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| "Quando
o cinema produz sua própria realidade, filmar
deixa de ser um ato irrelevante. Filmar - e principalmente,
filmar documentários - modifica o mundo. Sem
heroísmo, muito pouquinho, sutilmente, mas modifica".
|
João
Moreira Salles |
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Objetiva |
Canções
de Nuvens e Cinema de Saudade e Beleza
*
Aurora Miranda Leão
Caía
a noite da primeira sexta de outubro. Este outubro dos 95
de Vinícius de Moraes, dos 50 da eterna Bossa Nova,
e de mais uma primavera do artista cearense Calé Alencar.
CINELÂNDIA CARIOCA, onde
outrora ancorava com ares de sílfide a Belle Époque
e os cafés se faziam apreciar aos sons dos Chorões
dos carnavais que não voltam mais - como profetizou
a imortal melodia do Lalá. Cartaz no Cine Palácio
anunciava a exibição hors-concours do filme
O HOMEM QUE ENGARRAFAVA NUVENS.
Direção
do arretado camarada pernambucano LÍRIO FERREIRA.
Sessão
lotada, platéia atenta. No écran, Denise Dumont
começa a caminhar... à procura do pai - como
revela no início da película e em todo o decorrer
do filme, onde se expõe com surpreendente coragem -,
o saudoso e emérito baluarte da mais típica
Música Brasileira egressa do sertão nordestino,
HUMBERTO TEIXEIRA.
Sucessão
de imagens descortina um nordeste palpitante de Cultura. Calé
Alencar é o maestro a conduzir os espectadores
pelo passeio onírico convidando o adentrar na cearensidade
de Humberto, o Doutor do Baião. O grande parceiro Luiz
Gonzaga veio do solo pernambucano, como Lírio, mas
foi com o Humberto de Calu e Qui Nem Jiló o melhor
acerto das notas musicais.
E
lá vem o Reisado, da Juazeiro da infância de
Calé, e lá vêm os Irmãos
Aniceto, da famosa Banda do Cariri cearense - saudades
do Crato ! -, recebendo no quintal do Mestre Raimundo as alegrias
que vão chegando... Está formada a roda, dança
Denise, arrebatada pelo som dos pifes e da zabumba... nesse
clima, nem bicho entrevado fica parado... Haja Forró
no Cariri ! E Viva os ANICETO
- Antônio, Raimundo, Cícero, Vicente, Joval e
Adriano !
E
HUMBERTO LEVOU A MÚSICA - cearense / pernambucana
/ nordestina / brasileira - PRO MUNDO CONHECER.
Organizou caravanas de músicos de todas as etnias para
cantar seu sertão de cor/cheiro/paladar/acordes e indumentária
colorida onde as fronteiras não tinham serventia e
o império era o da BELEZA e da Maestria Musical.
Aprendi
sobre tudo isso ouvindacompanhando meu querido parceiro CALÉ
nas voltas que o mundo dá - e com ele as voltas são
sempre intensas de som, recheadas de cor, untadas de gosto
de pé-de-moleque, sabor de aluá e milho verde
pro cuscuz que mais tarde vamos comer ao som dos Irmãos
Aniceto e das equatorianas rítmicas com as quais ele
inunda de mágica sonoridade as audições
de toda a vida.
E
foi uma satisfação dessas que a sensibilidade
nunca mais apaga verouvir o filme de Denise-Lírio-Humberto
... pois na tela vi muito do que já
intuía, imaginação serelepe a vadear
pelo agreste nordestino - e de repente fazer ponte com a Bossa
Nova de Bebel, a afinação irretocável
de Gal, o malemolente violão de GIL, HUMBERTO ENGARRAFANDO
NUVENS A ESPREITAR a escultural Pedra da Gávea, de
onde tantas vezes confirmamos - na agradabilíssima
companhia de minha doce Rosamaria Murtinho - a beleza sem
par do Rio de Janeiro, natureza sem igual a nos presentear
com lirismo e fortalezas paisagísticas, encharcando
de saudade as malas da viagem de regresso ao torrão
natal.
Na
platéia do Palácio, Raimundo Fagner, Ednardo,
Alceu Valença, Lea Garcia, Ângela Leal, Daniel
Tavares, Valério Fonseka, Daniel Filho e sua Carla
Daniel, Marcelo Gomes, Cláudio Assis e tantos tantos
mais.
Noite
plenamente emocional e calorosa. ARTISTAS NA TELA e NA PLATÉIA
aplaudindo com emocionado entusiasmo a obra do compositor
HUMBERTO TEIXEIRA, cearense
de todos os Brasis, a aguerrida ousadia de
Denise Dumont e a impactante união Lírio Ferreira/Walter
Carvalho - a qual nos brinda a todos os espectadores com a
intensidade singular de seus cortes compondo um realce imagético
pleno de vigor/melodia visual e rítmica, e benfazeja
capacidade de fazer quem assiste ir aos poucos adentrando
- com interesse, sensibilidade desperta e sintonia - àquele
universo tipicamente BRASILEIRO, qual jardineiros a plantar
raízes sensoriais com a mais densa leveza, compondo
um painel sonoro-visual de extrema FORÇA & BELEZA
repleto de intersecções com a universalidade
do SENTIMENTO - que é CEARÁ - NORDESTE - BRASIL
& MUNDO !
PARABÉNS
AO QUERIDO LÍRIO FERREIRA POR ESTA BELEZA DE FILME
QUE É O HOMEM QUE ENGARRAFAVA NUVENS.
À Denise Dumont pela coragem e senso de oportunidade
em tornar a vida e estrada musical de seu pai um registro
audiovisual agora possível de ultrapassar fronteiras
e calar dissonâncias. E a todos quanto tornaram possível
desvendar/revelar/reafirmar estes instigantes capítulos
da vida brasileira feita música/baião e nuvens...
...
Nas quais o Ceará anfitriona e dá as mãos
ao Rio, e Pernambucano faz a ponte internacional via Nova
York...
SARAVÁ,
LÍRIO, DENISE, CALÉ e WALTER ! |
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HUMBERTO
TEIXEIRA CELEBRA A ARTE DO ENCONTRO de LÍRIO FERREIRA
& DENISE DUMMONT
Ainda
me flagram as retinas com o encantamento provocado pelo belo
documentário sobre Humberto Teixeira, realizado por
Lírio Ferreira com produção da filha
do compositor, a atriz Denise Dumont.
O
HOMEM QUE ENGARRAFAVA NUVENS é o cinema
a revelar um olhar sensível, arguto, delicado e seminal
para a compreensão da presença da Música
Nordestina no panorama cultural do Brasil !
Denise
Dummont, à frente de projeto belo e
importante, aliou sua vontade de conhecer mais o pai e "apresentá-lo"
aos filhos à determinação de fazer um
documentário em honra da memória do Doutor do
Baião, e acabou fazendo uma obra rica e de
suma relevância para a história da Música
Brasileira e, portanto, para nossa história cultural.
Teve
a sorte de somar sua garra e disposição à
competência, sensibilidade e refinamento do olhar imagético
de Lírio Ferreira,
que se consagra definitivamente, com este novo Doc (após
o emblemático Cartola), como um dos
mais importantes, ousados e capazes cineastas brasileiros.
Assinando mais
este belo exemplar do cinema nacional, Lírio Ferreira
consegue proezas capazes de fazer de O
Homem que Engarrafava Nuvens um documentário
precioso sobre a vida de seu tempo, a música e cultura
de uma época, de um povo, de um lugar.
Depoimentos
luminosos como os de Tárik de Souza, Muniz Sodré,
Gilberto Gil e Caetano Veloso, juntam-se a vozes emblemáticas
e interpretações antológicas como as
de Chico Buarque para Kalu, a de Bethânia para Asa Branca
e a de Gal Costa para Adeus, Maria Fulô. Destaque-se
a engenhosa habilidade de Lírio ao abrir o passeio
documental sobre a obra de HT a partir de lapidar depoimento
do compositor cearense Calé Alencar, ilustrado com
a riqueza das manifestações da cultura popular
do Cariri de Humberto, bem como ao complementar com imagens
as falas de Otto e Caetano Veloso em dois momentos exponenciais
do filme: a explosão da bomba atômica simbolizando
o encontro definido por Otto como o de Humberto e Luiz Gonzaga,
e a vertigem do cinema da letra de Caetano em Terra. Outrossim,
a maestria do cineasta reafirma-se ao conseguir despertar
ainda mais os ouvidos do espectador num balé perscrutador
da câmera, adentrando o ambiente embalada pela ternura
de Kalu na voz inconfundível de Chico Buarque, finalizando
com foco no artista cantando em estúdio. Magistral.
Não
há como deixar de registrar também a mais bela
tomada já feita pelo cinema da Catedral de Fortaleza,
ainda mais imponente nos acordes precisos de Nonato Luíz.
Há tomadas da já tão cenarizada New York
de forma absolutamente inusitada fazendo quase ver uma nova
cidade por entre ângulos improváveis - como o
que o Poeta da Luz, Walter Carvalho, realça no passeio
ciclístico de David Byrne adornado pela tela de raios
de metal entrelaçados da ponte de Manhattan em primeiro
plano -, os quais reafirmam um cineasta sintonizado com as
idiossincrasias dessa urbanidade tão própria
hoje de qualquer um, em cada metrópole mundial. E que
Humberto Teixeira parecia antever, ao fazer brotar as primeiras
notas do ritmo novo pelo qual mais tarde seria conhecido,
resolvendo levá-lo para paragens distantes e distintas
de seu berço torrão, para tanto contando com
a cumplicidade e camaradagem decisiva de Luiz Gonzaga.
Digno
de registro e aplauso, por muito bom e tocante, o roteiro
minucioso assinado por Lírio, rico de imagens de arquivo
- decupagem sensível e minuciosa na escolha de passagens
essenciais -, e muito confinante à forma de fazer música
do cearense Humberto Teixeira, ao juntar no mesmo baião
vozes de geografias tão díspares como as de
David Byrne, Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto,
Bebel Gilberto, Cordel do Fogo Encantado, Coco das Mulheres
da Batateiras, Lenine, Sivuca, Carmélia Alves, Nonato
Luiz, Alceu Valença, Miho Hatori, Zeca Pagodinho, Fagner...
Alguém
poderá dizer que o filme é uma viagem muito
pessoal de Denise. É mesmo. E que bom perceber isso
na tela. Com a precípua necessidade existencial a aflorar
nas veias da maturidade, Denise iniciou, com determinação,
coragem, sentido de resgate do tempo perdido, e muito amor,
uma peregrinação visceral em busca do entendimento
do trançado de vida do pai. É preciso ser muito
forte para topar registrar para o écran um encontro
tão íntimo, assumidamente atrasado, perturbador,
difícil e doloroso, com a disponibilidade assumida
por Denise perante a câmera de Walter Carvalho, o olho
de Lírio e toda a extensa gama de profissionais indispensáveis
para o registro realizado. Foram anos tentando entender o
“abandono” da mãe, o “desencontro”
com o pai, a dessintonia de duas pessoas tão fundamentais
na vida da garota Denise. Os anos tornam maior o abismo, aprofundam
mágoas, dilaceram almas, estendem tristezas, provocam
marcas fundas e as cicatrizes permanecem latejando. Não
é fácil revelar sentimentos, expor a alma diante
do outro. E Denise o faz de forma tão verdadeira (o
encontro registrado no filme no qual Denise tenta enfim entender
porque o afastamento do pai, porque a ausência da mãe
em momentos tão cruciais, é o primeiro da vida
real) que é impossível não chorar na
hora da conversa com a mãe Margarida Bittencourt -
mulher bela e adiante de seu tempo, atriz que abandonou a
carreira porque o marido Humberto assim o quis -, e os olhos
verdes da pianista brilham e marejam, revelando fatos e opções
tão pouco claras a filha até então. Em
busca do pai e do entendimento de sua vida, Denise Dumont
descobre a si própria e engendra via cinema uma viagem
dolorosa, aguerrida, necessária e catártica
sobre a própria vida. Bela seqüência, exemplar
do quanto pode o amor e do quão transformador é
o conhecimento de si próprio, viagem que cada um de
nós empreenderá, mais cedo ou mais tarde, uma
dor a se atravessar para sair mais forte depois da tempestade.
Denise afigura-se mestra na compreensão dessa passagem
existencial. Matéria de Sabedoria.
E
o filme vai-se construindo ao mesmo tempo em que Denise avizinha-se/apercebe-se
da grandiosidade da inserção do pai na Cultura
Brasileira. E assim ela vai permitindo a nós, público,
uma nova dimensão sobre o legado de Humberto Teixeira
e o faz alimentada pelo olhar sensível e a direção
acurada de Lírio Ferreira. Por ser um depoimento tão
franco, determinado e encorajador sobre o pai, mais ainda
o documentário sobre Humberto Teixeira azunha, comove,
emociona.
Tudo
isso está nas entrelinhas de
O Homem que Engarrafava Nuvens, em subtextos
arrestados num enorme trançado de renda onde as canções
são as linhas multicores da artesania musical criada
por Humberto Teixeira e as letras são os bilros a criar
o desenho perfeito para o arremate final de cada intérprete.
Embrenhando-se
nessa trajetória através da chegada à
terra do pai, do encontro com pessoas da família, com
o ambiente físico e sensorial traduzido nas letras
de Humberto, Denise Dumont fez o seu próprio Caminho
de São Teixeira e assim ajudou a escrever a
definitiva página do Baião na História
da Música Brasileira. |
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O
HOMEM QUE ENGARRAFAVA NUVENS, O Grande Vencedor do
CINE CEARÁ
Conforme
antevemos em nosso Blog da Boreal, pré-indicando ao
menos 2 estatuetas para o documentário de Lírio
Ferreira em homenagem ao compositor cearense Humberto
Teixeira, o filme produzido pela Good Ju-Ju
de Denise Dummont
marca sua passagem pela terra natal do Doutor do Baião
abiscoitando 5 prêmios na 19a edição do
Cine Ceará, encerrada dia 4 de agosto.
Entre
os muitos prêmios ao belo e relevante Doc de Lirio Ferreira,
estão o de Roteiro (Lírio Ferreira),
Som (Zezé Dalice e Waldir Xavier),
o da Crítica, o do Banco do
Nordeste e o Oscarito, concedido
pela Câmara Municipal de Fortaleza.
O
documentário sobre HUMBERTO TEIXEIRA
é mesmo merecedor de todos estes prêmios: com
O HOMEM QUE ENGARRAFAVA NUVENS o cinema revela
um OLHAR SENSÍVEL, ARGUTO, delicado e seminal para
a compreensão da presença da Música Nordestina
no panorama cultural do Brasil !
Estamos
muito felizes com a justíssima premiação:
Denise Dummont
está à frente de um projeto belo e importante,
aliou sua vontade de conhecer mais o pai e "apresentá-lo"
aos filhos à determinação de fazer um
documentário em honra da memória do pai, e acabou
fazendo uma obra rica e de suma relevância para
a história da Música Brasileira e, portanto,
para nossa história cultural.
Teve
a sorte de aliar sua garra e disposição à
competência, sensibilidade e refinamento do olhar imagético
de Lírio Ferreira,
que se consagra definitivamente, com este novo Doc (após
o emblemático Cartola), como um dos
mais importantes, ousados e capazes cineastas brasileiros.
Como
diria meu pai, o crítico LG de Miranda Leão,
"Lírio afirma-se como um cineasta de escol..."
SARAVÁ,
LÍRIO FERREIRA & DENISE DUMMONT !
PARABÉNS
PELO BELÍSSIMO O HOMEM QUE ENGARRAFAVA
NUVENS !
UM
VIVA ESPECIAL a WALTER CARVALHO, a MAIR TAVARES, a DANIEL
FILHO, a Matthew Chapman, aos patrocinadores e a toda a equipe
que tornou o filme possível. BRAVOS
!!!
Leia
comentário sobre o filme no link OBJETIVA... |
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Canções
de Nuvens e Cinema de Saudade e Beleza
* Aurora Miranda Leão
Caía a noite da primeira
sexta de outubro. O outubro passado, dos 95 de Vinícius
e 50 da eterna Bossa Nova. O foco estava na CINELÂNDIA
CARIOCA, onde outrora ancorava com ares de sílfide
a Belle Époque e os cafés se faziam apreciar
aos sons dos Chorões dos carnavais que não voltam
mais - como profetizou a imortal melodia do Lalá. No
histórico Cine Palácio, o cartaz anunciava a
exibição hors-concours do filme O
HOMEM QUE ENGARRAFAVA NUVENS. Direção
do arretado camarada pernambucano LÍRIO FERREIRA.
Sessão
lotada, platéia atenta. No écran, Denise Dumont
começa a caminhar... à procura do pai - como
revela no início da película e em todo o decorrer
do filme, onde se expõe com surpreendente coragem -,
o saudoso e emérito baluarte da mais típica
Música Brasileira egressa do sertão nordestino,
HUMBERTO TEIXEIRA.
Sucessão
de imagens descortina um nordeste palpitante de Cultura. Calé
Alencar é o maestro a conduzir os espectadores
pelo passeio onírico convidando o adentrar na cearensidade
de Humberto, o Doutor do Baião. O grande parceiro Luiz
Gonzaga veio do solo pernambucano, como Lírio, mas
foi com o Humberto de Calu e Qui Nem Jiló o melhor
acerto das notas musicais.
E
lá vem o Reisado, da Juazeiro da infância de
Calé, e lá vêm os Irmãos Aniceto,
da famosa Banda do Cariri cearense - saudades do Crato ! -,
recebendo no quintal do Mestre Raimundo as alegrias que vão
chegando... Está formada a roda, dança Denise,
arrebatada pelo som dos pifes e da zabumba... nesse clima,
nem bicho entrevado fica parado... Haja Forró no Cariri
! E Viva os ANICETO - Antônio, Raimundo, Cícero,
Vicente, Joval e Adriano !
E
HUMBERTO LEVOU A MÚSICA - cearense / pernambucana /
nordestina / brasileira - PRO MUNDO CONHECER. Organizou
caravanas de músicos de todas as etnias para cantar
seu sertão de cor/cheiro/paladar/acordes e indumentária
colorida onde as fronteiras não tinham serventia e
o império era o da BELEZA e da Maestria Musical.
Aprendi
sobre tudo isso ouvindacompanhando meu querido parceiro CALÉ
nas voltas que o mundo dá - e com ele as voltas são
sempre intensas de som, recheadas de cor, untadas de gosto
de pé-de-moleque, sabor de aluá e milho verde
pro cuscuz que mais tarde vamos comer ao som dos Irmãos
Aniceto e das equatorianas rítmicas com as quais ele
inunda de mágica sonoridade as audições
de toda a vida.
