Textos de Rubens Ewald Filho, Marcelo Janot, Celso Sabadin, Carlos Alberto Mattos...
O ANO QUE MEUS PAIS SAÍRAM DE FÉRIAS
 
O HOMEM QUE ENGARRAFAVA NUVENS
 
CITIZEN KANE
 
Meu Nome não é Johnny
"Quando o cinema produz sua própria realidade, filmar deixa de ser um ato irrelevante. Filmar - e principalmente, filmar documentários - modifica o mundo. Sem heroísmo, muito pouquinho, sutilmente, mas modifica".
João Moreira Salles
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Canções de Nuvens e Cinema de Saudade e Beleza

* Aurora Miranda Leão

     Caía a noite da primeira sexta de outubro. Este outubro dos 95 de Vinícius de Moraes, dos 50 da eterna Bossa Nova, e de mais uma primavera do artista cearense Calé Alencar.

     CINELÂNDIA CARIOCA, onde outrora ancorava com ares de sílfide a Belle Époque e os cafés se faziam apreciar aos sons dos Chorões dos carnavais que não voltam mais - como profetizou a imortal melodia do Lalá. Cartaz no Cine Palácio anunciava a exibição hors-concours do filme O HOMEM QUE ENGARRAFAVA NUVENS. Direção do arretado camarada pernambucano LÍRIO FERREIRA.

     Sessão lotada, platéia atenta. No écran, Denise Dumont começa a caminhar... à procura do pai - como revela no início da película e em todo o decorrer do filme, onde se expõe com surpreendente coragem -, o saudoso e emérito baluarte da mais típica Música Brasileira egressa do sertão nordestino, HUMBERTO TEIXEIRA.

     Sucessão de imagens descortina um nordeste palpitante de Cultura. Calé Alencar é o maestro a conduzir os espectadores pelo passeio onírico convidando o adentrar na cearensidade de Humberto, o Doutor do Baião. O grande parceiro Luiz Gonzaga veio do solo pernambucano, como Lírio, mas foi com o Humberto de Calu e Qui Nem Jiló o melhor acerto das notas musicais.

     E lá vem o Reisado, da Juazeiro da infância de Calé, e lá vêm os Irmãos Aniceto, da famosa Banda do Cariri cearense - saudades do Crato ! -, recebendo no quintal do Mestre Raimundo as alegrias que vão chegando... Está formada a roda, dança Denise, arrebatada pelo som dos pifes e da zabumba... nesse clima, nem bicho entrevado fica parado... Haja Forró no Cariri ! E Viva os ANICETO - Antônio, Raimundo, Cícero, Vicente, Joval e Adriano !

     E HUMBERTO LEVOU A MÚSICA - cearense / pernambucana / nordestina / brasileira - PRO MUNDO CONHECER. Organizou caravanas de músicos de todas as etnias para cantar seu sertão de cor/cheiro/paladar/acordes e indumentária colorida onde as fronteiras não tinham serventia e o império era o da BELEZA e da Maestria Musical.

     Aprendi sobre tudo isso ouvindacompanhando meu querido parceiro CALÉ nas voltas que o mundo dá - e com ele as voltas são sempre intensas de som, recheadas de cor, untadas de gosto de pé-de-moleque, sabor de aluá e milho verde pro cuscuz que mais tarde vamos comer ao som dos Irmãos Aniceto e das equatorianas rítmicas com as quais ele inunda de mágica sonoridade as audições de toda a vida.

     E foi uma satisfação dessas que a sensibilidade nunca mais apaga verouvir o filme de Denise-Lírio-Humberto ... pois na tela vi muito do que já intuía, imaginação serelepe a vadear pelo agreste nordestino - e de repente fazer ponte com a Bossa Nova de Bebel, a afinação irretocável de Gal, o malemolente violão de GIL, HUMBERTO ENGARRAFANDO NUVENS A ESPREITAR a escultural Pedra da Gávea, de onde tantas vezes confirmamos - na agradabilíssima companhia de minha doce Rosamaria Murtinho - a beleza sem par do Rio de Janeiro, natureza sem igual a nos presentear com lirismo e fortalezas paisagísticas, encharcando de saudade as malas da viagem de regresso ao torrão natal.

     Na platéia do Palácio, Raimundo Fagner, Ednardo, Alceu Valença, Lea Garcia, Ângela Leal, Daniel Tavares, Valério Fonseka, Daniel Filho e sua Carla Daniel, Marcelo Gomes, Cláudio Assis e tantos tantos mais.

     Noite plenamente emocional e calorosa. ARTISTAS NA TELA e NA PLATÉIA aplaudindo com emocionado entusiasmo a obra do compositor HUMBERTO TEIXEIRA, cearense de todos os Brasis, a aguerrida ousadia de Denise Dumont e a impactante união Lírio Ferreira/Walter Carvalho - a qual nos brinda a todos os espectadores com a intensidade singular de seus cortes compondo um realce imagético pleno de vigor/melodia visual e rítmica, e benfazeja capacidade de fazer quem assiste ir aos poucos adentrando - com interesse, sensibilidade desperta e sintonia - àquele universo tipicamente BRASILEIRO, qual jardineiros a plantar raízes sensoriais com a mais densa leveza, compondo um painel sonoro-visual de extrema FORÇA & BELEZA repleto de intersecções com a universalidade do SENTIMENTO - que é CEARÁ - NORDESTE - BRASIL & MUNDO !

     PARABÉNS AO QUERIDO LÍRIO FERREIRA POR ESTA BELEZA DE FILME QUE É O HOMEM QUE ENGARRAFAVA NUVENS. À Denise Dumont pela coragem e senso de oportunidade em tornar a vida e estrada musical de seu pai um registro audiovisual agora possível de ultrapassar fronteiras e calar dissonâncias. E a todos quanto tornaram possível desvendar/revelar/reafirmar estes instigantes capítulos da vida brasileira feita música/baião e nuvens...

     ... Nas quais o Ceará anfitriona e dá as mãos ao Rio, e Pernambucano faz a ponte internacional via Nova York...

SARAVÁ, LÍRIO, DENISE, CALÉ e WALTER !

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HUMBERTO TEIXEIRA CELEBRA A ARTE DO ENCONTRO de LÍRIO FERREIRA & DENISE DUMMONT

     Ainda me flagram as retinas com o encantamento provocado pelo belo documentário sobre Humberto Teixeira, realizado por Lírio Ferreira com produção da filha do compositor, a atriz Denise Dumont.

     O HOMEM QUE ENGARRAFAVA NUVENS é o cinema a revelar um olhar sensível, arguto, delicado e seminal para a compreensão da presença da Música Nordestina no panorama cultural do Brasil !

     Denise Dummont, à frente de projeto belo e importante, aliou sua vontade de conhecer mais o pai e "apresentá-lo" aos filhos à determinação de fazer um documentário em honra da memória do Doutor do Baião, e acabou fazendo uma obra rica e de suma relevância para a história da Música Brasileira e, portanto, para nossa história cultural.

     Teve a sorte de somar sua garra e disposição à competência, sensibilidade e refinamento do olhar imagético de Lírio Ferreira, que se consagra definitivamente, com este novo Doc (após o emblemático Cartola), como um dos mais importantes, ousados e capazes cineastas brasileiros.

Assinando mais este belo exemplar do cinema nacional, Lírio Ferreira consegue proezas capazes de fazer de O Homem que Engarrafava Nuvens um documentário precioso sobre a vida de seu tempo, a música e cultura de uma época, de um povo, de um lugar.

     Depoimentos luminosos como os de Tárik de Souza, Muniz Sodré, Gilberto Gil e Caetano Veloso, juntam-se a vozes emblemáticas e interpretações antológicas como as de Chico Buarque para Kalu, a de Bethânia para Asa Branca e a de Gal Costa para Adeus, Maria Fulô. Destaque-se a engenhosa habilidade de Lírio ao abrir o passeio documental sobre a obra de HT a partir de lapidar depoimento do compositor cearense Calé Alencar, ilustrado com a riqueza das manifestações da cultura popular do Cariri de Humberto, bem como ao complementar com imagens as falas de Otto e Caetano Veloso em dois momentos exponenciais do filme: a explosão da bomba atômica simbolizando o encontro definido por Otto como o de Humberto e Luiz Gonzaga, e a vertigem do cinema da letra de Caetano em Terra. Outrossim, a maestria do cineasta reafirma-se ao conseguir despertar ainda mais os ouvidos do espectador num balé perscrutador da câmera, adentrando o ambiente embalada pela ternura de Kalu na voz inconfundível de Chico Buarque, finalizando com foco no artista cantando em estúdio. Magistral.

     Não há como deixar de registrar também a mais bela tomada já feita pelo cinema da Catedral de Fortaleza, ainda mais imponente nos acordes precisos de Nonato Luíz. Há tomadas da já tão cenarizada New York de forma absolutamente inusitada fazendo quase ver uma nova cidade por entre ângulos improváveis - como o que o Poeta da Luz, Walter Carvalho, realça no passeio ciclístico de David Byrne adornado pela tela de raios de metal entrelaçados da ponte de Manhattan em primeiro plano -, os quais reafirmam um cineasta sintonizado com as idiossincrasias dessa urbanidade tão própria hoje de qualquer um, em cada metrópole mundial. E que Humberto Teixeira parecia antever, ao fazer brotar as primeiras notas do ritmo novo pelo qual mais tarde seria conhecido, resolvendo levá-lo para paragens distantes e distintas de seu berço torrão, para tanto contando com a cumplicidade e camaradagem decisiva de Luiz Gonzaga.

     Digno de registro e aplauso, por muito bom e tocante, o roteiro minucioso assinado por Lírio, rico de imagens de arquivo - decupagem sensível e minuciosa na escolha de passagens essenciais -, e muito confinante à forma de fazer música do cearense Humberto Teixeira, ao juntar no mesmo baião vozes de geografias tão díspares como as de David Byrne, Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto, Bebel Gilberto, Cordel do Fogo Encantado, Coco das Mulheres da Batateiras, Lenine, Sivuca, Carmélia Alves, Nonato Luiz, Alceu Valença, Miho Hatori, Zeca Pagodinho, Fagner...

     Alguém poderá dizer que o filme é uma viagem muito pessoal de Denise. É mesmo. E que bom perceber isso na tela. Com a precípua necessidade existencial a aflorar nas veias da maturidade, Denise iniciou, com determinação, coragem, sentido de resgate do tempo perdido, e muito amor, uma peregrinação visceral em busca do entendimento do trançado de vida do pai. É preciso ser muito forte para topar registrar para o écran um encontro tão íntimo, assumidamente atrasado, perturbador, difícil e doloroso, com a disponibilidade assumida por Denise perante a câmera de Walter Carvalho, o olho de Lírio e toda a extensa gama de profissionais indispensáveis para o registro realizado. Foram anos tentando entender o “abandono” da mãe, o “desencontro” com o pai, a dessintonia de duas pessoas tão fundamentais na vida da garota Denise. Os anos tornam maior o abismo, aprofundam mágoas, dilaceram almas, estendem tristezas, provocam marcas fundas e as cicatrizes permanecem latejando. Não é fácil revelar sentimentos, expor a alma diante do outro. E Denise o faz de forma tão verdadeira (o encontro registrado no filme no qual Denise tenta enfim entender porque o afastamento do pai, porque a ausência da mãe em momentos tão cruciais, é o primeiro da vida real) que é impossível não chorar na hora da conversa com a mãe Margarida Bittencourt - mulher bela e adiante de seu tempo, atriz que abandonou a carreira porque o marido Humberto assim o quis -, e os olhos verdes da pianista brilham e marejam, revelando fatos e opções tão pouco claras a filha até então. Em busca do pai e do entendimento de sua vida, Denise Dumont descobre a si própria e engendra via cinema uma viagem dolorosa, aguerrida, necessária e catártica sobre a própria vida. Bela seqüência, exemplar do quanto pode o amor e do quão transformador é o conhecimento de si próprio, viagem que cada um de nós empreenderá, mais cedo ou mais tarde, uma dor a se atravessar para sair mais forte depois da tempestade. Denise afigura-se mestra na compreensão dessa passagem existencial. Matéria de Sabedoria.

     E o filme vai-se construindo ao mesmo tempo em que Denise avizinha-se/apercebe-se da grandiosidade da inserção do pai na Cultura Brasileira. E assim ela vai permitindo a nós, público, uma nova dimensão sobre o legado de Humberto Teixeira e o faz alimentada pelo olhar sensível e a direção acurada de Lírio Ferreira. Por ser um depoimento tão franco, determinado e encorajador sobre o pai, mais ainda o documentário sobre Humberto Teixeira azunha, comove, emociona.

     Tudo isso está nas entrelinhas de O Homem que Engarrafava Nuvens, em subtextos arrestados num enorme trançado de renda onde as canções são as linhas multicores da artesania musical criada por Humberto Teixeira e as letras são os bilros a criar o desenho perfeito para o arremate final de cada intérprete.

     Embrenhando-se nessa trajetória através da chegada à terra do pai, do encontro com pessoas da família, com o ambiente físico e sensorial traduzido nas letras de Humberto, Denise Dumont fez o seu próprio Caminho de São Teixeira e assim ajudou a escrever a definitiva página do Baião na História da Música Brasileira.

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O HOMEM QUE ENGARRAFAVA NUVENS, O Grande Vencedor do CINE CEARÁ

     Conforme antevemos em nosso Blog da Boreal, pré-indicando ao menos 2 estatuetas para o documentário de Lírio Ferreira em homenagem ao compositor cearense Humberto Teixeira, o filme produzido pela Good Ju-Ju de Denise Dummont marca sua passagem pela terra natal do Doutor do Baião abiscoitando 5 prêmios na 19a edição do Cine Ceará, encerrada dia 4 de agosto.

     Entre os muitos prêmios ao belo e relevante Doc de Lirio Ferreira, estão o de Roteiro (Lírio Ferreira), Som (Zezé Dalice e Waldir Xavier), o da Crítica, o do Banco do Nordeste e o Oscarito, concedido pela Câmara Municipal de Fortaleza.

     O documentário sobre HUMBERTO TEIXEIRA é mesmo merecedor de todos estes prêmios: com O HOMEM QUE ENGARRAFAVA NUVENS o cinema revela um OLHAR SENSÍVEL, ARGUTO, delicado e seminal para a compreensão da presença da Música Nordestina no panorama cultural do Brasil !

     Estamos muito felizes com a justíssima premiação: Denise Dummont está à frente de um projeto belo e importante, aliou sua vontade de conhecer mais o pai e "apresentá-lo" aos filhos à determinação de fazer um documentário em honra da memória do pai, e acabou fazendo uma obra rica e de suma relevância para a história da Música Brasileira e, portanto, para nossa história cultural.

     Teve a sorte de aliar sua garra e disposição à competência, sensibilidade e refinamento do olhar imagético de Lírio Ferreira, que se consagra definitivamente, com este novo Doc (após o emblemático Cartola), como um dos mais importantes, ousados e capazes cineastas brasileiros.

     Como diria meu pai, o crítico LG de Miranda Leão, "Lírio afirma-se como um cineasta de escol..."

     SARAVÁ, LÍRIO FERREIRA & DENISE DUMMONT !

     PARABÉNS PELO BELÍSSIMO O HOMEM QUE ENGARRAFAVA NUVENS !

     UM VIVA ESPECIAL a WALTER CARVALHO, a MAIR TAVARES, a DANIEL FILHO, a Matthew Chapman, aos patrocinadores e a toda a equipe que tornou o filme possível. BRAVOS !!!

     Leia comentário sobre o filme no link OBJETIVA...

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Canções de Nuvens e Cinema de Saudade e Beleza
* Aurora Miranda Leão

     Caía a noite da primeira sexta de outubro. O outubro passado, dos 95 de Vinícius e 50 da eterna Bossa Nova. O foco estava na CINELÂNDIA CARIOCA, onde outrora ancorava com ares de sílfide a Belle Époque e os cafés se faziam apreciar aos sons dos Chorões dos carnavais que não voltam mais - como profetizou a imortal melodia do Lalá. No histórico Cine Palácio, o cartaz anunciava a exibição hors-concours do filme O HOMEM QUE ENGARRAFAVA NUVENS. Direção do arretado camarada pernambucano LÍRIO FERREIRA.

     Sessão lotada, platéia atenta. No écran, Denise Dumont começa a caminhar... à procura do pai - como revela no início da película e em todo o decorrer do filme, onde se expõe com surpreendente coragem -, o saudoso e emérito baluarte da mais típica Música Brasileira egressa do sertão nordestino, HUMBERTO TEIXEIRA.

     Sucessão de imagens descortina um nordeste palpitante de Cultura. Calé Alencar é o maestro a conduzir os espectadores pelo passeio onírico convidando o adentrar na cearensidade de Humberto, o Doutor do Baião. O grande parceiro Luiz Gonzaga veio do solo pernambucano, como Lírio, mas foi com o Humberto de Calu e Qui Nem Jiló o melhor acerto das notas musicais.

     E lá vem o Reisado, da Juazeiro da infância de Calé, e lá vêm os Irmãos Aniceto, da famosa Banda do Cariri cearense - saudades do Crato ! -, recebendo no quintal do Mestre Raimundo as alegrias que vão chegando... Está formada a roda, dança Denise, arrebatada pelo som dos pifes e da zabumba... nesse clima, nem bicho entrevado fica parado... Haja Forró no Cariri ! E Viva os ANICETO - Antônio, Raimundo, Cícero, Vicente, Joval e Adriano !

     E HUMBERTO LEVOU A MÚSICA - cearense / pernambucana / nordestina / brasileira - PRO MUNDO CONHECER. Organizou caravanas de músicos de todas as etnias para cantar seu sertão de cor/cheiro/paladar/acordes e indumentária colorida onde as fronteiras não tinham serventia e o império era o da BELEZA e da Maestria Musical.

     Aprendi sobre tudo isso ouvindacompanhando meu querido parceiro CALÉ nas voltas que o mundo dá - e com ele as voltas são sempre intensas de som, recheadas de cor, untadas de gosto de pé-de-moleque, sabor de aluá e milho verde pro cuscuz que mais tarde vamos comer ao som dos Irmãos Aniceto e das equatorianas rítmicas com as quais ele inunda de mágica sonoridade as audições de toda a vida.

