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Olhar de Monique Reforça Qualidade do Cinema Nacional
                                                          * LG de Miranda Leão

     Monique Gardenberg, baiana de nascimento, e com muito orgulho, é uma das nossas competentes mulheres cineastas, tendo chamado atenção para seu talento em medrança nos seus dois primeiros filmes, Jenipapo (1996) e Benjamin (2002), películas sobre as quais não tivemos oportunidade de comentar. Neste seu 3º longa, produção da Dueto Filmes/Europa Filmes/Globo/Filmes/ Paula Lavigne e patrocínio da ANCINE e da PETROBRÁS, com roteiro baseado em peça de Márcio Meirelles e por ela mesma adaptado para o cinema, a cineasta enfoca em 98 min os três dias de carnaval na Bahia e traça um painel sobre o bairro do Barroquinho, logo abaixo do Pelourinho, ponto de atração turística em Salvador.

     Nesse painel multifocal, pobres, negros, mulatos e até mesmo brancos, alegres ou tristes, divertidos ou brigões e fofoqueiros, mas antes de tudo seres humanos, vivem suas vidas ou simplesmente existem. Enfrentam todos o dia-a-dia das classes menos privilegiadas, e um grupo deles está às voltas, naquele período ficcional, com falta d'água porque a dona do modesto prédio, D. Joana (Luciana de Souza), fechou o registro devido ao atraso no pagamento das contas do mês pelos moradores.

     Monique capta bem essa tipicidade do local, sua tradições, rituais carnavalescos, comida, sincretismo religioso, construções de tempos idos ainda de pé, suas baianas e até o misticismo de falsos pastores e curandeiros exorcistas de demônios... Nesse quadro geral da vida baiana não há naturalmente história ou enredo clássico, mas, sim, imagens de incidentes na existência de várias pessoas e estas se entrelaçam no linguajar giriesco e desbocado, na entoação, no ritmo dialetal e nas suas grandezas e misérias.

     Destacam-se desse painel quatro personagens: Roque (Lázaro Ramos), Boca (Wagner Moura), Psilene (Dira Paes) e "seu" Jerônimo (Stênio Garcia). Todos batalham pela sobrevivência de qualquer maneira, enquanto "seu" Jerônimo tem seu próprio negócio de antigüidades e até age discretamente como agiota (veja-se quando aceita a proteção do cabo da polícia em troca da vigilância preventiva em suas portas).

     Psilene havia regressado de sua estada na França e prefere falar de Paris, euros e das refeições nas quais o caviar é boa pedida. Só não se sabe até onde mente, embora possa deixar nas entrelinhas a impressão de ter sido mais uma dessas brasileiras iludidas em busca de melhores dias fora do País. Umas terminam como amas ou serviçais de cozinha, outras como prostitutas ou amantes passageiras de velhos obcecados por mulheres brasileiras sexualmente liberadas.
Monique demonstra domínio da linguagem na abertura do filme, quando Rosa (Emanuelle Araújo), insinuante, esbelta, vai-se chegando ao Roque, vinda da rua, e lhe mostra os seios para uma pintura de carnaval. O trabalho do pintor, instrumento à mão, e a expressão da moça enriquecem o erotismo subjacente da cena.

     Há momentos criativos quando Monique silencia as falas de Boca e Roque, ambos se comunicando por sinais em plena rua, o primeiro de dentro de um carro já bem batido, e deixa o espectador atento a imaginar sobre qual será a viração deles para comprar, vender ou pagar alguma coisa. A discussão ou quase briga entre os "irmãos" Roque e Boca mais adiante, término da conversa anterior, está bem encenada, máxime quando o estigma de ser negro encontra a resposta cabal do agredido. O palavrão de Boca é quase um arremate desse entrechoque entre eles.

     Pequenas falhas, ou escolhas a nosso ver inadequadas, como os desfocamentos de imagens e o abuso de primeiros planos, recurso típico da linguagem televisiva, não arranham as qualidades de conjunto de mais um bom filme desta renovação qualitativa do nosso cinema, como já nos referimos em relação a "Cabra Cega", de Toni Venturi, "Quase Dois Irmãos", de Lúcia Murat, "Zuzu Angel", de Sérgio Rezende, e "Abril Despedaçado", de Wálter Salles, entre outros êxitos.

     O desfecho via plongées sobre o bairro para fixar-se nos dois garotos mortos em plena rua, quando as imagens mostram praticamente em silêncio todos os amigos e conhecidos ou meros transeuntes irmanados na dor, é um achado de Monique para concluir seu meritório labor.

Elenco, luz e música

     Os atores estão bem afinados. Lázaro Ramos cita até um verso de Fernando Pessoa e procura não ser o mesmo de outros filmes, enquanto Wagner Moura usa máscaras e falas coloquiais dignas de encômios, parecendo mesmo outra pessoa - um senhor Ator de Cinema.

     Emanuelle Araújo no papel de Rosa transmite bem a sensualidade da mulher brasileira em seu requebro e nas expressões do olhar, capazes de dizer quase tudo e mais alguma coisa. Não esteve à vontade o veterano e bom intérprete Stênio Garcia (recorde-se sua "performance" extraordinária como o Aleijadinho na série de TV), em participação menor. Dira Paes exagera nas falas, entoação, risos e volume da voz, como a calçar suas conversas sobre a proveitosa estada na Europa. Quando tudo termina, há uma deixa para seu retorno, só não se sabe em qual situação...

     Monique trabalha com o humor mas também com as ironias de situação e o subtema político-social. A direção fotográfica a cargo de Eduardo Miranda atende bem às necessidades da luz tanto nos interiores noturnos como no aproveitamento de cenas documentais do carnaval (aparece até mesmo Daniela Mercury num palanque) e aí a resolução não é mais a mesma. A música de Caetano Veloso entra bem nos momentos apropriados.

Entrevista da cineasta

     Não poderíamos deixar de resumir o pensamento de Monique Gardenberg em recente entrevista. Para ela, em cinema, não basta ter talento ou sensibilidade. Também não é preciso fazer propaganda para chegar ao grande público, chamar atenção para seu filme diante de tantas produções americanas e de espectadores viciados na produção hollywoodiana. Importa saber comunicar-se com as platéias e induzi-las a prestigiar o nosso bom cinema.

     Estamos aprimorando cada nova realização. Um dia chegaremos lá. Monique ainda bate na tecla do preconceito injustificável por parte de muitas pessoas, ligadas ou não ao cinema: preconceito contra a Globo Filmes e à produção substancial de Paula Lavigne. De fato esse posicionamento não se justifica nem ajuda o cinema brasileiro nesta redescoberta de novos caminhos. Tampouco se entende a crítica ao sotaque ouvido durante o filme. Já fazemos um cinema sério para ser prestigiado pelo espectador da casa, acrescentamos nós a título de fecho. Por isso mesmo, não hesitamos em recomendar o filme de Monique à atenção dos cinéfilos.

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