E
foi uma satisfação dessas que a sensibilidade
nunca mais apaga verouvir o filme de Denise-Lírio-Humberto
... pois na tela vi muito do que já intuía,
imaginação serelepe a vadear pelo agreste nordestino
- e de repente fazer ponte com a Bossa Nova de Bebel, a afinação
irretocável de Gal, o malemolente violão de
GIL, HUMBERTO ENGARRAFANDO NUVENS a espreitar a insólita
Pedra da Gávea, de onde tantas vezes confirmamos -
na agradabilíssima companhia de minha doce Rosamaria
Murtinho - a beleza sem par do Rio de Janeiro, natureza sem
igual a nos presentear com lirismo e fortalezas paisagísticas,
encharcando de saudade as malas da viagem de regresso ao torrão
natal.
Na
platéia do Palácio, os músicos Raimundo
Fagner, Ednardo, Calé Alencar, Alceu Valença,
as atrizes Lea Garcia e Ângela Leal, os atores Daniel
Tavares e Valério Fonseka; Daniel Filho e sua Carla
Daniel, os cineastas Marcelo Gomes e Cláudio Assis
e tantos tantos mais.
Noite
plenamente emocional e calorosa. ARTISTAS NA TELA e NA PLATÉIA
aplaudindo com emocionado entusiasmo a obra do compositor
HUMBERTO TEIXEIRA, cearense de todos os Brasis,
a aguerrida ousadia de Denise Dumont, a maestria
da edição de Mair Tavares (outro cearense) e
a impactante união Lírio Ferreira/Walter
Carvalho - a qual nos brinda a todos os espectadores
com a intensidade singular de seus cortes compondo um realce
imagético pleno de vigor/melodia visual e rítmica,
e benfazeja capacidade de fazer quem assiste ir aos poucos
adentrando - com interesse, sensibilidade desperta e sintonia
- àquele universo tipicamente BRASILEIRO, qual jardineiros
a plantar raízes sensoriais com a mais densa leveza,
compondo um painel sonoro-visual de extrema FORÇA &
BELEZA repleto de intersecções com a universalidade
do SENTIMENTO - que é CEARÁ - NORDESTE - BRASIL
& MUNDO !
PARABÉNS
AO QUERIDO LÍRIO FERREIRA POR ESTA BELEZA DE FILME
QUE É O HOMEM QUE ENGARRAFAVA
NUVENS. À Denise Dumont pela coragem
e senso de oportunidade em tornar a vida e estrada musical
de seu pai um registro audiovisual agora possível de
ultrapassar fronteiras e calar dissonâncias. E a todos
quanto tornaram possível desvendar/revelar/reafirmar
estes instigantes capítulos da vida brasileira feita
música/baião e nuvens...
...
Nas quais o Ceará anfitriona e dá as mãos
ao Rio, e Pernambucano faz a ponte internacional via Nova
York...
SARAVÁ,
LÍRIO, DENISE, CALÉ, WALTER e MAIR !
* O
Homem que Engarrafava Nuvens terá exibição
hors-concours na próxima edição do Festival
CinePE, que começa dia 27 e prossegue até
3 de maio em Recife. |
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SÃO
LUÍS ELEITA CAPITAL CULTURAL DO BRASIL
São Luís,
CAPITAL CULTURAL BRASILEIRA. Em 2009, oficialmente.
Em todos os tempos, terra de magia, encanto e belezas mil,
território onde a Arte se faz Poesia nas cores, nos
sotaques e nas indumentárias do Bumba-meu-Boi, e onde
a Cultura se faz mais bela e poderosa na ginga das saias em
roda das crioulas ao som irresistível dos tambores
AfroAscendentes.
São
Luís é capital para onde sempre se quer ir,
se pensa em voltar, se sonha em ser feliz muitas gerações.
Como se não bastasse ser a Ilha
do Amor - em boíssima hora assim codinominada
-, a capital maranhense é também a terra onde
o Nordeste é mais NORDESTE e onde o verde das palmeiras
dá um tom especial aos brincantes do Boi. São
Luís é também a cidade onde a história
caminha de mãos dadas com o visitante e a tradição
anfitriona com graça e simpatia a modernidade traduzida
nos sotaques de cidades várias que adentram as vielas
perpassadas pela admirável azulejaria portuguesa e
telhados seculares.
São
Luís é ademais a cidade onde o camarão
recebe o tempero especial da vinagreira e
haja cuxá para a demanda que se faz maior a cada festejo
junino, terra da cobiçada "juçara"
e do incomparável BURITI,
seiva de um dos doces mais gostosos deste pedaço de
terra chamado Brasil e fibra natural a compor belas peças
artesanais com a qual se fabricam bolsas, colares, tapetes,
chapéus, carteiras, toalhas e outros itens da mesma
linhagem. Neste ano de oportunas homenagens a FRANÇA
no Brasil, esta cidadania cultural ludovicense ganha ainda
mais relevância, sendo São Luís a única
capital brasileira fundada pelos francos hermanos.
Ah,
quantas saudades de São Luís !
Pois além de tudo isso,
e muito mais (que daria pra crônica de tamanho enorme
mas merecido), São Luís
é também terra onde se faz amigos como quem
conta nuvens no céu - eles são
intensos, multiplicam-se ao ritmo das festas maranhenses e
encontrá-los é enxertar ALEGRIA de múltiplas
corres no dia-a-dia.
Foi lá que conheci há
alguns anos o hoje queridíssimo
Euclides Moreira Neto, agitador cultural dos
mais profícuos, por décadas diretor do Departamento
de Arte & Cultura da Pró-Reitoria de Extensão
da UFMA, e hoje benfazejo titular da Fundação
Cultural de São Luís. Oxalá o novo prefeito
cumpra o prometido e crie a Secretaria de Cultura de São
Luís, da qual Euclides será MERECIDAMENTE o
titular. E depois da nomeação feita, champanhe
espoucada, aplausos e Parabéns de todas as partes do
Brasil, é só esperar: Euclides
fará pelo patrimônio Artístico-Cultural
de São Luís (dos mais ricos do país)
muito mais do que já foi feito em todas as décadas
de séculos passados.
Pois São Luís
me concedeu Euclides Moreira Neto e com ele Adelaide e a querida
Dona Jesus (das tentadoras guloseimas e iguarias maranhenses),
Veiga Júnior, Celso Brandão, Fernando Oliveira
e Joel Jacintho. E ainda o professor Fernando Ramos, os irmaõs
de Cinema -Gutérres, Uimar Júnior, Rui Vasconcellos,
Vinícius Motta (do Resort Lençóis Maranhenses
de Barreirinhas), Breno Di, Lauro Vasconcellos, o cineasta
Joaquim Haeckel e tantos tantos mais.
Por tudo isso, Saravá Euclides Moreira Neto!
Salve a Arte de São Luís!
Oxalá São Luís, presente francês
ao Brasil!
E Viva São Luís,
a Capital Cultural Brasileira ! |
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LEA
GARCIA Celebra Bodas de Ouro de Cinema no FESTIVAL GUARNICÊ
* Aurora Miranda Leão
Um
dos mais antigos e respeitados festivais de cinema do país,
o Guarnicê,
cujo cenário é a capital maranhense, teve sua
32ª edição realizada no período
de 17 a 21 de junho, reunindo jornalistas, produtores e realizadores
de todo o país na adoravelmente festeira São
Luís.
Este
ano, o Guarnicê teve
como grande homenageada a atriz LEA GARCIA
por conta de seus 50 de carreira, cujo marco
principal é a participação no Festival
de Cannes em 1959 com o filme Orpheu do Carnaval, do poeta
e diplomata Vinícius de Moraes e do cineasta francês
Marcel Camus. Àquela época, Lea foi indicada
como Melhor Atriz e ficou em segundo lugar, vencendo até
a grande diva Ana Magnani, atriz de quem Lea sempre foi admiradora.
Na
tela do Guarnicê ,
Lea esteve em destaque no documentário do carioca Júlio
Lellis - O BONDE, LÉA GARCIA & SEUS TRILHOS
-, e no filme Remissão – ainda
inédito no circuito nordestino -, do cineasta Sílvio
Coutinho (exibido nas seleções oficiais dos
festivais de Calcutá, Bogotá e Mostra Internacional
de Cinema de São Paulo, além de ter sido vencedor
ano passado do Festival de Cinema de Natal).
Ao
lado de outros tantos atores negros, Lea
Garcia integrou o elenco da primeira montagem
de Orpheu da Conceição, cuja
estréia aconteceu em 25 de setembro de 1956 no Teatro
Municipal do Rio de Janeiro, produção esmerada
com cenários de Oscar Niemeyer, cartaz de Carlos Scliar,
direção de Leo Jusi, músicas de Tom Jobim
e Vinícius, com Tom ao piano e Luiz Bonfá ao
violão. Produção totalmente bancada por
Vininha. No espetáculo, marco do Teatro Brasileiro,
Lea fazia Mira de Tal, “mulher do morro” (dizia
a ficha técnica do espetáculo).
Lea
integrou o elenco de muitas novelas globais e depois de algumas
novelas na Record, agora está no seriado A Lei e o
Crime. Alguns de seus mais conhecidos trabalhos são
em Escrava Isaura, Anjo Mau e O Clone. No cinema, fez Quilombo,
Ganga Zumba, Chica da Silva, e O Maior Amor do Mundo, todos
de Cacá Diegues; Cruz e Souza, O Poeta do Desterro,
de Sylvio Back; Filhas do Vento, de Joelzito
Araújo; Remissão, de Sílvio
Coutinho; e Atabaques Nzinga, de Otávio Bezerra, para
citar apenas os principais.
Este
ano, a coordenação do Festival Guarnicê
coube ao professor Alberto Dantas, hoje atuando
como Diretor do Departamento de Arte & Cultura da Universidade
Federal do Maranhão (UFMA) – promotora do evento
– por conta da nomeação de Euclides Moreira
Neto para a Fundação Cultural de São
Luís. Euclides – super querido por toda a comunidade
artística – é desde o início deste
ano o presidente da FUNC e agora atua como presidente de honra
do Guarnicê, tendo sido muito oportuna
e merecidamente homenageado pela direção da
UFMA durante o Festival. Vale lembrar: Euclides era ainda
estudante quando participou das primeiras edições
da então Jornada de Cinema do Maranhão como
realizador, vencendo as 6 primeiras edições,
passando depois à coordenar o festival, ao qual emprestou
sempre toda sua competência, disponibilidade e energia,
fazendo do GUARNICÊ o mais celebrado festival de Cinema
do norte e nordeste do país.
Na
programação deste Guarnicê,
além de mesas-redondas, debates, palestras, oficinas
e lançamentos de livros – como o da pesquisadora
Karla Holanda sobre Documentário Nordestino -, o lançamento
dos longas Pachamama, de Erik Rocha (lançado
na última edição do festival de Gramado
e vencedor da mais recente edição do CinePort),
Harmonia do Inferno, do jovem cineasta capixaba
Gui Castor, e Syriará, do cearense
Rosemberg Cariry.O Banco do Nordeste do Brasil manteve a importante
premiação concedida no festival, o cobiçado
prêmio BNB de Cinema, para o Melhor Filme e o Melhor
Vídeo para o júri oficial.
A
edição 2009 do Guarnicê
foi menor este ano – 2 dias a menos – por conta
das dificuldades financeiras, mas não faltaram empolgação
e muitos filmes nas telas das diversas mostras que compõem
o festival. Além de Lea Garcia e do cineasta Sílvio
Coutinho, estiveram presente os atores André Paes Leme
e Nílson Asp, a atriz Ana Cristina Folch, os realizadores
Andrea Cohim (PE), Michelline Helena e Leandro Gomes (CE),Taciano
Valério (anunciando novo festival em Caruaru), David
Sobel (PB), Rudi (RO), Bárbara Cariry (que trouxe a
estatueta de Melhor Montagem para o novo filme do irmão
Petrus, A Montanha Mágica), Rosa Malagueta (de Parintins,
a mulher mais premiada da noite, com 5 estatuetas para o filme
A Raiz dos Males, da dupla Heraldo Daniel e Homero Flávio
), Rubem Rocha (do Ministério da Cultura),Cloris Ferreira
(produtora do Festival Catarina de Documentários, cuja
sexta edição está grifada para agosto),
além das jornalistas Ana Paula Minehira (da TV Cultura
de São Paulo) e Bernadete Duarte, do Canal Brasil.
Todas
as noites, convidados e realizadores dividiam-se entre as
exibições, o farto jantar no Hotel Grand São
Luís e a passagem obrigatória no Arraial de
São Luís (na praça Maria Aragão,
projetada por Oscar Niemeyer), onde Euclides Moreira
Neto recebia com seu especial calor humano e alegre
hospitalidade, suas marcas tradicionais, enquanto sua mana
Adelaide e as tias comandavam a barraca de apetitosas iguarias
típicas (saudades da matriarca dona Jesus, agora uma
luz a nos iluminar do Alto), que atendia pelo simpático
nome de Barraca Guarnicê.
A parada estratégica no “arraiá”
de Euclides, lotado todas as noites com empolgação
varando a madrugada, era a chance de termos o palco ideal
para curtir os diversos grupos de Bumba-meu-Boi e compartilhar
das energizantes rodas onde as saias coloridas celebram a
festa da maranhenCidade nas quais o Tambor dá o tom
e não permite mulher alguma ficar parada sem muita
vontade de também ser crioula e coureira !
E tem ainda o Cacuriá, a Dança do Lelê,
o Pela-Porco, e o Coco de Roda pra não deixar ninguém
“dormir antes da madruga”. Enfim, o Guarnicê
é um festival de Cinema onde há
espaço para todo tipo de filme, e onde a hospitalidade,
a alegria e os ritmos contagiantes dos tambores, matracas,
orquestras e zabumbas abrem espaço para celebrar todas
as etnias do imenso mosaico afro-brasileiro do qual a cultura
maranhense é anfitriã com louvor e propriedade
e onde nós imergimos nossa disposição
para a festa todos os anos com prazer e imensa vontade de
voltar a qualquer momento.
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LEA
GARCIA: Como a Luz no Coração
* Aurora
Miranda Leão
Ela
é dessas pessoas de quem se gosta fácil. Por
isso, difícil esquecê-la. Fica no coração
como carícia benfazeja. Sobretudo, quando se conhece
seu caminho nos passos da Arte . Suas criações
são sempre emolduradas em mistério, força
dramática, carisma e densidade.
Não
sei se o mais certo seria dizê-la anjo, fada ou duende.
Mas sei dela emanar uma energia muito peculiar, uma força
inequívoca e uma chama inteligente – olhar a
evocar antigas dores e sortilégios, daqueles que costumam
acometer quem carrega n’alma as matrizes do amor, da
solidariedade, do destemor ante à opressão e
da fortaleza capaz de sobrepor-se mesmo ante às mais
cruéis intempéries.
Alguém
já viu uma fada negra ? Um anjo de olhar triste ? Um
duende acessível, falastrão e espevitado ? Pois
eu já. E ele é muito mais que tudo isso. Atende
por Lea Garcia e
é ATRIZ, uma de nossas Melhores, este ano brindando
Bodas de Ouro de atuação.
LEA
é uma de nossas Damas Negras, como
bem “batizou” a jornalista carioca Sandra Almada.
Conhecer LEA foi ganhar uma amiga. Em bate-papo descontraído
e despretensioso – eu, ela, Maurício Gonçalves
e Zezé Motta – relembrando antigas histórias
do teatro e da televisão, falando em literatura e nos
caminhos percorridos por outros companheiros negros –
eu queria saber de Chica Xavier, Ruth de Souza, Ângela
Correa, Procópio Mariano, Zeni Pereira, Jacira Silva,
e tantos outros que compõem o Diamante Negro
do Teatro Brasileiro. Com eles, a certeza de que a raça
é tão mais forte e necessária quanto
mais eles se entranham em nosso imaginário.
Foi
o querido Poeta Vinícius
de Moraes – a quem aprendi com Toco
a chamar de Vininha - quem colocou LEA no
meu caminho. Ou me mostrou a ela através de seu belo
Orpheu. Conhecê-la foi um momento mágico. Lea
é uma linda mulher negra – branda e serena quando
sente afeto no acolhimento; aguerrida e altaneira quando se
trata de defender seus ideais e pontos-de-vista.
Ao
lado de outros tantos atores negros, Lea
Garcia integrou o elenco da primeira montagem
de Orpheu da Conceição, aquela
produzida com amor, garra e sensibilidade por Vinícius
de Moraes, cuja estréia aconteceu em 25 de setembro
de 1956 no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, produção
esmerada com cenários de Oscar Niemeyer, cartaz de
Carlos Scliar, direção de Leo Jusi, músicas
de Tom Jobim e Vinícius, com Tom ao piano e Luiz Bonfá
ao viola. Produção totalmente bancada por Vininha.
No espetáculo, marco do Teatro Brasileiro, Lea fazia
Mira de Tal, “ mulher do morro” (dizia a ficha
técnica do espetáculo).
Lea
integrou o elenco de muitas novelas globais e depois de algumas
novelas na Record, agora está no seriado A Lei e o
Crime. Alguns dos mais conhecidos mais conhecidos são
em Escrava Isaura, Anjo Mau e O Clone. No cinema, fez Quilombo,
Ganga Zumba, e Chica da Silva, O Maior Amor do Mundo, todos
de Cacá Diegues; Cruz e Souza, O Poeta do Desterro,
de Sylvio Back; Filhas do Vento,
de Joelzito Araújo; Remissão, de Sílvio
Coutinho; e Atabaques Nzinga, de Otávio Bezerra, para
citar apenas os principais.
Quando
cheguei perto de Lea, e depois de conversarmos muito, acabei
vendo nela uma expressão perfeita para figurar numa
pomposa Corte de Maracatu cearense. Uma luz vibrante para
o cortejo das divindades negras. Com seu porte elegante, sua
força de Deusa, sua pele macia de Oxô e seu olhar
penetrante de mulher aguerrida, Lea Garcia encantará
o maracatu e com ele sairá encantada, tamanha é
a singularidade da tradição e a energia emanada
do cortejo. Como nós, amantes da festa e da emoção
transformada em Arte, Lea se prontifica a participar da celebração.
Sabe tratar-se de um grande Teatro ao ar livre, onde todos
podem brincar e extravasar tristezas e alegrias, bastando
apenas cobrir o rosto com o preto do falso negrume, símbolo
maior da representação no desfile étnico
herdado dos ancestrais e abençoado nas sagrações
das igrejas de Nossa Senhora do Rosário dos Homens
Pretos.
Neste
2009, Lea Garcia completa 50 anos de entrada na Sétima
Arte, grifada a partir de sua participação em
Orpheu, filme de Vinícius de Moraes e Marcel Camus
– vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1958
– e com o qual ela quase ganha a Palma de Ouro no Festival
de Cannes, em 1959, ficando em segundo lugar, à frente
da atriz Ana Magnani, a quem Lea tinha como grande exemplo.
Por
conta de sua trajetória ininterrupta na cena artística
e de suas atuações memoráveis, LEA GARCIA
recebe este ano a justa Homenagem do Festival
GUARNICÊ de Cinema, a acontecer em São
Luís, de 17 a 21 deste junho onde tambores, saias,
alegria contagiante, muitas cores e energia celebram no Maranhão
o São João mais animado do Brasil e fazem de
São Luís a capital brasileira do CINEMA. |
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SARAVÁ,
NEGRITUDE! De
Todas as Etnias, Credos,
Ritmos e
Cores!