     E foi uma satisfação dessas que a sensibilidade nunca mais apaga verouvir o filme de Denise-Lírio-Humberto ... pois na tela vi muito do que já intuía, imaginação serelepe a vadear pelo agreste nordestino - e de repente fazer ponte com a Bossa Nova de Bebel, a afinação irretocável de Gal, o malemolente violão de GIL, HUMBERTO ENGARRAFANDO NUVENS a espreitar a insólita Pedra da Gávea, de onde tantas vezes confirmamos - na agradabilíssima companhia de minha doce Rosamaria Murtinho - a beleza sem par do Rio de Janeiro, natureza sem igual a nos presentear com lirismo e fortalezas paisagísticas, encharcando de saudade as malas da viagem de regresso ao torrão natal.

     Na platéia do Palácio, os músicos Raimundo Fagner, Ednardo, Calé Alencar, Alceu Valença, as atrizes Lea Garcia e Ângela Leal, os atores Daniel Tavares e Valério Fonseka; Daniel Filho e sua Carla Daniel, os cineastas Marcelo Gomes e Cláudio Assis e tantos tantos mais.

     Noite plenamente emocional e calorosa. ARTISTAS NA TELA e NA PLATÉIA aplaudindo com emocionado entusiasmo a obra do compositor HUMBERTO TEIXEIRA, cearense de todos os Brasis, a aguerrida ousadia de Denise Dumont, a maestria da edição de Mair Tavares (outro cearense) e a impactante união Lírio Ferreira/Walter Carvalho - a qual nos brinda a todos os espectadores com a intensidade singular de seus cortes compondo um realce imagético pleno de vigor/melodia visual e rítmica, e benfazeja capacidade de fazer quem assiste ir aos poucos adentrando - com interesse, sensibilidade desperta e sintonia - àquele universo tipicamente BRASILEIRO, qual jardineiros a plantar raízes sensoriais com a mais densa leveza, compondo um painel sonoro-visual de extrema FORÇA & BELEZA repleto de intersecções com a universalidade do SENTIMENTO - que é CEARÁ - NORDESTE - BRASIL & MUNDO !

     PARABÉNS AO QUERIDO LÍRIO FERREIRA POR ESTA BELEZA DE FILME QUE É O HOMEM QUE ENGARRAFAVA NUVENS. À Denise Dumont pela coragem e senso de oportunidade em tornar a vida e estrada musical de seu pai um registro audiovisual agora possível de ultrapassar fronteiras e calar dissonâncias. E a todos quanto tornaram possível desvendar/revelar/reafirmar estes instigantes capítulos da vida brasileira feita música/baião e nuvens...

     ... Nas quais o Ceará anfitriona e dá as mãos ao Rio, e Pernambucano faz a ponte internacional via Nova York...

     SARAVÁ, LÍRIO, DENISE, CALÉ, WALTER e MAIR !

* O Homem que Engarrafava Nuvens terá exibição hors-concours na próxima edição do Festival CinePE, que começa dia 27 e prossegue até 3 de maio em Recife.

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SÃO LUÍS ELEITA CAPITAL CULTURAL DO BRASIL

     São Luís, CAPITAL CULTURAL BRASILEIRA. Em 2009, oficialmente. Em todos os tempos, terra de magia, encanto e belezas mil, território onde a Arte se faz Poesia nas cores, nos sotaques e nas indumentárias do Bumba-meu-Boi, e onde a Cultura se faz mais bela e poderosa na ginga das saias em roda das crioulas ao som irresistível dos tambores AfroAscendentes.

     São Luís é capital para onde sempre se quer ir, se pensa em voltar, se sonha em ser feliz muitas gerações. Como se não bastasse ser a Ilha do Amor - em boíssima hora assim codinominada -, a capital maranhense é também a terra onde o Nordeste é mais NORDESTE e onde o verde das palmeiras dá um tom especial aos brincantes do Boi. São Luís é também a cidade onde a história caminha de mãos dadas com o visitante e a tradição anfitriona com graça e simpatia a modernidade traduzida nos sotaques de cidades várias que adentram as vielas perpassadas pela admirável azulejaria portuguesa e telhados seculares.

     São Luís é ademais a cidade onde o camarão recebe o tempero especial da vinagreira e haja cuxá para a demanda que se faz maior a cada festejo junino, terra da cobiçada "juçara" e do incomparável BURITI, seiva de um dos doces mais gostosos deste pedaço de terra chamado Brasil e fibra natural a compor belas peças artesanais com a qual se fabricam bolsas, colares, tapetes, chapéus, carteiras, toalhas e outros itens da mesma linhagem. Neste ano de oportunas homenagens a FRANÇA no Brasil, esta cidadania cultural ludovicense ganha ainda mais relevância, sendo São Luís a única capital brasileira fundada pelos francos hermanos.      

     Ah, quantas saudades de São Luís !

     Pois além de tudo isso, e muito mais (que daria pra crônica de tamanho enorme mas merecido), São Luís é também terra onde se faz amigos como quem conta nuvens no céu - eles são intensos, multiplicam-se ao ritmo das festas maranhenses e encontrá-los é enxertar ALEGRIA de múltiplas corres no dia-a-dia.

     Foi lá que conheci há alguns anos o hoje queridíssimo Euclides Moreira Neto, agitador cultural dos mais profícuos, por décadas diretor do Departamento de Arte & Cultura da Pró-Reitoria de Extensão da UFMA, e hoje benfazejo titular da Fundação Cultural de São Luís. Oxalá o novo prefeito cumpra o prometido e crie a Secretaria de Cultura de São Luís, da qual Euclides será MERECIDAMENTE o titular. E depois da nomeação feita, champanhe espoucada, aplausos e Parabéns de todas as partes do Brasil, é só esperar: Euclides fará pelo patrimônio Artístico-Cultural de São Luís (dos mais ricos do país) muito mais do que já foi feito em todas as décadas de séculos passados.

     Pois São Luís me concedeu Euclides Moreira Neto e com ele Adelaide e a querida Dona Jesus (das tentadoras guloseimas e iguarias maranhenses), Veiga Júnior, Celso Brandão, Fernando Oliveira e Joel Jacintho. E ainda o professor Fernando Ramos, os irmaõs de Cinema -Gutérres, Uimar Júnior, Rui Vasconcellos, Vinícius Motta (do Resort Lençóis Maranhenses de Barreirinhas), Breno Di, Lauro Vasconcellos, o cineasta Joaquim Haeckel e tantos tantos mais.

Por tudo isso, Saravá Euclides Moreira Neto!
Salve a Arte de São Luís!
Oxalá São Luís, presente francês ao Brasil!

E Viva São Luís, a Capital Cultural Brasileira !

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LEA GARCIA Celebra Bodas de Ouro de Cinema no FESTIVAL GUARNICÊ

* Aurora Miranda Leão

     Um dos mais antigos e respeitados festivais de cinema do país, o Guarnicê, cujo cenário é a capital maranhense, teve sua 32ª edição realizada no período de 17 a 21 de junho, reunindo jornalistas, produtores e realizadores de todo o país na adoravelmente festeira São Luís.

     Este ano, o Guarnicê teve como grande homenageada a atriz LEA GARCIA por conta de seus 50 de carreira, cujo marco principal é a participação no Festival de Cannes em 1959 com o filme Orpheu do Carnaval, do poeta e diplomata Vinícius de Moraes e do cineasta francês Marcel Camus. Àquela época, Lea foi indicada como Melhor Atriz e ficou em segundo lugar, vencendo até a grande diva Ana Magnani, atriz de quem Lea sempre foi admiradora.

     Na tela do Guarnicê , Lea esteve em destaque no documentário do carioca Júlio Lellis - O BONDE, LÉA GARCIA & SEUS TRILHOS -, e no filme Remissão – ainda inédito no circuito nordestino -, do cineasta Sílvio Coutinho (exibido nas seleções oficiais dos festivais de Calcutá, Bogotá e Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, além de ter sido vencedor ano passado do Festival de Cinema de Natal).

     Ao lado de outros tantos atores negros, Lea Garcia integrou o elenco da primeira montagem de Orpheu da Conceição, cuja estréia aconteceu em 25 de setembro de 1956 no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, produção esmerada com cenários de Oscar Niemeyer, cartaz de Carlos Scliar, direção de Leo Jusi, músicas de Tom Jobim e Vinícius, com Tom ao piano e Luiz Bonfá ao violão. Produção totalmente bancada por Vininha. No espetáculo, marco do Teatro Brasileiro, Lea fazia Mira de Tal, “mulher do morro” (dizia a ficha técnica do espetáculo).

     Lea integrou o elenco de muitas novelas globais e depois de algumas novelas na Record, agora está no seriado A Lei e o Crime. Alguns de seus mais conhecidos trabalhos são em Escrava Isaura, Anjo Mau e O Clone. No cinema, fez Quilombo, Ganga Zumba, Chica da Silva, e O Maior Amor do Mundo, todos de Cacá Diegues; Cruz e Souza, O Poeta do Desterro, de Sylvio Back; Filhas do Vento, de Joelzito Araújo; Remissão, de Sílvio Coutinho; e Atabaques Nzinga, de Otávio Bezerra, para citar apenas os principais.

     Este ano, a coordenação do Festival Guarnicê coube ao professor Alberto Dantas, hoje atuando como Diretor do Departamento de Arte & Cultura da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) – promotora do evento – por conta da nomeação de Euclides Moreira Neto para a Fundação Cultural de São Luís. Euclides – super querido por toda a comunidade artística – é desde o início deste ano o presidente da FUNC e agora atua como presidente de honra do Guarnicê, tendo sido muito oportuna e merecidamente homenageado pela direção da UFMA durante o Festival. Vale lembrar: Euclides era ainda estudante quando participou das primeiras edições da então Jornada de Cinema do Maranhão como realizador, vencendo as 6 primeiras edições, passando depois à coordenar o festival, ao qual emprestou sempre toda sua competência, disponibilidade e energia, fazendo do GUARNICÊ o mais celebrado festival de Cinema do norte e nordeste do país.

     Na programação deste Guarnicê, além de mesas-redondas, debates, palestras, oficinas e lançamentos de livros – como o da pesquisadora Karla Holanda sobre Documentário Nordestino -, o lançamento dos longas Pachamama, de Erik Rocha (lançado na última edição do festival de Gramado e vencedor da mais recente edição do CinePort), Harmonia do Inferno, do jovem cineasta capixaba Gui Castor, e Syriará, do cearense Rosemberg Cariry.O Banco do Nordeste do Brasil manteve a importante premiação concedida no festival, o cobiçado prêmio BNB de Cinema, para o Melhor Filme e o Melhor Vídeo para o júri oficial.

     A edição 2009 do Guarnicê foi menor este ano – 2 dias a menos – por conta das dificuldades financeiras, mas não faltaram empolgação e muitos filmes nas telas das diversas mostras que compõem o festival. Além de Lea Garcia e do cineasta Sílvio Coutinho, estiveram presente os atores André Paes Leme e Nílson Asp, a atriz Ana Cristina Folch, os realizadores Andrea Cohim (PE), Michelline Helena e Leandro Gomes (CE),Taciano Valério (anunciando novo festival em Caruaru), David Sobel (PB), Rudi (RO), Bárbara Cariry (que trouxe a estatueta de Melhor Montagem para o novo filme do irmão Petrus, A Montanha Mágica), Rosa Malagueta (de Parintins, a mulher mais premiada da noite, com 5 estatuetas para o filme A Raiz dos Males, da dupla Heraldo Daniel e Homero Flávio ), Rubem Rocha (do Ministério da Cultura),Cloris Ferreira (produtora do Festival Catarina de Documentários, cuja sexta edição está grifada para agosto), além das jornalistas Ana Paula Minehira (da TV Cultura de São Paulo) e Bernadete Duarte, do Canal Brasil.

     Todas as noites, convidados e realizadores dividiam-se entre as exibições, o farto jantar no Hotel Grand São Luís e a passagem obrigatória no Arraial de São Luís (na praça Maria Aragão, projetada por Oscar Niemeyer), onde Euclides Moreira Neto recebia com seu especial calor humano e alegre hospitalidade, suas marcas tradicionais, enquanto sua mana Adelaide e as tias comandavam a barraca de apetitosas iguarias típicas (saudades da matriarca dona Jesus, agora uma luz a nos iluminar do Alto), que atendia pelo simpático nome de Barraca Guarnicê. A parada estratégica no “arraiá” de Euclides, lotado todas as noites com empolgação varando a madrugada, era a chance de termos o palco ideal para curtir os diversos grupos de Bumba-meu-Boi e compartilhar das energizantes rodas onde as saias coloridas celebram a festa da maranhenCidade nas quais o Tambor dá o tom e não permite mulher alguma ficar parada sem muita vontade de também ser crioula e coureira ! E tem ainda o Cacuriá, a Dança do Lelê, o Pela-Porco, e o Coco de Roda pra não deixar ninguém “dormir antes da madruga”. Enfim, o Guarnicê é um festival de Cinema onde há espaço para todo tipo de filme, e onde a hospitalidade, a alegria e os ritmos contagiantes dos tambores, matracas, orquestras e zabumbas abrem espaço para celebrar todas as etnias do imenso mosaico afro-brasileiro do qual a cultura maranhense é anfitriã com louvor e propriedade e onde nós imergimos nossa disposição para a festa todos os anos com prazer e imensa vontade de voltar a qualquer momento.

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LEA GARCIA: Como a Luz no Coração

* Aurora Miranda Leão

     Ela é dessas pessoas de quem se gosta fácil. Por isso, difícil esquecê-la. Fica no coração como carícia benfazeja. Sobretudo, quando se conhece seu caminho nos passos da Arte . Suas criações são sempre emolduradas em mistério, força dramática, carisma e densidade.

     Não sei se o mais certo seria dizê-la anjo, fada ou duende. Mas sei dela emanar uma energia muito peculiar, uma força inequívoca e uma chama inteligente – olhar a evocar antigas dores e sortilégios, daqueles que costumam acometer quem carrega n’alma as matrizes do amor, da solidariedade, do destemor ante à opressão e da fortaleza capaz de sobrepor-se mesmo ante às mais cruéis intempéries.

     Alguém já viu uma fada negra ? Um anjo de olhar triste ? Um duende acessível, falastrão e espevitado ? Pois eu já. E ele é muito mais que tudo isso. Atende por Lea Garcia e é ATRIZ, uma de nossas Melhores, este ano brindando Bodas de Ouro de atuação.

     LEA é uma de nossas Damas Negras, como bem “batizou” a jornalista carioca Sandra Almada. Conhecer LEA foi ganhar uma amiga. Em bate-papo descontraído e despretensioso – eu, ela, Maurício Gonçalves e Zezé Motta – relembrando antigas histórias do teatro e da televisão, falando em literatura e nos caminhos percorridos por outros companheiros negros – eu queria saber de Chica Xavier, Ruth de Souza, Ângela Correa, Procópio Mariano, Zeni Pereira, Jacira Silva, e tantos outros que compõem o Diamante Negro do Teatro Brasileiro. Com eles, a certeza de que a raça é tão mais forte e necessária quanto mais eles se entranham em nosso imaginário.

     Foi o querido Poeta Vinícius de Moraes – a quem aprendi com Toco a chamar de Vininha - quem colocou LEA no meu caminho. Ou me mostrou a ela através de seu belo Orpheu. Conhecê-la foi um momento mágico. Lea é uma linda mulher negra – branda e serena quando sente afeto no acolhimento; aguerrida e altaneira quando se trata de defender seus ideais e pontos-de-vista.

     Ao lado de outros tantos atores negros, Lea Garcia integrou o elenco da primeira montagem de Orpheu da Conceição, aquela produzida com amor, garra e sensibilidade por Vinícius de Moraes, cuja estréia aconteceu em 25 de setembro de 1956 no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, produção esmerada com cenários de Oscar Niemeyer, cartaz de Carlos Scliar, direção de Leo Jusi, músicas de Tom Jobim e Vinícius, com Tom ao piano e Luiz Bonfá ao viola. Produção totalmente bancada por Vininha. No espetáculo, marco do Teatro Brasileiro, Lea fazia Mira de Tal, “ mulher do morro” (dizia a ficha técnica do espetáculo).

     Lea integrou o elenco de muitas novelas globais e depois de algumas novelas na Record, agora está no seriado A Lei e o Crime. Alguns dos mais conhecidos mais conhecidos são em Escrava Isaura, Anjo Mau e O Clone. No cinema, fez Quilombo, Ganga Zumba, e Chica da Silva, O Maior Amor do Mundo, todos de Cacá Diegues; Cruz e Souza, O Poeta do Desterro, de Sylvio Back; Filhas do Vento, de Joelzito Araújo; Remissão, de Sílvio Coutinho; e Atabaques Nzinga, de Otávio Bezerra, para citar apenas os principais.

     Quando cheguei perto de Lea, e depois de conversarmos muito, acabei vendo nela uma expressão perfeita para figurar numa pomposa Corte de Maracatu cearense. Uma luz vibrante para o cortejo das divindades negras. Com seu porte elegante, sua força de Deusa, sua pele macia de Oxô e seu olhar penetrante de mulher aguerrida, Lea Garcia encantará o maracatu e com ele sairá encantada, tamanha é a singularidade da tradição e a energia emanada do cortejo. Como nós, amantes da festa e da emoção transformada em Arte, Lea se prontifica a participar da celebração. Sabe tratar-se de um grande Teatro ao ar livre, onde todos podem brincar e extravasar tristezas e alegrias, bastando apenas cobrir o rosto com o preto do falso negrume, símbolo maior da representação no desfile étnico herdado dos ancestrais e abençoado nas sagrações das igrejas de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.

     Neste 2009, Lea Garcia completa 50 anos de entrada na Sétima Arte, grifada a partir de sua participação em Orpheu, filme de Vinícius de Moraes e Marcel Camus – vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1958 – e com o qual ela quase ganha a Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 1959, ficando em segundo lugar, à frente da atriz Ana Magnani, a quem Lea tinha como grande exemplo.

