SÃO
LUÍS REVERENCIA TRAJETÓRIA DE PAULO BETTI
PC-
Desde quando Cafundó começou
a gnhar vida ?
PB-
A história do preto velho Nhô João de
Camargo me encanta desde criança. Cafundó conta
a história do escravo, João de Camargo, que
encontra através de uma iluminação mística
uma possibilidade de ser alguém no mundo dos brancos.
É baseada em fatos reais e está relacionada
com minha infância porque a igreja que ele construiu
ficava no caminho da roça do meu avô. "Cafundó"
aborda o sincretismo religioso característico do Brasil
sob a ótica delirante de João de Camargo, vivido
de forma brilhante por Lázaro Ramos. No elenco, estão
também Leandro Firmino, Leona Cavalli, Francisco Cuoco,
Flávio Bauraqui e Luis Mello. O filme é a oportunidade
de mostrar a visão peculiar que tenho sobre a história
dos negros. A sensação de ver este projeto finalizado
é maravilhosa!
PC-
E dirigir Cinema, como é ?
PB-
Dirigir cinema é completamente diferente de dirigir
Teatro, onde você só dirige os atores. No cinema
não, é uma equipe enorme que você tem
de dar conta. Uma aventura enorme de egos e vaidades, de urgências
de tempo. É um mar mais revolto. Mas gostei muito da
experiência, tenho vontade de continuar nisso.
PC
– Você diria que foi um passo muito difícil
?
PB
- Não, pois dividi a direção
com Clóvis Bueno ("O Beijo da Mulher-Aranha"
e “Castelo Rá-Tim-Bum”). Trabalhamos juntos
muito tempo. Ele é um experiente e talentoso diretor
de arte e isso ajudou muito a estruturar uma base para o filme.
Tivemos também uma produção muito competente.
Estive cercado de gente muito experiente. Talvez, se estivesse
sozinho, me afogasse.
PC
- Como nasceu a idéia do filme ?
PB
- Desde que eu era menino, com cinco anos, visitava
meu avô, um imigrante italiano que era meeiro de um
fazendeiro negro em Sorocaba. Era uma situação
muito insólita, pois poucos negros tinham a propriedade
da terra e era difícil ter um imigrante italiano trabalhando
nessas condições. Eu o visitava na roça
e via a casa grande do ponto-de-vista da senzala. Era uma
visão invertida. No meu bairro, 95% da população
era negra. Era um quilombão. Então, toda a minha
visão da negritude, da cultura negra e das minhas relações
na infância passaram por essa ótica. É
uma história fascinante, que me conquistou desde a
infância. No caminho da roça do meu avô
havia uma igreja misteriosa, que ainda existe, dedicada a
esse homem, João de Camargo. Ele foi escravo e criou
uma religião da qual foi sacerdote e papa, um misto
de espiritismo, da religião ancestral africana e do
catolicismo, as três religiões formadoras do
núcleo sincrético da criança dele.
PC
– O filme tem uma riqueza de cores e de sincretismo
religioso impressionante. É como um mergulho no Brasil
profundo. Quando é que você percebeu que ali
estava um material rico para ser explorado num longa-metragem?
PB
– A história do filme é uma obsessão
minha, da vida inteira. Eu tentei de todo jeito botar essa
história na peça Na Carrêra do Divino,
em 79, mas não tínhamos um ator negro no Pessoal
do Victor, aí não deu. Quando voltei dos Estados
Unidos, onde fiz curso de Documentário, resolvi ir
a Sorocaba e fazer um filme sobre a história de minha
mãe, que teve 15 filhos, analfabeta como meu pai. Na
hora deu aquele pudor bobo de deslocar uma equipe para filmar
minha mãe... Como era Dia de Finados e ela gostava
de ir ao cemitério, fomos pra lá e então
filmei o túmulo do nhô João. Cheguei em
casa, filmei minha mãe e ela falou muito sobre ele.
Daí resolvi: o documentário seria sobre João
e minha mãe faria parte dele. Mais tarde, o Adilson
Barros passou lá em casa com sua mãe e eu falei
todo animado que ia fazer um documentário sobre o João
de Camargo. E ele disse: “Isso é mixa. O João
de Camargo é um longa, uma coisa maravilhosa”.
