“Nenhuma
Cinematografia no Mundo é Feita Só de Filmes
de Exceção”
Por
Aurora Miranda Leão
AML
– Certa vez você declarou: “Fazer cinema
é uma coisa definitiva”. O que lhe move na hora
de decidir fazer um filme?
VC
- Fazer um filme é de uma responsabilidade
tremenda. Isso vai da covardia ao mais terrível dos
dramas ou das tragédias. O compromisso que eu acho
que se deve ter é essencialmente com a verdade, no
sentido mais abrangente possível. A relação
que você tem com a Arte é quase de editá-la,
é a relação de sintetizá-la. Então
essas coisas você tem desde o documentário, que
é a minha praia, digamos assim, até a ficção,
etc. E esse compromisso é um compromisso ético,
é um compromisso, no nosso caso do documentário,
com o que a gente chama de a verdade, uma verdade que você
elegeu como algo que você pode desenvolver com compromisso.
Então fazer cinema também é algo de muito
ligado ao momento e ao lugar onde você vive. Você
não pode ser inconseqüente, no meu entender, porque
tem gente que acha que não é bem assim. Mas
eu, pra meu uso pessoal, e pra uso interno do cinema, eu tenho
um compromisso muito grande com o que está em volta,
com a cidadania, com o dia de amanhã, com as outras
pessoas, um compromisso com o outro e portanto pode ser uma
comédia, como eu disse, o humor mais incrível,
mas antes de mais nada um compromisso com a verdade, com a
verdade humana, com as pessoas, enfim, a isso que eu me referia.
Então quando a gente vê assim um filme com o
qual gasta-se uma fortuna pra fazer e é pra nada, quer
dizer, esta inconseqüência total, tanto do ponto
de vista da bilheteria... então ou o sujeito faz filme
olhando pro próprio umbigo ou então pra quê,
pra contar uma anedota, meu Deus, pra que, pra que isso? Então
acaba sendo uma coisa absolutamente inconseqüente.
AML-
Então você acha que obra de arte deve ter sempre
uma mensagem social, política, de paz, é importante
que ela diga sempre alguma coisa ao público ?
VC
- É, eu
acho que se não acrescenta nada à sua experiência,
não merece o nome de Arte. Talvez do ponto de vista
de uma mensagem, não tanto. Mas eu acho que se você
se debruça sobre uma obra de arte e ela não
lhe fala ao coração, não lhe fala à
mente, não lhe acrescenta à sua experiência
de vida, não acrescenta aos seus pensamentos e aos
seus sentimentos, eu acho que é inconseqüente,
como eu ia dizendo, né ?!
AML
- Vladimir, embora você seja totalmente identificado
em Brasília, você é paraibano. Eu queria
que você contasse como foi essa sua saga de chegar em
Brasília, se identificar tanto com a cidade a ponto
de ficar e não querer mais sair...
VC
– A minha história de vida é muito trajetada
ou picotada, se puder dizer assim, porque eu saí fazendo
um... vamos dizer assim, como um rio que fica procurando leito.
Por exemplo, eu fiz faculdade em Salvador, fiquei morando
em Salvador, onde eu quase me tornei baiano, né, porque
baiano, posso dizer, é quase um estado de espírito,
a gente fica ali e... e eu fui pra Bahia numa época
que era uma coisa muito interessante... eu estudei com Caetano
Veloso na Faculdade de Filosofia, conheci o Gil nessa época,
a gente ficava todo mundo junto, o Torquato, que também
viveu na Bahia, o Tom Zé... o Tom Zé nessa época
era a sumidade baiana, era o principal líder, ficava
o Nélson Coutinho, o grande filósofo, nessa
época era da nossa turma também. Daí
eu fui pro Rio, nos conturbados anos 60 eu vivi no Rio de
Janeiro, inclusive já no final da década eu
assisti e cobri como repórter a passeata dos Cem Mil,
vi aquilo tudo e aquilo tudo me impressionou. Em 70 é
que eu fui viver em Brasília, aliás, fui fazer
uma experiência de dois anos apenas... não era
professor, não tinha o menor interesse nem vocação...
Fazia filmes e trabalhava para sobreviver como repórter.
Mas aí em 70 surgiu essa possibilidade de ficar dois
meses em Brasília para fazer um Centro de Documentários
no Planalto Central, uma coisa ligada à Universidade
de Brasília, mas o amigo que me levou, uma figura super
envolvente, um amigo muito fraterno, o Fernando Duarte, um
dos maiores fotógrafos do Cinema Brasileiro, que foi
quem me convidou, e daí a alguns dias eu estava lá
e cobrei dele: “Como é, este Centro vai sair
ou não vai?” – porque ele era responsável
por eu estar ali – e ele disse: “Vai, vai sair,
calma”. E um dia ele me disse: “Olha, tem uns
alunos aí, eles estão doidos pra saber da tua
experiência no cinema”. E eu falei: “ Mas
eu não sou professor, não é o caso”.
