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| "O
Cinema cria imediatamente uma direção
para a vista, que é um sentido eminentemente
abstracionista, e uma fantasia para a imaginação".
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Vinícius
de Moraes |
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Moviola |
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Indiana
Jones e o Reino da Caveira de Cristal
* Rubens Ewald Filho
Não gosto de ler nada
sobre a história dos filmes antes de assisti-los, e
abomino a prática dos blogs e sites de insistirem em
contar detalhes do enredo, antes dele estrear. É puro
estraga-prazer, por vezes atrapalhando, e até destruindo,
a graça de se descobrir, na sala escura do cinema,
as surpresas e reviravoltas das tramas dos filmes. Portanto,
se você pretende ver o novo (e quarto) “Indiana
Jones”, já vou informando que o filme é
ótimo, divertido, movimentado, cheio de ação,
auto-referente (lembra todos os anteriores e abre caminho
para futuras continuações), e toma todas as
decisões corretas.
Embarquei de cabeça e
me diverti completamente, como os autores pretendiam, como
se estivesse numa matiné dos meus tempos de criança
(a diferença era o saco de pipoca, que naquele tempo
era proibido!).
Spoilers - Deixe o resto para
ler depois de ver o filme, já que não posso
deixar de comentar alguns detalhes.
Não é nada constrangedor
ver Harrison Ford, aos 65 anos, voltar a fazer um filme de
ação. Embora tudo seja levado com bastante humor,
ele luta, briga, apanha, dá socos, sem nunca parecer
ridículo ou obsoleto (nem mesmo a ocasional substituição
por um dublê, em cenas mais perigosas, chega a atrapalhar).
Defende com galhardia o personagem de Indiana Jones, agora
em 1957, nos EUA de Eisenhower, onde a ameaça dos comunistas
soviéticos está deixando todo mundo paranóico,
chegando a lhe custar o emprego de professor universitário.
O filme começa com uma
citação de “American Graffiti”,
com um racha no deserto, e uma surpresa, quando ele se vê
no meio de uma explosão nuclear (depois disso, já
se sabe que ele é capaz de sobreviver a tudo!).
Os inimigos logo se revelam:
a vilã é uma russa ucraniana que, deseja ter
poderes paranormais e lembra as bandidas de antigamente, quando
elas não tinham qualquer sentimento redentor.
Irina Spalko é pérfida
assumida e, em momento algum cai na caricatura, graças
à presença carismática de Cate Blanchett.
Ela quer algo de Indiana e fará tudo para conseguir,
inclusive subornar um antigo amigo que virou traidor (Ray
Winstone, como Mac). E começam as referências:
ao Caso Roswell, ao próprio “Caçadores
da Arca Perdida”, a aqueles antigos filmes de testes
da bomba atômica e, mais tarde, de “Contatos Imediatos”,
“ET”, “Tarzan”, “O Selvagem
da Motocicleta”, de Marlon Brando (Shia é motoqueiro),
musicais de Elvis Presley e, naturalmente, aos antigos seriados
dos anos 30 e 40.
Sabe-se que custaram a fazer
essa continuação (dá para acreditar que
já se passaram 19 anos desde o ultimo episódio!
Foi em 1989. Credo, como o tempo passa...) porque não
gostaram - melhor dizendo, o produtor George Lucas não
gostou - dos roteiros escritos por M.Night Shyamalan, Tom
Stoppard e Frank Darabont (que diziam ser muito bom). Quem
acabou acertando foi David Koepp (“Zathura”, “Guerra
dos Mundos”, “Homem-Aranha”, “Quarto
do Pânico”). Sua solução foi contar
com a cumplicidade da platéia, que percebe e entende
as referências (o medo de cobras, Indiana tentando usar
o revólver, como no primeiro filme, e assim por diante).
Infelizmente, a própria
escalação do elenco já revela uma novidade,
nada surpreendente.
Retorna Karen Allen, que foi
a namorada de Indiana - Marion Ravewood -, no primeiro filme.
E como ela tem um filho jovem/adulto (Shia) não é
difícil matar a charada. De qualquer forma, esse relacionamento
acaba dando charme e humor ao filme, e parece ser a base de
uma futura continuação (ao que parece, Indiana
ainda não está disposto a passar o chapéu).
Não espere muita verossimilhança
na aventura. Pelo filme, as cataratas do Iguaçu (nunca
mencionadas, mas parte importante na história) ficam
no meio da selva amazônica. Mas, para que serve um velho
túmulo, cheio de riquezas, a não ser para desmoronar,
provocando uma fuga desesperada? Todos os clichês -
ou momentos clássicos, se preferirem - estão
presentes e ainda funcionam. Porque a gente já entra
no cinema disposto a curtir, torcer e vibrar com as façanhas
rocambolescas do velho herói.
Alguns reclamaram do filme invocar
temas que parecem saídos de “Eram os Deuses Astronautas?”.
Mas achei muito lógico porque, afinal de contas, é
um filme de Spielberg, o cara que praticamente inventou o
gênero de fantasia com “ET” e, antes dele,
“Contatos Imediatos”.
Sabe-se também que Sean
Connery se recusou a sair da aposentadoria, para reviver o
personagem do pai de Indiana, que no filme é dado como
morto, assim como o Dr. Marcus Brody - embora, nesse caso,
Denholm Elliott, o ator que o interpretou, tenha realmente
falecido. De qualquer forma, é uma homenagem adequada.
Como o fotógrafo dos três filmes anteriores,
Douglas Slocombe, já faleceu também, o sucessor,
Janus Kaminzki, que tem feito os filmes recentes de Spielberg,
procurou imitar seu estilo de iluminação, que
lembra as antigas histórias em quadrinhos. Por isso
não quis usar a técnica digital, profetizada
pelo produtor Lucas.
São detalhes que ajudam
a apreciar melhor o filme - que continua contando com a trilha
musical de John Williams - que não fica nada a dever
aos anteriores. Divirtam-se!
Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal
(“Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull”
- EUA - 2008 - 124 min.) Direção: Steven Spielberg
Produção: George Lucas Com: Harrison Ford, Karen
Allen, Ray Winstone, Cate Blanchett, Shia LaBeouf, John Hurt
e Jim Broadbent |
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Morre
o ator dos papéis memoráveis
* Rubens Ewald Filho
A
morte de Charlton Heston, sábado 5 de abril,
aos 84 anos, foi o fim melancólico
daquele que foi um dos maiores astros de cinema de nossa época.
Seu nome era Charlton (Mr. Heston), mas podem
chamá-lo de Moises, Ben Hur,
ou João Batista que também
dá certo.
Seu
rosto parecia ter sido feito especialmente para interpretar
papéis de personagens clássicos ou heróicos;
foi um dos poucos atores de cinema que parecia convincente
usando uma tanga ou uma saia curta, ou qualquer roupa de época.
Ninguém duvidava de sua macheza, ninguém questionava
sua identidade. Não é à toa que seu descobridor,
Cecil B. De Mille, dizia no trailer de “Os
Dez Mandamentos” que tinha achado Charlton
parecido com a estátua que
Michelangelo havia feito de Moisés
e, por isso, o havia escolhido.
Numa
longa carreira, de mais de 50 anos
e cem filmes, Charlton foi
um dos poucos atores de sua geração que continuaram
atuando, sendo conhecido até pelos jovens. Até
numa recente festa do Oscar, ele estava na
platéia sendo homenageado, porque o vencedor era “Gladiador”,
parecido com o tipo de filme que ele costumava fazer.
Também
foi muito criticado porque, durante muito tempo, Charlton
foi porta-voz da associação
que defende o direito dos norte-americanos portarem armas,
o que foi muito contestado diante dos excessos dq violência
nos EUA, ainda mais entre jovens.
Nunca
perfeito, Charlton Heston continuou a ser
uma lenda, mesmo que nos últimos anos; nos últimos
anos tinha graves problemas para andar, caminhava mancando
e com dificuldade.
Para
mim, a imagem que fica é a de quando o entrevistei
na praia, em Cannes, durante o lançamento
de “Hamlet”, de Kenneth
Branagh, e ele começou me recitar trechos
de Shakespeare, ainda majestoso, com sua
voz ressonante. Impressionante; ele era grande conhecedor
de Shakespeare, ainda mais para alguém
que já estava doente (e não sabia).
