|
A
difícil vida a dois…
* LG de Miranda Leão
Com
O Passado, o cineasta argentino Hector Babenco
brinda-nos com aula de bom cinema e também de competência
na adaptação para a tela do romance hormônimo
de Alan Pauls, há pouco lançado no País.
Trata-se de co-produção Argentina - Brasil com
suporte da HB Filmes, WB, K&S, Santander, Ancine e Petrobras.
Filme para ver e refletir
Babenco
lida agora com tema polêmico roteirizado por ele mesmo:
aquele segundo o qual o casamento monogâmico inibe a
liberdade e a sensualidade da vida a dois. Ou seja, a união
de duas pessoas de sexo diferente para a posse recíproca
de suas faculdades sexuais durante toda a vida é uma
impossibilidade. Para Freud, colocar homem e mulher, duas
matrizes neuróticas, sob o mesmo teto, cada qual com
formação e visão de mundo diferentes,
enfrentando o desgaste do dia-a-dia, é destiná-los
a uma falência na adaptação, a um fracasso
na sua realização como indivíduos. Além
disso, uma leitura dos diálogos e dos eventos ocorrentes
e a das imagens–significantes demonstram como não
conseguimos desligar-nos do passado, como somos o resultado
direto de tudo quanto fomos e assimilamos ao longo dos anos.
Por isso, pouquíssimos casais resistem ao poder avassalador
do tempo assassino, quando não vivem de aparências
para alimentar as colunas sociais…
Sinopse
O
enredo se concentra nos encontros e desencontros afetivos
do jovem tradutor Rimini (Gael Garcia Bernal) com três
mulheres de sua vida: Sofia (Ana Couceyro), namorada dos tempos
de colégio e sua mulher durante doze anos; Nancy (Mimi
Ardu), modelo sensual, e Carmem (Ana Celentano), colega tradutora
e a única a gerar-lhe um filho. O início é
com minisseqüência inteligente: amigos e conhecidos
se reúnem no apartamento de velha terapeuta para comemorar
os muitos anos de convivência de Sofia/Rimini, aparentemente
bem casados mas desgastados pelo tédio conjugal. O
toque irônico surge quando, ao invés de anunciarem
uma gravidez há muito esperada, comunicam à
dona da festa sua separação. Sofia parece enfrentar
bem o fim do matrimônio, mas aos poucos se vai revelando
sexualmente carente, possessiva e odienta. Nancy tem o mais
exacerbado sentimento de posse; Carmem, também ousada
na alcova, aceita com certa maturidade os desvios de Rimini.
A soma dos personagens principais serve como metonímia
visual para Babenco: os quatro representam um universo de
pessoas casadas e desajustadas, as quais vivem um jogo de
falsas aparências.
Direção
filmica
Babenco
domina o ritmo decorrente das imagens-movimento, revela bom
entrosamento com o montador Gustavo Giani e alimenta o interesse
do espectador na confluência dos eventos em marcha inexorável
rumo ao final. Dirige com segurança os atores, todos
a cavaleiro, até mesmo o recém-falecido Paulo
Autran numa ponta, e faz da música de Ivan Wyszogrod
um aliado de primeira, máxime na melodia inspirada
para acompanhar os créditos. Louve-se, no início,
a exibição de curtas-metragens da vida de Sofia/Rimini,
ambos felizes, noutros tempos, e eles mesmo assistem às
cenas entre surpresos e inquietos. Há diálogos
expressivos como quando Sofia diz a Rimini: “As pessoas
não se separam, elas se abandonam, como v. me abandonou”.
Acertou na escolha do cinecolor do laboratório argentino,
uma quase-fusão do p&b com cores esmaecidas do
seu patrício Ricardo Della Rosa. Babenco conhece
e sabe fazer cinema. Só lhe falta às
vezes aquele poder de síntese visual tão típico
de cineastas como Truffaut, capazes de distinguir com acerto
o essencial do não-essencial e eliminar o supérfluo.
Dez minutos a menos elevariam a qualidade da realização,
assim como tornariam menos explícitas as fortes cenas
de sexo e o palavreado chulo, substituindo-os por algo mais
sutil e sugestivo. Sabemos estar o mundo em plena revolução
sexual a partir da qual o cinema poderá vir a mostrar
tudo (a cocaína, aliás, já corre solta),
mas um toque de classe é sempre preferível.
Assim pensavam Truffaut, Melville, Mackendrick, Losey, e pensam
Kluge, Singer, Bogdanovich, entre outros. Também poderiam
ter sido reduzidas as cenas da cesariana e a seqüência
da academia de ginástica, bem assim a cópula
com a aluna quarentona no automóvel - recurso apelativo,
desnecessário.
Sobre
Hector Babenco
Buenosairense
de 61 anos, filho de imigrantes judeus vindo da Polônia
e da Rússia, Babenco viajou extensivamente pela Europa
antes de voltar-se para o cinema. Foi pintor, vendedor, escritor
freelance e extra em spaghetti westerns de Sergio Corbucci
e Mario Camus. Antes de adotar o Brasil como segunda pátria,
HB começou sua carreira com documentários tipo
“O Fabuloso Fitipaldi” (1973) e estreou no longa
com “O Rei da Noite” (1975), seguindo-se-lhe “Lúcio
Flávio, o Passageiro da Agonia” (1977). Chamou
atenção com seu “Pixote” (1981),
quando partilhou o Grand Prix no Festival de Biarritz e ganhou
o Leopardo de Prata em Locarno. Foi indicado ao Oscar de Melhor
Diretor pelo insólito “O Beijo da Mulher Aranha”
(1985), após o qual foi convidado para filmar “Ironweed”
nos EUA, com Meryl Streep e Jack Nicholson. Seus filmes mais
recentes incluem “Brincando nos Campos do Senhor”
(1992), o quase autobiográfico “Coração
Iluminado” (1998) e “Carandiru” (2002). |