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| "O
Cinema cria imediatamente uma direção
para a vista, que é um sentido eminentemente
abstracionista, e uma fantasia para a imaginação".
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Vinícius
de Moraes |
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Zoom |
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De
volta a Lawrence...
* LG de Miranda Leão
Lady Chatterley,
de 2006, sexto filme de Pascale Ferran (1960- ) e terceira
transposição da obra de David Herbert Lawrence
(1885-1930) para o ecrã, é inferior à
segunda de Just Jaeckin (1940- ), de 1981, com roteiro deste
e de Christopher Wicking, intitulada O Amante de Lady Chatterley,
e tão medíocre quanto à primeira versão
de Marc Allegret (1900-73), de 1955.
A diferença entre o filme sob comentário e o
de Allegret reside apenas na ousadia de imagens eróticas
e do banho dos amantes nus ao ar livre, signo da libertação
sexual da mulher numa sociedade repressora e hipócrita.
“Lady Chatterley’s Lover”, esclareça-se,
é o nome do romance proibido de Lawrence impresso sob
sigilo no estrangeiro, em 1928, e só publicado na Inglaterra
em 1960, depois do fracasso movido contra a obra por obscenidade...
Considerando-se a revolução sexual das últimas
décadas, veiculada em livros, revistas, TVs e filmes,
os textos do autor inglês são até mais
inocentes...
Sinopse: Obra & Versões
Sir Clifford Chatterley, herdeiro
de minas de carvão em Derbyshire e da herdade feudal
da família em Wragby Hall, está paralítico
e sofre de impotência sexual devido a ferimentos sofridos
durante a Grande Guerra. Sem vida ativa, torna-se recluso
escritor de histórias para revistas (atividade omitida
pelos três roteiros). Os elos afetivos entre ele e sua
jovem mulher Constance (Connie) caem no estranhamento.
O breve, insatisfatório
e único caso de Connie com um teatrólogo inglês
(também cortado nas três versões) acaba
levando-a a uma nova experiência erótica, agora
com Oliver Mellors, feio e rude guarda-caça a quem
ela vê tomando banho ao ar livre e com quem cria um
“rapport” conducente a um sexo sem amarras.
Neste “Lady Chatterley”
a descoberta da “infidelidade” é anódina,
enquanto na segunda versão, a melhor das três
a nosso ver, o marido dorme e de repente desperta de um pesadelo
ou introvisão e vai procurar Connie no quarto dela,
apenas para constatar-lhe a ausência.
Criado o conflito, embora Clifford
haja concordado em aceitar um herdeiro de sua mulher com outro
homem, ele mesmo se recusa a conceder-lhe o divórcio,
quando sabe do caso com Mellors, homem de classe social inferior.
As coisas se precipitam e Connie viaja para decidir seu futuro,
pois está grávida. Seguimos então para
um final ambíguo da dupla Pascale-Bohbot, bem menos
inteligente em relação ao desfecho de Wicking-Jaeckin
para o filme de 1981.
Lawrence, nem todos sabem, escreveu
três versões de “Lady Chatterley’s
Lover” e as passagens eróticas dos três
livros são descritas em termos coloquiais mediante
palavras tabus, mas nas três adaptações
para o cinema esse palavreado foi omitido em favor de cenas
ousadas, máxime nas dirigidas por Jaeckin, nas quais
se percebe até mesmo a sugestão sodômica,
logo cortada pela censura inglesa.
Direção fílmica
O bom cinema francês deve
estar desfalcado dos seus melhores, pois fica difícil
entender o fato de este “Lady Chatterley” ter
ganho em 2007 o César e mais cinco prêmios...
Falta de concorrentes à altura? Ajustes de bastidores
entre produtores e jurados? Talvez só merecessem prêmios
Marina Hands e a fotografia, embora Robert Fraisse tenha feito
melhor na segunda versão, 25 anos antes.
“Lady...” tem 148min,
ou seja, 2h e 28min e se arrasta tedioso, lento, repetitivo.
