Textos de Rubens Ewald Filho, Marcelo Janot, Celso Sabadin, Carlos Alberto Mattos...
O ANO QUE MEUS PAIS SAÍRAM DE FÉRIAS
 
BENJAMIM
 
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PRIMO BASÍLIO
"O Cinema cria imediatamente uma direção para a vista, que é um sentido eminentemente abstracionista, e uma fantasia para a imaginação".
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Dores do Amor a Três...

* LG de Miranda Leão

     Com Primo Basílio, Daniel Filho marca um tento em sua carreira de cineasta, já despido das técnicas de televisão e agora com olhos voltados para fazer cinema, mesmo se ainda não chegou ao ótimo.

     Primo Basílio nos parece seu melhor filme, tanto pelos roteiristas e técnicos escolhidos como pelo elenco. Em apenas 100min, DF não poderia reeditar a abrangência e as virtudes de sua homônima minissérie, de 88. Nesta versão, buscou expressar-se e comunicar-se com o público adulto, sem fazer concessões mas dotando-a de nível qualitativo capaz de obter retornos pelos investimentos feitos na produção.

Roteiro

     Nada de novo no triângulo amoroso (marido, mulher e seu amante), tanto faz recriado por Eça de Queiroz no século XIX ou por Shak no XVII ou em nosso tempo por Sidney Sheldon, Robbe-Grillet ou W. Somerset Maugham. O triângulo continuará existindo na literatura, no teatro, no cinema e na vida, enquanto homens e mulheres buscarem romper a monogamia em busca do novo (?) ou porque estejam sexualmente insatisfeitos ou por qualquer outro motivo. No caso desta versão, temos a paixão de Luíza pelo primo recém-chegado de Paris, paixão de tempos mais jovens e menos compromissados. O marido está ausente, atuante na Brasília de JK, quando muitos achavam tudo aquilo loucura por não perceberem o alcance da meta de interiorização do desenvolvimento buscada pelo grande presidente.

     Não vemos mal nenhum em situar o drama de Luíza naqueles tempos de crença no Brasil. "Eu sou eu e minhas circunstâncias", doutrinava Ortega & Gasset, por isso não cabe ao analista condenar o comportamento de Luíza. O conflito surge quando a empregada faz chantagem com os bilhetes e cartões da patroa para Basílio. A carta remetida por ele e lida pelo marido conduzirá ao desfecho trágico. No filme, isso não se faz como no original. A inclusão do bárbaro assassinato de Juliana, espécie de queima de arquivo, não nos pareceu o melhor caminho para resolvê-lo. A exclusão de Conselheiro Acácio (interpretado então pelo grande Sérgio Viotti) e do Sebastião de Pedro Paulo Rangel (outro senhor ator), personagens da minissperie, pode ser atribuída à necessidade de síntese, pois seriam personagens mais essenciais no texto literário. Incluí-los por uns dez minutos não prolongaria cansativamente a versão fílmica.

Filme x Livro

     Voltamos sem querer à cediça questão da transposição de obra literária para o ecrã. A propósito, o crítico e professor Ismail Xavier escreveu magistral ensaio no qual afirma: "A interação entre as mídias tem tornado mais difícil recusar o direito do cineasta à interpretação do romance ou peça teatral, admitindo-se até que ele pode inverter determinados efeitos, propor outra forma de entender certas percepções, alterar a hierarquia de valores e redefinir o sentido da experiência dos personagens". Noutras palavras, a fidelidade ao original, ensina Ismail, deixa de ser o critério maior de juízo crítico, valendo mais a apreciação do filme como nova experiência, a qual deve ter a sua forma, e os sentidos nela implícitos julgados em seu próprio direito. "Afinal, livro e filme estão distanciados no tempo; escritor e cineasta não têm exatamente a mesma sensibilidade e perspectiva, sendo portanto de esperar que a adaptação dialogue não só com o texto de origem mas com o seu próprio contexto". Palavras sábias do mestre Ismail Xavier.

Direção fílmica

     Daniel Filho parece ter eliminado o ranço da linguagem televisiva, como as cenas meio teatrais e o abuso dos primeiros planos para preencher o espaço reduzido da telinha. Não há descompasso no ritmo e os cortes em excesso foram substituídos por liames precisos entre cenas ou pelo falso raccord: uma continuidade mínima da narrativa sem impedir a compreensão exata do drama em andamento. Os cortes de um plano a outro, como se sabe, ocorrem basicamente quando se deseja mostrar uma ação paralela, uma ruptura do espaço, um recuo ou avanço no tempo. Aqui os cortes atendem apenas às necessidades da história e à síntese procurada e obtida. O uso tantas vezes aproveitado da voz em off, por exemplo, quando Basílio caminha sem falar e o ouvimos, tem a ver com a aceleração necessária às imagens-tempo ou da inquietação, das quais nos fala Truffaut, quando as cenas parecem correr no terço final. O fecho com a residência do casal já com novos inquilinos, anos depois, torna-se inesquecível com a escolha de Apelo de Baden-Vinícius. Belo tema melódico marca o início de certas cenas, assim também o Clair de Lune de Debussy, enquanto Teus Olhos, de Garoto, intensifica o conúbio entre os dois amantes, lembrando-lhes os versos do compositor. Nada de apelativo no brevíssimo nu frontal de Luíza nem se poderia esperar outro comportamento íntimo no "enfim sós"; não mostrá-lo seria omissão sem justificativa.

Fotografia e elenco

     A cinegrafia em tons esmaecidos, às vezes apreendendo a semi-obscuridade dos interiores, traz a assinatura do piauiense Nonato Estrela, competente fotógrafo de tantos filmes, como Achados e Perdidos (José Joffily). No elenco, a bela Débora Falabella se destaca dos demais com muita classe, tal como já revelara em sua carreira televisiva e em Dois Perdidos numa Noite Suja, quando atua ora como prostituta ora como boiete. Um dos melhores momentos da atriz é quando rasga e queima desesperada os bilhetes comprometedores, enquanto o reflexo das pequenas chamas ajuda a compor um quadro expressivo do seu drama interior e a transformação da sua fácies quando tranqüila se deita então com o marido. Débora mostra também segurança e espontaneidade nas cenas de sexo, na fuga de casa, na recusa em dormir com o sórdido Castro e na sua máscara agônica. Reynaldo Gianecchini tem altos e baixos (soa falso quando ameaça Juliana por causa de punhos e colarinhos mal passados), assim como Glória Pires (aquém da interpretação magistral de Marília Pera na minissérie), às vezes exagerada quando ameaça a patroa. Fábio Assunção está bem como primo canalha e Guilherme Fontes parece solto no drama, como no almoço com Luíza. Simone Spoladore como Leonor Maçaneta destaca-se por seu potencial de sensualidade. Anselmo Vasconcellos faz uma ponta mas sua máscara apavorante é sugestiva da ação de torturadores das ditaduras de toda espécie. Da trilha musical de Guto Graça Mello já falamos. Apreciamo-la bastante.

     Enfim, recomendamos Primo Basílio pela convicção de estarmos aprimorando cada vez mais a qualidade de nossos filmes.

     A ver, decididamente.

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