Ele disse: “Me dá essa ajuda, fala pra eles.
Eles estão lhe esperando...” Aí ele foi,
me levou numa sala e eu fiquei falando com os alunos numa
sala de aula. Até que gostei. Aí no outro dia,
veio outra turma, e no outro dia outra turma e uma semana...
Resultado, pra encurtar a história, eu fiquei na Universidade
de Brasília 27 anos e não voltei mais pro Rio,
nem coisa nenhuma. Botei uma âncora ali, deitei raízes
em Brasília. Eu sou uma árvore transplantada
do Nordeste. Foi por isso que eu fiquei em Brasília.
Então é um circunlóquio que eu estou
fazendo pra você ver que a vida é toda cheia
de surpresa e é por isso que ela é interessante...
e é por isso que eu faço documentário.
Porque ele pode me surpreeender e não eu surpreeender
a ele ou as pessoas com quem a gente se envolve,
com quem a gente se entrevista e tal. O documentário
que não surpreende a quem o faz não tem muita
graça, vamos dizer assim, não tem muita atração
pra quem faz. Então eu fui vivendo aí e hoje
eu estou em Brasília há 35 anos, elegi como
meu objeto de trabalho o lugar onde eu pesquiso, onde eu vejo
a humanidade transitar. E outra coisa que me cativa em Brasília
é que é uma espécie de caixa de ressonância.
Pra lá convergiu, primeiro, várias culturas.
Brasília foi construída a partir do chamamento,
da chegada até ali de trabalhadores qualificados e
não qualificados de todo Brasil, e como nordestino
que sou eu prestei muita atenção, depois que
fui pra lá, em 70, já tava pronto, e aí
eu comecei a descobrir que os nordestinos tinham construído
àquela cidade, junto com outros, com gaúchos,
mineiros, com os do centro-sul, os do extremo norte, etc.
E aí me apaixonei por esse tema, e um dia, numa feira,
numa periferia de Brasília, eu ouvi falar, pela primeira
vez, num massacre de operários que tinha acontecido
durante a construção civil. Aí eu me
apaixonei por aquela coisa, a paixão, digamos assim,
de dizer Aqui tem um filme. E fiquei 19 anos fazendo esse
filme que chama “Conterrâneos Velhos de
Guerra”... enquanto fazia outros, enquanto
eu trabalhava em vários curtas-metragens, e até
outros filmes de longa-metragem mesmo, mas esse foi mais difícil
de fazer porque as pessoas, como havia uma deliberação...
esse filme eu comecei em 70, 71, e havia uma ditadura militar
batendo pesado nas pessoas, tinha gente presa, gente perseguida,
gente torturada, de forma que eles não queriam falar
com medo. Era um assunto que tinha acontecido em 1959, não
tinha nada que ver com ditadura, era ainda o governo Juscelino,
como você sabe, mas as pessoas tinham medo de falar,
as pessoas humildes do povo, não tinham muita segurança.
Achavam que se falassem aquilo iam pra cadeia, e aí
eu esperei até uns dias e fui fazendo... fui, vamos
dizer assim, coletando imagens e sons que podiam dar uma idéia
do que era essa Brasília. Não a Brasília
oficial, a Brasília do país formal, mas eu queria
o real. E aí fui filmando: a chegada dos tricampeões
em 70, aquela coisa alienada com o Garrastazu Médici
recebendo eles na Tribuna de Honra do Palácio do Planalto,
a visita do Papa, que encheu aquela Esplanada dos Ministérios,
enfim, todas essas coisas que aconteceram na cidade, mas esperando
um dia poder contar a história do massacre.