Algumas imagens excedem o tempo de permanência na tela,
outras passam demasiado rápidas. Como o ritmo cinematográfico
se faz entre a aceleração e o repouso, entre
a continuidade e o intervalo, é de lamentar não
termos entre nós mais cineastas da estirpe de Truffaut,
um dos poucos capazes de equacionar esse problema. 15 ou 20min
a menos, preservados naturalmente os elementos essenciais
do drama, tornariam o filme mais enxuto sem prejuízo
da narrativa.
Há no entanto pontos
positivos a destacar, como o desnudamento de Connie e sua
corrida em campo aberto, enquanto o barulho da trovoada precede
a chuva, bem assim a intimidade revelada por ela no leito
após o acme sexual.
A fotografia de Julien Hirsch
capta imagens poéticas da chuva, regatos, narcisos
e do longo trajeto entre a herdade e o espaço ocupado
pelo amante. Marina atua com segurança, desnuda-se
com espontaneidade até mesmo quando, numa cena difícil,
toca a genitália do amante. Hippolyte Girardot (muito
bom em “O Perfume de Ivone”, de Patrice Leconte)
não convence e Jean-Louis Coullo’ch (?), o amante
de expressão bovina, é um canastrão sem
potencial para revelar emoções.
Quem é Pascale Ferran
Cineasta -roteirista nascida
há 48 anos, Pascale foi educada em Paris e diplomada
pelo IDHEC, onde além das aulas regulares com mestres
da casa, ouviu conferências de diretores da hierarquia
de Truffaut, Godard, Malle, Resnais, e até de cineastas
estrangeiros especialmente convidados, como é de praxe
naquele instituto. Por tudo isso tem potencial para crescer
profissionalmente. Roteirista de nove filmes e até
atriz em episódios levados à TV, como “La
Nuit des Césars” (2007) e “Une Pure Coincidence”
(2002), Pascale dirigiu até agora seis longas: “Lady
Chatterley” (2006), “L’Âge des Possibles”
(1995), “Petits Arrangements avec les Morts” (1994),
“Le Baiser” (1990), “Um Diner avec M. Boy
et la Femme qui Aime Jesus” (1989) e ”Souvenir
de Juan-Les-Pins” (1983).
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* LG de Miranda Leão
Uma Chamada Perdida´ (One
Missed Call), de 2008, dirigido pelo francês Eric Valette
(1967 - ), pode ser considerado desde logo um dos piores entretenimentos
cinematográficos do ano, forte candidato à ´Framboesa
de Ouro´...
Filmes
baseados em roteiros, novelas e contos japoneses caíram
no goto de produtores americanos há algum tempo já.
A maioria deles, no gênero horror, feitos em co-produção
com outros países (Austrália, Alemanha, França),
tem deixado muito a desejar pela sua mediocridade intrínseca
e/ou incompetência técnica, alguns chegam a constituir
a borra do cinema. Juntaram-se agora a “Alcon Entertainment”
e a “Kadorakana Pictures” para apresentar ao público
pagante esta bobagem sem limites, quando há tantos
roteiros de bom nível aguardando quem ajude a financiar
sua transposição para a tela...
Por
qual motivo escrever um artigo sobre “Uma Chamada Perdida”,
perguntou-nos um cinéfilo à saída do
cinema. Não fora a atenção para com os
leitores, teríamos fugido do padrão deste suplemento
e destacado a elogiada 3ª versão de “Lady
Chatterley”, de Patrice Ferran, estranhamente lançado
no North Shopping. Em verdade, não imaginávamos
“One Missed Call” como um filme abaixo da crítica.
Sinopse
A
implausibilidade não é o maior defeito dessa
fantasmagoria levada ao ecrã, tampouco o plano de conteúdo
ou o de expressão e, sim, o desprezo pela inteligência
do espectador, como se a platéia fosse composta de
debilóides. O roteiro de Andrew Klavan (?), baseado
em romance japonês de Yasushi Akimoto(?), envolve todos
quantos, marcados para morrer, recebem mensagens aterrorizantes
nos seus telefones celulares, ouvindo-se neles uma gravação
do momento de suas mortes próximas. Ao longo do caminho,
personagens vêem figuras vindas da noite espectral,
com estranhas máscaras brancas, quebradiças,
insólita antevisão do horror.
