaatu em revelar seus motivos. Para ele, tal informação só seria possível mediante a presença de todos os líderes mundiais. Por todos os lugares, permanece a perplexidade, e as inúmeras teorias sobre a forma e os motivos ganham enorme diversidade. Em determinado momento, uma família diante da TV comenta: “Gente o que? Eles são democratas!”. A Indústria Cultural teorizada pelos frankfurtianos encontrava-se no seu apogeu.Clichê2009. O mundo comemora com euforia a volta de um presidente democrata ao comando de sua maior nação. Obama representa, para alguns, a redenção e a esperança de que dias melhores virão. Scott Derrikson, que dirigira anteriormente “O Exorcismo de Emily Rose” (2005), apresenta ao mundo sua releitura do clássico de Robert Wise.Se no filme de 1951 as fragilidades humanas são expostas na forma da ambição, do egoísmo e da intransigência, na refilmagem de Derrikson, as preocupações ambientais tornaram-se o mote principal da ameaça à vida no planeta. A releitura, nesse caso, remete igualmente aos principais problemas do mundo atual.A onda democrata - impossível não lembrar aqui do documentário “Uma Verdade Inconveniente”(2006) - por um lado, é a principal marca do contexto político dos tempos atuais, por outro, reafirma a pauta do meio ambiente e da responsabilidade social como das mais importantes para a própria sobrevivência dos movimentos políticos. Keanu Reeves, que interpreta Klaatu nesse remake, chega ao planeta para tentar salvar a humanidade de uma tragédia ecológica que colocaria fim à vida como hoje é conhecida.A mensagem final do filme de Wise remete ao questionamento sobre a possibilidade humana de administrar de forma racional seus problemas. As divergências políticas que levariam ao conflito nuclear poderiam ser evitadas se nós, humanos, desenvolvêssemos a capacidade de sermos senhores de nosso próprio destino.Derrickson e seu Klaatu vivido por Reeves talvez não tenham, a seu favor, um contexto tão favorável ao clima que seu filme poderia criar. Óbvio que a degradação ambiental poderá levar ao caos completo da vida no planeta. Entretanto, um roteiro que por diversas vezes não esclarece muito alguns fatos da presença de Klaatu e Gort contribui para tal enfraquecimento. No mais, uma atuação razoável de Reeves, associada ao fato do filme proporcionar a lembrança do clássico de Wise, acabam mesmo sendo o que de melhor a refilmagem possa oferecer. No fim, é quase inevitável para a indústria cinematográfica não construir mais um clichê: a humanidade, violenta, também ama e por isso merece uma segunda chance. * Sociólogo, pesquisador e realizador em audiovisual. Coordena a Escola Pública de Audiovisual de Fortaleza e leciona no curso de Comunicação Social da Faculdade Evolutivo.

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Filme Levanta Bola do Diálogo Doc-Fic

* Carlos Alberto Mattos

     Linha de Passe relançou debate que tem sido freqüente no cinema brasileiro recente: como a ficção se inspira nos documentários?

     Os irmãos Salles são um exemplo vivo e sonante desse trânsito. O doc “Socorro Nobre”, de Walter, inspirou o seu “Central do Brasil”. “Notícias de uma Guerra Particular”, de João, apontou caminhos para filmes como “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite”. Mas é o próprio Walter quem reconhece que não basta a um filme inspirar-se num doc para ficar próximo do doc. Ele trocou e-mails com o docblogueiro:

– “Central do Brasil” não tem linguagem documental, à exceção dos depoimentos do início do filme. Em “Central”, tudo era questão de precisão. O filme foi projetado numa espécie de cinema interior antes de ser filmado’.

     No caso de “Linha de Passe”, Walter tem frisado em entrevistas que ele e Daniela Thomas procuraram filmar na fronteira entre a fic e o doc. Mas o que isso exatamente quer dizer?

