Textos de Rubens Ewald Filho, Marcelo Janot, Celso Sabadin, Carlos Alberto Mattos...
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"O Cinema cria imediatamente uma direção para a vista, que é um sentido eminentemente abstracionista, e uma fantasia para a imaginação".
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> Panorâmica - Paulo Betti
     SÃO LUÍS REVERENCIA TRAJETÓRIA DE PAULO BETTI

PC- Desde quando Cafundó começou a gnhar vida ?

PB- A história do preto velho Nhô João de Camargo me encanta desde criança. Cafundó conta a história do escravo, João de Camargo, que encontra através de uma iluminação mística uma possibilidade de ser alguém no mundo dos brancos. É baseada em fatos reais e está relacionada com minha infância porque a igreja que ele construiu ficava no caminho da roça do meu avô. "Cafundó" aborda o sincretismo religioso característico do Brasil sob a ótica delirante de João de Camargo, vivido de forma brilhante por Lázaro Ramos. No elenco, estão também Leandro Firmino, Leona Cavalli, Francisco Cuoco, Flávio Bauraqui e Luis Mello. O filme é a oportunidade de mostrar a visão peculiar que tenho sobre a história dos negros. A sensação de ver este projeto finalizado é maravilhosa!

PC- E dirigir Cinema, como é ?

PB- Dirigir cinema é completamente diferente de dirigir Teatro, onde você só dirige os atores. No cinema não, é uma equipe enorme que você tem de dar conta. Uma aventura enorme de egos e vaidades, de urgências de tempo. É um mar mais revolto. Mas gostei muito da experiência, tenho vontade de continuar nisso.

PC – Você diria que foi um passo muito difícil ?

PB - Não, pois dividi a direção com Clóvis Bueno ("O Beijo da Mulher-Aranha" e “Castelo Rá-Tim-Bum”). Trabalhamos juntos muito tempo. Ele é um experiente e talentoso diretor de arte e isso ajudou muito a estruturar uma base para o filme. Tivemos também uma produção muito competente. Estive cercado de gente muito experiente. Talvez, se estivesse sozinho, me afogasse.

PC - Como nasceu a idéia do filme ?

PB - Desde que eu era menino, com cinco anos, visitava meu avô, um imigrante italiano que era meeiro de um fazendeiro negro em Sorocaba. Era uma situação muito insólita, pois poucos negros tinham a propriedade da terra e era difícil ter um imigrante italiano trabalhando nessas condições. Eu o visitava na roça e via a casa grande do ponto-de-vista da senzala. Era uma visão invertida. No meu bairro, 95% da população era negra. Era um quilombão. Então, toda a minha visão da negritude, da cultura negra e das minhas relações na infância passaram por essa ótica. É uma história fascinante, que me conquistou desde a infância. No caminho da roça do meu avô havia uma igreja misteriosa, que ainda existe, dedicada a esse homem, João de Camargo. Ele foi escravo e criou uma religião da qual foi sacerdote e papa, um misto de espiritismo, da religião ancestral africana e do catolicismo, as três religiões formadoras do núcleo sincrético da criança dele.

PC – O filme tem uma riqueza de cores e de sincretismo religioso impressionante. É como um mergulho no Brasil profundo. Quando é que você percebeu que ali estava um material rico para ser explorado num longa-metragem?