Até que em 88, por aí, já depois da Anistia,
resolveram falar, resolveram contar essa história e
aí eu voltei as baterias e as câmaras para a
finalização do filme. Aí fechei o filme
com entrevistas e depoimentos que iam desde a lavadeira de
roupas que foi um dia entregar a roupa no acampamento dessas
pessoas que tinham sido maltratadas e não encontrou
mais ninguém, e disseram: “Olha, a senhora não
pode nem entrar aqui. Houve um massacre aqui, houve uma matança
aqui, a senhora não pode entrar”. E ela guardou
essas roupas durante anos. Depois ela deu pra outros nordestinos
pobres que estavam chegando ali. E tem depoimentos de todos:
do Oscar Niemeyer, do Dr. Lúcio Costa, dos braços
direitos dos diversos capatazes que Juscelino teve na construção
de Brasília. Mas aí eu definitivamente elegi
Brasília como o lugar onde eu... como eu disse, uma
certa humanidade desfila aí. É onde se decide
os destinos da Nação, é onde o Legislativo
e o Executivo têm uma visão do Brasil e para
onde convergem todos os problemas nacionais. Então
fiz vários filmes em cima desse espectro. Eu fiz um
filme que é um longa-metragem também, que é
“O Evangelho Segundo Teotônio”,
que é o Teotônio Villela, o senador que morreu
de câncer, e quando ele tava praticamente à beira
da morte, eu resolvi acompanhá-lo, propus a ele, e
ele topou, e eu saí com ele pelo Brasil afora, acompanhando,
contando a história dele, e ele de presídio
em presídio, de cadeia em cadeia, a fim de identificar
onde estavam os presos políticos, os últimos,
para tirá-los de lá. E enfim, Brasília
é um palco iluminado que eu recebi de graça,
e fui adotado por Brasília. Sou cidadão brasiliense
honorário, não sei porquê mas me fizeram
essa homenagem, e eu adotei Brasília e fui por ela
adotado. E fico lá, e com uma dívida muito grande,
né, porque fui acolhido, me considero assim um filho
da terra, embora não seja, porque o Nordeste tá...
eu deixei o umbigo enterrado no mourão da porteira,
lá na Paraíba.
AML-
E você volta a Paraíba de vez em quando?
VC
- Volto, volto. E agora, já que você tocou nisso,
eu não fico um ano sem dar uma chegadinha...
AML-
Você ainda tem familiares lá ?
VC
- Tenho alguns, tenho primos, os tios já morreram todos.
Parentes assim em segundo ou terceiro graus, e lá parece-me
que é uma coisa, eu não perco o sotaque. Eu
sou assim telúrico. Eu até não faço
o menor esforço pra isso mas é uma coisa que
está dentro de mim. Eu deixei a Paraíba
mas a Paraíba não me deixou. Mora no
meu coração. Então, já que você
tocou nisso, eu estou voltando através do meu ofício,
através da Arte. Porque faz muitos anos que eu não
faço um filme ligado diretamente a Paraíba.
Fiquei fazendo filmes em Brasília... o último
foi um longa sobre a invasão da Universidade de Brasília,
em 68, que chama Barra 68, enfim, Brasília
virou um catálogo de emoções, de sentimentos
e deposições perante a vida. Mas agora eu estou
voltando a Paraíba, já voltei várias
vezes, devo consumir mais um tempo por aí... estou
fazendo um filme sobre o maior escritor paraibano, e um dos
maiores da Literatura Brasileira, que foi José Lins
do Rego. Eu estou fazendo um perfil do Zé Lins, permeando
a obra e a vida dele, que tem tudo a ver... Se tem uma coisa
que está entranhada com a outra, permeada pela outra,
é a obra do Zé Lins e a sua própria vida.
É a vida de um homem que a gente sente que, ao mesmo
tempo que era absolutamente extrovertido, torcedor de futebol,
ia todo domingo ao Maracanã, e vivia muito pra isso,
era Flamengo doente, e ao mesmo tempo a gente sente uma tremenda
angústia, um homem torturado. Ninguém sabia
porquê. Parecia um ciclotímico, maníaco-depressivo,
sei lá, que ora estava lá em cima, eufórico,
e ora estava triste.Entrava na livraria José Olympio
de manhã, cumprimentava todo mundo, recebia os recados
da telefonista e tal, cumprimentava, contava uma história,
uma piada, batia um tapinha no ombro de um e de outro; depois,
quando dava-se fé, ele estava sentado no fundo da livraria,
num canto, isolado, pensativo, ninguém sabia em que.
O Otto Maria Carpeaux, que foi um dos maiores críticos
e um dos homens que mais compreendeu Zé Lins, dizia
que ele era um homem são em busca de uma doença.
Era um hipocondríaco, etc. Depois a gente soube, agora
mais recentemente, que ele teve um episódio de infância
que marcou, tinha de ter marcado ele como um ferrão
de boi, como uma marca que deixa fenda no couro. Ele matou
um rapazinho da idade dele num engenho.Isso nunca foi revelado,
a família guardou... e deve ter sido uma tortura pra
ele a vida inteira ter carregado isso.
AML
– E isso entra no seu filme ?
VC-
Entra, porque eles me contaram. A família mesmo me
contou. A filha, inclusive. Foi um episódio muito doloroso,
pra eles terem isso, inclusive porque nunca revelaram, isso
só chegou agora, nesses últimos anos é
que isso veio a furo. De forma que isso meio que influencia,
determina um certo comportamento, essa própria obra.
O Zé Lins é o homem dos personagens fracassados,
sempre tem um fracasso. Nunca um cara se realiza, tem sempre
uma coisa dolorosa. E ele tinha um medo da morte, assim uma
tortura... Mas é uma vida muito rica por isso mesmo,
porque é contraditória. O humano está
de corpo inteiro nele.