Dia 20 de novembro.
Depois de anos de fortes embates, morre Zumbi. O quilombo
era de Palmares. Alagoas não chorou só. Choramos
todos que sempre tivemos alma libertária, buscamos
a fraternidade, pregamos a solidariedade e acreditamos num
Deus único que não diferencia nenhum ser humano.Consciência.
Reverência à nossa ancestralidade africana. Paira
a triste lembrança dos navios levando cativos e faz
emergir a dor profunda da injustiça, da violência,
da desigualdade abjeta. Mas o Poeta Vinícius,
"o branco mais preto do Brasil, na linha direta de Xangô
- Saravá !", nos ensina na antológica
Samba da Bênção:
É melhor ser alegre que ser triste, a alegria
é a melhor coisa que existe...
E nossas raízes
geraram o que até hoje encanta as retinas e faz balançar
o corpo num gingado ancestral: são congos, congadas,
moçambiques, catupés, jongos, maracatus, cateretês
e catiras, fandangos e marujadas, folias de reis, parafusos,
taieiras, cambindas, negras da costa, pontões, bumbas-meu-boi,
bois-bumbás, bernunças, bois-de-mamão,
cazumbás, tambores de crioula, cacuriás, as
festas do Divino, caboclinhos, calangos, carimbós,
afoxés, cacumbis, cocos, cheganças, sarandaias
e os sambas de todos os tons. Tudo cheio de Bossa... porque
música sem Bossa, não é Nova. Tudo em
louvor à Nossa Senhora do Rosário, a São
Benedito, a São Marçal, a Santa Efigênia.
Queremos
fazer deste canto o cântico de todas as vozes semeadoras
do fim da discriminação e entrelaçar
as mãos para celebrar, no pulsar uníssono dos
corações, a negritude, a comunhão, a
Paz sem limites nem fronteiras.
Somos
NEGROS, Mestiços, BRASILEIROS. De todas as etnias,
tão bem representados por José do Patrocínio,
Joaquim Nabuco, João Cordeiro, Maria Tomásia,
Pedro Arthur de Vasconcelos, Dragão do Mar, Luís
Gama, João Cândido, Joaquim Callado, Chiquinha
Gonzaga, Abdias do Nascimento, Grande Otelo, Pixinguinha,
Heitor dos Prazeres, Ismael Silva, Moacir Santos, Doryval
Caymmi, Elizete Cardoso, Alaíde Costa, Johnny Alf,
Tito Madi, Eliana Pittman, Jair Rodrigues, Zeni Pereira, Jacira
Silva, Milton e Maurício Gonçalves, Chica Xavier,
Ruth de Souza, Lea Garcia, Elza Soares, Gilberto Gil, Lupicínio
Rodrigues, Nélson Sargento, Cartola, Zé Kéti,
João do Valle, Luiz Gonzaga, Jacxson do Pandeiro, Tony
Tornado, Rosa Passos, Paulo Diniz, Paulo Moura, Haroldo Costa,
Julciléia Teles, Procópio Mariano, Eliezer Gomes,
Pratinha, Aizita Nascimento, Vera Manhães, Alzira Rufino,
Zezé Motta, Ana Carbatti, Adriana Lessa, Antônio,
Camila e Rocco Pitanga, Joel Zito Araújo, Zózimo
Bulbul, Zezé Barbosah, Lázaro Ramos, Flávio
Bauraqui, Maria Ceiça, Luíza Maranhão,
Alexandre Moreno, Taís Araújo, Leandro Firmino
da Hora, Alexandre Rodrigues, João Akaiabe,Darlan Cunha,
Douglas Silva, Jonathan Haagensen, Thalma de Freitas,Sérgio
Menezes, Fabrício Boliveira, Roberta Rodrigues, Cris
Vianna, Adriana Alves, Sheron Menezes, Débora Nascimento,
Madi Soqui, Muniz Sodré, Tim Maia, Milton Nascimento,
Luís Melodia, Jorge Ben, Calé Alencar, Seu Jorge,
João Fera, Bidu Cordeiro, Maurício Tizumba,
Djavan, Tony Garrido, Vanessa da Matta, Paula Lima, Luciana
Mello, Sandra de Sá, Martinállia e Martinho
da Vila, Sílvio Guindane e Sérgio Malheiros,
entre mais uma enorme e qualificada legião a nos inspirar.
Por isso, prosseguimos convocando aos negros de todas as cores:
somem-se a nós num abraço hermano, solidário
e efusivo em louvor desta fortaleza. Que
atende carinhosa e efusivamente por Brasilidade
Africana. Saravá
!!! |
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DOMINGO,
19 DE OUTUBRO, é o dia dos 95 de nosso POETA Maior
Vinícius de Moraes, o
Poeta que veio ao mundo para celebrar o Amor e falar da importância
deste sentimento para pacificar o mundo e promover a comunhão
entre os povos de todas as etnias, credos e continentes, partiu
cedo, em 9 de julho de 1980, numa manhã fria de inverno
após passar a noite compondo com o parceiro querido,
Toquinho.
Seu
legado é tanto maior quanto mais passa o tempo e mais
aprofunda-se o entendimento de sua obra, quanto
mais evidencia-se a lacuna descomunal que deixou acometendo
de carência lúdica e emotiva sem par o cotidiano,
e ainda mais descobrem-se novas leituras de sua vasta e riquíssima
obra a cada vez que se nos debruçamos sobre ela.
É
melhor ser alegre que ser triste/A alegria é a melhor
coisa que existe, é assim como a luz no coração...
Vinícius, ou Vininha
- como carinhosamente o chamavam os amigos próximos
e como meu pai ensinou-me a chamá-lo desde menina -
era libriano, aniversariante do dia 19 de outubro, véspera
da chegada ao mundo de outro Poeta, meu tão querido
Calé. Por isso, é neste
OUTUBRO de muita chuva e algum frio no Rio que se comemoram
os 50 da Bossa Nova, da qual Vina foi seu Farol sempre a apontar
novas trilhas... e vieram os Afro-Sambas com
Baden, o musical Pobre Menina Rica com Carlinhos Lyra, as
parcerias com Edu Lobo, Francis Hime e Chico Buarque e os
quase mil shows pelo Brasil e o mundo em companhia de Toquinho,
ovacionados por onde passavam.
Chega de Saudade...
Falar de Vinícius é
sempre motivo de paixão. Lê-lo, estudá-lo
ou re-ouvi-lo são coisas de enorme prazer e muita saudade.
Saudade de alguém lindo demais, grandioso demais, amado
demais pra não ser festejado, sempre. Viva
Vinícius de Moraes ! Para sempre, nosso
eterno Poeta do Amor, do Violão, do Mar, do Rio e das
Mulheres ! SARAVÁ, VININHA! Sei
lá, sei lá, só sei que é preciso
paixão...
O Canal Brasil aproveitou a
data e programou o tocante documentário de Miguel Faria
Jr. em homenagem ao Poeta. Se você ainda não
viu, vá à locadora mais próxima e alugue
o DVD, ou tenha o seu na filmoteca. É imperdível
! E se quiser saber mais sobre Vina, visite o site www.viniciusdemoraes.com.br
ou leia nossa crônica em Objetiva... |
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Sangue
em Batismo Magistral de Cinema
* Aurora Miranda Leão
O
confronto entre o sonho e a realidade poucas vezes foi tão
forte no país como no assombroso tempo da ditadura.
Por isso, muitos preferem ignorá-lo e as novas gerações,
quando pensam saber alguma coisa sobre essa época sombria,
acreditam-na quase branda - "Duro foi no Chile e
na Argentina..."
Para compreender bem a realidade,
melhor um mergulhar profundo na história. E se a história
nos chega através de uma grande obra literária,
tanto melhor. Ademais, quando esta obra é apresentada
pelo viés cinematográfico, aí o mergulho
torna-se ainda mais forte, intenso, incisivo. É assim
com este Batismo de Sangue, filme do corajoso
cineasta mineiro Helvécio Ratton, baseado no contundente
livro homônimo de Frei Betto.
A história enfoca a participação
de frades dominicanos na luta clandestina contra a ditadura
militar, é baseada em fatos reais e passada no Brasil
e na França. De um lado, jovens idealistas sonhando
mudar o mundo. Do outro, militares e policiais agindo sem
limites. Em salas de todo o país, o filme teve pré-estréia
nacional em Fortaleza (com precioso apoio do Instituto Frei
Tito de Alencar e do Banco do Nordeste do Brasil), terra natal
do protagonista, o dominicano Frei Tito de Alencar Lima, vivido
na tela pelo ator Caio Blat, o qual empresta
ao personagem invejável carga emocional, alternando
momentos de dor lancinante com passagens de extrema sutileza
de sentimentos, gestos, expressões e matizes psicológicas.
Caio tem atuação digna de qualquer prêmio
para um Grande Ator, seja de que nacionalidade for.
No elenco, em nível interpretativo
tão contundente quanto o de Caio, estão Daniel
de Oliveira, Cássio Gabus Mendes, o músico Marku
Ribas, Ângelo Antônio, Murilo Grossi, Renato Parara,
Jorge Emil, a querida Marcélia Cartaxo (atriz paraibana
notabilizada desde sua excelente atuação em
A Hora da Estrela, de Suzana Amaral), e os estreantes Leo
Quintão e Odilon Esteves.
No roteiro (um dos pontos altos
do filme), Helvécio contou com a preciosa colaboração
de Dani Patarra (sobrinha de um ex-editor da revista Realidade,
publicação emblemática daquela época).
Na fotografia e câmara, o mestre Lauro Escorel. O inglês
Adrian Cooper na Direção de Arte faz miséria
- quase um filme dentro do filme consegue alcançar
este craque com seu meticuloso trabalho, sobre o qual diz:
"A integração da equipe, a compreensão
da importância do filme, o entusiasmo e a disposição
de superar as dificuldades, apesar dos obstáculos,
transformaram um trabalho de difícil realização
em um prazer. O resultado disso está na tela. O prazer
está guardado no coração". O time
vai-se completando com Sérgio Penna (preparador de
elenco), Mair Tavares (montagem), Marjorie Gueller e Joana
Porto nos figurinos, Vavá Torres na maquilagem, Marco
Antônio Guimarães na música, José
Moreau Louzeiro e David Miranda no som, produção
executiva da Quimera (Guilherme Fiúza e Tininho Fonseca)
e distribuição da Downtown Filmes. Após
juntar nomes tão expressivos e de reconhecido valor
em áreas tão vitais à Sétima Arte,
difícil não tecer uma série de rasgados
elogios ao filme-denúncia de Helvécio Ratton.
Um filme necessário, fundamental, um documento histórico
da maior relevância, feito com apurado senso de qualidade
e com profundo respeito ao depoimento autobiográfico
tão bem redigido pelo intrépido Frei Betto.
Batismo de Sangue
causa impacto desde sua abertura. Daí por diante, cena
a cena, é só soco no estômago,
atuações primorosas, excelência na maquilagem
e na direção de arte. Tudo concorre para prender
o espectador, conduzido por um roteiro desenhado de forma
gráfica para melhor retratar a violência (aviltante
e imperdoável) daqueles tempos nem tão distantes.
Segundo Ratton, desde o início sua intenção
foi mostrar "com clareza absoluta como a tortura foi
pesada no Brasil. Era nosso dever mostrar como um fato histórico
dos mais importantes (a morte de Marighella) foi pesado para
os frades envolvidos". É a primeira vez na qual
o Cinema Brasileiro mostra de forma tão pertinaz a
Fé como instrumento ativo de mobilização
em defesa da Liberdade, da Justiça Social e do Direito
de Expressão. E uma das mais belas e expressivas cenas
é justamente a da missa nas celas do Dops - biscoito
e refresco de morango simbolizando a hóstia e o vinho
sagrados, uma eucaristia celebrada do início ao fim,
juntando frades dominicanos, carcereiros e comunistas (supostamente
ateus). Tocante demais, sobretudo pela naturalidade com que
acontece, a simplicidade dos oficiantes e a adesão
silenciosa e contrita de todas as celas, ácme da superioridade
da Fé sobre qualquer outra força, ainda seja
em ambiente anódino, fétido, execrável.
Para conferir maior realismo
ao filme (sem dúvida, o melhor de sua carreira até
aqui), Helvécio fez questão de contar com uma
invejável preparação técnica por
parte de sua equipe de maquiladores (a quem ofertamos todos
os maiores aplausos), realizando estudos detalhados na Medicina
Legal sobre a evolução de feridas provocadas
por vários tipos de instrumento ao longo do tempo.
Antes do início das filmagens, os testes de maquilagem
foram submetidos à avaliação desses médicos,
os quais os aprovaram enfaticamente. Nesse viés, é
claro, todos os cuidados também foram tomados para
evitar aos atores ferimentos durante as intensas cenas de
violência. O dublê mexicano Javier Lambert ensinou
como "apanhar" enquanto havia um stand-in para
cada ator. Mesmo assim, Caio Blat acabou sendo golpeado de
verdade em várias ocasiões.
Na tela, percebe-se sincera
autocrítica às estratégias adotadas pelas
lideranças na luta contra a repressão, conforme
avalia o diretor: "Acho que através do filme,
apresentamos um olhar autocrítico, uma crítica
ao nosso sentimento de onipotência da época,
mas sem jamais renegarmos tudo aquilo que fizemos e conquistamos
com nossa luta". Para melhor inspirar-se, Helvécio
revisitou o cinema político daqueles tempos e enfatiza:
"Batismo é um filme do século
XXI, mesmo narrando incidentes de 30 anos atrás. Fiz
este filme para os jovens de hoje com todas as evoluções
narrativas e estéticas que o Cinema alcançou
nestas últimas décadas".
A grandeza do filme expressa-se
por um somatório de agudas potencialidades: roteiro
preciso, maestria da Direção de Arte, competência
do elenco, maquilagem irretocável, e, sobretudo, pela
ousadia de expor tema tão pungente da vida nacional
numa orquestração de qualidades capaz de extrapolar
sua própria concepção ao propor também
uma discussão correlata, e muitas vezes calorosa, sobre
o engajamento social na sociedade contemporânea: "Se
o filme servir para chamar a atenção das gerações
mais novas para a importância da mobilização
coletiva por um ideal, já ficarei satisfeito",
afirma o diretor.
E nós fechamos: Batismo
de Sangue é um filme obrigatório para
estudantes de todas as idades, cinéfilos, jornalistas,
historiadores, sociólogos, humanistas, cidadãos
enfim. Uma aula de Ótimo Cinema, uma revisão
contundente do passado nacional e uma preciosa lição
de Ética, Fé e amor à Vida.
Frei
Betto - No livro e na Tela
"Se
hoje vivemos em um país democrático - mesmo
que esta democracia precise ser aperfeiçoada -, é
justamente em função da semente que plantamos
naquele período e se deve ao sangue derramado pro vários
companheiros e companheiras que morreram, foram assassinados,
exilados ou desaparecidos pela repressão".
Dominicano,
jornalista, filósofo, antropólogo e teólogo
mineiro, Frei Betto é o autor de Batismo de
Sangue, livro lançado em 82 e premiado em
85 com o respeitado prêmio Jabuti como Melhor Livro
de Memórias, no qual se baseia o filme de Helvécio
Ratton. O livro, hoje em sua 18a edição, tem
traduções para o francês e o italiano
e é considerado um dos clássicos da literatura
brasileira do século XX. Por conta do filme, Batismo
de Sangue está sendo lançado em nova
edição pela Rocco, agora trazendo fatos e nomes
antes omitidos por conta da repressão.
Frei Betto escreve semanalmente
para jornais e revistas de todo o país e tem 54 livros
publicados. Escritor por vocação, convicção
e extrema competência, Frei Betto transmite uma invejável
paz de espírito e contagia com seu jeito simples, sereno
e espontâneo de conversar com quem quer que seja. Não
à toa, é festejado por onde passa.
Com relação ao
livro, diz não ter se preocupado como ficaria sua obra
na tela, até porque sabe das diferenças de linguagem
conforme cada veículo de expressão. E confessa-se
completamente encantado com o filme: "Helvécio
Ratton foi além do meu livro. O resgate que fez daquela
época, dos nossos ideais, das nossas utopias, da nossa
luta e do nosso sofrimento é algo que me toca profundamente.
Quando ele me convidou para acompanhar o desenvolvimento do
projeto e do roteiro, respondi: 'Filme é filme, livro
é livro. Quero que faça uma recriação,
não pretendo interferir'. E de fato procurei ficar
o mais distante possível. Pois agora que vi o filme
diversas vezes, estou certo de que Helvécio fez uma
grande obra de arte e fico extremamente emocionado ao ver
aquela história na tela. Diria que o filme reproduz
a violência da repressão como nenhum outro -
e se nosso governo não abre os arquivos da ditadura,
a arte brasileira o faz. Nesse sentido, o filme de Helvécio
é primoroso, escancarando os crimes da repressão
ao mesmo tempo em que os contrapõe à nossa utopia
e à nossa Fé. Este é um filme impregnado
de espiritualidade, de religiosidade demonstrando que a Fé
é plenamente compatível com a luta pela justiça
- até porque nós, cristãos, somos discípulos
de um preso político: Jesus foi preso, torturado, condenado
à pena de morte e crucificado. E o fato de ter ressuscitado
é a garantia de que, no fim das contas, a vida prevalece
sobre a morte". |
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Céu
de Evidência Solar Denuncia Desamor
* Aurora Miranda Leão
Karim
Aïnouz terá o nome cada vez mais forte no Cinema.
Pra nós, seus conterrâneos, isso é motivo
de alegria e orgulho.
João Moreira Salles
e Sérgio Machado foram os primeiros a falar-me sobre
Karim, palavras sempre elogiosas e de carinho. Portanto,
o nome de Karim nunca me passou despercebido e sempre tive
vontade de conhecê-lo de perto. Assim foi quando do
lançamento em Fortaleza deste premiado O
Céu de Suely, segundo longa do conterrâneo.
Até aqui, depois de
pouco mais de dois meses do lançamento do filme,
já são 10 prêmios, entre nacionais e
internacionais. O filme justifica todos eles. Uma pequena
jóia da cinematografia mundial. Na produção,
Walter Salles e Maurício Andrade Ramos - estes têm
produzido alguns dos melhores filmes brasileiros dos últimos
anos. Sabem em quem apostam e apostam com a maior competência.