Um
investigador de polícia (Edward Burns) meio “blasé”
e de fala mansa, entra em cena para descobrir o porquê
dos crimes anunciados e quem anda por trás deles. Há
mortes de todo tipo, sustos e choques sonoros inesperados
e barulhentos. A narrativa corre assim até o final
de certa forma imprevisto deste pastiche do cinema fantástico,
no qual se supõe a imortalidade de certos personagens
em determinadas condições e aceitamos os monstros,
fantasmas, lobisomens, vampiros e mortos-vivos. Daí
os exemplos clássicos de Dráculas ressuscitados
ou dos zumbis, como no modelar “A Morta-Viva”
(I Walked with a Zombie), de Jacques Tourneur (1943).
Direção
fílmica
Pelo
visto, Valette (v.box) dirige o filme por trás das
telas dos computadores, valendo-se de todos os recursos digitais
a seu dispor. Não sabemos quanto tempo tirou para orientar
os atores ou rever o trabalho dos editores na sala de cortes.
Isso porque não revela traço algum de inventividade
na narrativa clássica... Só se for o belo e
ominoso gato malhado visto no início, próximo
ao lago onde se dará a primeira tragédia.
O
contracampo oculto e o contraluz são recursos técnicos
incapazes de disfarçar o vazio. Valette ainda precisa
aprofundar conhecimentos e ser mais exigente com os roteiros
chegados às suas mãos e não deixar o
operador da “steadicam” (Chris Jones) capengar.
Foto,
elenco, música
A
fotografia em cores de Glen MacPherson (ASC) segue padrões
rotineiros e se vale dos efeitos especiais produzidos pela
manipulação de imagens armazenadas num computador
de forma digital binária. Esses efeitos por si sós
não fazem um filme. O elenco tem um bom ator, Edward
Burns, mal aproveitado (vejam-se “O Mistério
de River King”, de 2005, e “O Resgate do Soldado
Ryan”, de Steven Spielberg, de 1998).
Burns
também dirigiu uma comédia dramática
inteligente, “Os Irmãos McMullen” (1995).
Shannya Sossamon, sempre assustada por fantasmas e monstros
disformes, integra-se à personagem. Ray Wise (de “Boa
Noite, Boa Sorte”, de George Clooney, de 2006) tem poucas
chances de mostrar sua afinidade com o papel. Os demais coadjuvantes,
com Ana Claúdia Talancon à frente, são
inexpressivos. Reinhold Heil e Johnny Klimex compõem
a trilha.
Sobre
Eric Valette
Natural
de Toulouse, onde nasceu há 41 anos, Valette é
um cineasta pouco conhecido do público brasileiro.
Para alguns críticos, ele esconde seu talento, para
outros ele ainda não desabrochou como cineasta. Pelo
sim pelo não, é um realizador (e também
roteirista) em processo de amadurecimento. Começou
dirigindo episódios de documentários para a
TV, não só para a França mas também
para os EUA e Alemanha. Chegou um tanto apressado para o longa
metragem, iniciando-se com “Samedi, Dimanche et Aussi
Lundi” (1999). Seguiram-se-lhe “Il Est Difficile
de Tuer Quelqu’n Même” (2000) e “Degustation”
(2002). “Uma Chamada Perdida” foi seu grande tropeço.
No momento, cuida de “Clock Tower” (em pré-produção)
e “Hybrid” (em processo de filmagem). Valette
também é autor de roteiros interessantes, um
dos quais, “Chamber nº. 13”, fez jus a vários
prêmios concedidos pela TV francesa.
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* LG de Miranda Leão
´Rolling Stones Shine
a Light´ (2007), dirigido por Martin Scorsese (1942-
), é um espetáculo à parte, mesmo para
quem não aprecia o quarteto inglês, ao combinar
a magia de um show com a sensibilidade das lentes de um dos
melhores e mais inteligentes cineastas da atualidade. Assistir
a este documentário é ter uma visão abrangente
de tudo quanto fazem os Stones no palco, pois as imagens-rosto,
os planos aproximados e os de detalhe mostram tudo quanto
os espectadores de um ´live show´ não vêem.