Nascido
John Charles Carter em Evanston, Illinois
em 4 de outubro de 1924, tornou-se Heston
por causa do sobrenome de seu padrasto. Foi cursando a
Universidade Northwestern que ele descobriu a vocação
para ator e, ainda na escola, conheceu sua mulher, também
atriz e com quem viveu até morrer, Lydia Clarke.
Depois de servir três anos o serviço militar,
começou fazendo televisão e dois filmes
semi-amadores, “Peer Gynt” (1941) e uma
versão de Julio César (1950), quando
foi descoberto pelo produtor Hal Wallis,
que o amarrou a um contrato exclusivo e o levou para a Paramount,
onde estreou em “Cidade Negra”
(‘Dark City‘), em 1950, já
num papel central - o de um cínico veterano de guerra,
envolvido num complicado esquema de traições
e vigarices.
Foi
fazendo esse filme que Heston foi descoberto
no estúdio por De Mille, que o colocou
num papel central de sua superprodução “O
Maior Espetáculo da Terra” (‘The
Greatest Show on Earth‘ -1952). Ele fazia o gerente
do circo, que controla todos os números e conquista
o amor da mocinha, Betty Hutton. A fita deu
a De Mille o único Oscar
que ele ganhou em sua vida, e transformou Heston
num nome famoso.
Ainda
que tenha passado a maior parte de seu contrato
com a Paramount fazendo filmes de
ação, foi novamente De Mille
quem veio em seu socorro em 1956, quando
o transformou em Moisés no célebre
“Os Dez Mandamentos”, devidamente maquiado,
com barba e cabelo grisalho, porque o personagem começava
jovem e terminava maduro.
Na
verdade, a história começa com Moisés
menino, e quem fez o papel do bebê foi justamente Fraser,
o filho de Charlton, que mais tarde se tornaria
competente diretor de cinema. Mas era um papel difícil;
era preciso tornar convincente um diálogo cheio de
frases grandiosas e, ainda por cima, não ser superado
pelos efeitos especiais. Outro marco de sua carreira viria
logo depois, em 1958, quando o próprio
Heston sugeriu à Universal
que desse uma chance para Orson Welles dirigir
“A Marca da Maldade”, um filme
policial, noir mesmo, que ele realizou dentro do orçamento
e de forma brilhante, mesmo que o estúdio tenha mexido
um pouco no filme, e só recentemente pudemos ver a
versão restaurada. Heston faz o papel
de um mexicano, Mike Vargas, que se casa
com a americana Janet Leigh, e tem que enfrentar
um corrupto policial americano. Mas é a maneira com
a qual o filme é encenado que o torna tão excepcional.
No
ano seguinte, depois de fazer uma aparição amigável
em “Corsário sem Pátria”
(‘The Buccaneer’ - 1958) - canto de cisne de
De Mille como produtor -, Heston
conseguiu o papel de sua vida. Dizem que o diretor William
Wyler tinha pensado antes em Rock Hudson,
e chegou a fazer outro filme com Heston,
antes de se decidir. Mas ele foi o “Ben-Hur“(1959)
perfeito.
É
verdade que podia não parecer judeu como o personagem
exigia, mas sua presença tinha uma força, uma
bravura, uma decência, e também uma figura atlética
que tornou o herói convincente, e ajudou o filme a
se tornar campeão em número de Oscars
- 11 no total - um recorde apenas igualado por “Titanic”
(1997).
E
não podemos esquecer a fantástica corrida
de bigas, uma das cenas mais espetaculares do cinema,
onde Heston realmente chegou a arriscar a
vida em momentos inigualáveis.
Dali
em diante, bem que ele tentou diversificar. O Telecine
Classic exibiu uma de suas experiências em
comédia, a divertida “O Pombo que Conquistou
Roma” (‘The Pigeon That Took Rome‘),
com Elsa Martinelli, de 1962. Mas eram meros
intervalos entre outros filmes e papéis espetaculares,
como o lendário Rodrigo Díaz de Vivar,
“El Cid” (EUA - 1961), no filme de
Anthony Mann, onde realizava a proeza de ser herói
mesmo depois de morto. O filme, só hoje em dia, foi
reavaliado como um dos maiores épicos já feitos
pelo cinema, inclusive com cenas de amor líricas, ao
lado de Sophia Loren.
Para
o diretor George Stevens ele foi São
João Batista, em “A Maior História
de Todos os Tempos” (‘The Greatest Story
Ever Told’ - 1965), uma participação relativamente
pequena, mas que deu prestígio a outro épico
religioso.
Para
muita gente, entretanto, Heston será
lembrado por “Planeta dos Macacos”
(‘Planet of the Apes’), na primeira e ainda melhor
versão, de 1968, um dos grandes clássicos
do cinema de ficção científica. Na recente
versão ele chegou a fazer uma ponta, como o pai do
vilão.
O
fato é que, depois de 50 anos de papéis
memoráveis, Heston acabou
vindo filmar em Manaus e, vejam a ironia,
seu último filme foi rodado no Brasil
e continua inédito aqui (porque, aparentemente, é
ruim): “My Father, Rua Alguém 5555”
(2003), onde ele fazia o nazista Josef Mengele.
Foram
cinqüenta anos de imagens inesquecíveis,
em alguns dos filmes mais populares de todos os tempos, e
tudo isso estragado por seu conservadorismo, e por uma aparição
desastrosa em “Tiros em Colombine”
(2002), onde revelava suas idéias reacionárias.
Mas, certamente, naquela ocasião ele já estava
afligido pela doença, ou seja, não raciocinava
mais direito (pouco tempo depois, a família anunciou
sua aposentadoria, e ele nunca mais apareceu em público).
Uma
lástima que esse deslize final obscureça uma
carreira notável. |
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A
difícil vida a dois…
* LG de Miranda Leão
Com
O Passado, o cineasta argentino Hector Babenco
brinda-nos com aula de bom cinema e também de competência
na adaptação para a tela do romance hormônimo
de Alan Pauls, há pouco lançado no País.
Trata-se de co-produção Argentina - Brasil com
suporte da HB Filmes, WB, K&S, Santander, Ancine e Petrobras.
Filme para ver e refletir
Babenco
lida agora com tema polêmico roteirizado por ele mesmo:
aquele segundo o qual o casamento monogâmico inibe a
liberdade e a sensualidade da vida a dois. Ou seja, a união
de duas pessoas de sexo diferente para a posse recíproca
de suas faculdades sexuais durante toda a vida é uma
impossibilidade. Para Freud, colocar homem e mulher, duas
matrizes neuróticas, sob o mesmo teto, cada qual com
formação e visão de mundo diferentes,
enfrentando o desgaste do dia-a-dia, é destiná-los
a uma falência na adaptação, a um fracasso
na sua realização como indivíduos. Além
disso, uma leitura dos diálogos e dos eventos ocorrentes
e a das imagens–significantes demonstram como não
conseguimos desligar-nos do passado, como somos o resultado
direto de tudo quanto fomos e assimilamos ao longo dos anos.
Por isso, pouquíssimos casais resistem ao poder avassalador
do tempo assassino, quando não vivem de aparências
para alimentar as colunas sociais…
Sinopse
O
enredo se concentra nos encontros e desencontros afetivos
do jovem tradutor Rimini (Gael Garcia Bernal) com três
mulheres de sua vida: Sofia (Ana Couceyro), namorada dos tempos
de colégio e sua mulher durante doze anos; Nancy (Mimi
Ardu), modelo sensual, e Carmem (Ana Celentano), colega tradutora
e a única a gerar-lhe um filho. O início é
com minisseqüência inteligente: amigos e conhecidos
se reúnem no apartamento de velha terapeuta para comemorar
os muitos anos de convivência de Sofia/Rimini, aparentemente
bem casados mas desgastados pelo tédio conjugal. O
toque irônico surge quando, ao invés de anunciarem
uma gravidez há muito esperada, comunicam à
dona da festa sua separação. Sofia parece enfrentar
bem o fim do matrimônio, mas aos poucos se vai revelando
sexualmente carente, possessiva e odienta. Nancy tem o mais
exacerbado sentimento de posse; Carmem, também ousada
na alcova, aceita com certa maturidade os desvios de Rimini.
