AURORA de Cinema, de Teatro, de Arte...
O ANO QUE MEUS PAIS SAÍRAM DE FÉRIAS
 
BENJAMIM
 
CITIZEN KANE
 
Meu Nome não é Johnny
"O Cinema cria imediatamente uma direção para a vista, que é um sentido eminentemente abstracionista, e uma fantasia para a imaginação".
Vinícius de Moraes
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> Objetiva
ARTUR da TÁVOLA, Exemplo e Saudade

* Aurora Miranda Leão

     Com a partida de Artur da Távola, estamos mais pobres. Perdemos. Não apenas um intelectual do mais alto gabarito. O Brasil está órfão de um de seus mais brilhantes intelectuais. Perdemos um Homem sensível, inteligência brilhante, um carioca apaixonado por todas as formas de ser e Pensar... a vida, o humano, a civilidade. Eu, particularmente, perdi um Amigo querido, um Mestre com quem aprendi a ver todas as coisas da vida pelo viés da sensibilidade.

     Artur da Távola é uma saudade e um exemplo a me nortear os passos desde a adolescência. De admiradora tímida e acanhada, virei amiga, descobri um rosário de afinidades e o tempo encarregou-se de aprimorar nossa sintonia. Lembro, como hoje, eu chegando para visitá-lo no apê de Ipanema, mesmo endereço de sua mãe, a sábia e querida Magdalena Koff, e dizendo a ele da vontade de enveredar pelo Jornalismo - '... mas quando leio seus textos, mais me convenço de que jamais escreverei como você. Tenho vontade de desistir...' E ele, tal qual o 'guru' que, brincalhonamente se autodenominava, mudava o curso de meu pensamento e incentivava: 'Não, Aurora, não desista. Todos nós temos uma fonte dentro. É preciso descobri-la, burilá-la, e aí você vai descobrir seu próprio estilo. Você é sensível e gosta de escrever, portanto você já tem as ferramentas mais importantes'. Por esse tempo, caminhava perto dos 15... Acabei fazendo mesmo Comunicação e foi dele o mais lindo cumprimento recebido ao me formar. De uma forma ou outra, Artur/Paulo Alberto sempre sabia dos meus passos - tenho todos os seus livros, quase todos com dedicatória, cada uma mais tocante. Fosse em momentos de alegria ou de tristeza, a palavra confortante soava sempre. Ganhei dele o prefácio para meu primeiro livro de crônicas. Sinto-me agora na 'obrigação' de publicá-lo.

     Lembro nossa última troca de afetos: ele escreveu contando estar prestes a fazer uma cirurgia. Respondi (sem saber direito qual o verdadeiro problema) com várias frases positivas, repletas dos ensinamentos da Ciência Mentalista, esta potente ferramenta para a vida, tão desconhecida quanto revolucionária. Mestre Artur, com a sensibilidade/simplicidade/empatia tão peculiares, me respondeu cheio de ternura e gratidão 'por me colocar em suas orações'...

     Pude tão pouco, Mestre Querido, mas foi tudo que pude naquela hora. Sinto Você agora ainda mais a me iluminar desta nova realidade onde habita, por certo de forma singela e sabiamente escrevendo crônicas e poemas, cercado das melhores energias, espraiando os mais fraternos afetos e cativando pelas virtudes das quais foi com maestria exemplo singular.

     Ficam os muitos livros autografados, a lembrança feliz dos encontros onde a partilha foi sempre afetuosa, o sorriso acolhedor, o carinho revelado nas horas mais diferentes, a sensibilidade transfigurada em luz, a ternura em oferta genuína, como sói a um guia espiritual, a força inteligentemente poderosa de quem influencia por não impor. Fica de Mestre Artur, para sempre, o olhar sem preconceitos para a tevê, o respeito à Ópera e ao Teatro, a reverência à Música Clássica, o olhar atento e incentivador para o nosso Cinema (era fã e amigo de Zelito Vianna, Cacá Diegues, Arnaldo Jabor); o apreço à Cultura Popular e a artistas como os cearenses Lauro Maia e Humberto Teixeira, e os geniais Gonzaguinha e Chico Buarque; a admiração por Yara Cortes, Paulo Gracindo, Fernanda Montenegro, Cleyde Yáconis, Rosamaria Murtinho, Milton Gonçalves, Ruth de Souza, José Wilker, Tony Ramos e tantos outros grandes; fica em mim, sobretudo, a influência notória e assumida na maneira de escrever - de indisfarçável afinidade-, o amor pelo Rio de Janeiro e, sobretudo, por Ipanema, o apreciar a Bossa Nova, a procura constante do Bem, do Belo e do Bom... enfim, fica de ARTUR DA TÁVOLA, com tanto ainda a nos doar em grandeza e profundidade, o exemplo de um Homem Digno, intelectual sem impáfia, político sem uma marca negra na biografia, observador atento da vida, avesso a modismos, preservador da Memória histórico-afetivo-cultural do país, inteligência lapidar e erudição invejável. Fica uma infinita saudade, a lembrança do amigo sempre carregado de afeto, sensibilidade, solidariedade e disponibilidade, um esteta da liberdade e da justiça, um artesão do Conhecimento como alicerce civilizatório, um Mestre na Arte de Encantar e tornar ENCANTADO tudo a quanto emprestava seu olhar, sempre melhor e mais acurado que o da maioria.