Cônscio de onde quer
chegar, e sem desviar-se em nenhum momento de seu foco,
Karim realiza um filme simples, sem grandes artesanias visuais,
opta por filmar numa cidadezinha do interior cearense, convida
para fotografar o festejado Wálter Carvalho (!) e
reúne um time de desconhecidos para dar vida à
história de Hermila, uma cearense cuja paixão
lhe acena ainda muito jovem, daí a saída de
casa quase adolescente para viver "o grande amor da
sua vida" na cidade grande, fugindo da falta de perspectivas
engessantes e tão próprias a quem vive em
cidades distantes dos grandes centros urbanos (as exceções
confirmam a regra). Todos esses, ele entrega a Fátima
Toledo, nome de imediato associado a grandes atuações
no nosso Cinema - vide Carandiru e Cidade Baixa,
para citar apenas alguns. Em conversa com Zezita
Matos e através de leituras e matérias
televisivas, sei: o trabalho com Fátima é
extenuante mas produz resultados precisos, o mais das vezes
impensável até pelos próprios intérpretes.
Dói, ameaça mas conduz ao ponto necessário
a qualquer ator: entregar-se ao personagem de corpo e alma,
sem questioná-lo mas absorvendo dele as mínimas
pulsações, chegando a incorporar como suas
as emoções, gestos, trejeitos, idiossincrasias
e até a respiração do personagem. Pra
bom entendedor: ser ator e estar entregue às mãos
e a sensibilidade de Fátima Toledo é como
um mergulho no escuro, sem medo de errar, mas certos de
encontrar na volta um mar de águas tranqüilas
e cristalinas, propício a grandes saltos e braçadas
relaxantes.
Portanto, ao entregar o elenco
à Fátima, Karim já começou acertando.
E foi mais além: ousou e convidou Hermila
Guedes, Georgina Castro (também
cearense), João Miguel, Maria Menezes e Zezita
Matos para protagonizar sua segunda investida num cinema
autoral do mais alto nível. De quebra, o
elenco conta ainda com a magnânima Marcélia
Cartaxo (soberba em breve mas definitiva cena),
os cearenses Cláudio Jaborandi e Ana Marlene,
e Flávio Bauraqui - ótimo como único
personagem a esboçar revolta quanto à proposta
de rifa ofertada por Hermila...
Caísse na tentação
de analisar cena por cena e talvez tomasse espaço
demais. Ou então poderia deixar de fora algum detalhe
importante. Ater-me-ei, portanto, as mais tocantes ao meu
ideário sentimental. Vamos aos registros fundamentais:
o olhar de Hermila, sempre triste, ainda quando
pretenda esboçar alegria. Mesmo nos momentos
ao lado de Georgina - refresco n'alma -, quando dança
na noite ou cai nos braços de João Miguel
- ainda assim lhe vai na alma é a tristeza pelo abandono
de Matheus, o não entender nunca a "separação"
sem sequer um aviso, uma despedida, um motivo concreto...
Este o dado mais forte da impressionante atuação
de Hermila: a capacidade de transmitir com gestos, olhares,
respiração e postura a dor do abandono injustificado,
do amor não correspondido, do tempo inutilmente desperdiçado,
do saber-se desimportante na vida de quem se imaginou construir
vida longa em parceria, da constatação do
quão foi em vão o filho, a saída de
casa, o amor intempestivo, a paixão louca, o entregar-se
sem pensar no amanhã. Ao definir este sentimento
como o mais forte da personagem e de todo o filme, Karim
arriscou-se pois não é nada fácil transmitir
emoção tão dolorosa e tão conhecida
de tantos sem cair no exagero, no pieguismo, no melodrama
ou na compaixão fácil. O cineasta
conseguiu essa façanha com a delicadeza necessária
a tornar ainda mais eloqüente sua mensagem sub-reptícia
porque como se cravasse n'alma a certeza de ninguém
estar livre do mal da decepção amorosa, uma
das maiores dores capazes de afligir o ser humano.
E essa dor lancinante, misto da convicção
do abandono e do desamor, perpassa o filme inteiro através
da interpretação contundente da pernambucana
Hermila Guedes.
Um resumo disso pode ser traduzido
na cena onde João Miguel e Hermila caminham ao sol
escaldante da cidade, ela à frente, passos largos,
fugindo do desespero do amor interrompido; ele atrás,
aflito, querendo escancarar seus sentimentos sem entender
porque o amor é tanto mas incapaz de fazer a amada
esquecer o amante fugidio... A cena acontece por entre trilhos
de trem, simbólicos da vida aprisionada de Hermila
- ela ainda almeja reencontrar Matheus, mas as dificuldades
do cotidiano sem perspectivas de sobrevivência menos
carente lhe apontam o caminho arenoso da prostituição
para alicerçar sua busca por dias melhores em outros
céus. Hermila sonha é em arranjar dinheiro
suficiente para não ser mais uma a viver com as dificuldades
tão próprias da gente de sua cidade, como
esboçam o dia-a-dia de Maria e da avó (aplausos
entusiásticos para a soberba atuação
de Zezita Matos).
A chegada e saída
de Hermila do seu árido Iguatu são outros
momentos de forte significado. Início do
filme, foco na placa à entrada da cidade (Aqui
começa Iguatu): Hermila com o bebê dentro
do ônibus, angústia ilusoriamente amenizada
pelo cigarro, divide-se entre a tristeza pelo distanciar-se
do pai do garoto e breve satisfação por poder
voltar à terra natal, rever os parentes queridos,
aplacar um pouco as dores a corroer quem opta por fincar
a árvore distante do solo seminal. Ao final, igualmente
num ônibus, sutil esboço de esperança
a alimentar sua partida em busca de vida nova na cidade
grande. Em direção ao ônibus, vem João
Marcelo na moto, apaixonado, tentativa vã de demolir
da cabeça de Hermila o desejo de deixar Iguatu mais
uma vez - foco na outra placa (Aqui começa a
saudade de Iguatu)... Tanto na cena inicial como no
desfecho, Karim aproveita para reafirmar seu apreço
pelo Ceará, olhar sempre atento às coisas
de sua terra natal, uma melancolia às vezes machucante
mas necessária, a saudade cotidianamente companheira...
As placas à entrada e saída de Iguatu são
recados de Karim à família, aos amigos, aos
conterrâneos, como a dizer "Eu precisei ir em
busca das melhores condições pra exercer meu
ofício mas a saudade caminha comigo, sempre".
Por esse olhar tão
amoroso e delicado, Karim realizou uma obra onde o grande
tema é o desamor. Captou com precisão a dor
dilacerante de quem é abandonado pela pessoa amada.
Ótimos os momentos entre Georgina e Hermila - as
duas conseguem invejável espontaneidade... Exponencial
a cena na qual Hermila vai visitar a sogra, bebê nos
braços, e esta lhe recebe com frieza tão desconcertante
como a aridez do lugar onde vive. O pequeno toque da geladeira
nova na casa da sogra - "Matheus mandou o dinheiro
há uma semana" - é de uma eloqüência
ímpar: tão fria como o objeto novo récem-adquirido
para a casinha pobre cravada em meio ao sol inclemente do
sertão nordestino, a fala da mulher é como
uma faca amolada no peito de Hermila. Reveladora do presente
ganho do filho distante, a fala de Marcélia é
tão gélida como os sentimentos desta e do
filho Matheus para com Hermila. Esta ainda pergunta: "A
senhora acha justo eu criar o menino sozinha?" - E
ouve como resposta: "Você queria o que ? Meu
filho tem apenas 20 anos... você sabe o que significa
isso na vida de um homem..."
Acaso é diferente os
20 anos na vida de um homem e na vida de uma mulher? Na
cabeça de quem foi criado no sertão, ou dos
que pouco acesso têm/tiveram a quaisquer níveis
de escolaridade, isso é diferente mesmo - até
quando ? Por conta dessa mentalidade tacanha, atrasada,
sem sintonia com a realidade, até hoje, em pleno
Terceiro Milênio, costumamos ler escabrosas notícias
de mulheres assassinadas por maridos, amantes e até
ex-namorados. Mesmo quando não querem mais, eles
se acham donos da "companheira". E haja delegacia,
instituições, entidades e psicologia pra defender
as mulheres... Até quando ? Como diria Vininha: "A
mulher foi feita pro amor e pro perdão, cai nessa
não, cai nessa não..."
Pra terminar, o registro nos
agradecimentos ao querido amigo Aluizio Abranches, bem como
ao trabalho de Bia Almeida, do cearense Armando Praça
e da paraense Patrícia Baía (assistência
de direção e produção de arte)
- ambos premiados roteiristas residentes no Ceará
- a competente trilha sonora (Berna Ceppas), o adequado
figurino. Tudo colocado na medida adequada para
melhor traduzir em imagens, gestos, expressões, silêncios
e sinais nem sempre aparentes a inaceitável constatação
do quão pouco vale um grande amor se é diminuta
ou imperceptível a forma pela qual ele é recebido.
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Para
Não Desbotar da Memória das Nossas Novas Gerações
* Aurora Miranda Leão
Zuzu Angel,
filme de Sérgio Rezende, inscreve-se não só
como um dos melhores filmes de 2006 ano mas como um dos mais
importantes filmes da Cinematografia Brasileira.
Patrícia
Pillar aproveita com maestria a oportunidade de exprimir-se
em toda a sua amplitude interpretativa: comove, assusta e
promove a adesão total do espectador à causa
tão nobre perpetrada por Zuzu, símbolo máximo
da dor vivenciada num tempo página infeliz da nossa
história...
Se outros méritos não
tivesse, só por "revelar" a tantos a barbárie
emocional vivida por esta mulher, Sérgio Rezende, sua
produção e seus patrocinadores já mereceriam
louvores. Ademais porque, apesar de história tão
dolorosa, foi capaz de criar cenas de lancinante beleza -
como as de Zuzu-Patrícia esvaindo-se em dor pelos vidros
da sala e na banheira, além da expressividade da presença
dela ao final do desfile onde surge, Dama Negra, foto do filho
desaparecido nas mãos - inscritas agora nos anais do
cinema.
Sérgio vai muito além
do registro histórico e consegue criar uma atmosfera
de silêncios, sustos, tensão subjacente, sem
deixar de mostrar a Zuzu refinada, de extremo bom gosto, dedicada
aos filhos e vocacionada para a Paz e a Justiça. Através
de pequenos detalhes, o cineasta denuncia sua intimidade com
o tema e proporciona um espetáculo fílmico de
força avassaladora. Escolhe a ordem interrompida para
melhor conduzir-nos pela trajetória de Zuzu (o roteiro
muito bem armado por Sérgio e Marcos Bernstein é
outro trunfo, idem a competente câmara de Kika Cunha).
O foco na fruteira de cristal antiga sem fruto algum, na mesa
vazia de apartamento simples mas bem decorado, impregna o
olhar num misto de simplicidade e afirmação
do momento prenhe de indagações. A tomada inicial,
belíssima fotografia da baía de Guanabara, e
os takes seguintes fundindo o apreensivo rosto de Zuzu saindo
do apartamento, o carro na estrada Rio-Minas, ela com antigo
gravador a registrar toda a sua agonia - gravação
amedrontada mas consciente da importância do registro
para a posteridade -, a ida à casa do amigo Chico para
deixar a carta decisiva, a cena do "tenente" descendo
a enorme escadaria esmaecida e a queda do revólver
como ápice, além do final ao som da bela e dilacerante
canção de Miltinho e Chico Buarque para a Angélica
dos anjinhos pretos, são indícios de um diretor
maduro, que sabe o terreno em que pisa, porquê pisa
e como pisa. Apaixonado por música, Sérgio entrega
a Cristóvão Bastos a trilha, encaixe perfeito,
sobretudo na cena do acidente no qual se ouve a lendária
Apesar de Você. Chico Buarque, Nosso Artista
Soberano, mais uma vez está presente como genial criador
e ser político-social dos mais necessários,
dignidade invejável. É aquele que,
apostando numa causa, consegue adesão imediata tal
seu carisma e respeito construído ao longo de anos
de uma estrada conseqüente, aguerrida, iluminada, daí
o amplo respaldo junto ao imaginário nacional de Justiça
e Solidariedade. Como se em uníssono, ecoássemos:
"Chico apóia ? Então eu também apóio".
Agora vamos ao elenco, onde
todos estão bem: Camilo Bevilácqua protagoniza
um preciso tom inicial, fazendo antever o martírio
a ser vivido pela estilista, ao lado de um não menos
expressivo Antônio Pitanga. Nélson Dantas, Paulo
Betti e Ivan Cândido, atores de inegável sensibilidade,
em pequenas aparições, mostram o porquê
do prestígio alcançado junto à crítica
especializada. Alexandre Borges, participação
especial como advogado de Zuzu, destaca-se com atuação
comovente sobretudo na cena do Tribunal - onde também
é marcante a presença de Tião D'Ávila.
Outra geração
é representada por Caio Junqueira, magnífico
na expressão de dor pela perda do companheiro, amigo
leal e querido. Difícil expressar o impacto da cena
na qual "Alberto" e "Paulo" são
torturados juntos: de uma plasticidade dilacerante os dois
pendurados, nus, socos e pontapés no pau-de-arara,
esfregão de sal na cara, a violência deplorável
vivida por jovens em busca de justiça social e liberdade...
Flávio Bauraqui mais uma vez afirma-se uma das gratas
revelações deste momento fértil do nosso
Cinema. Num personagem de matizes várias, acerta em
todos os momentos e é um dos responsáveis pela
credibilidade inegável deste filme-denúncia
de Sérgio Rezende. A atuação de Aramis
Trindade é de longe uma das melhores coisas do filme.
O ator pernambucano (magnífico em outros trabalhos
bem diversos como no curta Bala Perdida e em A
Máquina ), reafirma-se um dos maiores da nossa
cena.
Portanto, você que ainda
não viu Zuzu, pode ter
certeza: se não o fizer, estará sabotando você
mesmo por negar-se a ver obra de tamanha relevância
sócio-histórico-política para o país
e, sobretudo, de força humanitária incomum.
Se você já viu, sabe do que estou falando. E
se viu e discorda de mim, tudo bem ! Você pode até
não gostar de algumas cenas, de um ou outro foco privilegiado
pelo diretor, antipatizar alguém do elenco, mas você
jamais poderá afirmar estar diante de uma obra menor,
de um elenco incompetente, de um diretor insensato ou que
não conhece o ofício.
Cá entre nós,
Zuzu Angel é Cinema dos Melhores!
Um orgulho para nossa cidadania, um brado de civilidade e
uma grata satisfação saber da história
de Zuzu enfim à disposição do grande
público. Parabéns a Sérgio Rezende e
a toda a equipe e um abraço comovido em Hildegard Angel,
exemplo estóico de filha, mulher e ser humano, a quem
muito se deve a concretização deste Zuzu
Angel, libelo humanista pra lembrar aquela que pagou
com a vida o preço de buscar respostas para a morte
do filho. |
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Pra
que a Alegria Vire Moda
* Aurora Miranda Leão
A
Máquina, baseado no romance de Adriana Falcão,
marca a feliz estréia de João Falcão
como diretor de Cinema. O filme já começa muito
belo, vibrante, com vigorosa interpretação de
Gustavo Falcão dominando
a tela e pouco a pouco tomando o coração da
platéia. Tive o enorme prazer de conhecer o filme em
sessão especial em Goiânia, durante a primeira
edição do Festival de Cinema promovido pela
Prefeitura Municipal com curadoria de Débora Torres.
E meu prazer foi maior porque assisti ao filme ao lado do
protagonista, Gustavo Falcão,
ator a quem só conhecia de nome e por fotos de jornal.
Com ele, ri, me emocionei e me envaideci por sabê-lo
nordestino como eu, danado de bom, cujo berço interpretativo
foi construído no Teatro, enigma encantador e fascinante
para todos nós, atores. E aí está a explicação:
por ter sido gerado na fonte mais pura da Interpretação,
Gustavo consegue alcançar com maestria invejável
o patamar interpretativo arrebatador de toda a imensa platéia
presente ao Cine Lumière naquela quarta-feira goiana
de muita vibração e alegria contagiantes. Olhando
Gustavo, quase me belisquei sem acreditar: estava sentada
ao lado de um exemplo de simplicidade e despreendimento, a
esconder um ator de talento excepcional.
João
Falcão teve seu talento revelado através
da TV Globo. Roteirista e diretor, egresso do teatro, João
é também o responsável pela mudança
para o Rio de um grupo de atores nordestinos, todos ótimos:
Lázaro Ramos, Wagner Moura, Wladimir Brichta, Gustavo
Falcão, Aramis Trindade e Zéu Britto. Na capital
carioca, por cinco anos, eles apresentaram o espetáculo
A Máquina, nascido do romance homônimo
de Adriana Falcão, mulher de João, e lá
a tevê os descobriu. Em pouco tempo, começaram
a fazer participações em programas globais e
a empatia com o público foi quase imediata. Então,
em boa hora, este danado João resolveu transpor A
Máquina para o cinema e o filme torna-se ainda
mais valoroso por tratar-se do primeiro. João
Falcão conseguiu realizar um dos mais significativos
e belos filmes brasileiros dos últimos anos, filme
para atravessar gerações arrebatando platéias,
com louvor. A MÁQUINA JUSTIFICA QUALQUER
IDA AO CINEMA. O filme deverá ser um dos grandes êxitos
do cinema brasileiro este ano. Além de super bem produzido
e com uma direção hiper competente, faz enorme
bem à alma assisti-lo, leve, pra cima, sensível,
irônico, crítico, reflexivo, imperdível.
Sem dúvida, um dos mais belos filmes já feitos
no país.
Gustavo
Falcão faz o mesmo papel de Paulo
Autran, igualmente fabuloso, separados por um intervalo
de 50 anos. Os dois contracenam em pé de igualdade.
Um luxo sem tamanho reunir dois atores de gerações
tão diferentes e de talentos tão semelhantes.
Sem dúvida, este dado é essencial para o ESPETÁCULO
fílmico de João Falcão.
Difícil comentar este magnífico A Máquina
tendo-o visto apenas uma vez, sem medo de estar
esquecendo algum detalhe. Mas às vezes os riscos são
necessários. A história de A Máquina
é ambientada numa pequena cidadezinha do sertão,
a pacata Nordestina, onde vivem os apaixonados Antônio
e Karina. Acontece de ela estar cansada do marasmo e do dia-a-dia
sempre igual. E Antônio resolve sair de lá em
busca de novos rumos para trazer as notícias do mundo
pra ela, a fim de que a amada não se perca dele, não
o largue nunca. O tempo inteiro, o olho gruda na tela e as
emoções vão grudando na alma, sucedendo-se
sem perder em qualidade nem gradação. Supimpa!
Sutil, inteligente, vibrante,
perspicaz, audacioso e intensamente belo este filme de João
Falcão. O diretor constrói um imenso
leque de possibilidades cinematográficas, descortinando
ao longo da história um mundo novo e completamente
impactante para o personagem Antônio, cuja trajetória
começa a ser desenhada partindo de expressivo quadro
na parede, o qual adquire movimento em belíssima tomada,
na qual ele e a mãe (a ótima Fabiana
Karla) se comunicam numa cumplicidade de dar inveja...