     Por conta de sua trajetória ininterrupta na cena artística e de suas atuações memoráveis, LEA GARCIA recebe este ano a justa Homenagem do Festival GUARNICÊ de Cinema, a acontecer em São Luís, de 17 a 21 deste junho onde tambores, saias, alegria contagiante, muitas cores e energia celebram no Maranhão o São João mais animado do Brasil e fazem de São Luís a capital brasileira do CINEMA.

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SARAVÁ, NEGRITUDE! De Todas as Etnias, Credos, Ritmos e Cores!

     Dia 20 de novembro. Depois de anos de fortes embates, morre Zumbi. O quilombo era de Palmares. Alagoas não chorou só. Choramos todos que sempre tivemos alma libertária, buscamos a fraternidade, pregamos a solidariedade e acreditamos num Deus único que não diferencia nenhum ser humano.Consciência. Reverência à nossa ancestralidade africana. Paira a triste lembrança dos navios levando cativos e faz emergir a dor profunda da injustiça, da violência, da desigualdade abjeta. Mas o Poeta Vinícius, "o branco mais preto do Brasil, na linha direta de Xangô - Saravá !", nos ensina na antológica Samba da Bênção: É melhor ser alegre que ser triste, a alegria é a melhor coisa que existe...

     E nossas raízes geraram o que até hoje encanta as retinas e faz balançar o corpo num gingado ancestral: são congos, congadas, moçambiques, catupés, jongos, maracatus, cateretês e catiras, fandangos e marujadas, folias de reis, parafusos, taieiras, cambindas, negras da costa, pontões, bumbas-meu-boi, bois-bumbás, bernunças, bois-de-mamão, cazumbás, tambores de crioula, cacuriás, as festas do Divino, caboclinhos, calangos, carimbós, afoxés, cacumbis, cocos, cheganças, sarandaias e os sambas de todos os tons. Tudo cheio de Bossa... porque música sem Bossa, não é Nova. Tudo em louvor à Nossa Senhora do Rosário, a São Benedito, a São Marçal, a Santa Efigênia.

     Queremos fazer deste canto o cântico de todas as vozes semeadoras do fim da discriminação e entrelaçar as mãos para celebrar, no pulsar uníssono dos corações, a negritude, a comunhão, a Paz sem limites nem fronteiras.

     Somos NEGROS, Mestiços, BRASILEIROS. De todas as etnias, tão bem representados por José do Patrocínio, Joaquim Nabuco, João Cordeiro, Maria Tomásia, Pedro Arthur de Vasconcelos, Dragão do Mar, Luís Gama, João Cândido, Joaquim Callado, Chiquinha Gonzaga, Abdias do Nascimento, Grande Otelo, Pixinguinha, Heitor dos Prazeres, Ismael Silva, Moacir Santos, Doryval Caymmi, Elizete Cardoso, Alaíde Costa, Johnny Alf, Tito Madi, Eliana Pittman, Jair Rodrigues, Zeni Pereira, Jacira Silva, Milton e Maurício Gonçalves, Chica Xavier, Ruth de Souza, Lea Garcia, Elza Soares, Gilberto Gil, Lupicínio Rodrigues, Nélson Sargento, Cartola, Zé Kéti, João do Valle, Luiz Gonzaga, Jacxson do Pandeiro, Tony Tornado, Rosa Passos, Paulo Diniz, Paulo Moura, Haroldo Costa, Julciléia Teles, Procópio Mariano, Eliezer Gomes, Pratinha, Aizita Nascimento, Vera Manhães, Alzira Rufino, Zezé Motta, Ana Carbatti, Adriana Lessa, Antônio, Camila e Rocco Pitanga, Joel Zito Araújo, Zózimo Bulbul, Zezé Barbosah, Lázaro Ramos, Flávio Bauraqui, Maria Ceiça, Luíza Maranhão, Alexandre Moreno, Taís Araújo, Leandro Firmino da Hora, Alexandre Rodrigues, João Akaiabe,Darlan Cunha, Douglas Silva, Jonathan Haagensen, Thalma de Freitas,Sérgio Menezes, Fabrício Boliveira, Roberta Rodrigues, Cris Vianna, Adriana Alves, Sheron Menezes, Débora Nascimento, Madi Soqui, Muniz Sodré, Tim Maia, Milton Nascimento, Luís Melodia, Jorge Ben, Calé Alencar, Seu Jorge, João Fera, Bidu Cordeiro, Maurício Tizumba, Djavan, Tony Garrido, Vanessa da Matta, Paula Lima, Luciana Mello, Sandra de Sá, Martinállia e Martinho da Vila, Sílvio Guindane e Sérgio Malheiros, entre mais uma enorme e qualificada legião a nos inspirar. Por isso, prosseguimos convocando aos negros de todas as cores: somem-se a nós num abraço hermano, solidário e efusivo em louvor desta fortaleza. Que atende carinhosa e efusivamente por Brasilidade Africana. Saravá !!!

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DOMINGO, 19 DE OUTUBRO, é o dia dos 95 de nosso POETA Maior

     Vinícius de Moraes, o Poeta que veio ao mundo para celebrar o Amor e falar da importância deste sentimento para pacificar o mundo e promover a comunhão entre os povos de todas as etnias, credos e continentes, partiu cedo, em 9 de julho de 1980, numa manhã fria de inverno após passar a noite compondo com o parceiro querido, Toquinho.

     Seu legado é tanto maior quanto mais passa o tempo e mais aprofunda-se o entendimento de sua obra, quanto mais evidencia-se a lacuna descomunal que deixou acometendo de carência lúdica e emotiva sem par o cotidiano, e ainda mais descobrem-se novas leituras de sua vasta e riquíssima obra a cada vez que se nos debruçamos sobre ela.

     É melhor ser alegre que ser triste/A alegria é a melhor coisa que existe, é assim como a luz no coração...

     Vinícius, ou Vininha - como carinhosamente o chamavam os amigos próximos e como meu pai ensinou-me a chamá-lo desde menina - era libriano, aniversariante do dia 19 de outubro, véspera da chegada ao mundo de outro Poeta, meu tão querido Calé. Por isso, é neste OUTUBRO de muita chuva e algum frio no Rio que se comemoram os 50 da Bossa Nova, da qual Vina foi seu Farol sempre a apontar novas trilhas... e vieram os Afro-Sambas com Baden, o musical Pobre Menina Rica com Carlinhos Lyra, as parcerias com Edu Lobo, Francis Hime e Chico Buarque e os quase mil shows pelo Brasil e o mundo em companhia de Toquinho, ovacionados por onde passavam. Chega de Saudade...

     Falar de Vinícius é sempre motivo de paixão. Lê-lo, estudá-lo ou re-ouvi-lo são coisas de enorme prazer e muita saudade. Saudade de alguém lindo demais, grandioso demais, amado demais pra não ser festejado, sempre. Viva Vinícius de Moraes ! Para sempre, nosso eterno Poeta do Amor, do Violão, do Mar, do Rio e das Mulheres ! SARAVÁ, VININHA! Sei lá, sei lá, só sei que é preciso paixão...

     O Canal Brasil aproveitou a data e programou o tocante documentário de Miguel Faria Jr. em homenagem ao Poeta. Se você ainda não viu, vá à locadora mais próxima e alugue o DVD, ou tenha o seu na filmoteca. É imperdível ! E se quiser saber mais sobre Vina, visite o site www.viniciusdemoraes.com.br ou leia nossa crônica em Objetiva...

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Sangue em Batismo Magistral de Cinema

* Aurora Miranda Leão

     O confronto entre o sonho e a realidade poucas vezes foi tão forte no país como no assombroso tempo da ditadura. Por isso, muitos preferem ignorá-lo e as novas gerações, quando pensam saber alguma coisa sobre essa época sombria, acreditam-na quase branda - "Duro foi no Chile e na Argentina..."

     Para compreender bem a realidade, melhor um mergulhar profundo na história. E se a história nos chega através de uma grande obra literária, tanto melhor. Ademais, quando esta obra é apresentada pelo viés cinematográfico, aí o mergulho torna-se ainda mais forte, intenso, incisivo. É assim com este Batismo de Sangue, filme do corajoso cineasta mineiro Helvécio Ratton, baseado no contundente livro homônimo de Frei Betto.

     A história enfoca a participação de frades dominicanos na luta clandestina contra a ditadura militar, é baseada em fatos reais e passada no Brasil e na França. De um lado, jovens idealistas sonhando mudar o mundo. Do outro, militares e policiais agindo sem limites. Em salas de todo o país, o filme teve pré-estréia nacional em Fortaleza (com precioso apoio do Instituto Frei Tito de Alencar e do Banco do Nordeste do Brasil), terra natal do protagonista, o dominicano Frei Tito de Alencar Lima, vivido na tela pelo ator Caio Blat, o qual empresta ao personagem invejável carga emocional, alternando momentos de dor lancinante com passagens de extrema sutileza de sentimentos, gestos, expressões e matizes psicológicas. Caio tem atuação digna de qualquer prêmio para um Grande Ator, seja de que nacionalidade for.

     No elenco, em nível interpretativo tão contundente quanto o de Caio, estão Daniel de Oliveira, Cássio Gabus Mendes, o músico Marku Ribas, Ângelo Antônio, Murilo Grossi, Renato Parara, Jorge Emil, a querida Marcélia Cartaxo (atriz paraibana notabilizada desde sua excelente atuação em A Hora da Estrela, de Suzana Amaral), e os estreantes Leo Quintão e Odilon Esteves.

     No roteiro (um dos pontos altos do filme), Helvécio contou com a preciosa colaboração de Dani Patarra (sobrinha de um ex-editor da revista Realidade, publicação emblemática daquela época). Na fotografia e câmara, o mestre Lauro Escorel. O inglês Adrian Cooper na Direção de Arte faz miséria - quase um filme dentro do filme consegue alcançar este craque com seu meticuloso trabalho, sobre o qual diz: "A integração da equipe, a compreensão da importância do filme, o entusiasmo e a disposição de superar as dificuldades, apesar dos obstáculos, transformaram um trabalho de difícil realização em um prazer. O resultado disso está na tela. O prazer está guardado no coração". O time vai-se completando com Sérgio Penna (preparador de elenco), Mair Tavares (montagem), Marjorie Gueller e Joana Porto nos figurinos, Vavá Torres na maquilagem, Marco Antônio Guimarães na música, José Moreau Louzeiro e David Miranda no som, produção executiva da Quimera (Guilherme Fiúza e Tininho Fonseca) e distribuição da Downtown Filmes. Após juntar nomes tão expressivos e de reconhecido valor em áreas tão vitais à Sétima Arte, difícil não tecer uma série de rasgados elogios ao filme-denúncia de Helvécio Ratton. Um filme necessário, fundamental, um documento histórico da maior relevância, feito com apurado senso de qualidade e com profundo respeito ao depoimento autobiográfico tão bem redigido pelo intrépido Frei Betto.

     Batismo de Sangue causa impacto desde sua abertura. Daí por diante, cena a cena, é só soco no estômago, atuações primorosas, excelência na maquilagem e na direção de arte. Tudo concorre para prender o espectador, conduzido por um roteiro desenhado de forma gráfica para melhor retratar a violência (aviltante e imperdoável) daqueles tempos nem tão distantes. Segundo Ratton, desde o início sua intenção foi mostrar "com clareza absoluta como a tortura foi pesada no Brasil. Era nosso dever mostrar como um fato histórico dos mais importantes (a morte de Marighella) foi pesado para os frades envolvidos". É a primeira vez na qual o Cinema Brasileiro mostra de forma tão pertinaz a Fé como instrumento ativo de mobilização em defesa da Liberdade, da Justiça Social e do Direito de Expressão. E uma das mais belas e expressivas cenas é justamente a da missa nas celas do Dops - biscoito e refresco de morango simbolizando a hóstia e o vinho sagrados, uma eucaristia celebrada do início ao fim, juntando frades dominicanos, carcereiros e comunistas (supostamente ateus). Tocante demais, sobretudo pela naturalidade com que acontece, a simplicidade dos oficiantes e a adesão silenciosa e contrita de todas as celas, ácme da superioridade da Fé sobre qualquer outra força, ainda seja em ambiente anódino, fétido, execrável.

     Para conferir maior realismo ao filme (sem dúvida, o melhor de sua carreira até aqui), Helvécio fez questão de contar com uma invejável preparação técnica por parte de sua equipe de maquiladores (a quem ofertamos todos os maiores aplausos), realizando estudos detalhados na Medicina Legal sobre a evolução de feridas provocadas por vários tipos de instrumento ao longo do tempo. Antes do início das filmagens, os testes de maquilagem foram submetidos à avaliação desses médicos, os quais os aprovaram enfaticamente. Nesse viés, é claro, todos os cuidados também foram tomados para evitar aos atores ferimentos durante as intensas cenas de violência. O dublê mexicano Javier Lambert ensinou como "apanhar" enquanto havia um stand-in para cada ator. Mesmo assim, Caio Blat acabou sendo golpeado de verdade em várias ocasiões.

     Na tela, percebe-se sincera autocrítica às estratégias adotadas pelas lideranças na luta contra a repressão, conforme avalia o diretor: "Acho que através do filme, apresentamos um olhar autocrítico, uma crítica ao nosso sentimento de onipotência da época, mas sem jamais renegarmos tudo aquilo que fizemos e conquistamos com nossa luta". Para melhor inspirar-se, Helvécio revisitou o cinema político daqueles tempos e enfatiza: "Batismo é um filme do século XXI, mesmo narrando incidentes de 30 anos atrás. Fiz este filme para os jovens de hoje com todas as evoluções narrativas e estéticas que o Cinema alcançou nestas últimas décadas".

     A grandeza do filme expressa-se por um somatório de agudas potencialidades: roteiro preciso, maestria da Direção de Arte, competência do elenco, maquilagem irretocável, e, sobretudo, pela ousadia de expor tema tão pungente da vida nacional numa orquestração de qualidades capaz de extrapolar sua própria concepção ao propor também uma discussão correlata, e muitas vezes calorosa, sobre o engajamento social na sociedade contemporânea: "Se o filme servir para chamar a atenção das gerações mais novas para a importância da mobilização coletiva por um ideal, já ficarei satisfeito", afirma o diretor.

     E nós fechamos: Batismo de Sangue é um filme obrigatório para estudantes de todas as idades, cinéfilos, jornalistas, historiadores, sociólogos, humanistas, cidadãos enfim. Uma aula de Ótimo Cinema, uma revisão contundente do passado nacional e uma preciosa lição de Ética, Fé e amor à Vida.

Frei Betto - No livro e na Tela

     "Se hoje vivemos em um país democrático - mesmo que esta democracia precise ser aperfeiçoada -, é justamente em função da semente que plantamos naquele período e se deve ao sangue derramado pro vários companheiros e companheiras que morreram, foram assassinados, exilados ou desaparecidos pela repressão".

      Dominicano, jornalista, filósofo, antropólogo e teólogo mineiro, Frei Betto é o autor de Batismo de Sangue, livro lançado em 82 e premiado em 85 com o respeitado prêmio Jabuti como Melhor Livro de Memórias, no qual se baseia o filme de Helvécio Ratton. O livro, hoje em sua 18a edição, tem traduções para o francês e o italiano e é considerado um dos clássicos da literatura brasileira do século XX. Por conta do filme, Batismo de Sangue está sendo lançado em nova edição pela Rocco, agora trazendo fatos e nomes antes omitidos por conta da repressão.

     Frei Betto escreve semanalmente para jornais e revistas de todo o país e tem 54 livros publicados. Escritor por vocação, convicção e extrema competência, Frei Betto transmite uma invejável paz de espírito e contagia com seu jeito simples, sereno e espontâneo de conversar com quem quer que seja. Não à toa, é festejado por onde passa.

     Com relação ao livro, diz não ter se preocupado como ficaria sua obra na tela, até porque sabe das diferenças de linguagem conforme cada veículo de expressão. E confessa-se completamente encantado com o filme: "Helvécio Ratton foi além do meu livro. O resgate que fez daquela época, dos nossos ideais, das nossas utopias, da nossa luta e do nosso sofrimento é algo que me toca profundamente. Quando ele me convidou para acompanhar o desenvolvimento do projeto e do roteiro, respondi: 'Filme é filme, livro é livro. Quero que faça uma recriação, não pretendo interferir'. E de fato procurei ficar o mais distante possível. Pois agora que vi o filme diversas vezes, estou certo de que Helvécio fez uma grande obra de arte e fico extremamente emocionado ao ver aquela história na tela. Diria que o filme reproduz a violência da repressão como nenhum outro - e se nosso governo não abre os arquivos da ditadura, a arte brasileira o faz. Nesse sentido, o filme de Helvécio é primoroso, escancarando os crimes da repressão ao mesmo tempo em que os contrapõe à nossa utopia e à nossa Fé. Este é um filme impregnado de espiritualidade, de religiosidade demonstrando que a Fé é plenamente compatível com a luta pela justiça - até porque nós, cristãos, somos discípulos de um preso político: Jesus foi preso, torturado, condenado à pena de morte e crucificado. E o fato de ter ressuscitado é a garantia de que, no fim das contas, a vida prevalece sobre a morte".

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Céu de Evidência Solar Denuncia Desamor

* Aurora Miranda Leão

     Karim Aïnouz terá o nome cada vez mais forte no Cinema. Pra nós, seus conterrâneos, isso é motivo de alegria e orgulho.

     João Moreira Salles e Sérgio Machado foram os primeiros a falar-me sobre Karim, palavras sempre elogiosas e de carinho. Portanto, o nome de Karim nunca me passou despercebido e sempre tive vontade de conhecê-lo de perto. Assim foi quando do lançamento em Fortaleza deste premiado O Céu de Suely, segundo longa do conterrâneo.

     Até aqui, depois de pouco mais de dois meses do lançamento do filme, já são 10 prêmios, entre nacionais e internacionais. O filme justifica todos eles. Uma pequena jóia da cinematografia mundial. Na produção, Walter Salles e Maurício Andrade Ramos - estes têm produzido alguns dos melhores filmes brasileiros dos últimos anos. Sabem em quem apostam e apostam com a maior competência.