     Mestre ARTUR, resta o projeto do curta em sua Homenagem, uma crônica audiovisual para reafirmar minha imensa gratidão, meu imortal apreço e a Admiração indormida, cultivada desde as primeiras leituras, afinidade revelada nos textos do cronista magistral, a quem o contato e a convivência só alicerçaram o afeto, a estima e a enorme certeza do acerto de frases antológicas, como esta:

     HÁ MOMENTOS EM QUE É PRECISO SABER REVERENCIAR. Diante de certos Artistas, é só o que nos cabe fazer.

     Pois é a que me aparece mais vívida neste momento de profunda dor e acerba ausência, fluindo com toda a intensidade da estima quase incomparável que nutro por quem é um dos grandes responsáveis por minha entrada e permanência no Jornalismo. Descanse em Paz, Mestre. Com toda certeza, já na companhia do pai, da mãe querida Dona Magdalena e do avô André Koff.

Saravá 2008 !!!

* Aurora Miranda Leão

Flamboyants, acácias, orquídeas e gerânios
Flores de todas as cores, todos os sabores
Convidados para entoar cânticos de Paz
e Felicidade Geral pelo 2008 que vem vindo...
Porque é melhor ser alegre que ser triste
Vininha ensinou: A Alegria é a melhor coisa que existe

Possa o Novo Ano chegar qual Luz muito intensa no coração:

     A Sensibilidade esteja de plantão, como nas crônicas de Artur da Távola;
As idéias fluam límpidas e inteligentes, como em Rubens Ewald Filho;
A Serenidade seja algo assim como encontrar Matheus Nachtergaele em plena tarde na orla de João Pessoa ou conversar com Edinha Diniz num passeio musical que começa com Chiquinha Gonzaga;
Que a gratidão e a generosidade se espelhem em Walter Salles;
Que os casais se renovem a cada alvorecer, como tão bem traduzem Chica Xavier e Clementino Kelé, e possam ser mais e tão leves como Denise e Jayme Del Cueto.

     Que os pais sejam sempre motivo de orgulho para os filhos, como LG Miranda Leão sempre no coração - Maurinho, Rodrigo e João Paulo celebrando Mauro Mendonça;

     Que a juventude seja mais idealista, bela e ética, como dá gosto notar em Joyce Martins e Síria Bonfim;

     Que os 100 de Niemeyer prossigam gerando frutos em traços de tão qualificada tessitura como em Luís Giffoni, qualidade especial de jovem, marcante porque raro;   

     Elegância, simpatia, doçura e energia positiva façam morada onde houver alguma alma como a de Rosamaria Murtinho.

     E gente do Bem, como Elinês Rodrigues, Liana Correa, Jal Guerreiro, Fatita Celes, Nicole Algranti, Vânia Catani, Caio Quinderé, Dea Barbosa, Leila e Di Moretti apareçam mais.

     E possamos ter novas e maiores alegrias ao reencontrar amigos como Lola Laborda, Robledo Milani, Jackson e Thiago Bantim, Solange Lima, Esmon Primo, Aline Pereira, Vitória Parente, Virgínia Oriá, Berenice Xavier, Ana Maria e Maurício Lima. E façamos amigos novos como Nadir Veiga, Joabson, Márcio Santana, Glecy Coutinho, Agostino Lazzaro e Conrado Pera.

     E a camaradagem comece no café da manhã, como quando lembramos Débora Torres, Itamar Borges, Ângelo Lima, Michelline Helena, Margarete Taqueti, Neusa Mendes, Tanimar e Lanúcio Rodrigues,Veiga Júnior, Celso Brandão, Gutérres, Amélia Cristina e dona Jesus (do melhor bolo de chocolate do mundo)... Saudades de São Luís, Goiânia e Vitória.