O
filme de Scorsese abriu o prestigiado Festival Internacional
de Berlim (a Berlinale) de 2007, ocasião na qual os
integrantes da longeva banda (Mick Jagger, Keith Richards,
Charlie Watts e Ron Wood) foram aplaudidos de pé. Tem
sido assim, aliás, em toda parte, não importa
onde o quarteto se apresente. Scorsese impressionou-se há
tempos com o fenômeno Rolling Stones e decidiu filmar
duas apresentações deles no Beacon Theater de
Nova Iorque em 29 out e 01 nov de 2006. Nos primeiros dez
minutos, somos brindados com a presença dele por trás
das câmaras para a escolha das luzes, localização
e movimentação das câmaras, gruas, “steadicams”
e troca de idéias com assistentes, e para prestigiar
o comparecimento do ex-presidente Bill Clinton, de quem ouvimos
saudação aos Stones.
Próximo
ao fecho, vemos Scorsese ainda atento e atuante. A lamentar,
mais uma vez, o barulho ensurdecedor do sistema de som dos
cinemas do Iguatemi, acentuado pelas vozes e guitarras e pela
platéia delirante.
Direção
fílmica
A
presença de um Martin Scorsese na “mise-en-scène”
é sempre certeza de um bom filme e, muitas vezes, de
obras-mestras (v.box). Sua atuação durante as
reuniões com as equipes na pré-produção
(escolha de técnicos, equipamento pesado, câmaras
de mão e lentes especiais) é sua marca pessoal
e muito contribui para o êxito do produto final.
Durante
a pós-produção, fase mais ingrata, o
departamento de edição e a sala de cortes têm
atenção redobrada de Scorsese, sempre preocupado
com o ritmo e a minutagem -- o tempo de permanência
de cada imagem na tela. Tarefa hercúlea, mesmo em se
tratando da “simples” filmagem de um show ao vivo.
Como
um dos produtores, Scorsese também escolheu a dedo
os financiadores do empreendimento, com Victoria Pearman à
frente. Nome respeitável no establishment hollywoodiano,
mesmo sendo nova-iorquino, Scorsese não teve dificuldades
em encontrar produtores confiantes no projeto e no seu timoneiro.
O movimento da objetiva a partir da noite iluminada de Manhattan
para, num longo e magistral recuo aéreo, mostrar-nos
a beleza da ilha vista de longe é um “gran finale”
digno do mestre
Merece
encômios o trabalho exaustivo do “cinematographer”
Robert Richardson (ASC) e o de Patrick Woodroffe, este na
iluminação do palco e pela sua competência
em atenuar o calor emanado de luzes ofuscantes de alta potência.
A
inclusão de entrevistas dos Stones em p&b, quando
jovens e menos feios (e já se vão lá
uns 45 anos) foi um achado natural de Scorsese para contrastar
dois tempos na ascensão deles à maturidade,
e para eles mesmos uma conscientização do curso
impiedoso do tempo, verdadeiro esmeril de nossa existência
fugaz: num abrir e fechar d’olhos já estamos
velhos...
Sobre
Martin Scorsese
Descendente
de imigrantes italianos, Scorsese nasceu há 66 anos
em Queens, Nova Iorque. Garoto franzino e asmático,
pensou primeiro em entrar para um convento, mas as dúvidas
da pós-adolescência tornaram-no um cético.
Foi quando se voltou para sua paixão de infância,
a 7ª Arte, e decidiu fazer um curso completo de cinema
na “New York University”, onde realizou curtas
e médias-metragens como parte do seu aprendizado (1963-67),
no qual se incluíam teoria, técnica, visão
e revisão de clássicos de ontem e de hoje. “Who’s
That Knocking at My Door” (1968) foi seu primeiro longa,
seguindo-se-lhe “Sexy e Marginal” (1972) com ousadas
cenas de nudez, “Caminhos Perigosos” (1973) e
“Alice Não Mora Mais Aqui” (1974). “Taxi
Driver” (1976) trouxe-lhe a consagração
com a Palma de Ouro em Cannes, firmando-se daí em diante
como um dos melhores profissionais da arte fílmica.
