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| "Quando
o cinema produz sua própria realidade, filmar
deixa de ser um ato irrelevante. Filmar - e principalmente,
filmar documentários - modifica o mundo. Sem
heroísmo, muito pouquinho, sutilmente, mas modifica".
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João
Moreira Salles |
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Trilha Sonora |
Aurora
& Calé Registram Banda para futuro trabalho audiovisual
Já
com mais de 40 horas gravadas, Aurora e Calé acabam
de regressar do Cariri onde colheram novas e inusitadas imagens
com os 6 integrantes da Banda (além de consolidar o
fundamental apoio de Jackson Bantim para
o Doc), a mais antiga cabaçal em atividade no nordeste
e a mais importante do país, recém-agraciada
com a Ordem do Mérito
Cultural, maior insígnia do Governo
Federal em homenagem às expressões artísticas
e culturais do povo brasileiro.
Calé Alencar,
produtor fonográfico dos Irmãos Aniceto, há
mais de uma década vem acompanhando os passos da Banda,
e é o único artista cearense que já compartilhou
o mesmo palco com a banda cabaçal do Crato - seja no
Cariri, em Natal ou em Paris - cantando e dançando
no ritmo "cabaçal", tendo inclusive criações
com a Banda e uma composição em parceria com
o falecido mestre João
Aniceto.
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Autênticos Herdeiros da Tradição Indígena
Assim,
Calé é qual uma Aurora, cujo esplendor antecede
o Sol, e seu agudo senso social/estético/artístico
vislumbrou no poema de Francisco Carvalho - de nome original
Canção do Emparedado - um Hino de Amor à
Justiça Social, à Liberdade de Expressão,
à Fraternidade entre os povos de todas as cores,
em todo Planeta.
O poeta Carvalho, quando soube
da gravação de Calé, era só
alegria e aprovou de pronto o nome dado à composição
- Canto para Mandela - admitindo ser o título de
Calé muito melhor que o do poema.
Canto
para Mandela integra o primeiro LP de Calé
- Um Pé em Cada Porto -, lançado
em 1990, cujas músicas foram anos depois registradas
no CD duplo - Estação
do Trem Imaginário, cuja produção
tenho a honra e a alegria de ter acompanhado de perto. Porque
Calé é desde sempre um dos mais talentosos
e profícuos artistas do Nordeste, sendo enorme prazer
contribuir com seus registros sonoros e também lítero-poéticos-ritmicos-fotográficos
pois caminhando ao lado de quem tão bem traduz/compõe
beleza & poesia enriqueço-me sensorialmente e
depuro cotidianamente meu bom gosto e senso estético.
Viva
Nélson Mandela! Salve Francisco Carvalho!
Vida
longa para Calé Alencar e aplausos calorosos para
sua sensível e multifária atividade artística!
A
Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto
é a mais antiga do Ceará. Formada por membros
de uma mesma família de agricultores e músicos,
nascidos na cidade do Crato (região sul do Estado),
contam 173 anos de história.Tudo começou com
José Lourenço, apelidado Anicete,
que viveu até os 104 anos e legou a tradição
a seus filhos Francisco, João, Antônio e Raimundo.
Atualmente, uma terceira geração, representada
por Cícero, Joval, Azul e Adriano dá continuidade
ao trabalho iniciado pelo Mestre José Lourenço.
O nome cabaçal deve-se ao uso de cabaças para
a confecção do zabumba e da caixa, hábito
de origem indígena.
Vestidos
com roupas de cores vivas, calçando alpercatas de
couro, os Irmãos Aniceto criam peças
notáveis ocupando o espaço cênico com
a dança anímica, em conjunto ou em solos,
usando os pífanos feitos de taboca, acompanhados
de zabumba, caixa e pratos. O grupo é quem constrói
seus próprios instrumentos. O zabumba é feito
a partir do tronco de baraúna, medindo quase um metro
de circunferência. Raimundo, consagrado como Mestre
da Cultura pelo Governo do Estado do Ceará, extrai
o miolo do tronco a golpes de machado e facão, deixando
somente o arco, que é fechado com couro de bode e
esticado com cordas de caroá. O pífano é
feito de taboca e marcado a ferro para a criação
dos sulcos de onde extraem os sons marcantes de sua musicalidade.