     E as cidades, de qualquer tamanho ou temperatura, sejam tão adoráveis como Pedra Menina, Gramado, Patrimônio da Penha e Natal;

     Que a Fé brote Poderosa e faça morada em muitos corações, e a vontade de viver extrapole todo negativismo, como é exemplo em Manoel Villela, nosso adorável Maneles;

     Que as primas sejam tão especiais e com tantos dotes culinários como Manoela, sempre Fifa;

     Que a tietagem seja tão produtiva como a de Nélson Augusto, Beatles Forever!

     Que a fraternidade seja tão comum como em Dedé, Fá e Felipe;

     E a vontade de adquirir mais Conhecimento seja tão viva como no tio Rey, sapiência singular;

     Que os irmãos sejam tão presentes no afeto e na solidariedade como João Neto, Astrid e Luiz Filho,

     E os sobrinhos sejam tão bonitos e fundamentais como Neyara, Kroyller, Luís Neto e Dayandra;

     Que o carinho seja mais forte e a atenção ao próximo seja constante como em Niedja Ribeiro, segunda mãe; e os afetos se prolonguem vida afora com selo de qualidade sem vencimento, como em Mundinha e Tintão;

     E a gente possa ter certeza de um ombro amigo, a qualquer hora, como em Júlia Luzia - Julinha com louvor !

     Que os sentimentos nobres ganhem todas as estatísticas - sociológicas, antropológicas, psico-sociais - e sejam banidos sem remissão a inveja, a descortesia, a injustiça e a ingratidão, como em Magali Bastos, Marli Soares, Martha Vasconcellos e Zetti;

     Que os amigos operem sempre na faixa da lealdade, o companheirismo seja motivo de plágio constante e valores éticos sejam transmitidos às novas gerações, como o fez Marlene, pedra angular.

     Que o dom da Palavra, bem escrita e humorada, nos lembre a riqueza expressiva de Pedro Cardoso;

     Que a televisão aposte em mais conteúdo de qualidade e possamos usufruir bem mais de Gilberto Braga;

     A reportagem televisiva conte sempre com a capacidade criativa de gente como Bernadete Duarte;

     Que o ofício da crítica seja tão competente como quando assinam Marcelo Janot, Rodrigo Fonseca, Neusa Barbosa ou Celso Sabadin;

     Que o Cinema tenha muito mais olhares acurados, como os registrados em Karim Aïnouz, Vladimir Carvalho, Sílvio Tendler, Helvécio Ratton, Monique Gardenberg, Eliane Caffé, Toni Venturi, Sérgio Bianchi, Beto Brant e Aluizio Abranches;

     Que o Audiovisual se renove e diversifique cada vez mais seus focos, como quando captamos na tela o olhar de Allan Ribeiro, Gui Castor, Petrus Cariry, Cássio Araújo, Henrique Rocha e Orlando Lemos;

     Que as salas de cinema se espalhem pelos quatro cantos com a platéia ávida pra ver Cinema Brasileiro, como acontece tanto nos festivais - Antônio Leal sabe bem disso;

     Que o Teatro extraia sua força do cotidiano, como sói em Augusto Boal, o contexto seja tão eloqüente como a presença de Matheus Nachtergaele em cena e atuar seja instigador como estimula Caco Ciocler;

     E não desistiremos de nossos ideais sempre que lembrarmos Abdias Nascimento.

     Que a beleza do olhar e a alegria do sorriso de Luciana Araújo sejam corriqueiros, e os amigos não "sumam" como Valério Fonseca, Fábio Novello, Nirton Venâncio, e Ana Paula Minehira, e os de longe dêem sempre notícias, como Denise Dummont, Roberta Canuto, Sílvia Pandullo, Alan Langdon e Rhérika Gracie;

     Que saibamos estar nos mais diferentes lugares, quase ao mesmo tempo, reunindo gente pra falar de Alegria, como faz Cláudio Pereira;

     Que novos talentos sejam aplaudidos, como Marcelo Torreão, Zulma Mercadante, Taciana Barros, Alex Nader, Bernardo La Rocque e Vera Ferreira; e atores consagrados saibam conservar a riqueza humana da simplicidade registrada em Emiliano Queiroz, Paulo Betti, Paulo José, Guti Fraga, Wagner Moura e Leandro Firmino da Hora;

     Que Documentários contem sempre com olhares tão atentos como os de Carlos Alberto Mattos e Amir Labaki;