Logo vieram, entre outros, “Touro Indomável”
(1980), “Depois das Horas” (inteligente exercício
sobre acasos desfavoráveis na noite nova-iorquina)
(1985), o polêmico “A Última Tentação
de Cristo” (1988), “Cabo do Medo” (1991),
“Cassino” (1995) e “O Aviador” (2005).
Ganhou o Oscar com “Os Infiltrados” (2006), inspirado
em roteiro de filme chinês, mas com resultado superior. |
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Atentado
frustro
*
LG de Miranda Leão
Primeiro
longa de Peter Travis, Ponto-de-Vista (Vantage
Point, 2008) é mais um ´thriller´ político
sobre um complô para assassinar um Chefe de Estado,
no caso o Presidente Ashton (EUA), desta feita durante cerimônia
pública em Salamanca, na Espanha, quando se comemora
uma etapa na busca de entendimento entre americanos e árabes.
Não
é estranho ao cinema, sabem-no os cinéfilos,
o velho tema da tentativa de eliminar, por esse ou aquele
motivo, um primeiro-ministro usurpador, um ditador sanguinário,
um líder político, um presidente determinado
a neutralizar o poder do complexo industrial-militar, um
presidente alvo de um psicopata, novamente o Führer,
e um general-torturador. Alguns títulos (excluído
naturalmente o falso documentário ´A Morte
de George Bush´) bastam para avivar a memória
dos aficionados em cinema: ´A Fortaleza do Silêncio´
(La Citadelle du Silence), de Marcel L´Herbier (1937),
´Aconteceu a 20 de Julho ´(Es Gesach am 20 Juli),
de G.W. Pabst (1955), ´O Assassinato de Trotsky´
(The Assassination of Trotsky), de Joseph Losey (1972),
´Ação Executiva´ (Executive Action),
de David Miller (1973), ´Na Linha de Fogo´ (In
the Line of Fire), de Wolfgang Petersen (1993), ´Operação
Valquíria´ (Stauffenberg), de Jo Baier (2002),
e ´O Tango e o Assassino´ (The Assassination
Tango), de Robert Duvall (2002). Todos, aliás, superiores
a este ´Ponto-de-Vista´.
Sinopse
Assim,
não causa espécie a decisão de Travis
de filmar um atentado para liquidar o primeiro mandatário
americano interpretado por William Hurt. O roteiro não
é desprovido de interesse, há momentos de
suspense e surpresa (o agente inimigo infiltrado) capazes
de envolver o espectador, mas o resultado é apenas
regular. As ações se passam na praça
central de Salamanca, na qual milhares de pessoas ecoam
protestos e se vêem jornalistas em suas telas de computadores
fazendo a transmissão do trajeto do automóvel
presidencial, enquanto se lhe aguarda a chegada para um
pronunciamento. Não se sabe em qual dos carros está
o presidente, tampouco se há algum sósia para
substituí-lo a distância. Vê-se toda
a proteção possível por parte do serviço
secreto, mas logo se ouvem disparos e uma explosão
ensurdecedora. O filme vai começar...
Direção
Fílmica
Travis
conduz sem brilho o ritmo da narrativa, apesar de auxiliado
por quatro diretores assistentes. Mas as dificuldades de
Peter Caraciuti para operar a steadicam nesse ´continuum´
de imagens-movimento, em face da multidão incontrolável
ao ar livre, mesmo descontados os milhares de extras criados
por computadores e vistos em planos de grande conjunto (PGC),
obrigaram a equipe a usar câmaras de mão, panorâmicas
ultra-rápidas, cortes em excesso.
