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| "O
Cinema cria imediatamente uma direção
para a vista, que é um sentido eminentemente
abstracionista, e uma fantasia para a imaginação".
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Vinícius
de Moraes |
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Moviola |
Mundo
Cão País Afora
LG
de Miranda Leão
Semidocumentário
de boa qualidade dirigido por José Padilha (1963-),
Tropa de Elite é, no entanto, péssima
higiene mental, como diria o velho Paurillo Barroso diante
da violência e da barbárie retratadas no filme
Não
se trata de uma realização fascitóide,
mas de uma narrativa feita do plano-ponto-de-vista (PPV)
dos policiais.Tropa de Elite se impõe pela ousadia
de mostrar, como ainda não se fizera nessa extensão,
a ação do Batalhão de Operações
Policiais Especiais (BOPE) nas favelas dos morros da antiga
Cidade Maravilhosa, nessa guerra sem fim contra os traficantes
de drogas e armas, resultante de erros acumulados das autoridades,
da falência das medidas governamentais para resolver
o problema e do binômio maldito: a incompetência
casada com a corrupção e a impunidade brasileira.
Não é demais lembrar as previsões de
Orson Welles quando no Rio, em 42, visitou as favelas ao
lado de Vinicius de Moraes, pois não queria ver apenas
o Quitandinha, o Carnaval, o cassino da Urca, a beleza da
topografia e suas ilhas e praias paradisíacas. Foi
quando disse ao mestre Vina: “Vocês estão
criando os frankensteins de amanhã. As criaturas
se voltarão contra o seu criador. As favelas crescerão
desordenadamente e não haverá quem possa controlar
a delinqüência futura”... Vinícius
lhe respondeu com uma mentira branca da qual se arrependeu:
“O governo vai retirar todos esses favelados e levá-los
para outro local nos próximos dois meses” ...
O depoimento de VM ouvido por este escriba e outras pessoas
numa recepção ao vate, quando aqui esteve
em 1976, foi incluído pelo cineasta Firmino Holanda
em seu “Cidadão Jacaré”. Hoje
são umas 700 favelas cariocas dominadas por traficantes
bem armados e organizados. Como terminará tudo isso?
Sinopse
O
filme se baseia em depoimentos de doze oficiais da PM e
de um psiquiatra. O roteiro de Rodrigo Pimentel, Bráulio
Mantovani e do mesmo Padilha enfoca o drama pessoal do Cap.
Nascimento (Wagner Moura), estressado e em dúvidas
quanto ao acerto de suas decisões e às suas
perspectivas de caráter profissional. Quer deixar
o comando do BOPE e escolher um substituto à altura.
Fica dividido entre Neto (Caio Junqueira) e André
Matias (André Ramiro). As ações nos
morros (não fora o BOPE os traficantes já
teriam sitiado a cidade, diz um personagem lá pelas
tantas) são mostradas com toda violência, prisões,
morte de inocentes, confissões arrancadas por torturas
com sacos plásticos, em meio a palavrões de
todo tipo. A narrativa retrocede depois para mostrar a preparação
de futuros comandados, quando a violência se volta
para os recrutas de um curso preparatório semelhante
a uma escola de sadismo para eliminar os “fracos”,
obrigados até a alimentar-se de comida jogada ao
chão... As ações continuam até
os 118min de projeção. O final? Não
há. O filme prossegue nos noticiários da TV
e dos jornais, não se sabe até quando...
Direção
fílmica
Padilha
logra o realismo cinematográfico típico de
um semidocumentário ao reconstituir as situações
vividas pelos dois lados do conflito. Em rigor, os combates
não são ficcionais: ocorrem daquele modo quase
todo dia e o diretor apenas os recriou. Também evitou
cenas de sexo apelativas e fez boa ligação
entre o caso do estudante negro (um policial infiltrado)
e a estagiária de uma ONG. Aqui insere a crítica
velada sobre o consumo de drogas no seio da classe média.
Não entendemos o motivo pelo qual Padilha não
utilizou a “steadicam” com estabilizador digital
de imagem (DIS) para evitar a câmara treme-treme.
O abuso das panorâmicas ultra-rápidas, os indefectíveis
“chicotes”, tampouco enriquece o realismo e
a tensão buscados pelo cineasta. Há imagens-significantes
como a sugestão de empalação com cabo
de vassoura e a morte horrível do traficante queimado
vivo dentro de um “casaco” de pneus. A montagem
do tempo-espaço fílmico a cargo de Daniel
Rezende contribui para dinamizar as transições
nesse tipo de narrativa, como quando se vêem primeiro
as luzes do teto do túnel e depois a mesma cena,
mas aí os carros já passam ao plano aproximado
e as luzes vão ficando para trás, um bom “raccord”
de movimento para manter a continuidade da ação
prevista.