PB – A história do filme é uma obsessão minha, da vida inteira. Eu tentei de todo jeito botar essa história na peça Na Carrêra do Divino, em 79, mas não tínhamos um ator negro no Pessoal do Victor, aí não deu. Quando voltei dos Estados Unidos, onde fiz curso de Documentário, resolvi ir a Sorocaba e fazer um filme sobre a história de minha mãe, que teve 15 filhos, analfabeta como meu pai. Na hora deu aquele pudor bobo de deslocar uma equipe para filmar minha mãe... Como era Dia de Finados e ela gostava de ir ao cemitério, fomos pra lá e então filmei o túmulo do nhô João. Cheguei em casa, filmei minha mãe e ela falou muito sobre ele. Daí resolvi: o documentário seria sobre João e minha mãe faria parte dele. Mais tarde, o Adilson Barros passou lá em casa com sua mãe e eu falei todo animado que ia fazer um documentário sobre o João de Camargo. E ele disse: “Isso é mixa. O João de Camargo é um longa, uma coisa maravilhosa”. Nessa mesma noite, o Adilson me falou que o Florestan Fernandes tinha um trabalho sobre o João. No dia seguinte, fui atrás do Florestan e gravei um depoimento dele. O fato de um grande mestre como ele ter interesse no tema reforçou ainda mais minha convicção de que ali estava um assunto fascinante.Ele virou uma estátua de barro dessas que você encontra em lojas de umbanda. É o pai João de Camargo, um exemplo de humildade que se impunha e nos orientava o tempo todo no set.

PC- De lá para cá, então, você veio tocando o projeto paralelamente à sua carreira de ator...

PB - Reuni muita coisa. A geração do livro "João de Camargo de Sorocaba - O Nascimento de uma Religião", de Carlos Campos e Adolfo Frioli [ed. Senac], veio junto de muita coisa, perda de pai, de mãe, e eu querendo segurar tudo. Criei em Sorocaba, na casa em que cresci, o Instituto Cultural Vila Leão. Lá tem o projeto Quilombinho, com cursos para crianças e adultos. As pessoas ficavam sabendo do meu trabalho e levavam material sobre João de Camargo para lá.

PC – Eu queria que você falasse um pouco como foi a peregrinação em busca da verba necessária pra fazer o filme.

PB – Bom, o projeto foi aprovado em 1995 e fiquei tentando arranjar o dinheiro até 2003, quando filmamos. Foi uma péssima época. Quando comecei, houve todo aquele problema com o Guilherme Fontes [a respeito da verba do filme "Chatô, o Rei do Brasil"] e eu também fazia parte do filme dele. Houve uma certa confusão, pois eu também era ator, sentiam desconfiança. E o tema era religioso, o que assusta um pouco as empresas pela possibilidade de polêmica. Foi penoso e complicado mas contei com muita colaboração importante no processo. Teve o Clóvis Bueno, com quem me entendi super bem em todo o processo de criação do roteiro e quando preparamos a filmagem. Além de dividir a direção com ele, tive grandes parceiros e certamente os principais foram a Virgínia Moraes e o Rubens Gennaro, que assumiram a produção comigo, dividindo responsabilidades, angústias, frustração e também as muitas alegrias.

PC – Qual foi a repercussão do filme no Festival de Cinema Brasileiro em Nova York ?

PB - Eu estava lá. Foi muito legal. É engraçado ver um filme seu com legendas em inglês. Parece que fica mais importante. De uma certa maneira, a palavra escrita ajuda a compreensão. Temos agora uma cópia em inglês para lançar lá fora.

PC – E como foi escolhido o elenco ?

PB - O Lázaro foi escolhido quando vimos "A Máquina", peça de João Falcão. Era o ator que estávamos esperando! Procuramos colocar atores do Paraná, que tem uma tradição de formar bons atores, e também por razões econômicas, afinal filmamos lá.

PC- Eu soube que foi muito difícil o processo de finalização do filme e queria que você falasse sobre isso...

PB - A primeira cópia do filme ficou cinco meses na [distribuidora] Columbia sem que me dessem uma única resposta. Há uma tentativa de assassinato do cinema brasileiro por parte das grandes distribuidoras. Quando você apronta um filme, leva numa grande distribuidora para ver se consegue uma boa visibilidade. Faz a primeira cópia, que é cara, e você não tem dinheiro para fazer outra. Mas é necessário ter material para poder mostrar e negociar. E fica cinco meses sem uma resposta, um prejuízo enorme... Não sei se é sacanagem ou falta de consideração. Só obtive uma resposta quando liguei e exigi. Aí decidiram não ficar com o filme.

PC - Como foi acompanhar a exibição de Cafundó em Gramado, o festival de cinema mais concorrido do país ?