Várias
vezes se interrompe a ordem dos acontecimentos (isso não
constitui novidade alguma) com recuos e avanços no
tempo indicados no mostrador digital, retrocedendo-se depois
uns vinte minutos para o plano-ponto-de-vista (PPV) do agente
Barnes (Dennis Quaid), guarda-costas de confiança
do presidente.
Daí
aos PPV de outros personagens, cada plano somando algo mais
às imagens já mostradas, como no caso da menina
sozinha em meio ao tráfego intenso das avenidas e
ruas, vendo-se a mãe a gritar desesperada temendo
o pior, enquanto o impacto da explosão vista e ouvida
várias vezes contribui para o realismo cinematográfico
de imagens caóticas.
Foto, elenco, música
Amir
Mokri (BSC) responde pela direção fotográfica
e faz milagres com auxílio de computadores e a movimentação
contínua no espaço a ser filmado. Dennis Quaid
e Mathew Fox atuam bem como agentes secretos, exigindo-se
mais do primeiro, enquanto marca presença William
Hurt, revelado em filmes como ´Corpos Ardentes´
(Body Heat), de Lawrence Kasdan (1998) e ´O Anel da
Corrupção´ (The Big Brass Ring), de
George Hickenlooper (1998), baseado em roteiro deixado por
Orson Welles.
Sigourney
Weaver aparece discreta em papel pouco consentâneo
com sua hierarquia, enquanto Forrest Whitaker semelha um
turista distraído mais interessado em captar instantâneos.
Os demais coadjuvantes, entre terroristas e cúmplices,
não comprometem.
Quem é Peter
Travis
Nascido
em Manchester, Inglaterra, há 40 anos, Travis pertence
à geração dos novos diretores britânicos,
não necessariamente jovens, os quais se iniciaram
pela TV. Atendendo a sugestões úteis de Alan
Clarke e Costa-Gravas, Travis fez pós-graduação
em cinema. Ao terminar, adquiriu por 12 mil libras os direitos
de filmar ´Faith´ para lançá-lo
no Festival de TV em Londres (1997) e abrir caminho para
a projeção de ´The Bill´, ´Cold
Feet´ e ´The Jury´ (neste teve a idéia
dos vários pontos-de-vista dos jurados no julgamento
de um réu). Em 2003, Philip Greengrass, diretor de
´Domingo Sangrento´ e ´Vôo United
93´, remeteu a Travis para filmagem o ´script´
de ´Omagh Bombing´, escrito por ele em parceria
com Guy Hibbert. O canal 4/R TV exibiu-o no Festival de
Toronto em 2004 e Travis ganhou o ´Discovery Award´.
Em 2005 conquistou o Prêmio da Academia Britânica
de TV e também o de Melhor Diretor para o Prêmio
de Cinema da TV Holandesa. ´Ponto-de-Vista´,
seu primeiro longa, foi lançado nos EUA em fevereiro
p.passado com boa bilheteria. No momento, Travis trabalha
na pré-produção de ´Endgame
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Mágicas...
e o cinema?
* LG de Miranda
Leão
Co-produção
Austrália-Inglaterra, ´Atos que Desafiam a Morte´
(Death Defying Acts), de 2007, dirigido pela veterana e talentosa
Gillian Armstrong, decepciona bastante ao fazer um ´mix´
de personagens reais e imaginários, com apoio em roteiro
a quatro mãos e sete produtores sempre prontos a meter
o bedelho onde não devem.
SINOPSE
Como
se sabe, não é o primeiro filme sobre o mágico
Houdini. Suas incríveis escapadas, depois de acorrentado
ou algemado, imerso em tanque d’água lacrado,
etc., já foram levadas à tela no cinema mudo
e, no sonoro, pelo medíocre George Marshall em 1983,
com Tony Curtis e Janet Leigh nos papéis-chave. Nessa
versão, Houdini acaba morrendo ao tentar livrar-se
das correntes de um dos seus truques mais arriscados. Nesta
de agora deixamos com o leitor o “achado” do final...