     Houve, primeiro, a inspiração em dois docs de João: “Futebol”, co-dirigido por Arthur Fontes, que, entre outras coisas, descrevia a máquina de moer sonhos pela qual costumam passar os jovens aspirantes ao estrelato no futebol; e “Santa Cruz”, co-dirigido por Marcos Sá Corrêa, acompanhamento da criação de uma pequena igreja evangélica no subúrbio carioca.

     Futebol e religião são dois eixos importantes na construção dramática de “Linha de Passe”, muito ligados às questões da fraternidade e da busca do pai.
Na conversa com Walter, confirmei que também “Motoboy - Vida Louca”, de Caíto Ortiz, teve grande importância no processo.

     – Gosto muito do documentário, a ponto de ter escrito um artigo para a Folha sobre o filme. Já tinha desenvolvido um personagem de motoboy num roteiro escrito dois anos antes de “Linha de Passe”, mas “Motoboy - Vida Louca” nos ajudou a entender o quão complexa era aquela realidade.

     Para além das eventuais influências, existem diálogos possíveis, não intencionais, com docs (posteriores à concepção do projeto) como “Em Trânsito”, de Henri Gervaiseau, e mesmo “33”, de Kiko Goifman, sobre a procura da mãe biológica.

     Essas, contudo, são semelhanças temáticas, menos importantes para determinar o teor documental de um filme. “Linha de Passe” liga seu fio-terra em diversos acontecimentos reais da cidade de São Paulo. Entre eles, o menino que roubava ônibus e procurava seu pai entre os motoristas (já retratado no curta “O Menino e o Bumba”, de Patrícia Cornils), a onda de roubos com motocicletas, os incêndios de ônibus. Mas isso tampouco seria suficiente para caracterizar um trabalho de fronteira.

     O mais importante de tudo estava na linguagem, como explica Walter: – Estar no limite entre ficção e documentário é estar aberto à idéia de que a narrativa deve ser constantemente transformada pelo imprevisível, pelos acidentes que só a realidade traz. Em outras palavras, é necessário que o roteiro original seja desestabilizado constantemente ao longo da filmagem. Foi o que buscamos em “Linha de Passe”. Como optamos por não ter figurantes no filme e sim pessoas que vinham realmente dos universos que estávamos retratando, éramos constantemente surpreendidos por coisas que não esperávamos. Para capturar aquilo que não estava no roteiro, era necessário trabalhar com equipamento leve, como num documentário. Essas novas cenas foram transformando pouco a pouco a matéria fílmica, de tal maneira que o filme final é muito diferente do filme que existia no papel.

     Ele prossegue: – A gramática cinematográfica foi na mesma direção: como a maioria dos atores estava fazendo seu primeiro filme, procuramos não marcar as cenas como faríamos com atores profissionais. Ao contrário, a câmera tenta acompanhar os movimentos de personagens que evoluem livremente em quadro. É por isso, aliás, que o foco chega algumas vezes atrasado - como num documentário. Por fim, gruas, steadicams ou outras parafernálias eletrônicas não fazem parte dessa linguagem. Filmes que utilizam esses instrumentos ou o cinemascope podem dificilmente ser caracterizados como próximos do documentário...

     O interessante, em “Linha de Passe”, é que as improvisações e recriações da filmagem soam tão orgânicas que parecem rigorosamente planejadas. O filme tem um roteiro muito bem amarrado, que evolui das histórias atomizadas dos quatro irmãos para uma crescente interpenetração, culminando com um belíssimo conjunto de clímax paralelos.

     Talvez a semelhança mais curiosa com a linguagem documental esteja no uso de um procedimento formal fixo, coisa típica dos chamados “documentários de dispositivo” contemporâneos.

     A estrutura do filme inteiro obedece ao padrão das linhas de passe futebolísticas, aquela brincadeira coletiva em que cada jogador só pode dar um toque na bola, passando adiante a um companheiro.

     As seqüências são curtas, sem continuidade direta, passando de um a outro personagem como a bola da linha de passe.

     Depois dos documentários, teremos agora a ficção de dispositivo?