Mas o ápice do desempenho de Gustavo acontece quando
Antônio participa de um programa televisivo, onde concede
entrevista a um apresentador cuja única preocupação
são os números do Ibope. Este tem em Wagner
Moura o intérprete sempre iluminado e a cena
dá o mote para Gustavo exibir todo seu enorme potencial
interpretativo. Gustavo compõe de forma visceral o
Antônio, sobretudo no momento de maior exigência,
o Monólogo da Audiência ou o
Discurso da Tevê, acme da maestria
do texto de Adriana, da direção de João
e da capacidade interpretativa singular de Gustavo Falcão.
Um banho de talentos pernambucanos unidos numa exponencial
realização cinematográfica, filme com
capacidade para ser uma das grandes bilheterias deste 2006
de início tão promissor para a SétimArte
Brasileira. A Máquina é, antes
de tudo, isto: a exacerbação da criatividade
artística em todos os níveis. A começar
pela grandiloqüente Dramaturgia de Adriana Falcão.
Por conta das filigranas da criação dela, inspiradora
da direção acurada de João, o elenco
tem nas mãos o sumo da argila preciosa a lapidar, apropria-se
do texto tornando-se dele co-autor e atua como confidente
de João. Aí não tem outro caminho: é
bola na rede o tempo todo. Humor, alegria, reflexão
existencial, paixão, crítica social, tem de
tudo em A Máquina. É possível
rir, chorar, se emocionar de todas as formas, na mesma proporção.
Um achado fabuloso o nome do conjunto responsável pelo
lindo Baile de Máscaras em Nordestina. É o The
Sconhecidos... Essa cena, aliás, é Qualquer
coisa além da Beleza, como diria meu adorável
Vinícius de Moraes. Há também
frases onde a simplicidade e o profundo dão as mãos
em invejável sintonia: “E não tinha medo
de fugir do perigo...”; “ O amor zomba dos anos...”;
"Não se avexe não que tudo pode acontecer,
inclusive nada”... E o “dueto” de Gustavo
e Wagner Moura (outro excepcional ator da nova geração)
já seriam suficientes para estarmos diante de um grande
filme. Pra nós, amantes e fazedores teatreiros, é
uma enorme satisfação constatar: todos os atores
são crias do Teatro. E ouso afirmar: por isso mesmo,
estão todos magnânimos. À mesa com o Antônio
envelhecido (Paulo Autran), Wladimir Brichta, Lázaro
Ramos, Zéu Britto, Aramis Trindade, todos
enfim, encharcam a tela de verdade cênica. Desnecessário
apontar melhores. A cena é grandiosa porque todos estão
harmoniosamente exímios nos difíceis mistérios
da criação stanislaviskiana. Quem nutriu-se
dessa fonte, utiliza-se dela mesmo quando não sabe
disso. Contagiada a platéia, confirma-se a sensibilidade
aflorada por esse tênue condão emocional com
que se bordam as teias da interpretação dos
grandes Atores. Destaque também para a ótima
participação de Prazeres, atriz
pernambucana convidada a viver Prazeres na tela. E para a
trilha sonora, que tem até música composta especialmente
por Chico Buarque.
Indagações sobre
o tempo e as alterações por ele provocadas na
vida de cada um, refinada e incisiva crítica à
sociedade midiática na qual vivemos todos, muitos agindo
como amorfas marionetes, uns mais outros menos teleguiados,
e um clima contagiante de festa e alegria sem pudor são
os grandes trunfos de A Máquina. A
crítica torna-se mais contundente e inconteste na medida
em que João é um dos mais festejados diretores
da emissora de tevê de maior audiência e em tudo
que faz deixa a marca da criatividade, da ousadia, da riqueza
de caminhos artísticos. A Alegria tem um layout de
festa permanente e o sol colorido do Nordeste espraia vida
e sensualidade na tela (excepcional
a fotografia do Mestre Wálter Carvalho!),
convida a festejar sem parar e tudo funciona além do
combinado, como se pudéssemos deter o tempo e reprisar
os melhores momentos, temperando tudo com gostinho de brincadeira
popular encenada nos enormes quintais da infância sem
violência de outrora, capaz de
nos transportar até o tempo cantado por Chico quando
ele brincava de cowboy, rei, bedel e juiz e onde “a
gente era obrigado a ser feliz”.
Mas A Máquina
é muito mais que isso. É uma prova inconteste
de que se pode ser absolutamente popular com extremo refinamento
e poder de reflexão crítica. Um show
de João Falcão e de toda a equipe, a quem aplaudo
com efusão. |
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O Brasil
Profundo e Intenso de Lili Caffé
* Aurora Miranda Leão
Narradores
de Javé,
disponível nas locadoras, coleciona numerosa lista
de prêmios: no Festival de Cinema de Recife foram 9,
três no do Rio, roteiro premiado na Suíça,
dois prêmios em Bruxelas e boa acolhida em Bogotá
e na Mostra de São Paulo. Basta ver o filme para concordar:
as premiações foram acertadas e o filme as dignifica.
Segundo longa da cineasta (paulista
do Nordeste) Eliane Caffé, Narradores
ganha fácil a adesão do espectador. O
enredo é simples: uma pequena localidade do interior
nordestino, Javé, será inundada pelas águas
e a única forma de evitar ali a construção
de uma represa é descobrir nela algum valor que justifique
argumentá-la como Patrimônio.Aí o mais
letrado do lugar, Zaqueu, interpretado por Nélson Xavier,
argumenta: só as histórias dos moradores de
Javé poderão salvá-la. E aceita sugestão
de Firmino,vivido com maestria pelo cearense Gero Camilo:
fossem procurar Antônio Biá (José Dumont,
monumental!). Só ele poderia escrever as histórias
de Javé, desde o tempo de sua fundação
até os dias atuais. Afinal, Biá era funcionário
dos Correios e só não perdeu o emprego porque
teve a idéia de escrever cartas, de um morador pra
outro, reavivando o trabalho da instituição
e garantindo seu emprego.
Pois bem, história tão
simples e despretensiosa, começa ao som contagiante
do DJ Dolores. E você é tomado de cara e ouvido
pelos criativos créditos de Carla Caffé passando
ao som do contemporâneo DJ sergipano de Pernambuco.
Aos poucos o enredo vai sendo construído, Nélson
Xavier na batuta, até surgir Matheus Nachtergaele,
ator que por si só recomenda qualquer ida ao cinema,
sempre outro a cada novo papel. E aos poucos vão “aparecendo”
os causos javélicos. Biá aparece para o público
com aviso pregado rente aos olhos: é “intelectuário
e alcóolatra”. Na casa dele, é proibida
a entrada de analfabetos.
Mas ao saber da possibilidade
de figurar na heróica história de Javé,
cada habitante vai revelando interesse maior em constar do
“livro de ouro” . Assim vão-se tecendo,
de forma leve, graciosa e prazenteira, os fios desta engenhosa
criação de Lili Caffé e Luís Alberto
de Abreu.
Cada morador acha sua história
a mais interessante. Assim somos todos nós, javélicos
também, ao achar nossa história sempre melhor
que a do vizinho. O barbeiro quer permutar com Biá
vários meses de barba feita em troca de uma história
bem inventada e bem escrita. Ele, barbeiro, não tem
nenhuma história boa nem verdadeira para justificar
sua presença no livro. Mas há vários
outros, cada um tentando lembrar vivência mais bacana.
Esse desfilar de passagens históricas começa
com a narração do personagem de Nélson
Dantas – ótima atuação. E aos poucos
Biá vai perdendo sua privacidade, coisa comum entre
os que buscam a fama, e quando ela chega às vezes mais
importuna que oferece vantagens. Biá passa então
a viver fugindo de seus “narradores”, os quais
desde muito cedo estão à sua porta querendo
narrar os gloriosos feitos de Javé. Essas passagens
do filme nos vão revelando de forma competente, sutil
mas profunda e inequívoca, o quão é verdadeira
a máxima: estamos todos na vida em busca de uma maneira
de não passar por ela incógnitos. Como se a
cada instante nos apitasse a certeza de a vida ser muito para
ser vivida em tão pouco e a nós resta fazermos
qualquer coisa para não sairmos dela esquecidos. E
assim, a idéia de arranjar uma forma de se perpetuar,
ainda que nas páginas de um livro de duvidosa veracidade,
nas fotos de uma revista, plantando uma árvore, gerando
um filho ou criando qualquer coisa de valor, parece ser o
moto-perpétuo (pra não esquecer Kenoma,
estréia da cineasta em longa) ao qual vivemos presos
todos nós. É a finitude da vida quem comanda
o centro da roda. É a angustiante constatação
de nada sabermos sobre o pós-morte o cativador em todos
nós desta vontade constante, secreta, ou mesmo inconsciente,
de nos eternizarmos através de qualquer coisa que nos
pareça perene. A terrível, cruel e aflitiva
certeza de não superarmos nunca a dúvida ante
a Transcendência nos é revelada em filigranas
nas histórias bem humoradas, arquetípicas e
deveras teatrais dos moradores de Javé. Porque temos
todos uma única certeza, intensa e inexorável:
a de que mesmo os livros, as obras grandiosas, as fotos, os
filmes, os criadores, a natureza, tudo enfim, passa, termina,
quebra, desgasta-se. Até mesmo o sol, pronto a encerrar
seu ciclo daqui há alguns milhões de anos, deverá
acabar,dizem alguns.
Em Narradores
de Javé, a cineasta revela seu mérito
maior: juntar-se a grandes criadores e a outros tantos, anônimas
pessoas do povo, a quem oferece a chance de fazer bonito exibindo
talento, vocação e inteira credibilidade na
mão segura da diretora, por certo infatigável
em meses de estada na cidade baiana, conseguindo adesão
total dos moradores do lugar, os quais hoje lutam para mudar
o nome de Gameleira da Lapa para Javé. Reivindicação
mais do que justa, oxalá atendida por quem de direito.
Ressalte-se, a partir do exposto na tela, confirmando-se agora
com o desejo dos moradores de ver a cidade chamada por Javé,
o quão benéfica foi a passagem de Lili e toda
sua equipe pela localidade nordestina. Numa das últimas
cenas, eles choram com a proximidade do fim de Javé.
Choravam os anônimos “atores” por ser o
último dia de filmagem da equipe. Choravam artistas
e técnicos por trás das câmaras, me contaram.
A afeição gerada entre equipe e moradores é
constatada em cada cena. Juntando a todos esses seu talento
vigoroso e sua enorme sensibilidade, Lili Caffé
faz aflorar momentos de rara pureza interpretativa, permitindo
delinearem-se com facilidade dotes artísticos, costurando
todas as cenas como bilros numa almofada de renda:
o desenho final é sempre diferente, original, bonito
de ver e guardar com os olhos, o coração e a
alma. A começar por dividir a escrita com Luís
Alberto de Abreu, este exemplar Dramaturgo em quem o diálogo
verte como correnteza na beira do rio: de tão rico
e original,dá vontade de levar o roteiro pra casa.
Aí ela escolhe um protagonista do quilate de Zé
Dumont e desde então Narradores
de Javé já tem meio caminho andado para
ser uma grande obra. Ao lado dele, Nélson Xavier, Matheus
Nachtergaele, Gero Camilo, Rui Rezende, o saudoso Altair Lima,
Nélson Dantas, tendo ainda o mérito de revelar
talentos como o da paraibana Luci Pereira (justamente premiada
como Melhor Coadjuvante), e mostrar ao mundo outros tantos
como os veteranos Roger Avanzi e Orlando Vieira, em magistral
contraponto como os gêmeos sempre em pugna.
A cena mais forte, ápice
da atuação de Dumont, quando Biá, sem
mais agüentar a revolta dos moradores de Javé
contra a decisão dele de não mais escrever o
tal livro com as histórias do lugar e seus “fundadores”,
diz em alto e bom som para os conterrâneos, mais ou
menos assim: “Eu não vou mais escrever simplesmente
porque a história de Javé não vale nada.
Por mais que tenha de interessante, para ‘eles’
isso não quer dizer nada. A história de Javé
é igual a pó” – e pega areia no
chão, simbolizando a desimportância de Javé,
tão pobre, pequena e inóspita. A represa vai
chegar, é inevitável. É como se dissesse:
“As histórias de vocês, por mais que eu
floreie, não vão deter o avanço da construção
da represa...” E neste momento a voz do personagem,
escancarando verdade a doer como o sol escaldante do nordeste
em seca, é a voz dos (exímios) roteiristas Luís
Alberto de Abreu e Lili Caffé mostrando com invejável
contundência o quão pouco valem as pessoas, suas
histórias de vida, suas ações cotidianas,
suas vontades, raivas ou desejos, diante da força avassaladora
daquilo que chamam de progresso (?) Afinal, é sempre
em nome da construção de grandes obras e da
suposta chegada de uma benfeitoria que se vêm há
anos neste país destruindo tradições,
valores culturais, preciosidades artísticas, laços
afetivos e afins. É sempre o mais forte a ganhar, o
dinheiro sobrepondo-se às intenções mais
honestas, o inescrupuloso burlando leis e convenções,
o mais forte oprimindo o mais fraco. E é aparentemente
com uma história trivial, despretensiosa e muito bem
humorada que Lili Caffé reafirma sua imensa
vocação de contadora de histórias, acurada
sensibilidade cinematográfica e visão filosófica
das contradições e perplexidades existenciais.
Com Narradores de Javé,
Eliane Caffé nos brinda com momentos de humor comuns
ao dia-a-dia de qualquer comunidade, ao mesmo tempo em que
nos faz refletir sobre o imponderável da condição
humana e a urgente necessidade de se recontar a história
do Brasil por um viés mais humanista e menos preconceituoso.
É pelo viés do Brasil profundo, desigual, carente,
simplório e divertido desenhado em Narradores
de Javé (aplausos para a Direção
de Arte de Carla Caffé, irmã da cineasta) que
Lili nos indaga e nos foca o espelho: é imperioso cada
um de nós saber avaliar exatamente o que de grandioso
está fazendo em seu cotidiano para contribuir na construção
de um país mais fraterno, justo, leal e verdadeiro.
Vida longa, pois, para Narradores de
Javé e a estrada de Eliane Caffé no Cinema. |
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Todo
Sentimento
* Aurora Miranda Leão
Um
sonho recorrente, a morte anunciada, um acerto de contas
com o passado, o mesmo lugar onde morreu, nos braços
de outro, a fugidia amada. Uma jovem mulher, enigmática
e triste, ingênua e espontânea, exala pueril
sensualidade enquanto caminha como se fugisse do próprio
destino. Benjamim reencontra nas semelhanças e no
mistério da jovem de andar sempre em fuga, a ensolarada
e fugaz Castana, a quem sempre devotou amor intenso, não
desfeito nem mesmo pelo tempo... Castana Beatriz, a mulher
de seus sonhos, perdida pela irracionalidade do pai repressor.
Assim
se engendra a trama de Benjamim, criação de
Chico Buarque, trazida às telas pelas mãos,
a sensibilidade e a competência de Monique Gardenberg.
Filme capaz de marcar fundo a alma,
como sói aos grandes Criadores.
Benjamim
é bom desde a abertura com um fundo musical preciso,
acurado, saudosista, nos conduzindo a um tempo que não
vivemos mas intuímos pelo sentimento coletivo de
saudade do que era tão bom e tão cedo se foi.
Gosto de tudo no filme. Mas principalmente quando Monique
selecionou trecho de uma de minhas preferidas do Poeta Vinícius
de Moraes, ela “me ganhou”. É
quando o Benjamim de Paulo José diz pra Castana Beatriz:
“Eu te peço perdão
por te amar de repente, embora o meu amor seja uma velha
canção para os teus ouvidos”.
Monique soube pinçar em Vinícius a mais perfeita
tradução já dada por alguém
para esta inquietação afobada/calma, eletrizante/terna,
impulsiva/recatada, desvairada/sã que toma conta
dos apaixonados.
É
sempre do mesmo jeito. E não morre nunca, mesmo se
o objeto amado está longe, não nos quer mais,
fugiu ou sumiu no mundo sem nos avisar. O amor permanece
em nós, sempre, e quando alguma lanterna mágica
clareia a força que o mantém vivo, ele renasce,ressurge,
reaparece, se reafirma da forma mais bela com a qual se
veste, a forma apaixonada que tanto enlouquece e faz bem.
Tudo isso Monique nos parece querer dizer e o
diz de forma clara na cena onde há somente esta fala
dita por Paulo José, com o tempo, a entonação
e o sentimento necessários. Pena não
mais estar entre nós nosso querido Vininha.
Ele adoraria conhecer CLEO, se encantaria com sua enigmática
presença, e se orgulharia de ter seus versos selecionados
pela cineasta e ditos por Paulo José. Pois é
bem capaz de em algum lugar deste outro mundo para onde
vão os bons, Vininha já tenha muitas vezes
visto e se emocionado com Benjamim.
Ao escolher os versos de nosso maior Poeta
do Amor, Monique cravou fundo a alma dos apaixonados
ou dos que assim desejam o AMAR.
Com
o lançamento em DVD, corri à locadora mais
próxima. Vi e revi várias vezes a obra de
Monique e quanto mais vejo mais me encanto com a poesia
estampada na tela, a me perguntar constantemente pela mente
privilegiada de Chico Buarque – a reluzir
onde quer se arvore ele de entrar. De onde Chico
consegue inspiração para fazer tanta coisa
tão linda, emocionante, irretocável? Que
dons de Mestre do Encantamento tem este “nosso guri”,
capaz de engendrar Arte do mais rebuscado e fértil
sentimento? Será possível
existir alguém capaz de estar frente a uma obra de
Chico e não se emocionar ?
Talvez
você seja um dos tantos que perdeu Benjamim na telona.
Mas se marcou bobeira, não precisa chorar a projeção
perdida. Vá até a locadora mais próxima
e leve o DVD pra casa. Com certeza, você vai concordar
comigo e também vai se encantar. Pode ser também
que discorde. Tudo bem ! Adoro opiniões divergentes,
desde que bem argumentadas. Mas creio ser difícil
você não gostar. Aliás, perdão
se ao final da exibição, você não
se considerar diante de uma obra magnífica. Talvez
você não tenha sensibilidade suficiente. Ou
tenha buracos demais na alma. Por isso está impedido
de enxergar esta Pérola Cinematográfica por
nome BENJAMIM
- como se fora a tradução fílmica
da letra de Chico:
Pretendo
descobrir/ No último momento/
Um tempo
que refaz o que desfez/ Que recolhe todo sentimento
E bota no
corpo uma outra vez...
Depois de
te perder
Te encontro
com certeza
Talvez num
tempo da delicadeza
Onde não
diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei
Como encantado
ao lado teu.
Então
vamos lá ! Com esforço, vou tentar inserir
você, leitor amigo, no trajeto desta obra de Chico
Buarque, transcrita para o cinema por Monique Gardenberg.
Benjamim é desses filmes com os quais você
não sente o tempo passar. Um colosso para
os olhos e a alma. São duas horas de projeção,
e quando você se dá conta disso, até
leva um susto, tal o caminhar quase estático do relógio.