A soma dos personagens principais serve como metonímia
visual para Babenco: os quatro representam um universo de
pessoas casadas e desajustadas, as quais vivem um jogo de
falsas aparências.
Direção
filmica
Babenco
domina o ritmo decorrente das imagens-movimento, revela bom
entrosamento com o montador Gustavo Giani e alimenta o interesse
do espectador na confluência dos eventos em marcha inexorável
rumo ao final. Dirige com segurança os atores, todos
a cavaleiro, até mesmo o recém-falecido Paulo
Autran numa ponta, e faz da música de Ivan Wyszogrod
um aliado de primeira, máxime na melodia inspirada
para acompanhar os créditos. Louve-se, no início,
a exibição de curtas-metragens da vida de Sofia/Rimini,
ambos felizes, noutros tempos, e eles mesmo assistem às
cenas entre surpresos e inquietos. Há diálogos
expressivos como quando Sofia diz a Rimini: “As pessoas
não se separam, elas se abandonam, como v. me abandonou”.
Acertou na escolha do cinecolor do laboratório argentino,
uma quase-fusão do p&b com cores esmaecidas do
seu patrício Ricardo Della Rosa. Babenco conhece
e sabe fazer cinema. Só lhe falta às
vezes aquele poder de síntese visual tão típico
de cineastas como Truffaut, capazes de distinguir com acerto
o essencial do não-essencial e eliminar o supérfluo.
Dez minutos a menos elevariam a qualidade da realização,
assim como tornariam menos explícitas as fortes cenas
de sexo e o palavreado chulo, substituindo-os por algo mais
sutil e sugestivo. Sabemos estar o mundo em plena revolução
sexual a partir da qual o cinema poderá vir a mostrar
tudo (a cocaína, aliás, já corre solta),
mas um toque de classe é sempre preferível.
Assim pensavam Truffaut, Melville, Mackendrick, Losey, e pensam
Kluge, Singer, Bogdanovich, entre outros. Também poderiam
ter sido reduzidas as cenas da cesariana e a seqüência
da academia de ginástica, bem assim a cópula
com a aluna quarentona no automóvel - recurso apelativo,
desnecessário.
Sobre
Hector Babenco
Buenosairense
de 61 anos, filho de imigrantes judeus vindo da Polônia
e da Rússia, Babenco viajou extensivamente pela Europa
antes de voltar-se para o cinema. Foi pintor, vendedor, escritor
freelance e extra em spaghetti westerns de Sergio Corbucci
e Mario Camus. Antes de adotar o Brasil como segunda pátria,
HB começou sua carreira com documentários tipo
“O Fabuloso Fitipaldi” (1973) e estreou no longa
com “O Rei da Noite” (1975), seguindo-se-lhe “Lúcio
Flávio, o Passageiro da Agonia” (1977). Chamou
atenção com seu “Pixote” (1981),
quando partilhou o Grand Prix no Festival de Biarritz e ganhou
o Leopardo de Prata em Locarno. Foi indicado ao Oscar de Melhor
Diretor pelo insólito “O Beijo da Mulher Aranha”
(1985), após o qual foi convidado para filmar “Ironweed”
nos EUA, com Meryl Streep e Jack Nicholson. Seus filmes mais
recentes incluem “Brincando nos Campos do Senhor”
(1992), o quase autobiográfico “Coração
Iluminado” (1998) e “Carandiru” (2002). |
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África,
tão perto, tão longe
* Paulo Betti
Imagine um festival de cinema
cuja abertura e encerramento com entrega de prêmios
acontecem num estádio de futebol diante de um público
de 30 mil pessoas.
Assim foi a vigésima
edição do Fespaco, evento bienal
que se realiza em Ouagadougou, capital de Burkina Faso, localizada
no coração da África do oeste com fronteiras
com o Mali, Benin, Togo, Gana e Costa do Marfim. Confesso,
que, como a maioria dos brasileiros, a única coisa
que sei a respeito desses países é que eram
times de futebol no álbum de figurinhas que colecionei
com meu filho na última copa do mundo.
A língua oficial de Burkina
é o francês, mas fala-se também o Moore,
Dioula e o Fulfude. A altitude é de 500 mts e o clima
é tropical, sem chuvas, seco.Quente, muito quente.
A população está em torno de 12 milhões
de habitantes.
Por que sabemos tão
pouco sobre a África ? Porque não sabemos nada
sobre esse festival no Brasil? Certo, só concorrem
a prêmio os filmes africanos, mas isso não é
razão para não mandarmos nossos filmes pra lá.
Mostras paralelas excitantes exibem filmes de todo mundo para
uma platéia ávida e as salas estão sempre
lotadas.Mais de 150 filmes e também uma grande quantidade
de sitcons e seriados de tv. Esse é um dos
mais importantes festivais de cinema do mundo. Até
mesmo a bíblia do cinema, o Cahier du Cinema, dedicou
um suplemento inteiro a esse acontecimento.
Nosso governo tenta incrementar
as relações com o continente africano, mas nossa
agência de cinema, a Ancine, não tem o Fespaco
no seu ranking de festivais que merecem passagens e incentivos
para que os nossos cineastas se disponham a ir para lá.
Isso precisa ser corrigido.
O
fato é que estamos muito mais distantes da África
do que supomos.Se olharmos o mapa, veremos que numa viagem
de 6 horas estaríamos em Ouagadougou. Mas somos obrigados
a ir a Paris. Pronto. A viagem passa a ser de dois dias.
No carnaval de 2007, cinco escolas
de samba do primeiro grupo no Rio de Janeiro tiveram a África
como tema de seus enredos, inclusive a ganhadora, a Beija
Flor. Somos um País com metade da população
de negros e pardos. Não é o que diz o IBGE ?
Apesar disso, o último filme brasileiro que eles lembram
ter participado do Fespaco foi o maravilhoso documentário
“Orí”, de Raquel Berger em 1989.
Imagine uma cidade que
tem como principal monumento uma homenagem aos cineastas.
Um enorme e curioso obelisco em cimento imitando latas e carretéis
de película. A Praça
dos Cineastas. Essa é Ouagadougou.
Um único brasileiro no festival. Pelo menos não
encontrei outro entre os quatro mil participantes das festividades.
Falando língua portuguesa, somente o pessoal da televisão
Angolana, o Pedro Pimenta que organiza um festival de documentário
em Maputo e ninguém mais.Uma pena, pois a África
tem tudo a ver conosco. É um clichê, mas é
a verdade. É só ver como nos encaixamos
no mapa da África. Parecem duas peças
de um quebra-cabeças a provar que tudo era uma só
extensão continental.
Mas
não nos enganemos. As diferenças são
enormes. Andando pelas ruas, os muçulmanos prostrados
no chão fazendo suas orações nos mostram
claramente que estamos numa outra parte do mundo.
Os filmes favoritos eram “Tsotsi”,
Sul Africano que ganhou o Oscar de 2005 de melhor filme estrangeiro,
baseado na obra do grande dramaturgo Athol Fugard e “Daratt”,
do Tchad (é o nome do país) que ganhou o Leão
de Prata no festival de Veneza. Mas quem acabou vencendo o
“Étalan d’or de Yennenga” foi o filme
“Ezra” de Newton Aduaka, da Nigéria, sobre
um jovem ex- combatente da guerra civil que tenta se readaptar
a vida normal.
O filme que mais me impressionou,
vi num telão de alta definição na periferia
mais distante. A lua cheia brilhava no céu e as crianças
se juntavam aos velhos sentados no chão de terra, misturados
com os europeus de boa vontade que ainda pensam ser possível
resolver os problemas do mundo com o cinema. Na tela passava
“L’or bleu, ressource ou marchandise”, do
francês Didier Bergounhoux, um filme sobre a falta de
água na Nigéria e em Burkina. Um problema que
em breve vai ameaçar o mundo todo. Para quem gosta
de teatro, Didier fez aquela célebre foto da montagem
da peça “Tempestade” com direção
de Peter Brook. Aquela em que o grande ator Sotigui Kouyaté
aparece com Próspero, com a miniatura de um navio sobre
a cabeça. Aliás, Sotigui é o maior ator
dessas paragens, um “griot”, que tem o dom de
contar histórias, tradição oral, aspecto
importantíssimo da cultura de um povo onde apenas 5%
da população sabe ler.