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Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal

* Rubens Ewald Filho

     Não gosto de ler nada sobre a história dos filmes antes de assisti-los, e abomino a prática dos blogs e sites de insistirem em contar detalhes do enredo, antes dele estrear. É puro estraga-prazer, por vezes atrapalhando, e até destruindo, a graça de se descobrir, na sala escura do cinema, as surpresas e reviravoltas das tramas dos filmes. Portanto, se você pretende ver o novo (e quarto) “Indiana Jones”, já vou informando que o filme é ótimo, divertido, movimentado, cheio de ação, auto-referente (lembra todos os anteriores e abre caminho para futuras continuações), e toma todas as decisões corretas.
     Embarquei de cabeça e me diverti completamente, como os autores pretendiam, como se estivesse numa matiné dos meus tempos de criança (a diferença era o saco de pipoca, que naquele tempo era proibido!).
     Spoilers - Deixe o resto para ler depois de ver o filme, já que não posso deixar de comentar alguns detalhes.
     Não é nada constrangedor ver Harrison Ford, aos 65 anos, voltar a fazer um filme de ação. Embora tudo seja levado com bastante humor, ele luta, briga, apanha, dá socos, sem nunca parecer ridículo ou obsoleto (nem mesmo a ocasional substituição por um dublê, em cenas mais perigosas, chega a atrapalhar). Defende com galhardia o personagem de Indiana Jones, agora em 1957, nos EUA de Eisenhower, onde a ameaça dos comunistas soviéticos está deixando todo mundo paranóico, chegando a lhe custar o emprego de professor universitário.
     O filme começa com uma citação de “American Graffiti”, com um racha no deserto, e uma surpresa, quando ele se vê no meio de uma explosão nuclear (depois disso, já se sabe que ele é capaz de sobreviver a tudo!).
     Os inimigos logo se revelam: a vilã é uma russa ucraniana que, deseja ter poderes paranormais e lembra as bandidas de antigamente, quando elas não tinham qualquer sentimento redentor.
     Irina Spalko é pérfida assumida e, em momento algum cai na caricatura, graças à presença carismática de Cate Blanchett. Ela quer algo de Indiana e fará tudo para conseguir, inclusive subornar um antigo amigo que virou traidor (Ray Winstone, como Mac). E começam as referências: ao Caso Roswell, ao próprio “Caçadores da Arca Perdida”, a aqueles antigos filmes de testes da bomba atômica e, mais tarde, de “Contatos Imediatos”, “ET”, “Tarzan”, “O Selvagem da Motocicleta”, de Marlon Brando (Shia é motoqueiro), musicais de Elvis Presley e, naturalmente, aos antigos seriados dos anos 30 e 40.
     Sabe-se que custaram a fazer essa continuação (dá para acreditar que já se passaram 19 anos desde o ultimo episódio! Foi em 1989. Credo, como o tempo passa...) porque não gostaram - melhor dizendo, o produtor George Lucas não gostou - dos roteiros escritos por M.Night Shyamalan, Tom Stoppard e Frank Darabont (que diziam ser muito bom). Quem acabou acertando foi David Koepp (“Zathura”, “Guerra dos Mundos”, “Homem-Aranha”, “Quarto do Pânico”). Sua solução foi contar com a cumplicidade da platéia, que percebe e entende as referências (o medo de cobras, Indiana tentando usar o revólver, como no primeiro filme, e assim por diante).
     Infelizmente, a própria escalação do elenco já revela uma novidade, nada surpreendente.
     Retorna Karen Allen, que foi a namorada de Indiana - Marion Ravewood -, no primeiro filme. E como ela tem um filho jovem/adulto (Shia) não é difícil matar a charada. De qualquer forma, esse relacionamento acaba dando charme e humor ao filme, e parece ser a base de uma futura continuação (ao que parece, Indiana ainda não está disposto a passar o chapéu).
     Não espere muita verossimilhança na aventura. Pelo filme, as cataratas do Iguaçu (nunca mencionadas, mas parte importante na história) ficam no meio da selva amazônica. Mas, para que serve um velho túmulo, cheio de riquezas, a não ser para desmoronar, provocando uma fuga desesperada? Todos os clichês - ou momentos clássicos, se preferirem - estão presentes e ainda funcionam. Porque a gente já entra no cinema disposto a curtir, torcer e vibrar com as façanhas rocambolescas do velho herói.
     Alguns reclamaram do filme invocar temas que parecem saídos de “Eram os Deuses Astronautas?”. Mas achei muito lógico porque, afinal de contas, é um filme de Spielberg, o cara que praticamente inventou o gênero de fantasia com “ET” e, antes dele, “Contatos Imediatos”.
     Sabe-se também que Sean Connery se recusou a sair da aposentadoria, para reviver o personagem do pai de Indiana, que no filme é dado como morto, assim como o Dr. Marcus Brody - embora, nesse caso, Denholm Elliott, o ator que o interpretou, tenha realmente falecido. De qualquer forma, é uma homenagem adequada. Como o fotógrafo dos três filmes anteriores, Douglas Slocombe, já faleceu também, o sucessor, Janus Kaminzki, que tem feito os filmes recentes de Spielberg, procurou imitar seu estilo de iluminação, que lembra as antigas histórias em quadrinhos. Por isso não quis usar a técnica digital, profetizada pelo produtor Lucas.
     São detalhes que ajudam a apreciar melhor o filme - que continua contando com a trilha musical de John Williams - que não fica nada a dever aos anteriores. Divirtam-se!