Dentre
seus elogiados números, envolvendo a música,
a poesia matuta, a dança e a dramatização
realizada a partir da observação da natureza,
dando um sentido profundo de ecologia aplicada às
artes, os Irmãos Aniceto nos brindam
com apresentações antológicas como
A Briga do Cachorro Com a Onça, A Dança do
Caboré, A Dança do Marimbondo, Severino Brabo
e O Casamento da Acauã com o Gavião.
Os
Irmãos Aniceto parecem feitos de mola, pinotando
pelo espaço, virando onça, voando feito caborés,
realizando um teatro de inusitada beleza e grande expressividade.
A
Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto participou
do espetáculo Ciranda dos Homens, Carnaval
dos Animais, dirigido pelo consagrado coreógrafo
Ivaldo Bertazzo, mostrando ainda sua elogiada performance
em São Paulo (Teatro Municipal e Sesc Pompéia),
Rio de Janeiro (Pavilhão de São Cristóvão),
Natal (Teatro Alberto Maranhão), Recife, Ponta Grossa
(PR), João Pessoa, Serra da Capivara (PI) - Festival
Interartes, Porto Alegre (51a Feira Literária). Em
março de 2005, participou da programação
do Ano do Brasil na França,
apresentando-se na Cité de La Musique juntamente
com grandes expressões da música brasileira
como Djavan, Marcelo D2, Maria Rita, Dudu Nobre, Seu Jorge,
DJ Dolores e Riachão.
Após
participar de diversas coletâneas, a Banda
Cabaçal dos Irmãos Aniceto teve sua
estréia no mercado fonográfico com o cd Coleção
Memória do Povo Cearense, volume I, parceria da Secretaria
da Cultura do Estado com os selos Cariri Discos e Equatorial
Produções. O segundo disco,
Forró no Cariri, viabilizado com
apoio do Sesc-Ce, tem produção assinada por
Calé Alencar e Rosemberg Cariry. O cd inclui as faixas
instrumentais Marcha Caririzeira, Alvorada, Quilombo, Alegra
o Povo e Bendito de Nossa Senhora das Candeias, além
de uma memorável versão para a tradicional
Parabéns Pra Você e as canções
O Bem-Te-Vi, na voz de Raimundo, e Quilariô, cantada
por Cícero, Adriano e Joval.
A
Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto apresenta
intensa e harmoniosa criatividade, sempre no trabalho de
reelaboração da herança coletiva, conservando
traços de nítida influência da cultura
dos índios cariris, onde a música e a dança
são mostradas com características profundamente
populares, ressaltando a importância da cultura tradicional
do povo cearense.
*
Calé Alencar
cantor/compositor/produtor musical
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PALÁCIO DAS ARTES: CENÁRIO DA ENTREGA DA OMC
A
Diversidade Cultural esteve representada na cerimônia
de entrega da Ordem do Mérito Cultural,
iniciativa criada em 95 em reconhecimento ao trabalho de
pessoas e instituições promotores da tradição,
difusão e desenvolvimento da Cultura Brasileira.
O
ator Sérgio Mamberti, Secretário da Identidade
e Diversidade Cultural, atuou como Mestre de Cerimônia
na solenidade realizada na Semana de homenagens à
Cultura no Grande Teatro do Palácio das Artes, em
Belo Horizonte, na noite de 7 de novembro
O
ministro da Cultura, Gilberto Gil, agradeceu
o apoio e a sensibilidade do presidente da República,
Luiz Inácio Lula da Silva, por colocar a Cultura
em um novo patamar no Governo, como prioridade para o desenvolvimento
do Brasil.
'Cultura
como prioridade na cesta básica do povo brasileiro,
não apenas para saciar suas necessidades físicas
e materiais, já que a Cultura é hoje uma das
maiores fontes geradoras de renda e emprego do país,
mas também para saciar suas necessidades marcadamente
humanas e espirituais, que têm haver com expressão
de vida, de cidadania, com satisfação e bem-estar,
coletivo e individual'.
Em
seu entusiasmado discurso, Gil afirmou ainda: 'Cultura é
tudo aquilo que sobra, o que resta além do que temos
a comer e a beber. Cultura é a expressão mais
forte da nossa alma e a necessidade mais evidente depois
do essencial 'ganha pão'.'