     Cônscio de onde quer chegar, e sem desviar-se em nenhum momento de seu foco, Karim realiza um filme simples, sem grandes artesanias visuais, opta por filmar numa cidadezinha do interior cearense, convida para fotografar o festejado Wálter Carvalho (!) e reúne um time de desconhecidos para dar vida à história de Hermila, uma cearense cuja paixão lhe acena ainda muito jovem, daí a saída de casa quase adolescente para viver "o grande amor da sua vida" na cidade grande, fugindo da falta de perspectivas engessantes e tão próprias a quem vive em cidades distantes dos grandes centros urbanos (as exceções confirmam a regra). Todos esses, ele entrega a Fátima Toledo, nome de imediato associado a grandes atuações no nosso Cinema - vide Carandiru e Cidade Baixa, para citar apenas alguns. Em conversa com Zezita Matos e através de leituras e matérias televisivas, sei: o trabalho com Fátima é extenuante mas produz resultados precisos, o mais das vezes impensável até pelos próprios intérpretes. Dói, ameaça mas conduz ao ponto necessário a qualquer ator: entregar-se ao personagem de corpo e alma, sem questioná-lo mas absorvendo dele as mínimas pulsações, chegando a incorporar como suas as emoções, gestos, trejeitos, idiossincrasias e até a respiração do personagem. Pra bom entendedor: ser ator e estar entregue às mãos e a sensibilidade de Fátima Toledo é como um mergulho no escuro, sem medo de errar, mas certos de encontrar na volta um mar de águas tranqüilas e cristalinas, propício a grandes saltos e braçadas relaxantes.

     Portanto, ao entregar o elenco à Fátima, Karim já começou acertando. E foi mais além: ousou e convidou Hermila Guedes, Georgina Castro (também cearense), João Miguel, Maria Menezes e Zezita Matos para protagonizar sua segunda investida num cinema autoral do mais alto nível. De quebra, o elenco conta ainda com a magnânima Marcélia Cartaxo (soberba em breve mas definitiva cena), os cearenses Cláudio Jaborandi e Ana Marlene, e Flávio Bauraqui - ótimo como único personagem a esboçar revolta quanto à proposta de rifa ofertada por Hermila...

     Caísse na tentação de analisar cena por cena e talvez tomasse espaço demais. Ou então poderia deixar de fora algum detalhe importante. Ater-me-ei, portanto, as mais tocantes ao meu ideário sentimental. Vamos aos registros fundamentais: o olhar de Hermila, sempre triste, ainda quando pretenda esboçar alegria. Mesmo nos momentos ao lado de Georgina - refresco n'alma -, quando dança na noite ou cai nos braços de João Miguel - ainda assim lhe vai na alma é a tristeza pelo abandono de Matheus, o não entender nunca a "separação" sem sequer um aviso, uma despedida, um motivo concreto... Este o dado mais forte da impressionante atuação de Hermila: a capacidade de transmitir com gestos, olhares, respiração e postura a dor do abandono injustificado, do amor não correspondido, do tempo inutilmente desperdiçado, do saber-se desimportante na vida de quem se imaginou construir vida longa em parceria, da constatação do quão foi em vão o filho, a saída de casa, o amor intempestivo, a paixão louca, o entregar-se sem pensar no amanhã. Ao definir este sentimento como o mais forte da personagem e de todo o filme, Karim arriscou-se pois não é nada fácil transmitir emoção tão dolorosa e tão conhecida de tantos sem cair no exagero, no pieguismo, no melodrama ou na compaixão fácil. O cineasta conseguiu essa façanha com a delicadeza necessária a tornar ainda mais eloqüente sua mensagem sub-reptícia porque como se cravasse n'alma a certeza de ninguém estar livre do mal da decepção amorosa, uma das maiores dores capazes de afligir o ser humano. E essa dor lancinante, misto da convicção do abandono e do desamor, perpassa o filme inteiro através da interpretação contundente da pernambucana Hermila Guedes.

     Um resumo disso pode ser traduzido na cena onde João Miguel e Hermila caminham ao sol escaldante da cidade, ela à frente, passos largos, fugindo do desespero do amor interrompido; ele atrás, aflito, querendo escancarar seus sentimentos sem entender porque o amor é tanto mas incapaz de fazer a amada esquecer o amante fugidio... A cena acontece por entre trilhos de trem, simbólicos da vida aprisionada de Hermila - ela ainda almeja reencontrar Matheus, mas as dificuldades do cotidiano sem perspectivas de sobrevivência menos carente lhe apontam o caminho arenoso da prostituição para alicerçar sua busca por dias melhores em outros céus. Hermila sonha é em arranjar dinheiro suficiente para não ser mais uma a viver com as dificuldades tão próprias da gente de sua cidade, como esboçam o dia-a-dia de Maria e da avó (aplausos entusiásticos para a soberba atuação de Zezita Matos).

     A chegada e saída de Hermila do seu árido Iguatu são outros momentos de forte significado. Início do filme, foco na placa à entrada da cidade (Aqui começa Iguatu): Hermila com o bebê dentro do ônibus, angústia ilusoriamente amenizada pelo cigarro, divide-se entre a tristeza pelo distanciar-se do pai do garoto e breve satisfação por poder voltar à terra natal, rever os parentes queridos, aplacar um pouco as dores a corroer quem opta por fincar a árvore distante do solo seminal. Ao final, igualmente num ônibus, sutil esboço de esperança a alimentar sua partida em busca de vida nova na cidade grande. Em direção ao ônibus, vem João Marcelo na moto, apaixonado, tentativa vã de demolir da cabeça de Hermila o desejo de deixar Iguatu mais uma vez - foco na outra placa (Aqui começa a saudade de Iguatu)... Tanto na cena inicial como no desfecho, Karim aproveita para reafirmar seu apreço pelo Ceará, olhar sempre atento às coisas de sua terra natal, uma melancolia às vezes machucante mas necessária, a saudade cotidianamente companheira... As placas à entrada e saída de Iguatu são recados de Karim à família, aos amigos, aos conterrâneos, como a dizer "Eu precisei ir em busca das melhores condições pra exercer meu ofício mas a saudade caminha comigo, sempre".

     Por esse olhar tão amoroso e delicado, Karim realizou uma obra onde o grande tema é o desamor. Captou com precisão a dor dilacerante de quem é abandonado pela pessoa amada. Ótimos os momentos entre Georgina e Hermila - as duas conseguem invejável espontaneidade... Exponencial a cena na qual Hermila vai visitar a sogra, bebê nos braços, e esta lhe recebe com frieza tão desconcertante como a aridez do lugar onde vive. O pequeno toque da geladeira nova na casa da sogra - "Matheus mandou o dinheiro há uma semana" - é de uma eloqüência ímpar: tão fria como o objeto novo récem-adquirido para a casinha pobre cravada em meio ao sol inclemente do sertão nordestino, a fala da mulher é como uma faca amolada no peito de Hermila. Reveladora do presente ganho do filho distante, a fala de Marcélia é tão gélida como os sentimentos desta e do filho Matheus para com Hermila. Esta ainda pergunta: "A senhora acha justo eu criar o menino sozinha?" - E ouve como resposta: "Você queria o que ? Meu filho tem apenas 20 anos... você sabe o que significa isso na vida de um homem..."

     Acaso é diferente os 20 anos na vida de um homem e na vida de uma mulher? Na cabeça de quem foi criado no sertão, ou dos que pouco acesso têm/tiveram a quaisquer níveis de escolaridade, isso é diferente mesmo - até quando ? Por conta dessa mentalidade tacanha, atrasada, sem sintonia com a realidade, até hoje, em pleno Terceiro Milênio, costumamos ler escabrosas notícias de mulheres assassinadas por maridos, amantes e até ex-namorados. Mesmo quando não querem mais, eles se acham donos da "companheira". E haja delegacia, instituições, entidades e psicologia pra defender as mulheres... Até quando ? Como diria Vininha: "A mulher foi feita pro amor e pro perdão, cai nessa não, cai nessa não..."

     Pra terminar, o registro nos agradecimentos ao querido amigo Aluizio Abranches, bem como ao trabalho de Bia Almeida, do cearense Armando Praça e da paraense Patrícia Baía (assistência de direção e produção de arte) - ambos premiados roteiristas residentes no Ceará - a competente trilha sonora (Berna Ceppas), o adequado figurino. Tudo colocado na medida adequada para melhor traduzir em imagens, gestos, expressões, silêncios e sinais nem sempre aparentes a inaceitável constatação do quão pouco vale um grande amor se é diminuta ou imperceptível a forma pela qual ele é recebido.

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Para Não Desbotar da Memória das Nossas Novas Gerações

* Aurora Miranda Leão

     Zuzu Angel, filme de Sérgio Rezende, inscreve-se não só como um dos melhores filmes de 2006 ano mas como um dos mais importantes filmes da Cinematografia Brasileira.

     Patrícia Pillar aproveita com maestria a oportunidade de exprimir-se em toda a sua amplitude interpretativa: comove, assusta e promove a adesão total do espectador à causa tão nobre perpetrada por Zuzu, símbolo máximo da dor vivenciada num tempo página infeliz da nossa história...

     Se outros méritos não tivesse, só por "revelar" a tantos a barbárie emocional vivida por esta mulher, Sérgio Rezende, sua produção e seus patrocinadores já mereceriam louvores. Ademais porque, apesar de história tão dolorosa, foi capaz de criar cenas de lancinante beleza - como as de Zuzu-Patrícia esvaindo-se em dor pelos vidros da sala e na banheira, além da expressividade da presença dela ao final do desfile onde surge, Dama Negra, foto do filho desaparecido nas mãos - inscritas agora nos anais do cinema.

     Sérgio vai muito além do registro histórico e consegue criar uma atmosfera de silêncios, sustos, tensão subjacente, sem deixar de mostrar a Zuzu refinada, de extremo bom gosto, dedicada aos filhos e vocacionada para a Paz e a Justiça. Através de pequenos detalhes, o cineasta denuncia sua intimidade com o tema e proporciona um espetáculo fílmico de força avassaladora. Escolhe a ordem interrompida para melhor conduzir-nos pela trajetória de Zuzu (o roteiro muito bem armado por Sérgio e Marcos Bernstein é outro trunfo, idem a competente câmara de Kika Cunha). O foco na fruteira de cristal antiga sem fruto algum, na mesa vazia de apartamento simples mas bem decorado, impregna o olhar num misto de simplicidade e afirmação do momento prenhe de indagações. A tomada inicial, belíssima fotografia da baía de Guanabara, e os takes seguintes fundindo o apreensivo rosto de Zuzu saindo do apartamento, o carro na estrada Rio-Minas, ela com antigo gravador a registrar toda a sua agonia - gravação amedrontada mas consciente da importância do registro para a posteridade -, a ida à casa do amigo Chico para deixar a carta decisiva, a cena do "tenente" descendo a enorme escadaria esmaecida e a queda do revólver como ápice, além do final ao som da bela e dilacerante canção de Miltinho e Chico Buarque para a Angélica dos anjinhos pretos, são indícios de um diretor maduro, que sabe o terreno em que pisa, porquê pisa e como pisa. Apaixonado por música, Sérgio entrega a Cristóvão Bastos a trilha, encaixe perfeito, sobretudo na cena do acidente no qual se ouve a lendária Apesar de Você. Chico Buarque, Nosso Artista Soberano, mais uma vez está presente como genial criador e ser político-social dos mais necessários, dignidade invejável. É aquele que, apostando numa causa, consegue adesão imediata tal seu carisma e respeito construído ao longo de anos de uma estrada conseqüente, aguerrida, iluminada, daí o amplo respaldo junto ao imaginário nacional de Justiça e Solidariedade. Como se em uníssono, ecoássemos: "Chico apóia ? Então eu também apóio".

     Agora vamos ao elenco, onde todos estão bem: Camilo Bevilácqua protagoniza um preciso tom inicial, fazendo antever o martírio a ser vivido pela estilista, ao lado de um não menos expressivo Antônio Pitanga. Nélson Dantas, Paulo Betti e Ivan Cândido, atores de inegável sensibilidade, em pequenas aparições, mostram o porquê do prestígio alcançado junto à crítica especializada. Alexandre Borges, participação especial como advogado de Zuzu, destaca-se com atuação comovente sobretudo na cena do Tribunal - onde também é marcante a presença de Tião D'Ávila.

     Outra geração é representada por Caio Junqueira, magnífico na expressão de dor pela perda do companheiro, amigo leal e querido. Difícil expressar o impacto da cena na qual "Alberto" e "Paulo" são torturados juntos: de uma plasticidade dilacerante os dois pendurados, nus, socos e pontapés no pau-de-arara, esfregão de sal na cara, a violência deplorável vivida por jovens em busca de justiça social e liberdade... Flávio Bauraqui mais uma vez afirma-se uma das gratas revelações deste momento fértil do nosso Cinema. Num personagem de matizes várias, acerta em todos os momentos e é um dos responsáveis pela credibilidade inegável deste filme-denúncia de Sérgio Rezende. A atuação de Aramis Trindade é de longe uma das melhores coisas do filme. O ator pernambucano (magnífico em outros trabalhos bem diversos como no curta Bala Perdida e em A Máquina ), reafirma-se um dos maiores da nossa cena.

     Portanto, você que ainda não viu Zuzu, pode ter certeza: se não o fizer, estará sabotando você mesmo por negar-se a ver obra de tamanha relevância sócio-histórico-política para o país e, sobretudo, de força humanitária incomum. Se você já viu, sabe do que estou falando. E se viu e discorda de mim, tudo bem ! Você pode até não gostar de algumas cenas, de um ou outro foco privilegiado pelo diretor, antipatizar alguém do elenco, mas você jamais poderá afirmar estar diante de uma obra menor, de um elenco incompetente, de um diretor insensato ou que não conhece o ofício.

     Cá entre nós, Zuzu Angel é Cinema dos Melhores! Um orgulho para nossa cidadania, um brado de civilidade e uma grata satisfação saber da história de Zuzu enfim à disposição do grande público. Parabéns a Sérgio Rezende e a toda a equipe e um abraço comovido em Hildegard Angel, exemplo estóico de filha, mulher e ser humano, a quem muito se deve a concretização deste Zuzu Angel, libelo humanista pra lembrar aquela que pagou com a vida o preço de buscar respostas para a morte do filho.

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Pra que a Alegria Vire Moda

* Aurora Miranda Leão

     A Máquina, baseado no romance de Adriana Falcão, marca a feliz estréia de João Falcão como diretor de Cinema. O filme já começa muito belo, vibrante, com vigorosa interpretação de Gustavo Falcão dominando a tela e pouco a pouco tomando o coração da platéia. Tive o enorme prazer de conhecer o filme em sessão especial em Goiânia, durante a primeira edição do Festival de Cinema promovido pela Prefeitura Municipal com curadoria de Débora Torres. E meu prazer foi maior porque assisti ao filme ao lado do protagonista, Gustavo Falcão, ator a quem só conhecia de nome e por fotos de jornal. Com ele, ri, me emocionei e me envaideci por sabê-lo nordestino como eu, danado de bom, cujo berço interpretativo foi construído no Teatro, enigma encantador e fascinante para todos nós, atores. E aí está a explicação: por ter sido gerado na fonte mais pura da Interpretação, Gustavo consegue alcançar com maestria invejável o patamar interpretativo arrebatador de toda a imensa platéia presente ao Cine Lumière naquela quarta-feira goiana de muita vibração e alegria contagiantes. Olhando Gustavo, quase me belisquei sem acreditar: estava sentada ao lado de um exemplo de simplicidade e despreendimento, a esconder um ator de talento excepcional.

     João Falcão teve seu talento revelado através da TV Globo. Roteirista e diretor, egresso do teatro, João é também o responsável pela mudança para o Rio de um grupo de atores nordestinos, todos ótimos: Lázaro Ramos, Wagner Moura, Wladimir Brichta, Gustavo Falcão, Aramis Trindade e Zéu Britto. Na capital carioca, por cinco anos, eles apresentaram o espetáculo A Máquina, nascido do romance homônimo de Adriana Falcão, mulher de João, e lá a tevê os descobriu. Em pouco tempo, começaram a fazer participações em programas globais e a empatia com o público foi quase imediata. Então, em boa hora, este danado João resolveu transpor A Máquina para o cinema e o filme torna-se ainda mais valoroso por tratar-se do primeiro. João Falcão conseguiu realizar um dos mais significativos e belos filmes brasileiros dos últimos anos, filme para atravessar gerações arrebatando platéias, com louvor. A MÁQUINA JUSTIFICA QUALQUER IDA AO CINEMA. O filme deverá ser um dos grandes êxitos do cinema brasileiro este ano. Além de super bem produzido e com uma direção hiper competente, faz enorme bem à alma assisti-lo, leve, pra cima, sensível, irônico, crítico, reflexivo, imperdível. Sem dúvida, um dos mais belos filmes já feitos no país.

     Gustavo Falcão faz o mesmo papel de Paulo Autran, igualmente fabuloso, separados por um intervalo de 50 anos. Os dois contracenam em pé de igualdade. Um luxo sem tamanho reunir dois atores de gerações tão diferentes e de talentos tão semelhantes. Sem dúvida, este dado é essencial para o ESPETÁCULO fílmico de João Falcão. Difícil comentar este magnífico A Máquina tendo-o visto apenas uma vez, sem medo de estar esquecendo algum detalhe. Mas às vezes os riscos são necessários. A história de A Máquina é ambientada numa pequena cidadezinha do sertão, a pacata Nordestina, onde vivem os apaixonados Antônio e Karina. Acontece de ela estar cansada do marasmo e do dia-a-dia sempre igual. E Antônio resolve sair de lá em busca de novos rumos para trazer as notícias do mundo pra ela, a fim de que a amada não se perca dele, não o largue nunca. O tempo inteiro, o olho gruda na tela e as emoções vão grudando na alma, sucedendo-se sem perder em qualidade nem gradação. Supimpa!