Tony Grisoni (?) e Brian Ward (?), roteiristas do filme, inventaram
uma história de amor com Houdini apaixonado por uma
balzaqueana, mãe de filha desengonçada, ambas
lutando pela sobrevivência. Timothy Spall, ator britânico
mal aproveitado (lembra o velho Hitch dos anos 30), é
quem administra os espetáculos e tem a chave do cofre.
Lá pelas tantas quer subornar a mulher com muito dinheiro
e fazê-la esquecer o mágico. Quanto a Houdini,
é perturbado pela morte da mãe (inserção
do conflito edipiano?) e propõe alto prêmio em
espécie para quem adivinhar o impossível: as
derradeiras palavras pronunciadas por ela.
Harry
Houdini, pseudônimo de Ehrich Weiss (1874-1926), imigrante
iugoslavo, filho de rabino, realmente impressionava o público
com suas mágicas e truques de bom ilusionista. Quando
criança, fora trapezista. Casou-se em 1894 e fez da
mulher sua assistente, atribuindo seu sucesso à força
física e ao fato de ter pernas arqueadas. Numa de suas
exibições, reproduzida pelo filme, deixa-se
suspender de cabeça para baixo, a 23 metros acima do
solo para depois livrar-se da camisa-de-força. O filme
omite informação divulgada à época,
segundo a qual ele e a mulher firmaram um compromisso: quem
morrer primeiro virá comunicar-se com quem ficou para
ver se existe mesmo vida após a morte. Houdini morreu
antes, mas jamais apareceu para sua cara-metade...
DIREÇÃO
FÍLMICA
Gillian
Armstrong estava num dia de pouca inspiração
ou não teve condições de criar algo melhor
em termos de cinema. O roteiro é de um simplismo atroz,
mas aqui e ali Gillian demonstra intimidade com o metiê,
como na minisseqüência dos vários estilos
de dança de salão entre os dois apaixonados.
Os beijos entre os amantes demoram demais, como se para preencher
o vazio de idéias. Esperávamos mais de Gillian,
de sua longa experiência. Faltou-lhe captar a emoção
do instante e controlar melhor o tempo de permanência
de certas imagens na tela. O filme não é mau,
mas deixa muito a desejar.
FOTO,
ELENCO, MÚSICA
Haris
Zambarioukos (BSC) sai-se bem na recriação de
um clima dos anos 20, tanto nos exteriores como no jogo de
sombras no cemitério onde “vivem” mãe
e filha. Catherine Zeta-Jones, ainda bonita, já mostra
em seu rosto sinais da passagem inexorável do tempo
assassino, apesar dos recursos de maquiagem. Guy Pearce, ´protégé´
de alguns produtores, faz Houdini, mas até hoje não
convenceu. Seu tipo físico nada tem a ver com as fotos
de Houdini publicadas à época. Timothy Spall
(recorde-se “O Céu que nos Protege”, de
Bernardo Bertolucci, e seu apavorante papel de carrasco em
“O Lavador de Almas, de Adrian Shergolg) salva-se do
naufrágio. Os coadjuvantes maiores e menores não
impressionam. A trilha musical só se faz sentir nos
momentos das danças a dois.
SOBRE
GILLIAN ARMSTRONG
Nascida
há 58 anos, em Melbourne, Austrália, e treinada
de início em teatro, Gillian iniciou-se no cinema fazendo
curtas. Mudou-se para Sidney e em 1973 cursou escola de TV
e cinema. Foi garçonete em restaurante de primeira
linha para poder custear seus estudos. Com o êxito de
três curtas, entrou na indústria como assistente
de direção. Ganhou prêmios em 1976 por
um “featurette” e foi aclamada pelo seu primeiro
longa, “My Brilliant Career”. Alternou seu trabalho
entre a Austrália e os EUA, países nos quais
realizou alguns filmes interessantes como “Bob Dylan
in Concert” (1986), “Mudança de Rumo”
(Fires Within, 1991), “Os Últimos Dias em que
Fomos Felizes” (1993), “Adoráveis Mulheres”
(1995), “Oscar & Lucinda” (1997) e “Uma
Paixão sem Fronteiras” (2001). Coube-lhe projetar
nos EUA a australiana Judy Davis. |
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