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal
(“Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull” - EUA - 2008 - 124 min.) Direção: Steven Spielberg Produção: George Lucas Com: Harrison Ford, Karen Allen, Ray Winstone, Cate Blanchett, Shia LaBeouf, John Hurt e Jim Broadbent
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Charlton Heston

Morre o ator dos papéis memoráveis

* Rubens Ewald Filho

     A morte de Charlton Heston, sábado 5 de abril, aos 84 anos, foi o fim melancólico daquele que foi um dos maiores astros de cinema de nossa época. Seu nome era Charlton (Mr. Heston), mas podem chamá-lo de Moises, Ben Hur, ou João Batista que também dá certo.

     Seu rosto parecia ter sido feito especialmente para interpretar papéis de personagens clássicos ou heróicos; foi um dos poucos atores de cinema que parecia convincente usando uma tanga ou uma saia curta, ou qualquer roupa de época. Ninguém duvidava de sua macheza, ninguém questionava sua identidade. Não é à toa que seu descobridor, Cecil B. De Mille, dizia no trailer de “Os Dez Mandamentos” que tinha achado Charlton parecido com a estátua que Michelangelo havia feito de Moisés e, por isso, o havia escolhido.

     Numa longa carreira, de mais de 50 anos e cem filmes, Charlton foi um dos poucos atores de sua geração que continuaram atuando, sendo conhecido até pelos jovens. Até numa recente festa do Oscar, ele estava na platéia sendo homenageado, porque o vencedor era “Gladiador”, parecido com o tipo de filme que ele costumava fazer.

     Também foi muito criticado porque, durante muito tempo, Charlton foi porta-voz da associação que defende o direito dos norte-americanos portarem armas, o que foi muito contestado diante dos excessos dq violência nos EUA, ainda mais entre jovens.

     Nunca perfeito, Charlton Heston continuou a ser uma lenda, mesmo que nos últimos anos; nos últimos anos tinha graves problemas para andar, caminhava mancando e com dificuldade.

     Para mim, a imagem que fica é a de quando o entrevistei na praia, em Cannes, durante o lançamento de “Hamlet”, de Kenneth Branagh, e ele começou me recitar trechos de Shakespeare, ainda majestoso, com sua voz ressonante. Impressionante; ele era grande conhecedor de Shakespeare, ainda mais para alguém que já estava doente (e não sabia).