     Sutil, inteligente, vibrante, perspicaz, audacioso e intensamente belo este filme de João Falcão. O diretor constrói um imenso leque de possibilidades cinematográficas, descortinando ao longo da história um mundo novo e completamente impactante para o personagem Antônio, cuja trajetória começa a ser desenhada partindo de expressivo quadro na parede, o qual adquire movimento em belíssima tomada, na qual ele e a mãe (a ótima Fabiana Karla) se comunicam numa cumplicidade de dar inveja... Mas o ápice do desempenho de Gustavo acontece quando Antônio participa de um programa televisivo, onde concede entrevista a um apresentador cuja única preocupação são os números do Ibope. Este tem em Wagner Moura o intérprete sempre iluminado e a cena dá o mote para Gustavo exibir todo seu enorme potencial interpretativo. Gustavo compõe de forma visceral o Antônio, sobretudo no momento de maior exigência, o Monólogo da Audiência ou o Discurso da Tevê, acme da maestria do texto de Adriana, da direção de João e da capacidade interpretativa singular de Gustavo Falcão. Um banho de talentos pernambucanos unidos numa exponencial realização cinematográfica, filme com capacidade para ser uma das grandes bilheterias deste 2006 de início tão promissor para a SétimArte Brasileira. A Máquina é, antes de tudo, isto: a exacerbação da criatividade artística em todos os níveis. A começar pela grandiloqüente Dramaturgia de Adriana Falcão. Por conta das filigranas da criação dela, inspiradora da direção acurada de João, o elenco tem nas mãos o sumo da argila preciosa a lapidar, apropria-se do texto tornando-se dele co-autor e atua como confidente de João. Aí não tem outro caminho: é bola na rede o tempo todo. Humor, alegria, reflexão existencial, paixão, crítica social, tem de tudo em A Máquina. É possível rir, chorar, se emocionar de todas as formas, na mesma proporção. Um achado fabuloso o nome do conjunto responsável pelo lindo Baile de Máscaras em Nordestina. É o The Sconhecidos... Essa cena, aliás, é Qualquer coisa além da Beleza, como diria meu adorável Vinícius de Moraes. Há também frases onde a simplicidade e o profundo dão as mãos em invejável sintonia: “E não tinha medo de fugir do perigo...”; “ O amor zomba dos anos...”; "Não se avexe não que tudo pode acontecer, inclusive nada”... E o “dueto” de Gustavo e Wagner Moura (outro excepcional ator da nova geração) já seriam suficientes para estarmos diante de um grande filme. Pra nós, amantes e fazedores teatreiros, é uma enorme satisfação constatar: todos os atores são crias do Teatro. E ouso afirmar: por isso mesmo, estão todos magnânimos. À mesa com o Antônio envelhecido (Paulo Autran), Wladimir Brichta, Lázaro Ramos, Zéu Britto, Aramis Trindade, todos enfim, encharcam a tela de verdade cênica. Desnecessário apontar melhores. A cena é grandiosa porque todos estão harmoniosamente exímios nos difíceis mistérios da criação stanislaviskiana. Quem nutriu-se dessa fonte, utiliza-se dela mesmo quando não sabe disso. Contagiada a platéia, confirma-se a sensibilidade aflorada por esse tênue condão emocional com que se bordam as teias da interpretação dos grandes Atores. Destaque também para a ótima participação de Prazeres, atriz pernambucana convidada a viver Prazeres na tela. E para a trilha sonora, que tem até música composta especialmente por Chico Buarque.

     Indagações sobre o tempo e as alterações por ele provocadas na vida de cada um, refinada e incisiva crítica à sociedade midiática na qual vivemos todos, muitos agindo como amorfas marionetes, uns mais outros menos teleguiados, e um clima contagiante de festa e alegria sem pudor são os grandes trunfos de A Máquina. A crítica torna-se mais contundente e inconteste na medida em que João é um dos mais festejados diretores da emissora de tevê de maior audiência e em tudo que faz deixa a marca da criatividade, da ousadia, da riqueza de caminhos artísticos. A Alegria tem um layout de festa permanente e o sol colorido do Nordeste espraia vida e sensualidade na tela (excepcional a fotografia do Mestre Wálter Carvalho!), convida a festejar sem parar e tudo funciona além do combinado, como se pudéssemos deter o tempo e reprisar os melhores momentos, temperando tudo com gostinho de brincadeira popular encenada nos enormes quintais da infância sem violência de outrora, capaz de nos transportar até o tempo cantado por Chico quando ele brincava de cowboy, rei, bedel e juiz e onde “a gente era obrigado a ser feliz.

     Mas A Máquina é muito mais que isso. É uma prova inconteste de que se pode ser absolutamente popular com extremo refinamento e poder de reflexão crítica. Um show de João Falcão e de toda a equipe, a quem aplaudo com efusão.

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O Brasil Profundo e Intenso de Lili Caffé

* Aurora Miranda Leão

     Narradores de Javé, disponível nas locadoras, coleciona numerosa lista de prêmios: no Festival de Cinema de Recife foram 9, três no do Rio, roteiro premiado na Suíça, dois prêmios em Bruxelas e boa acolhida em Bogotá e na Mostra de São Paulo. Basta ver o filme para concordar: as premiações foram acertadas e o filme as dignifica.

     Segundo longa da cineasta (paulista do Nordeste) Eliane Caffé, Narradores ganha fácil a adesão do espectador. O enredo é simples: uma pequena localidade do interior nordestino, Javé, será inundada pelas águas e a única forma de evitar ali a construção de uma represa é descobrir nela algum valor que justifique argumentá-la como Patrimônio.Aí o mais letrado do lugar, Zaqueu, interpretado por Nélson Xavier, argumenta: só as histórias dos moradores de Javé poderão salvá-la. E aceita sugestão de Firmino,vivido com maestria pelo cearense Gero Camilo: fossem procurar Antônio Biá (José Dumont, monumental!). Só ele poderia escrever as histórias de Javé, desde o tempo de sua fundação até os dias atuais. Afinal, Biá era funcionário dos Correios e só não perdeu o emprego porque teve a idéia de escrever cartas, de um morador pra outro, reavivando o trabalho da instituição e garantindo seu emprego.

     Pois bem, história tão simples e despretensiosa, começa ao som contagiante do DJ Dolores. E você é tomado de cara e ouvido pelos criativos créditos de Carla Caffé passando ao som do contemporâneo DJ sergipano de Pernambuco. Aos poucos o enredo vai sendo construído, Nélson Xavier na batuta, até surgir Matheus Nachtergaele, ator que por si só recomenda qualquer ida ao cinema, sempre outro a cada novo papel. E aos poucos vão “aparecendo” os causos javélicos. Biá aparece para o público com aviso pregado rente aos olhos: é “intelectuário e alcóolatra”. Na casa dele, é proibida a entrada de analfabetos.

     Mas ao saber da possibilidade de figurar na heróica história de Javé, cada habitante vai revelando interesse maior em constar do “livro de ouro” . Assim vão-se tecendo, de forma leve, graciosa e prazenteira, os fios desta engenhosa criação de Lili Caffé e Luís Alberto de Abreu.

     Cada morador acha sua história a mais interessante. Assim somos todos nós, javélicos também, ao achar nossa história sempre melhor que a do vizinho. O barbeiro quer permutar com Biá vários meses de barba feita em troca de uma história bem inventada e bem escrita. Ele, barbeiro, não tem nenhuma história boa nem verdadeira para justificar sua presença no livro. Mas há vários outros, cada um tentando lembrar vivência mais bacana. Esse desfilar de passagens históricas começa com a narração do personagem de Nélson Dantas – ótima atuação. E aos poucos Biá vai perdendo sua privacidade, coisa comum entre os que buscam a fama, e quando ela chega às vezes mais importuna que oferece vantagens. Biá passa então a viver fugindo de seus “narradores”, os quais desde muito cedo estão à sua porta querendo narrar os gloriosos feitos de Javé. Essas passagens do filme nos vão revelando de forma competente, sutil mas profunda e inequívoca, o quão é verdadeira a máxima: estamos todos na vida em busca de uma maneira de não passar por ela incógnitos. Como se a cada instante nos apitasse a certeza de a vida ser muito para ser vivida em tão pouco e a nós resta fazermos qualquer coisa para não sairmos dela esquecidos. E assim, a idéia de arranjar uma forma de se perpetuar, ainda que nas páginas de um livro de duvidosa veracidade, nas fotos de uma revista, plantando uma árvore, gerando um filho ou criando qualquer coisa de valor, parece ser o moto-perpétuo (pra não esquecer Kenoma, estréia da cineasta em longa) ao qual vivemos presos todos nós. É a finitude da vida quem comanda o centro da roda. É a angustiante constatação de nada sabermos sobre o pós-morte o cativador em todos nós desta vontade constante, secreta, ou mesmo inconsciente, de nos eternizarmos através de qualquer coisa que nos pareça perene. A terrível, cruel e aflitiva certeza de não superarmos nunca a dúvida ante a Transcendência nos é revelada em filigranas nas histórias bem humoradas, arquetípicas e deveras teatrais dos moradores de Javé. Porque temos todos uma única certeza, intensa e inexorável: a de que mesmo os livros, as obras grandiosas, as fotos, os filmes, os criadores, a natureza, tudo enfim, passa, termina, quebra, desgasta-se. Até mesmo o sol, pronto a encerrar seu ciclo daqui há alguns milhões de anos, deverá acabar,dizem alguns.

     Em Narradores de Javé, a cineasta revela seu mérito maior: juntar-se a grandes criadores e a outros tantos, anônimas pessoas do povo, a quem oferece a chance de fazer bonito exibindo talento, vocação e inteira credibilidade na mão segura da diretora, por certo infatigável em meses de estada na cidade baiana, conseguindo adesão total dos moradores do lugar, os quais hoje lutam para mudar o nome de Gameleira da Lapa para Javé. Reivindicação mais do que justa, oxalá atendida por quem de direito. Ressalte-se, a partir do exposto na tela, confirmando-se agora com o desejo dos moradores de ver a cidade chamada por Javé, o quão benéfica foi a passagem de Lili e toda sua equipe pela localidade nordestina. Numa das últimas cenas, eles choram com a proximidade do fim de Javé. Choravam os anônimos “atores” por ser o último dia de filmagem da equipe. Choravam artistas e técnicos por trás das câmaras, me contaram. A afeição gerada entre equipe e moradores é constatada em cada cena. Juntando a todos esses seu talento vigoroso e sua enorme sensibilidade, Lili Caffé faz aflorar momentos de rara pureza interpretativa, permitindo delinearem-se com facilidade dotes artísticos, costurando todas as cenas como bilros numa almofada de renda: o desenho final é sempre diferente, original, bonito de ver e guardar com os olhos, o coração e a alma. A começar por dividir a escrita com Luís Alberto de Abreu, este exemplar Dramaturgo em quem o diálogo verte como correnteza na beira do rio: de tão rico e original,dá vontade de levar o roteiro pra casa. Aí ela escolhe um protagonista do quilate de Zé Dumont e desde então Narradores de Javé já tem meio caminho andado para ser uma grande obra. Ao lado dele, Nélson Xavier, Matheus Nachtergaele, Gero Camilo, Rui Rezende, o saudoso Altair Lima, Nélson Dantas, tendo ainda o mérito de revelar talentos como o da paraibana Luci Pereira (justamente premiada como Melhor Coadjuvante), e mostrar ao mundo outros tantos como os veteranos Roger Avanzi e Orlando Vieira, em magistral contraponto como os gêmeos sempre em pugna.

     A cena mais forte, ápice da atuação de Dumont, quando Biá, sem mais agüentar a revolta dos moradores de Javé contra a decisão dele de não mais escrever o tal livro com as histórias do lugar e seus “fundadores”, diz em alto e bom som para os conterrâneos, mais ou menos assim: “Eu não vou mais escrever simplesmente porque a história de Javé não vale nada. Por mais que tenha de interessante, para ‘eles’ isso não quer dizer nada. A história de Javé é igual a pó” – e pega areia no chão, simbolizando a desimportância de Javé, tão pobre, pequena e inóspita. A represa vai chegar, é inevitável. É como se dissesse: “As histórias de vocês, por mais que eu floreie, não vão deter o avanço da construção da represa...” E neste momento a voz do personagem, escancarando verdade a doer como o sol escaldante do nordeste em seca, é a voz dos (exímios) roteiristas Luís Alberto de Abreu e Lili Caffé mostrando com invejável contundência o quão pouco valem as pessoas, suas histórias de vida, suas ações cotidianas, suas vontades, raivas ou desejos, diante da força avassaladora daquilo que chamam de progresso (?) Afinal, é sempre em nome da construção de grandes obras e da suposta chegada de uma benfeitoria que se vêm há anos neste país destruindo tradições, valores culturais, preciosidades artísticas, laços afetivos e afins. É sempre o mais forte a ganhar, o dinheiro sobrepondo-se às intenções mais honestas, o inescrupuloso burlando leis e convenções, o mais forte oprimindo o mais fraco. E é aparentemente com uma história trivial, despretensiosa e muito bem humorada que Lili Caffé reafirma sua imensa vocação de contadora de histórias, acurada sensibilidade cinematográfica e visão filosófica das contradições e perplexidades existenciais. Com Narradores de Javé, Eliane Caffé nos brinda com momentos de humor comuns ao dia-a-dia de qualquer comunidade, ao mesmo tempo em que nos faz refletir sobre o imponderável da condição humana e a urgente necessidade de se recontar a história do Brasil por um viés mais humanista e menos preconceituoso. É pelo viés do Brasil profundo, desigual, carente, simplório e divertido desenhado em Narradores de Javé (aplausos para a Direção de Arte de Carla Caffé, irmã da cineasta) que Lili nos indaga e nos foca o espelho: é imperioso cada um de nós saber avaliar exatamente o que de grandioso está fazendo em seu cotidiano para contribuir na construção de um país mais fraterno, justo, leal e verdadeiro. Vida longa, pois, para Narradores de Javé e a estrada de Eliane Caffé no Cinema.

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Todo Sentimento

* Aurora Miranda Leão

     Um sonho recorrente, a morte anunciada, um acerto de contas com o passado, o mesmo lugar onde morreu, nos braços de outro, a fugidia amada. Uma jovem mulher, enigmática e triste, ingênua e espontânea, exala pueril sensualidade enquanto caminha como se fugisse do próprio destino. Benjamim reencontra nas semelhanças e no mistério da jovem de andar sempre em fuga, a ensolarada e fugaz Castana, a quem sempre devotou amor intenso, não desfeito nem mesmo pelo tempo... Castana Beatriz, a mulher de seus sonhos, perdida pela irracionalidade do pai repressor.

     Assim se engendra a trama de Benjamim, criação de Chico Buarque, trazida às telas pelas mãos, a sensibilidade e a competência de Monique Gardenberg. Filme capaz de marcar fundo a alma, como sói aos grandes Criadores.

    Benjamim é bom desde a abertura com um fundo musical preciso, acurado, saudosista, nos conduzindo a um tempo que não vivemos mas intuímos pelo sentimento coletivo de saudade do que era tão bom e tão cedo se foi. Gosto de tudo no filme. Mas principalmente quando Monique selecionou trecho de uma de minhas preferidas do Poeta Vinícius de Moraes, ela “me ganhou”. É quando o Benjamim de Paulo José diz pra Castana Beatriz: “Eu te peço perdão por te amar de repente, embora o meu amor seja uma velha canção para os teus ouvidos”. Monique soube pinçar em Vinícius a mais perfeita tradução já dada por alguém para esta inquietação afobada/calma, eletrizante/terna, impulsiva/recatada, desvairada/sã que toma conta dos apaixonados.

     É sempre do mesmo jeito. E não morre nunca, mesmo se o objeto amado está longe, não nos quer mais, fugiu ou sumiu no mundo sem nos avisar. O amor permanece em nós, sempre, e quando alguma lanterna mágica clareia a força que o mantém vivo, ele renasce,ressurge, reaparece, se reafirma da forma mais bela com a qual se veste, a forma apaixonada que tanto enlouquece e faz bem. Tudo isso Monique nos parece querer dizer e o diz de forma clara na cena onde há somente esta fala dita por Paulo José, com o tempo, a entonação e o sentimento necessários. Pena não mais estar entre nós nosso querido Vininha. Ele adoraria conhecer CLEO, se encantaria com sua enigmática presença, e se orgulharia de ter seus versos selecionados pela cineasta e ditos por Paulo José. Pois é bem capaz de em algum lugar deste outro mundo para onde vão os bons, Vininha já tenha muitas vezes visto e se emocionado com Benjamim. Ao escolher os versos de nosso maior Poeta do Amor, Monique cravou fundo a alma dos apaixonados ou dos que assim desejam o AMAR.

     Com o lançamento em DVD, corri à locadora mais próxima. Vi e revi várias vezes a obra de Monique e quanto mais vejo mais me encanto com a poesia estampada na tela, a me perguntar constantemente pela mente privilegiada de Chico Buarque – a reluzir onde quer se arvore ele de entrar. De onde Chico consegue inspiração para fazer tanta coisa tão linda, emocionante, irretocável? Que dons de Mestre do Encantamento tem este “nosso guri”, capaz de engendrar Arte do mais rebuscado e fértil sentimento? Será possível existir alguém capaz de estar frente a uma obra de Chico e não se emocionar ?

     Talvez você seja um dos tantos que perdeu Benjamim na telona. Mas se marcou bobeira, não precisa chorar a projeção perdida. Vá até a locadora mais próxima e leve o DVD pra casa. Com certeza, você vai concordar comigo e também vai se encantar. Pode ser também que discorde. Tudo bem ! Adoro opiniões divergentes, desde que bem argumentadas. Mas creio ser difícil você não gostar. Aliás, perdão se ao final da exibição, você não se considerar diante de uma obra magnífica. Talvez você não tenha sensibilidade suficiente. Ou tenha buracos demais na alma. Por isso está impedido de enxergar esta Pérola Cinematográfica por nome BENJAMIM - como se fora a tradução fílmica da letra de Chico:

Pretendo descobrir/ No último momento/

Um tempo que refaz o que desfez/ Que recolhe todo sentimento

E bota no corpo uma outra vez...

Depois de te perder

Te encontro com certeza

Talvez num tempo da delicadeza

Onde não diremos nada

Nada aconteceu

Apenas seguirei

Como encantado ao lado teu.

     Então vamos lá ! Com esforço, vou tentar inserir você, leitor amigo, no trajeto desta obra de Chico Buarque, transcrita para o cinema por Monique Gardenberg. Benjamim é desses filmes com os quais você não sente o tempo passar. Um colosso para os olhos e a alma. São duas horas de projeção, e quando você se dá conta disso, até leva um susto, tal o caminhar quase estático do relógio. Ficaria mais tempo me deliciando com a instigante trama onde pontificam Ariela Masé, Benjamim Zambraia e Castana Beatriz – atente para a sonoridade dos nomes.