O Fespaco é
um festival diferente. A poeira e a pobreza a todos irmana
. Sobra pouco espaço para vaidade e o cinema
é uma arma contra a miséria. Resolvi
documentar a experiência. Passei 5 dias com uma câmera
que parecia uma metralhadora na garupa de uma moto. O piloto,
Dreudouné Adouabou, um estagiário de 30 anos
que fala inglês, francês e três línguas
locais, ganha 38 dólares por mês e me ensinou,
delicadamente, o tempo todo, a distância que existe
entre nós. Ele me dizia: “Uncle (tio) Paulo,
o senhor não deve dizer “Eu” e “Você”.
E sim “Você” e “Eu”. Não
deve dizer “Brasil” e “África”,
e sim “África” e “Brasil”.
Estou tentando, humildemente, aprender.
Ah! Ele dizia também:
“To be or not to be, that’s the question, but,
uncle Paulo, everyone wants to be”. (“Ser ou não
ser, eis a questão, mas, tio Paulo, todo mundo quer
ser”.) |
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Vladimir
Carvalho, Menino de Engenho
* Carlos Alberto Mattos
Quando
era garoto em Itabaiana, interior da Paraíba, Vladimir
Carvalho gostava de maneira especial da hora do jantar. Não
pela culinária, mas pela sonoplastia. Era a hora de
seu pai, Lula Martins, contar histórias para a família.
Muitas delas tinham a ver com José Lins do Rêgo.
O escritor já famoso, que havia estudado no mesmo colégio
de Itabaiana, era uma espécie de ídolo, a ponto
de o menino Vladimir demorar-se no espelho arrumando o cabelo
à semelhança de Zé Lins.
Essa devoção é
em parte responsável pelo projeto que o cineasta desenvolveu,
ao longo dos últimos cinco anos, com recursos mínimos
e determinação máxima. No início,
era para ser um híbrido de biografia e autobiografia.
"Achava que deveria voltar ao meu próprio passado
através dessa viagem em busca de Zé Lins, mas
acabei deixando a idéia de lado", conta Carvalho.
Deixou em parte. O Engenho de Zé Lins é, de
muitas maneiras, o engenho de Vladimir. Engenho tomado aqui
como lugar de origem e como talento criador.
O filme está repleto
de imagens recorrentes na obra deste que é um dos mais
fecundos e ousados documentaristas modernos brasileiros. Lá
estão os canaviais paraibanos, as bolandeiras de moer
cana, a figura de São Miguel Arcanjo (o santo com a
balança da justiça). Lá está a
idéia – comum ao escritor e ao cineasta –
de um mundo que o tempo transforma em ruína.
Vladimir Carvalho está
longe de ser aquele tipo de documentarista que observa "cientificamente"
a realidade. Seu cinema é de compromisso e envolvimento.
Se os clássicos O País de São Saruê
(disponível em DVD) e Conterrâneos Velhos de
Guerra eram movidos pela indignação contra as
injustiças sociais, O Homem de Areia (sobre José
Américo de Almeida), O Evangelho Segundo Teotônio
e agora O Engenho de Zé Lins caminham pela senda da
admiração. Mas o que distingue de fato o seu
cinema é que não é panfletário
na indignação, nem laudatório na admiração.
De José Lins do Rêgo
ele faz uma espécie de psicanálise selvagem,
investigando as áreas de sombra que desenhavam o homem
e se projetavam em sua obra. "Se não fosse escritor,
Zé Lins seria um grande personagem de romance",
diz a certa altura Carlos Heitor Cony, que funciona no filme
como um corifeu, comentando e arrematando sentidos. Desde
as imagens de abertura, com a reencenação de
uma primeira e traumática visão da morte, a
ênfase recai no temperamento ciclotímico do escritor,
pontuado por picos de euforia e melancolia. O tiro acidental
que causou a morte de um colega de infância, a "amizade
amorosa"com o mentor Gilberto Freyre, a paixão
exacerbada pelo Flamengo – é confrontando esses
traços de complexidade biográfica que Carvalho
vai jogar novas luzes sobre um autor injustamente relegado
a segundo plano na literatura brasileira.
Ariano Suassuna é quem
reflete, no próprio filme, o seu efeito. Em depoimento
precedido de uma de suas típicas e hilariantes digressões,
Suassuna afirma que, diante das informações
recolhidas por Vladimir, ele consegue enfim decifrar o enigma
Zé Lins.
O humor, o interesse e a emoção
contidos nas entrevistas refletem o carisma do personagem,
mas também a postura curiosa e apaixonada do diretor.
Vladimir Carvalho não costuma se prender a regras puristas
para fazer seus documentários. Eles têm música,
ficção, poesia. Em uma palavra: liberdade.
Prova disso é o diálogo
que O Engenho de Zé Lins estabelece com o ficcional
Menino de Engenho, que Walter Lima Jr. rodou na Paraíba
em 1965. Aqui um filme de ficção vira "material
de arquivo" para um documentário. Muitas referências
à infância de José Lins do Rêgo
são "ilustradas" por cenas do filme de Walter.
Inclusive aquela em que o próprio Vladimir dublou uma
voz fora do quadro ("Papa-rabo!") lá nos
anos 60. Esse procedimento tem seu ápice quando Vladimir
leva o ex-ator-mirim Sávio Rolim ao mesmo cenário
do engenho Itapuá, quarenta anos depois. O frágil
estado físico e mental de Sávio acaba se transformando
numa metáfora para a angústia, o pensamento
obsessivo e o efeito do tempo na obra e na figura de Zé
Lins. O Itapuá, no entanto, arruinado e ocupado por
famílias do MST, parece confirmar um destino previsto
pelo escritor no romance Moleque Ricardo, parte de seu ciclo
da cana-de-açúcar.
Poucos documentários
biográficos recentes têm temperado a afetividade
com a mesma disposição investigativa desse filme.
Custa crer que um mestre como Vladimir Carvalho continue a
depender de favores, sacrifícios financeiros e da providencial
parceria com os jovens produtores da Urca Filmes para concluir
um trabalho dessa importância. |
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Dores
do Amor a Três...
* LG de Miranda Leão
Com Primo Basílio,
Daniel Filho marca um tento em sua carreira de cineasta, já
despido das técnicas de televisão e agora com
olhos voltados para fazer cinema, mesmo se ainda não
chegou ao ótimo.
Primo Basílio
nos parece seu melhor filme, tanto pelos roteiristas e técnicos
escolhidos como pelo elenco. Em apenas 100min, DF não
poderia reeditar a abrangência e as virtudes de sua
homônima minissérie, de 88. Nesta versão,
buscou expressar-se e comunicar-se com o público adulto,
sem fazer concessões mas dotando-a de nível
qualitativo capaz de obter retornos pelos investimentos feitos
na produção.
Roteiro
Nada de novo no triângulo
amoroso (marido, mulher e seu amante), tanto faz recriado
por Eça de Queiroz no século XIX ou por Shak
no XVII ou em nosso tempo por Sidney Sheldon, Robbe-Grillet
ou W. Somerset Maugham. O triângulo continuará
existindo na literatura, no teatro, no cinema e na vida, enquanto
homens e mulheres buscarem romper a monogamia em busca do
novo (?) ou porque estejam sexualmente insatisfeitos ou por
qualquer outro motivo. No caso desta versão, temos
a paixão de Luíza pelo primo recém-chegado
de Paris, paixão de tempos mais jovens e menos compromissados.
O marido está ausente, atuante na Brasília de
JK, quando muitos achavam tudo aquilo loucura por não
perceberem o alcance da meta de interiorização
do desenvolvimento buscada pelo grande presidente.
Não vemos mal nenhum
em situar o drama de Luíza naqueles tempos de crença
no Brasil. "Eu sou eu e minhas circunstâncias",
doutrinava Ortega & Gasset, por isso não cabe ao
analista condenar o comportamento de Luíza. O conflito
surge quando a empregada faz chantagem com os bilhetes e cartões
da patroa para Basílio. A carta remetida por ele e
lida pelo marido conduzirá ao desfecho trágico.