     Que festivais de Cinema sejam cada vez mais a tradução multifária do sentido primordial da Sétima Arte, propiciando um cenário onde Música, Dança, Literatura, Teatro e mãos se entrelacem, nas telas e na vida - como já são os festivais CinePort, Guarnicê, Curta Santos, e as Mostras Cinema Conquista e MoVA Caparaó;

     Que haja mais respostas inteligentes para atitudes desprezíveis e mais filmes a reinventar a poética da tela, como nos consagra toda a obra genial de Júlio Bressane;

     Que a Poesia se faça cada vez mais instigante, tal como é a lírica do Poeta de Cataguazes, Ronaldo Werneck;

     E a criativa edição dos Saraus Poéticos se multiplique por praças e espaços culturais de toda parte, contagiando as mais diferentes platéias, como quando Jorge Salomão dá o tom;

     Que as festas se multipliquem por todo este 2008 e possam ser tão fartas e bacanas como as de Maria Letícia;

     Que possamos cada vez mais falar de Arte/Vida/Beleza ao lembrarmos Júlia Lemmertz, Maitê Proença, Fernanda Machado, Bruno Gagliasso, Fernanda Montenegro, Tony Ramos, Selton Mello e Dan Stulbach;

    Que atrizes como Lea Garcia, Cleyde Yáconis, Tônia Carrero, Ruth de Souza, Leona Cavalli, Marcélia Cartaxo, Débora Falabella, Hermila Guedes e Débora Duboc sejam espelho para quem quer seguir carreira;

     E haja palcos e telas para atores de todas as idades e estilos, como Antonieta Noronha, Flávio Bauraqui, José Dumont, Vera Holtz, Milton Gonçalves, José Wilker, Aramis Trindade, Ernesto Piccolo, Gustavo Falcão, Roberto Birindelli, Sirmar Antunes, Zezita Mattos, Everaldo Pontes, Ricardo Guilherme e Carri Costa;

     Que artistas do naipe de João Falcão, Guel Arraes, Mauro Mendonça Filho, Alexandre Machado, José Alvarenga e Hubert estejam mais presentes no cotidiano de toda gente,

     E haja mais inteligência na tevê, como acontece com Priscilla Rosembaum e Domingos Oliveira.

     Que a realidade brasileira ganhe a cada dia novas interpretações através dos mais diversos olhares e as câmaras possam se reinventar através de jovens como Erik Rocha, Felipe Taborda e Esmir Filho;

     E as notícias culturais nos cheguem com o vigor indormido de Maria do Rosário Caetano;

     Que o cineclubismo tenha cada vez mais gente com a disposição e o dinamismo de Claudino de Jesus, João Batista Pimentel e Felipe Macedo;

     E que a Tv Brasil se transforme na vitrine que desejamos, força pra Orlando Senna;

     Que João Moreira Salles e Eduardo Coutinho nos presenteiem com novos filmes para nosso deleite e orgulho;

     Que os tão belos como Fábio Assunção e Ana Paula Arósio também sejam notados por sua competência e talento;

     Possamos ouvir mais Carioca apreciando o olhar menino e arguto de Chico Buarque e suas melodiosas letras sejam partilhadas com a maioria, através das rádios de seu país, ou quem sabe rememorar o tango de Piazzola pelo violoncelo afinado de João Omar;

     A Música Brasileira seja tão efervescente como a gostosa sonoridade Paralâmica e o Amor ganhe mais letras e canções como as de Herbert Vianna, Guilherme Arantes, Marisa Monte, Toquinho, Gilberto Gil e Caetano.

     Que a música seja terna ou agridoce conforme a emoção, sempre bonita, de nova Bossa, ou fazendo gingar mais pulsante, tantas são as filigranas a brotar da voz inconfundivelmente bela de Calé Alencar;

     Que se faça mais Arte; se dance mais, em todas as estações, qualquer estilo, todas as notas;

     Zabumbas, ferros, caixas e triângulos - Irmãos Aniceto ritmadamente cabaçais nos ajudando a renovar a Fé e a rodopiar, sobretudo no ensolarado Cariri das benfazejas farturas de caju, manga e siriguela;

     Nossa nordestinidade a espraiar-se em qualquer lugar

     Sobretudo quando Euclides, mais-que-perfeito, nos apresenta o Boi, o Cacuriá e nos festeja com o cordão das Crioulas do Tambor;

     Para haver sempre sorrisos em volta e a Felicidade se construir a cada hora Para ser companhia, renovando-se ao pisar o chão para cantar a força das raças

Que vivem aqui, ali, em todo lugar
Saudando a Alegria como uma chama
Acendendo pela noite adentro
Um desejo e uma esperança
Qualquer música, qualquer bolero
Enquanto a cidade possa se vestir, eletrizada pela sonoridade e imponência do maracatu a se fazer cada vez mais Fortaleza porque Nação.