     Quando Benjamim resolve sair à procura de Ariela, depois de encontrada a foto antiga de Castana, e pergunta a um e outros na rua se alguém viu uma garota parecida com aquela e ninguém viu... a câmara afasta-se e joga na tela a constatação do quanto o personagem está perdido num emaranhado de emoções aflitivas. A solidão caótica de Benjamim, escancarada pela tomada do alto do edifício, emudece e solidariza o espectador com a dor do amor perdido. E a partir daí, cada take é um convite ao embarque sobressaltado de Benjamim, o personagem criado por Chico, recriado por Monique e revelado por Paulo José, cuja atuação comove e conquista na medida certa.

     Monique foi tinhosa e sábia em sua decisão de querer o ator para este personagem. A partir de seu filme, Benjamim Zambraia passa a ser um ícone no histórico dos grandes personagens brasileiros apaixonados/apaixonantes, do qual já fazem parte Orpheu, Vadinho, Macunaíma, Policarpo Quaresma, O Grande Mentecapto, O Homem Nu, ...

     Bom rever Ana Kutner e Ernesto Piccolo, ator de qualidade e pouco “explorado” pela tevê e pelo cinema. É preciso também tirar o chapéu para Guilherme Leme, extremamente convincente como o policial paraplégico. Nélson Xavier e Chico Diaz, dois de nossos maiores na arte de interpretar, dispensam comentários adicionais. Engrandecem qualquer arena onde tomem parte. Rodolfo Bottino compõe com carisma e espontaneidade o publicitário sempre em busca da boa campanha. Mauro Mendonça tem atuação marcante. Ivone Hoffmann, em breve aparição, Micaela Góes e Dada Maia completam o afinado elenco.

     A montagem de João Paulo Carvalho é qualquer coisa além da conta. Com uma trama cheia de idas e vindas, mesclando passado e presente de vários personagens, o montador deve ter tido trabalho redobrado. E o resultado é espetacular ! Digno de todos os Prêmios. Os recursos de passar para outra cena, e permanecer com as falas da cena recém-finda, em off, ratificam o labirinto fílmico, emoldurado por uma trilha sonora do mais alto quilate. Cleo Pires impressiona pelo carisma, beleza e sensualidade. Não à toa, venceu o Festival do Rio 2003 como Melhor Atriz, confirmando a velha máxima: “Filha de peixe, peixinha é”. Afinal, Glória Pires é de nossas poucas atrizes não egressas do Teatro, e ainda assim, de talento irrefutável, sempre citada por sua invejável capacidade interpretativa. A reconstituição de época é outro ponto positivo. Uma delícia rever/conhecer o Rio de Janeiro de outrora. A direção de arte de Marcos Flaksmann é supimpa ! Enfim, Monique fez um Benjamim de arrasar quarteirão. A fotografia mais escura nas cenas mais fortes, os grandes espaços vazios dos apartamentos procurados, a sessão de fotos de Castana e Benjamim à beira-mar, revelando uma Cleo alourada, fina, elegante, uma quase deusa daqueles dourados (?) anos de paixões, liberdade feminina, música de bom gosto nas rádios... e repressão a caminho. Momento inusitado: a cena fotográfica dos modelos na praia... Um luxo ! Como aliás é ótima toda a fotografia de Marcelo Durst. O roteiro, assinado por Monique, Jorge Furtado e Glênio Povoas é outro ponto a merecer destaque. E dando suporte a tudo isso a competente produção executiva de Elisa Tolomelli com auxílio luxuoso de Thaís Mello.

     Uma das cenas mais lindas do filme é quando Benjamim aparece feliz da vida, depois de almoçar com Ariela, ao som de Alegria (composição de Chico Neves e Arnaldo Antunes, composta especialmente para o filme) e distribui com mendigos da noite carioca os antigos figurinos com os quais posava de modelo, caindo no mar da enseada de Botafogo e a letra a dizer “A tristeza é uma forma de egoísmo...” Há também um momento cheio de graça, cuja leveza quebra por instantes o clima de suspense: o das jovens levando Benjamim à gincana. Lá uma delas inventa ser ele um famoso ator “de uma tragédia grega que está há três anos em cartaz...”

     Interessante notar: apesar dos mimos que vai ganhando dos homens encantados com sua beleza exótica, Ariela é triste e essa tristeza só se revela por instantes, como nas vezes nas quais se debruça a escrever pra mãe ou o marido, ou quando senta pensativa junto ao fogão, como a dizer: “Pra onde vai me levar essa vida tão cheia de disfarces e de compromissos que assumo pelos outros? ”

     No calidoscópio amoroso-aflitivo de Chico, mais um dado instigante: a observação de Castana em conversa com Benjamim, os dois adolescentes, ela folheando imagens de santos. Ela diz: “Nobres e santos estão sempre de boca fechada”. Ao que Benjamim, concordando, rememora: “Nunca vi Nossa Senhora de boca aberta”. Em seguida, um corte evidencia os lábios vermelho-sensuais de Ariela... Ela sempre a rir, de boca escancarada, nas cenas com Benjamim. Mas a infelicidade de Ariela está logo adiante e perpassa o filme como um tango de Piazzolla, o mesmo a emoldurar alguns dos momentos mais tocantes da obra de Monique. A relação dos dois algozes de Ariela – o marido Giovan e o patrão Cantagalo, integrantes de um mesmo misterioso clube, como lembra Cantagalo (Nélson Xavier). E o clube é justamente aquele dos homens de vida sem sexo, cujo prazer nasce de imaginar o objeto amado (?) sendo usufruído por outrem, para logo depois se consumar na morte desse outro. E nesse emaranhado de perversão e “justiçamento”, a menina vinda do interior, ingênua e bem intencionada, órfã ainda garota, crente de ter encontrado o grande amor, vai vendo seus dias e seus sonhos se esvaírem como água correndo entre os dedos ao tempo em que atende as demandas do patrão e satisfaz o desejo mórbido do marido. Esses seus mesmos algozes refazem o percurso sangrento onde tombou vítima a mãe dela e, como se fazendo justiça ao status quo - “vítima da rebeldia” -, utilizam a mesma casinha pequenina, outrora refúgio contra a repressão, para castigar com a morte os muitos, tal como a aguerrida Castana, em busca apenas de prazer e amor, liberdade e companheirismo. Por isso, se vai Benjamim. Um reencontro drástico e inesperado com o “ninho” que abrigou Castana e viu nascer Ariela.

     Fique certo de uma coisa: ainda que você consiga não gostar desta história inspirada/inspiradora, romântica, às vezes sórdida mas muito apaixonada e cinematograficamente competente, você pelo menos terá um, ou mais um, filme brasileiro para figurar no seu cardápio crítico de cinéfilo e poderá, mais tarde, contribuir com debates sobre a Sétima Arte Brasileira, onde quer eles aconteçam.

     Monique dedica esta sua obra-prima à irmã querida, não mais entre nós. E a cineasta fez à irmã, e a Chico Buarque, a melhor homenagem que poderia ter feito com esta jóia de filme chamado Benjamim. Um DEZ emocionado e feliz para Monique Gardenberg e a toda a equipe que tornou possível esta belíssima criação do genial Chico Buarque no Cinema.

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SÓ SEI QUE É PRECISO PAIXÃO

* Aurora Miranda Leão

     Manhã ensolarada pelo sol frio de julho. Passeava com meus pais e minha querida mana: férias na Cidade Maravilhosa. Na entrada de uma loja à rua Siqueira Campos, em Copacabana, lembro como se fosse hoje, paramos perplexos quando o rádio noticiou a morte do Poeta Maior.

     Alguém só capaz de espalhar o Amor, através de seu canto, sua fala, suas múltiplas atuações, capaz de fazer dele, pela Poesia, o Violão e a celebração da mulher amada, seu grande timoneiro. Sua vida, infatigável busca pelo Amor Eterno, aquele mesmo o qual nós, os mais sonhadores, nunca desistimos de querer.E este Amor tão buscado ele só entendia e queria como Paixão.

     Por isso, a paixão figura com tanta intensidade em seus versos.

     Vinícius de Moraes foi muito além de um grande poeta, homem generoso, amigo fiel, parceiro adorável, pai inesquecível. Vinícius foi aquele que deixou em nós a esperança sempre indormida de um mundo mais justo, um viver mais alegre, um cotidiano mais fraterno, um tempo mais propício aos grandes encontros. Porque deles é feita a parte boa da vida.

     Tantas vezes execrado por ter aderido sem remissão à Música Popular, Vinícius prestou inestimável serviço à consolidação da escrita poética no cancioneiro nacional. Depois dele, e por causa de sua influência, vieram Chico Buarque, Edu Lobo, Caetano Veloso, João Bosco, e tantos outros.

     Nos anos 70, tempo da consagração definitiva da inigualável dupla feita com o querido Toquinho, de cujo violão brotaram as melhores notas para os versos de Vininha, foi satanizado por um crítico, um tal Maurício... (e quem guarda nome de crítico, ainda mais se não tem competência?): “Eles fazem o que podemos chamar de ‘easy music’...”

     Vinícius então, sarcástico, seguro e consciente do zelo dedicado a seu ofício, passou a fazer shows por todo o país, ao lado de Toquinho. Os shows se tornam emblemáticos na história do movimento estudantil e confirmam uma ânsia nacional por ouvir coisas nossas, ritmos e tons brasileiros com nosso timbre e nosso molejo. Vinícius e Toquinho lotam auditórios e ginásios: “Agora vamos apresentar a vocês a nossa easy music...” E a platéia delirava.

     Não à toa, é do Poeta e de Carlinhos Lyra, o Hino Oficial da União Nacional dos Estudantes, criado nos conturbados anos 60. Mas Vinícius também foi injustamente mal visto pela chamada ‘inteligentzia’ brasileira ao aderir aos rituais do candomblé, ao tempo no qual foi casado com a baiana Gesse Gessy em casamento ‘oficializado’ pela atriz Nilda Spencer, também baiana. Mais uma vez deu provas de seu imenso talento e menosprezo pela ortodoxia dominante: passou a compor introduzindo os ritmos e o linguajar comumente empregado naqueles rituais de fé, oriundos da Cultura Negra.

     Dessa fase, registram-se canções antológicas como “Meu Pai Oxalá”, “Maria vai com as Outras”, “Canto de Oxalufã” e o estrondoso sucesso de “A Tonga da Mironga do Kabuletê” (gravada ao lado do saudoso Monsueto).

     E Vininha fez muito mais. Espraiou seu canto apaixonado em sonoridades pertinentes às mais diversas matrizes rítmicas: da valsa ao fox-trote passando pelo chorinho e a capoeira, deixou um legado tão belo e singular que após 28 anos de sua dolorosa partida, ainda é novo, atual, eloqüente e instigante. Sua obra e sua vida estão tão interligadas que é difícil saber onde começa uma e onde termina a outra.

     Vinícius de Moraes agiganta-se a cada dia nas mínimas sementes onde é germinado: em trabalhos escolares, transposições para o teatro e o cinema, saraus literários, performances poéticas, concursos de sonetos, tema de redações, enfim, difícil mensurar, difícil encontrar quem não se pegue cantando de cor ao menos um verso do Poetinha.

     A última companheira, a morte, confirmou Vinícius como o Poeta que ele almejou sempre: um Poeta popular, querido e cantado pelo povo, mesmo quando não se sabe estar entoando Vininha. Afinal, quem não já usou pelo menos um verso de Vinícius no seu dia-a-dia?! - “E por falar em saudade, onde anda você ?”, “Se todos fossem iguais a você...”, “As muito feias que me perdoem mas beleza é fundamental”, “Chega de saudade, a realidade é que sem ela não há paz, não há beleza...”, “Que não seja imortal posto que é chama mas que seja infinito enquanto dure”.

     Pois é, meu querido São Vininha: Você caminha comigo aonde quer que eu vá e me leva sempre a repetir os mesmos versos por você dedicados a Garcia Lorca: “Poeta, não precisavas da morte para nada”.

     Quando bate a saudade bem grande de você, só resta ouvir suas músicas, ler seus livros e olhar o céu. Você por certo se esconde em alguma estrela de onde sussurra versos para a Lua, a linda mulher tão cheia de pudor que vive nua.

 
Gigas de Determinação e Megabytes de Alegria, os links do COMUNICURTAS

* Aurora Miranda Leão

     Imagine uns mais de 40 estudantes universitários reunidos. Faixa etária: 17 a 25 anos. Áreas de atuação: Arte, Mídia, Comunicação. Cenário: cidade do interior, região Nordeste. Fomento às Artes: quase inexistente. Até museu, criação assinada por Niemeyer, está quase destruído pela “abrangente” visão de seus administradores. Um Teatro histórico, quase 1.300 lugares, construção em mármore e granito, evidencia o descaso com a mais antiga das Artes: tapete ornado de buracos, paredes com rachaduras, cadeiras se desmilingüindo a qualquer espreguiçar.

     A cidade é a paraibana Campina Grande e o foco da garotada Cinema. Movidos pela benfazeja determinação de realizar um vídeo, 3 estudantes da sub-20 tinham em campo uma trave: onde exibir o audiovisual de uma trinca em busca de estrear sua visão de mundo na tela apenas com a cara, a coragem e o filme na mão, se até para as obras de cineastas renomados, a possibilidade de acesso às telas é tão mínima ?

     Dentro de um ônibus, nasce a idéia: realizar um festival. No painel, a luz indicava combustível zero. Mas como o resto é sempre maior que o principal – já dizia meu guru Artur da Távola -, o tanque estava repleto de energia e desejo de expressar-se em imagens. Assim, André Costa, Felipe Simplício e Henrique Neto foram em frente. Conseguiram algumas garrafas de cachaça e com a venda delas fizeram o primeiro festival, restrito aos paraibanos por razões óbvias. E a alegria por conseguir exibir seu vídeo cedeu espaço para outros tantos estudantes também exibirem suas versões audiovisuais para a dobradinha pensamento/sentimento. Surgia o ComuniCurtas e a segunda edição foi possível ano seguinte graças à doação de alguns objetos fúnebres. Como fazer projeção sem dinheiro e movidos por pousadas funerárias? Inventividade na solução: vender caixões com descontos e o apurado tornou possível mais uma programação brasileira de Cinema.

     Estamos em 2008 e, ainda bem, cinema não é sabão em pó, como tão bem enfatiza nosso adorável Walter Salles. E assim, viva o conteúdo, olhares novos para temas eternos e a busca da expressividade inventiva. A última semana de agosto abrigou a terceira edição deste Festival, em breve um dos mais concorridos do país: o COMUNICURTAS. Realização da UEPB e da Medonho Produções. O jornalista e cineasta Machado Bittencourt foi o Homenageado. Os irmãos Rômulo e Romero Azevedo também entraram para o rol da gratidão. Para angariar recursos, até uma noite em suíte presidencial de motel foi rifada. Destacamos a disponibilidade e eficiência de todos os estudantes envolvidos através da atuação dos jovens Ana Célia, Carol, Yanamara e Yramaia, Sabrina, Bárbara, Zuíla, Mauro e Wenio.

     A produtora carioca Cinerama Brazilis (Adriano Lírio) e a Kinetoon de Jorge Arena são patrocinadoras ofertando serviços aos vencedores, além dos apoios das TVs Itararé e Paraíba, TV Zero, Luan e NetCon, da ONG Moinho de Cinema e do sistema Fiep-Sesc-Senai da Paraíba. Exibições no maior e melhor teatro de Campina Grande, o Severino Cabral – entregue ao descaso dos mesmos políticos a proliferar nas ruas com bandeiras e santinhos para “catequizar” eleitores desavisados. No templo da Arte e do Saber, durante cinco dias, os aplausos à qualificação artística de Bete Mendes traduziam-se em muitos cumprimentos, autógrafos, fotos. E foram vistos e apreciados o talento de Pixinguinha e a antevisão histórica de Thomas Farkas (representado por Cristina Alário), a beleza da produtora Liége Nardi (leia-se Festival de Gramado), a alegria da atriz Arly Arnaud (que nos apresentou o artista plástico François Marrance, então apenas J. Merêncio), o olhar sempre atento da pesquisadora Beth Formaghinni, a energia benfazeja do goiano Itamar Borges, a poesia paraibana de Thiago Penna, somando-se à presença dos atores Daniel Tavares e Eduardo Moraes, além de Henrique César e Luciana Silveira (na platéia do encerramento), e dos realizadores Thiago Lacerda, Torquato Joel, Carlos Moska, e uma tela a exibir o encantador Boca-a-Boca do carioca Allan Ribeiro, o seu Lolô do município cearense de Campos Sales (Carlos Normando), os premiados Cine Holiúde (do cearense de Los Angeles Halder Gomes, parceria com a ótima roteirista Michelline Helena), Café com Leite de Daniel Ribeiro, Camelos do Ingá, de Carlos Mosca e Ronaldo Nerys, Dossiê Rê Bordosa (César Cabral) e muitos outros títulos reafirmadores da efervescência produtora dos realizadores brasileiros. Teve até a simpatia de Rita Cadillac (sucesso no Almoço do João de Barro) sobre quem foi exibido longa assinado por Toni Venturi. O encerramento foi no confortável auditório da Fiep e não é sincero deixar de citar o adorável passeio ao lado do agradável casal Bete Mendes e Marcão com paragens no imenso mercado central – onde Bete virou autêntica “Mamãe Noel” (provavelmente necessitou comprar mais uma mala) e distribuiu simpatias, fotos e autógrafos -, no monumento em homenagem a Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro (alvo de muitas fotos) e na aprazível La Suíça, elegante espaço de encontro para paladares refinados (um pecado as muitas receitas de bolo e tortas de chocolate e as “cartolas” devoradas por Itamar, as Betes - Mendes e Formaghinni - e Cris Alário).