No filme, isso não se faz como no original. A inclusão
do bárbaro assassinato de Juliana, espécie de
queima de arquivo, não nos pareceu o melhor caminho
para resolvê-lo. A exclusão de Conselheiro Acácio
(interpretado então pelo grande Sérgio Viotti)
e do Sebastião de Pedro Paulo Rangel (outro senhor
ator), personagens da minissperie, pode ser atribuída
à necessidade de síntese, pois seriam personagens
mais essenciais no texto literário. Incluí-los
por uns dez minutos não prolongaria cansativamente
a versão fílmica.
Filme x Livro
Voltamos
sem querer à cediça questão da transposição
de obra literária para o ecrã. A propósito,
o crítico e professor Ismail Xavier escreveu magistral
ensaio no qual afirma: "A interação entre
as mídias tem tornado mais difícil recusar o
direito do cineasta à interpretação do
romance ou peça teatral, admitindo-se até que
ele pode inverter determinados efeitos, propor outra forma
de entender certas percepções, alterar a hierarquia
de valores e redefinir o sentido da experiência dos
personagens". Noutras palavras, a fidelidade ao original,
ensina Ismail, deixa de ser o critério maior de juízo
crítico, valendo mais a apreciação do
filme como nova experiência, a qual deve ter a sua forma,
e os sentidos nela implícitos julgados em seu próprio
direito. "Afinal, livro e filme estão distanciados
no tempo; escritor e cineasta não têm exatamente
a mesma sensibilidade e perspectiva, sendo portanto de esperar
que a adaptação dialogue não só
com o texto de origem mas com o seu próprio contexto".
Palavras sábias do mestre Ismail Xavier.
Direção fílmica
Daniel Filho parece ter eliminado
o ranço da linguagem televisiva, como as cenas meio
teatrais e o abuso dos primeiros planos para preencher o espaço
reduzido da telinha. Não há descompasso no ritmo
e os cortes em excesso foram substituídos por liames
precisos entre cenas ou pelo falso raccord: uma continuidade
mínima da narrativa sem impedir a compreensão
exata do drama em andamento. Os cortes de um plano a outro,
como se sabe, ocorrem basicamente quando se deseja mostrar
uma ação paralela, uma ruptura do espaço,
um recuo ou avanço no tempo. Aqui os cortes atendem
apenas às necessidades da história e à
síntese procurada e obtida. O uso tantas vezes aproveitado
da voz em off, por exemplo, quando Basílio caminha
sem falar e o ouvimos, tem a ver com a aceleração
necessária às imagens-tempo ou da inquietação,
das quais nos fala Truffaut, quando as cenas parecem correr
no terço final. O fecho com a residência do casal
já com novos inquilinos, anos depois, torna-se inesquecível
com a escolha de Apelo de Baden-Vinícius.
Belo tema melódico marca o início de certas
cenas, assim também o Clair de Lune de Debussy, enquanto
Teus Olhos, de Garoto, intensifica o conúbio entre
os dois amantes, lembrando-lhes os versos do compositor. Nada
de apelativo no brevíssimo nu frontal de Luíza
nem se poderia esperar outro comportamento íntimo no
"enfim sós"; não mostrá-lo
seria omissão sem justificativa.
Fotografia e elenco
A cinegrafia em tons esmaecidos,
às vezes apreendendo a semi-obscuridade dos interiores,
traz a assinatura do piauiense Nonato Estrela, competente
fotógrafo de tantos filmes, como Achados e Perdidos
(José Joffily). No elenco, a bela Débora
Falabella se destaca dos demais com muita classe,
tal como já revelara em sua carreira televisiva e em
Dois Perdidos numa Noite Suja, quando atua
ora como prostituta ora como boiete. Um dos melhores momentos
da atriz é quando rasga e queima desesperada os bilhetes
comprometedores, enquanto o reflexo das pequenas chamas ajuda
a compor um quadro expressivo do seu drama interior e a transformação
da sua fácies quando tranqüila se deita então
com o marido. Débora mostra também segurança
e espontaneidade nas cenas de sexo, na fuga de casa, na recusa
em dormir com o sórdido Castro e na sua máscara
agônica. Reynaldo Gianecchini tem altos
e baixos (soa falso quando ameaça Juliana por causa
de punhos e colarinhos mal passados), assim como Glória
Pires (aquém da interpretação
magistral de Marília Pera na minissérie), às
vezes exagerada quando ameaça a patroa. Fábio
Assunção está bem como primo
canalha e Guilherme Fontes parece solto no drama, como no
almoço com Luíza. Simone Spoladore
como Leonor Maçaneta destaca-se por seu potencial de
sensualidade. Anselmo Vasconcellos faz uma
ponta mas sua máscara apavorante é sugestiva
da ação de torturadores das ditaduras de toda
espécie. Da trilha musical de Guto Graça Mello
já falamos. Apreciamo-la bastante.
Enfim,
recomendamos Primo Basílio pela convicção
de estarmos aprimorando cada vez mais a qualidade de nossos
filmes.
A
ver, decididamente. |
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Em
Busca de Dias Melhores
*
LG de Miranda Leão
Segundo longa de Jorge Durán
(1942- ), Proibido Proibir marca o retorno
auspicioso do cineasta chileno à direção,
após vinte anos de intervalo, desta feita para enfocar
o microcosmo de três jovens universitários e
as vicissitudes de quem vive na urbe em busca de dias melhores
Rodado
na Zona Norte e nos subúrbios do Rio de Janeiro, bem
como em dependências da UFRJ, É Proibido Proibir
não tem nada a ver com os dizeres nas paredes de Paris
por ocasião dos acontecimentos de maio de 1968. De
qualquer forma, a frase é sugestiva de como os caminhos
dos jovens devem ficar por conta de suas próprias opções.
As proibições não levam a nada, os frutos
proibidos são os mais cobiçados. Co-produção
Brasil-Chile levada a efeito via programa Ibermédia,
Proibido Proibir teve suporte financeiro dos Estúdios
El Desierto Filmes Ltda / Ceneca Produciones e da Petrobrás
e da Ancine. Fez jus a vários prêmios de Melhor
Filme e Melhor Diretor em festivais internacionais (Biarritz,
Havana, Viña del Mar, Valdivia) e sua finalização
se fez na Espanha por ter ganho o Prêmio Signis 2005
e o Prêmio Cine em Construcción. Tudo isso é
muito positivo para o reconhecimento além-mar da renovação
do cinema brasileiro.
"Script"
O
argumento original é do próprio Jorge Durán
e o roteiro contou com a colaboração de Dani
Patarra, Gustavo Bohrer e Eduardo Durán. Três
jovens, Paulo (Caio Blat), León (Alexandre Rodrigues)
e sua namorada Letícia (Maria Flor) dividem modesto
apartamento num subúrbio. Para chegar lá é
preciso subir por uma escada de mão. Paulo estuda medicina,
Alexandre, ciências sociais e Letícia, arquitetura,
e os três tentam ajudar Rosalina (Edyr Duqui), doente
terminal, a rever os filhos há tempos ausentes. Um
deles, Cacauzinho (Adriano de Jesus), testemunha de crimes
da polícia, tenta fugir após tiroteio do qual
sai ferido León, e Paulo decide fazer a cirurgia para
extrair-lhe a bala do tórax, mesmo sem assistência
de um colega da área. Enquanto isso, a aproximação
entre Paulo e Letícia cria um impasse e Duran encontra
a melhor solução para resolvê-lo.
Realização
Cineasta
e professor de cinema, larga experiência no metiê,
Durán conhece bem as lições dos mestres:
o bom filme oscila entre o contínuo e o descontínuo,
entre a continuidade e o intervalo. Por isso mesmo sabe como
conduzir os ritmos interno e externo, enquanto ganham força
suas imagens-significantes: o personagem Paulo, por exemplo,
sempre barbudo, desalinhado, enquanto Leon é o jovem
negro organizado, bem arrumado. Recorde-se quando Paulo tira
da sacola do amigo os livros de sociologia e não lhes
dá importância diante dos CDs ou quando escreve
Che num abaixo-assinado... Letícia não esquece
seu guarda-roupa e se revela um signo da frágil estabilidade
entre os dois homens, todos eles saudáveis. Aqui e
ali ingerem drogas estimulantes ou fumam algum baseado, mas
desinteressados em política, talvez por não
mais acreditarem na resolução dos problemas
mais prementes do País, como a corrupção
e a impunidade em todos os níveis, a guerrilha urbana,
as balas perdidas, os seqüestros, a violência policial.