     E seja decretado como direito de todos tomar o inigualável suco de laranja das ruas de Santelmo,
Rir com a fluência contagiante de Zéu Britto,

     Torcer por um futebol tão emocionante como ver Messi, Riquelme, Palermo e os muitos craques do Boca Juniors em campo;

     Que o clima de festa seja tão constante e efusivo como fica a Bombonera em dia de vitória do seu/nosso time;

     Que os preços das passagens aéreas sejam reduzidos e todos tenham ao menos uma chance de conhecer Buenos Aires;

     Possamos desfrutar uns dias a mais em hotéis tão encantadores como o Castro's de Goiânia, o Pirâmide de Natal e o Blue Tree do Cabo de Santo Agostinho;

    Que todos tenhamos sempre mais 2008 motivos pra prosseguir acreditando que Tudo vale a pena, se a alma não é pequena !

     E antes de tudo, que o Amor invada mais os corações - como tão bem traduziu Vinícius, e Monique evidenciou em Benjamim: "Eu te peço perdão por te amar de repente embora o meu amor seja uma velha canção para os teus ouvidos..."

 

 

FELIZ ANO NOVO !!!

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ROSAMARIA: FRIDA REAFIRMA TALENTO AVASSALADOR DA ATRIZ


* Aurora Miranda Leão

     Era uma das muitas na platéia lotada. Pude ver o espetáculo mais de uma vez, fato que dimensiona ainda mais a excelência da atuação de ROSAMARIA MURTINHO. Frida - Fragmentos de Memória, texto de Meiry Rioto, costura de forma inteligente a vida sofrida e conturbada da artista mexicana e tem em Caco Ciocler um diretor de sensibilidade comovente. O resultado é um espetáculo belo, comovente, impactante. Caco Ciocler revela-se um grande Diretor, já que, como Ator, todos sabemos, é de nossos melhores.

     Rosamaria Murtinho, protagonista, reafirma sua maestria înterpretativa e comove de muitas formas: faz rir, chorar, refletir, toca fundo a Alma. É Atriz pra ninguém botar defeito, espécime raro pois sua competência espraia-se onde quer que atue - teatro, cinema, televisão. Fã de carteirinha da atriz, desde garota, confesso: Rosinha supera todos os seus outros personagens. Sua interpretação para FRIDA é ARREBATADORAMENTE convincente/comovente/flecha a Alma.

     O elenco de FRIDA também é um acerto: todos dão conta do recado e compõem um espetáculo forte, belo, tocante demais, digno de ser indicado aos Melhores Prêmios do Teatro, e, por certo, FRIDA - se os jurados não forem vesgos -, ganhará muitas estatuetas. Acabo de saber que estará nos festivais de Curitiba e Porto Alegre, os mais importantes do país. JUSTÍSSIMO. Quem ganha são os festivais. E a platéia.

     Um dos muitos pontos da peça a merecer DESTAQUE: a Tridimensionalização que Caco Ciocler faz da obra da revolucionária artista mexicana, como se a obra de FRIDA adentrasse todo o cenário, assim atraindo nosso olhar, cativando nossa emoção e invadindo a Alma de todos nós, honrosamente compactuando com Frida e suas dores, da platéia.

     SALVE FRIDA KHALO, a grande Artista Mexicana incorporada por Rosamaria Murtinho ! Aplausos para Caco Ciocler e o elenco que tão bem dirige - destaque para Marcelo Torreão, Zulma Mercadante, Taciana Barros (a quem vi substituir com preciocismo, em dia de estréia, a presença competente de Zulma em cena), Alex Nader, Bernardo La Rocque e Vera Ferreira (ótima como a mãe de Frida). Lindas as cenas musicais - APLAUSOS vigorosos para a direção inspirada de João Paulo Mendonça (o primogênito de Rosinha e Mauro Mendonça). Viva a equipe técnica: Xodó, Neném, Luciano e D. Lourdes. Parabéns aos patrocinadores pela sensibilidade em apoiar montagem tão bela, a qual diginifica nossa cena. FRIDA é, sem dúvida, uma das melhores estréias do ano passado e tem tudo para fazer brilhante carreira neste 2008.