AML-
Você também não acha que Vinícius
de Moraes tinha isso, era um homem muito alegre mas sempre
angustiado com a morte?
VC-
Mas aí ele superou tudo com essa alegria de viver,
com tantos amores que teve, não foi bem o caso de Zé
Lins, porque Zé Lins era um homem caseiro, uma coisa
assim. E Vinícius não. Vinícius tirou
um sarro na vida que foi uma coisa maravilhosa, né
?!
AML
- Mas quem conviveu com ele diz que ele era um homem muito
triste...
VC
– Muito triste às vezes, né ?!
AML
– Eu quero chegar é no ponto de afirmar que a
pessoa quando tem muita cultura, muita inteligência,
sensibilidade, percepção da vida, é sempre
meio angustiada...
VC
– É a sensibilidade. É antena do mundo,
né ?! Tudo toca aquela sensibilidade, tudo transforma-se
numa dor...
AML
– Eu acho que no fundo essa idéia de que o ser
humano é finito, que vamos morrer e tudo vai acabar,
isso...
VC-
É, essa coisa finita é uma coisa angustiante.
AML
– Você tem esta angústia também
?
VC
- Eu tenho demais (Risos). Eu só penso nisso (Risos)...
AML
– “O País de São
Saruê” é uma das grandes curiosidades
que eu tenho. Eu quero ver há muito tempo mas a gente
não encontra. Eu queria que você me falasse sobre
ele.
VC
- “O País de São Saruê”
é um retorno ao telurismo, é uma volta à
terra. Eu estou fazendo uma viagem à terra com o filme
sobre Zé Lins que vai se chamar “O Engenho de
Zé Lins” – engenho no sentido de gênio,
de possibilidade de criação, e engenho a fábrica
de açúcar. E Saruê eu posso dizer que
foi o ponto de partida daí, foi o inventário
que eu quis fazer mostrando como o sertão seco do Nordeste
tinha se... vamos chamar assim, se civilizado, como que isso
aconteceu. Carregaram as boiadas do litoral... porque o Brasil
começou no litoral, e com as boiadas e com o exíguo
espaço das boas terras pra fazer os engenhos, eles
caminham com as boiadas no sentido oeste e foram subindo pro
sertão e lá criaram as fazendas de gado e junto
às fazendas havia uma capela, e junto às capelas
criou-se o primeiro arruado, e dum primeiro arruado criaram-se
as primeiras sesmarias e enfim foram dividindo e foi crescendo
isso e terminou se povoando, como está em Capistrano
de Abreu, o grande historiador que conta toda a civilização
do couro, e isso sempre me tocou, inclusive porque eu nasci
num lugar chamado Itabaiana, que é a meio caminho do
sertão, entre o sertão e a capital, e o gado
do sertão teve uma época que vinha embarcar,
descia as boiadas tangidas por vaqueiros, etc, e descia as
boiadas do alto sertão da Paraíba, de parte
do Ceará, e vinha embarcar nesse lugar chamado Itabaiana.
E tinha um lugar em Itabaiana chamado Triângulo, que
era um cruzamento ferroviário e ali embarcava gado.
Uma grande feira de gado, que eu ainda alcancei, a feira do
gado de segunda-feira em Itabaiana. Então aquele ambiente,
vaqueiros tangindo... o meu avô, ele era... chamava
couiero, ele fazia celas, arreios, etc, praqueles vaqueiros
todos. Então tinha dia de feira que entrava um boi
brabo, como a gente chamava, e se alojava no terraço
de casa e os vaqueiros vinham e ferreteavam aquele bicho.
As paredes ficavam tudo cheia de pingo de sangue, e a gente
ficava dentro de casa com medo, sabia que o boi tava ali,
e era um boi brabíssimo, né ?!, até que
os vaqueiros tiravam... Isso tudo ficou na minha memória
desde menino, uns verdadeiros centauros... os vaqueiros se
vestiam de couro da cabeça aos pés com aquelas
esporas que tilintavam. Isso me deixou muito tocado. A minha
imaginação sempre funciona assim. Aí
quando foi coisa de 30 anos atrás, eu resolvi contar
como é que o sertão foi povoado, como é
que isso aconteceu, e me baseei nos três reinos da natureza:
o vegetal, o animal e o mineral. Então peguei as boiadas,
fiz todo o ciclo do boi, do couro, etc. Depois o algodão,
o vegetal, que foi motivo de grande riqueza no sertão,
principalmente com a guerra civil americana que comprou aquela
coisa aos bocados, e muita gente enricou. E depois acharam
ouro numa região chamada São Vicente de Itajubatiba,
no alto sertão da Paraíba. O sujeito foi fincar
uma estaca de cerca e quando ele cavou, ele encontrou uma
pepita enorme de ouro. Em pouco mais de seis meses, criou-se
uma cidade de São Vicente com tudo que você pensar
de uma cidadezinha de hoje, com difusora, aquele negócio
com alto-falante, com cabaré, com prostituição,
enfim, um faroeste. Aí eu fui e encontrei a cidade,
mas a cidade já acabada, já na decadência,
e refiz esse percurso. Então, os três reinos
da natureza. Isso foi São Saruê, tal como está
!