Ficaria mais tempo me deliciando com a instigante trama
onde pontificam Ariela Masé, Benjamim Zambraia e
Castana Beatriz – atente para a sonoridade dos nomes.
Quando
Benjamim resolve sair à procura de Ariela, depois
de encontrada a foto antiga de Castana, e pergunta a um
e outros na rua se alguém viu uma garota parecida
com aquela e ninguém viu... a câmara afasta-se
e joga na tela a constatação do quanto o personagem
está perdido num emaranhado de emoções
aflitivas. A solidão caótica de Benjamim,
escancarada pela tomada do alto do edifício, emudece
e solidariza o espectador com a dor do amor perdido. E a
partir daí, cada take é um convite ao embarque
sobressaltado de Benjamim, o personagem criado por
Chico, recriado por Monique e revelado por Paulo José,
cuja atuação comove e conquista na medida
certa.
Monique
foi tinhosa e sábia em sua decisão de querer
o ator para este personagem. A partir de seu filme, Benjamim
Zambraia passa a ser um ícone no histórico
dos grandes personagens brasileiros apaixonados/apaixonantes,
do qual já fazem parte Orpheu, Vadinho, Macunaíma,
Policarpo Quaresma, O Grande Mentecapto, O Homem Nu, ...
Bom
rever Ana Kutner e Ernesto Piccolo, ator de qualidade e
pouco “explorado” pela tevê e pelo cinema.
É preciso também tirar o chapéu para
Guilherme Leme, extremamente convincente como o policial
paraplégico. Nélson Xavier e Chico Diaz, dois
de nossos maiores na arte de interpretar, dispensam comentários
adicionais. Engrandecem qualquer arena onde tomem parte.
Rodolfo Bottino compõe com carisma e espontaneidade
o publicitário sempre em busca da boa campanha. Mauro
Mendonça tem atuação marcante. Ivone
Hoffmann, em breve aparição, Micaela Góes
e Dada Maia completam o afinado elenco.
A
montagem de João Paulo Carvalho é qualquer
coisa além da conta. Com uma trama cheia de idas
e vindas, mesclando passado e presente de vários
personagens, o montador deve ter tido trabalho redobrado.
E o resultado é espetacular ! Digno de todos os Prêmios.
Os recursos de passar para outra cena, e permanecer com
as falas da cena recém-finda, em off, ratificam o
labirinto fílmico, emoldurado por uma trilha sonora
do mais alto quilate. Cleo Pires impressiona pelo
carisma, beleza e sensualidade. Não à
toa, venceu o Festival do Rio 2003 como Melhor Atriz, confirmando
a velha máxima: “Filha de peixe, peixinha é”.
Afinal, Glória Pires é de nossas poucas atrizes
não egressas do Teatro, e ainda assim, de talento
irrefutável, sempre citada por sua invejável
capacidade interpretativa. A reconstituição
de época é outro ponto positivo. Uma
delícia rever/conhecer o Rio de Janeiro de outrora.
A direção de arte de Marcos Flaksmann é
supimpa ! Enfim, Monique fez um Benjamim
de arrasar quarteirão. A fotografia mais escura
nas cenas mais fortes, os grandes espaços vazios
dos apartamentos procurados, a sessão de fotos de
Castana e Benjamim à beira-mar, revelando uma Cleo
alourada, fina, elegante, uma quase deusa daqueles dourados
(?) anos de paixões, liberdade feminina, música
de bom gosto nas rádios... e repressão a caminho.
Momento inusitado: a cena fotográfica dos modelos
na praia... Um luxo ! Como aliás é ótima
toda a fotografia de Marcelo Durst. O roteiro, assinado
por Monique, Jorge Furtado e Glênio Povoas é
outro ponto a merecer destaque. E dando suporte a tudo isso
a competente produção executiva de Elisa Tolomelli
com auxílio luxuoso de Thaís Mello.
Uma
das cenas mais lindas do filme é quando Benjamim
aparece feliz da vida, depois de almoçar com Ariela,
ao som de Alegria (composição
de Chico Neves e Arnaldo Antunes, composta especialmente
para o filme) e distribui com mendigos da noite carioca
os antigos figurinos com os quais posava de modelo, caindo
no mar da enseada de Botafogo e a letra a dizer “A
tristeza é uma forma de egoísmo...”
Há também um momento cheio de graça,
cuja leveza quebra por instantes o clima de suspense: o
das jovens levando Benjamim à gincana. Lá
uma delas inventa ser ele um famoso ator “de uma tragédia
grega que está há três anos em cartaz...”
Interessante
notar: apesar dos mimos que vai ganhando dos homens encantados
com sua beleza exótica, Ariela é triste e
essa tristeza só se revela por instantes, como nas
vezes nas quais se debruça a escrever pra mãe
ou o marido, ou quando senta pensativa junto ao fogão,
como a dizer: “Pra onde vai me levar essa vida tão
cheia de disfarces e de compromissos que assumo pelos outros?
”
No
calidoscópio amoroso-aflitivo de Chico, mais um dado
instigante: a observação de Castana em conversa
com Benjamim, os dois adolescentes,
ela folheando imagens de santos. Ela diz: “Nobres
e santos estão sempre de boca fechada”. Ao
que Benjamim, concordando, rememora: “Nunca vi Nossa
Senhora de boca aberta”. Em seguida, um corte evidencia
os lábios vermelho-sensuais de Ariela... Ela sempre
a rir, de boca escancarada, nas cenas com Benjamim. Mas
a infelicidade de Ariela está logo adiante e perpassa
o filme como um tango de Piazzolla, o mesmo a emoldurar
alguns dos momentos mais tocantes da obra de Monique.
A relação dos dois algozes de Ariela –
o marido Giovan e o patrão Cantagalo, integrantes
de um mesmo misterioso clube, como lembra Cantagalo (Nélson
Xavier). E o clube é justamente aquele dos homens
de vida sem sexo, cujo prazer nasce de imaginar o objeto
amado (?) sendo usufruído por outrem, para logo depois
se consumar na morte desse outro. E nesse emaranhado de
perversão e “justiçamento”, a
menina vinda do interior, ingênua e bem intencionada,
órfã ainda garota, crente de ter encontrado
o grande amor, vai vendo seus dias e seus sonhos se esvaírem
como água correndo entre os dedos ao tempo em que
atende as demandas do patrão e satisfaz
o desejo mórbido do marido. Esses seus mesmos algozes
refazem o percurso sangrento onde tombou vítima a
mãe dela e, como se fazendo justiça ao status
quo - “vítima da rebeldia” -, utilizam
a mesma casinha pequenina, outrora refúgio contra
a repressão, para castigar com a morte os muitos,
tal como a aguerrida Castana, em busca apenas de prazer
e amor, liberdade e companheirismo. Por isso, se vai Benjamim.
Um reencontro drástico e inesperado com o “ninho”
que abrigou Castana e viu nascer Ariela.
Fique
certo de uma coisa: ainda que você consiga não
gostar desta história inspirada/inspiradora, romântica,
às vezes sórdida mas muito apaixonada e cinematograficamente
competente, você pelo menos terá um, ou mais
um, filme brasileiro para figurar no seu cardápio
crítico de cinéfilo e poderá, mais
tarde, contribuir com debates sobre a Sétima Arte
Brasileira, onde quer eles aconteçam.
Monique
dedica esta sua obra-prima à irmã querida,
não mais entre nós. E a cineasta fez à
irmã, e a Chico Buarque, a melhor homenagem que poderia
ter feito com esta jóia de filme chamado Benjamim.
Um DEZ emocionado e feliz para Monique Gardenberg
e a toda a equipe que tornou possível esta belíssima
criação do genial Chico Buarque no Cinema.
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SÓ
SEI QUE É PRECISO PAIXÃO
*
Aurora Miranda Leão
Manhã
ensolarada pelo sol frio de julho. Passeava com meus pais
e minha querida mana: férias na Cidade Maravilhosa.
Na entrada de uma loja à rua Siqueira Campos, em Copacabana,
lembro como se fosse hoje, paramos perplexos quando o rádio
noticiou a morte do Poeta Maior.
Alguém
só capaz de espalhar o Amor, através de seu
canto, sua fala, suas múltiplas atuações,
capaz de fazer dele, pela Poesia, o Violão e a celebração
da mulher amada, seu grande timoneiro. Sua vida, infatigável
busca pelo Amor Eterno, aquele mesmo o qual nós, os
mais sonhadores, nunca desistimos de querer.E este Amor tão
buscado ele só entendia e queria como Paixão.
Por
isso, a paixão figura com tanta intensidade em seus
versos.
Vinícius
de Moraes foi muito além de um grande poeta, homem
generoso, amigo fiel, parceiro adorável, pai inesquecível.
Vinícius foi aquele que deixou em nós a esperança
sempre indormida de um mundo mais justo, um viver mais alegre,
um cotidiano mais fraterno, um tempo mais propício
aos grandes encontros. Porque deles é feita a parte
boa da vida.
Tantas
vezes execrado por ter aderido sem remissão à
Música Popular, Vinícius prestou inestimável
serviço à consolidação da escrita
poética no cancioneiro nacional. Depois dele, e por
causa de sua influência, vieram Chico Buarque, Edu Lobo,
Caetano Veloso, João Bosco, e tantos outros.
Nos
anos 70, tempo da consagração definitiva da
inigualável dupla feita com o querido Toquinho, de
cujo violão brotaram as melhores notas para os versos
de Vininha, foi satanizado por um crítico, um tal Maurício...
(e quem guarda nome de crítico, ainda mais se não
tem competência?): “Eles fazem o que podemos chamar
de ‘easy music’...”
Vinícius
então, sarcástico, seguro e consciente do zelo
dedicado a seu ofício, passou a fazer shows por todo
o país, ao lado de Toquinho. Os shows se tornam emblemáticos
na história do movimento estudantil e confirmam uma
ânsia nacional por ouvir coisas nossas, ritmos e tons
brasileiros com nosso timbre e nosso molejo. Vinícius
e Toquinho lotam auditórios e ginásios: “Agora
vamos apresentar a vocês a nossa easy music...”
E a platéia delirava.
Não
à toa, é do Poeta e de Carlinhos Lyra, o Hino
Oficial da União Nacional dos Estudantes, criado nos
conturbados anos 60. Mas Vinícius também foi
injustamente mal visto pela chamada ‘inteligentzia’
brasileira ao aderir aos rituais do candomblé, ao tempo
no qual foi casado com a baiana Gesse Gessy em casamento ‘oficializado’
pela atriz Nilda Spencer, também baiana. Mais uma vez
deu provas de seu imenso talento e menosprezo pela ortodoxia
dominante: passou a compor introduzindo os ritmos e o linguajar
comumente empregado naqueles rituais de fé, oriundos
da Cultura Negra.
Dessa
fase, registram-se canções antológicas
como “Meu Pai Oxalá”, “Maria vai
com as Outras”, “Canto de Oxalufã”
e o estrondoso sucesso de “A Tonga da Mironga do Kabuletê”
(gravada ao lado do saudoso Monsueto).
E
Vininha fez muito mais. Espraiou seu canto apaixonado em sonoridades
pertinentes às mais diversas matrizes rítmicas:
da valsa ao fox-trote passando pelo chorinho e a capoeira,
deixou um legado tão belo e singular que após
28 anos de sua dolorosa partida, ainda é novo, atual,
eloqüente e instigante. Sua obra e sua vida estão
tão interligadas que é difícil saber
onde começa uma e onde termina a outra.
Vinícius
de Moraes agiganta-se a cada dia nas mínimas sementes
onde é germinado: em trabalhos escolares,
transposições para o teatro e o cinema, saraus
literários, performances poéticas, concursos
de sonetos, tema de redações, enfim, difícil
mensurar, difícil encontrar quem não
se pegue cantando de cor ao menos um verso do Poetinha.
A
última companheira, a morte, confirmou Vinícius
como o Poeta que ele almejou sempre: um Poeta popular, querido
e cantado pelo povo, mesmo quando não se sabe estar
entoando Vininha. Afinal, quem não já usou pelo
menos um verso de Vinícius no seu dia-a-dia?! - “E
por falar em saudade, onde anda você ?”, “Se
todos fossem iguais a você...”, “As muito
feias que me perdoem mas beleza é fundamental”,
“Chega de saudade, a realidade é que sem ela
não há paz, não há beleza...”,
“Que não seja imortal posto que é chama
mas que seja infinito enquanto dure”.
Pois
é, meu querido São
Vininha: Você caminha comigo aonde quer
que eu vá e me leva sempre a repetir os mesmos versos
por você dedicados a Garcia Lorca: “Poeta, não
precisavas da morte para nada”.
Quando
bate a saudade bem grande de você, só resta ouvir
suas músicas, ler seus livros e olhar o céu.
Você por certo se esconde em alguma estrela de onde
sussurra versos para a Lua, a linda mulher tão cheia
de pudor que vive nua.
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| Gigas
de Determinação e Megabytes de Alegria, os links
do COMUNICURTAS
* Aurora
Miranda Leão
Imagine
uns mais de 40 estudantes universitários reunidos.
Faixa etária: 17 a 25 anos. Áreas de atuação:
Arte, Mídia, Comunicação. Cenário:
cidade do interior, região Nordeste. Fomento às
Artes: quase inexistente. Até museu, criação
assinada por Niemeyer, está quase destruído
pela “abrangente” visão de seus administradores.
Um Teatro histórico, quase 1.300 lugares, construção
em mármore e granito, evidencia o descaso com a mais
antiga das Artes: tapete ornado de buracos, paredes com rachaduras,
cadeiras se desmilingüindo a qualquer espreguiçar.
A
cidade é a paraibana Campina
Grande e o foco da garotada Cinema.
Movidos pela benfazeja determinação de realizar
um vídeo, 3 estudantes da sub-20
tinham em campo uma trave: onde exibir o audiovisual
de uma trinca em busca de estrear sua visão de mundo
na tela apenas com a cara, a coragem e o filme na mão,
se até para as obras de cineastas renomados, a possibilidade
de acesso às telas é tão mínima
?
Dentro
de um ônibus, nasce a idéia: realizar um festival.
No painel, a luz indicava combustível zero. Mas como
o resto é sempre maior
que o principal – já dizia meu
guru Artur da Távola -, o tanque estava
repleto de energia e desejo de expressar-se em imagens. Assim,
André Costa, Felipe Simplício e Henrique Neto
foram em frente. Conseguiram algumas garrafas de cachaça
e com a venda delas fizeram o primeiro festival, restrito
aos paraibanos por razões óbvias. E a alegria
por conseguir exibir seu vídeo cedeu espaço
para outros tantos estudantes também exibirem suas
versões audiovisuais para a dobradinha pensamento/sentimento.
Surgia o ComuniCurtas
e a segunda edição foi possível ano seguinte
graças à doação de alguns objetos
fúnebres. Como fazer projeção sem dinheiro
e movidos por pousadas funerárias? Inventividade na
solução: vender caixões com descontos
e o apurado tornou possível mais uma programação
brasileira de Cinema.
Estamos
em 2008 e, ainda bem, cinema não é sabão
em pó, como tão bem enfatiza nosso
adorável Walter Salles.
E assim, viva o conteúdo, olhares novos para temas
eternos e a busca da expressividade inventiva. A última
semana de agosto abrigou a terceira edição deste
Festival, em breve um dos mais concorridos do país:
o COMUNICURTAS.
Realização da UEPB e da Medonho Produções.
O jornalista e cineasta Machado Bittencourt foi o Homenageado.
Os irmãos Rômulo e Romero Azevedo também
entraram para o rol da gratidão. Para angariar recursos,
até uma noite em suíte presidencial de motel
foi rifada. Destacamos a disponibilidade e eficiência
de todos os estudantes envolvidos através da atuação
dos jovens Ana Célia, Carol, Yanamara e Yramaia, Sabrina,
Bárbara, Zuíla, Mauro e Wenio.
A
produtora carioca Cinerama Brazilis (Adriano Lírio)
e a Kinetoon de Jorge Arena são patrocinadoras ofertando
serviços aos vencedores, além dos apoios das
TVs Itararé e Paraíba, TV Zero, Luan e NetCon,
da ONG Moinho de Cinema e do sistema Fiep-Sesc-Senai da Paraíba.
Exibições no maior e melhor teatro de Campina
Grande, o Severino Cabral
– entregue ao descaso dos mesmos políticos a
proliferar nas ruas com bandeiras e santinhos para “catequizar”
eleitores desavisados. No templo da Arte e do Saber, durante
cinco dias, os aplausos à qualificação
artística de Bete Mendes traduziam-se
em muitos cumprimentos, autógrafos, fotos. E foram
vistos e apreciados o talento de Pixinguinha e a antevisão
histórica de Thomas Farkas (representado por Cristina
Alário), a beleza da produtora Liége Nardi (leia-se
Festival de Gramado), a alegria da atriz
Arly Arnaud (que nos apresentou o artista
plástico François Marrance, então apenas
J. Merêncio), o olhar sempre atento da pesquisadora
Beth Formaghinni, a energia benfazeja do
goiano Itamar Borges, a poesia paraibana de Thiago Penna,
somando-se à presença dos atores Daniel Tavares
e Eduardo Moraes, além de Henrique César e Luciana
Silveira (na platéia do encerramento), e dos realizadores
Thiago Lacerda, Torquato Joel, Carlos Moska, e uma tela a
exibir o encantador Boca-a-Boca do carioca
Allan Ribeiro, o seu Lolô do município
cearense de Campos Sales (Carlos Normando), os premiados Cine
Holiúde (do cearense de Los Angeles Halder
Gomes, parceria com a ótima roteirista Michelline Helena),
Café com Leite de Daniel Ribeiro,
Camelos do Ingá, de Carlos Mosca e
Ronaldo Nerys, Dossiê Rê Bordosa
(César Cabral) e muitos outros títulos reafirmadores
da efervescência produtora dos realizadores brasileiros.
Teve até a simpatia de Rita Cadillac
(sucesso no Almoço do João de Barro) sobre quem
foi exibido longa assinado por Toni Venturi. O encerramento
foi no confortável auditório da Fiep e não
é sincero deixar de citar o adorável passeio
ao lado do agradável casal Bete
Mendes e Marcão
com paragens no imenso mercado central – onde Bete virou
autêntica “Mamãe Noel” (provavelmente
necessitou comprar mais uma mala) e distribuiu simpatias,
fotos e autógrafos -, no monumento em homenagem a Luiz
Gonzaga e Jackson
do Pandeiro (alvo de muitas fotos) e na aprazível
La Suíça, elegante espaço de encontro
para paladares refinados (um pecado as muitas receitas de
bolo e tortas de chocolate e as “cartolas” devoradas
por Itamar, as Betes - Mendes e Formaghinni - e Cris Alário).
Nos
estudantes liderados por André, Felipe e Henrique repousam
muitos mais up-grades do que possa supor nosso vã internetês:
são diversos e grandiosos megabytes de sensibilidade
amparados por 40 gigas transbordantes de determinação.