Durán
evita mostrar intimidades apelativas e executa bem a seqüência
da armação do tiroteio em plena rua, quando
a polícia resolve eliminar Cacauzinho, testemunha incômoda
de alguma chacina da qual é pródiga a outrora
Cidade Maravilhosa. Essas mazelas, sugestivas de grave patologia
social, já emigram para outras regiões, enquanto
novos escândalos jogam pás de cal nos políticos
inoperantes, cujas regalias absurdas disputam lugar com a
incompetência e a sempre propalada reforma política...
Durán também contorna, sempre quando possível,
o uso do campo e contracampo nos diálogos, duma feita
quando os personagens conversam no automóvel, doutra
quando dois deles caminham de costas, enquanto ouvimos suas
falas.
Fotografia,
elenco, música
Luis
Abramo cuida bem da fotografia e ajuda bastante na criação
do clima buscado por Durán. Está bem todo o
pequeno ´cast´até mesmo Adriano de Jesus
em pequena ponta, quando, aos prantos de ódio e medo,
grita alto e bom som: ´Se for preso vão-me estuprar
na prisão; se for à justiça testemunhar
a polícia me mata...´ Caio Blat (o Frei Tito
de Batismo de Sangue, de Helvécio Rattón) deixa
transparecer sua avidez óptica por Maria Flor, enquanto
a sensualidade desta sugere sutilmente como a proximidade
do outro acabou erodindo o seu romance com León. A
cena de suas reticências quando não diz nada
para o companheiro, e ao mesmo tempo diz tudo, foi um feliz
achado de Durán. A música de Mauro Senise e
outros fica quase em segundo plano no contexto. Quanto ao
mais, ainda não conseguimos resolver em definitivo,
salvo raríssimas exceções, a questão
da gravação de som direto, motivo pelo qual
aqui e ali perdemos algumas palavras dos diálogos,
notadamente quando os jovens falam rápido com seu linguajar
típico.
Quem
é Jorge Durán
Jorge
Durán nasceu no Chile há 65 anos, mas reside
no Brasil desde o golpe militar do abominável Pinochet
(1973), do qual conseguiu escapar graças a um acaso
favorável narrado por ele em entrevista recente. Seu
primeiro longa foi ´A Cor do seu Destino´ (1986),
premiado no país e no estrangeiro. Durán foi
roteirista de vários filmes, como ´O Passageiro
da Agonia´ (1977), ´Pixote´ (1981), ´O
Beijo da Mulher Aranha´ (1984), todos de Hector Babenco,
e também de ´Gaijin´, de Tizuka Yamasaki
(1979). Fonte rica para sua formação como diretor
foi atuar como assistente de Costa-Gravas em ´Estado
de Sítio´ (1972). Segundo suas próprias
palavras, ´lá aprendi a trabalhar de forma organizada,
metódica, numa produção com mais de quatro
mil figurantes, equipe de mais de cem pessoas, uns cinqüenta
atores. Me dei muito bem como assistente dele´. |
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Homenagem
ao Multifacético Ingmar Bergman
*
LG. Miranda Leão
Ingmar Bergman, genial cineasta
escandinavo, um dos dez grandes diretores-autores cinematográficos
do século XX, diríamos mesmo de todos os tempos,
enquanto os elementos essenciais da arte fílmica no
futuro forem os mesmos de hoje.
Nascido em 14 de julho, data
simbólica, na cidade de Uppsala, e batizado Ernest
Ingmar Bergman, segundo registram seus biográficos,
o jovem Ingmar trouxe das experiências traumáticas
de sua infância, sob o tacão de pai puritano
e sádico, a geratriz de muitas inquietações
de sua vida adulta como profissional do teatro (por quem se
apaixonou desde os cinco anos) e do cinema (arte com a qual
se identificou plenamente na década de 40). Acasos
favoráveis levaram-no a um contato com a ´Svenskifilmindustri´:
a resenha de uma de suas peças em exibição
na cidade caiu nas mãos de mulher influente na indústria
cinematográfica: ela foi ao teatro, assistiu ao drama,
conheceu o jovem autor e contratou-o de imediato, recomendando-o
ao diretor Alf Sjoberg (1903-80). Este decidiu dar a Bergman
o ensejo de escrever o roteiro de ´Tortura de um Desejo´
(Hets). Corria o ano de 1944, Bergman completara 26 anos...
Sjoberg se surpreende.
Influências e obsessões
Bergman foi bastante influenciado
nos seus primeiros anos de atividade como roteirista pelas
idéias e lições de cinema recebidas de
dois dos nomes mais credenciados do cinema escandinavo: Victor
Sjostrom (1879-1960) e Gustav Mollander (1988-1973), ´meus
mestres´, como costumava dizer. Por outro lado, Bergman
influenciou direta ou indiretamente realizadores de toda parte,
não apenas da Suécia mas de outros países,
não só na sua temática mas também
no seu estilo: Krzysztof Kieslowski (Polônia), Istvan
Szabo (Hungria), Carlos Saura (Espanha), Michael Anderson
(Inglaterra), Leopoldo Torre-Nilson (Argentina), Walter Hugo
Khouri (Brasil) e (quem não se lembra de ´Setembro´
e ´Interiores´?) até Woody Allen (EUA)...
Já tivemos ensejo de
escrever vários artigos sobre Bergman. O mais recente
deles, de 24 jun 2004, quando dos seus 85 anos, figura também
em nosso livro de críticas, lançamento da Coleção
Aplauso (Imprensa Oficial de São Paulo) com aval de
Rubens Ewald Filho. No curta-metragem do cineasta
Gui Castor, focalizando este crítico, foi igualmente
incluída a cena-chave de ´O Sétimo Selo´,
com imagens-significantes da partida de xadrez jogada entre
o cavalheiro egresso das Cruzadas (Max von Sydow) e a Morte
(Bengt Ekerot). Nem mesmo a Morte sabe se há algo depois
dela... Resta-nos agora prestar breve homenagem póstuma
a essa figura ímpar, multifacética, de nove
filhos de cinco mulheres, e de quem somos admiradores há
muitas décadas. Bergman sai de cena ainda lúcido,
quando poderia legar-nos algo mais de sua arte. Perda
irreparável para o cinema e o teatro.
De sua infância perturbada
por um pai neurótico e na contramão do bom senso
e da realidade de todo dia, e para quem o sexo era pecado,
a não ser entre casados e para fins de procriação
(?), Bergman trouxe algumas obsessões, sobretudo o
ponto crítico da angústia existencial. Há
algo além da morte? Deus existe? Poderá ele
ser a causa de sua causa? Qual a natureza intrínseca
de Deus? Para Bergman, admitir o homem como imagem e semelhança
de Deus é rematada tolice. Essa inquietação
metafísica prepondera aliás em ´O Sétimo
Selo´, um dos seus melhores filmes, e noutros mais.
Escusado lembrar as cenas iniciais do sonho do Dr. Borg, quando
ele olha para o relógio sem ponteiros em plena rua
em ´Morangos Silvestres´ e depois ver cair do
coche fúnebre um cadáver: é ele mesmo.
Tudo quanto Bergman pretendeu dizer está nas
suas imagens-significantes.
Outra obsessão
bergmaniana herdada da educação religiosa neurotizante
reside na importância do elemento erótico freudiano
em vários dos seus filmes como, por exemplo,
em ´Mônica e o Desejo´ (Sommaren und Monika)
(1952) e ´Sorrisos de uma Noite de Verão´
(Sommarnatens Leende) (1954). O primeiro filme fala por si
só, e o segundo faz aflorar a libido num fim-de-semana
de um pequeno grupo de casais. Já o estupro vai aparecer
via imagens de impacto em ´A Fonte da Donzela´
(Jung Frukällan) (1959), o incesto em ´Através
de um Espelho´ (Saasom I en Spegel) (1961), a masturbação
feminina em ´O Silêncio´ (Tysnaden), os
pesadelos e fantasmas de um passado adúltero em ´A
Hora do Lobo´ (Vartimnen) (1968), o tédio conjugal
em ´Cenas de um Casamento´ (Soecer ur ett Aktenskap)
(1974), a insatisfação sexual e a frigidez em
´Face a Face´ (Ansiktet mot Ansiktet) (1976).