AML
– E por que o nome São Saruê ?
VC-
São Saruê é o seguinte: tem um folheto
de feira, um cordel que se chama Viagem a São Saruê.
E o cara inventou esse nome. Saruê pode ser o macaco
saruê, que é um tipinho de macaco. Mas pode ser,
alguém já falou, que pode ser a corruptela –
porque ce sabe a nossa cultura tem muito de tomar emprestado
do francês, desde o século 19 -, e aí
é uma corruptela de Saruê, que vem de Suarré,
festa, o antigo Suarré, então pegou-se isso,
e a terra que é descrita é uma terra utópica,
que não existe, onde, por exemplo, as árvores
são pejadas de dinheiro, as notas de dinheiro. Repare
que contradição: o dinheiro já nasce
nas árvores. O chão é forrado de preto,
dos rios escorre leite e mel, o céu é forrado
de ouro, os homens nunca envelhecem, a humanidade não
envelhece, os homens podem ter tantas mulheres e as mulheres
tantos homens quanto quiserem, entendeu?, é o paraíso...
AML
– O ideal, né ?!
VC
– É o ideal, é o paraíso,
um paraíso total, né... Então é
o mito do paraíso São Saruê, é
uma terra utópica, né...
AML
– Isso foi nos anos 70, e este filme
saiu de competição do Festival de Brasília
para dar lugar a “Brasil Bom de Bola”, e ao mesmo
tempo você participou da Passeata dos Cem Mil no Rio
de Janeiro e de todo o movimento político dos anos
70. Você sofreu algum tipo de perseguição
por ter uma atividade tão politizada? Chegou a ser
exilado ?
VC
– Não, é o seguinte, aí tem outra
história. Eu fui convocado por Eduardo Coutinho...
porque eu cobri o movimento das Ligas Camponesas no Nordeste,
como repórter de jornal, correspondente do jornal Novos
Rumos, que era do Partido Comunista. Aí quando o Eduardo
Coutinho foi fazer o “Cabra Marcado para Morrer”,
aí me indicaram e ele esteve comigo, nos entendemos
perfeitamente aí ele me convidou para ser assistente.
Porque eu conhecia João Pedro Teixeira, que é
o Cabra Marcado pra Morrer. Porque quando havia reuniões
do Partido em João Pessoa, que ele vinha de Sapé,
no interior, ele se hospedava comigo na minha casa porque
cada companheiro tomava conta de um outro, e eu gostava muito
do João Pedro e aí ele ficava na minha casa,
dormia, almoçava, ficava lá enquanto duravam
aquelas zonais convenções do Partido Comunista,
eu era militante também. Por isso o Coutinho me chamou.
Eu já tinha feito o meu primeiro filme, o “Romeiros
da Guia”, e ele me conhecia através
do filme, não me conhecia pessoalmente, aí eu
fui trabalhar no “Cabra Marcado para Morrer”,
e eu trabalhava... eu tinha uma sinecura lá, eu trabalhava
no antigo Instituto de Previdência e Assistência
ao Servidor do Estado, Ipase. Quando a gente estava no Cabra
Marcado para Morrer estourou o golpe militar. Ai eu com medo
de ser pego e torturado porque eu era militante, eu não
voltei mais, eu abandonei. Aí eu fui demitido por abandono
de cargo e ao mesmo tempo acusado – porque uma vez no
próprio prédio onde eu trabalhava, nos aniversários
de Prestes, eu fazia um boletim... eu tinha um folheto que
era distribuído, “Salve 3 de Janeiro”,
se não me engano, “O Aniversário do Cavaleiro
da Esperança! e tal”... a gente molhava aquilo
em água, um monte, como esse papel de jornal aqui com
esse slogan, com esses dizeres, e subia uns seis andares,
ia no cocuruto do prédio com aqueles boletins molhados...
a gente molhava, não muito, e deixava ali em cima uma
pilha. Quando o sol vinha e batia, aquilo secava e voava naturalmente,
e caía em cima da cidade, e todo mundo pegava no ponto
Cem Réis, que era o ponto central, “Salve o Rio
de Janeiro e tal”... e aí um sujeito me denunciou
e eu fui julgado na Sétima Região Militar à
revelia. Eu não estava presente, era revel, como eles
chamam.A minha mãe que foi lá um dia perguntar
e tudo, e eu sumi, me escondi, nunca mais voltei lá.
