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Aurora & Calé Registram Banda para futuro trabalho audiovisual

     Já com mais de 40 horas gravadas, Aurora e Calé acabam de regressar do Cariri onde colheram novas e inusitadas imagens com os 6 integrantes da Banda (além de consolidar o fundamental apoio de Jackson Bantim para o Doc), a mais antiga cabaçal em atividade no nordeste e a mais importante do país, recém-agraciada com a Ordem do Mérito Cultural, maior insígnia do Governo Federal em homenagem às expressões artísticas e culturais do povo brasileiro.
     Calé Alencar, produtor fonográfico dos Irmãos Aniceto, há mais de uma década vem acompanhando os passos da Banda, e é o único artista cearense que já compartilhou o mesmo palco com a banda cabaçal do Crato - seja no Cariri, em Natal ou em Paris - cantando e dançando no ritmo "cabaçal", tendo inclusive criações com a Banda e uma composição em parceria com o falecido mestre João Aniceto.

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Autênticos Herdeiros da Tradição Indígena

     A Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto é a mais antiga do Ceará. Formada por membros de uma mesma família de agricultores e músicos, nascidos na cidade do Crato (região sul do Estado), contam 173 anos de história.Tudo começou com José Lourenço, apelidado Anicete, que viveu até os 104 anos e legou a tradição a seus filhos Francisco, João, Antônio e Raimundo. Atualmente, uma terceira geração, representada por Cícero, Joval, Azul e Adriano dá continuidade ao trabalho iniciado pelo Mestre José Lourenço. O nome cabaçal deve-se ao uso de cabaças para a confecção do zabumba e da caixa, hábito de origem indígena.

     Vestidos com roupas de cores vivas, calçando alpercatas de couro, os Irmãos Aniceto criam peças notáveis ocupando o espaço cênico com a dança anímica, em conjunto ou em solos, usando os pífanos feitos de taboca, acompanhados de zabumba, caixa e pratos. O grupo é quem constrói seus próprios instrumentos. O zabumba é feito a partir do tronco de baraúna, medindo quase um metro de circunferência. Raimundo, consagrado como Mestre da Cultura pelo Governo do Estado do Ceará, extrai o miolo do tronco a golpes de machado e facão, deixando somente o arco, que é fechado com couro de bode e esticado com cordas de caroá. O pífano é feito de taboca e marcado a ferro para a criação dos sulcos de onde extraem os sons marcantes de sua musicalidade.

     Dentre seus elogiados números, envolvendo a música, a poesia matuta, a dança e a dramatização realizada a partir da observação da natureza, dando um sentido profundo de ecologia aplicada às artes, os Irmãos Aniceto nos brindam com apresentações antológicas como A Briga do Cachorro Com a Onça, A Dança do Caboré, A Dança do Marimbondo, Severino Brabo e O Casamento da Acauã com o Gavião.

     Os Irmãos Aniceto parecem feitos de mola, pinotando pelo espaço, virando onça, voando feito caborés, realizando um teatro de inusitada beleza e grande expressividade.

     A Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto participou do espetáculo Ciranda dos Homens, Carnaval dos Animais, dirigido pelo consagrado coreógrafo Ivaldo Bertazzo, mostrando ainda sua elogiada performance em São Paulo (Teatro Municipal e Sesc Pompéia), Rio de Janeiro (Pavilhão de São Cristóvão), Natal (Teatro Alberto Maranhão), Recife, Ponta Grossa (PR), João Pessoa, Serra da Capivara (PI) - Festival Interartes, Porto Alegre (51a Feira Literária). Em março de 2005, participou da programação do Ano do Brasil na França, apresentando-se na Cité de La Musique juntamente com grandes expressões da música brasileira como Djavan, Marcelo D2, Maria Rita, Dudu Nobre, Seu Jorge, DJ Dolores e Riachão.

     Após participar de diversas coletâneas, a Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto teve sua estréia no mercado fonográfico com o cd Coleção Memória do Povo Cearense, volume I, parceria da Secretaria da Cultura do Estado com os selos Cariri Discos e Equatorial Produções. O segundo disco, Forró no Cariri, viabilizado com apoio do Sesc-Ce, tem produção assinada por Calé Alencar e Rosemberg Cariry. O cd inclui as faixas instrumentais Marcha Caririzeira, Alvorada, Quilombo, Alegra o Povo e Bendito de Nossa Senhora das Candeias, além de uma memorável versão para a tradicional Parabéns Pra Você e as canções O Bem-Te-Vi, na voz de Raimundo, e Quilariô, cantada por Cícero, Adriano e Joval.

     A Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto apresenta intensa e harmoniosa criatividade, sempre no trabalho de reelaboração da herança coletiva, conservando traços de nítida influência da cultura dos índios cariris, onde a música e a dança são mostradas com características profundamente populares, ressaltando a importância da cultura tradicional do povo cearense.

* Calé Alencar

cantor/compositor/produtor musical

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PALÁCIO DAS ARTES: CENÁRIO DA ENTREGA DA OMC


     A Diversidade Cultural esteve representada na cerimônia de entrega da Ordem do Mérito Cultural, iniciativa criada em 95 em reconhecimento ao trabalho de pessoas e instituições promotores da tradição, difusão e desenvolvimento da Cultura Brasileira.