A
Ordem do Mérito Cultural condecorou
36 personalidades nacionais e estrangeiras e sete iniciativas.
Como representante dos agraciados, o antropólogo
Luiz Mott agradeceu ao presidente Lula, ao ministro Gilberto
Gil e ao secretário executivo do Ministério
da Cultura, Juca Ferreira, pelo reconhecimento oficial e
solene de nosso empenho de cidadão e cidadãs
na construção da Cultura brasileira.
Luiz
Mott afirmou que os agraciados representam todas as cores
e todos os sexos:
'Permitam-me
aplaudir a inclusão entre os homenageados de alguns
gays assumidos. Decisão coerente com o compromisso
do atual Governo em construir o Brasil sem homofobia'.
Após
a entrega da OMC,a cerimônia no Palácio
das Artes prosseguiu com a abertura da TEIA
- Tudo de Todos, contando também com a presença
do Presidente Lula, do ministro Gil e dos secretários
Juca Ferreira e Sérgio Mamberti, além do dramaturgo
e diretor Augusto Boal, do secretário Célio
Turino e várias outras autoridades do Governo Federal.
Com
informações da Assessoria de Comunicação
do MinC (www.cultura.gov.br)
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A
BANDA CABAÇAL
Banda
Cabaçal, Banda de Couro, Zabumba ou simplesmente o
Cabaçal é um conjunto instrumental constituído
de pífanos (pifes) e tambores encontrado nos sertões
do Nordeste. Em Alagoas são chamados de Esquenta-Mulher
e, segundo Manuel Diegues Júnior, o nome se originou
do alvoroço que sua música provoca, da alegria
e agitação com que atrai o elemento feminino.
De
remota origem européia - seu aparecimento remonta ao
século XVI - é provável que aqui tenha
chegado através do colonizador ibérico, integrando
as primeiras bandas marciais criadas no Brasil Colônia.
A réplica cabocla com pifes de taboca e tambores rústicos
(zabumbas) encourados com pele de bode ou carneiro é
criação do mestiço brasileiro que, com
intuição musical, soube adaptar ecologicamente
o instrumental de procedência estrangeira dando-lhe
o equilíbrio de registros sonoros e a formação
típica com a qual se tradicionalizou.
Esta
formação, constituída de dois pifes,
caixa e zabumba, ultimamente vem sendo acrescida de um instrumentista
tocando pratos ou triângulo. É provável
que a integração destes instrumentos junto aos
tambores se deva a influências recebidas através
das bandas de música ou dos trios que tocam o baião
de rádio.
Seu
habitat principal é a região do Cariri, onde
já no século XIX fora observado pelo botânico
inglês George Gardner (1838) em suas andanças
pelo interior do Ceará.
Possuem
repertório variado onde se encontram peças características,
tradicionais e outras da música popular urbana, que
aprendem de ouvido através do rádio ou das irradiadoras
(serviços de alto-falantes) que infestam as pequenas
cidades do interior. Tocam em bailes, exibem-se nas praças
públicas, participam das festas religiosas, novenas,
procissões, batizados, casamentos, enterro de anjinhos
e às vezes acompanham folguedos populares. O Pífano,
Pífaro ou Pife, de taboca ou taquara, é uma
flauta transversa com sete orifícios abertos com ferro
em brasa - um furo para soprar e os seis restantes com as
notas da escala musical.
Os
do Cariri que possuo em minha coleção medem
35 e 45 cm de comprimento. São vendidos aos pares e
nas feiras da região podemos adquirir um casal de pifes,
o que quer dizer: um duo de flautas (uma maior e outra menor)
com afinação perfeita.
Possuindo
perícia de sopro e destreza de agilidade digital, os
pifeiros são virtuoses altamente habilidosos e dotados
musicalmente para a execução de seus instrumentos.
Como
estudioso das manifestações folclóricas
e desde longa data dedicado às pesquisas sobre a música
do Nordeste, considero a Cabaçal o mais antigo, o mais
característico, em suma o mais importante conjunto
instrumental da música folclórica brasileira.
*
Aloysio de Alencar Pinto
Pesquisador da Música Brasileira |
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