Elenco,
foto, música
A
direção fotográfica de Lula Carvalho
reúne qualidades técnicas necessárias
para o êxito do filme. O elenco está praticamente
irrepreensível com Wagner Moura à frente (já
referido nestas críticas) em interpretação
de ator consumado. Seu “show” de machismo sobre
a mulher Rosane é impecável. Ficam-lhe um
pouco atrás os demais componentes, incluídas
as atrizes, mesmo em papéis menores. A música
às vezes incômoda e barulhenta atende às
exigências dos bailes “funk”. Não
há como colocar ali uma bossa-nova dos anos dourados
de JK, como lembrou um saudoso crítico carioca.
Sobre
José Padilha
Nascido
em 1963, José Padilha tornou-se aficionado de cinema
mal saído da adolescência. Começou como
produtor e roteirista de “Os Carvoeiros”, de
Nigel Noble (1999), para estrear seu primeiro longa, o semidocumentário
“Ônibus 174” (2002), no qual retratou
com tintas fortes e segurança técnica a tragédia
urbana dentro de um coletivo em pleno Rio de Janeiro, hoje
a cidade dos assaltos diários à luz do dia
e das balas perdidas... Os pontos de contato com Cidade
de Deus (neste o PPV é o dos moradores das favelas)
são de somenos importância, pois o RJ é
uma cidade em guerra, de triste perspectiva para as crianças
traumatizadas pela violência. Pelo visto, temos mais
um cineasta brasileiro com bastantes afinidades com o veículo
e cujo trabalho até agora é bem sugestivo
de suas possibilidades.
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Joyce Martins
“Pega
um, pega geral, também vai pegar você.”.
A música do filme poderia muito bem se referir a ele
mesmo. Não há quem não tenha sido “pego”
por Tropa de Elite. Até os que não
o assistiram repetem as frases do Capitão Nascimento
e dos outros personagens. A história, passada há
dez anos, ainda é a triste realidade dos morros cariocas.
Dez anos e, se algo tiver mudado, com certeza não foi
para melhor.
O
filme sai da superficialidade de botar a culpa somente no
sistema e espalha remorsos em todo mundo. O que é o
sistema ? Quem o permite ? Uma das primeiras cenas é
a morte de um homem, no morro, por um oficial do BOPE. Em
seguida, mesma cena, o Capitão da tropa pergunta a
um estudante: “Tá vendo este cara aqui? Quem
matou este cara?” A pergunta é respondida pelo
próprio capitão: “Quem matou foi você.”
A
responsabilidade, quando jogada para ambos os lados, acaba
por não ser sentida em nenhum deles. A culpa é
de todos e de ninguém. E quem pagou a bala ? O Estado.
O
filme de Padilha gera polêmica porque foge ao lugar-comum:
é narrado por um capitão do BOPE que procura
substituto. Ao contrário da idealização
do bandido, como ocorre em Cidade de Deus, enfatiza-se a força
da coerção social pesando sobre os oficiais
do Bope. Basta lembrar de Matias, o cara bonzinho e pacato.
Matias sobe o morro, sem se identificar como policial, pra
conhecer a ONG onde trabalha a então namorada. Lá
escuta de um funcionário, referindo-se aos traficantes:
“O pessoal aqui tem consciência social”.
O policial e estudante de Direito convive com colegas fumantes
de maconha e que traficam drogas dentro da faculdade, os mesmos
que trabalham na ONG e parecem não se importar em ajudar
a manter o tráfico. Matias foi torturado pela
hipocrisia da classe média.
O
narcotráfico é crime dos piores porque escraviza,
e não só através do vício. É
um caminho sem volta para os que decidiram ser ou compactuar
com traficantes e para os que optaram por proteger o resto
da população na elite da tropa. Incomodado pela
violência simbólica, dentro da faculdade, ao
manifestar visão sobre a polícia diferente do
resto da turma, ao final da trama Matias já tornara-se
frio e sem sentimentos.“Estava se transformando num
policial de verdade”, diz o narrador.
Havia
sido encontrado o substituto.
Ora,
é como nos diz Durkheim, o fato social é exterior
a nós. Com ou sem Nascimento, a regra do BOPE é
matar sem dó. Numa situação em
que a anomia gera regras, tudo é permitido,
no entender do Capitão.
É
a visualização do estado de natureza de Hobbes
e, numa guerra, nunca há apenas um culpado.
Dizer
que Tropa de Elite é fascista e faz
a defesa do BOPE é não conseguir ir além
da visão do Capitão Nascimento (narrador) e
acabar por não enxergar o filme em sua totalidade.
O
terceiro setor ajuda a manter o sistema. Quem fuma maconha
quer permanecer com seu beck. A solução foi
dizer que o filme é fascista. Ledo engano. O filme
reafirma: não dá mais para fechar os olhos e
tentar enfeitar a realidade com paliativos.
Tropa
de Elite cumpre um importantíssimo
papel no cinema nacional: fala sobre nós mesmos e gera
reflexões.
Enquanto
o treinamento do BOPE permanecer o mesmo e a sociedade permanecer
tal como é, compactuando com o crime, nada vai mudar.
A história de hoje será a mesma daqui há
10 anos e tropas, mais violentas, virão.
Joyce Martins é
estudante de Ciências Sociais na UFC.
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