     Nascido John Charles Carter em Evanston, Illinois em 4 de outubro de 1924, tornou-se Heston por causa do sobrenome de seu padrasto. Foi cursando a Universidade Northwestern que ele descobriu a vocação para ator e, ainda na escola, conheceu sua mulher, também atriz e com quem viveu até morrer, Lydia Clarke. Depois de servir três anos o serviço militar, começou fazendo televisão e dois filmes semi-amadores, “Peer Gynt” (1941) e uma versão de Julio César (1950), quando foi descoberto pelo produtor Hal Wallis, que o amarrou a um contrato exclusivo e o levou para a Paramount, onde estreou em “Cidade Negra” (‘Dark City‘), em 1950, já num papel central - o de um cínico veterano de guerra, envolvido num complicado esquema de traições e vigarices.

     Foi fazendo esse filme que Heston foi descoberto no estúdio por De Mille, que o colocou num papel central de sua superprodução “O Maior Espetáculo da Terra” (‘The Greatest Show on Earth‘ -1952). Ele fazia o gerente do circo, que controla todos os números e conquista o amor da mocinha, Betty Hutton. A fita deu a De Mille o único Oscar que ele ganhou em sua vida, e transformou Heston num nome famoso.

     Ainda que tenha passado a maior parte de seu contrato com a Paramount fazendo filmes de ação, foi novamente De Mille quem veio em seu socorro em 1956, quando o transformou em Moisés no célebre “Os Dez Mandamentos”, devidamente maquiado, com barba e cabelo grisalho, porque o personagem começava jovem e terminava maduro.

     Na verdade, a história começa com Moisés menino, e quem fez o papel do bebê foi justamente Fraser, o filho de Charlton, que mais tarde se tornaria competente diretor de cinema. Mas era um papel difícil; era preciso tornar convincente um diálogo cheio de frases grandiosas e, ainda por cima, não ser superado pelos efeitos especiais. Outro marco de sua carreira viria logo depois, em 1958, quando o próprio Heston sugeriu à Universal que desse uma chance para Orson Welles dirigir “A Marca da Maldade”, um filme policial, noir mesmo, que ele realizou dentro do orçamento e de forma brilhante, mesmo que o estúdio tenha mexido um pouco no filme, e só recentemente pudemos ver a versão restaurada. Heston faz o papel de um mexicano, Mike Vargas, que se casa com a americana Janet Leigh, e tem que enfrentar um corrupto policial americano. Mas é a maneira com a qual o filme é encenado que o torna tão excepcional.

     No ano seguinte, depois de fazer uma aparição amigável em “Corsário sem Pátria” (‘The Buccaneer’ - 1958) - canto de cisne de De Mille como produtor -, Heston conseguiu o papel de sua vida. Dizem que o diretor William Wyler tinha pensado antes em Rock Hudson, e chegou a fazer outro filme com Heston, antes de se decidir. Mas ele foi o “Ben-Hur“(1959) perfeito.

     É verdade que podia não parecer judeu como o personagem exigia, mas sua presença tinha uma força, uma bravura, uma decência, e também uma figura atlética que tornou o herói convincente, e ajudou o filme a se tornar campeão em número de Oscars - 11 no total - um recorde apenas igualado por “Titanic” (1997).

     E não podemos esquecer a fantástica corrida de bigas, uma das cenas mais espetaculares do cinema, onde Heston realmente chegou a arriscar a vida em momentos inigualáveis.

     Dali em diante, bem que ele tentou diversificar. O Telecine Classic exibiu uma de suas experiências em comédia, a divertida “O Pombo que Conquistou Roma” (‘The Pigeon That Took Rome‘), com Elsa Martinelli, de 1962. Mas eram meros intervalos entre outros filmes e papéis espetaculares, como o lendário Rodrigo Díaz de Vivar, “El Cid” (EUA - 1961), no filme de Anthony Mann, onde realizava a proeza de ser herói mesmo depois de morto. O filme, só hoje em dia, foi reavaliado como um dos maiores épicos já feitos pelo cinema, inclusive com cenas de amor líricas, ao lado de Sophia Loren.

     Para o diretor George Stevens ele foi São João Batista, em “A Maior História de Todos os Tempos” (‘The Greatest Story Ever Told’ - 1965), uma participação relativamente pequena, mas que deu prestígio a outro épico religioso.

