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Dores
do Amor a Três...
* LG de Miranda Leão
Com Primo Basílio,
Daniel Filho marca um tento em sua carreira de cineasta, já
despido das técnicas de televisão e agora com
olhos voltados para fazer cinema, mesmo se ainda não
chegou ao ótimo.
Primo Basílio
nos parece seu melhor filme, tanto pelos roteiristas e técnicos
escolhidos como pelo elenco. Em apenas 100min, DF não
poderia reeditar a abrangência e as virtudes de sua
homônima minissérie, de 88. Nesta versão,
buscou expressar-se e comunicar-se com o público adulto,
sem fazer concessões mas dotando-a de nível
qualitativo capaz de obter retornos pelos investimentos feitos
na produção.
Roteiro
Nada de novo no triângulo
amoroso (marido, mulher e seu amante), tanto faz recriado
por Eça de Queiroz no século XIX ou por Shak
no XVII ou em nosso tempo por Sidney Sheldon, Robbe-Grillet
ou W. Somerset Maugham. O triângulo continuará
existindo na literatura, no teatro, no cinema e na vida, enquanto
homens e mulheres buscarem romper a monogamia em busca do
novo (?) ou porque estejam sexualmente insatisfeitos ou por
qualquer outro motivo. No caso desta versão, temos
a paixão de Luíza pelo primo recém-chegado
de Paris, paixão de tempos mais jovens e menos compromissados.
O marido está ausente, atuante na Brasília de
JK, quando muitos achavam tudo aquilo loucura por não
perceberem o alcance da meta de interiorização
do desenvolvimento buscada pelo grande presidente.
Não vemos mal nenhum
em situar o drama de Luíza naqueles tempos de crença
no Brasil. "Eu sou eu e minhas circunstâncias",
doutrinava Ortega & Gasset, por isso não cabe ao
analista condenar o comportamento de Luíza. O conflito
surge quando a empregada faz chantagem com os bilhetes e cartões
da patroa para Basílio. A carta remetida por ele e
lida pelo marido conduzirá ao desfecho trágico.
No filme, isso não se faz como no original. A inclusão
do bárbaro assassinato de Juliana, espécie de
queima de arquivo, não nos pareceu o melhor caminho
para resolvê-lo. A exclusão de Conselheiro Acácio
(interpretado então pelo grande Sérgio Viotti)
e do Sebastião de Pedro Paulo Rangel (outro senhor
ator), personagens da minissperie, pode ser atribuída
à necessidade de síntese, pois seriam personagens
mais essenciais no texto literário. Incluí-los
por uns dez minutos não prolongaria cansativamente
a versão fílmica.
Filme x Livro
Voltamos
sem querer à cediça questão da transposição
de obra literária para o ecrã. A propósito,
o crítico e professor Ismail Xavier escreveu magistral
ensaio no qual afirma: "A interação entre
as mídias tem tornado mais difícil recusar o
direito do cineasta à interpretação do
romance ou peça teatral, admitindo-se até que
ele pode inverter determinados efeitos, propor outra forma
de entender certas percepções, alterar a hierarquia
de valores e redefinir o sentido da experiência dos
personagens". Noutras palavras, a fidelidade ao original,
ensina Ismail, deixa de ser o critério maior de juízo
crítico, valendo mais a apreciação do
filme como nova experiência, a qual deve ter a sua forma,
e os sentidos nela implícitos julgados em seu próprio
direito. "Afinal, livro e filme estão distanciados
no tempo; escritor e cineasta não têm exatamente
a mesma sensibilidade e perspectiva, sendo portanto de esperar
que a adaptação dialogue não só
com o texto de origem mas com o seu próprio contexto".
Palavras sábias do mestre Ismail Xavier.
Direção fílmica
Daniel Filho parece ter eliminado
o ranço da linguagem televisiva, como as cenas meio
teatrais e o abuso dos primeiros planos para preencher o espaço
reduzido da telinha. Não há descompasso no ritmo
e os cortes em excesso foram substituídos por liames
precisos entre cenas ou pelo falso raccord: uma continuidade
mínima da narrativa sem impedir a compreensão
exata do drama em andamento. Os cortes de um plano a outro,
como se sabe, ocorrem basicamente quando se deseja mostrar
uma ação paralela, uma ruptura do espaço,
um recuo ou avanço no tempo. Aqui os cortes atendem
apenas às necessidades da história e à
síntese procurada e obtida. O uso tantas vezes aproveitado
da voz em off, por exemplo, quando Basílio caminha
sem falar e o ouvimos, tem a ver com a aceleração
necessária às imagens-tempo ou da inquietação,
das quais nos fala Truffaut, quando as cenas parecem correr
no terço final. O fecho com a residência do casal
já com novos inquilinos, anos depois, torna-se inesquecível
com a escolha de Apelo de Baden-Vinícius.
Belo tema melódico marca o início de certas
cenas, assim também o Clair de Lune de Debussy, enquanto
Teus Olhos, de Garoto, intensifica o conúbio entre
os dois amantes, lembrando-lhes os versos do compositor. Nada
de apelativo no brevíssimo nu frontal de Luíza
nem se poderia esperar outro comportamento íntimo no
"enfim sós"; não mostrá-lo
seria omissão sem justificativa.
Fotografia e elenco
A cinegrafia em tons esmaecidos,
às vezes apreendendo a semi-obscuridade dos interiores,
traz a assinatura do piauiense Nonato Estrela, competente
fotógrafo de tantos filmes, como Achados e Perdidos
(José Joffily). No elenco, a bela Débora
Falabella se destaca dos demais com muita classe,
tal como já revelara em sua carreira televisiva e em
Dois Perdidos numa Noite Suja, quando atua
ora como prostituta ora como boiete. Um dos melhores momentos
da atriz é quando rasga e queima desesperada os bilhetes
comprometedores, enquanto o reflexo das pequenas chamas ajuda
a compor um quadro expressivo do seu drama interior e a transformação
da sua fácies quando tranqüila se deita então
com o marido. Débora mostra também segurança
e espontaneidade nas cenas de sexo, na fuga de casa, na recusa
em dormir com o sórdido Castro e na sua máscara
agônica. Reynaldo Gianecchini tem altos
e baixos (soa falso quando ameaça Juliana por causa
de punhos e colarinhos mal passados), assim como Glória
Pires (aquém da interpretação
magistral de Marília Pera na minissérie), às
vezes exagerada quando ameaça a patroa. Fábio
Assunção está bem como primo
canalha e Guilherme Fontes parece solto no drama, como no
almoço com Luíza. Simone Spoladore
como Leonor Maçaneta destaca-se por seu potencial de
sensualidade. Anselmo Vasconcellos faz uma
ponta mas sua máscara apavorante é sugestiva
da ação de torturadores das ditaduras de toda
espécie. Da trilha musical de Guto Graça Mello
já falamos. Apreciamo-la bastante.
Enfim,
recomendamos Primo Basílio pela convicção
de estarmos aprimorando cada vez mais a qualidade de nossos
filmes.
A
ver, decididamente.
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