Nessa mesma noite, o Adilson me falou que o Florestan Fernandes
tinha um trabalho sobre o João. No dia seguinte, fui
atrás do Florestan e gravei um depoimento dele. O fato
de um grande mestre como ele ter interesse no tema reforçou
ainda mais minha convicção de que ali estava
um assunto fascinante.Ele virou uma estátua de barro
dessas que você encontra em lojas de umbanda. É
o pai João de Camargo, um exemplo de humildade que
se impunha e nos orientava o tempo todo no set.
PC-
De lá para cá, então, você veio
tocando o projeto paralelamente à sua carreira de ator...
PB
- Reuni muita coisa. A geração do livro
"João de Camargo de Sorocaba - O Nascimento de
uma Religião", de Carlos Campos e Adolfo Frioli
[ed. Senac], veio junto de muita coisa, perda de pai, de mãe,
e eu querendo segurar tudo. Criei em Sorocaba, na casa em
que cresci, o Instituto Cultural Vila Leão. Lá
tem o projeto Quilombinho, com cursos para crianças
e adultos. As pessoas ficavam sabendo do meu trabalho e levavam
material sobre João de Camargo para lá.
PC
– Eu queria que você falasse um pouco
como foi a peregrinação em busca da verba necessária
pra fazer o filme.
PB
– Bom, o projeto foi aprovado em 1995 e fiquei
tentando arranjar o dinheiro até 2003, quando filmamos.
Foi uma péssima época. Quando comecei, houve
todo aquele problema com o Guilherme Fontes [a respeito da
verba do filme "Chatô, o Rei do Brasil"] e
eu também fazia parte do filme dele. Houve uma certa
confusão, pois eu também era ator, sentiam desconfiança.
E o tema era religioso, o que assusta um pouco as empresas
pela possibilidade de polêmica. Foi penoso e complicado
mas contei com muita colaboração importante
no processo. Teve o Clóvis Bueno, com quem me entendi
super bem em todo o processo de criação do roteiro
e quando preparamos a filmagem. Além de dividir a direção
com ele, tive grandes parceiros e certamente os principais
foram a Virgínia Moraes e o Rubens Gennaro, que assumiram
a produção comigo, dividindo responsabilidades,
angústias, frustração e também
as muitas alegrias.
PC
– Qual foi a repercussão do filme no
Festival de Cinema Brasileiro em Nova York ?
PB
- Eu estava lá. Foi muito legal. É
engraçado ver um filme seu com legendas em inglês.
Parece que fica mais importante. De uma certa maneira, a palavra
escrita ajuda a compreensão. Temos agora uma cópia
em inglês para lançar lá fora.
PC
– E como foi escolhido o elenco ?
PB
- O Lázaro foi escolhido quando vimos "A
Máquina", peça de João Falcão.
Era o ator que estávamos esperando! Procuramos colocar
atores do Paraná, que tem uma tradição
de formar bons atores, e também por razões econômicas,
afinal filmamos lá.
PC-
Eu soube que foi muito difícil o processo de finalização
do filme e queria que você falasse sobre isso...
PB
- A primeira cópia do filme ficou cinco meses
na [distribuidora] Columbia sem que me dessem uma única
resposta. Há uma tentativa de assassinato do cinema
brasileiro por parte das grandes distribuidoras. Quando você
apronta um filme, leva numa grande distribuidora para ver
se consegue uma boa visibilidade. Faz a primeira cópia,
que é cara, e você não tem dinheiro para
fazer outra. Mas é necessário ter material para
poder mostrar e negociar. E fica cinco meses sem uma resposta,
um prejuízo enorme... Não sei se é sacanagem
ou falta de consideração. Só obtive uma
resposta quando liguei e exigi. Aí decidiram não
ficar com o filme.
PC
- Como foi acompanhar a exibição de
Cafundó em Gramado, o festival de cinema mais concorrido
do país ?