     Para muita gente, entretanto, Heston será lembrado por “Planeta dos Macacos” (‘Planet of the Apes’), na primeira e ainda melhor versão, de 1968, um dos grandes clássicos do cinema de ficção científica. Na recente versão ele chegou a fazer uma ponta, como o pai do vilão.

     O fato é que, depois de 50 anos de papéis memoráveis, Heston acabou vindo filmar em Manaus e, vejam a ironia, seu último filme foi rodado no Brasil e continua inédito aqui (porque, aparentemente, é ruim): “My Father, Rua Alguém 5555” (2003), onde ele fazia o nazista Josef Mengele.

     Foram cinqüenta anos de imagens inesquecíveis, em alguns dos filmes mais populares de todos os tempos, e tudo isso estragado por seu conservadorismo, e por uma aparição desastrosa em “Tiros em Colombine” (2002), onde revelava suas idéias reacionárias. Mas, certamente, naquela ocasião ele já estava afligido pela doença, ou seja, não raciocinava mais direito (pouco tempo depois, a família anunciou sua aposentadoria, e ele nunca mais apareceu em público).

     Uma lástima que esse deslize final obscureça uma carreira notável.

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África, tão perto, tão longe

* Paulo Betti

     Imagine um festival de cinema cuja abertura e encerramento com entrega de prêmios acontecem num estádio de futebol diante de um público de 30 mil pessoas.

     Assim foi a vigésima edição do Fespaco, evento bienal que se realiza em Ouagadougou, capital de Burkina Faso, localizada no coração da África do oeste com fronteiras com o Mali, Benin, Togo, Gana e Costa do Marfim. Confesso, que, como a maioria dos brasileiros, a única coisa que sei a respeito desses países é que eram times de futebol no álbum de figurinhas que colecionei com meu filho na última copa do mundo.

     A língua oficial de Burkina é o francês, mas fala-se também o Moore, Dioula e o Fulfude. A altitude é de 500 mts e o clima é tropical, sem chuvas, seco.Quente, muito quente. A população está em torno de 12 milhões de habitantes.

     Por que sabemos tão pouco sobre a África ? Porque não sabemos nada sobre esse festival no Brasil? Certo, só concorrem a prêmio os filmes africanos, mas isso não é razão para não mandarmos nossos filmes pra lá. Mostras paralelas excitantes exibem filmes de todo mundo para uma platéia ávida e as salas estão sempre lotadas.Mais de 150 filmes e também uma grande quantidade de sitcons e seriados de tv. Esse é um dos mais importantes festivais de cinema do mundo. Até mesmo a bíblia do cinema, o Cahier du Cinema, dedicou um suplemento inteiro a esse acontecimento.

     Nosso governo tenta incrementar as relações com o continente africano, mas nossa agência de cinema, a Ancine, não tem o Fespaco no seu ranking de festivais que merecem passagens e incentivos para que os nossos cineastas se disponham a ir para lá. Isso precisa ser corrigido.

     O fato é que estamos muito mais distantes da África do que supomos.Se olharmos o mapa, veremos que numa viagem de 6 horas estaríamos em Ouagadougou. Mas somos obrigados a ir a Paris. Pronto. A viagem passa a ser de dois dias.

     No carnaval de 2007, cinco escolas de samba do primeiro grupo no Rio de Janeiro tiveram a África como tema de seus enredos, inclusive a ganhadora, a Beija Flor. Somos um País com metade da população de negros e pardos. Não é o que diz o IBGE ? Apesar disso, o último filme brasileiro que eles lembram ter participado do Fespaco foi o maravilhoso documentário “Orí”, de Raquel Berger em 1989.