     Nos estudantes liderados por André, Felipe e Henrique repousam muitos mais up-grades do que possa supor nosso vã internetês: são diversos e grandiosos megabytes de sensibilidade amparados por 40 gigas transbordantes de determinação. O cuidado aos mínimos detalhes, simbolicamente comprovados através do belo troféu que homenageia os “tropeiros” descobridores de Campina Grande, a acolhida atenciosa aos convidados e determinante para o êxito do festival – estampado em sessões lotadas, debates e palestras concorridos – e o semblante feliz dos participantes – os quais chegaram a deixar Campina Grande enchendo de som e música o aeroporto João Suassuna – são provas incontestes da dimensão que assume o festival coordenado por André Costa e a urgente necessidade de convergência absoluta de apoios e patrocínios ao ComuniCurtas. Louve-se o apoio inicial e permanente da Universidade Estadual de Campina Grande. É graças a passos decisivos e metas claras e determinadas, como as germinadas no trio André-Felipe-Henrique, que relevantes avanços culturais são registrados, assim no Brasil como no mundo.

     Sinto-me honrada e feliz por fazer parte da qualificada turma participante deste III ComuniCurtas, esperando reescrever muitas e muitas outras crônicas sobre este festival, cujo início foi batizado por cachaça, caixão e rifa de motel e cujo futuro se anuncia propulsor de uma Campina Grande capaz de tornar-se turística e ainda mais produtora de Cultura através do sangue aguerrido de filhos seus ou quase – como André Costa, egresso da pequenina Barra de São Miguel -, sempre a aposta no risco e a crença na qual toda carpintaria teatral é passível de transformar-se seja matéria de observação e incentivo a novos parâmetros de cidadania e inclusão real de valores civilizatórios dignificantes.

ARTUR da TÁVOLA, Exemplo e Saudade

* Aurora Miranda Leão

     Com a partida de Artur da Távola, estamos mais pobres. Perdemos. Não apenas um intelectual do mais alto gabarito. O Brasil está órfão de um de seus mais brilhantes intelectuais. Perdemos um Homem sensível, inteligência brilhante, um carioca apaixonado por todas as formas de ser e Pensar... a vida, o humano, a civilidade. Eu, particularmente, perdi um Amigo querido, um Mestre com quem aprendi a ver todas as coisas da vida pelo viés da sensibilidade.

     Artur da Távola é uma saudade e um exemplo a me nortear os passos desde a adolescência. De admiradora tímida e acanhada, virei amiga, descobri um rosário de afinidades e o tempo encarregou-se de aprimorar nossa sintonia. Lembro, como hoje, eu chegando para visitá-lo no apê de Ipanema, mesmo endereço de sua mãe, a sábia e querida Magdalena Koff, e dizendo a ele da vontade de enveredar pelo Jornalismo - '... mas quando leio seus textos, mais me convenço de que jamais escreverei como você. Tenho vontade de desistir...' E ele, tal qual o 'guru' que, brincalhonamente se autodenominava, mudava o curso de meu pensamento e incentivava: 'Não, Aurora, não desista. Todos nós temos uma fonte dentro. É preciso descobri-la, burilá-la, e aí você vai descobrir seu próprio estilo. Você é sensível e gosta de escrever, portanto você já tem as ferramentas mais importantes'. Por esse tempo, caminhava perto dos 15... Acabei fazendo mesmo Comunicação e foi dele o mais lindo cumprimento recebido ao me formar. De uma forma ou outra, Artur/Paulo Alberto sempre sabia dos meus passos - tenho todos os seus livros, quase todos com dedicatória, cada uma mais tocante. Fosse em momentos de alegria ou de tristeza, a palavra confortante soava sempre. Ganhei dele o prefácio para meu primeiro livro de crônicas. Sinto-me agora na 'obrigação' de publicá-lo.

     Lembro nossa última troca de afetos: ele escreveu contando estar prestes a fazer uma cirurgia. Respondi (sem saber direito qual o verdadeiro problema) com várias frases positivas, repletas dos ensinamentos da Ciência Mentalista, esta potente ferramenta para a vida, tão desconhecida quanto revolucionária. Mestre Artur, com a sensibilidade/simplicidade/empatia tão peculiares, me respondeu cheio de ternura e gratidão 'por me colocar em suas orações'...

     Pude tão pouco, Mestre Querido, mas foi tudo que pude naquela hora. Sinto Você agora ainda mais a me iluminar desta nova realidade onde habita, por certo de forma singela e sabiamente escrevendo crônicas e poemas, cercado das melhores energias, espraiando os mais fraternos afetos e cativando pelas virtudes das quais foi com maestria exemplo singular.

     Ficam os muitos livros autografados, a lembrança feliz dos encontros onde a partilha foi sempre afetuosa, o sorriso acolhedor, o carinho revelado nas horas mais diferentes, a sensibilidade transfigurada em luz, a ternura em oferta genuína, como sói a um guia espiritual, a força inteligentemente poderosa de quem influencia por não impor. Fica de Mestre Artur, para sempre, o olhar sem preconceitos para a tevê, o respeito à Ópera e ao Teatro, a reverência à Música Clássica, o olhar atento e incentivador para o nosso Cinema (era fã e amigo de Zelito Vianna, Cacá Diegues, Arnaldo Jabor); o apreço à Cultura Popular e a artistas como os cearenses Lauro Maia e Humberto Teixeira, e os geniais Gonzaguinha e Chico Buarque; a admiração por Yara Cortes, Paulo Gracindo, Fernanda Montenegro, Cleyde Yáconis, Rosamaria Murtinho, Milton Gonçalves, Ruth de Souza, José Wilker, Tony Ramos e tantos outros grandes; fica em mim, sobretudo, a influência notória e assumida na maneira de escrever - de indisfarçável afinidade-, o amor pelo Rio de Janeiro e, sobretudo, por Ipanema, o apreciar a Bossa Nova, a procura constante do Bem, do Belo e do Bom... enfim, fica de ARTUR DA TÁVOLA, com tanto ainda a nos doar em grandeza e profundidade, o exemplo de um Homem Digno, intelectual sem impáfia, político sem uma marca negra na biografia, observador atento da vida, avesso a modismos, preservador da Memória histórico-afetivo-cultural do país, inteligência lapidar e erudição invejável. Fica uma infinita saudade, a lembrança do amigo sempre carregado de afeto, sensibilidade, solidariedade e disponibilidade, um esteta da liberdade e da justiça, um artesão do Conhecimento como alicerce civilizatório, um Mestre na Arte de Encantar e tornar ENCANTADO tudo a quanto emprestava seu olhar, sempre melhor e mais acurado que o da maioria.

     Mestre ARTUR, resta o projeto do curta em sua Homenagem, uma crônica audiovisual para reafirmar minha imensa gratidão, meu imortal apreço e a Admiração indormida, cultivada desde as primeiras leituras, afinidade revelada nos textos do cronista magistral, a quem o contato e a convivência só alicerçaram o afeto, a estima e a enorme certeza do acerto de frases antológicas, como esta:

     HÁ MOMENTOS EM QUE É PRECISO SABER REVERENCIAR. Diante de certos Artistas, é só o que nos cabe fazer.

     Pois é a que me aparece mais vívida neste momento de profunda dor e acerba ausência, fluindo com toda a intensidade da estima quase incomparável que nutro por quem é um dos grandes responsáveis por minha entrada e permanência no Jornalismo. Descanse em Paz, Mestre. Com toda certeza, já na companhia do pai, da mãe querida Dona Magdalena e do avô André Koff.

Saravá 2008 !!!

* Aurora Miranda Leão

Flamboyants, acácias, orquídeas e gerânios
Flores de todas as cores, todos os sabores
Convidados para entoar cânticos de Paz
e Felicidade Geral pelo 2008 que vem vindo...
Porque é melhor ser alegre que ser triste
Vininha ensinou: A Alegria é a melhor coisa que existe

Possa o Novo Ano chegar qual Luz muito intensa no coração:

     A Sensibilidade esteja de plantão, como nas crônicas de Artur da Távola;
As idéias fluam límpidas e inteligentes, como em Rubens Ewald Filho;
A Serenidade seja algo assim como encontrar Matheus Nachtergaele em plena tarde na orla de João Pessoa ou conversar com Edinha Diniz num passeio musical que começa com Chiquinha Gonzaga;
Que a gratidão e a generosidade se espelhem em Walter Salles;
Que os casais se renovem a cada alvorecer, como tão bem traduzem Chica Xavier e Clementino Kelé, e possam ser mais e tão leves como Denise e Jayme Del Cueto.

     Que os pais sejam sempre motivo de orgulho para os filhos, como LG Miranda Leão sempre no coração - Maurinho, Rodrigo e João Paulo celebrando Mauro Mendonça;

     Que a juventude seja mais idealista, bela e ética, como dá gosto notar em Joyce Martins e Síria Bonfim;

     Que os 100 de Niemeyer prossigam gerando frutos em traços de tão qualificada tessitura como em Luís Giffoni, qualidade especial de jovem, marcante porque raro;   

     Elegância, simpatia, doçura e energia positiva façam morada onde houver alguma alma como a de Rosamaria Murtinho.

     E gente do Bem, como Elinês Rodrigues, Liana Correa, Jal Guerreiro, Fatita Celes, Nicole Algranti, Vânia Catani, Caio Quinderé, Dea Barbosa, Leila e Di Moretti apareçam mais.

     E possamos ter novas e maiores alegrias ao reencontrar amigos como Lola Laborda, Robledo Milani, Jackson e Thiago Bantim, Solange Lima, Esmon Primo, Aline Pereira, Vitória Parente, Virgínia Oriá, Berenice Xavier, Ana Maria e Maurício Lima. E façamos amigos novos como Nadir Veiga, Joabson, Márcio Santana, Glecy Coutinho, Agostino Lazzaro e Conrado Pera.

     E a camaradagem comece no café da manhã, como quando lembramos Débora Torres, Itamar Borges, Ângelo Lima, Michelline Helena, Margarete Taqueti, Neusa Mendes, Tanimar e Lanúcio Rodrigues,Veiga Júnior, Celso Brandão, Gutérres, Amélia Cristina e dona Jesus (do melhor bolo de chocolate do mundo)... Saudades de São Luís, Goiânia e Vitória.

     E as cidades, de qualquer tamanho ou temperatura, sejam tão adoráveis como Pedra Menina, Gramado, Patrimônio da Penha e Natal;

     Que a Fé brote Poderosa e faça morada em muitos corações, e a vontade de viver extrapole todo negativismo, como é exemplo em Manoel Villela, nosso adorável Maneles;

     Que as primas sejam tão especiais e com tantos dotes culinários como Manoela, sempre Fifa;

     Que a tietagem seja tão produtiva como a de Nélson Augusto, Beatles Forever!

     Que a fraternidade seja tão comum como em Dedé, Fá e Felipe;

     E a vontade de adquirir mais Conhecimento seja tão viva como no tio Rey, sapiência singular;

     Que os irmãos sejam tão presentes no afeto e na solidariedade como João Neto, Astrid e Luiz Filho,

     E os sobrinhos sejam tão bonitos e fundamentais como Neyara, Kroyller, Luís Neto e Dayandra;

     Que o carinho seja mais forte e a atenção ao próximo seja constante como em Niedja Ribeiro, segunda mãe; e os afetos se prolonguem vida afora com selo de qualidade sem vencimento, como em Mundinha e Tintão;

     E a gente possa ter certeza de um ombro amigo, a qualquer hora, como em Júlia Luzia - Julinha com louvor !

     Que os sentimentos nobres ganhem todas as estatísticas - sociológicas, antropológicas, psico-sociais - e sejam banidos sem remissão a inveja, a descortesia, a injustiça e a ingratidão, como em Magali Bastos, Marli Soares, Martha Vasconcellos e Zetti;

     Que os amigos operem sempre na faixa da lealdade, o companheirismo seja motivo de plágio constante e valores éticos sejam transmitidos às novas gerações, como o fez Marlene, pedra angular.

     Que o dom da Palavra, bem escrita e humorada, nos lembre a riqueza expressiva de Pedro Cardoso;

     Que a televisão aposte em mais conteúdo de qualidade e possamos usufruir bem mais de Gilberto Braga;

     A reportagem televisiva conte sempre com a capacidade criativa de gente como Bernadete Duarte;

     Que o ofício da crítica seja tão competente como quando assinam Marcelo Janot, Rodrigo Fonseca, Neusa Barbosa ou Celso Sabadin;

     Que o Cinema tenha muito mais olhares acurados, como os registrados em Karim Aïnouz, Vladimir Carvalho, Sílvio Tendler, Helvécio Ratton, Monique Gardenberg, Eliane Caffé, Toni Venturi, Sérgio Bianchi, Beto Brant e Aluizio Abranches;

     Que o Audiovisual se renove e diversifique cada vez mais seus focos, como quando captamos na tela o olhar de Allan Ribeiro, Gui Castor, Petrus Cariry, Cássio Araújo, Henrique Rocha e Orlando Lemos;

     Que as salas de cinema se espalhem pelos quatro cantos com a platéia ávida pra ver Cinema Brasileiro, como acontece tanto nos festivais - Antônio Leal sabe bem disso;

     Que o Teatro extraia sua força do cotidiano, como sói em Augusto Boal, o contexto seja tão eloqüente como a presença de Matheus Nachtergaele em cena e atuar seja instigador como estimula Caco Ciocler;

     E não desistiremos de nossos ideais sempre que lembrarmos Abdias Nascimento.

     Que a beleza do olhar e a alegria do sorriso de Luciana Araújo sejam corriqueiros, e os amigos não "sumam" como Valério Fonseca, Fábio Novello, Nirton Venâncio, e Ana Paula Minehira, e os de longe dêem sempre notícias, como Denise Dummont, Roberta Canuto, Sílvia Pandullo, Alan Langdon e Rhérika Gracie;

     Que saibamos estar nos mais diferentes lugares, quase ao mesmo tempo, reunindo gente pra falar de Alegria, como faz Cláudio Pereira;

     Que novos talentos sejam aplaudidos, como Marcelo Torreão, Zulma Mercadante, Taciana Barros, Alex Nader, Bernardo La Rocque e Vera Ferreira; e atores consagrados saibam conservar a riqueza humana da simplicidade registrada em Emiliano Queiroz, Paulo Betti, Paulo José, Guti Fraga, Wagner Moura e Leandro Firmino da Hora;

     Que Documentários contem sempre com olhares tão atentos como os de Carlos Alberto Mattos e Amir Labaki;

     Que festivais de Cinema sejam cada vez mais a tradução multifária do sentido primordial da Sétima Arte, propiciando um cenário onde Música, Dança, Literatura, Teatro e mãos se entrelacem, nas telas e na vida - como já são os festivais CinePort, Guarnicê, Curta Santos, e as Mostras Cinema Conquista e MoVA Caparaó;

     Que haja mais respostas inteligentes para atitudes desprezíveis e mais filmes a reinventar a poética da tela, como nos consagra toda a obra genial de Júlio Bressane;

     Que a Poesia se faça cada vez mais instigante, tal como é a lírica do Poeta de Cataguazes, Ronaldo Werneck;

     E a criativa edição dos Saraus Poéticos se multiplique por praças e espaços culturais de toda parte, contagiando as mais diferentes platéias, como quando Jorge Salomão dá o tom;

     Que as festas se multipliquem por todo este 2008 e possam ser tão fartas e bacanas como as de Maria Letícia;

     Que possamos cada vez mais falar de Arte/Vida/Beleza ao lembrarmos Júlia Lemmertz, Maitê Proença, Fernanda Machado, Bruno Gagliasso, Fernanda Montenegro, Tony Ramos, Selton Mello e Dan Stulbach;

    Que atrizes como Lea Garcia, Cleyde Yáconis, Tônia Carrero, Ruth de Souza, Leona Cavalli, Marcélia Cartaxo, Débora Falabella, Hermila Guedes e Débora Duboc sejam espelho para quem quer seguir carreira;

     E haja palcos e telas para atores de todas as idades e estilos, como Antonieta Noronha, Flávio Bauraqui, José Dumont, Vera Holtz, Milton Gonçalves, José Wilker, Aramis Trindade, Ernesto Piccolo, Gustavo Falcão, Roberto Birindelli, Sirmar Antunes, Zezita Mattos, Everaldo Pontes, Ricardo Guilherme e Carri Costa;

     Que artistas do naipe de João Falcão, Guel Arraes, Mauro Mendonça Filho, Alexandre Machado, José Alvarenga e Hubert estejam mais presentes no cotidiano de toda gente,

     E haja mais inteligência na tevê, como acontece com Priscilla Rosembaum e Domingos Oliveira.

     Que a realidade brasileira ganhe a cada dia novas interpretações através dos mais diversos olhares e as câmaras possam se reinventar através de jovens como Erik Rocha, Felipe Taborda e Esmir Filho;

     E as notícias culturais nos cheguem com o vigor indormido de Maria do Rosário Caetano;

     Que o cineclubismo tenha cada vez mais gente com a disposição e o dinamismo de Claudino de Jesus, João Batista Pimentel e Felipe Macedo;

     E que a Tv Brasil se transforme na vitrine que desejamos, força pra Orlando Senna;

     Que João Moreira Salles e Eduardo Coutinho nos presenteiem com novos filmes para nosso deleite e orgulho;

     Que os tão belos como Fábio Assunção e Ana Paula Arósio também sejam notados por sua competência e talento;

     Possamos ouvir mais Carioca apreciando o olhar menino e arguto de Chico Buarque e suas melodiosas letras sejam partilhadas com a maioria, através das rádios de seu país, ou quem sabe rememorar o tango de Piazzola pelo violoncelo afinado de João Omar;

     A Música Brasileira seja tão efervescente como a gostosa sonoridade Paralâmica e o Amor ganhe mais letras e canções como as de Herbert Vianna, Guilherme Arantes, Marisa Monte, Toquinho, Gilberto Gil e Caetano.