     Saravá, Rosamaria Murtinho !!! TODOS OS APLAUSOS A ESTA MAGNÍFICA ATRIZ QUE MAIS UMA VEZ SURPREENDE EM CENA COM O TALENTO QUE TODOS CONHECEM MAS QUE EXTRAPOLA TODOS OS PARADIGMAS INTERPRETATIVOS A CADA NOVA ATUAÇÃO. Que os Deuses do Teatro estejam cada vez mais com você, minha Rosa Querida, e os que lhe acompanham.

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CONSCIÊNCIA: PORQUE É MÚLTIPLA NOSSA NEGRITUDE

* Aurora Miranda Leão



     Vem chegando mais um 20 de novembro. E, como acontece quase diariamente, me bateu Vininha no coração. Pra quem não atenta logo, Vininha é o apelido carinhoso que os amigos deram a Vinícius de Moraes, o Poeta que foi Tanto que diante dele somos todos muito diminutos.

    E lembrar Vininha nestes tempos de Consciência Negra é lembrar de quem guardei estes versos, que nunca me saíram da cabeça - como tantos outros dele: '... o branco mais preto do Brasil, na linha direta de Xangô. Saravá !'

     De meu pai, ganhei meu primeiro LP, justamente um disco de VM editado pela Abril - em formato médio, uma 'inovação' da época. Guardo-o comigo. Relíquia. E falar em Negritude sem falar em Vinícius é como falar de livro infantil sem falar em Monteiro Lobato, ou como falar em música clássica e não lembrar logo Nepomuceno, Villa-Lobos ou Nazareth; falar na Bahia e não lembrar logo Gil, Gal, Caetano e Bethânia, ou como ir a Paris e não conhecer a Torre Eiffel...

     Rememoremos: a primeira encenação brasileira, cujo elenco era formado integralmente por atores negros, foi Orpheu da Conceição, cuja estréia aconteceu em 25 de setembro de 1956 no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Uma semana em cartaz, 'patrocínio' exclusivo do bolso de Vinícius, memorável ficha técnica: Oscar Niemeyer fez os cenários, Léo Jusi dirigiu, Lila Bôscoli criou os figurinos, Vininha e Tom Jobim criaram as músicas; Carlos Scliar fez todos os desenhos; Djanira, Luís Ventura, Raimundo Nogueira e Scliar criaram os cartazes. Leo Peracchi conduzia a orquestra e Luís Bonfá executava o violão de Orpheu, interpretado por Haroldo Costa. Eurídice era Dirce Paiva; Léa Garcia fazia Mira de Tal e Cyro Monteiro era Apolo. Abdias Nascimento e seu TEN também estavam no elenco: Pérola Negra, Waldir Maia, Chica Xavier, Clementino Kelé, Chico Feitosa. Era a primeira vez que atores negros subiam ao palco do magnânimo Teatro Municipal com uma montagem grandiloqüente, reunindo o melhor para tornar Orpheu um marco na história de nosso Teatro.

     Sobre a montagem, escreveu o Poeta: 'Esta peça é uma homenagem ao negro brasileiro, a quem, de resto, a devo; e não apenas pela sua contribuição tão orgânica à cultura deste país; melhor, pelo seu apaixonante estilo de viver que me permitiu, sem esforço, num simples relampejar do pensamento, sentir no divino músico da Trácia a natureza de um dos divinos músicos do morro carioca'.
Tudo que Vinícius fez tem ainda mais valor porque àquela época o comum era o desrespeito ao negro, o desprezo, o relegar à negritude ao ostracismo. O gesto de Vínicius e toda a sua atuação - lê-se em suas muitas biografias o respeito devotado e ensinado aos filhos no tocante aos negros, aos pobres, às mulheres - são uma prova inconteste do posicionamento determinado do Poeta em defesa das minorias (?). Sendo ademais Vinícius um filho da chamada 'Zona Sul', branco e de olhos verdes, Poeta e Diplomata, admirado por artistas e intelectuais, com trânsito em todas as esferas (embora fosse tão mal visto por alguns poderosos, que acabou sendo exilado quando o AI-5 decretou luto à Cultura Brasileira), seu gesto reveste-se ainda mais de Valor pois não legislava em causa própria.

     É fato também: não podemos olvidar o pioneirismo e a aguerrida disposição de Abdias Nascimento, merecidamente homenageado este ano com a Ordem do Mérito Cultural pelo Governo Lula, levando adiante as mais diversas plataformas negras com a criação do Teatro Experimental do Negro, de onde revelou nomes como Ruth de Souza e Lea Garcia.