Aí do “Cabra Marcado pra Morrer”, nunca
mais... Ninguém nunca me pegou. E eu vivi... É
uma história terrível, terrível não,
muito engraçada, até um pouco fabulosa. Em Socorro,
um bairro do Recife, tinha um quartel, o 14º Regimento
de Infantaria, onde trabalhava um parente da minha noiva naquela
época (depois seria minha mulher), que era funcionário
civil, e ele foi no arquivo morto do quartel e tirou uma identidade
de um camarada e nós arrancamos o retrato dele e pusemos
o meu. Aquilo funcionava como minha carteira de identidade.
Só que o sujeito chamava-se José Pereira dos
Santos... Tanto é que eu digo ao Nélson que
eu sou parente dele, do Nélson Pereira, né ?!
E vivi mais de ano, fui pro Rio de Janeiro, fugi, desapareci
pra não ser preso... porque naturalmente com esse nome
Vladimir – no Exército eu já tive problemas
com o nome Vladimir, que os caras queriam... o meu comandante
queria saber porque eu era Vladimir, que é um nome
russo, o nome do Lenine, né ?! Então eu fui
pro Rio, fiquei lá até que eu fui pra Brasília
em 70, aí tirei nova carteira de identidade com meu
registro, aí foi que eu voltei de novo a ser Vladimir.
AML
– Mas esse Ipase que você abandonou
ficava onde ?
VC
– Era em João Pessoa.
AML-
Você saiu de lá e foi se esconder em Recife,
depois no Rio ?
VC
– É, eu fui embora. Não quis mais conversa
com nada. Porque primeiro que a gente foi cassado em Recife
como se fôssemos os mais perigosos facínoras.
Os caras botavam na televisão fotos nossas e o material
de filmar como se fosse material de guerra. Diziam que a gente
ia eliminar os delegados do interior – olha que loucura
!... Os delegados de polícia. Porque a gente ficou
naquela cidade Vitória de Santo Antão. O nosso
porto, o nosso QG de filmagem era aí, e a gente filmava
Galiléia. E na cidade, como no engenho, todo mundo
usava – eu não tenho barba – mas quase
todo mundo usava. Os outros tinham uma barba grande e eram
chamados os cubanos, por causa de Fidel Castro, porque a Revolução
era recente, a Revolução cubana, e quando houve
esse troço cada um foi pro seu lado. Fugimos.Eu ainda
tive que esconder D. Elizabeth Teixeira, que era a mulher
de João Pedro... Eu e minha mulher fomos passar uns
dias na casa de um parente meu em Recife e ele “encagaçou”,
você sabe esse tipo de coisa, né ?!, o sujeito
ficou com medo e disse: “Olha, pelo amor de Deus, tira
essa mulher daqui”... Porque aparecia na televisão,
e aí ele com medo nos expulsou de lá. Aí
eu peguei, eu e minha mulher, compramos uma roupa meio vistosa,
de chita, essas chitas cheias de... preparamos dona Elizabeth
assim como se fosse uma mulher da vida, botamos rouge, batom,
penteamos os cabelos dela, minha mulher oxigenou o cabelo
de Dona Elizabeth e eu fui levá-la num bairro distante
do Recife onde tinha um camarada que tinha conhecido João
Pedro Teixeira, que já tinha morrido a essa altura,
e acolheu ela: “Você pode deixar ela aqui. Pode
chamar o filho dela, avisar que ela tá aqui, que é
como se ela tivesse na família dela”. Aí
eu deixei D. Elizabeth lá e fui em Sapé, escondido,
fui em Sapé buscar Abraão, filho dela, pra tomar
conta dela.
AML
– E algum dia isso foi descoberto ?
VC
– Não (Risos), nunca. Isso está em livro,
está escrito por aí mas ninguém nunca
na época, ninguém nunca soube porque se tivessem
me pego.. aí eu fui pro Rio e Eduardo Coutinho me chamou
pra trabalhar num filme de Jabor como assistente, o Opinião
Pública e Rio, Capital do Cinema... e lá eu
fiquei no Rio o resto do tempo. Só daí eu fui
pra Brasília. Aí virei professor de Universidade
e pronto, livre.
AML
- Vladimir, você falou das Ligas Camponesas...
Você vê alguma relação entre as
Ligas Camponesas e o MST hoje ?
VC
– Eu acho que o MST é um movimento muito mais
estruturado, muito mais organizado, muito mais... vamos dizer,
influente, inclusive virou realmente nacional. Naquela época,
você talvez não fosse nem nascida, era um movimento
ainda muito precário, muito localizado, embora tenha
sido um dos motivos pelos quais aconteceu o golpe militar.