     Imagine uma cidade que tem como principal monumento uma homenagem aos cineastas. Um enorme e curioso obelisco em cimento imitando latas e carretéis de película. A Praça dos Cineastas. Essa é Ouagadougou. Um único brasileiro no festival. Pelo menos não encontrei outro entre os quatro mil participantes das festividades. Falando língua portuguesa, somente o pessoal da televisão Angolana, o Pedro Pimenta que organiza um festival de documentário em Maputo e ninguém mais.Uma pena, pois a África tem tudo a ver conosco. É um clichê, mas é a verdade. É só ver como nos encaixamos no mapa da África. Parecem duas peças de um quebra-cabeças a provar que tudo era uma só extensão continental.

     Mas não nos enganemos. As diferenças são enormes. Andando pelas ruas, os muçulmanos prostrados no chão fazendo suas orações nos mostram claramente que estamos numa outra parte do mundo.

     Os filmes favoritos eram “Tsotsi”, Sul Africano que ganhou o Oscar de 2005 de melhor filme estrangeiro, baseado na obra do grande dramaturgo Athol Fugard e “Daratt”, do Tchad (é o nome do país) que ganhou o Leão de Prata no festival de Veneza. Mas quem acabou vencendo o “Étalan d’or de Yennenga” foi o filme “Ezra” de Newton Aduaka, da Nigéria, sobre um jovem ex- combatente da guerra civil que tenta se readaptar a vida normal.

     O filme que mais me impressionou, vi num telão de alta definição na periferia mais distante. A lua cheia brilhava no céu e as crianças se juntavam aos velhos sentados no chão de terra, misturados com os europeus de boa vontade que ainda pensam ser possível resolver os problemas do mundo com o cinema. Na tela passava “L’or bleu, ressource ou marchandise”, do francês Didier Bergounhoux, um filme sobre a falta de água na Nigéria e em Burkina. Um problema que em breve vai ameaçar o mundo todo. Para quem gosta de teatro, Didier fez aquela célebre foto da montagem da peça “Tempestade” com direção de Peter Brook. Aquela em que o grande ator Sotigui Kouyaté aparece com Próspero, com a miniatura de um navio sobre a cabeça. Aliás, Sotigui é o maior ator dessas paragens, um “griot”, que tem o dom de contar histórias, tradição oral, aspecto importantíssimo da cultura de um povo onde apenas 5% da população sabe ler.

     O Fespaco é um festival diferente. A poeira e a pobreza a todos irmana . Sobra pouco espaço para vaidade e o cinema é uma arma contra a miséria. Resolvi documentar a experiência. Passei 5 dias com uma câmera que parecia uma metralhadora na garupa de uma moto. O piloto, Dreudouné Adouabou, um estagiário de 30 anos que fala inglês, francês e três línguas locais, ganha 38 dólares por mês e me ensinou, delicadamente, o tempo todo, a distância que existe entre nós. Ele me dizia: “Uncle (tio) Paulo, o senhor não deve dizer “Eu” e “Você”. E sim “Você” e “Eu”. Não deve dizer “Brasil” e “África”, e sim “África” e “Brasil”. Estou tentando, humildemente, aprender.

     Ah! Ele dizia também: “To be or not to be, that’s the question, but, uncle Paulo, everyone wants to be”. (“Ser ou não ser, eis a questão, mas, tio Paulo, todo mundo quer ser”.)

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Vladimir Carvalho, Menino de Engenho

* Carlos Alberto Mattos

     Quando era garoto em Itabaiana, interior da Paraíba, Vladimir Carvalho gostava de maneira especial da hora do jantar. Não pela culinária, mas pela sonoplastia. Era a hora de seu pai, Lula Martins, contar histórias para a família. Muitas delas tinham a ver com José Lins do Rêgo. O escritor já famoso, que havia estudado no mesmo colégio de Itabaiana, era uma espécie de ídolo, a ponto de o menino Vladimir demorar-se no espelho arrumando o cabelo à semelhança de Zé Lins.

