Textos de Rubens Ewald Filho, Marcelo Janot, Celso Sabadin, Carlos Alberto Mattos...
O ANO QUE MEUS PAIS SAÍRAM DE FÉRIAS
 
BENJAMIM
 
CITIZEN KANE
 
Meu Nome não é Johnny
"O Cinema cria imediatamente uma direção para a vista, que é um sentido eminentemente abstracionista, e uma fantasia para a imaginação".
Vinícius de Moraes
Oboé Card
Equatorial - Casa de Memória
Rádio Universitária
 
 
 
> Moviola

Mundo Cão País Afora

                                                    LG de Miranda Leão

     Semidocumentário de boa qualidade dirigido por José Padilha (1963-), Tropa de Elite é, no entanto, péssima higiene mental, como diria o velho Paurillo Barroso diante da violência e da barbárie retratadas no filme

     Não se trata de uma realização fascitóide, mas de uma narrativa feita do plano-ponto-de-vista (PPV) dos policiais.Tropa de Elite se impõe pela ousadia de mostrar, como ainda não se fizera nessa extensão, a ação do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) nas favelas dos morros da antiga Cidade Maravilhosa, nessa guerra sem fim contra os traficantes de drogas e armas, resultante de erros acumulados das autoridades, da falência das medidas governamentais para resolver o problema e do binômio maldito: a incompetência casada com a corrupção e a impunidade brasileira. Não é demais lembrar as previsões de Orson Welles quando no Rio, em 42, visitou as favelas ao lado de Vinicius de Moraes, pois não queria ver apenas o Quitandinha, o Carnaval, o cassino da Urca, a beleza da topografia e suas ilhas e praias paradisíacas. Foi quando disse ao mestre Vina: “Vocês estão criando os frankensteins de amanhã. As criaturas se voltarão contra o seu criador. As favelas crescerão desordenadamente e não haverá quem possa controlar a delinqüência futura”... Vinícius lhe respondeu com uma mentira branca da qual se arrependeu: “O governo vai retirar todos esses favelados e levá-los para outro local nos próximos dois meses” ... O depoimento de VM ouvido por este escriba e outras pessoas numa recepção ao vate, quando aqui esteve em 1976, foi incluído pelo cineasta Firmino Holanda em seu “Cidadão Jacaré”. Hoje são umas 700 favelas cariocas dominadas por traficantes bem armados e organizados. Como terminará tudo isso?

Sinopse

     O filme se baseia em depoimentos de doze oficiais da PM e de um psiquiatra. O roteiro de Rodrigo Pimentel, Bráulio Mantovani e do mesmo Padilha enfoca o drama pessoal do Cap. Nascimento (Wagner Moura), estressado e em dúvidas quanto ao acerto de suas decisões e às suas perspectivas de caráter profissional. Quer deixar o comando do BOPE e escolher um substituto à altura. Fica dividido entre Neto (Caio Junqueira) e André Matias (André Ramiro). As ações nos morros (não fora o BOPE os traficantes já teriam sitiado a cidade, diz um personagem lá pelas tantas) são mostradas com toda violência, prisões, morte de inocentes, confissões arrancadas por torturas com sacos plásticos, em meio a palavrões de todo tipo. A narrativa retrocede depois para mostrar a preparação de futuros comandados, quando a violência se volta para os recrutas de um curso preparatório semelhante a uma escola de sadismo para eliminar os “fracos”, obrigados até a alimentar-se de comida jogada ao chão... As ações continuam até os 118min de projeção. O final? Não há. O filme prossegue nos noticiários da TV e dos jornais, não se sabe até quando...

Direção fílmica

     Padilha logra o realismo cinematográfico típico de um semidocumentário ao reconstituir as situações vividas pelos dois lados do conflito. Em rigor, os combates não são ficcionais: ocorrem daquele modo quase todo dia e o diretor apenas os recriou. Também evitou cenas de sexo apelativas e fez boa ligação entre o caso do estudante negro (um policial infiltrado) e a estagiária de uma ONG. Aqui insere a crítica velada sobre o consumo de drogas no seio da classe média. Não entendemos o motivo pelo qual Padilha não utilizou a “steadicam” com estabilizador digital de imagem (DIS) para evitar a câmara treme-treme. O abuso das panorâmicas ultra-rápidas, os indefectíveis “chicotes”, tampouco enriquece o realismo e a tensão buscados pelo cineasta. Há imagens-significantes como a sugestão de empalação com cabo de vassoura e a morte horrível do traficante queimado vivo dentro de um “casaco” de pneus. A montagem do tempo-espaço fílmico a cargo de Daniel Rezende contribui para dinamizar as transições nesse tipo de narrativa, como quando se vêem primeiro as luzes do teto do túnel e depois a mesma cena, mas aí os carros já passam ao plano aproximado e as luzes vão ficando para trás, um bom “raccord” de movimento para manter a continuidade da ação prevista.

Elenco, foto, música

     A direção fotográfica de Lula Carvalho reúne qualidades técnicas necessárias para o êxito do filme. O elenco está praticamente irrepreensível com Wagner Moura à frente (já referido nestas críticas) em interpretação de ator consumado. Seu “show” de machismo sobre a mulher Rosane é impecável. Ficam-lhe um pouco atrás os demais componentes, incluídas as atrizes, mesmo em papéis menores. A música às vezes incômoda e barulhenta atende às exigências dos bailes “funk”. Não há como colocar ali uma bossa-nova dos anos dourados de JK, como lembrou um saudoso crítico carioca.