PB - Foi uma emoção muito grande. Gramado é um festival realmente muito popular, tem que ser preservado e melhorado. Eles devem fazer isso: passar apenas um filme por noite para que o público possa prestigiar os concorrentes. Veja, nosso filme passou na mesma noite com mais 2 filmes. Um nem estava na concorrência! Outra coisa é que eles devem fechar as portas na hora da exibição e não deixar entrar retardatários, prejudica muito o filme qu está sendo exibido. Mas é claro que vc perguntou outra coisa. Fiquei super feliz e emocionado em ter o filme passando no festival e ainda mais ganhando 4 Kikitos!

PC - E a reação do público e da crítica ?

PB - Gostei muito da reação! O publico acompanha o filme com atenção. A crítica respeita o trabalho por ser um tema muito relevante. Existem divergências o que é muito salutar, não esperava unanimidade, mas conseguimos uma: todos consideram um filme muito bem feito!

PC - Atuar, dirigir teatro, dirigir um filme, apresentar um programa de tevê, coordenar as atividades da Casa da Gávea e do Instituto Cultural Vila Leão, você sempre diz que essas são atividades que lhe dão muito prazer, mas também devem dar algumas dores-de-cabeça. Como você faz pra conseguir atuar em todas essas frentes ?

PB - Com a internet facilitou, respondo entrevistas por e-mail. Faço uma coisa de cada vez, como dizia Jack, o Estripador, por partes. São todas atividades que me dão prazer e são complementares, uma se liga a outra, uma fortalece a outra. Claro que dão dor-de-cabeça, mas tenho pessoas maravilhosas que ajudam, que também fazem por prazer. O Instituto, por exemplo, não iria adiante se não fosse a Cassiane, o Pedro Courbassier, a Isabel Monteiro. Em 4 anos fizemos "Mac Beth","Sonhos de uma Noite de Verão", "Morte e Vida Severina", cursos, palestras. E eles é que organizam e tocam tudo, eu supervisiono, ajudo, etc.

AML- Você dirigiu no Rio um grande musical chamado A Canção Brasileira, com texto do Luís Antônio Martinez Correa. Como nasceu essa idéia e que alegrias você teve no contato mais próximo com o universo tão rico da MPB?

PB - Esta peça é uma jóia rara da música popular brasileira. É uma pesquisa da Maria Helena Martinez Corrêa (irmã do diretor de teatro José Celso), que tem 72 anos. Quando seu outro irmão, Luiz Antônio --responsável pela renovação do teatro musical brasileiro--, morreu, brutalmente assassinado, 17 anos atrás, ela me trouxe o libreto, que fala de quando o samba se transformou num símbolo nacional, nos anos 30. Depois ela, miraculosamente, encontrou as partituras. É uma opereta de 1933! Fiquei deslumbrado. Adoro pesquisa. Há 3 anos, minha filha Juliana me instigou a montá-la... Sempre adorei essa história, adoro pesquisa, e a história da música popular brasileira é incrível!

AML - O que significa esta Homenagem em São Luís, na 30a edição de um dos festivais de cinema mais importantes do país ?

PB - Fico muito grato, estou muito curioso para conhecer São Luis, ouço falar que a cidade é linda e que o festival é muito estimulante, estou super feliz.

AML - Cafundó vai entrar em circuito em São Luís, né, mas como a batalha da distribuição, é uma loucura, né ?!

PB - A distribuição é praticamente impossível. Veja, no momento 1400 salas das duas mil que temos no País, estão ocupadas com Piratas do Caribe e Homem Aranha .É um absurdo.

AML - Parece que você já tem outro filme na agenda como Diretor... Pode nos antecipar alguma coisa ?

PB - Quero fazer "A Canção Brasileira", o musical que dirigi no teatro.. Quero transformar num filme, quem sabe em São Luís?

AML - E como Ator, quais são os próximos trabalhos ?

PB - Estou indo agora gravar A Grande Família. No teatro, vou ensaiar O Jardim das Cerejeiras, do Tchecov.

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