Há outras imagens e sugestões eróticas
na vasta obra de Bergman. Afinal, como dizia Freud: o sexo
não é tudo mas está em tudo... Bastam
esses exemplos, ao invés de incluirmos uma filmografia
completa, já vista e revista ´ad nauseam´
nos jornais.
Ruptura com o sistema
A ousada e inteligente ruptura
de Bergman no campo da liberação do sexo no
cinema, desnecessário dizê-lo, causou-lhe problemas
de ordem vária com censores zoilos e mal orientados,
pois a sensualidade de Bergman nada tem a ver com o ´soft
porno´ ou o ´kitsch´. Por vezes o erotismo
pode nascer de uma confissão intima feita por Bibi
Andersson (grande paixão do cineasta) a Liv Ullman
(outra de seus amores de longa duração), personagens
do antológico ´Persona´ (1966), traduzido
por ´Quando as Mulheres Pecam´, título
imbecil e apelativo, duplo erro, pois não há
lesbianismo no filme e, se houvesse, não haveria pecado
algum no amor entre duas mulheres...
Em 1976 Bergman afirmou lá
pelas tantas, numa de suas entrevistas polêmicas: ´Deus
e eu nos separamos há já alguns anos. Nós
humanos, neste mundo insano e profundamente injusto, não
sabemos onde ele está, nem o que faz ou se sabe da
existência do mal. Só sei ser esta a nossa única
vida. Não há outra.´ Essas declarações
provocaram irritação nos setores religiosos
e até na esquerda democrática sueca, para quem
Bergman se mostrara indiferente ou esquivo às injustiças
sociais e a opressão política. Respondeu-lhes
Bergman, textualmente: ´Não é
verdade; tenho combatido a repressão religiosa ao sexo,
a opressão política, as injustiças sociais,
onde quer que se apresentem. Talvez meus críticos não
saibam ler minhas imagens ou o subtexto e me acusem de omisso,
hermético e difícil. Tudo quanto digo e penso
está lá e bem entendido por muitos outros canais
de expressão´.
'De resto, é atribuição
do criador cinematográfico operar suas próprias
escolhas, mas sempre tive compromisso com a ética e
a liberdade e me tenho servido do teatro, da TV e do cinema
para denunciar a injustiça, a barbárie, os regimes
ditatoriais de qualquer tipo e até para alertar as
platéias quanto à gestação de
regimes abomináveis como o nazismo, na metáfora
de ´O Ovo da Serpente´ (Das Schlangenei) (1980),
sugestivo de como ele ainda existe no mundo sob outros disfarces,
na intolerância, nas prisões superlotadas e desumanas,
nas torturas de prisioneiros, no trabalho escravo de menores,
ou em culturas bárbaras e atrasadas, a ponto de castrarem
suas filhas ainda meninas... Poder-se-ia ter matado a serpente
no ovo, mas a covardia ou a omissão de muitos nos levou
ao morticínio de inocentes, de judeus, ciganos, homossexuais,
deficientes físicos ou mentais ´... Os filmes
de Bergman, vale insistir, contêm verdadeiras lições
de cinema e de vida, conforme vistos por renomados críticos
e filmólogos. Basta acompanhar a trajetória
dos festivais internacionais, ensaios, reportagens, entrevistas
do grande mestre, prêmios recebidos e suas influências
deixadas no mundo do cinema. Bergman parece estar
em tudo e em todos.
Opinião valiosa
Não é demais reproduzir
aqui as palavras pronunciadas pelo autor e filmólogo
espanhol Román Gubern por ocasião dos 60 anos
(1978) de Bergman: ´Poucos cineastas tiveram impacto
tão grande sobre a cultura contemporânea como
o sueco Ingman Bergman. De fato, unindo a angústia
existencial implícita notadamente em Kierkegaard, Heidegger,
Sartre e Camus a um puro estilo neo-expressionista, Bergman
trouxe ao cinema uma dimensão filosófica com
nenhum outro cineasta o fez. Seu legado cinematográfico
até hoje é realmente uma meditação
profunda de caráter metafísico sobre a solidão
e a angústia do ser alimentada por uma sede do Absoluto´.
Fontes e proficiência
técnica
As leituras preferenciais de
Bergman antes, durante e depois de sua formação
universitária se encontram em Epicuro, Heráclito,
Shakespeare, Darwin, Freud, Spencer, Feuerbach, Kafka, Proust,
Joyce, Borges e em dois compatriotas seus da península:
os dramaturgos Strindberg (´A Dança Macabra´,
´Senhorita Júlia´, ´O Quarto Vermelho´,
´A Sonata dos Espectros´) e Ibsen (´A Casa
de Bonecas´, ´Peter Gynt´, ´Hedda
Gabler´). Para o crítico Paulo Perdigão,
em percuciente ensaio já referido (v. DN, em 24 jun
2004), ´a obra de Bergman são os gritos e sussurros
de um cineasta revoltado com o silêncio de Deus. Se
o cinema não existisse, John Ford seria um vaqueiro,
Fellini um poeta, Buñuel um vagabundo de estrada, Welles
um mágico, Kubrick um fotógrafo, Truffaut um
romântico, e Bergman seria um filósofo como Kierkegaard
e Heidegger, voltado para os grandes mistérios e o
sofrimento da aventura humana. Seus filmes testemunham o desespero
de um mundo demoníaco. Ele transformou o cinema num
ato de reflexão´.
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Sangue
em Batismo Magistral de Cinema
* Aurora Miranda Leão
O
confronto entre o sonho e a realidade poucas vezes foi tão
forte no país como no assombroso tempo da ditadura.
Por isso, muitos preferem ignorá-lo e as novas gerações,
quando pensam saber alguma coisa sobre essa época sombria,
acreditam-na quase branda - "Duro foi no Chile e
na Argentina..."
Para compreender bem a realidade,
melhor um mergulhar profundo na história. E se a história
nos chega através de uma grande obra literária,
tanto melhor. Ademais, quando esta obra é apresentada
pelo viés cinematográfico, aí o mergulho
torna-se ainda mais forte, intenso, incisivo. É assim
com este Batismo de Sangue, filme do corajoso
cineasta mineiro Helvécio Ratton, baseado no contundente
livro homônimo de Frei Betto.
A história enfoca a participação
de frades dominicanos na luta clandestina contra a ditadura
militar, é baseada em fatos reais e passada no Brasil
e na França. De um lado, jovens idealistas sonhando
mudar o mundo. Do outro, militares e policiais agindo sem
limites. Em salas de todo o país, o filme teve pré-estréia
nacional em Fortaleza (com precioso apoio do Instituto Frei
Tito de Alencar e do Banco do Nordeste do Brasil), terra natal
do protagonista, o dominicano Frei Tito de Alencar Lima, vivido
na tela pelo ator Caio Blat, o qual empresta
ao personagem invejável carga emocional, alternando
momentos de dor lancinante com passagens de extrema sutileza
de sentimentos, gestos, expressões e matizes psicológicas.
Caio tem atuação digna de qualquer prêmio
para um Grande Ator, seja de que nacionalidade for.
No elenco, em nível interpretativo
tão contundente quanto o de Caio, estão Daniel
de Oliveira, Cássio Gabus Mendes, o músico Marku
Ribas, Ângelo Antônio, Murilo Grossi, Renato Parara,
Jorge Emil, a querida Marcélia Cartaxo (atriz paraibana
notabilizada desde sua excelente atuação em
A Hora da Estrela, de Suzana Amaral), e os estreantes Leo
Quintão e Odilon Esteves.
No roteiro (um dos pontos altos
do filme), Helvécio contou com a preciosa colaboração
de Dani Patarra (sobrinha de um ex-editor da revista Realidade,
publicação emblemática daquela época).