     Essa devoção é em parte responsável pelo projeto que o cineasta desenvolveu, ao longo dos últimos cinco anos, com recursos mínimos e determinação máxima. No início, era para ser um híbrido de biografia e autobiografia. "Achava que deveria voltar ao meu próprio passado através dessa viagem em busca de Zé Lins, mas acabei deixando a idéia de lado", conta Carvalho. Deixou em parte. O Engenho de Zé Lins é, de muitas maneiras, o engenho de Vladimir. Engenho tomado aqui como lugar de origem e como talento criador.

     O filme está repleto de imagens recorrentes na obra deste que é um dos mais fecundos e ousados documentaristas modernos brasileiros. Lá estão os canaviais paraibanos, as bolandeiras de moer cana, a figura de São Miguel Arcanjo (o santo com a balança da justiça). Lá está a idéia – comum ao escritor e ao cineasta – de um mundo que o tempo transforma em ruína.

     Vladimir Carvalho está longe de ser aquele tipo de documentarista que observa "cientificamente" a realidade. Seu cinema é de compromisso e envolvimento. Se os clássicos O País de São Saruê (disponível em DVD) e Conterrâneos Velhos de Guerra eram movidos pela indignação contra as injustiças sociais, O Homem de Areia (sobre José Américo de Almeida), O Evangelho Segundo Teotônio e agora O Engenho de Zé Lins caminham pela senda da admiração. Mas o que distingue de fato o seu cinema é que não é panfletário na indignação, nem laudatório na admiração.

     De José Lins do Rêgo ele faz uma espécie de psicanálise selvagem, investigando as áreas de sombra que desenhavam o homem e se projetavam em sua obra. "Se não fosse escritor, Zé Lins seria um grande personagem de romance", diz a certa altura Carlos Heitor Cony, que funciona no filme como um corifeu, comentando e arrematando sentidos. Desde as imagens de abertura, com a reencenação de uma primeira e traumática visão da morte, a ênfase recai no temperamento ciclotímico do escritor, pontuado por picos de euforia e melancolia. O tiro acidental que causou a morte de um colega de infância, a "amizade amorosa"com o mentor Gilberto Freyre, a paixão exacerbada pelo Flamengo – é confrontando esses traços de complexidade biográfica que Carvalho vai jogar novas luzes sobre um autor injustamente relegado a segundo plano na literatura brasileira.

     Ariano Suassuna é quem reflete, no próprio filme, o seu efeito. Em depoimento precedido de uma de suas típicas e hilariantes digressões, Suassuna afirma que, diante das informações recolhidas por Vladimir, ele consegue enfim decifrar o enigma Zé Lins.

     O humor, o interesse e a emoção contidos nas entrevistas refletem o carisma do personagem, mas também a postura curiosa e apaixonada do diretor. Vladimir Carvalho não costuma se prender a regras puristas para fazer seus documentários. Eles têm música, ficção, poesia. Em uma palavra: liberdade.

     Prova disso é o diálogo que O Engenho de Zé Lins estabelece com o ficcional Menino de Engenho, que Walter Lima Jr. rodou na Paraíba em 1965. Aqui um filme de ficção vira "material de arquivo" para um documentário. Muitas referências à infância de José Lins do Rêgo são "ilustradas" por cenas do filme de Walter. Inclusive aquela em que o próprio Vladimir dublou uma voz fora do quadro ("Papa-rabo!") lá nos anos 60. Esse procedimento tem seu ápice quando Vladimir leva o ex-ator-mirim Sávio Rolim ao mesmo cenário do engenho Itapuá, quarenta anos depois. O frágil estado físico e mental de Sávio acaba se transformando numa metáfora para a angústia, o pensamento obsessivo e o efeito do tempo na obra e na figura de Zé Lins. O Itapuá, no entanto, arruinado e ocupado por famílias do MST, parece confirmar um destino previsto pelo escritor no romance Moleque Ricardo, parte de seu ciclo da cana-de-açúcar.

     Poucos documentários biográficos recentes têm temperado a afetividade com a mesma disposição investigativa desse filme. Custa crer que um mestre como Vladimir Carvalho continue a depender de favores, sacrifícios financeiros e da providencial parceria com os jovens produtores da Urca Filmes para concluir um trabalho dessa importância.

 
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