PB
- Foi uma emoção muito grande. Gramado
é um festival realmente muito popular, tem que ser
preservado e melhorado. Eles devem fazer isso: passar apenas
um filme por noite para que o público possa prestigiar
os concorrentes. Veja, nosso filme passou na mesma noite com
mais 2 filmes. Um nem estava na concorrência! Outra
coisa é que eles devem fechar as portas na hora da
exibição e não deixar entrar retardatários,
prejudica muito o filme qu está sendo exibido. Mas
é claro que vc perguntou outra coisa. Fiquei super
feliz e emocionado em ter o filme passando no festival e ainda
mais ganhando 4 Kikitos!
PC
- E a reação do público e da
crítica ?
PB
- Gostei muito da reação! O publico
acompanha o filme com atenção. A crítica
respeita o trabalho por ser um tema muito relevante. Existem
divergências o que é muito salutar, não
esperava unanimidade, mas conseguimos uma: todos consideram
um filme muito bem feito!
PC - Atuar, dirigir teatro, dirigir um filme,
apresentar um programa de tevê, coordenar as atividades
da Casa da Gávea e do Instituto Cultural Vila Leão,
você sempre diz que essas são atividades que
lhe dão muito prazer, mas também devem dar algumas
dores-de-cabeça. Como você faz pra conseguir
atuar em todas essas frentes ?
PB
- Com a internet facilitou, respondo entrevistas
por e-mail. Faço uma coisa de cada vez, como dizia
Jack, o Estripador, por partes. São todas atividades
que me dão prazer e são complementares, uma
se liga a outra, uma fortalece a outra. Claro que dão
dor-de-cabeça, mas tenho pessoas maravilhosas que ajudam,
que também fazem por prazer. O Instituto, por exemplo,
não iria adiante se não fosse a Cassiane, o
Pedro Courbassier, a Isabel Monteiro. Em 4 anos fizemos "Mac
Beth","Sonhos de uma Noite de Verão",
"Morte e Vida Severina", cursos, palestras. E eles
é que organizam e tocam tudo, eu supervisiono, ajudo,
etc.
AML-
Você dirigiu no Rio um grande musical chamado A Canção
Brasileira, com texto do Luís Antônio Martinez
Correa. Como nasceu essa idéia e que alegrias você
teve no contato mais próximo com o universo tão
rico da MPB?
PB
- Esta peça é uma jóia rara
da música popular brasileira. É uma pesquisa
da Maria Helena Martinez Corrêa (irmã do diretor
de teatro José Celso), que tem 72 anos. Quando seu
outro irmão, Luiz Antônio --responsável
pela renovação do teatro musical brasileiro--,
morreu, brutalmente assassinado, 17 anos atrás, ela
me trouxe o libreto, que fala de quando o samba se transformou
num símbolo nacional, nos anos 30. Depois ela, miraculosamente,
encontrou as partituras. É uma opereta de 1933! Fiquei
deslumbrado. Adoro pesquisa. Há 3 anos, minha filha
Juliana me instigou a montá-la... Sempre adorei essa
história, adoro pesquisa, e a história da música
popular brasileira é incrível!
AML
- O que significa esta Homenagem em São Luís,
na 30a edição de um dos festivais de cinema
mais importantes do país ?
PB
- Fico muito grato, estou muito curioso para conhecer
São Luis, ouço falar que a cidade é linda
e que o festival é muito estimulante, estou super feliz.
AML
- Cafundó
vai entrar em circuito em São Luís, né,
mas como a batalha da distribuição, é
uma loucura, né ?!
PB
- A distribuição é praticamente
impossível. Veja, no momento 1400 salas das duas mil
que temos no País, estão ocupadas com Piratas
do Caribe e Homem Aranha .É um absurdo.
AML
- Parece que você já tem outro filme
na agenda como Diretor... Pode nos antecipar alguma coisa
?
PB
- Quero fazer "A Canção Brasileira",
o musical que dirigi no teatro.. Quero transformar num filme,
quem sabe em São Luís?
AML
- E
como Ator, quais são os próximos trabalhos ?
PB
- Estou indo agora gravar A Grande Família.
No teatro, vou ensaiar O Jardim
das Cerejeiras, do Tchecov. |