Porque era um rastilho de pólvora, e eles ficaram apavorados
quando viram que aquela coisa podia tomar uma proporção
muito grande. Hoje é diferente porque é quase
institucionalizado o MST e quando se fala hoje não
é nem um movimento social mais, é um partido
revolucionário. Que vai caminhar pra ser um partido
de massa, pelo menos a massa do campo, e já fazendo
uma conexão com os sem-teto da cidade, que é
a reforma urbana. Tudo isso tem a ver com aquele passado do
começo dos anos 60 mas já num outro nível,
muito mais talvez consistência política, mais
próximo de conseguir os seus objetivos de reforma e
tudo mais. Mas é muito parecido.
AML
– Você não acha que nós, que lidamos
com Arte, Cultura, jornalistas, artistas, que temos mais acesso
à informação, deveríamos atuar
mais firmemente para divulgar tudo que aconteceu neste país
em defesa da liberdade de expressão, deveríamos
fazer um trabalho maior para divulgar mais a nossa Dramaturgia,
os nossos filmes...porque a juventude muitas vezes não
tem exata do que o país viveu nos anos de exceção.
VC
– Eu acho que é fazendo filme, mais filme, cada
vez mais, e paralelamente a isso, lutar pela circulação
desses filmes.
AML
– E os filmes antigos que precisam ser vistos...
VC
– É, recuperar essa memória,
colocar esses filmes, disponibilizar não só
nas cinematecas mas através também desses sistemas
mais modernos, tecnológicos, de toda forma, todos os
suportes, todas as mídias, digamos assim. Pra que haja
uma reciclagem da própria memória, porque de
certa forma as novas gerações não conheceram.
Se você tirar os ícones principais, essas pessoas
mais conhecidas, do tipo Gláuber, Nélson, etc,
tem muito mais coisas... Você sabe que uma Estrela não
brilha sozinha. Então tem muito mais coisas que as
novas gerações precisam conhecer. Sou muito
favorável. E que a gente continue a fazer filme, antes
de mais nada, né ?!, porque tá difícil.
AML-
Você falou do Fernando Duarte, grande fotógrafo
que lhe ajudou na ida a Brasília.E você tem um
irmão, considerado um dos maiores fotógrafos
do país, e que de certa forma foi levado ao cinema
por você. Como é que foi isso ?
VC
– É, foi uma coisa que extrapola os nossos currículos
particulares porque é uma contingência natural.
Eu sou o irmão mais velho, e um irmão bem mais
velho porque são quase 14 anos de diferença.
Então praticamente... a minha mãe enviuvou muito
cedo. O meu pai, a quem o Wálter puxa bastante, o meu
pai era um homem extraordinariamente criativo, maravilhoso,
fascinante, que ele não conheceu, Waltinho... Waltinho
não conheceu praticamente o pai porque quando meu pai
morreu ele tinha um ano. E o pai que ele conheceu, quando
começou a se entender de gente, fui eu. Eu embalava
a rede, eu fazia higiene... Minha mãe era professora,
muitas vezes não tinha uma babá em casa e eu
tomei conta. Depois Waltinho foi crescendo, chegou o tempo
de colégio, eu comecei a trabalhar, financiei esses
estudos... Depois eu vivia no Rio e descobri indo, conversando
com ele, que ele tinha assim uma vocação para
uma coisa que eu identifiquei que fosse talvez um design,
né... Ele tinha feito desenho com o Raul Costa, um
pintor nordestino interessantíssimo que vive em Recife,
e aí descobri a ESDI – Escola Superior de Desenho
Industrial -, no Rio de Janeiro. Aí contei pra ele.
Eu disse, “Waltinho, a escola aqui é interessante...”
Levei prospectos, ele ficou encantado. Aí levei-o pra
morar na casa de uma tia nossa no Rio de Janeiro. E pra surpresa
minha, era uma escola de escol, uma escola burguesa assim,
do pessoal de Ipanema, cada um com carro, e chegou aquele
pobretão igual a mim no Rio, fez vestibular na ESDI
e, pra minha surpresa... eu trabalhava muito próximo
ali da ESDI, trabalhava no Diário de Notícias...
aí quando foi um dia ele chegou lá e disse “Passei
!”, aí a gente saiu pra comemorar. Eu nem acreditei,
passou na ESDI e vi a relação dos candidatos
calouros, né... E ele fez a ESDI. Lá ele conheceu
um professor maravilhoso, o Roberto da Matta, fotógrafo,
com quem ele aprendeu a fotografar, e aí um dia...
eu tinha vontade de fazer um filme sobre os trens que carregavam
cana nas usinas de açúcar do Nordeste. Aí
escrevi um roteiro e conseguimos uma câmara no Instituto
Nacional do Livro, naquela época, e onde ele fazia
um bico –Wálter trabalhou lá no Instituto.