     Que a música seja terna ou agridoce conforme a emoção, sempre bonita, de nova Bossa, ou fazendo gingar mais pulsante, tantas são as filigranas a brotar da voz inconfundivelmente bela de Calé Alencar;

     Que se faça mais Arte; se dance mais, em todas as estações, qualquer estilo, todas as notas;

     Zabumbas, ferros, caixas e triângulos - Irmãos Aniceto ritmadamente cabaçais nos ajudando a renovar a Fé e a rodopiar, sobretudo no ensolarado Cariri das benfazejas farturas de caju, manga e siriguela;

     Nossa nordestinidade a espraiar-se em qualquer lugar

     Sobretudo quando Euclides, mais-que-perfeito, nos apresenta o Boi, o Cacuriá e nos festeja com o cordão das Crioulas do Tambor;

     Para haver sempre sorrisos em volta e a Felicidade se construir a cada hora Para ser companhia, renovando-se ao pisar o chão para cantar a força das raças

Que vivem aqui, ali, em todo lugar
Saudando a Alegria como uma chama
Acendendo pela noite adentro
Um desejo e uma esperança
Qualquer música, qualquer bolero
Enquanto a cidade possa se vestir, eletrizada pela sonoridade e imponência do maracatu a se fazer cada vez mais Fortaleza porque Nação.

     E seja decretado como direito de todos tomar o inigualável suco de laranja das ruas de Santelmo,
Rir com a fluência contagiante de Zéu Britto,

     Torcer por um futebol tão emocionante como ver Messi, Riquelme, Palermo e os muitos craques do Boca Juniors em campo;

     Que o clima de festa seja tão constante e efusivo como fica a Bombonera em dia de vitória do seu/nosso time;

     Que os preços das passagens aéreas sejam reduzidos e todos tenham ao menos uma chance de conhecer Buenos Aires;

     Possamos desfrutar uns dias a mais em hotéis tão encantadores como o Castro's de Goiânia, o Pirâmide de Natal e o Blue Tree do Cabo de Santo Agostinho;

    Que todos tenhamos sempre mais 2008 motivos pra prosseguir acreditando que Tudo vale a pena, se a alma não é pequena !

     E antes de tudo, que o Amor invada mais os corações - como tão bem traduziu Vinícius, e Monique evidenciou em Benjamim: "Eu te peço perdão por te amar de repente embora o meu amor seja uma velha canção para os teus ouvidos..."

 

 

FELIZ ANO NOVO !!!

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ROSAMARIA: FRIDA REAFIRMA TALENTO AVASSALADOR DA ATRIZ


* Aurora Miranda Leão

     Era uma das muitas na platéia lotada. Pude ver o espetáculo mais de uma vez, fato que dimensiona ainda mais a excelência da atuação de ROSAMARIA MURTINHO. Frida - Fragmentos de Memória, texto de Meiry Rioto, costura de forma inteligente a vida sofrida e conturbada da artista mexicana e tem em Caco Ciocler um diretor de sensibilidade comovente. O resultado é um espetáculo belo, comovente, impactante. Caco Ciocler revela-se um grande Diretor, já que, como Ator, todos sabemos, é de nossos melhores.

     Rosamaria Murtinho, protagonista, reafirma sua maestria înterpretativa e comove de muitas formas: faz rir, chorar, refletir, toca fundo a Alma. É Atriz pra ninguém botar defeito, espécime raro pois sua competência espraia-se onde quer que atue - teatro, cinema, televisão. Fã de carteirinha da atriz, desde garota, confesso: Rosinha supera todos os seus outros personagens. Sua interpretação para FRIDA é ARREBATADORAMENTE convincente/comovente/flecha a Alma.

     O elenco de FRIDA também é um acerto: todos dão conta do recado e compõem um espetáculo forte, belo, tocante demais, digno de ser indicado aos Melhores Prêmios do Teatro, e, por certo, FRIDA - se os jurados não forem vesgos -, ganhará muitas estatuetas. Acabo de saber que estará nos festivais de Curitiba e Porto Alegre, os mais importantes do país. JUSTÍSSIMO. Quem ganha são os festivais. E a platéia.

     Um dos muitos pontos da peça a merecer DESTAQUE: a Tridimensionalização que Caco Ciocler faz da obra da revolucionária artista mexicana, como se a obra de FRIDA adentrasse todo o cenário, assim atraindo nosso olhar, cativando nossa emoção e invadindo a Alma de todos nós, honrosamente compactuando com Frida e suas dores, da platéia.

     SALVE FRIDA KHALO, a grande Artista Mexicana incorporada por Rosamaria Murtinho ! Aplausos para Caco Ciocler e o elenco que tão bem dirige - destaque para Marcelo Torreão, Zulma Mercadante, Taciana Barros (a quem vi substituir com preciocismo, em dia de estréia, a presença competente de Zulma em cena), Alex Nader, Bernardo La Rocque e Vera Ferreira (ótima como a mãe de Frida). Lindas as cenas musicais - APLAUSOS vigorosos para a direção inspirada de João Paulo Mendonça (o primogênito de Rosinha e Mauro Mendonça). Viva a equipe técnica: Xodó, Neném, Luciano e D. Lourdes. Parabéns aos patrocinadores pela sensibilidade em apoiar montagem tão bela, a qual diginifica nossa cena. FRIDA é, sem dúvida, uma das melhores estréias do ano passado e tem tudo para fazer brilhante carreira neste 2008.

     Saravá, Rosamaria Murtinho !!! TODOS OS APLAUSOS A ESTA MAGNÍFICA ATRIZ QUE MAIS UMA VEZ SURPREENDE EM CENA COM O TALENTO QUE TODOS CONHECEM MAS QUE EXTRAPOLA TODOS OS PARADIGMAS INTERPRETATIVOS A CADA NOVA ATUAÇÃO. Que os Deuses do Teatro estejam cada vez mais com você, minha Rosa Querida, e os que lhe acompanham.

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CONSCIÊNCIA: PORQUE É MÚLTIPLA NOSSA NEGRITUDE

* Aurora Miranda Leão



     Vem chegando mais um 20 de novembro. E, como acontece quase diariamente, me bateu Vininha no coração. Pra quem não atenta logo, Vininha é o apelido carinhoso que os amigos deram a Vinícius de Moraes, o Poeta que foi Tanto que diante dele somos todos muito diminutos.

    E lembrar Vininha nestes tempos de Consciência Negra é lembrar de quem guardei estes versos, que nunca me saíram da cabeça - como tantos outros dele: '... o branco mais preto do Brasil, na linha direta de Xangô. Saravá !'

     De meu pai, ganhei meu primeiro LP, justamente um disco de VM editado pela Abril - em formato médio, uma 'inovação' da época. Guardo-o comigo. Relíquia. E falar em Negritude sem falar em Vinícius é como falar de livro infantil sem falar em Monteiro Lobato, ou como falar em música clássica e não lembrar logo Nepomuceno, Villa-Lobos ou Nazareth; falar na Bahia e não lembrar logo Gil, Gal, Caetano e Bethânia, ou como ir a Paris e não conhecer a Torre Eiffel...

     Rememoremos: a primeira encenação brasileira, cujo elenco era formado integralmente por atores negros, foi Orpheu da Conceição, cuja estréia aconteceu em 25 de setembro de 1956 no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Uma semana em cartaz, 'patrocínio' exclusivo do bolso de Vinícius, memorável ficha técnica: Oscar Niemeyer fez os cenários, Léo Jusi dirigiu, Lila Bôscoli criou os figurinos, Vininha e Tom Jobim criaram as músicas; Carlos Scliar fez todos os desenhos; Djanira, Luís Ventura, Raimundo Nogueira e Scliar criaram os cartazes. Leo Peracchi conduzia a orquestra e Luís Bonfá executava o violão de Orpheu, interpretado por Haroldo Costa. Eurídice era Dirce Paiva; Léa Garcia fazia Mira de Tal e Cyro Monteiro era Apolo. Abdias Nascimento e seu TEN também estavam no elenco: Pérola Negra, Waldir Maia, Chica Xavier, Clementino Kelé, Chico Feitosa. Era a primeira vez que atores negros subiam ao palco do magnânimo Teatro Municipal com uma montagem grandiloqüente, reunindo o melhor para tornar Orpheu um marco na história de nosso Teatro.

     Sobre a montagem, escreveu o Poeta: 'Esta peça é uma homenagem ao negro brasileiro, a quem, de resto, a devo; e não apenas pela sua contribuição tão orgânica à cultura deste país; melhor, pelo seu apaixonante estilo de viver que me permitiu, sem esforço, num simples relampejar do pensamento, sentir no divino músico da Trácia a natureza de um dos divinos músicos do morro carioca'.
Tudo que Vinícius fez tem ainda mais valor porque àquela época o comum era o desrespeito ao negro, o desprezo, o relegar à negritude ao ostracismo. O gesto de Vínicius e toda a sua atuação - lê-se em suas muitas biografias o respeito devotado e ensinado aos filhos no tocante aos negros, aos pobres, às mulheres - são uma prova inconteste do posicionamento determinado do Poeta em defesa das minorias (?). Sendo ademais Vinícius um filho da chamada 'Zona Sul', branco e de olhos verdes, Poeta e Diplomata, admirado por artistas e intelectuais, com trânsito em todas as esferas (embora fosse tão mal visto por alguns poderosos, que acabou sendo exilado quando o AI-5 decretou luto à Cultura Brasileira), seu gesto reveste-se ainda mais de Valor pois não legislava em causa própria.

     É fato também: não podemos olvidar o pioneirismo e a aguerrida disposição de Abdias Nascimento, merecidamente homenageado este ano com a Ordem do Mérito Cultural pelo Governo Lula, levando adiante as mais diversas plataformas negras com a criação do Teatro Experimental do Negro, de onde revelou nomes como Ruth de Souza e Lea Garcia.

     Vale lembrar também o pioneirismo de Janete Clair quando criou o Dr. Percival, psicólogo, em sua novela Pecado Capital (grande êxito da Rede Globo), especialmente para o ator Milton Gonçalves. Este é um marco da nossa teledramaturgia e não pode ser olvidado. Milton já fizera outro grande personagem na trama de Dias Gomes, O Bem-Amado, na qual viveu Zelão das Asas... Se formos voltar nosso olhar para a Literatura e o Samba, aí mesmo é que esta crônica não tem como terminar de tão extensa ficará.

     Voltemos nossas lembranças para as grandes Damas Negras de nossos palcos e filmes: Chica Xavier, Ruth de Souza, Lea Garcia, Ângela Correa, Neusa Borges; ou as beldades que enfeitavam nosso Cinema e ninguém mais vê - Luíza Maranhão, Marlene Silva, Adele Fátima, Julcilléia Teles, Aizita Nascimento, Vera Manhães; as belas de hoje, presença constante na tevê - Adriana Lessa, Ildi Silva, Camila Pitanga, Maria Ceiça, Thaís Araújo, Thalma de Freitas e as intérpretes da novela das 21h, Duas Caras; ou lembremos Milton e seu filho Maurício Gonçalves, Antônio Pitanga, Jorge Coutinho, Joel Zito Araújo, Antônio Pompeu, Clementino Kelé, Nélson Xavier, Ivan de Almeida; e os mais moços como Lázaro Ramos, Flávio Bauraqui, Leandro Firmino da Hora, Alexandre Rodrigues, André Ramiro, Sérgio Lorosa, Sirmar Antunes, Sérgio Malheiros, Douglas Silva, 'Pratinha' e sua bela filha Marília, e na música - Elisete Cardoso, Tim Maia, Jorge Ben Jor, Luís Melodia, Paulinho da Viola, Milton Nascimento, Zezé Motta, Djavan, Gilberto Gil, Emílio Santiago, Eliana Pittman, Carlinhos Brown, Martinho da Vila, Martinália, D. Ivone Lara, Virgínia Rodrigues, Leci Brandão, Leny Andrade, a linda Paula Lima e tantos tantos mais; além dos imortais, Pixinguinha, Lupicínio Rodrigues, Cartola, Ismael Silva, Moacir Santos, Ciro Monteiro; e Heitor dos Prazeres, Di Cavalcanti, Antônio Bandeira na Arte dos pincéis e telas impagáveis... São tantos que qualquer espaço seria pequeno para citá-los todos. Há intelectuais, líderes e artistas do porte de Muniz Sodré, Nei Lopes, João Cordeiro, Joaquim Nabuco, José do Patrocínio, Dragão do Mar, Haroldo Costa, Walli e Jorge Salomão, Zózimo Bulbul, Toni Tornado, Jefersson D, Raquel Trindade... Restam saudades de Grande Otelo, Solano Trindade, Zeni Pereira, Procópio Mariano, Jacira Silva, Mussum, Eliezer Gomes, Sônia Santos... Onde andam Clea Simões e Jorge Coutinho.......... ?

     Vamos celebrar nossa negritude - ancestral, transversal, ritualística, emocional, visceral - através de nossa rica produção audiovisual (como exemplo, o movimento cineclubista realiza exibições em todo o país da Mostra AfroOlhar), recheada de obras a nos retratar tão bem como Cafundó (filme de Paulo Betti e Clóvis Bueno); Cidade das Mulheres (filme de Lázaro Farias); A Negação do Brasil (livro e filme) e Filhas do Vento (filme) de Joel Zito Araújo; A Rainha Diaba, de Antônio Carlos Fontoura e Madame Satã, de Karim Aïnouz; Orpheu do Carnaval e Orpheu, o primeiro de Marcel Camus e Vinícius de Moraes e o segundo de Cacá Diegues; Chica da Silva, Ganga Zumba e Quilombo, todos de Cacá. Se formos pra música então, haja vitrola... Estas obras e estes Artistas não são exclusividade do chamado Movimento Negro. Ou pelo menos não devem ser 'emoldurados' apenas pelos que militam no movimento. A Cultura Brasileira é afinal um belo e original artesanato, qual renda traçada pelos bilros que a voracidade da tecnologia quase está a fazer desaparecer de nossa nordestinidade, onde se aninham referências indígenas, européias e africanas. Portanto, somos todos merecedores de respeito, incentivo e aplauso. Sejamos artífices de uma segunda Abolição - da qual tão bem nos fala o líder Abdias Nascimento - para todos nós, brasileiros de todas as origens, crenças, etnias, tradições e classes sociais.

     Todos os nomes aqui citados, sem exceção, são PATRIMÔNIO CULTURAL e ARTÍSTICO, logo, Patrimônio Imaterial do Brasil - '...meu Brasil de todos os santos, branco, preto, mulato, índio, lindo como a pele macia de Oxum, inclusive, meu São Sebastião... Saravá !'

     Sem essas pessoas - e mais uma infinidade delas, lembrando que 'editar é preciso' - nossa Cultura seria mais pobre, nossa história seria mal contada, nossa diversidade seria tacanha, nossos valores seriam medíocres, seria desigual nossa aparência e pálido nosso arco-íris. Quanto mais longe formos na saudação e reverência a todos os expoentes da Arte e Cultura que são negros - porque Arte e Cultura não têm cor; nossas peles é que apresentam matizes diferentes -, tanto quanto devemos louvar e aplaudir aos expoentes de todas as etnias - porque todos que não praticamos guerra, que defendemos a Paz, a Dignidade, a Diversidade, a Ética, a Justiça, a Fraternidade e a Solidariedade, devemos ser exemplo aos que trafegam em territórios opostos, pregando valores antípodas, decretando a irracionalidade em nome de inexistentes e inconcebíveis padrões superiores.

     Porque quem criou o Universo a todos concedeu os mesmos poderes, direitos e deveres; a nenhum discriminou. A ninguém deu mais. A ninguém deu carta, de cor nenhuma, para agir mal com o próximo em nome de coisa alguma.

     Portanto, possa este 20 de novembro ecoar em todos as almas como uma data da BRASILIDADE. Um dia no qual todos nós, de todos os credos, corpos, faixa salarial, tipo de cabelo, maneira de ser e estar, jeito de falar e andar, maneira de atuar, cantar e dançar, modo de comer, olhar e estudar, gostos e aptidões diferentes, possamos nos dar as mãos e entrelaçar nossos corações numa mesma emoção cujo único parâmetro seja a Justiça, a Gratidão, o Afeto, o Respeito e a reverência igualitária ao que é Belo, Bom e Justo. Porque não é possível avançarmos décadas no milênio sem progredir na qualidade das relações e ainda continuarmos, forçadamente, a ter de admitir a necessidade de pregar a igualdade e esclarecer sobre a criatura humana - cujas diferenças étnicas são apenas traços legados por um Pintor Único e múltiplo, que a nós criou com extrema maestria, tendo o cuidado de a cada um dotar de um semblante diferente, uma fala diversa; a cada um consagrou o direito sagrado de escolher como quer se colocar no mundo; com uma delicadeza de querubim, tomou nas mãos uma palheta de cores sublimes, só encontrável na natureza, e transmitiu a cada um as matrizes de sua ancestralidade e descendência, conforme melhor ressoavam n'Alma os padrões por Ele tão generosamente doados ao Universo.
Neste 20 de novembro, deixo uma sugestão a quem pode mais que esta jornalista: o Brasil bem poderia designar o dia do aniversário de Vinícius de Moraes - 19 de outubro - como o Dia da Diversidade Cultural ou o Dia da Reverência Étnica.

     Data do aniversário do Poeta, músico, compositor, Diplomata, crítico de Cinema, acadêmico, imortal em tudo que fez e de toda beleza da qual a nós todos, brasileiros, nos fez herdeiros. Porque foi Vinícius quem primeiro e melhor fez a ponte entre a música erudita e popular, entre a cultura branca, a negra e a mestiça, e declarou isso em versos que todos sabemos de cor: 'Eu, por exemplo, o capitão-do-mato Vinícius de Moraes, poeta e diplomata, o branco mais preto do Brasil, na linha direta de Xangô - Saravá !', e desfila neste incomparável Samba da Bênção uma lista de nomes dos quais sofreu influência direta, com os quais conviveu e aos quais eternizou, em versos, o aplauso, o respeito, a amizade e parceria.

Viva a Consciência Negra!

Salve Negros e Negras do Brasil e do mundo !

Palmas aos Representantes da Cultura Negra !

     Aplausos a todos os Brasileiros, de todas as Etnias e de qualquer parte do Brasil, defensores da Paz, da Justiça e da Igualdade Social como um Bem que há muito já devia grassar como lei natural.

     Saravá Vininha e todos os Poetas deste meu Brasil, negro, branco, índio, caboclo, mulato, cafuso, mameluco, lindo e multifacético como Vininha, o Grande Poeta da Paixão, do Amor, do Mar e da Mulher Amada, que em nós plantou, sobretudo, a importância do Respeito ao Humano.

VIVA 20 DE NOVEMBRO !

Salve Zumbi dos Palmares !

 
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