     Vale lembrar também o pioneirismo de Janete Clair quando criou o Dr. Percival, psicólogo, em sua novela Pecado Capital (grande êxito da Rede Globo), especialmente para o ator Milton Gonçalves. Este é um marco da nossa teledramaturgia e não pode ser olvidado. Milton já fizera outro grande personagem na trama de Dias Gomes, O Bem-Amado, na qual viveu Zelão das Asas... Se formos voltar nosso olhar para a Literatura e o Samba, aí mesmo é que esta crônica não tem como terminar de tão extensa ficará.

     Voltemos nossas lembranças para as grandes Damas Negras de nossos palcos e filmes: Chica Xavier, Ruth de Souza, Lea Garcia, Ângela Correa, Neusa Borges; ou as beldades que enfeitavam nosso Cinema e ninguém mais vê - Luíza Maranhão, Marlene Silva, Adele Fátima, Julcilléia Teles, Aizita Nascimento, Vera Manhães; as belas de hoje, presença constante na tevê - Adriana Lessa, Ildi Silva, Camila Pitanga, Maria Ceiça, Thaís Araújo, Thalma de Freitas e as intérpretes da novela das 21h, Duas Caras; ou lembremos Milton e seu filho Maurício Gonçalves, Antônio Pitanga, Jorge Coutinho, Joel Zito Araújo, Antônio Pompeu, Clementino Kelé, Nélson Xavier, Ivan de Almeida; e os mais moços como Lázaro Ramos, Flávio Bauraqui, Leandro Firmino da Hora, Alexandre Rodrigues, André Ramiro, Sérgio Lorosa, Sirmar Antunes, Sérgio Malheiros, Douglas Silva, 'Pratinha' e sua bela filha Marília, e na música - Elisete Cardoso, Tim Maia, Jorge Ben Jor, Luís Melodia, Paulinho da Viola, Milton Nascimento, Zezé Motta, Djavan, Gilberto Gil, Emílio Santiago, Eliana Pittman, Carlinhos Brown, Martinho da Vila, Martinália, D. Ivone Lara, Virgínia Rodrigues, Leci Brandão, Leny Andrade, a linda Paula Lima e tantos tantos mais; além dos imortais, Pixinguinha, Lupicínio Rodrigues, Cartola, Ismael Silva, Moacir Santos, Ciro Monteiro; e Heitor dos Prazeres, Di Cavalcanti, Antônio Bandeira na Arte dos pincéis e telas impagáveis... São tantos que qualquer espaço seria pequeno para citá-los todos. Há intelectuais, líderes e artistas do porte de Muniz Sodré, Nei Lopes, João Cordeiro, Joaquim Nabuco, José do Patrocínio, Dragão do Mar, Haroldo Costa, Walli e Jorge Salomão, Zózimo Bulbul, Toni Tornado, Jefersson D, Raquel Trindade... Restam saudades de Grande Otelo, Solano Trindade, Zeni Pereira, Procópio Mariano, Jacira Silva, Mussum, Eliezer Gomes, Sônia Santos... Onde andam Clea Simões e Jorge Coutinho.......... ?

     Vamos celebrar nossa negritude - ancestral, transversal, ritualística, emocional, visceral - através de nossa rica produção audiovisual (como exemplo, o movimento cineclubista realiza exibições em todo o país da Mostra AfroOlhar), recheada de obras a nos retratar tão bem como Cafundó (filme de Paulo Betti e Clóvis Bueno); Cidade das Mulheres (filme de Lázaro Farias); A Negação do Brasil (livro e filme) e Filhas do Vento (filme) de Joel Zito Araújo; A Rainha Diaba, de Antônio Carlos Fontoura e Madame Satã, de Karim Aïnouz; Orpheu do Carnaval e Orpheu, o primeiro de Marcel Camus e Vinícius de Moraes e o segundo de Cacá Diegues; Chica da Silva, Ganga Zumba e Quilombo, todos de Cacá. Se formos pra música então, haja vitrola... Estas obras e estes Artistas não são exclusividade do chamado Movimento Negro. Ou pelo menos não devem ser 'emoldurados' apenas pelos que militam no movimento. A Cultura Brasileira é afinal um belo e original artesanato, qual renda traçada pelos bilros que a voracidade da tecnologia quase está a fazer desaparecer de nossa nordestinidade, onde se aninham referências indígenas, européias e africanas. Portanto, somos todos merecedores de respeito, incentivo e aplauso. Sejamos artífices de uma segunda Abolição - da qual tão bem nos fala o líder Abdias Nascimento - para todos nós, brasileiros de todas as origens, crenças, etnias, tradições e classes sociais.