O cuidado aos mínimos detalhes, simbolicamente comprovados
através do belo troféu que homenageia os “tropeiros”
descobridores de Campina Grande, a acolhida atenciosa aos
convidados e determinante para o êxito do festival –
estampado em sessões lotadas, debates e palestras concorridos
– e o semblante feliz dos participantes – os quais
chegaram a deixar Campina Grande enchendo de som e música
o aeroporto João Suassuna – são
provas incontestes da dimensão que assume o festival
coordenado por André Costa e a urgente necessidade
de convergência absoluta de apoios e patrocínios
ao ComuniCurtas.
Louve-se o apoio inicial e permanente da Universidade Estadual
de Campina Grande. É graças a passos decisivos
e metas claras e determinadas, como as germinadas no trio
André-Felipe-Henrique, que relevantes avanços
culturais são registrados, assim no Brasil como no
mundo.
Sinto-me
honrada e feliz por fazer parte da qualificada turma participante
deste III ComuniCurtas,
esperando reescrever muitas e muitas outras crônicas
sobre este festival, cujo início foi batizado por cachaça,
caixão e rifa de motel e cujo futuro se anuncia propulsor
de uma Campina Grande capaz de tornar-se turística
e ainda mais produtora de Cultura através do sangue
aguerrido de filhos seus ou quase – como André
Costa, egresso da pequenina Barra de São Miguel -,
sempre a aposta no risco e a crença na qual toda carpintaria
teatral é passível de transformar-se seja matéria
de observação e incentivo a novos parâmetros
de cidadania e inclusão real de valores civilizatórios
dignificantes.
|
ARTUR
da TÁVOLA, Exemplo e Saudade
* Aurora
Miranda Leão
Com
a partida de Artur da Távola, estamos mais pobres.
Perdemos. Não apenas um intelectual do mais alto gabarito.
O Brasil está órfão de um de seus mais
brilhantes intelectuais. Perdemos um Homem sensível,
inteligência brilhante, um carioca apaixonado por todas
as formas de ser e Pensar... a vida, o humano, a civilidade.
Eu, particularmente, perdi um Amigo querido, um Mestre com
quem aprendi a ver todas as coisas da vida pelo viés
da sensibilidade.
Artur
da Távola é uma saudade e um exemplo a me nortear
os passos desde a adolescência. De admiradora
tímida e acanhada, virei amiga, descobri um rosário
de afinidades e o tempo encarregou-se de aprimorar nossa sintonia.
Lembro, como hoje, eu chegando para visitá-lo no apê
de Ipanema, mesmo endereço de sua mãe, a sábia
e querida Magdalena Koff, e dizendo a ele da vontade de enveredar
pelo Jornalismo - '... mas quando leio seus textos, mais me
convenço de que jamais escreverei como você.
Tenho vontade de desistir...' E ele, tal qual o 'guru' que,
brincalhonamente se autodenominava, mudava o curso de meu
pensamento e incentivava: 'Não, Aurora, não
desista. Todos nós temos uma fonte dentro. É
preciso descobri-la, burilá-la, e aí você
vai descobrir seu próprio estilo. Você é
sensível e gosta de escrever, portanto você já
tem as ferramentas mais importantes'. Por esse tempo, caminhava
perto dos 15... Acabei fazendo mesmo Comunicação
e foi dele o mais lindo cumprimento recebido ao me formar.
De uma forma ou outra, Artur/Paulo Alberto sempre sabia dos
meus passos - tenho todos os seus livros, quase todos com
dedicatória, cada uma mais tocante. Fosse em momentos
de alegria ou de tristeza, a palavra confortante soava sempre.
Ganhei dele o prefácio para meu primeiro livro de crônicas.
Sinto-me agora na 'obrigação' de publicá-lo.
Lembro
nossa última troca de afetos: ele escreveu contando
estar prestes a fazer uma cirurgia. Respondi (sem saber direito
qual o verdadeiro problema) com várias frases positivas,
repletas dos ensinamentos da Ciência Mentalista, esta
potente ferramenta para a vida, tão desconhecida quanto
revolucionária. Mestre Artur, com a sensibilidade/simplicidade/empatia
tão peculiares, me respondeu cheio de ternura e gratidão
'por me colocar em suas orações'...
Pude
tão pouco, Mestre Querido, mas foi tudo que pude naquela
hora. Sinto Você agora ainda mais a me iluminar
desta nova realidade onde habita, por certo de forma singela
e sabiamente escrevendo crônicas e poemas, cercado das
melhores energias, espraiando os mais fraternos afetos e cativando
pelas virtudes das quais foi com maestria exemplo singular.
Ficam
os muitos livros autografados, a lembrança feliz dos
encontros onde a partilha foi sempre afetuosa, o sorriso acolhedor,
o carinho revelado nas horas mais diferentes, a sensibilidade
transfigurada em luz, a ternura em oferta genuína,
como sói a um guia espiritual, a força inteligentemente
poderosa de quem influencia por não impor. Fica
de Mestre Artur, para sempre, o olhar sem preconceitos para
a tevê, o respeito à Ópera e ao Teatro,
a reverência à Música Clássica,
o olhar atento e incentivador para o nosso Cinema
(era fã e amigo de Zelito Vianna, Cacá Diegues,
Arnaldo Jabor); o apreço à Cultura Popular e
a artistas como os cearenses Lauro Maia e Humberto
Teixeira, e os geniais Gonzaguinha e Chico Buarque;
a admiração por Yara Cortes, Paulo Gracindo,
Fernanda Montenegro, Cleyde Yáconis, Rosamaria
Murtinho, Milton Gonçalves, Ruth de Souza,
José Wilker, Tony Ramos e tantos outros grandes; fica
em mim, sobretudo, a influência notória e assumida
na maneira de escrever - de indisfarçável
afinidade-, o amor pelo Rio de Janeiro e, sobretudo, por Ipanema,
o apreciar a Bossa Nova, a procura constante do Bem, do Belo
e do Bom... enfim, fica de ARTUR DA TÁVOLA, com tanto
ainda a nos doar em grandeza e profundidade, o exemplo de
um Homem Digno, intelectual sem impáfia, político
sem uma marca negra na biografia, observador atento da vida,
avesso a modismos, preservador da Memória histórico-afetivo-cultural
do país, inteligência lapidar e erudição
invejável. Fica uma infinita saudade,
a lembrança do amigo sempre carregado de afeto, sensibilidade,
solidariedade e disponibilidade, um esteta da liberdade e
da justiça, um artesão do Conhecimento como
alicerce civilizatório, um Mestre na Arte de
Encantar e tornar ENCANTADO tudo a quanto emprestava seu olhar,
sempre melhor e mais acurado que o da maioria.
Mestre
ARTUR, resta o projeto do curta em sua Homenagem, uma crônica
audiovisual para reafirmar minha imensa gratidão, meu
imortal apreço e a Admiração indormida,
cultivada desde as primeiras leituras, afinidade revelada
nos textos do cronista magistral, a quem o contato e a convivência
só alicerçaram o afeto, a estima e a enorme
certeza do acerto de frases antológicas, como esta:
HÁ
MOMENTOS EM QUE É PRECISO SABER REVERENCIAR. Diante
de certos Artistas, é só o que nos cabe fazer.
Pois
é a que me aparece mais vívida neste momento
de profunda dor e acerba ausência, fluindo com toda
a intensidade da estima quase incomparável que nutro
por quem é um dos grandes responsáveis por minha
entrada e permanência no Jornalismo. Descanse em Paz,
Mestre. Com toda certeza, já na companhia do pai, da
mãe querida Dona Magdalena e do avô André
Koff.
|
Saravá
2008 !!!
* Aurora Miranda Leão
Flamboyants,
acácias, orquídeas e gerânios
Flores de todas as cores, todos os sabores
Convidados para entoar cânticos de Paz
e Felicidade Geral pelo 2008 que vem vindo...
Porque é melhor ser alegre que ser triste
Vininha ensinou: A Alegria é a melhor coisa que existe
Possa
o Novo Ano chegar qual Luz muito intensa no coração:
A
Sensibilidade esteja de plantão, como nas crônicas
de Artur da Távola;
As idéias fluam límpidas e inteligentes, como
em Rubens Ewald Filho;
A Serenidade seja algo assim como encontrar Matheus
Nachtergaele em plena tarde na orla de João
Pessoa ou conversar com Edinha Diniz num
passeio musical que começa com Chiquinha Gonzaga;
Que a gratidão e a generosidade se espelhem em
Walter Salles;
Que os casais se renovem a cada alvorecer, como tão
bem traduzem Chica Xavier e Clementino
Kelé, e possam ser mais e tão leves
como Denise e Jayme Del Cueto.
Que
os pais sejam sempre motivo de orgulho para os filhos, como
LG Miranda Leão sempre no coração -
Maurinho, Rodrigo e João Paulo celebrando Mauro
Mendonça;
Que
a juventude seja mais idealista, bela e ética, como
dá gosto notar em Joyce Martins e
Síria Bonfim;
Que
os 100 de Niemeyer prossigam gerando frutos em traços
de tão qualificada tessitura como em Luís
Giffoni, qualidade especial de jovem, marcante
porque raro;
Elegância,
simpatia, doçura e energia positiva façam
morada onde houver alguma alma como a de Rosamaria
Murtinho.
E
gente do Bem, como Elinês Rodrigues,
Liana Correa, Jal Guerreiro, Fatita Celes,
Nicole Algranti, Vânia Catani, Caio
Quinderé, Dea Barbosa, Leila e Di Moretti
apareçam mais.
E
possamos ter novas e maiores alegrias ao reencontrar amigos
como Lola Laborda, Robledo Milani, Jackson
e Thiago Bantim, Solange Lima, Esmon Primo,
Aline Pereira, Vitória Parente, Virgínia Oriá,
Berenice Xavier, Ana Maria e Maurício
Lima. E façamos amigos novos como Nadir Veiga, Joabson,
Márcio Santana, Glecy Coutinho,
Agostino Lazzaro e Conrado Pera.
E
a camaradagem comece no café da manhã, como
quando lembramos Débora Torres, Itamar Borges, Ângelo
Lima, Michelline Helena, Margarete Taqueti,
Neusa Mendes, Tanimar e Lanúcio Rodrigues,Veiga Júnior,
Celso Brandão, Gutérres,
Amélia Cristina e dona Jesus (do melhor bolo de chocolate
do mundo)... Saudades de São
Luís, Goiânia e Vitória.
E
as cidades, de qualquer tamanho ou temperatura, sejam tão
adoráveis como Pedra
Menina, Gramado, Patrimônio
da Penha e Natal;
Que
a Fé brote Poderosa e faça morada em muitos
corações, e a vontade de viver extrapole todo
negativismo, como é exemplo em Manoel Villela,
nosso adorável Maneles;
Que
as primas sejam tão especiais e com tantos dotes
culinários como Manoela, sempre Fifa;
Que
a tietagem seja tão produtiva como a de Nélson
Augusto, Beatles
Forever!
Que
a fraternidade seja tão comum como em Dedé,
Fá e Felipe;
E
a vontade de adquirir mais Conhecimento seja tão
viva como no tio Rey, sapiência singular;
Que
os irmãos sejam tão presentes no afeto e na
solidariedade como João Neto, Astrid e Luiz Filho,
E
os sobrinhos sejam tão bonitos e fundamentais como
Neyara, Kroyller, Luís Neto e Dayandra;
Que
o carinho seja mais forte e a atenção ao próximo
seja constante como em Niedja Ribeiro,
segunda mãe; e os afetos se prolonguem vida afora
com selo de qualidade sem vencimento, como em Mundinha e
Tintão;
E
a gente possa ter certeza de um ombro amigo, a qualquer
hora, como em Júlia Luzia - Julinha
com louvor !
Que
os sentimentos nobres ganhem todas as estatísticas
- sociológicas, antropológicas, psico-sociais
- e sejam banidos sem remissão a inveja, a descortesia,
a injustiça e a ingratidão,
como em Magali Bastos, Marli Soares, Martha Vasconcellos
e Zetti;
Que
os amigos operem sempre na faixa da lealdade, o companheirismo
seja motivo de plágio constante e valores éticos
sejam transmitidos às novas gerações,
como o fez Marlene, pedra angular.
Que
o dom da Palavra, bem escrita e humorada, nos lembre a riqueza
expressiva de Pedro Cardoso;
Que
a televisão aposte em mais conteúdo de qualidade
e possamos usufruir bem mais de Gilberto
Braga;
A
reportagem televisiva conte sempre com a capacidade criativa
de gente como Bernadete Duarte;
Que
o ofício da crítica seja tão competente
como quando assinam Marcelo Janot, Rodrigo
Fonseca, Neusa Barbosa ou Celso Sabadin;
Que
o Cinema tenha muito mais olhares acurados, como os registrados
em Karim Aïnouz, Vladimir Carvalho,
Sílvio Tendler, Helvécio Ratton,
Monique Gardenberg, Eliane
Caffé, Toni Venturi, Sérgio
Bianchi, Beto Brant e Aluizio Abranches;
Que
o Audiovisual se renove e diversifique cada vez mais seus
focos, como quando captamos na tela o olhar de Allan Ribeiro,
Gui Castor, Petrus Cariry, Cássio
Araújo, Henrique Rocha e Orlando
Lemos;
Que
as salas de cinema se espalhem pelos quatro cantos com a
platéia ávida pra ver Cinema Brasileiro, como
acontece tanto nos festivais - Antônio Leal sabe bem
disso;
Que
o Teatro extraia sua força do cotidiano, como sói
em Augusto Boal, o contexto seja tão
eloqüente como a presença de Matheus
Nachtergaele em cena e atuar seja instigador
como estimula Caco Ciocler;
E
não desistiremos de nossos ideais sempre que lembrarmos
Abdias Nascimento.
Que
a beleza do olhar e a alegria do sorriso de Luciana
Araújo sejam corriqueiros, e os amigos
não "sumam" como Valério
Fonseca, Fábio Novello, Nirton Venâncio,
e Ana Paula Minehira, e os de longe dêem sempre notícias,
como Denise Dummont, Roberta Canuto, Sílvia
Pandullo, Alan Langdon e Rhérika Gracie;
Que
saibamos estar nos mais diferentes lugares, quase ao mesmo
tempo, reunindo gente pra falar de Alegria, como faz Cláudio
Pereira;
Que
novos talentos sejam aplaudidos, como Marcelo Torreão,
Zulma Mercadante, Taciana Barros, Alex
Nader, Bernardo La Rocque e Vera Ferreira;
e atores consagrados saibam conservar a riqueza humana da
simplicidade registrada em Emiliano Queiroz, Paulo
Betti, Paulo José, Guti Fraga, Wagner
Moura e Leandro Firmino da Hora;
Que
Documentários contem sempre com olhares tão
atentos como os de Carlos Alberto Mattos e Amir Labaki;
Que
festivais de Cinema sejam cada vez mais a tradução
multifária do sentido primordial da Sétima
Arte, propiciando um cenário onde Música,
Dança, Literatura, Teatro e mãos se entrelacem,
nas telas e na vida - como já são os festivais
CinePort, Guarnicê, Curta Santos,
e as Mostras Cinema Conquista e MoVA Caparaó;
Que
haja mais respostas inteligentes para atitudes desprezíveis
e mais filmes a reinventar a poética da tela, como
nos consagra toda a obra genial de Júlio
Bressane;
Que
a Poesia se faça cada vez mais instigante, tal como
é a lírica do Poeta de Cataguazes, Ronaldo
Werneck;
E
a criativa edição dos Saraus Poéticos
se multiplique por praças e espaços culturais
de toda parte, contagiando as mais diferentes platéias,
como quando Jorge Salomão dá
o tom;
Que
as festas se multipliquem por todo este 2008 e possam ser
tão fartas e bacanas como as de Maria Letícia;
Que
possamos cada vez mais falar de Arte/Vida/Beleza ao lembrarmos
Júlia Lemmertz,
Maitê Proença, Fernanda Machado, Bruno Gagliasso,
Fernanda Montenegro, Tony Ramos, Selton Mello
e Dan Stulbach;
Que
atrizes como Lea Garcia,
Cleyde Yáconis, Tônia Carrero,
Ruth de Souza, Leona Cavalli, Marcélia Cartaxo,
Débora Falabella, Hermila Guedes e Débora
Duboc sejam espelho para quem quer seguir carreira;
E
haja palcos e telas para atores de todas as idades e estilos,
como Antonieta Noronha, Flávio Bauraqui,
José Dumont, Vera Holtz, Milton
Gonçalves, José Wilker, Aramis Trindade, Ernesto
Piccolo, Gustavo
Falcão, Roberto Birindelli,
Sirmar Antunes, Zezita Mattos, Everaldo Pontes,
Ricardo Guilherme e Carri Costa;
Que
artistas do naipe de João Falcão,
Guel Arraes, Mauro Mendonça
Filho, Alexandre Machado, José
Alvarenga e Hubert estejam mais presentes no cotidiano
de toda gente,
E
haja mais inteligência na tevê, como acontece
com Priscilla Rosembaum e Domingos Oliveira.
Que
a realidade brasileira ganhe a cada dia novas interpretações
através dos mais diversos olhares e as câmaras
possam se reinventar através de jovens como Erik
Rocha, Felipe Taborda e Esmir Filho;
E
as notícias culturais nos cheguem com o vigor indormido
de Maria do Rosário Caetano;
Que
o cineclubismo tenha cada vez mais gente com a disposição
e o dinamismo de Claudino de Jesus, João
Batista Pimentel e Felipe Macedo;
E
que a Tv Brasil se transforme na vitrine que desejamos,
força pra Orlando Senna;
Que
João Moreira Salles
e Eduardo Coutinho nos
presenteiem com novos filmes para nosso deleite e orgulho;
Que
os tão belos como Fábio Assunção
e Ana Paula Arósio
também sejam notados por sua competência e
talento;
Possamos
ouvir mais Carioca apreciando o olhar menino e arguto de
Chico Buarque
e suas melodiosas letras sejam partilhadas com a maioria,
através das rádios de seu país, ou
quem sabe rememorar o tango de Piazzola
pelo violoncelo afinado de João
Omar;
A
Música Brasileira seja tão efervescente como
a gostosa sonoridade Paralâmica e o Amor ganhe mais
letras e canções como as de Herbert
Vianna, Guilherme Arantes, Marisa Monte, Toquinho,
Gilberto Gil e Caetano.