E aí chamei ele pra fotografar. E ele disse: “Mas
como é que eu... eu não sei” – “Você
vai fazer, não tem problema nenhum”. Ele disse
“E se eu não conseguir fazer, e se eu errar ?”.
Eu disse: “Eu estou lhe chamando. Ninguém vai
alardear que você errou, não tem nada disso.
A gente joga fora e não se fala mais no assunto”.
Que era pra poder ele criar... eu sabia que ele ia acertar
mas eu disse isso pra ele ficar tranqüilo: “Você
pode errar à vontade. Vamos comprar negativo aqui,
vamos... a gente aproveita pra fazer uma visita pra nossa
mãe, que já faz tempo que a gente não
vai lá...” E partimos do Rio pros engenhos e
usinas de açúcar do Nordeste, e esse filme chama-se
Incelença para Um Trem de Ferro, o
primeiro filme que ele fotografou. Ele tremia nas bases mas
deu certo. E aí começou. Fotografou mais uns
dois ou três filmes meus e depois eu o apresentei a
um ex-aluno meu e foi o primeiro longa-metragem que ele fotografou,
que chama-se O Boi de Prata, de Augusto Ribeiro Jr. Daí
ele nunca mais parou. Nunca mais ele parou e é hoje
considerado um dos maiores fotógrafos brasileiros...
AML
– E já tem filho também
nisso, né ?!
VC
– Engraçado que outro dia ele me chamou pra ir
representá-lo num Festival em Lima, no Peru, que ele
ia ser homenageado, e ele não podia porque ele estava
fazendo o filme do Cazuza, aí pediu pra eu ir, aí
eu fui, fiz escala no Rio e dormi lá na casa dele.
Só que não tinha ninguém em casa. Só
tinha a empregada lá e eu cheguei, e dormi, e eles
chegaram de manhã, eu já tinha viajado. Quando
eu voltei do Peru, passei lá de novo... estavam já
nesse filme que ele está fazendo, não só
o mais velho que tem 22, 23 anos, que é um fotógrafo,
o Luís (Lula Carvalho que ele assina), mas o menor,
de 14 anos, já é assistente. Então os
três já estão no cinema. É Lula,
Lucas e Waltinho, o pai.
AML
– Quase 20% do mercado interno já tomado pelo
cinema nacional. Esses números lhe dão uma expectativa
positiva em relação à conquista do nosso
público, tanto em termos de produção/realização
como em termos de mercado ?
VC
– Olha, isso é mais um dos estertores. Olha,
eu digo estertores pra cima, né... Estertor não
é bem a palavra. É mais um surto, que se não
for amparado por mais condições, bem mais condições
do que nós temos, principalmente na questão
da distribuição, e ocupar o espaço na
televisão, de ocupar mais mídias, mídias
que eu digo... de que a gente possa disponibilizar os nossos
filmes em DVD, vídeo, seja lá o que for, CD-Room,
televisão, tudo, tudo, e que o Governo realmente se
disponha a fazer isso. Porque eu só vejo o cinema brasileiro
realmente vitorioso se houver realmente uma espécie
de projeto nacional para o cinema brasileiro, interministerial,
em que todas as forças de Governo, da sociedade, o
empresariado, tudo tomasse parte, e isso realmente se torne...
Porque é crucial, no meu entender, para a nossa identidade,
para a soberania nacional, pra tudo que diz respeito à
nacionalidade, que seja assim, porque se não a gente
continuará a ser uma porta aberta, escancarada para
se acolher as influências de fora, pra nossa descaracterização.
Então tem que ter distribuição, principalmente,
porque tendo distribuição automaticamente vai
ter produção porque a distribuição
vai puxar. O filme vai circular e “Tem mais, vem”,
né?! Passou 20, vem mais 30, vem mais 50, vem mais
70, e aí a gente cria não um cinema de exceção,
de obras-primas que fica – “Ah, porque tem O Quatrilho,
A Lavoura Arcaica, Central do Brasil, o Carandiru....”
São exceções, são obras excepcionais...
A gente precisa de muitos filmes é,vamos dizer, medianos,
que sustentem o mercado, aí sim, levanta e vai ter
conseqüentemente também obras-primas e obras excepcionais,
naturalmente. Agora a gente precisa ter uma Cinematografia.
Nenhuma cinematografia no mundo é feita de
filmes só de exceção, obras-primas exclusivamente.
Eu acho que isso... Precisa manter as Leis de Incentivo Fiscal,
que estão a perigo por causa da Reforma Tributária,
precisa que a gente faça a reforma da televisão,
que os canais a cabo participem das nossas produções,
que as maiores emissoras participem como produtoras também,
ou co-produtoras, se associem ao Cinema Brasileiro, não
fique só a Globo fazendo, só quando é
do seu interesse, um ou outro filme. Aí sim a gente
pode partir e ter realmente uma Indústria Cinematográfica.
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