Sobre José Padilha

     Nascido em 1963, José Padilha tornou-se aficionado de cinema mal saído da adolescência. Começou como produtor e roteirista de “Os Carvoeiros”, de Nigel Noble (1999), para estrear seu primeiro longa, o semidocumentário “Ônibus 174” (2002), no qual retratou com tintas fortes e segurança técnica a tragédia urbana dentro de um coletivo em pleno Rio de Janeiro, hoje a cidade dos assaltos diários à luz do dia e das balas perdidas... Os pontos de contato com Cidade de Deus (neste o PPV é o dos moradores das favelas) são de somenos importância, pois o RJ é uma cidade em guerra, de triste perspectiva para as crianças traumatizadas pela violência. Pelo visto, temos mais um cineasta brasileiro com bastantes afinidades com o veículo e cujo trabalho até agora é bem sugestivo de suas possibilidades.

-----------------------------------------------------------------------------------------
A Elite e a Tropa

Joyce Martins

     “Pega um, pega geral, também vai pegar você.”. A música do filme poderia muito bem se referir a ele mesmo. Não há quem não tenha sido “pego” por Tropa de Elite. Até os que não o assistiram repetem as frases do Capitão Nascimento e dos outros personagens. A história, passada há dez anos, ainda é a triste realidade dos morros cariocas. Dez anos e, se algo tiver mudado, com certeza não foi para melhor.

     O filme sai da superficialidade de botar a culpa somente no sistema e espalha remorsos em todo mundo. O que é o sistema ? Quem o permite ? Uma das primeiras cenas é a morte de um homem, no morro, por um oficial do BOPE. Em seguida, mesma cena, o Capitão da tropa pergunta a um estudante: “Tá vendo este cara aqui? Quem matou este cara?” A pergunta é respondida pelo próprio capitão: “Quem matou foi você.”

     A responsabilidade, quando jogada para ambos os lados, acaba por não ser sentida em nenhum deles. A culpa é de todos e de ninguém. E quem pagou a bala ? O Estado.

     O filme de Padilha gera polêmica porque foge ao lugar-comum: é narrado por um capitão do BOPE que procura substituto. Ao contrário da idealização do bandido, como ocorre em Cidade de Deus, enfatiza-se a força da coerção social pesando sobre os oficiais do Bope. Basta lembrar de Matias, o cara bonzinho e pacato. Matias sobe o morro, sem se identificar como policial, pra conhecer a ONG onde trabalha a então namorada. Lá escuta de um funcionário, referindo-se aos traficantes: “O pessoal aqui tem consciência social”. O policial e estudante de Direito convive com colegas fumantes de maconha e que traficam drogas dentro da faculdade, os mesmos que trabalham na ONG e parecem não se importar em ajudar a manter o tráfico. Matias foi torturado pela hipocrisia da classe média.

     O narcotráfico é crime dos piores porque escraviza, e não só através do vício. É um caminho sem volta para os que decidiram ser ou compactuar com traficantes e para os que optaram por proteger o resto da população na elite da tropa. Incomodado pela violência simbólica, dentro da faculdade, ao manifestar visão sobre a polícia diferente do resto da turma, ao final da trama Matias já tornara-se frio e sem sentimentos.“Estava se transformando num policial de verdade”, diz o narrador.

     Havia sido encontrado o substituto.

     Ora, é como nos diz Durkheim, o fato social é exterior a nós. Com ou sem Nascimento, a regra do BOPE é matar sem dó. Numa situação em que a anomia gera regras, tudo é permitido, no entender do Capitão.

     É a visualização do estado de natureza de Hobbes e, numa guerra, nunca há apenas um culpado.

     Dizer que Tropa de Elite é fascista e faz a defesa do BOPE é não conseguir ir além da visão do Capitão Nascimento (narrador) e acabar por não enxergar o filme em sua totalidade.

     O terceiro setor ajuda a manter o sistema. Quem fuma maconha quer permanecer com seu beck. A solução foi dizer que o filme é fascista. Ledo engano. O filme reafirma: não dá mais para fechar os olhos e tentar enfeitar a realidade com paliativos.

     Tropa de Elite cumpre um importantíssimo papel no cinema nacional: fala sobre nós mesmos e gera reflexões.

     Enquanto o treinamento do BOPE permanecer o mesmo e a sociedade permanecer tal como é, compactuando com o crime, nada vai mudar. A história de hoje será a mesma daqui há 10 anos e tropas, mais violentas, virão.

Joyce Martins é estudante de Ciências Sociais na UFC.

 
Para saber mais sobre a Aurora de Cinema AURORA de Cinema, de Teatro, de Arte... Textos de Rubens Ewald Filho, Marcelo Janot, Celso Sabadin, Carlos Alberto Mattos... Para saber mais sobre eventos culturais e lugares de CINEMA Uma estante virtual para produções audiovisuais de todos os gêneros, matizes e intenções Um espaço para você saber mais sobre este grande Mestre da Crítica Cinematográfica Notícias do nosso Audiovisual Aqui você pode conversar conosco