Na fotografia e câmara, o mestre Lauro Escorel. O inglês
Adrian Cooper na Direção de Arte faz miséria
- quase um filme dentro do filme consegue alcançar
este craque com seu meticuloso trabalho, sobre o qual diz:
"A integração da equipe, a compreensão
da importância do filme, o entusiasmo e a disposição
de superar as dificuldades, apesar dos obstáculos,
transformaram um trabalho de difícil realização
em um prazer. O resultado disso está na tela. O prazer
está guardado no coração". O time
vai-se completando com Sérgio Penna (preparador de
elenco), Mair Tavares (montagem), Marjorie Gueller e Joana
Porto nos figurinos, Vavá Torres na maquilagem, Marco
Antônio Guimarães na música, José
Moreau Louzeiro e David Miranda no som, produção
executiva da Quimera (Guilherme Fiúza e Tininho Fonseca)
e distribuição da Downtown Filmes. Após
juntar nomes tão expressivos e de reconhecido valor
em áreas tão vitais à Sétima Arte,
difícil não tecer uma série de rasgados
elogios ao filme-denúncia de Helvécio Ratton.
Um filme necessário, fundamental, um documento histórico
da maior relevância, feito com apurado senso de qualidade
e com profundo respeito ao depoimento autobiográfico
tão bem redigido pelo intrépido Frei Betto.
Batismo de Sangue
causa impacto desde sua abertura. Daí por diante, cena
a cena, é só soco no estômago,
atuações primorosas, excelência na maquilagem
e na direção de arte. Tudo concorre para prender
o espectador, conduzido por um roteiro desenhado de forma
gráfica para melhor retratar a violência (aviltante
e imperdoável) daqueles tempos nem tão distantes.
Segundo Ratton, desde o início sua intenção
foi mostrar "com clareza absoluta como a tortura foi
pesada no Brasil. Era nosso dever mostrar como um fato histórico
dos mais importantes (a morte de Marighella) foi pesado para
os frades envolvidos". É a primeira vez na qual
o Cinema Brasileiro mostra de forma tão pertinaz a
Fé como instrumento ativo de mobilização
em defesa da Liberdade, da Justiça Social e do Direito
de Expressão. E uma das mais belas e expressivas cenas
é justamente a da missa nas celas do Dops - biscoito
e refresco de morango simbolizando a hóstia e o vinho
sagrados, uma eucaristia celebrada do início ao fim,
juntando frades dominicanos, carcereiros e comunistas (supostamente
ateus). Tocante demais, sobretudo pela naturalidade com que
acontece, a simplicidade dos oficiantes e a adesão
silenciosa e contrita de todas as celas, ácme da superioridade
da Fé sobre qualquer outra força, ainda seja
em ambiente anódino, fétido, execrável.
Para conferir maior realismo
ao filme (sem dúvida, o melhor de sua carreira até
aqui), Helvécio fez questão de contar com uma
invejável preparação técnica por
parte de sua equipe de maquiladores (a quem ofertamos todos
os maiores aplausos), realizando estudos detalhados na Medicina
Legal sobre a evolução de feridas provocadas
por vários tipos de instrumento ao longo do tempo.
Antes do início das filmagens, os testes de maquilagem
foram submetidos à avaliação desses médicos,
os quais os aprovaram enfaticamente. Nesse viés, é
claro, todos os cuidados também foram tomados para
evitar aos atores ferimentos durante as intensas cenas de
violência. O dublê mexicano Javier Lambert ensinou
como "apanhar" enquanto havia um stand-in para
cada ator. Mesmo assim, Caio Blat acabou sendo golpeado de
verdade em várias ocasiões.
Na tela, percebe-se sincera
autocrítica às estratégias adotadas pelas
lideranças na luta contra a repressão, conforme
avalia o diretor: "Acho que através do filme,
apresentamos um olhar autocrítico, uma crítica
ao nosso sentimento de onipotência da época,
mas sem jamais renegarmos tudo aquilo que fizemos e conquistamos
com nossa luta". Para melhor inspirar-se, Helvécio
revisitou o cinema político daqueles tempos e enfatiza:
"Batismo é um filme do século
XXI, mesmo narrando incidentes de 30 anos atrás. Fiz
este filme para os jovens de hoje com todas as evoluções
narrativas e estéticas que o Cinema alcançou
nestas últimas décadas".
A grandeza do filme expressa-se
por um somatório de agudas potencialidades: roteiro
preciso, maestria da Direção de Arte, competência
do elenco, maquilagem irretocável, e, sobretudo, pela
ousadia de expor tema tão pungente da vida nacional
numa orquestração de qualidades capaz de extrapolar
sua própria concepção ao propor também
uma discussão correlata, e muitas vezes calorosa, sobre
o engajamento social na sociedade contemporânea: "Se
o filme servir para chamar a atenção das gerações
mais novas para a importância da mobilização
coletiva por um ideal, já ficarei satisfeito",
afirma o diretor.
E nós fechamos: Batismo
de Sangue é um filme obrigatório para
estudantes de todas as idades, cinéfilos, jornalistas,
historiadores, sociólogos, humanistas, cidadãos
enfim. Uma aula de Ótimo Cinema, uma revisão
contundente do passado nacional e uma preciosa lição
de Ética, Fé e amor à Vida.
Frei
Betto - No livro e na Tela
"Se
hoje vivemos em um país democrático - mesmo
que esta democracia precise ser aperfeiçoada -, é
justamente em função da semente que plantamos
naquele período e se deve ao sangue derramado pro vários
companheiros e companheiras que morreram, foram assassinados,
exilados ou desaparecidos pela repressão".
Dominicano,
jornalista, filósofo, antropólogo e teólogo
mineiro, Frei Betto é o autor de Batismo de
Sangue, livro lançado em 82 e premiado em
85 com o respeitado prêmio Jabuti como Melhor Livro
de Memórias, no qual se baseia o filme de Helvécio
Ratton. O livro, hoje em sua 18a edição, tem
traduções para o francês e o italiano
e é considerado um dos clássicos da literatura
brasileira do século XX. Por conta do filme, Batismo
de Sangue está sendo lançado em nova
edição pela Rocco, agora trazendo fatos e nomes
antes omitidos por conta da repressão.
Frei Betto escreve semanalmente
para jornais e revistas de todo o país e tem 54 livros
publicados. Escritor por vocação, convicção
e extrema competência, Frei Betto transmite uma invejável
paz de espírito e contagia com seu jeito simples, sereno
e espontâneo de conversar com quem quer que seja. Não
à toa, é festejado por onde passa.
Com relação ao
livro, diz não ter se preocupado como ficaria sua obra
na tela, até porque sabe das diferenças de linguagem
conforme cada veículo de expressão. E confessa-se
completamente encantado com o filme: "Helvécio
Ratton foi além do meu livro. O resgate que fez daquela
época, dos nossos ideais, das nossas utopias, da nossa
luta e do nosso sofrimento é algo que me toca profundamente.
Quando ele me convidou para acompanhar o desenvolvimento do
projeto e do roteiro, respondi: 'Filme é filme, livro
é livro. Quero que faça uma recriação,
não pretendo interferir'. E de fato procurei ficar
o mais distante possível. Pois agora que vi o filme
diversas vezes, estou certo de que Helvécio fez uma
grande obra de arte e fico extremamente emocionado ao ver
aquela história na tela. Diria que o filme reproduz
a violência da repressão como nenhum outro -
e se nosso governo não abre os arquivos da ditadura,
a arte brasileira o faz. Nesse sentido, o filme de Helvécio
é primoroso, escancarando os crimes da repressão
ao mesmo tempo em que os contrapõe à nossa utopia
e à nossa Fé. Este é um filme impregnado
de espiritualidade, de religiosidade demonstrando que a Fé
é plenamente compatível com a luta pela justiça
- até porque nós, cristãos, somos discípulos
de um preso político: Jesus foi preso, torturado, condenado
à pena de morte e crucificado. E o fato de ter ressuscitado
é a garantia de que, no fim das contas, a vida prevalece
sobre a morte". |
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Céu
de Evidência Solar Denuncia Desamor
* Aurora Miranda Le&atil | |