     O ator Sérgio Mamberti, Secretário da Identidade e Diversidade Cultural, atuou como Mestre de Cerimônia na solenidade realizada na Semana de homenagens à Cultura no Grande Teatro do Palácio das Artes, em Belo Horizonte, na noite de 7 de novembro

     O ministro da Cultura, Gilberto Gil, agradeceu o apoio e a sensibilidade do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, por colocar a Cultura em um novo patamar no Governo, como prioridade para o desenvolvimento do Brasil.

     'Cultura como prioridade na cesta básica do povo brasileiro, não apenas para saciar suas necessidades físicas e materiais, já que a Cultura é hoje uma das maiores fontes geradoras de renda e emprego do país, mas também para saciar suas necessidades marcadamente humanas e espirituais, que têm haver com expressão de vida, de cidadania, com satisfação e bem-estar, coletivo e individual'.

     Em seu entusiasmado discurso, Gil afirmou ainda: 'Cultura é tudo aquilo que sobra, o que resta além do que temos a comer e a beber. Cultura é a expressão mais forte da nossa alma e a necessidade mais evidente depois do essencial 'ganha pão'.'

     A Ordem do Mérito Cultural condecorou 36 personalidades nacionais e estrangeiras e sete iniciativas. Como representante dos agraciados, o antropólogo Luiz Mott agradeceu ao presidente Lula, ao ministro Gilberto Gil e ao secretário executivo do Ministério da Cultura, Juca Ferreira, pelo reconhecimento oficial e solene de nosso empenho de cidadão e cidadãs na construção da Cultura brasileira.

     Luiz Mott afirmou que os agraciados representam todas as cores e todos os sexos:

     'Permitam-me aplaudir a inclusão entre os homenageados de alguns gays assumidos. Decisão coerente com o compromisso do atual Governo em construir o Brasil sem homofobia'.

     Após a entrega da OMC,a cerimônia no Palácio das Artes prosseguiu com a abertura da TEIA - Tudo de Todos, contando também com a presença do Presidente Lula, do ministro Gil e dos secretários Juca Ferreira e Sérgio Mamberti, além do dramaturgo e diretor Augusto Boal, do secretário Célio Turino e várias outras autoridades do Governo Federal.

     Com informações da Assessoria de Comunicação do MinC (www.cultura.gov.br)

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A BANDA CABAÇAL

     Banda Cabaçal, Banda de Couro, Zabumba ou simplesmente o Cabaçal é um conjunto instrumental constituído de pífanos (pifes) e tambores encontrado nos sertões do Nordeste. Em Alagoas são chamados de Esquenta-Mulher e, segundo Manuel Diegues Júnior, o nome se originou do alvoroço que sua música provoca, da alegria e agitação com que atrai o elemento feminino.

     De remota origem européia - seu aparecimento remonta ao século XVI - é provável que aqui tenha chegado através do colonizador ibérico, integrando as primeiras bandas marciais criadas no Brasil Colônia. A réplica cabocla com pifes de taboca e tambores rústicos (zabumbas) encourados com pele de bode ou carneiro é criação do mestiço brasileiro que, com intuição musical, soube adaptar ecologicamente o instrumental de procedência estrangeira dando-lhe o equilíbrio de registros sonoros e a formação típica com a qual se tradicionalizou.

     Esta formação, constituída de dois pifes, caixa e zabumba, ultimamente vem sendo acrescida de um instrumentista tocando pratos ou triângulo. É provável que a integração destes instrumentos junto aos tambores se deva a influências recebidas através das bandas de música ou dos trios que tocam o baião de rádio.

     Seu habitat principal é a região do Cariri, onde já no século XIX fora observado pelo botânico inglês George Gardner (1838) em suas andanças pelo interior do Ceará.

     Possuem repertório variado onde se encontram peças características, tradicionais e outras da música popular urbana, que aprendem de ouvido através do rádio ou das irradiadoras (serviços de alto-falantes) que infestam as pequenas cidades do interior. Tocam em bailes, exibem-se nas praças públicas, participam das festas religiosas, novenas, procissões, batizados, casamentos, enterro de anjinhos e às vezes acompanham folguedos populares. O Pífano, Pífaro ou Pife, de taboca ou taquara, é uma flauta transversa com sete orifícios abertos com ferro em brasa - um furo para soprar e os seis restantes com as notas da escala musical.

     Os do Cariri que possuo em minha coleção medem 35 e 45 cm de comprimento. São vendidos aos pares e nas feiras da região podemos adquirir um casal de pifes, o que quer dizer: um duo de flautas (uma maior e outra menor) com afinação perfeita.

     Possuindo perícia de sopro e destreza de agilidade digital, os pifeiros são virtuoses altamente habilidosos e dotados musicalmente para a execução de seus instrumentos.

     Como estudioso das manifestações folclóricas e desde longa data dedicado às pesquisas sobre a música do Nordeste, considero a Cabaçal o mais antigo, o mais característico, em suma o mais importante conjunto instrumental da música folclórica brasileira.

* Aloysio de Alencar Pinto
Pesquisador da Música Brasileira

 
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