     Todos os nomes aqui citados, sem exceção, são PATRIMÔNIO CULTURAL e ARTÍSTICO, logo, Patrimônio Imaterial do Brasil - '...meu Brasil de todos os santos, branco, preto, mulato, índio, lindo como a pele macia de Oxum, inclusive, meu São Sebastião... Saravá !'

     Sem essas pessoas - e mais uma infinidade delas, lembrando que 'editar é preciso' - nossa Cultura seria mais pobre, nossa história seria mal contada, nossa diversidade seria tacanha, nossos valores seriam medíocres, seria desigual nossa aparência e pálido nosso arco-íris. Quanto mais longe formos na saudação e reverência a todos os expoentes da Arte e Cultura que são negros - porque Arte e Cultura não têm cor; nossas peles é que apresentam matizes diferentes -, tanto quanto devemos louvar e aplaudir aos expoentes de todas as etnias - porque todos que não praticamos guerra, que defendemos a Paz, a Dignidade, a Diversidade, a Ética, a Justiça, a Fraternidade e a Solidariedade, devemos ser exemplo aos que trafegam em territórios opostos, pregando valores antípodas, decretando a irracionalidade em nome de inexistentes e inconcebíveis padrões superiores.

     Porque quem criou o Universo a todos concedeu os mesmos poderes, direitos e deveres; a nenhum discriminou. A ninguém deu mais. A ninguém deu carta, de cor nenhuma, para agir mal com o próximo em nome de coisa alguma.

     Portanto, possa este 20 de novembro ecoar em todos as almas como uma data da BRASILIDADE. Um dia no qual todos nós, de todos os credos, corpos, faixa salarial, tipo de cabelo, maneira de ser e estar, jeito de falar e andar, maneira de atuar, cantar e dançar, modo de comer, olhar e estudar, gostos e aptidões diferentes, possamos nos dar as mãos e entrelaçar nossos corações numa mesma emoção cujo único parâmetro seja a Justiça, a Gratidão, o Afeto, o Respeito e a reverência igualitária ao que é Belo, Bom e Justo. Porque não é possível avançarmos décadas no milênio sem progredir na qualidade das relações e ainda continuarmos, forçadamente, a ter de admitir a necessidade de pregar a igualdade e esclarecer sobre a criatura humana - cujas diferenças étnicas são apenas traços legados por um Pintor Único e múltiplo, que a nós criou com extrema maestria, tendo o cuidado de a cada um dotar de um semblante diferente, uma fala diversa; a cada um consagrou o direito sagrado de escolher como quer se colocar no mundo; com uma delicadeza de querubim, tomou nas mãos uma palheta de cores sublimes, só encontrável na natureza, e transmitiu a cada um as matrizes de sua ancestralidade e descendência, conforme melhor ressoavam n'Alma os padrões por Ele tão generosamente doados ao Universo.
Neste 20 de novembro, deixo uma sugestão a quem pode mais que esta jornalista: o Brasil bem poderia designar o dia do aniversário de Vinícius de Moraes - 19 de outubro - como o Dia da Diversidade Cultural ou o Dia da Reverência Étnica.

     Data do aniversário do Poeta, músico, compositor, Diplomata, crítico de Cinema, acadêmico, imortal em tudo que fez e de toda beleza da qual a nós todos, brasileiros, nos fez herdeiros. Porque foi Vinícius quem primeiro e melhor fez a ponte entre a música erudita e popular, entre a cultura branca, a negra e a mestiça, e declarou isso em versos que todos sabemos de cor: 'Eu, por exemplo, o capitão-do-mato Vinícius de Moraes, poeta e diplomata, o branco mais preto do Brasil, na linha direta de Xangô - Saravá !', e desfila neste incomparável Samba da Bênção uma lista de nomes dos quais sofreu influência direta, com os quais conviveu e aos quais eternizou, em versos, o aplauso, o respeito, a amizade e parceria.

Viva a Consciência Negra!

Salve Negros e Negras do Brasil e do mundo !

Palmas aos Representantes da Cultura Negra !

     Aplausos a todos os Brasileiros, de todas as Etnias e de qualquer parte do Brasil, defensores da Paz, da Justiça e da Igualdade Social como um Bem que há muito já devia grassar como lei natural.

     Saravá Vininha e todos os Poetas deste meu Brasil, negro, branco, índio, caboclo, mulato, cafuso, mameluco, lindo e multifacético como Vininha, o Grande Poeta da Paixão, do Amor, do Mar e da Mulher Amada, que em nós plantou, sobretudo, a importância do Respeito ao Humano.

VIVA 20 DE NOVEMBRO !

Salve Zumbi dos Palmares !

 
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