Que
a música seja terna ou agridoce conforme a emoção,
sempre bonita, de nova Bossa, ou fazendo gingar mais pulsante,
tantas são as filigranas a brotar da voz inconfundivelmente
bela de Calé Alencar;
Que
se faça mais Arte; se dance mais, em todas as estações,
qualquer estilo, todas as notas;
Zabumbas,
ferros, caixas e triângulos - Irmãos
Aniceto ritmadamente cabaçais nos ajudando
a renovar a Fé e a rodopiar, sobretudo no ensolarado
Cariri das benfazejas farturas de caju, manga e siriguela;
Nossa
nordestinidade a espraiar-se em qualquer lugar
Sobretudo
quando Euclides, mais-que-perfeito, nos
apresenta o Boi, o Cacuriá e nos festeja com o cordão
das Crioulas do Tambor;
Para
haver sempre sorrisos em volta e a Felicidade se construir
a cada hora Para ser companhia, renovando-se ao pisar o
chão para cantar a força das raças
Que
vivem aqui, ali, em todo lugar
Saudando a Alegria como uma chama
Acendendo pela noite adentro
Um desejo e uma esperança
Qualquer música, qualquer bolero
Enquanto
a cidade possa se vestir, eletrizada pela sonoridade e imponência
do maracatu a se fazer cada vez mais Fortaleza
porque Nação.
E
seja decretado como direito de todos tomar o inigualável
suco de laranja das ruas de Santelmo,
Rir com a fluência contagiante de Zéu
Britto,
Torcer
por um futebol tão emocionante como ver Messi, Riquelme,
Palermo e os muitos craques do
Boca Juniors em campo;
Que
o clima de festa seja tão constante e efusivo como
fica a Bombonera em dia de vitória do seu/nosso time;
Que
os preços das passagens aéreas sejam reduzidos
e todos tenham ao menos uma chance de conhecer Buenos
Aires;
Possamos
desfrutar uns dias a mais em hotéis tão encantadores
como o Castro's de Goiânia, o Pirâmide de Natal
e o Blue Tree do Cabo de Santo Agostinho;
Que
todos tenhamos sempre mais 2008 motivos pra prosseguir acreditando
que Tudo vale a pena, se a alma não é pequena
!
E
antes de tudo, que o Amor invada mais os corações
- como tão bem traduziu Vinícius, e Monique
evidenciou em Benjamim: "Eu
te peço perdão por te amar de repente embora
o meu amor seja uma velha canção para os teus
ouvidos..."
FELIZ
ANO
NOVO !!!
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ROSAMARIA:
FRIDA REAFIRMA TALENTO AVASSALADOR DA ATRIZ
* Aurora Miranda Leão
Era
uma das muitas na platéia lotada. Pude ver o espetáculo
mais de uma vez, fato que dimensiona ainda mais a excelência
da atuação de ROSAMARIA
MURTINHO. Frida - Fragmentos de Memória,
texto de Meiry Rioto, costura de forma inteligente a vida
sofrida e conturbada da artista mexicana e tem em Caco
Ciocler um diretor de sensibilidade comovente. O
resultado é um espetáculo belo, comovente, impactante.
Caco Ciocler revela-se um grande Diretor,
já que, como Ator, todos sabemos, é de nossos
melhores.
Rosamaria
Murtinho, protagonista, reafirma sua maestria înterpretativa
e comove de muitas formas: faz rir, chorar, refletir, toca
fundo a Alma. É Atriz pra ninguém botar
defeito, espécime raro pois sua competência espraia-se
onde quer que atue - teatro, cinema, televisão.
Fã de carteirinha da atriz, desde garota, confesso:
Rosinha supera todos os seus
outros personagens. Sua interpretação para FRIDA
é ARREBATADORAMENTE convincente/comovente/flecha a
Alma.
O
elenco de FRIDA também é um acerto:
todos dão conta do recado e compõem um espetáculo
forte, belo, tocante demais, digno de ser indicado aos Melhores
Prêmios do Teatro, e, por certo, FRIDA
- se os jurados não forem vesgos -, ganhará
muitas estatuetas. Acabo de
saber que estará nos festivais de Curitiba e Porto
Alegre, os mais importantes do país. JUSTÍSSIMO.
Quem ganha são os festivais. E a platéia.
Um
dos muitos pontos da peça a merecer DESTAQUE: a
Tridimensionalização que Caco Ciocler faz da
obra da revolucionária artista mexicana, como se a
obra de FRIDA adentrasse todo o cenário, assim atraindo
nosso olhar, cativando nossa emoção e invadindo
a Alma de todos nós, honrosamente compactuando com
Frida e suas dores, da platéia.
SALVE
FRIDA KHALO, a grande Artista Mexicana incorporada por Rosamaria
Murtinho ! Aplausos para Caco
Ciocler e o elenco que tão bem dirige
- destaque para Marcelo Torreão, Zulma Mercadante,
Taciana Barros (a quem vi substituir com preciocismo, em dia
de estréia, a presença competente de Zulma em
cena), Alex Nader, Bernardo La Rocque e Vera
Ferreira (ótima como a mãe de Frida).
Lindas as cenas musicais - APLAUSOS vigorosos
para a direção inspirada de João
Paulo Mendonça (o primogênito de Rosinha
e Mauro Mendonça). Viva a equipe técnica: Xodó,
Neném, Luciano e D. Lourdes. Parabéns aos patrocinadores
pela sensibilidade em apoiar montagem tão bela, a qual
diginifica nossa cena. FRIDA é, sem dúvida,
uma das melhores estréias do ano passado e tem tudo
para fazer brilhante carreira neste 2008.
Saravá,
Rosamaria Murtinho !!! TODOS
OS APLAUSOS A ESTA MAGNÍFICA ATRIZ QUE MAIS UMA VEZ
SURPREENDE EM CENA COM O TALENTO QUE TODOS CONHECEM MAS QUE
EXTRAPOLA TODOS OS PARADIGMAS INTERPRETATIVOS A CADA NOVA
ATUAÇÃO. Que os Deuses
do Teatro estejam cada vez mais com você, minha Rosa
Querida, e os que lhe acompanham. |
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CONSCIÊNCIA:
PORQUE É MÚLTIPLA NOSSA NEGRITUDE
*
Aurora Miranda Leão
Vem chegando mais um 20 de
novembro. E, como acontece quase diariamente, me bateu Vininha
no coração. Pra quem não atenta logo,
Vininha é o apelido carinhoso que os amigos deram
a Vinícius de Moraes,
o Poeta que foi Tanto que diante dele somos todos
muito diminutos.
E
lembrar Vininha nestes tempos de Consciência Negra
é lembrar de quem guardei estes versos, que nunca
me saíram da cabeça - como tantos outros dele:
'... o branco mais preto do Brasil, na linha direta de Xangô.
Saravá !'
De
meu pai, ganhei meu primeiro LP, justamente um disco de
VM editado pela Abril - em formato médio, uma 'inovação'
da época. Guardo-o comigo. Relíquia. E falar
em Negritude sem falar em Vinícius é como
falar de livro infantil sem falar em Monteiro Lobato, ou
como falar em música clássica e não
lembrar logo Nepomuceno, Villa-Lobos ou Nazareth; falar
na Bahia e não lembrar logo Gil, Gal, Caetano e Bethânia,
ou como ir a Paris e não conhecer a Torre Eiffel...
Rememoremos:
a primeira encenação brasileira, cujo elenco
era formado integralmente por atores negros, foi Orpheu
da Conceição, cuja estréia
aconteceu em 25 de setembro de 1956 no Teatro Municipal
do Rio de Janeiro. Uma semana em cartaz, 'patrocínio'
exclusivo do bolso de Vinícius, memorável
ficha técnica: Oscar Niemeyer fez os cenários,
Léo Jusi dirigiu, Lila Bôscoli criou os figurinos,
Vininha e Tom Jobim criaram as músicas; Carlos Scliar
fez todos os desenhos; Djanira, Luís Ventura, Raimundo
Nogueira e Scliar criaram os cartazes. Leo Peracchi conduzia
a orquestra e Luís Bonfá executava o violão
de Orpheu, interpretado por Haroldo Costa. Eurídice
era Dirce Paiva; Léa Garcia fazia Mira de Tal e Cyro
Monteiro era Apolo. Abdias Nascimento e seu TEN
também estavam no elenco: Pérola
Negra, Waldir Maia, Chica Xavier, Clementino Kelé,
Chico Feitosa. Era a primeira vez que atores negros subiam
ao palco do magnânimo Teatro Municipal com uma montagem
grandiloqüente, reunindo o melhor para tornar
Orpheu um marco na história de nosso
Teatro.
Sobre
a montagem, escreveu o Poeta: 'Esta peça é
uma homenagem ao negro brasileiro, a quem, de resto, a devo;
e não apenas pela sua contribuição
tão orgânica à cultura deste país;
melhor, pelo seu apaixonante estilo de viver que me permitiu,
sem esforço, num simples relampejar do pensamento,
sentir no divino músico da Trácia a natureza
de um dos divinos músicos do morro carioca'.
Tudo que Vinícius fez tem ainda mais valor porque
àquela época o comum era o desrespeito ao
negro, o desprezo, o relegar à negritude ao ostracismo.
O gesto de Vínicius e toda a sua atuação
- lê-se em suas muitas biografias o respeito devotado
e ensinado aos filhos no tocante aos negros, aos pobres,
às mulheres - são uma prova inconteste do
posicionamento determinado do Poeta em defesa das minorias
(?). Sendo ademais Vinícius um filho da chamada 'Zona
Sul', branco e de olhos verdes, Poeta e Diplomata, admirado
por artistas e intelectuais, com trânsito em todas
as esferas (embora fosse tão mal visto por alguns
poderosos, que acabou sendo exilado quando o AI-5 decretou
luto à Cultura Brasileira), seu gesto reveste-se
ainda mais de Valor pois não legislava em causa própria.
É
fato também: não podemos olvidar o pioneirismo
e a aguerrida disposição de Abdias
Nascimento, merecidamente homenageado este ano
com a Ordem do Mérito Cultural pelo Governo Lula,
levando adiante as mais diversas plataformas negras com
a criação do Teatro Experimental do Negro,
de onde revelou nomes como Ruth de Souza e Lea Garcia.
Vale
lembrar também o pioneirismo de Janete Clair quando
criou o Dr. Percival, psicólogo, em sua novela Pecado
Capital (grande êxito da Rede Globo), especialmente
para o ator Milton Gonçalves. Este
é um marco da nossa teledramaturgia e não
pode ser olvidado. Milton já fizera outro grande
personagem na trama de Dias Gomes, O Bem-Amado, na qual
viveu Zelão das Asas... Se formos voltar nosso olhar
para a Literatura e o Samba, aí mesmo é que
esta crônica não tem como terminar de tão
extensa ficará.
Voltemos
nossas lembranças para as grandes Damas Negras de
nossos palcos e filmes: Chica Xavier, Ruth de Souza, Lea
Garcia, Ângela Correa, Neusa Borges; ou as beldades
que enfeitavam nosso Cinema e ninguém mais vê
- Luíza Maranhão, Marlene Silva, Adele Fátima,
Julcilléia Teles, Aizita Nascimento, Vera Manhães;
as belas de hoje, presença constante na tevê
- Adriana Lessa, Ildi Silva, Camila Pitanga, Maria Ceiça,
Thaís Araújo, Thalma de Freitas e as intérpretes
da novela das 21h, Duas Caras; ou lembremos Milton e seu
filho Maurício Gonçalves, Antônio Pitanga,
Jorge Coutinho, Joel Zito Araújo, Antônio Pompeu,
Clementino Kelé, Nélson Xavier, Ivan de Almeida;
e os mais moços como Lázaro Ramos, Flávio
Bauraqui, Leandro Firmino da Hora, Alexandre Rodrigues,
André Ramiro, Sérgio Lorosa, Sirmar Antunes,
Sérgio Malheiros, Douglas Silva, 'Pratinha' e sua
bela filha Marília, e na música - Elisete
Cardoso, Tim Maia, Jorge Ben Jor, Luís Melodia, Paulinho
da Viola, Milton Nascimento, Zezé Motta, Djavan,
Gilberto Gil, Emílio Santiago, Eliana Pittman, Carlinhos
Brown, Martinho da Vila, Martinália, D. Ivone Lara,
Virgínia Rodrigues, Leci Brandão, Leny Andrade,
a linda Paula Lima e tantos tantos mais; além dos
imortais, Pixinguinha, Lupicínio Rodrigues, Cartola,
Ismael Silva, Moacir Santos, Ciro Monteiro; e Heitor dos
Prazeres, Di Cavalcanti, Antônio Bandeira na Arte
dos pincéis e telas impagáveis... São
tantos que qualquer espaço seria pequeno para citá-los
todos. Há intelectuais, líderes e artistas
do porte de Muniz Sodré, Nei Lopes, João Cordeiro,
Joaquim Nabuco, José do Patrocínio, Dragão
do Mar, Haroldo Costa, Walli e Jorge Salomão, Zózimo
Bulbul, Toni Tornado, Jefersson D, Raquel Trindade... Restam
saudades de Grande Otelo, Solano Trindade, Zeni Pereira,
Procópio Mariano, Jacira Silva, Mussum, Eliezer Gomes,
Sônia Santos... Onde andam Clea Simões e Jorge
Coutinho.......... ?
Vamos
celebrar nossa negritude - ancestral, transversal, ritualística,
emocional, visceral - através de nossa rica produção
audiovisual (como exemplo, o
movimento cineclubista realiza exibições em
todo o país da Mostra AfroOlhar),
recheada de obras a nos retratar tão bem como Cafundó
(filme de Paulo Betti e Clóvis Bueno); Cidade
das Mulheres (filme de Lázaro Farias); A
Negação do Brasil (livro e filme)
e Filhas do Vento (filme) de Joel Zito
Araújo; A Rainha Diaba, de Antônio Carlos Fontoura
e Madame Satã, de Karim Aïnouz;
Orpheu do Carnaval e Orpheu, o primeiro
de Marcel Camus e Vinícius de Moraes e o segundo
de Cacá Diegues; Chica da Silva, Ganga Zumba
e Quilombo, todos de Cacá. Se formos pra
música então, haja vitrola... Estas obras
e estes Artistas não são exclusividade do
chamado Movimento Negro. Ou pelo menos não devem
ser 'emoldurados' apenas pelos que militam no movimento.
A Cultura Brasileira é afinal um belo e original
artesanato, qual renda traçada pelos bilros que a
voracidade da tecnologia quase está a fazer desaparecer
de nossa nordestinidade, onde se aninham referências
indígenas, européias e africanas. Portanto,
somos todos merecedores de respeito, incentivo e aplauso.
Sejamos artífices de uma segunda Abolição
- da qual tão bem nos fala o líder
Abdias Nascimento - para todos nós,
brasileiros de todas as origens, crenças, etnias,
tradições e classes sociais.
Todos
os nomes aqui citados, sem exceção, são
PATRIMÔNIO CULTURAL e ARTÍSTICO, logo, Patrimônio
Imaterial do Brasil - '...meu Brasil de todos os
santos, branco, preto, mulato, índio, lindo como
a pele macia de Oxum, inclusive, meu São Sebastião...
Saravá !'
Sem
essas pessoas - e mais uma infinidade delas, lembrando que
'editar é preciso' - nossa Cultura seria mais pobre,
nossa história seria mal contada, nossa diversidade
seria tacanha, nossos valores seriam medíocres, seria
desigual nossa aparência e pálido nosso arco-íris.
Quanto mais longe formos na saudação e reverência
a todos os expoentes da Arte e Cultura que são negros
- porque Arte e Cultura não têm cor;
nossas peles é que apresentam matizes diferentes
-, tanto quanto devemos louvar e aplaudir aos expoentes
de todas as etnias - porque todos que não praticamos
guerra, que defendemos a Paz, a Dignidade, a Diversidade,
a Ética, a Justiça, a Fraternidade e a Solidariedade,
devemos ser exemplo aos que trafegam em territórios
opostos, pregando valores antípodas, decretando a
irracionalidade em nome de inexistentes e inconcebíveis
padrões superiores.
Porque
quem criou o Universo a todos concedeu os mesmos poderes,
direitos e deveres; a nenhum discriminou. A ninguém
deu mais. A ninguém deu carta, de cor nenhuma, para
agir mal com o próximo em nome de coisa alguma.
Portanto,
possa este 20 de novembro ecoar em todos as almas como uma
data da BRASILIDADE. Um dia no qual todos nós, de
todos os credos, corpos, faixa salarial, tipo de cabelo,
maneira de ser e estar, jeito de falar e andar, maneira
de atuar, cantar e dançar, modo de comer, olhar e
estudar, gostos e aptidões diferentes, possamos nos
dar as mãos e entrelaçar nossos corações
numa mesma emoção cujo único parâmetro
seja a Justiça, a Gratidão, o Afeto, o Respeito
e a reverência igualitária ao que é
Belo, Bom e Justo. Porque não é possível
avançarmos décadas no milênio sem progredir
na qualidade das relações e ainda continuarmos,
forçadamente, a ter de admitir a necessidade de pregar
a igualdade e esclarecer sobre a criatura humana - cujas
diferenças étnicas são apenas traços
legados por um Pintor Único e múltiplo, que
a nós criou com extrema maestria, tendo o cuidado
de a cada um dotar de um semblante diferente, uma fala diversa;
a cada um consagrou o direito sagrado de escolher como quer
se colocar no mundo; com uma delicadeza de querubim, tomou
nas mãos uma palheta de cores sublimes, só
encontrável na natureza, e transmitiu a cada um as
matrizes de sua ancestralidade e descendência, conforme
melhor ressoavam n'Alma os padrões por Ele tão
generosamente doados ao Universo.
Neste 20 de novembro, deixo uma sugestão a quem pode
mais que esta jornalista: o Brasil bem poderia designar
o dia do aniversário de Vinícius de Moraes
- 19 de outubro - como o Dia da Diversidade Cultural
ou o Dia da Reverência Étnica.
Data
do aniversário do Poeta, músico, compositor,
Diplomata, crítico de Cinema, acadêmico, imortal
em tudo que fez e de toda beleza da qual a nós todos,
brasileiros, nos fez herdeiros. Porque foi Vinícius
quem primeiro e melhor fez a ponte entre a música
erudita e popular, entre a cultura branca, a negra e a mestiça,
e declarou isso em versos que todos sabemos de cor: 'Eu,
por exemplo, o capitão-do-mato Vinícius de
Moraes, poeta e diplomata, o branco mais preto do Brasil,
na linha direta de Xangô - Saravá !',
e desfila neste incomparável Samba
da Bênção uma lista
de nomes dos quais sofreu influência direta, com os
quais conviveu e aos quais eternizou, em versos, o aplauso,
o respeito, a amizade e parceria.
Viva
a Consciência Negra!
Salve
Negros e Negras do Brasil e do mundo !
Palmas
aos Representantes da Cultura Negra !
Aplausos
a todos os Brasileiros, de todas as Etnias e de qualquer
parte do Brasil, defensores da Paz, da Justiça e
da Igualdade Social como um Bem que há muito já
devia grassar como lei natural.
Saravá
Vininha e todos os Poetas deste meu Brasil, negro,
branco, índio, caboclo, mulato, cafuso, mameluco,
lindo e multifacético como Vininha, o Grande Poeta
da Paixão, do Amor, do Mar e da Mulher Amada, que
em nós plantou, sobretudo, a importância
do Respeito ao Humano.
VIVA
20 DE NOVEMBRO !
Salve
Zumbi dos Palmares !
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